A muitos títulos, são significativos alguns paralelismos entre este "25 de Abril" falhado na Turquia e o 25 de Abril triunfante em Portugal de 74. A nossa entrada para a Nato (uma fatalidade geopolítica que redundou num cancro a médio prazo) começou a alimentar também um "estado paralelo" entre nós. Os militares que desataram a ir abichar ajudas de custo em peregrinações formativas ou adidáticas nos States começaram a regressar "virados do avesso", ou seja, insuflados de febres democratizantes, de ímpetos descolhonizadores e de angústias reformadoras sob tutoria internacional. O caso mais emblemático foi um tal de Humberto Delgado, agora promovido a placa de aeroporto. Ora, esta gente constituia um problema bicudo, porque , ao contrário das simpatias pelos soviéticos, votadas necessariamente à clandestinidade e devidamente vigiadas e reprimidas pela Pide/DGS, estas simpatias "democráticas" iam germinando dentro do próprio regime e, de certa forma, sem qualquer antídoto evidente. Até porque já vinham dos tempos de Salazar e sobremaneira do teatro pós-2ª Guerra Mundial. De tal modo que, por alturas do 25 de Abril, a maioria dos mais activos e até capazes oficiais por detrás do golpe são os chamados spinolistas. Aliás, o golpe do 25 de Abril, enquanto operação militar, é da autoria de dois spinolistas certificados: os majores Monge e Casanova Ferreira. E isto não é apenas declarado pelo próprio Spínola ("País sem Rumo", pp.101 ) : é igualmente um facto reconhecido até pelos seus competidores da esquerda radical ou comunista. Acabaram enrabecados precisamente porque o golpe era completamente destituído de lógica nacional e de apoio popular real: a verdade é que estavam, pura e simplesmente, a cometer um acto de traição, um atentado grosseiro contra os interesses portugueses e a sua própria história. Ora, as forças comunistóides e esquerdinolentas tinham sobre eles uma grande e clara vantagem: podiam reclamar a golpada como o culminar da sua longa luta contra o regime. Ou seja, fazia sentido que os comunistas derrubassem o regime, representavam o inimigo declarado, sempre tinham porfiado por isso; em contrapartida, era absurdo que gente dentro do próprio regime atirasse com a sua própria habitação abaixo. Assim, para os comunistóides, era um presente tão inesperado quanto caído dos céus. Tinham além disso uma base de apoio mínima (que não chegava a 10% da população, mas que, adicionada à organização implantada, consolidada e adestrada do único partido estruturado, era imensamente superior aos aluados da competição). O restante da população, fora as franjas da patobravice urbana (mais ou menos tecnopata e estrangeirada por tele-inoculação), antes de ter tempo para se aperceber da calamidade que lhe estava a cair em cima, preferiria sempre alinhar com uma "gesta heróica e gloriosa" de "luta antifaxixista" do que com uma mera manobra de traidores peregrinos e alucinados, em delegação de obscuras receitas alógenas. E foi nesse cenário altamente fértil que a propaganda lançou a sua torrentuosa e ininterrupta sementeira. Feito o ninho, o cuco comunista avançou e instalou a sua postura. A ironia do acontecimento: traidores a darem a golpada na nação, os inimigos desta a darem a golpada nos traidores. De resto, um golpe directamente desferido pelos inimigos estaria sempre condenado ao fracasso, por via de alarme social e internacional. Era necessária uma "barriga de aluguer".
Mas a verdade é que o golpe original era doutros (que não os comunas sovietizados) e tinha sido arquitectado e elaborado por outros. Para a generalidade dos efectivos das Forças Armadas envolvidos, a coisa mais não traduzia que um puro acto de indisciplina, canalhice e deserção perante o dever. Eram militares em negação da sua própria condição. E isso criava um problema psicológico de magna dimensão: havia que caiar o sepulcro não só perante o povo, como perante eles próprios. Não eram eles que estavam corrompidos, com a alma prostituída, a vaidade melindrada e o ânimo nauseabundo. Não, o regime é que estava podre e que clamava extirpação urgente. O que, por ironia das coisas, em parte até era verdade: na medida em que eles faziam parte do regime, eram eles, em bom rigor, os lídimos representantes maiores dessa putrefacção regimental. O tenebroso da história, assim, é que não foi exactamente o regime que caíu de podre: a parte mais podre do regime é que deu uma golpada no resto. Quer dizer, a parte mais podre do regime arrastou o país para o vórtice da sua corrupção, isto é, os traidores escancararam as portas ao inimigo. Àqueles que patrocinaram e instigaram os traidores não lhes interessava nem ocupava o "nosso bem". Bem pelo contrário, como se tem visto, ad nausea, por esse mundo e século adiante, interessava-lhes o "quanto pior, melhor": caotização, incêndio a esmo que justifique o "perpétuo bombeiro" mundial e toda a sua panóplia socorrista paga a preço de ouro.
No seu livro "País sem Rumo", a páginas 158, escreve o general António de Spínola:
« No dia 19 de Junho de 1974, reuniram-se, pelas 11 horas, numa sala da Messe de Oficiais da Base Aérea das Lajes, os Presidentes dos Estados Unidos da América e de Portugal, respectivamente Richard Nixon e António de Spínola. ».
Esta reunião foi um facto, não se trata de teoria da conspiração. Existe uma transcrição do sumário-relatório da mesma, que o próprio Spínola nos faculta em "País sem Rumo". Dizer que é penoso ler o que lá se escreve é escasso. Repugnante é o termo mais exacto. Ficamos assim a saber daquilo que lá se passou, pela voz de um dos intervenientes capitais. E o que se passou foi simples e resume-se a dois pontos principais:
1. A capitulação de traidores portugueses perante a "comunidade internacional"; 2. a confissão da cobardia e da impotência desses mesmos traidores perante o inimigo interno. A pretexto de acender a lareira, os cavalheiros deitaram fogo à habitação, e agora não sabiam como tirar a mobília do assado. Apelavam, assim, ao Gangster chefe dos "bombeiros internacionais", para que lhes acudisse no aperto. Textualmente:
«Falou em primeiro lugar o presidente Português, o qual, depois de saudar o presidente Nixon e de lhe expressar o seu desejo de reforçar as relações com os EUA no quadro do comum interesse dos dois países, fez um breve resumo da conjuntura política portuguesa, salientando os objectivos eminentemente democráticos da revolução e expondo a razão do aparecimento de um Governo provisório de coligação e o significado da presença dos comunistas nesse governo. Afirmou que o Governo provisório não ultrapassaria as metas fixadas pela Junta de Salvação nacional, dado o facto de a nação ainda não ter feito a sua opção pela via eleitoral, e esclareceu que aquelas metas tinham sido fixadas á luz das tendências liberalizantes comuns a todas as ideologias progresistas do mundo actual (...)»
Permitam-me que abra aqui um parêntesis, mas não sei se estão a acompanhar a lógica esplêndida do declarante: a nação ainda não tinha feito a sua opção pela via eleitoral, mas eles já tinham escolhido o menu e o restaurante, ou seja, acabavam de dar um golpe militar, tinham agranelado a esmo, e fixavam de antemão as metas "à luz das tais tendências liberalizantes comuns a todas as ideologias progressistas". Ora, o mais espantoso, é que para um diálogo daqueles, estaria muito mais autorizado e legitimado o professor Marcelo Caetano. Tinha efectivamente liberalizado e podia ao menos apresentar-se sem se encontrar refém da balbúrdia e com os comunistas à solta no governo, nas forças armadas, na imprensa e nas instituições. Nixon, não sendo um primor de inteligência, deve ter-se apercebido, ainda assim, com velada comiseração, do portento de inconsequência e imbecilidade que tinha pela frente...
Mas o eguariço (como lhe chamou, com propriedade, Manuel Múrias) prossegue:
«No campo da política externa, afirmou que Portugal seguiria uma linha de franca abertura ao Mundo, sublinhando o facto de o governo português ter aderido inequivocamente à política de descolonização preconizada pela comunidade internacional, nomeadamente na ONU.»
Portanto, Portugal "aderia" à ONU (mais tarde aderiria a outras estrebarias) e em contrapartida devia ser ajudado no seu estado de infantilização interna - infantilização, ou charilice, melhor dizendo, forçada, auto-inflingida e festiva. Requeríamos, assim, tutores e monitores de recreio, que convinha, Sua Bombeirice nos enviasse e pagasse a rigor (estava-se mesmo a ver...) . No texto:
«Seguidamente, denunciou (o "presidente" Spínola) que tanto as Forças Armadas como o próprio Movimento Revolucionário se encontravam minados pelo partido Comunista, considerando preocupante a situação, em consequência de a revolução haver destruído totalmente as estruturas de segurança do País e de este, em conformidade com um plano de desagregação, de concepção e execução comunista, caminhar a passos largos para o descalabro económico e social. (seguem-se mais umas quantas confissões despudoradas de desnorte, incompetência e leviandade relapsa e contumaz, para se atingir o corolário que se segue:)
«E, após algumas considerações de ordem estratégica, afirmou que, para suster o perigo comunista em Portugal e a consequente implantação de uma posição soviética na retaguarda da Europa, com todas as suas implicações na estratégia global de defesa do ocidente, o Governo português precisava de auxílio americano. Esse auxílio - sublinhou - poderia materializar-se da seguinte forma:
- Apoio económico-financeiro, domínio em que foi salientada a importância do Acordo das Lajes como instrumento eficaz para a concretização do referido auxílio e a necessidade do apoio da Banca Americana no fomento do desenvolvimento económico português.»
Neste ponto está, preto no branco, a essência da golpada abrileira (a original). Para orçarmos daquilo que efectivamente significa temos que remontar a um outro Março, o de 1963, quando Oliveira Salazar profere perante Franco Nogueira:
«Quero este país pobre, se for necessário, mas independente - e não o quero colonizado pelo capital americano»
Ora, com todos as suas imprudências e erros, a política de Marcelo Caetano era, no fundamental, a continuação da política de Salazar. Os interesses da nação preponderavam. Não havia plano alternativo porque não era possível nem viável qualquer outro plano alternativo. Ou se é independente ou não se é, não há meias tintas. É duro, é trabalhoso, requer perseverança e tenacidade, mas é assim. E é assim para todos nesse mundo cão. A ideia peregrina dum "plano alternativo", duma "receita milagreira" (de que a publicação de "Portugal e o Futuro" constituía requinte folclórico e manifesto partidário) não tinha qualquer fundamento nem avenida na realidade. O que, de resto, esta tratou de patentear às escancaras. Ou seja, o "plano alternativo" não era um plano para Portugal: era um plano contra Portugal, um pseudo-plano, um falso-plano. Era uma fórmula contra o Portugal que existia em nome dum Portugal de pura ficção, de manhosa fábula, que cumprir instalar em lugar do autêntico. Sob a cortina de fumo do varrimento do "estado novo", estava, na realidade, a varrer-se o Estado Português. Sob a máscara do saneamento das políticas irrealistas de Salazar, estava, de facto, a instaurar as políticas criminosas e destrutivas de estrangeiros. E para o efeito os da "golpada original" possuíam, desde a génese primeira, a tutoria americórnia; e os da "golpada segunda" auferiam da tutoria soviética. A diferença, e a vantagem nada despicienda dos segundos, é que estes dispunham, com efeito, dum plano destruidor mais rápido e conveniente a todas as partes. Os outros, de tão tansos e azoinados, apenas queriam desfilar a vaidade no dia florido (o que vinha depois nem sequer lhes ocorria, fora do mundinho delirante que se haviam auto-impingido). Não espanta, pois, que a empreitada da destruição tenha sido adjudicada aos comunas. Os quais, por idêntica e inexorável lógica, depois, na fase da colonização rectangular, foram pronta e calmamente afastados e substituídos. As joint-desventures funcionam assim. É preciso terraplenar primeiro para semear depois. Já aqui o expliquei antes , era a nossa "desnazificaçãozinha de subúrbio", o "antifascismo" de papelão a que tínhamos direito.
Entretanto, o "plano" a que Spínola servia de emblema decorativo (e que alguém lhe tinha escrito e ditado amavelmente) era, no fundo, sem tirar nem por, o "plano" que os americanos tinham proposto a Salazar nos anos sessenta: nós entregávamos o Ultramar e eles recompensavam-nos com cornucópias de fundos e apoios desenvolvimentistas. Traduzindo: permutávamos a nossa hedionda condição de potência colonial soberana pela esplêndida condição de colónia serôdia da Gamgsterolândia pato-brava. Trocávamos o Império de séculos pelo Império de Punheta. Lavava-se o sangue dos heróis com o cuspo das palradeiras e, no terreiro assim desatravancado, erigia-se, em vez do Portugal vetusto e obsoleto, um Portogalinha ou Portorriquinho de aviário.
E é essa a súplica rasteira, aflita, entalada, que Spínola dirige a Nixon: que este se digne conceder-nos a manjedoura sossegada cujo usufruto os beneméritos e benignos revolucionários haviam, tão galhardamente, conquistado na heroica madrugada abrilampante (e que os perversos e malvados ameaçavam aos gritos). Quer dizer, o tanso do general ainda pensava, naquela altura do campeonato, que o "cavalo de Tróia" (cuja estrita utilidade e missão era derrubar um regime e uma nação) ainda podia servir de montada rocinante à pátria quixotosa lançada à conquista de moinhos progressistas num futuro todo ele festivaleiro. A verdade, porém, é que aquilo nunca fora plano nenhum: fora apenas um embuste, um expediente, um engodo para conduzir canalhas à servidão de facínoras.
«A minha raiva toda está em que daqui a vinte anos haverá portugueses amigos dos Estados Unidos e da Inglaterra, e estará esquecido que nos querem espoliar. E eu não estarei vivo para evitar isso dizendo simplesmente a verdade.»
- A.O. Salazar
O "plano", esse, continua. Uma verdadeira Fénix da treta. Como continua a permanente zaragata e os sucessivos ajustes de contas entre traidores e inimigos de Portugal. Não é difícil reconhecê-los: normalmente, gastam o tempo a tentar limpar-se uns nos outros.
Mas a verdade é que o golpe original era doutros (que não os comunas sovietizados) e tinha sido arquitectado e elaborado por outros. Para a generalidade dos efectivos das Forças Armadas envolvidos, a coisa mais não traduzia que um puro acto de indisciplina, canalhice e deserção perante o dever. Eram militares em negação da sua própria condição. E isso criava um problema psicológico de magna dimensão: havia que caiar o sepulcro não só perante o povo, como perante eles próprios. Não eram eles que estavam corrompidos, com a alma prostituída, a vaidade melindrada e o ânimo nauseabundo. Não, o regime é que estava podre e que clamava extirpação urgente. O que, por ironia das coisas, em parte até era verdade: na medida em que eles faziam parte do regime, eram eles, em bom rigor, os lídimos representantes maiores dessa putrefacção regimental. O tenebroso da história, assim, é que não foi exactamente o regime que caíu de podre: a parte mais podre do regime é que deu uma golpada no resto. Quer dizer, a parte mais podre do regime arrastou o país para o vórtice da sua corrupção, isto é, os traidores escancararam as portas ao inimigo. Àqueles que patrocinaram e instigaram os traidores não lhes interessava nem ocupava o "nosso bem". Bem pelo contrário, como se tem visto, ad nausea, por esse mundo e século adiante, interessava-lhes o "quanto pior, melhor": caotização, incêndio a esmo que justifique o "perpétuo bombeiro" mundial e toda a sua panóplia socorrista paga a preço de ouro.
No seu livro "País sem Rumo", a páginas 158, escreve o general António de Spínola:
« No dia 19 de Junho de 1974, reuniram-se, pelas 11 horas, numa sala da Messe de Oficiais da Base Aérea das Lajes, os Presidentes dos Estados Unidos da América e de Portugal, respectivamente Richard Nixon e António de Spínola. ».
Esta reunião foi um facto, não se trata de teoria da conspiração. Existe uma transcrição do sumário-relatório da mesma, que o próprio Spínola nos faculta em "País sem Rumo". Dizer que é penoso ler o que lá se escreve é escasso. Repugnante é o termo mais exacto. Ficamos assim a saber daquilo que lá se passou, pela voz de um dos intervenientes capitais. E o que se passou foi simples e resume-se a dois pontos principais:
1. A capitulação de traidores portugueses perante a "comunidade internacional"; 2. a confissão da cobardia e da impotência desses mesmos traidores perante o inimigo interno. A pretexto de acender a lareira, os cavalheiros deitaram fogo à habitação, e agora não sabiam como tirar a mobília do assado. Apelavam, assim, ao Gangster chefe dos "bombeiros internacionais", para que lhes acudisse no aperto. Textualmente:
«Falou em primeiro lugar o presidente Português, o qual, depois de saudar o presidente Nixon e de lhe expressar o seu desejo de reforçar as relações com os EUA no quadro do comum interesse dos dois países, fez um breve resumo da conjuntura política portuguesa, salientando os objectivos eminentemente democráticos da revolução e expondo a razão do aparecimento de um Governo provisório de coligação e o significado da presença dos comunistas nesse governo. Afirmou que o Governo provisório não ultrapassaria as metas fixadas pela Junta de Salvação nacional, dado o facto de a nação ainda não ter feito a sua opção pela via eleitoral, e esclareceu que aquelas metas tinham sido fixadas á luz das tendências liberalizantes comuns a todas as ideologias progresistas do mundo actual (...)»
Permitam-me que abra aqui um parêntesis, mas não sei se estão a acompanhar a lógica esplêndida do declarante: a nação ainda não tinha feito a sua opção pela via eleitoral, mas eles já tinham escolhido o menu e o restaurante, ou seja, acabavam de dar um golpe militar, tinham agranelado a esmo, e fixavam de antemão as metas "à luz das tais tendências liberalizantes comuns a todas as ideologias progressistas". Ora, o mais espantoso, é que para um diálogo daqueles, estaria muito mais autorizado e legitimado o professor Marcelo Caetano. Tinha efectivamente liberalizado e podia ao menos apresentar-se sem se encontrar refém da balbúrdia e com os comunistas à solta no governo, nas forças armadas, na imprensa e nas instituições. Nixon, não sendo um primor de inteligência, deve ter-se apercebido, ainda assim, com velada comiseração, do portento de inconsequência e imbecilidade que tinha pela frente...
Mas o eguariço (como lhe chamou, com propriedade, Manuel Múrias) prossegue:
«No campo da política externa, afirmou que Portugal seguiria uma linha de franca abertura ao Mundo, sublinhando o facto de o governo português ter aderido inequivocamente à política de descolonização preconizada pela comunidade internacional, nomeadamente na ONU.»
Portanto, Portugal "aderia" à ONU (mais tarde aderiria a outras estrebarias) e em contrapartida devia ser ajudado no seu estado de infantilização interna - infantilização, ou charilice, melhor dizendo, forçada, auto-inflingida e festiva. Requeríamos, assim, tutores e monitores de recreio, que convinha, Sua Bombeirice nos enviasse e pagasse a rigor (estava-se mesmo a ver...) . No texto:
«Seguidamente, denunciou (o "presidente" Spínola) que tanto as Forças Armadas como o próprio Movimento Revolucionário se encontravam minados pelo partido Comunista, considerando preocupante a situação, em consequência de a revolução haver destruído totalmente as estruturas de segurança do País e de este, em conformidade com um plano de desagregação, de concepção e execução comunista, caminhar a passos largos para o descalabro económico e social. (seguem-se mais umas quantas confissões despudoradas de desnorte, incompetência e leviandade relapsa e contumaz, para se atingir o corolário que se segue:)
«E, após algumas considerações de ordem estratégica, afirmou que, para suster o perigo comunista em Portugal e a consequente implantação de uma posição soviética na retaguarda da Europa, com todas as suas implicações na estratégia global de defesa do ocidente, o Governo português precisava de auxílio americano. Esse auxílio - sublinhou - poderia materializar-se da seguinte forma:
- Apoio económico-financeiro, domínio em que foi salientada a importância do Acordo das Lajes como instrumento eficaz para a concretização do referido auxílio e a necessidade do apoio da Banca Americana no fomento do desenvolvimento económico português.»
Neste ponto está, preto no branco, a essência da golpada abrileira (a original). Para orçarmos daquilo que efectivamente significa temos que remontar a um outro Março, o de 1963, quando Oliveira Salazar profere perante Franco Nogueira:
«Quero este país pobre, se for necessário, mas independente - e não o quero colonizado pelo capital americano»
Ora, com todos as suas imprudências e erros, a política de Marcelo Caetano era, no fundamental, a continuação da política de Salazar. Os interesses da nação preponderavam. Não havia plano alternativo porque não era possível nem viável qualquer outro plano alternativo. Ou se é independente ou não se é, não há meias tintas. É duro, é trabalhoso, requer perseverança e tenacidade, mas é assim. E é assim para todos nesse mundo cão. A ideia peregrina dum "plano alternativo", duma "receita milagreira" (de que a publicação de "Portugal e o Futuro" constituía requinte folclórico e manifesto partidário) não tinha qualquer fundamento nem avenida na realidade. O que, de resto, esta tratou de patentear às escancaras. Ou seja, o "plano alternativo" não era um plano para Portugal: era um plano contra Portugal, um pseudo-plano, um falso-plano. Era uma fórmula contra o Portugal que existia em nome dum Portugal de pura ficção, de manhosa fábula, que cumprir instalar em lugar do autêntico. Sob a cortina de fumo do varrimento do "estado novo", estava, na realidade, a varrer-se o Estado Português. Sob a máscara do saneamento das políticas irrealistas de Salazar, estava, de facto, a instaurar as políticas criminosas e destrutivas de estrangeiros. E para o efeito os da "golpada original" possuíam, desde a génese primeira, a tutoria americórnia; e os da "golpada segunda" auferiam da tutoria soviética. A diferença, e a vantagem nada despicienda dos segundos, é que estes dispunham, com efeito, dum plano destruidor mais rápido e conveniente a todas as partes. Os outros, de tão tansos e azoinados, apenas queriam desfilar a vaidade no dia florido (o que vinha depois nem sequer lhes ocorria, fora do mundinho delirante que se haviam auto-impingido). Não espanta, pois, que a empreitada da destruição tenha sido adjudicada aos comunas. Os quais, por idêntica e inexorável lógica, depois, na fase da colonização rectangular, foram pronta e calmamente afastados e substituídos. As joint-desventures funcionam assim. É preciso terraplenar primeiro para semear depois. Já aqui o expliquei antes , era a nossa "desnazificaçãozinha de subúrbio", o "antifascismo" de papelão a que tínhamos direito.
Entretanto, o "plano" a que Spínola servia de emblema decorativo (e que alguém lhe tinha escrito e ditado amavelmente) era, no fundo, sem tirar nem por, o "plano" que os americanos tinham proposto a Salazar nos anos sessenta: nós entregávamos o Ultramar e eles recompensavam-nos com cornucópias de fundos e apoios desenvolvimentistas. Traduzindo: permutávamos a nossa hedionda condição de potência colonial soberana pela esplêndida condição de colónia serôdia da Gamgsterolândia pato-brava. Trocávamos o Império de séculos pelo Império de Punheta. Lavava-se o sangue dos heróis com o cuspo das palradeiras e, no terreiro assim desatravancado, erigia-se, em vez do Portugal vetusto e obsoleto, um Portogalinha ou Portorriquinho de aviário.
E é essa a súplica rasteira, aflita, entalada, que Spínola dirige a Nixon: que este se digne conceder-nos a manjedoura sossegada cujo usufruto os beneméritos e benignos revolucionários haviam, tão galhardamente, conquistado na heroica madrugada abrilampante (e que os perversos e malvados ameaçavam aos gritos). Quer dizer, o tanso do general ainda pensava, naquela altura do campeonato, que o "cavalo de Tróia" (cuja estrita utilidade e missão era derrubar um regime e uma nação) ainda podia servir de montada rocinante à pátria quixotosa lançada à conquista de moinhos progressistas num futuro todo ele festivaleiro. A verdade, porém, é que aquilo nunca fora plano nenhum: fora apenas um embuste, um expediente, um engodo para conduzir canalhas à servidão de facínoras.
«A minha raiva toda está em que daqui a vinte anos haverá portugueses amigos dos Estados Unidos e da Inglaterra, e estará esquecido que nos querem espoliar. E eu não estarei vivo para evitar isso dizendo simplesmente a verdade.»
- A.O. Salazar
O "plano", esse, continua. Uma verdadeira Fénix da treta. Como continua a permanente zaragata e os sucessivos ajustes de contas entre traidores e inimigos de Portugal. Não é difícil reconhecê-los: normalmente, gastam o tempo a tentar limpar-se uns nos outros.









