domingo, janeiro 31, 2010

Da desfaçatez parasitante

O facto de serem invariavelmente tipos apinhados em blogues colectivos quem mais proclama a soberana excelência do individualismo diz tudo sobre o que significa esse "individualismo".

Não obstante, dá-me imenso gozo ver resmas de fedelhos de popa, cuja única finalidade na existência é fazer conhecimentos, arranjar contactos e cunhar amiguices, a clamarem, em tom solene e lacrimijante, pelo império do mérito e da probidade. Autênticas putas de vão-de-escada a bradarem pela moral e bons costumes!

sábado, janeiro 30, 2010

Iahvé visto por Homero


«Na gruta habitava um gigantão, que vivia solitário, a apascentar o seu rebanho. Não tinha relações com os seus vizinhos; morava só e não respeitava nenhuma regra. Era um portento colossal, em nada semelhante aos homens que comem pão.»

- in Odisseia, Rap IX

Afinal, o Mono era Poli. Femo.

Do Macaco de Sótão ao Macaco de Laboratório


Lendo isto -e nem é preciso ser com muita atenção - percebemos facilmente o que separa o reverendo Richard Dawkins do reverendo Pat Robertson: um espelho.

Ou seja, o fetichismo científico, no essencial, não se distingue do fetichismo religioso. De facto, apenas compete com ele... no acessório.

Fatalmente, a treta evangélica haveria de redundar no evangelismo da treta. Uma peçonha nunca vem só. Na melhor das hipótese (que, neste caso, coincide com a pior) Dawkins é só o upgrade de Robertson, o Robertson 2.0, ou, para usar uma linguagem ainda mais querida ao macaquinho: a "evolução" do Robertson. Ora, a urgência primeira da nova versão é declarar aos quatro ventos e brisas associadas, tanto quanto a obsolescência, a inutilidade da versão anterior. Enfim, coisas do pensamento ortopédico: uma vez na cadeira-de-rodas da ciência, o aleijadinho mental, com a arrogância própria dos novos-ricos, atira fora o deus-muleta. E trata de considerar, com a estupidez gémea siamesa da arrogância, que estar ainda mais (toxico)dependente é estar mais evoluído.
Pelo que, bem vistas as coisas, o upgrade só não é um downgrade porque o nada não tem degraus. Impossível determinar escalas na nulidade. O que disto tudo resulta, deixo ao critério e à inteligência (ou penúria dela) do leitor.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

O Triunfo do postiço




Acontece que não sou democrático. Não gosto de democracias. Burguesas, populares, representativas, representadeiras, liberais, chamem-lhe o que quiserem: repugnam-me. Mas não as deprecio porque, em contrapartida, aprecie tiranias ou despotismos descabelados. Desprezo-as, precisamente porque desprezo despotismos exacerbados e, de todos eles, não há nenhum mais vil, absolutista e opressor do que o da mentira. E da sua primogénita mimada: a mediocridade.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Traídos pelo défice (ou pelo Castelo do Queijo)

Visto que hoje é 28, ontem foi dia 27 (descobri há bocadinho, dia de Santo Holocausto)... e, todavia, pasmai ó leitores, no Blasfémias, acabo de comprovar com a plenitude destes que a terra só não há-de comer porque o fogo se lhe antecipará, nem a Helena Matos, nem o (ó tempero, ó molhos!) inefável CAA se dignaram acender uma velinha que fosse. Quer dizer, nem postal, nem postala, nem postalinho: um deserto de lágrimas! Uma secura trans-saariana digna dum Paris-Timbuktu! Que pode significar um megaprodígio destes? Que poderemos esperar ou ante-visionar na sequência de tamanha despiedade? Que audácia inaudita adentanharão a seguir: convidar-me para escrever no Blasfémias?


Abaixo de cão

Os poetas - os autênticos e, por isso mesmo, raros - são tratados com menos consideração que os cães. E não me refiro aos cãezinhos da burguesia que avistamos, de pelo escovado e barriga farta, a passearem os respectivos serviçais por esses trotadeiros de bairros coquetes. Não, refiro-me a rafeiros vadios mesmo, daqueles famélicos e remelosos, abandonados à sua sorte e em espera para o desenlace final no asfalto. É que estes, ao menos, depois de mortos, são abandonados pelos parasitas. Ao contrário dos poetas: depois de mortos é que os atraem. Em verdadeira chusma.

Lembra-me um dito que havia na tropa (no tempo em que havia tropa), que servia de slogan na recepção ao instruendo:
"Estás dois abaixo de cão e três acima de polícia".
Se fosse hoje, por mim, remodelava-o:
"Estás dois abaixo de cão e três acima de polícia. O que significa que se não és poeta, pareces."

quarta-feira, janeiro 27, 2010

Deveras ou devaras

Para que houvesse segredo de justiça, convinha, em primeira instância, que houvesse justiça. Não havendo justiça, é mais que lógico - é fatal - que não haja segredo de justiça. O que há, em compensação, é todo um segredo de injustiças, ou, mais exactamente, todo um rol de injustiças perpetradas no maior sigilo - o sigilo típico das seitas, das lojecas, das capelinhas e das amigalhaçarias (ou estrebarias sofisticadas).
Da mesma forma, para que houvesse justiça no país era essencial, antes do mais, que existisse, na realidade, um país. Ora, é bem patente que não existe. O que abunda é a desagregação, metódica, obsessiva e sistemática, dum país. O que campeia e reverdeja é uma multiplicação desenfreada de egos, ruídos, micróbios descomunais e aparelhos digestivos. Com a agravante de toda esta mixórdia enxamear em regime de absoluto despotismo, durante o dia, e de tribalismo vermicular, durante a noite.
Assim, não havendo país onde guardar a justiça, falta necessariamente esta e rarefaz-se, por inerência, o segredo nesta. Não havendo recipiente onde guardar a água potável, derrama-se o precioso líquido no chão imundo, onde, em vez de matar a sede das gentes, se converte em lama e atoleiro para o humano passante, tanto quanto em parque de recreio para o suíno residente. Exaspera-se naturalmente um onde goza bestialmente o outro.
Mas porque desaparece o país? Tal qual a função faz o órgão, faz a gente o país. Em faltando aquela, mirra este. Sumindo-se os homens, devém estéril a justiça. Ora, ao ritmo com que isto marcha, o caso é que, no balanço actual demográfico, entre bácoros e humanos, não patinam apenas estes em franca minoria: já estiveram mais longe da extinção.

No país das Papoilas Saltitantes


Alguém terá -alegadamente! - pago aos jogadores do Leixões para "travarem" o Benfas. (Não travaram: perderam por 5 e acabaram o jogo reduzidos a 9). Felizmente, ninguém precisou de pagar ao árbitro da partida, nem aos trafulhas da Liga ou da polícia judicida: trabalham todos por puro amor à camisola.

Ai, ai: agora é que eu lhes fui mesmo à vaca sagrada!

terça-feira, janeiro 26, 2010

Pessoa corrigido




Pois grande será a poesia, a bondade e as danças...
- pelo menos nos breves intervalos das matanças.
Grande o mar, o sol e a efemeridade dos prazeres;
mas o melhor do mundo, mesmo, são as mulheres.
-Sem elas é que, de todo, não haveria crianças.



sábado, janeiro 02, 2010

Silêncio


Sabem os entendidos das coisas do mar que um profundo silêncio antecede, por regra, formidável tempestade.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Feliz Natal




Passei só para deixar votos de Feliz Natal a todos os leitores.

terça-feira, novembro 24, 2009

Diz o Morto ao Nu (rep)

Aqui há dias o Sir Bob Ganzas tinha feito uma mirabolante descoberta: que Angola era governada por malfeitores. Pensei para com os meus botões: "só agora, Sir Bob? E só Angola?..."

Pois bem, ontem, ou anteontem, é indiferente, um grupo de malfeitores reunidos consumou um não menos fulgurante achado: que «850 milhões de pessoas passam fome». Só 850 milhões, ó Sarcoiso? E fome não será um conceito excessivo? Não será antes "dieta rigorosíssima"? Ou "anorexia involuntária"? Ou "jejum obrigatório"? Ou "disfunção alimentar"? Ou "défice nutritivo crónico"? Enfim, há todo um léxico alternativo e suavizante que um certo pudor recomenda e o politicamente correcto baptiza. No melhor dos mundos, atestado de géni0s, cientistas, sacerdotes, pantólogos resfolegantes e pentelhógrafos desenfreados, decretos e petições em barda, eleições e palramentos a cada esquina, quando já temos sondas a esquadrinhar Marte e o Pacheco Pereira embasbacado nelas, não pode decerto haver fome. Há, quando tanto, gente com vontade a mais e comida a menos. Ou excesso de gente aglomerada em locais com pouca comida. E fome, bem vistas as coisas, todos nós temos. Fome de justiça, por exemplo, ainda somos uns quantos; fome da sobremesa alheia, aí, é para cima de bilião e só em Portugal quase todos; fome de fama, fome de poder, fome de bola, fome da desgraça alheia até - como poderá o anão sobressair se não derribar todos os gigantes? Com a agravante de que, para o nanico, qualquer tipo normal já é um gigante. Em resumo, fomes há muitas. E nada prova que a simples fome de pasto para o bandulho seja a mais excruciante de todas elas. Ao menos, o tipo com fome de batatas ou arroz só tem fome: não padece angústias, ganâncias, ansiedades, stresses, vertigens consumistas, invejas sitiantes, bulimias ideológicas, complexos de culpa, crises de identidade, dispepsias profissionais, ditaduras sexuais, etc, etc. O tipo que apenas tem fome já fica feliz com um prato de lentilhas e meio pão saloio. Se acompanhado dum copito, então, entra em êxtase. Nós, em contrapartida, já não ficamos felizes com nada. Porque temos fome de tudo. E quanto mais comemos, quanto mais tragamos e devastamos com o nosso apetite descomunal, insaciável, com a nossa infinita gula avassaladora, mais fome temos, mais vazios e famintos nos sentimos. Um vazio muito mais atroz e desesperante que o vazio do estômago porque é o completo, e cada vez mais desmesurado, vazio da alma. Eles, fome, têm-na; nós, somo-la.
Aliás, é essa a nossa tão ufana e propalada superioridade... Que ostentamos e jactamos por toda a parte e anunciamos já, em delírio, aos alienígenas das galáxias... que exibimos sordidamente, à maneira daqueles mendigos monstros, proxenetas da sua própria aberração. A superioridade da nossa fome, enfim. A nossa fome maior que todas as fomes - mãe, ama, filha e amante de todas elas. Andamos de megafone a apregoar a nossa megafome para quem nos quiser ouvir (para quem tiver esse infortúnio, para quem tiver o azar de participar de tamanho flagelo). Essa insatisfação permanente, que quanto mais se mima, lustra e amamenta, mais frustrada fica, mais insatisfeita se torna. Essa insatisfação parteira de todas as facções e facturas. Esse deserto mental que nem o dilúvio fertiliza.
Nessa medida, os 850 milhões que passam fome são apenas uma tragédia. Atrozes mesmo são aqueles não sei quantos biliões que, empanturrados em vacuidade e ninharia, sepultados sob a própria gordura, vegetam e chafurdam na mais indigente, arenosa e movediça das inanições: a mental. E moral.
Quais pobres supliciados perpétuos que, à semelhança das Danaides no Hades, em vão tentam encher o tonel imenso dos seus apetites com os crivos completos da sua ganância.
O que nos transporta, em forma de epílogo, à ironia dos mitos: é que, mais que relatar-nos o passado, profetizam-nos o futuro.

domingo, novembro 22, 2009

Deus o guarde



Como ando sempre noutro planeta, só agora me apercebo dum, para mim, inesperado desenlace. Um de nós partiu para onde todos nós partiremos quando chegar a nossa hora. Ao Jorge Ferreira, um até sempre! À família enlutada, os meus sentidos pêsames e a uma amiga comum, a minha caríssima Margarida, um abraço de solidariedade neste momento de profunda tristeza.

"O Homem é o sonho de uma sombra".
-Píndaro

Questões...Tantas questões, tão pouco tempo (rep)


«Uma em cada cinco mulheres é agredida pelo marido».

Estes estudos (já com quatro anos, mas devem permanecer actualizados), hão-de desculpar-me os leitores mais sensíveis, parecem-me um bocado tendenciosos. Deviam ser mais abrangentes. Deviam esclarecer-nos, por exemplo, acerca das seguintes questões, também elas deveras interessantes:

Primeira questão: Um em quantos maridos é agredido pela respectiva? A tortura, especialmente psicológica, também conta?
Nota de rodapé (NR): Com a cambada de coninhas e totós que por aí prolifera não me admirava nada que os números atinjam cifras astronómicas. Acrescento que tão extravagante fenómeno não me suscita qualquer sentimento de pena ou revolta; em boa verdade, só se perdem as que caem no chão. Que outra coisa pode mesmo merecer um cabrão desses, senão cornos e um varapau por eles abaixo?... Anima-me, tão somente, uma certa curiosidade científica.
Por outro lado, dado o comportamento cada vez mais doméstico e sopeiro de grande parte dos produtos depilados da confeitaria urbana, é natural que, cada vez mais, façam as vezes da esposa no lar e, além da pré-lavagem dos pratos e pilotagem dos fogões, enfardem também pela medida grande. Donde se me afigura que o estudo é realmente preconceituoso: fala em "mulheres agredidas pelos maridos" e esquece-se dos gajos agredidos pelos maridos. Já não falando nos mariconços abertamente gays, ou as lésbicas-esposas, que também, eventualmente, levam porrada dos ditos cujos. São, quer-me cá parecer, esquecimentos grosseiros, atentatórios dos costumes, vesgos à modernidade, que em nada abonam da seriedade do estudo e, ainda menos, da cientificidade da investigadora.

Segunda questão: Um em quantos casais é agredido pelos mimosos filhos?
NR: Também não me escandaliza. Acho justíssimo. Quem semeia merece colher. Dado o nível de educação e empenho na mesma praticado por estes papás modernaços urbanos, nenhuma bizarria nos deverá apanhar de surpresa. Quando um tipo cabeludo, vestido de carrasco medieval, a invocar Satã, irrompe aos urros cabalísticos, de machado inexorável em riste, pelo quarto dos pais e consuma um massacre rápido, podemos ficar seguros que teve uma esmerada educação, nutrida pelos melhores perceptores que o mercado disponibiliza: a televisão, o cinema americano e o heavy-metal. Se for um pouco mais demorado no acto, acompanhado de arabescos e precedido de drogas entorpecentes nas vítimas, podemos presumir e adicionar algumas leituras esoistéricas. O Harry Potter, provavelmente.

Terceira questão: Um em quantos professores é agredido pelos jovens alunos?
NR: Outro caso de retribuição lógica. Verdadeiro restauro do método de Talião, é olho por olho, dente por dente. Tu cegas-me a mim e eu chego-te a roupa ao pêlo a ti. Mesmo assim, a vantagem pende ainda, claramente, para o lado do professor. É deplorável, mas é o nosso atraso congénito. Ainda estamos longe das performances trepidantes de países super-desenlvolvidos, verdadeiros paraísos terreais, como os Estados Unidos, onde o aluno, de M16 ou Kalachnicov em patilha de rajada, rega indiscriminadamente colegas, professores e funcionários. É, claro está, a apoteose do indivíduo em todo o seu esplendor. No fundo mais não cumpre que os quesitos instilados e desejáveis da competitividade campeã: trata de demover, o quanto antes, a concorrência, quer desbastando a actual, quer atrasando e rarefazendo a futura.
(Quanto ao número de alunos que é agredido por um sistema de educação absolutamente lobotomizante dispensa-se a pergunta: é um em cada um. Todos os que para lá entram. Na máquina dos chouriços.)

Quarta questão: Um em quantos contribuintes é agredido pela chusma de burrocratas que se banqueteiam com o erário público?
NR: Aí, para variar, temos um método cristalizado há séculos: "Paga e não bufa". Quer dizer, só bufa para lixar algum espertalhão que pretenda eximir-se ao pagamento. Fora isso, eis-nos em terreno absolutamente minado: ninguém sabe exactamente quantos contribuintes existem, quanto dinheiro pagam e, muito menos, que destino é dado a esse dinheiro. Top secret. Superiores razões e interesses de Estado. Além de que decorre, nestes últimos decénios, um singular concurso: entre o Estado que rouba os contribuintes e os contribuintes que roubam o Estado - ou melhor dizendo: os contribuintes que roubam os outros contribuintes através do Estado.

Quinta questão: Um em quantos eleitores é agredido pelos políticos eleitos?
NR: Espero bem que todos. Também aqui, estou com os políticos. Se um masoquista, em donaires voluptuosos, lhes entrega um cavalo-marinho para as mãos, é lógico que o gratifiquem pela oferta. Quanto mais não seja, por cortesia . O eleitor, de resto, é em tudo idêntico ao mariconço lava-loiças: elege uma puta para depósito dos seus idílios tansos de fidelidade. O diagnóstico, fatalmente, é o mesmo: merece cornos e cacetada por eles abaixo. Excepto nos casos em que os desenvolva retrácteis, como certos moluscos gastrópodes providos de concha, vulgo caracóis. Também acontece. E dificulta a pontaria.

Haveria muitas mais questões, mas eu ando sem tempo, sem grande paciência, e as eventuais respostas não ofereceriam qualquer mistério.
Por exemplo, "quantas mulheres, maridos, avós e crianças são agredidos e violentados pela televisão, que não faz senão debitar merda esterilizante 24 horas ao dia, por múltiplos canais e cloacas?..."

Dir-me-ão os liberais que há quem goste de comer merda, que é o mercado a funcionar. Pois, pá, só que não é por gosto: é mesmo por vício. Toxicodependência da mais saloia. Larguem a droga, pá! Essa merda mata.

Obscurantismo

Antes de falar propriamente da religião grega e respectivas consequências, atentemos brevemente na filosofia e de como, para eles, era coisa de "elite", absolutamente arredada da generalidade da plebe, como alguns peregrinos do nosso tempo, que gostam de se espelhar nos outros, estimam de proclamar.

Sócrates, segundo Platão, em pleno tribunal:
«Mas uma coisa vos peço, Atenienses, e insisto neste ponto: se me ouvirdes defender-me com as mesmas palavras que costumo usar, quer na praça pública, junto aos balcões dos mercadores, onde muitos de vós me tendes escutado, quer noutros lugares, não vos admireis nem protesteis por causa disto.»

(Platão, Apologia de Sócrates)

É que na altura ainda não havia televisão, nem cinema, nem jornais, nem esta gloriosa internet, nem, tão pouco, plebe, e eles, coitados, pagãos obscurantistas, sempre tinham que se entreter com qualquer coisa. Ah, e visto não ter sido ainda inventada a electricidade, viam-se condenados a viver na obscuridade.

PS: Já não falando em tipos como Diógenes que, como é bem sabido, davam aulas e papagueavam de cátedra na faculdade.

sábado, novembro 21, 2009

E Pluribus Unum


O Labaredas não pesca nada disto. Pudera, a Zazie, nos últimos bafos, cavou-lhe as minhocas todas. Mas a Zazie, coitada da miúda, também não. É que aquele, o Lança-Chamas, tem ferramenta mas não tem isco; esta, a Zazie (beijoca, miúda!), tem isco mas não tem cana, nem linha, nem anzol. Dupla desgraça, portanto. Resto eu para iluminar as massas: Ildefonso Caguinhas -Engenheiro, arquitecto, webmonstro e, agora também, profeta. Não chorem. Não vos abandonarei aos trevos da ingnorância. Pois então, otários, como agora se diz, é assim:
Nem os gregos tinham religião, nem os romanos, nem os indianos, nem os babilónicos, nem os judaicos. Nem os cristãos, tão pouco. Muito menos os muçulmanos, ou sequer os chinocas, esses grandes filhos da puta que andam a invadir tudo com lojas e a prejudicar o negócio dum grande amigo meu e compincha nas maratonas de putas. E a prova disto é simples. Entra pelos olhos adentro, e só mesmo um árbitro da Liga é que não atinge:
O Glorioso SLB só foi fundado em 1908. Antes disso, como é mais que comprovado, não existia religião: apenas superstições várias. Magias e vigarices. Histórias da carochinha, enfim.

Deus é o Glorioso e Jesus o seu treinador. Esta é a verdade. Uma raio me parta já aqui, se não é. Viram? Não partiu. Logo, QED. A verdadinha toda. Cristo não pode dizê-la a Pilatos porque, na altura, ainda não sabia. Quer dizer, até sabia, mas queria guardar segredo. E, além disso, estava muito ocupado a ser alvo de cuspidelas e outras chicotadas fisiológicas.

Mas está escrito que Jesus haveria de voltar para dar cabo das bestas do Sporting (cuspo) e do reinado do Dragão (cuspo,cuspo!). E por isso Deus é Luz. Estádio da Luz, percebem?

Amanhã volto para explicar a entomologia de "E Pluribus Unum". Agora tenho putas para visitar.
SLB! SLB! GLORIOSO, SLB!!



quinta-feira, novembro 19, 2009

A grande purga

«...Zeus não se assemelha aos antigos deuses indo-europeus do céu, como, por exemplo, o védico Dyaus. Não apenas não é o criador do Universo, como nem sequer pertence ao grupo de divindades gregas primordiais.»

- Mircea Eliade, "Zeus e a Religião Grega", in História das Ideias e Crenças Religiosas

Comecei a grande purga. Este Eliade quer enganar quem? Religião quê?!...

Não queimo livros porque é contra a minha ética. Mas este, três volumes repletos de fábulas e patranhas como aquela em epígrafe, dou-o a quem tiver a caridade de o receber.

quarta-feira, novembro 18, 2009

A Mãe do atrevimento



Dum chorrilho de pérolas de sapiência erudita que a minha amiga Zazie teve a amabilidade de depositar no penúltimo postal, tomei conhecimento de algumas novidades suculentas. Cito apenas as que me parecem mais instrutivas e auspiciosas:
a) Os Gregos Clássicos (para desconfundir com os Bizantinos) não tinham religião;
b) para compensar (magra compensação, convenhamos), apenas tinham filosofia, mas só as elites, porque a ralé era como a nossa, após 900 anos de catolicismo: refocilava, única e exclusivamente, em novelas de fancaria, idas à bruxa, super-heróis, totolotos, lotarias, astrologias, adivinhos e consultas de vísceras avícolas. Hoje em dia, a coisa até está mais reforçada com cinemas, radiografias, ecografias ou toques rectais no próprio connsultante, vampiros, alienígenas, psicopatas geniais, macumbas chiques, ciber-vudus, hip-hopes, jet-setes e metais diversos, nunca esquecendo o cristianismo ronaldo, mas isso só atesta da excelente qualidade da nossa religião. Ao contrário da daqueles supersticiosos ;
c) Platão e Aristóteles, oásis sumptuosos naquele deserto árido, irromperam como certos fungos mais ou menos venenosos: por geração espontânea:
d) Com o Livro de Job é que ninguém consegue avacalhar, porque esse belo episódio altamente moral em que Iahvé envia o seu acólito Satã para moer a paciência a um desgraçado está cheio de mensagens subliminares crocantes e elevados conceitos transcendentais.
Não nos alonguemos.
Como devem calcular, veredictos caturros desta estirpe não são rebatíveis. Concedem-se com um sorriso. Apenas acompanhado dumas breves notas de rodapé.

a) Se os gregos não tinham religião, problema ou vantagem deles. Se era apenas por não serem monoteístas -a Zazie apenas passa alvará a monos - então vai quase tudo de escantilhão pelo ralo da Zazie: gregos, Hindus, persas, egípcios, assírios, germanos, peles-vermelhas, e mesmo os esquimós, lá nos confins gelados, ou os aborígenes dos antípodas duvido que se salvem. Se, outrossim, era por não serem altamente racionais e conceptuais, mas fundadas em mitologias, bem, aí nem comento. Caso para perguntar: De tanto pregar aos ateístas cientoinos, a Zazie foi mordida por um deles?

b) não me custa imaginar a turba daquela época agarrada às novelas e fancarias do tempo (ainda não tinham inventado a moda). A tragédia, um pouco como a nossa ópera, era apenas reservada ao escol altamente erudito (leia-se a Academia e o Lyceu). Mentecaptos e engraçadotes de baixa extracção como Aristófanes entretinham a populaça. As Obras Púplicas, como hoje, estavam entregues a uns trolhas corruptos que erigiam e deslumbravam a plebe com mamarrachos. Jogos Olímpicos, Mistérios não-sei-da-quantas e peregrinações ao Oráculo de Delfos (a Fátima deles) completavam a restante alienação das massas. Como não tinham religião, não era o ópio: era apenas um haxixe de má qualidade. Ou vinho a martelo.

c) Que Platão e Aristóteles brotassem feitos cogumelos, já eu próprio suspeitava. Até porque Platão na brasa ou Aristóteles au champignons soa que é uma delícia. E devem saber ainda melhor. Se forem alucinogéneos, os champignons, tanto melhor. O Homero? Faz-se de conta que não existiu. Que não influiu coisa nenhuma. É só fábulas de fancaria, atesta-nos a Zazie. Como aquela anedota da Rap. XVI da Odisseia, onde balbucia "os homens não devem, segundo o direito divino, premeditar maldades uns contra os outros"; ou aqueloutra na Rapsódia XVII "Os deuses também andam, sob diferentes aspectos, como estrangeiros de terras longínquas, pelas cidades, para observar a violência e a virtude dos homens" (que imbecil, a chamar deuses a anjos); ou o próprio Z... (não posso completar a palavra, porque transporta a Zazie à epilepsia) logo na primeira Rapsódia: "Oh, que exprobração não fazem os homens aos deuses! Dizem que de nós procedem os males, quando só eles, por loucura própria e contra a vontade do destino, são os seus autores..."
Então mas os gajos não eram escravos absolutos do destino e completamente destituídos de Livre Arbítrio?! Este Homero é um conspirador contra a sebenta universitária, além dum mentor de imoralidades. Fez bem Platão, e acolita-o melhor ainda a Zazie, quando, respectivamente, o baniram da polis ultra-pasteurizada e o ignoraram, com olímpico desdém, de toda a religião, ética ou filosofia. Direito divino? Francamente, mas que patranha vem a ser essa!?... E aquele Sófocles, na Antígona, a inventar dramas de conflito fabuloso entre regras eternas e leis mundanas? Outro que tal. Limbo com ele!

d) Quanto a não ser possível avacalhar com o Livro de Job, não deve ser assim tão difícil. Pelo menos para quem consegue avacalhar com a Ilíada e a Odisseia com uma perna às costas e duas palas nas fontes. Refiro-me a mim próprio, naturalmente.

Termino com uma passagem de outro dos autores, além de Homero e de tantos outros, da Ética de Aristóteles:

«Muitos são os assombros do mundo, mas o homem supera-os a todos. (...) Com a sua astúcia chega a domar as feras agrestes das montanhas e subjuga o cavalo de longas crinas e o touro indómito dos montes.
Ele conhece a palavra, o pensamento alado, os costumes urbanos e sabe defender-se dos frios inóspitos, sob o sereno céu, e das fustigantes chuvas. Sagaz e destemido, enfrenta o futuro. Só não pode encontrar salvação contra o Hades, embora saiba curar males sem remédio.
Embora invente sábios e úteis expedientes para além de toda a esperança, caminha necessariamente para o mal ou para o bem. Quando ele respeita as leis da pátria e dos númenes, engrandece a cidade; mas torna-se a sua ruína quando a soberba o empurra para o mal. Não esteja a meu lado, não fale mais comigo quem actua de tal forma.»

- Sófocles, Antígona




terça-feira, novembro 17, 2009

O Que eu aqui escrevi em Junho de 2004

Eu já fui um daqueles optimistas que pensavam que pior que o Guterres não era possível. Pois não só era como foi. E logo ao virar da esquina..
Agora não me apanham noutra. Sei que a seguir ao Durão, poderá perfeitamente irromper um desqualificado ainda pior, um troca-tintas ainda mais descarado.
Por isso, e é mais que suficiente, não me surpreenderá nada que o Santana seja o próximo PM.
Mas quero deixar bem claro o seguinte: Quando tipos do jaez dum Durão Barroso conseguem ascender ao segundo mais alto cargo da nação, estamos conversados: Qualquer um pode (desde que não possua princípios, escrúpulos, ideias, ou vértebras, bem entendido). Se se tratasse de escolher um cidadão competente, um tipo sério, honrado, bem mais interessado em servir o país do que servir-se dele, isso, acredito, seria difícil. Requereria, no mínimo, mérito, inteligência, responsabilidade, cultura. E, sobretudo, empatia entre governantes e governados. Mas como é o contrário disso, como a lógica vai de patas pró ar, nada mais simples: peguem no Santana, na Ferreira Leite, no Portas, no Pacheco, peguem na pandilha partidária toda, esquerdas e direitas (a merda só varia na cor e teor gasoso), peguem até nos Delgados, Vascos - rotos e ratos-, ou qualquer outra prostituta de jornal, enfiem essa tralha invertebrada e viscosa toda num balde, um grande balde, um penico bem espaçoso (não se esqueçam que a porcaria é muita), agitem com energia, misturem bem a mixórdia, e tirem à sorte. Convoquem uma peixeira ou um trolha para extrair o feliz contemplado, sempre dá colorido à coisa, confere - senão solenidade - pelo menos pitoresco ao acto, e pronto, aí tendes. Seja quem for, é irrelevante e ficareis bem servidos. Cagar-se-á para vós, tanto quanto vós vos estareis cagando para ele. Incomoda-vos o vocabulário? Mas a substância não. Devia ser o contrário.
Em Portugal chegou-se a um estado de putrefacção tal, que o burburinho dos vermes já se confunde com a agitação das massas. Ora, as massas, poderão ser alarves, mas não são parvas. Já perceberam que tem mais conteúdo o futebol que a política. E tem. Tanto que é esta que imita aquele, e não o inverso.
De não ser governado, o país viciou-se no desgoverno. Vai à deriva. Entregue ao salve-se quem puder. A clamar por rebocadores, por balsas e bálsamos salva-vidas. A enviar SOS desesperados e apitos lancinantes ao nevoeiro. A invocar Nossa Senhora dos Aflitos e a Providência Divina. E, o que é pior que o resto, a tomar por faróis meros fogaréus de afundadores.
Cada qual agarra-se ao destroço que a vaga destribui e, uma vez montado nele, trata de demover a concorrência. Cada qual chafurda nas ondas o mais que pode, escoicinha, esbraceja, e convence-se que nada, que lá vai resistindo, o melhor que pode, opondo o proverbial instinto de cortiça ao chamamento abissal do fundo.
Governantes e governados execram-se mutuamente. Odeiam-se, sem trégua nem quartel. Não havendo resquício de empatia que os una, tiram desforço empaturrando-se numa antipatia recíproca e inoxidável. As eleições equivalem a ajustes de contas; as urnas a esquifes de facto. O povo sempre estimou, mais que arenas, cadafalsos. Assim, anda quatro anos a reunir provas, a recolher denúncias, a compilar testemunhos, para no fim ter o prazer de vê-los rastejar, aos bandalhos arguidos, uns em penitência, outros em sanha justiceira ou delíquio dengoso, mas todos de roda do patíbulo, vassalos da sua saliva, do seu voto, do seu escárnio e veredicto triunfante. Os eleitos, por seu turno, traumatizados por este martírio cíclico, garantido, nos intervalos dos sufrágios, nos interlúdios dos calvários, vingam-se e fazem pagar com juros a prerrogativa dos carrascos. E, com isso, lá vão juntando lenha para o seu próprio auto. Mais que um projecto comum, é, pois, um jogo, uma joint-desventure. Tudo está bem quando acaba mal. E para que o gáudio se maximize convém que o mal seja cada vez maior. Que exorbite e transvase sem parar. O prazer, a volúpia capital, não está em eleger, mas em deitar abaixo, em arrear, em arrastar pela lama e pelos cabelos, até à guilhotina apoteótica. Desta lógica retorcida, resulta um paradoxo mirabolante: um governo é tão mais divertido, entertainer, quanto pior for. Um governo péssimo, como o actual, na hora do acerto, é garante dum gozo superlativo. Não é por acaso que a multidão escolhe governos cada vez piores. Já Esopo referia o requinte.
Portanto, meus amigos, se não houver eleições, vai ser o Santana. E se houver, vai ser outro qualquer, no mínimo, tão recreativo quanto ele. Isto, pelo menos, eu sei.
Fartai-vos nele e fartai-vos dele. É o costume. Bom apetite! E bom proveito!...


Peço desculpa por esta interrupção, Aristóteles segue dentro de momentos.

Prever o futuro é difícil. Ao contrário da ausência dele, como acabei de demonstrar.
Quem esquece o passado, mata o futuro.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Século IV aC

«Realmente, o homem mau apenas obra pensando em si mesmo, e quanto pior se torna, mais aumenta em si este vício; e assim se lhe aponta o nunca fazer nada fora do seu exclusivo interesse. O homem de bem, pelo contrário, apenas obra para fazer o bem, e quanto mais honrado se torna, tanto mais se consagra exclusivamente a fazer o bem, chegando ao ponto de esquecer o seu próprio interesse em se tratando dum amigo.»

- Aristóteles, "Ética a Nicómaco" (Liv IX, Cap.VII)

"Ama o teu semelhante como a ti mesmo", dirá quem?