« - Ildefonso, meu velho, não sou de desejar a morte de ninguém, nem mesmo dos políticos abrilabundos! e até por muito abrilabundos que estejam, regista e nota bem! ( E sabes como isso pode feder a léguas, de assarapantar rebanhos!). Até porque seria estúpido: desejar-lhes uma coisa que eles têm garantida. Aliás, por império absoluto da única entidade genuinamente democrática deste mundo, pois a todos nos irmana e despacha com idêntica presteza e fatalidade. Também, que o país celebre os seus enterros e faça uma festa de arromba em volta das suas urnas, só me enche de regozijo: para ser perfeito só falta fazerem como os Bakongos, que transportam a urna em braços, à maneira de concerto rock por alturas de stage-diving (ou crowd surf, como se diz agora), por entre granda fanfarra e festim, num verdadeiro comício final, que termina - em apoteose - no cemitério, escavacando a urna à machadada, antes de descer à cova, para acautelar roubos futuros dos pilha-sepulturas em busca de madeira fácil. Isso é que era! E até constituiria, no vertente e recente caso, um tributo condigno à bela e exemplar descolonização que ajudou a burilar. Sim, agora que medito nisso, até os olhos se me humedecem com a justeza do avanço (que puggesso, Deus meu!): em vez de transportado, em turné pela urbe, por bestas quadrúpedes e irracionais, levado e sacudido em braços por semi-racionais bípedes e cantarolantes! Com pífaros e tambores, em troante algazarra, abrindo o cortejo, pois então e que maravilha!...
Não, Caguinhas, aos nossos abrilabundos, sejam eles de fedor esquerdista ou de pivete contra-esquerdista, mas todos igualmente traidores e estrangeiralhados até às profundezas da cloaca que neles faz as vezes de alma, eu, uma vez falecidos, não dedico nem desperdiço qualquer vitupério, praga ou ruído vocal menos digno dum homem (fará dum dragão adulto e esclarecido). Estão mortos, já pertencem a outro juízo que não o das modas, chusmas e opinorreias humanas. Já prestam contas a Quem de direito verdadeiro. Perfilo-me e nada mais. Em respeito não tanto ao morto como Àquele que o espera e àquela que o empandeira. Porque ambos também me esperam a mim. Faço uso daquilo que espero seja também dispensado para comigo: misericórdia. Ontem, a enterrar, foi um desgraçado. Tão nu e desvalido como nós todos. É preciso estar vivo para saber respeitar a Morte. Toda ela, até porque a dos outros é também a nossa. Já a vi passar demasiadas vezes - para amigos e inimigos na guerra -, para amigos, inimigos e familiares ao longo da vida. Já fui demasiadas vezes ao cemitério para saber que com ela não se brinca. Sobretudo aos julgamentos. Debalde tentar explicar isto a zombies.
Juro-te, pois, meu caro amigo, por tudo quanto é sagrado: aos púlhitos da nossa triste terra é em vida, de saúde, arroto e pesporra, que eu arremeço votos, combates ou confrontos. E se algum desses votos sinceros reponta sobre todos os restantes, que ainda são uns quantos, é que viajem... Que viajem mais! Que viajem muito!... Mas não de aeronave, ferrovia ou viatura rodoviária, que isso não preenche adequadamente o seu porfiado e compenetrado mérito. Uma viajem verdadeiramente ao nível deles, acredita, não é de barco nem de avião (ou sequer de tartaruga ou elefante): é de fenêtre!»
Bem, leitores, disse-me ele isto e eu fiquei a matutar:
"Mas que raio será uma fenêtre? Este gajo debita cada palavrão mais cabeludo!..."




