terça-feira, agosto 18, 2015

O colosso Rhodes

«Estive ontem no East End [bairro operário de Londres] e assisti a uma reunião de desempregados. Ouvi aí discursos arrebatados. Era apenas um grito: "Pão,Pão!" Revivendo toda a cena ao regressar a casa, fiquei ainda mais convencido do que dantes, da importância do imperialismo... A ideia que me é mais cara, é a solução do problema social, isto é: para salvar os quarenta milhões de habitantes do Reino-Unido duma guerra civil  mortífera, nós, os colonizadores, devemos conquistar novas terras afim de aí instalar o excedente da nossa população, encontrar novos mercados para os produtos das nossas fábricas e das nossas minas. O Império, sempre o disse, é uma questão de barriga. Se quereis evitar a guerra civil, é preciso tornar-vos imperialistas.»
- Cecil Rhodes, 1895

O colonialismo britânico, que tem em Rhodes o seu sumo pontíficie, surge assim como uma primeira forma de desarmar uma tensão social que o ímpeto inaugural do capitalismo resfolgante instaurava a passos largos nas sobrelotadas urbes britânicas. Colonizar era, pois, segundo Rhodes, uma forma benigna de desinfestar as Ilhas e ampliar os negócios. A ideia tinha a sua lógica e não se pode dizer que fosse destituída de senso. Acudia, em simultâneo, às angústias prolefóbicas do reverendo Malthus e apresentava trampolins providenciais às efervescências social-darwinistas da época. E até Stuart Mill, em bênção antecipada, já proclamara: "Pode-se afirmar, no estado actual do mundo, que a fundação de colónias é o melhor negócio em que se possa aplicar os capitais dum velho e rico país.»
Desta peregrinação desembestada  resultaram muitas coisas que a história documenta. A guerra Bôer foi uma delas e merece referência especial por uma invenção que faria furor no século vinte: o Campo de Concentração (british made, registe-se). Conheço uma rapariga aul-africana (bastante jeitosa, por sinal) cuja avó penou num desses beneméritos estabelecimentos. Além do rapinanço das vastas minas de diamantes e ouro aos Boers, os Ingleses acharam também de bom tom expropriar aos Portugueses (seus velhos aliados, aspas, aspas) os territórios entre Angola e Moçambique (baptizadas logo de seguida como Rodésia do Norte e Rodésia do Sul, em homenagem ao chefe flibusteiro). Para o efeito, apresentaram o famigerado Ultimato à coroa portuguesa, sob ameaça de bombardeamento sumário por vaso de guerra entediado, caso o deferimento não fosse imediato. O rei encolheu-se (entalado entre a partidofagia interna e patifofagia externa, não seriam abundantes os seus recursos em campo de manobra) e acabaria removido pouco adiante, muito em consequência desta prenda dos prestimosos aliados. Agradeceram os auto-proclamados republicanos (qualquer bando de malfeitores e ladrões, uma vez na posse dum palácio, estima de arvorar-se em nobre e bestialmente digno). E trataram de materializar a sua gratidão aquando da carnificina industrial na esquina logo adiante, enviando milhares de portugueses para o matadouro da Flandres. Ao lado dos ingleses, pois claro. Para que estes (mai-los franciús)  não nos larapiassem o resto do ultramar, impunha-se que nos deixássemos massacrar pelos alemães. Não há colónias grátis. E a rapaziada lá foi; e lá cumpriu a rigor.

Podemos dizer que a república portuguesa é uma engendradela do colonialismo britânico?  O que é que acham?


PS: Não será mesmo a evolução lógica da esngendradela que já "constitucionalizara" a monarquia portuguesa?... Só perguntas difíceis...

segunda-feira, agosto 10, 2015

Prelúdio à Anatomia Geopulhítica

«A chamada “democracia” é um logro, o sufrágio universal uma máscara. Nos sistemas modernos burocratizados, cujo nascimento data de meados do século dezanove, a organização feudal foi, digamos assim, transposta para um nível seguinte. O objectivo principal daquilo que Tucídides referiu na sua época comosynomosiai (literalmente, “conjura”), isto é, as confrarias ocultas que agem por detrás dos clãs dirigentes, tem sido transformar o processo de cobrança de rendas à população (um “free income” na forma de alugueres, encargos financeiros e extorsões similares), tão imperscrutável e impenetrável quanto possível. A tremenda sofisticação, e a muralha propagandista de mistificações engenhosamente divulgadas, em redor do sistema bancário - instrumento principal através do qual os hierarcas expropriam e controlam a riqueza das suas comunidades hospedeiras -, constitui o testemunho límpido desta transformação essencial suportada pela organização oligárquica/feudal na era moderna. O Ocidente passou duma estrutura agrária de baixa tecnologia, assente nas costas de servos privados de direitos, para uma colmeia pós-industrial altamente mecanizada que se nutre da força de não menos desprivilegiados escravos de colarinho-branco ou azul, cujas vidas são hipotecadas para comprarem de acordo com as modas do consumo. Os mais recentes Lordes da Mansão já não são mais avistados a exigir o tributo, desde que passaram a confiar nos mecanismos da contabilidade bancária para esse fim, enquanto os sicofantas da classe média, tais como académicos e publicitários, permaneceram inteiramente leais ao synomosiai. A outra diferença concreta entre o antigamente e o agora reside no enorme aumento de rendimentos da produção industrial (cujo nível potencial, não obstante, tem sido sempre significativamente mais elevado que a produção real, de modo a manter os preços altos). No que respeita à “participação democrática” dos vulgares cidadãos, estes sabem lá bem no fundo dos seus corações que nunca decidem nada de importante, e que a política consiste na arte de influenciar as multidões nesta ou naquela direcção, consoante os desejos ou antecipações dos poucos que possuem as chaves da informação, do conhecimento efectivo (secreto) e da finança. Este pequeno número pode, em determinada altura, estar mais ou menos dividido em facções antagónicas; quanto mais profunda a divisão, mais sangrenta a disputa social. O registo eleitoral do Ocidente no século passado constitui um monumento cintilante à completa inconsequência da “democracia”: apesar de duas guerras de proporções cataclísmicas e um sistema último de representação que produziu uma pletora de partidos, a Europa Ocidental não conheceu alteração significativa na sua constituição socio-económica, enquanto a América, com o passar do tempo, foi-se tornando cada vez mais idêntica à sua própria oligarquia, reduzindo o aparato democrático a um concurso entre duas alas rivais duma estrutura monopartidária ideologicamente compacta, que é, de facto, “lobbyzada” por “grémios” mais ou menos ocultos: o grau de participação pública nesta flagrante falsificação é, conforme se sabe, compreensivelmente baixo: um terço dos cidadãos, no melhor dos casos.»
- G.G. Preparata, "Conjuring Hitler - How Britain and America made the Third Reich" (tradução minha)

Nos próximos tempos, e na medida do pouco tempo disponível que me assiste, tentarei investigar um pouco melhor certas mitologias impostas à força de propaganda ultra-pasteurizante. Primeira e Segunda Guerras Mundiais, em concreto.


sábado, agosto 08, 2015

O Mal e as suas apologias

O espectador neutro e imparcial da Segunda Guerra dá consigo entre o perplexo e o abismado. A coisa é
anunciada como uma guerra de épicas dimensões, mas mais parece um concurso de genocídios. Dir-se-ia que a atrocidade devém primado estratégico e expoente táctico. O combate é apenas um pretexto: o essencial é a chacina, a hecatombe industrial.

Houve atrocidades para todos os gostos e para todos os credos. Internos e externos. Ditatoriais e democráticos. Mas que as ditaduras, fruto da sua dinâmica de poder ultra-pessoalizado e concentrado possam ceder, de roldão, às maluquices de um único indivíduo (caso emblemático dos Hitler e Stalines que tanto jeito dão à sonsice americólatra) não deveria espantar-nos (não é a impiedade uma das características da tirania?). Já o mesmo não pode dizer-se desses sistemas neo-angélicos, a arfar cheques e balanços e a chocalhar direitos e garantias... Que tenham massacrado em moldes industriais (caso dos tapeteamentos aéreos sobre alvos civis) e, para cereja no topo do bolo, ainda tenham encerrado as festividades com o foguetório mais assassino e concentrado de que há memória (salvo eventualmente Dresden, mas aí, com uma chusma de bombardeiros), isso, sim, é que é genuinamente espantoso. Porque o Mal a realizar coisas malvadas é lógico e já estamos calejados; agora que o bem ultrapasse o mal nesses exercícios é que deveria transportar-nos, senão ao escândalo, ao menos à estupefacção. 
Que Hitler, ou os japoneses, tivesem atirado com a bomba atómica a um parque infantil, preferencialmente kosher ou chinês, obederia à sua perversidade lendária. Agora, os americanos, senhores, os santos americanos, baluartes da liberade, da democracia e do gentil mercado!... Justificável? Só do ponto de vista moral dum percevejo ou político dum verme!... Justificável é o nascimento de quem o lambuza como descuido extra-vaginal da mãezinha!

Mas a verdade é ainda mais inquietante. Verificamos ainda algum escrúpulo e resquício de pudor entre os chacinadores maléficos - dos nazis aos comunas. Dão-se ao trabalho de mascarar as carnificinas - abrem valas, improvisam crematórios, estudam soluções suavizantes para o sinistro empreendimento (enfim, retêm ainda alguma vaga noção da infâmia da coisa; não pretendem gabar-se nem fomentar um qualquer tele voyeurismo de basbaques frenéticos ). Os alemães, aliás, como não me canso de proclamar, são mesmo (e continuam a ser) um caso paradoxal de inteligência e burrice, em trepidante tandem. São capazes das mais brilhantes engenharias e, em simultãneo, das mais sumptuosas asneiras. O caso dos judeus foi um hino à segunda. Despendem toda uma azáfama de expedientes e meios para retirarem os judeus das cidades, enviando-os para fora do raio de acção dos bombardeiros aliados. Mas, afinal, queriam exterminá-los ou protegê-los? Ora, fazia mais sentido retirarem os alemães e deixarem lá os judeus para serem furiosamente pulverizados.  Das duas, uma: ou os aliados se inibiam com a clientela, ou cometiam eles o holocoiso. Está bem que no fim, acabariam sempre a culpar os alemães, como os israelitas culpam os palestinianos pelos massacres que lhes acontecem, mas, enfim, pelo menos poupavam, os germânicos, comboios e combustível (já não para falar numa horda de funcionários que bem mais utéis teriam sido na frente leste). Pronto, mas é como digo: nota-se ainda algum humanitarismo, embora perverso, nos maligníssimos.
Agora os neo-querubínicos e panta-serafiníssimos, Mãe Santíssima, tratam de transformar o genocídio, mais que num espectáculo, num acto global de exibicionismo macabro. É isso que Hirosshima significa: o Mal já não precisa de máscara nem camuflagem. Já não se esconde. A sua ordem já não é apenas a da vil e furtiva descendência de Caim: emerge doravante nu, completamente desembaraçado, a céu aberto... negro e impiedoso... No altar vazio de Deus.


PS:  Nunca louvaremos o suficiente Oliveira Salazar por nos ter mantido fora daquela orgia das trevas que foi a Segunda-Guerra Mundial. Vou já ali acender-lhe uma vela!

PSS: A mesma lógica do "mal menor" que justifica Hiroshima serviu a Hitler para justificar o programa nacional de eutanásia. Portanto, esfreguem-se e relambuzem-se!

quinta-feira, agosto 06, 2015

O MAL



Experimentar uma bomba atómica sobre alvos militares é um acto abjecto. Experimentá-la, sem aviso, sobre uma cidade civil, destituída de qualquer interesse militar ou estratégico, tem outro nome. Que, para cúmulo, tenha sido perpetrado por aqueles que já tinham a guerra completamente ganha, não podendo portanto alegar desespero ou necessidade maior, torna a coisa especialmente monstruosa. 
Não é o mal absoluto, mas é a absoluta desumanidade.

sábado, agosto 01, 2015

A Lotaria das Almas, segundo Platão


«E as almas, à medida que chegavam, pareciam vir de uma longa travessia e regozijavam-se por irem para o prado acampar, como se fosse uma panegíria; as que se conheciam, cumprimentavam-se mutuamente, e as que vinham da terra faziam perguntas às outras, sobre o que se passava no além, e as que vinham do céu, sobre o que sucedia na terra. Umas, a gemer e a chorar, recordavam quantos e quais sofrimentos haviam suportado e visto na sua viagem por baixo da terra, viagem essa que durava mil anos, ao passo que outras, as que vinham do céu, contavam as suas deliciosas experiências e visões de uma beleza indescritível. referir todos os pormenores seria, ó Gláucon, tarefa para muito tempo. Mas o essencial dizia ele que era o que se segue. Fossem quais fossem as injustiças cometidas e as pessoas prejudicadas, pagavam a pena de tudo isso sucessivamente, dez vezes por cada uma, quer dizer, uma vez em cada cem anos, sendo esta a duração da vida humana - a fim de pagarem, decuplicando-a, a pena do crime; por exemplo, quem fosse culpado da morte de muita gente, por ter traído Estados ou exércitos e os ter lançado na escravatura, ou por ser responsável por qualquer outro malefício, por cada um desses crimes suportava padecimentos a decuplicar; e, inversamente, se tivesse praticado boas acções e tivesse sido justo e piedoso, recebia recompensas na mesma proporção. Sobre os que morreram logo a seguir ao nascimento e os que viveram pouco tempo, dava outras informsações que não vale a pena lembrar. Em relação à impiedade ou piedade para com os deuses e para com os pais, e crimes de homicídio, dizia que os salários eram ainda maiores.
Contave ele, com efeito, que estivera junto de alguém a quem perguntaram onde estava Ardieu o Grande. Este Ardieu tinha sido tirano numa cidade de Panfília, havia já então mil anos; tinha assassinado o pai idoso e o irmão mais velho, e perpretado muitas outras impiedades, segundo se dizia. E o interpelado respondera:"Não vem, nem poderá vir para aqui. Na verdade, um dos espectáculos terríveis que vimos foi o seguinte: Depois de nos termos aproximado da abertura, preparados para subir, e quando já tinhamos expiado todos os sofrimentos, avistámos de repente Ardieu e outros, que eram tiranos, na sua quase totalidade; mas também havia alguns que eram particulares que tinham cometido grandes crimes - que, quando julgavam que iam subir, a abertura não os admitia, mas soltava um mugido cada vez que algum desses, assim incuráveis na sua maldade ou que não tinham expiado suficientemente a sua pena, tentava a ascensão. Estavam lá homens selvagens, que pareciam de fogo, e que, ao ouvirem o estrondo, agarravam alguns pelo meio e levavam-nos, mas, a Ardieu e outros, algemaram-lhes as mãos, pés e cabeça, derrubaram-nos e esfolaram-nos, arrastaram-nos pelo caminho fora, cardando-os em espinhos, e declaravam a todos, à medida que vinham, por que os tratavam assim, e que os levam para precipitar no Tártaro. (...)
[A Lotaria das Vidas futuras pelas Moiras]
«Declaração da virgem Láquesis, filha da Necessidade. Almas efémeras, vai começar outro período portador da morte para a raça humana. Não é um génio (daimon) que vos escolherá, mas vós que escolherteis o génio. O primeiro a quem a sorte couber, seja o primeiro a escolher uma vida a que ficará ligado pela necessidade. A virtude não tem senhor; cada um a terá em maior ou menor grau, conforme a honrar ou desonrar. A rersponsabilidade é de quem escolhe, O deus é isento de culpa.»
Ditas estas palavras, atirou como os lotes para todos e cada um apanhou o que caiu perto de si, excepto Er, a quem isto não foi permitido. Ao apanhá-lo, tornara-se evidente para cada um a ordem que lhe cabia para escolher. Seguidamente, dispôs no solo, diante deles, os modelos de vidas, em número muito mais elevado do que o dos presentes. Havia-as de todas as espécies: vidas de todos os animais, e bem assim de todos os seres humanos. Entre elas havia tiranias, umas duradouras, outras derrubadas a meio, e que acabavam na fuga, na pobreza, na mendicidade. Havia também vidas de homens ilustres, umas pela forma, beleza, força e vigor, outras pela raça e virtudes dos antepassados; depois havia também as vidas obscuras, e do mesmo modo sucedia com as mulheres. Mas não continham as disposições de carácter, por ser forçoso que este mude, conforme a vida que escolhem. Tudo o mais estava misturado entre si, e com a riqueza e a inteligência, a doença e a saúde, e bem assim o meio termo entre esses predicados.»
- Platão, "Políteia" (vulgarmente traduzido por "República")
Quatro séculos antes de Jesus Cristo. Qualquer semelhança entre isto e o céu/ inferno cristão não é mera coincidência. Santo Agostinho usou e abusou.
O equivalente cristão do daimon/génio que a alma escolhe é o "anjo da guarda". Eventualmente, o nosso investigador do espiritismo vai falar-me em "guia".
Espero, sinceramente, que Platão esteja atestado de razão no que respeita àquela parte negritada. Temos por aqui, à beira mar plantada, abundante freguesia.
Não por acaso, vários filósofos lúcidos referem-se ao cristianismo como um platonismo para uso popular. Portanto, se querem crucificá-lo por ter inspirado algumas perversões comunistas, lembrem-se que antes disso arcou com a Igreja em peso e forneceu estrutura e consistência ao pensamento cristão. 

sexta-feira, julho 31, 2015

A Parafísica (r)

O vulgo, que é cada vez mais crivado de pseudo-informação e está cada vez mais ruidoso e estúpido, convenceu-se de que a Metafísica é uma sucata mental completamente inútil que, mais coisa menos coisa, consiste em discutir o sexo dos anjos, nas suas diversas ordens e classes: querubins, tronos e serafins.
Todavia, quando um ateu - melhor ainda, um ateísta moderníssimo - proclama que Deus não existe nem faz cá falta nenhuma -haja dinheiro e tecnologia, que o resto vem por arrasto -, está a responder a uma das perguntas basilares da Metafísica -que, recordo, são quatro: 1. O que é o Homem? 2. Donde vimos? 3. Para onde vamos? 4. Deus existe? Exactamente, e por incrível que pareça, está a responder - pela negativa, mas a responder. Por conseguinte, e apesar da sua jura de amor eterno e exclusivo a uma mera e redentora Físico-química, está a patinhar na Metafísica. E o caso é tanto mais grave e patético quanto se serve de tudo para erguer e esgrimir contra Deus, para firmar a não-existência Deste. Quer dizer, a sua metafísica resume-se, não a quatro, mas a uma única pergunta: a quarta - Deus existe? - Não; que disparate anacrónico e aberrante: Deus não existe!, proclamam a todas as horas.
Tentem inquirir-lhes pelo Homem, pela proveniência ou pela finalidade do mundo. Nada disso lhes interesssa ou minimamente os intriga ou afecta. O importante, o essencial é que Deus não exista. Crucial é que Ele não estorve. Acreditam pois, e piamente, na "Não-existência de Deus". E acreditam à maneira das crianças apavoradas com qualquer papão ou monstro emboscado nas trevas que atravessam a noite a repetir a si próprias: "os monstros não existem! O papão não existe!..." Eles, porém, não só atravessam as noites como passam os dias. E não apenas o repetem mentalmente a si próprios, ou martelam obsessivamente a quem quer que encontrem, como o escrevem por toda a parte. Aposto que até nas toalhas e guardanapos dos restaurantes, concluído o repasto, lá deixam garatujado: "Deus não existe!" Já não falando nas paredes dos sanitários ou nos blogues que criam para o efeito, passe a redundância. É uma espécie de religião automática, este ateísmo monocórdico.
No entanto, a bem da verdade, convém precisar que a metafísica ateísta -chamemos-lhe parafísica - não é apenas uma mutilação e uma miniaturização utilitária da metafísica ocidental. De facto, mais do que reduzi-la a uma única pergunta, eles convertem-na numa única resposta. Se ao longo de milénios se pesquisaram e entreteceram "provas da existência de Deus" era porque, por um lado, existia a pergunta e, por outro, existindo essa pergunta, existia a dúvida própria do mortal. Ora, nos antípodas disso, a afirmação da não-existência de Deus destes religiosos modernos é peremptória, definitiva, axiomática. Não responde nem duvida em tempo ou modo algum: decreta. Sendo automática, é igualmente uma Fé de burocratas, aliás, mais que Fé: uma fézada. Nitidamente, constata-se que ambiciona o império absoluto duma qualquer Repartição Geral das Crenças donde, após publicação em Diário da República, se obrigará, com força policial, à ilegalização de Deus e, no mínimo, ao internamento compulsivo para desintoxicação dos infractores. Quando, há dias atrás, o Governo Chinês proibiu o Buda de reencarnar, surpreendemos em pleno acto uma eclosão exuberante dessa mesma mentalidade peregrina - epifania mirabolante, essa, que deve ter enchido de volúpia onírica e projecções equiláteras os ateístas cá da paróquia. "O chamado Buda existente reencarnado é ilegal e inválido sem a aprovação governamental", decreta o Partido Comunista Chinês. Isto não é apenas hilariante: é sinistro. E não é apenas património folclórico dum país despótico ou duma cultura longínqua: entre nós porfia-se e avança-se, a passos visíveis, para uma uniformização forçada e burocrática de idêntico jaez tecnoeficiente; uma universão em que os cidadãos são degradados a meros porta-modas -sendo estas, todas elas (económicas, políticas, científicas, jurídicas e morais), obrigatoriamente compactadas numa única religião laica, monototemística, rigorosa e exclusivista. Creem, os seus apóstolos frenéticos, que através duma hábil manipulação - onde a alquimia do voto enxertada na cabalística mercantileira operará milagres -, a Opinião Pública poderá ser contrafeita em Religião Pública. Já que Deus não morre, ilegalize-se. Já que teima em persistir, proiba-se. A limite, encarcere-se. Por conspiração e contumácia.
Ninguém se surpreenda se um dia destes a parafísica for objecto de referendo.
Há toda uma nova religião de ímpetos proselitistas e globais em marcha. Só se pode espantar com o carácter cada vez mais opressivo de nova-catequese que infecta os sistemas educativos ocidentais quem ainda não percebeu isso. Estes ateístas são apenas uma das suas tropas de choque - uma espécie de novos dominicanos espontâneos. Deus criou o mundo, mas é a eles que compete corrigi-lo.
E preparemo-nos: Moral e Religião devirá, a breve trecho, disciplina nuclear nos diversos ciclos do Ensino. A única, aliás.

PS: Daqui nasceu aquela fórmula pública que, entretanto, deveio apócrifa, do "ateu - aquele que acredita piamente na não-existência de Deus". Tenho muitos filhos desses. É um pouco como as anedotas: às tantas, todas são de geração espontânea. E assim é que deve ser.

quarta-feira, julho 29, 2015

Lições Antigas (rep)

«Um tempo houve no qual Creonte era digno de inveja, preservara o país dos seus inimigos, tornara-se o seu recto monarca e governava, criando prosperidade para a sua nobre descendência. Agora não existe nada, tudo está perdido.
Quando, por sua culpa, o homem trai a sua própria alegria, já não me parece um ser vivo mas antes um cadáver ambulante. Amealha, se quiseres, grandes riquezas em casa; encerra-te no fausto da tirania: se a isso não juntares a felicidade íntima, não compraria eu todo o resto a troco da sombra dum fumo».
- Sófocles, "Antígona"


Uma antítese constante do pensamento grego é a monarquia versus tirania. Como diria mais tarde um filósofo: "poucos são dignos de inveja, a maioria é digna de pena". Para o grego clássico, no auge da sua civilização, o recto monarca é digno de inveja; o desmedido tirano é digno de lástima. Por uma razão muito simples: porque ao transgredir as regras eternas do equilíbrio cósmico está, inexoravelmente, a convocar sobre si o desastre. A hubris gera necessariamente a athe. Ou seja, a desmesura atrai a ruína, a peste, o desastre, a desgraça, enfim, a retaliação cósmica. Esta noção, para os gregos, não era mera poesia ou estrita religião: era farol ético, resultado de aturada observação empíricaEra, por isso mesmo, cultura. E era, dito com plena propriedade, sabedoria. Em relação a eles, nós só diferimos porque temos mais de dois milénios de comprovação real acrescida daquela regra cósmica. Em tese, deveríamos estar mais sensatos, mais prudentes; mas, na realidade, comportamo-nos como cegos guiados por loucos - como descobridores da pólvora a cada instante, como umbigos recriadores de todo o Universo em cada passagem de moda. Temos olhos cegos de tanta prótese, de tanto óculo, binóculo, telescópio e microscópio. De tanto distorcermos o mundo, de tanto espreitarmos atrás das coisas fomos perdendo a visão para aquilo que temos à frente. Entretidos com pinchavelhos e pentelhices, tornámo-nos míopes e vesgos à plenitude. De tanto embascacarmos diante de tanto novo adereço, já perdemos de vista o sagaz velho que, sob tanta máscara, plástica e maquilhagem, lá no fundo, somos. Por desuso, os olhos de águia devieram olhos de corvo; o legado de Prometeu atrofiou-se a uma tripa palradora e suinocéfala. Da Grécia trágica viemos dar a esta anti-grécia grotesca e sórdida. Esta civilização de aviário e pechisbeque. Este egódromo da algazarra e do chinfrim. Este viveiro de tiranias e tiranetes. Desde a tirania do bandulho à tirania dos bandalhos e das turbas.
Mas não nos podemos queixar que não nos avisaram, lá, desde as raízes. A tirania, que pode ser exercida por um em nome de muitos ou por muitos em nome de um, é sempre uma excreção da mesma glândula: a oclocracia. Seja na forma de despotismo (mais ou menos desenfreado), seja na aparente democracia (menos ou mais envaselinada), é sempre a mesma derivação da massa desordenada e confusa, a mesma desorientação colectiva - a balbúrdia sistematizada. E, tão certo como o nascer o o pôr do sol, será sempre, por decreto eterno, a desagregação desmedida que precederá a catástrofe.

A melhor lição é, pois, a mais antiga: resguardemo-nos da turba, dos seu jóqueis e, sobretudo, das suas infatigáveis aleivosias.

terça-feira, julho 28, 2015

Uma revolução completa

O sol não evoluiu nada nos últimos milhares de anos.  Ao contrário do homem, que, evoluiu duma forma assombrosa, nunca vista...o campeão das galáxias! Pelos vistos, agora já não evolui mais, porque atingiu o zénite, a perfeição económica (a única que interessa, afinal). Mas, caramba, até que foi uma cavalgada emocionante.
Pois, o homem está sempre a mudar. De ideias, então, é pior que os trapos: umas de manhã e outras à tarde. Até porque quem veste o alheio nunca anda descansado. Já o sol, pobre coitado, não muda. Nem pensa. Deita-se e levanta-se todos os dias à mesma hora. E brilha. 
Não, obstante, tudo gira à volta dele. Até os negócios. E é por tudo girar como um relógio, ou seja, é por a mudança cumprir regras cósmicas anteriores e superiores ao homem que a vida é possível. Qualquer pastor, agricultor ou pescador tradicional percebe e intui isto com relativa facilidade. E respeita religiosamente.
Mas no dia em que o sol, cansado da sua completa ausência de liberdade, decidir evoluir, nesse dia, aí sim, é  garantido, terminará a "evolução" do homem.
Embora para muitos homúnculos encerrados diante de ecrã, ela, mais até que acabado, já entrou em regressão ao troglodita descrito por Prometeu, segundo Ésquilo, como o pré-antropóide: "viviam em cavernas, como formigas, sem entendimento...olhavam e não viam". 
Se calhar, faz parte do ciclo. O fim da evolução é voltar ao incío. Uma revolução completa.

domingo, julho 26, 2015

Do Gulag ao galug




É sempre edificante recordar...

«As taxas de criminalidade Americanas sempre foram mais elevadas do que a maioria dos países europeus. O que é novidade é o recurso nos Estados Unidos a uma política de encarceramento maciço, em substituição dos controlos comunitários enfranquecidos pelas forças do mercado desregulado. Ao mesmo tempo, os americanos ricos estão, em número crescente, a afastar-se da co-habitação com os seus concidadãos, recolhendo-se a propriedades comunitárias muradas. Cerca de 28 milhões de americanos -mais de 10% da população - vivem hoje em prédios ou condomínios com guardas privados.
Nos fins de 1994, mais de 5 milhões de americanos viviam sob uma forma ou outra de restrições legais. De acordo com os números do Ministério da Justiça (Department of Justice), cerca de 1,5 milhões estavam encarcerados - em prisões estaduais, federais ou municipais. Isto significa que 1 em cada 193 adultos americanos está preso, o que corresponde a 373 em cada 100.000 americanos. Este número era de 103 em 100.000 quando Ronal Reagan foi eleito presidente. 3,5 milhões de americanos estavam em liberdade condicional.
A taxa de encarceramento dos Estados Unidos no fim de 1994 era quadrúpla da do Canadá, quíntupla da da Grã-Bretanha e catorze vezes superior à do Japão. Apenas a Rússia pós-comunista tem uma percentagem maior dos seus cidadãos atrás das grades. Na Califórnia, cerca de 150.000 pessoas estão presas. A população da Califórnia na cadeia é agora oito vezes superior à de 1970. Excede a da Grã-Bretanha e a da Alemanha juntas.(...)
A confluência de divisões e antagonismos étnicos e económicos nos Estados Unidos não tem equivalente em nenhum outro país desenvolvido. O mercado livre produziu uma mutação no capitalismo americano, em consequência da qual ele se assemelha mais aos regimes oligárquicos de alguns países latino-americanos do que à civilização capitalista liberal da Europa ou dos próprios Estados Unidos em fases mais recuadas da sua história.(...)
Os níveis de todos os crimes de violência, excepto homicídio, são consideravelmente mais elevados na América do que na Rússia pós-comunista. Em 1993 houve 264 roubos por 100.000 habitantes (contra 124 na Rússia), 442 assaltos (comparados com 27 na Rússia) e 43 violações (9,7 na Rússia). (...)
O assassínio de crianças é particularmente comum nos Estados Unidos. Cerca de três quartos dos assassínios de crianças no mundo industrializado ocorrem nos Estados Unidos. Entre os 26 países mais ricos do mundo,os Estados Unidos têm de longe as maiores taxas de suicídio infantil e de homicídios e outras mortes relacionadas com armas de fogo.(...)
Em 1987, a mortalidade infantil no Harlem oriental e em Washington DC era praticamente a mesma que na Malásia, na Jugoslávia e na antiga União Soviética. Um bebé nascido em Xangai em 1995 tinha menos probabilidade de morrer no primeiro ano de vida, maior probabilidade de aprender a ler e uma esperança de vida dois anos mais longa (até aos 76 anos) do que um bebé nascido em Nova Iorque.
As elevadas taxas de encarceração e de crime nos Estados Unidos estão acompanhadas por números igualmente excepcionais de litígios e de advogados. A América tem pelo menos um terço de todos os advogados do mundo.(...) Os condóminos privados, murados, fechados e vigiados electronicamente que protegem os habitantes dos perigos da sociedade que abandonaram são a imagem das prisões americanas. Erguem-se como símbolos do esvaziamento de outras instituições sociais - a família, a vizinhança e mesmo o emprego - que no passado suportavam o funcionamento da sociedade. A combinação de prisões de alta tecnologia e empresas virtuais pode tornar-se o emblema da América dos inícios do século XXI.
Na América do fim do século XX, o mercado livre tornou-se o motor de uma modernidade perversa. O profeta da América de hoje não é Jefferson ou Madison. E ainda menos Burke. É Jeremy Bentham, o pensador iluminista britânico do século XIX, que sonhava com uma sociedade hipermoderna reconstruída segundo o modelo de prisão ideal.»
  - John Gray, "False Dawn" 


Os outros tinham a Sibéria para onde enviar o refugo da Revolução. Estes não precisam: a revolução consiste no encarceramento generalizado. Com duas modalidades prodominantes: o encarceramento forçado e o auto-encarceramento (para defesa daqueles em trânsito para o encarceramento forçado). Entre uns e outros, os encarcerados forçado e os auto-encarcerados, vagueia o restante da população em regime de liberdade condicional, angustiado com o risco de resvalar ao encarceramento forçado e seduzido pela ganância de ascender ao auto-encarceramento. Moral da história: os ventos desta, afinal, são fruto de aerofagia crónica.

quinta-feira, julho 23, 2015

Prego a fundo e fé nos Mercados

É evidente que Portugal continua na bancarrota. Até porque a mais recente erupção da evidência foi combatida com a contracção descomunal de dívida ao FMI/BCE, e continua a ser "gerida" através da emissão rotineira de mais dívida (para pagar a dívida, dizem). A voragem estatal continua a mesma (embora doravante com as refeições gratuitas exclusivas a membros da seita, que os tempos são de austeridade para os outros). Portanto, basta um stressezito induzido e lá voltamos nós. Aliás, em menos de dois anos estaremos lá de novo; basta fazerem as continhas e largarem os alucinogéneos por um instante.
Mas será isto grave, ou sequer preocupante, o estarmos abivacados na bancarrota crónica?
Julgo que não. Como de costume, apenas seguimos a moda externa e aproveitamos a brisa. Os Estados Unidos também estão na bancarrota , todos pimpões (ao contrário de nós, como devem calcular, um fenómeno de proporções armagedónicas), e não parece que isso lhes cause grandes insónias. Nem a eles nem, pelos vistos, a ninguém: toda a gente corre a emprestar-lhes mais e a afagar-lhes e estimular-lhes mais o buraco, digo, o abismo.
Portanto, o que se depreende é que as bancarrotas só são graves quando são pequenas. Um pouco como as dívidas à banca: se um tipo lhes deve mil contos tem um problema; se lhes deve dez milhões é o banco que tem um problema.
Começo até a compreender a estratégia azougada e ladina dos nossos desgovernantes: tentam, a todo o custo, imitar os americanos. O segredo, presumo, é que se ela já fosse dez ou cem vezes maior, ninguém nos chateava. Quanto é que custa um porta-aviões?...

quarta-feira, julho 22, 2015

Um Homem Sério



«Do Estado nada podemos esperar também, mas, aqui, por uma outra razão. O Estado não é português, o Estado não é decente, o Estado está, desde 1820, na posse de homens cuja obra é a essência da traição e da falência. Procurar o auxílio do Estado é tão absurdo como procurar influenciar os homens que o possuem. Não há neles uma centelha de boa vontade patriótica, nem de lucidez portuguesa. Vivem daquilo e nem vivem elegantemente. O esforço revolucionário para os deitar abaixo é um gasto espúrio de energia. Quem é que se lhes vai seguir? Não há em Portugal nenhum grupo ou partido, nenhuma reunião de homens duradoura ou ocasional capaz de gerir o país. O que há é péssimo, mas é o que há. Sidónio Pais era Sidónio Pais, e a sua regência foi célebre pela imoralidade, pela profusão de apadrinhamentos, pela prolixa desvergonha dos negócios escuros e nos crimes políticos. Quando esse homem, que tinha as qualidades místicas do chefe de nação, que tinha as qualidades de astúcia precisas para manejar os homens, e as energias para os compelir, não pôde, honesto como era, romper com a cercadura de ladrões que tinha, não pôde, leal como era, evitar estar cercado por traidores e bandidos, não pôde, nobre na coragem como era, evitar ser rodeado de assassinos e trauliteiros - que espécie de homem esperamos nós que virá, que faça a obra da regeneração?
(...)

Que ideias gerais temos? As que vamos buscar ao estrangeiro. Nem as vamos buscar aos movimentos filosóficos profundos do estrangeiro; vamos buscá-las à superfície, ao jornalismo de ideias.»
- Fernando Pessoa, "Sobre Portugal"





Depois de Sidónio, tivémos Salazar. Que conseguiu, pelo menos, não ser assassinado. E conseguiu também, com denodo e perseverança titânicos, libertar e levantar a nação. Da partidofagia interna e da tutoria externa. Que depois fosse apodado de ditador por aqueles que a prostraram e entragaram de novo à servidão externa não admira. Mas mesmo Salazar viveu rodeado de alguns oportunistas que, nos últimos anos da sua governação, começaram a tornar-se infestantes. Marcello, que lhe sucedeu no fado, soçobrou à mediocridade e safadeza envolvente. Nãi acabou assassinado, mas deportado vitaliciamente. Venha o diabo e escolha.

Não acredito em partidos nem ideologias, sobretudo entre nós. Demonstram-mo, exaustivamente, a realidade e a história. Tudo é postiço, lodoso e improfícuo. Esquerdas, direitas, geminam-se na mesma mediocridade invertebrada, materialista e imediateira. Mediocridade é favor; malignidade seria o termo rigoroso. A política enferma de todos os vícios e baixezas do futebol: a partidarite é apenas uma clubite mais rasteira.

Portanto, isto não vai lá com associações de malfeitores ou quadrilhas de amigos do alheio à boleia do Estado. Um Homem providencial? Deixem lá a metafísica. Basta-nos um homem sério e probo. No meio de tanto insecto rastejante alcançaria de pronto a força e a autoridade de um gigante.

PS: O espírito do povo português continua intrinsecamente monárquico. Só respeita ou um rei legítimo e consequente, ou alguém que governe como tal. E a diferença não está nos adereços, mas na essência, ou seja, no homem. E no seu espírito.

segunda-feira, julho 20, 2015

Uma Electricidade, dois Estados



Imaginemos a galinha dos ovos de ouro. Transposto para a realidade dá qualquer coisa como, por exemplo, a EDP.
A opção socialista é comer a galinha; a opção liberal é vendê-la. Ambas são espantosamente estúpidas. E atentatórias do interesse nacional.
O défice energético português ronda actualmente os 7 mil milhões de euros. 
Mas este é pacífico e tranquilo. Não preocupa ninguém. O que preocupa muito as pessoas, desde as Agências de Notação aos desgovernantes delegados, passando pelos FMIs e coiso e tal, é o défice tarifário. Este, entidade próxima do inefável, significa o diferencial entre o preço da electricidade ao consumidor e o preço "real" da electricidade. Ninguém sabe exactamente como se apura, mas o certo é que os vendedores de electricidade perdem dinheiro no negócio, coitados. E isso causa até insónias aos Joões Miranda deste mundo.
Ora, em Portugal paga-se um preço caríssimo pela electricidade (o segundo mais elevado da União Europeia). Mas, segundo estes curandeiros da economia, esse exorcbitante preço, afinal, é artificialmente baixo.  O que se passa é que  os empórios eléctricos, além do balúrdio que esmifram ao consumidor, ainda recebem um complemento do Estado (ou seja, além do balúrdio que cobram directamente ao consumidor, cobram um complemento indirecto ao mesmo consumidor, feito contribuinte, na pessoa do Estado). 
Entretanto, algumas destas luminárias pantacientes explicam-nos como o Estado subsidia a electricidade aos consumidores (socialismo inadmissível!!...). Ao mesmo tempo que arrecada uma carga fiscal de 42% no preço da electricidade (austeridade obrigatória e indiscutível).  Quer dizer, tudo bem pesado, o consumidor é esfolado a meias pelo Estado e pelo Grande traficante de energia. Que, curiosamente eram, até há pouco tempo, a mesma pessoa, ou seja, o Estado e ele próprio. Agora já não: são dois Estados - o Anti-Português e o Chinês.

É certo que somos já e seremos cada vez mais competitivos. Não na economia, é certo; mas seguramente na estupidez. Sempre é melhor que nada.




Dragão Verne




Se a energia nuclear tem como único calcanhar de Aquiles a questão dos resíduos (devo confessar que não sou entusiasta nem fóbico do nuclear), parece-me que é um problema de solução relativamente simples: enterrar os resíduos na Lua, de preferência no lado escuro, para ninguém ver.
Esta ideia não é tão lunática quanto parece. E embaraça-se apenas no facto, julgo eu, dos únicos países com capacidade para o transporte serem os dois principais interessados na manutenção da hegemonia dos hidrocarbonetos. Deve ser por causa disso que ninguém ainda mencionou o óbvio. Ou então há um qualquer bloqueio oculto de potências alienígenas.


PS: Em todo o caso, para uma espécie que não manifesta qualquer escrúpulo em cobrir o seu próprio planeta de lixo, decerto não desatará com esquisitices em relação ao satélite deserto, inóspito e estéril deste.

sábado, julho 18, 2015

Imperativo categórico

Entre nós, repta uma espécie de gente que, ao mesmo tempo que vitupera com severidade os destituídos gregos, arde em frémitos de piedade e ternura solidária pelos contribuintes alemães.
Já eu considero que é um privilégio (e um imperativo categórico!) para os contribuintes alemães pagarem pelos desempregados dos países do Sul da Europa. Afinal, todos estes infelizes têm andado a imolar-se (e penam no limbo austeritário)  para benefício, saúde e glória dos contribuintes alemães. 
Até o grande contribuinte português, esse valentão das dúzias, cagamilhões encartado, quantos desempregados às vezes não produz por estrito amor (compulsivo e sincero!) às mercadorias da indústria alemã?!...
Por conseguinte, perante este esforço uníssono e concertado das gentes do Sul da Europa. podem os contribuintes alemães crivar de desprezo os seus reais benfeitores? Se ainda subsiste algum resquício de moral, julgo que não.
Que as nossos cinocéfalos de plantão já nem a mínima noção de amor próprio exibam, só atesta de como, por estes dias de crise identitária, a função suplanta a natureza.

quinta-feira, julho 16, 2015

Salários, salafrários e Dignitários (rep)





Sobre as mais recentes proclamações do Che Otelo, vale sempre a pena relembrar um postal antigo (de Agosto de 2007) aqui da casa. Pelos vistos, habita-me o condão da imarcescibilidade... (Só não está plenamente actual porque, entretanto, os gatunos compulsivos deram lugar aos traidores frenéticos).


Segundo um qualquer Pasquim matinal, nas Forças Armadas portuguesas, um estomatologista ganha quase três vezes mais do que o Chefe de Estado Maior General, ou seja, em números concretos, 5183 euros para o general Chefe; 14 716 euros para o caçador de cáries.
Naturalmente, se bem vos conheço, vosselências aguardais um parecer meu sobre tão suculenta matéria. Importa, pois, que não vos desiluda.
Pois bem, acho que tudo isto está um pouco, quiçá até senão mesmo ligeiramente inflacionado. Trocando por miúdos: se por um lado não acho mal que o estomatologista ganhe mais do que o general-Mor - e, já agora, também que o presidente da república (7.262€, fora as alcavalas) , que o primeiro-Ministro e, em cascata sublime, que todos os outros altos dignitários da Nacinha por aí abaixo (afinal de contas, por pouco que seja, o tratador sempre faz qualquer coisa de útil e meritório na vida) -, por outro, parece-me que 14 716 euros raia o exagero. Digamos que com uns 5000 euros para ambos (guardando a justa vantagem para o dentista) fazíamos a festa e ainda recauchutávamos a moral. Pelo menos, os contribuintes não se sentiriam tão descaradamente - já não direi lesados - mas assaltados em cada ano que passa.
Até porque hoje em dia não faz qualquer sentido continuarmos a chamar Forças Armadas àqueles funcionários públicos que paradeiam e nidificam pelos quartéis. Armadas, só se for mesmo em parvas. Basta recordar como na última guerra em que foram chamados a defender o território nacional, entraram como exército e saíram feitos "Movimento de libertação". Não me perguntem porque é que, em vez de acabarem com os terroristas, desataram a emulá-los. A África, que conheço bem, é dada a estes mistérios e feitiços. O certo é que maçados de defender o ultramar, acharam por bem vir atacar a metrópole. A pretexto de a libertarem, escreveram na Ordem de Serviços. E, de modo a ganhar embalagem, começaram por libertar-se a eles próprios de escrúpulos, honra, sentido do dever, coluna vertebral e todo e qualquer respeito pela bandeira e pela farda que envergavam. Assim, devidamente libertos, puderam debandar com quantas ganas e vísceras tinham, mais as hirsutas coifas recém-descobertas, para nos virem libertar a nós - sobretudo duma série de preocupações e anacronismos cansativos, como a independência e a autodeterminação, só para citar as mais insignificantes (a gravata e o escanhoamento merecem, cada qual, todo um tratado à parte). Desde então, guerra não é com eles. Converteram-se em soldados da paz - uma mistura pacóvia de escoteiros internacionalistas e turistas fardados. Por conseguinte, não vejo qual seja a necessidade, ou sequer a justificação para continuarem a ser tratados -e ainda menos pagos - como se de soldados se tratassem. Soldado da paz, que eu saiba, é bombeiro. Pelo que o justo era integrá-los a todos, e duma vez por todas, no Regimento de Sapadores Bombeiros, que passaria a Brigada, ou Divisão se tanto, e o General Chefe a Comandante de Bombeiros (neste caso não já e apenas municipais, mas internacionais). Depois disso, poderiam continuar a mandá-los na mesma fazer de sipaios de aluguer por esse mundo a fora, não vejo qualquer inconveniente nisso. Cada qual é pró que nasce. Mas, claro está e condição sine qua non, desde que fossem de machado, capacete e auto-escada. Assim é que lhes ficava apropriado. Agora submarinos, blindados e outros gadgets que tais não sei que raio de falta façam a bombeiros ou justifiquem fatias do orçamento. Além disso, nos intervalos das viagens de servidão do globo sempre podiam ser empregues em qualquer coisa de prestável ao país, como o combate a incêndios no verão ou a limpeza de matas no inverno.
Quanto à tropa fandanga, ficamos conversados. E é melhor não me puxarem muito pelo badalo.
No que respeita àqueloutros altos dignitários da Nacinha, dado o nível cada vez mais baixo a que essa altura decorre, convém acrescentar alguns detalhes. Que se sintetizam num postulado essencial: parece-me lógico, sem qualquer tipo de hipérbole ou ironia, que essa gente devia pagar para exercer. O presidente da República e o Primeiro-Ministro, especialmente. Pagar (do seu próprio bolso, evidentemente) o alojamento, os carros, as viagens, a alimentação e ainda, a título de indemnização pelos prejuízos colectivos que sistematicamente caucionam e perpetram, o equivalente ao salário actual em prémio a distribuir mensalmente através de lotaria popular (que mecanismo mais democrático, digo e repito, não existe). Talvez se pagassem, começassem a dar valor e a ter algum respeito pela função, já que pelo povo em geral continuo com as minhas dúvidas. E também era sinal de que possuiam bens prévios ao exercício do poder, pelo que só ali estavam para asnear generosamente e não, como é sórdido costume, para asnear e, ainda por cima, enriquecerem à nossa custa, fazendo-se cobrar faustosamente por isso. Delapidarem o érario público a malta ainda desculpa... ainda é como o outro, descontamos à tradição; agora locupletarem-se e fartazanarem-se nele é que nos enfurece. Esbanjar é próprio dum rei, mas pilhar é típico dum gatuno.
Já os deputados ao Parlamento, bem como a generalidade dos autarcas maiores, não bastaria que pagassem monetariamente. Em complemento obrigatório, o castigo físico e o serviço cívico ao domicílio dos cidadãos (também através de sorteio) seria imprescindível. Absolutamente indispensável.
A Santa Casa havia de bater recordes de receita. Era uma destas corridas aos quiosques!... que até desconfio que deixava de ser preciso cobrar impostos.

quarta-feira, julho 15, 2015

O caminho da Servidão

Portugal. por muito que isso custe a certas pessoas adoradoras de patacas e cabedais, é um país pobre. O clima não favorece muito a agricultura (chove no inverno quando devia chover no verão), o solo também não é lá muito fértil (tirando o Ribatejo e os barros de Beja), a coisa é assim a atirar para a Grécia e as matérias primas valiosas da idade industrial não abundam (petróleo, diamantes, ouro, por aí fora). Mas é pobre sobretudo em inteligência, brio e espírito empreendedor. Terei que considerar o espírito copiador como o contrário do espírito empreendedor, salvaguardando, no entanto, que o copiar pode constituir um meio útil (ver exemplo japonês), desde que não se transforme em fim predominante. Ora, entre nós, o macaquear o êxito alheio (quer externa, quer mesmo internamente) tornou-se, pelos vistos, o fim único da existência dessa classe peregrina e inefável que se proclama como "empresários". Isso, adicionado a mentecaptice de que podemos e devemos ser competitivos, constitui o bolo cremoso em que todo este infantário se lambuza. Como é que um país de dez milhões de habitantes, com uma indústria reduzida a cacos, um Estado entregue ao gangsterismo extorsionista, custos energéticos dignos duma cleptocracia africana e uma corrupção endémica ao nível da américa latina, vai competir com quem quer que seja, tirando a Guiné-Bissau, Cabo Verde ou a Líbia Democrática? Como é que os mesmos que desmantelaram o país, vão agora torná-lo "competitivo"?
Agora note-se a clarividência catita e a coerência supimpa destes apologetas da competitividade...
O mesmo Portugal que deve sujeitar-se servilmente às superiores potências militares, pois, segundo estas mioleiras milupa, não lhe resta qualquer outra espécie de alternativa, devém, por artes mágicas e abracadabranadas, bestialmente competitivo no mercado económico caso cumpra não se sabe bem que requintes auto-flagelantes e masoquistas para FMI ver. Politicamente (militares, para que é que isso serve?...), nem por sombras deve a nação ousar qualquer espécie de defesa dos seus interesses, nem ontem, nem hoje, nem em tempo algum (somos poucos, somos fracos, somos desgraçadinhos); mas economicamente, ei-la que pode ser extrema e miraculosamente competitva. Assim, do pé para am mão ( e de ambos para os fundilhos da coluna). Ou seja, politicamente somos um zero à esquerda (a não ser que agarrados à sola do sapato dalguma grossa e roncante Potência); mas economicamente, daqui por trinta anos, ninguém nos segura!...
O Dr Salazar era um malandro, um alucinado, um destemperado porque tentou competir com os impérios. Utilizando para o efeito uma moeda sólida, uma economia em crescendo consolidado,  prudência, firmeza e o melhor cacete internacional de que podia dispôr. Porém, não era eterno e isso, no fundo, é que nunca lhe perdoarão. Agora estes, com o contrário disso tudo, vão por artes bufarinheiras de perlim-pim-pum, realizar o prodígio miraculejo. Políticos da banha-da-cobra, nem mais. Chusma de tarantas, futriqueiros e acéfalos em redor. Elitose que amoleceu a alcatra nos bancos das universidades e saiu de lá tão bruta, alvar e burgessa como para lá entrou. 
Ora, a economia e a política não são em modo ou tempo algum dissociáveis. Ao abdicarmos de política própria e autónoma não podemos estar à espera de ser recompensados com uma economia pujante, independente e proveitosa às nossas expectativas. Pelo contrário, a economia acaba a ir pelo mesmo ralo da política. Sujeitamo-nos, vilmente, a políticas e economias alheias; vivemos às ordens, empurrões e humores de outros. É assim com as pessoas, como é assim com os países. Hoje, como na véspera, o país continua na bancarrota - uma bancarrota por controlo remoto, cujo rastilho e detonador residem em valhacoutos tão prosaicos e ubescos como as Agências de Notação. A mesma classe de gente que no tempo do Pinóquio avestruzava a cornadura em troco da babuge ao chefe, e não via o óbvio ululante, agora faz o mesmo em relação ao Vígaro de Vasconcelos residente. E continua a exportar, junto com pessoas a esmo, dívida de empreitada, como se não houvesse amanhã (e toda a nação se tivesse que imolar aos gastos sumptuosos dum estado anafado e inútil -a não ser, bem entendido, para a funcionarite amesentada e os partidos que nele mamam). A nova descoberta rançosa e de importação é que não compete ao estado criar emprego. Pois não; mas compete-lhe criar desemprego e miséria. Porque despede os mil e um disfuncionários que por lá parasitam? Não porque destrói empresas a eito. Por amor, encomenda e garantia ao abastecimento externo de dose mensal para os teúdos e manteúdos do regime. O resto que se fornique!...
Mas este tipo de gentalha, infelizmene cada vez mais (que maior sonho da escumalha infra senão tornar-se escumalha supra) acha que a sua casota deve ser fortificada com todo o tipo de alarmes, barreiras e sistemas de vigilância; mas o país deve existir de fronteiras abertas, janelas esgargaladas e mesa posta à descrição do forasteiro. Pois, caso contrário não é competitivo, nem amigo dos mercados, e Bruxelas passa multa. E toma lá não sei quantos mil refugiados da treta, onde é indistinto o terrorista-à-boleia do aterrorizado de ocasião, que é para almoçarem, e compensar das emigrações dos naturais, do aborto induzido e gratificado, e da disfunção eréctil endémica. E colunar.
O que é excelente para eles é, pois, péssimo e inadmissível para o país. Muitos continuam a jactar empáfia e verborreia possidónia, enquanto a sua pátria jaz de rastos na latrina da História (foi um gás que lhe deu). Ninguém lhes exige que se compadeçam. Ou que se arruinem em arroubos de caridade. Pede-se apenas que não arrotem.


PS: Ah, e descobriram o mar... Depois de terem afundado a frota pesqueira. A troco de patacos. 

terça-feira, julho 14, 2015

Phronesis

«Quero este país pobre, se for necessário, mas independente - e não o quero colonizado pelo capital americano.»
- A.O. Salazar (a Franco Nogueira, em 13 de Março de 1963)

O último governante português com noção clara de uma das mais importantes virtudes intelectuais antigas: a Phronesis.  Que também pode ser traduzida por Prudência. Ou Sabedoria prática, segundo o Filósofo. Um Logos ainda não pervertido por uma mera ratio, mas norteado por um ethos.

domingo, julho 12, 2015

Geopolítica ou Baile de Máscaras?





«Lenine morrera em 1924, Trotsky fora exilado em 1929; e Staline consolida na Rússia a sua ditadura. A partir de 1930, procede à liquidação dos inimigos, dos dissidentes, dos teorizadores como Plekhannov ou dos moderados como Bukharin; impõe a colectivização maciça; e a terceira internacional apresenta-se como garante da vitória da revolução comunista na Rússia e no Mundo. Recebem novo ímpeto os partidos comunistas em cada país, organizam-se as quintas colunas, lançam-se movimentos sindicalistas de combate. Por toda a parte, o comunismo de inspiração e obediência russa apresenta-se aos homens como arauto exclusivo da justiça social, único paladino dos oprimidos, promotor singular do desenvolvimento rápido. É um novo messianismo, em nome da unidade invocada para ligar em todo o mundo as "vítimas" da burguesia e do capitalismo. Mas em face da experiência russa ergue-se a experiência italiana. Esta tem agora dez anos, afirmou-se internamente, elaborou a sua doutrina. Mussolini é ditador indisputado da Itália, e o seu fascismo aponta aos homens novos valores: a ordem pública, a reparação das injustiças internacionais, o engrandecimento nacional, a vida heróica. E por toda a parte é estimulada a criação de partidos ou movimentos fascistas. Simultaneamente, é fundado o partido nacional-socialista na Alemanha. Hitler ataca de um só golpe o comunismo de obediência russa, o liberalismo tradicional, a social-democracia de raiz ocidental. E convida os homens ao culto dos valores que proclama: a construção da nova ordem europeia, a superioridade da raça alemã, a libertação de uma Germânia escravizada em versalles. Estes três totalitarismos, no fundo, identificam-se com os interesses nacionais dos países em que germinam: a revolução mundial de base comunista está ao serviço do expansionismo soviético que mergulha as suas raízes em Pedro o Grande, e em Catarina; o fascismo italiano mascara a reconstituição do mare nostrum romano; e o nazismo alemão baseia a sua nova ordem na conquista do espaço vital para dilatar o povo germânico.»
                 - Franco Nogueira, in Salazar, Vol. II


É uma evidência que qualquer pessoa com dois dedos de testa entende: os internacionalismos não passam de meras fachadas para a mandíbula do interesse de certas nações. Outro fenómeno persistente traduz-se na invariável tendência do internacionalismo para o totalitarismo. Foi assim no passado (com os três atrás expostos); e é assim no presente. Cortinas de fumos como ONU, FMI, Banco Mundial,  Globalização, não passam, efectivamente, de meras correias de transmissão do interesse anglo-saxónico; puro e duro. A parvoeira (e capoeira) europeia foi concedida como recreio aos alemães (até que ao interesse hegemónico convenha; o gatilho da guerra civil europeia está sempre à mão).
O que torna este Totalitarismo anglo-saxónico mais perigoso que os outros é o facto de se mascarar melhor e de intoxicar com meios maciços, desembaraçados e ininterruptos. Isso e, sobretudo, o facto de ter absorvido e sintetizado hegelianamente o que de pior havia nos outros três.
Quem tiver olhos que veja, quem tiver ouvidos que ouça.



sábado, julho 11, 2015

Trevas e Luzes (rep)


Tem um certo interesse recordar aqui algumas daquelas que eram as "profissões párias" da Idade Média. Em pleno século XII, sob a forte influência duma Igreja pouco inclinada a "modernismos", no index profissional (ofícios desonrosos), figuravam, entre outros: 
* Prostitutas 
* Magarefes 
* Jograis 
* Cozinheiros 
* Soldados 
* Taberneiros 
* Advogados 
* Juízes 
* Notários 
* Médicos 
* Cirurgiões 
* Mercadores 
* Banqueiros 

Não deixa de ser curioso o destino que a História reservará a estes ministérios: a Idade Moderna procederá à sua reabilitação; a Idade Contemporânea velará o seu triunfo. Nos dias de hoje, sem sombra de dúvida, equivalem, em grande medida, aos ofícios mais bem pagos do planeta. Este desenlace, aos nossos olhos, simboliza o triunfo dessa classe -de prostitutas, cozinheiros, magarefes, advogados, médicos, taberneiros, mercadores e banqueiros-, denominada, no seu conjunto, por burguesia. Em contrapartida, aos olhos severos e pouco elásticos do espírito medieval significaria a glorificação da desonra, a aclamação do ilícito, o império da vileza. 

Por muito que nos proteja o santíssimo sacramento da aversão cultivada e promovida a esse tempo de "trevas", quanto mais mergulhamos nos "luzes" resplandecentes destes novos tempos e assistimos às tropelias histriónicas destas novas gentes, mais se instala em nós um profundo mal estar, mais nos assaltam doses crescentes de angústia e sentimentos paradoxais de incerteza. Um dos mais constrangentes é esta suspeita, vaga mas atazanante, de que, se calhar, os medievais não eram tão estúpidos como os pintam.

PS:  O facto é que a imundície medieval deveio elite contemporânea. Em Portugal, então, é um mimo: ultimamente, ocorre a apoteose dos cozinheiros.

sexta-feira, julho 10, 2015

O Medo

«Mas entendi que não devia, por causa do perigo, proceder de maneira indigna dum homem livre e, por isso, não me arrependo da defesa que apresentei.
Prefiro morrer depois de semelhante apologia a viver por um preço desses! Nem no tribunal nem na guerra é lícito a alguém, a mim ou a outra pessoa, recorrer a todos os meios para escapar à morte. Efectivamente, todos sabem que é muitas vezes fácil evitar a morte em combate, lançando fora as armas e dirigindo súplicas aos perseguidores. Da mesma maneira, em todos os outros perigos, há muitos processos de uma pessoa escapar à morte, desde que esteja resolvida a fazer e a dizer tudo. Talvez não seja, por isso, difícil, Atenienses, evitar a morte, muito mais difícil é conseguir não praticar o mal. E o mal persegue-nos mais rápido do que a morte. Assim se compreende que, lento e velho como sou, me tenha deixado apanhar pelo mais lento destes corredores, ao passo que os meus acusadores, que são fortes e ágeis, se deixaram apanhar pelo mais rápido, que é o mal. Vamos, pois, sair daqui, eu, condenado por vós à morte, eles, condenados pela verdade à infãmia e à injustiça. Pela minha parte aceito a minha pena, tal como eles aceitam a deles. certamente era preciso que as coisas se passassem assim e eu creio que tudo está certo.»
- Platão, "Apologia de Sócrates"

Uma lição de milénios: viver a qualquer preço define a mentalidade de escravo. Aterrasse Sócrates, o genuíno, nos dias de hoje e pasmaria com a quantidade de medos e medinhos com que se formatam os escravos: medo à pobreza, medo ao desemprego, medo às finanças, medo aos esbirros da mais variada ordem, medo à velhice, etc, etc.
Perguntava-me um leitor aqui há dias, entre outras questões cabeludíssimas, se eu cria numa luta cósmica entre duas entidades - o Bem e o Mal... 
Penso que é conceder ao mal uma dignidade maiúscula que ele não merece. Platão taxava-o de privação. O mal não ultrapassaria, segundo ele, a ausência do Bem (a treva é a ausência de luz). A igreja, a partir de Santo Agostinho (que era um platónico contaminado pelo maniqueísmo) também. Aristóteles nunca foi muito por aí. Depois de S. Tomás, a Igreja equilibrou-se mais entre ambos. 
A minha posição pessoal sobre o assunto é irrelevante. E exigiria alguma explicação mais detalhada. Por agora limito-me a uma das poucas certezas que alcancei sobre o assunto: da dimensão do mal não sei, apenas sei de alguns dos acessos por onde ele se infiltra na alma humana. E um deles, senão o principal, é o medo.
Não é  por acaso que constitui o principal ingrediente da propaganda actual.

quinta-feira, julho 09, 2015

A Coisa-Homem (rep)

Quando, às tantas, tenho que repetir coisas antigas não já de anos mas de meses, alguma coisa vai esquisita na cabeça das pessoas. Dir-se-ia que, na ruminação - chiclética e obessiva - da palha do presente, perderam tanto a capacidade de memória quanto a de projecção. Mas, em todo o caso, e correndo o risco de estar a fornecer água a crivos, aqui fica:


O Homem é escravo em múltiplas dimensões e de múltiplas maneiras; e senhor apenas numa só. Serve ao estômago, serve ao sexo, serve à embalagem de tudo isto e serve, quotidiana e fatalmente, de porteiro na discoteca das sensações ou de guarda-nocturno no beco dos instintos, ali prós lados das escadinhas da vontade, onde moram, entre outros, o Aleive, a Gana e o Capricho; e é, na medida em que se consiga elevar acima destas servidões, senhor do seu pensamento. 
O dinheiro não tem nem reconhece senhores: apenas servos, escravos e vítimas.
Duas ilacções logo à partida: a liberdade não pertence à dimensão material do Homem, nem se compra a peso de ouro. Quem pensa que pode adquirir a liberdade por via da finança, não pensa e apenas adquire uma servidão ainda mais profunda, impiedosa e atroz. Não se é mais livre porque se é mais rico; nem se é mais escravo porque se é mais pobre. Quando muito é-se, respectivamente, mais servo ou mais vítima.  Do pseudo-pastor neste curral da Necessidade. E o aplicável a pessoas é naturalmente extensível a sociedades e países.
A liberdade também não é objecto do pensamento: é condição para a existência do mesmo. O homem pensa na medida em que se liberta. O pensamento é a liberdade ou, de todo, não é. Fica algures entre o Nada, o Absurdo e a Sumptuosa Ninharia.

Há um valor vulgar e utilitário nas palavras, mas há também uma substância nobre. Dizer o para o que uma coisa serve é  distinto do  dizer o que uma coisa é. Uma distinção do tamanho duma imensidade. Porém, no nosso tempo, o valor utilitário das coisas não apenas eclipsa a substância das coisas: substitui-a. Usurpa-a. Ora, se as coisas se atrofiam e nanificam numa mera servidão, reduzidas e miniaturizadas a meros utensílios, e entre elas a coisa-homem, então o reflectir, calcular ou elaborar sobre isso não é exactamente da ordem do pensamento, nem, intrinsecamente, da liberdade.Rumina-se bastante, mas pensa-se nada. Vai-se reboque de fezes, fezinhas e fezadas, gasta-se a vida numa odisseia de bosta mais ou menos fertilizante. Não creio sinceramente que buliçosas conferências em torno da rentabilidade, competitividade, teor de gás ou sangue do estrume duma civilização constituam qualquer forma genuína de debate ou nobre demanda. Compensa-se com alarido a ausência de horizonte. A Caverna, pois é, descambou em Curral, portas meias com o açougue. Mas cada tempo tem a Alegoria que merece.


Agora é que ele vai ver como elas lhe mordem

domingo, julho 05, 2015

Escravos há muitos

Quem seria mais livre, Diógenes ou Alexandre?
Quem seria mais rico, Aristóteles ou Alexandre?
Quem influenciou mais a história da humanidade, Aristóteles ou Alexandre?

Segundo Laércio, Diógenes terá sido em determinada altura colocado em hasta, como escravo. Não parece que isso lhe tenha causado qualquer abatimento ou tristeza. Manteve a plenitude do espírito e a sua vivacidade proverbial. De tal modo que ao ver aproximar-se um qualquer sujeito cuja fisionomia lhe interessou, e que por ali andava a inspeccionar a mercadoria, invocou-o nos seguintes termos:
-"Tu, aí! ...Compra-me. Tens cara de quem precisa de alguém que te oriente na vida!..."
E o outro assim fez. Com proveito de que posteriormente se gabaria e pelo qual sempre ficou agradecido.


Hermias, que foi amigo de Aristóteles durante muitos anos, começou por ser escravo, degradou-se depois a banqueiro e terminou os seus dias como tirano. Enfim, o percurso emblemático de qualquer escravo excelente.
E refiro isto em termos genuínos da filosofia de Platão, para quem o grau de "tirano" é o mais baixo da escala humana. E abominava a democracia por isso mesmo: por parir tiranos. E cultivar excelentes escravaturas.

PS: Não obstante, por influência de Aristóteles e Platão (Hermias, na juventude, foi discípulo na Academia), a tirania de Hermeias tornou-se mais branda e "filosófica". Curiosamente, Hermias chegou a tirano por herança. Do seu Senhor.



sábado, julho 04, 2015

Mais pérolas da suinicultura

Mais algumas pérolas sobre a Grécia Syrizada...

Que devemos apedrejá-los e cobri-los de cuspo porque o tal Syriza é um coio de ex-maoistas e ex-stalinistas e coiso e tal.
A gentalha que proclama isto é a mesma que elegeu um Durão Barroso para primeiro-Ministro, depois o lambuzou a Comissário Europeu e, se a deixarem, acabatá a vociferar para que o elejam Presidente da República. Como sabemos todos, Barroso é um ex-conservador da linha Burkeana. Esta mesma gentalha é constituída por indómitos sabujos da qualidade do tal JMF (disseram-se que ainda esta semana desovou nas pantalhas em representação da merklagem) que, à semelhança do Barroso, também é um ex-monge católico. Poupo-me à listagem completa por tédio. A própria fuhrerzinha Merkl, é sabido, foi nascida, criada e educada no colégio de Odivelas, onde vivia exilada e preservada daquele tugúrio comunista que era a Alemanha de Leste.

Que a Grécia anda aos ziguezagues e não tem estratégia. Pois, que a Grécia não tenha estratégia não me admira e até concedo. Já a Europa tem uma estratégia do caraças.  Servir de capacho aos Estados Unidos é uma grande e brilhante estratégia. Semear o caos à sua volta, da Ucrânia a Marrocos é sublime e augura o melhor dos mundos. Destruir o consumo para acudir ao casino da Banca também é brilhante. Até para a própria Alemanha, que é o maior produtor/exportador do capitalismo europeu. Ter deslocalizado a produção para a China também foi extraordinário de inteligência estratégica e amor benemérito aos povos europeus.. A China, recordo, que não é nada comunista nem nunca foi maoista, graças a Deus.
Em contrapartida, Portugal, em matéria de estratégia, dispensa comentários. Mais que esquizofrenia (oscilações de sabujice rastejante entre a Alemanha e os Estados Unidos, dependendo de que lado sopra a brisa), é já a polifrenia: entre Angola, a China, a Alemanha, os Estados Unidos e o Brasil, a nossa estratégia balança.

quinta-feira, julho 02, 2015

Europa é uma invenção grega

Europa, a originária, foi uma das paixões de Zeus. A actual dar-lhe-ia vómitos. 

Para aqueles que acham que a democracia é o "menos mau" dos regimes, como dizia o bipolar, basta atentar que foi graças à democracia que os gregos içaram o actual governo deles e nós içámos este nosso (após termos içado o anterior). Digo nós por estrita solidariedade retórica, pois não tive rigorosamente nada a ver com isso.  Sou contra a democracia (salvo entre os anglo-saxónicos,  que dela retiram proveito nos outros já que lhe são imunes por genética e resistências adquiridas), por isso mesmo.  Porque conduz, invariavelmente, a uma forma de governo pelos "piores". Donde não espanta que o governo seguinte consiga suplantar sempre o anterior nas malfeitorias e na incúria do interesse nacional. E não adianta, numa máquina de produzir chouriços, imaginar, tansamente, que a seguir vai produzir gente proba e vertical, porque não vai. É irrelevante que papelinhos lá metam: o resultado é o picado informe do costume. Se a gingajoga é de produzir chouriços, nunca vai produzir anjos. 
Todavia, há pessoas que se proclamam democratas dos quatro costados e ultra-pasteurizadas das ideias. Umas, desde que me lembro, outras desde há bocadinho... mas todas roncantes  e arrotantes na sua paixão à democracia, montado num desdém olímpico por qualquer outra forma de regime (todas comunas ou nazis, por conveniência destes promontórios da virtude). Todavia, ao mesmo tempo que proclamam este estado de espírito sublime e imaculado, insultam, grunhem e vociferam  a quem quer que não concorde com eles, ou manifeste ideias contrárias às suas (estou a ser piedoso com o termo "ideias"; muito piedoso, mesmo). Ou seja, são democratas de partido único: o seu. Que, de resto, acham muito bem (mais: de inteira e imperiosa justiça!), que açambarque o Estado, a parlamento, os media e  substitua até os santos nos pedestais das igrejas Ora, estes democratas do partido único parecem ter resultado duma epidemia (a peste dos comunistas infectou os outros), e agora todos, à mais esquerda e à menos esquerda (vulgo Centrão) querem implantar a ditadura do palavreado.
Esta é outra das razões maiores porque não acredito nesta democracia: a qualidade dos praticantes, crentes e devotos. São democratas meramente retóricos; politicamente são autênticos idólatras da tirania - da estupidez, sobretudo.
Mas a coisa atingiu tal grau de alarvidade, grunhice e mentecapção que agora já nem as próprias fronteiras respeitam: não admitem oposição nos outros países e, pior um pouco, se essa oposição, por capricho da tal máquina dos chouriços, escorre para o Poder. Aí, Deus nos acuda, é um escarcéu medonho e ininterrupto. Dir-se-ia que pretendem, à maneira do Moisés bíblico, castigar o terrítório insolente e a população amotinada com pragas e catástrofes da mais variada ordem, sobretudo de gafanhotos. Sim, porque eles acham as eleições sagradas desde que consagrem a eleição do partido deles. Fora isso, é inadmissível. Na verdade, já são também internacionalistas encartados: o seu partidaço irradia e alastra pelo continente; ou então é uma projecção dos trolles (e patrolles) internéticos ao mundo das notícias; ou se calhar é inter-rail senil, que sei eu!... O certo é que se uma daquelas sondas da NASA tem o azar de descobrir vida eleitoral em Marte, ei-los a largar foguetões de impropérios pela galáxia fora. E nuvens de gafanhotos capazes de causarem ainda algum eclipse total do sol, Deus nos proteja!...
Caso exemplar de tudo isto mesmo tem sido o verdadeiro rilhafoles instalado em redor da Grécia. Enxames de insectos iracundos, injuriam, agoiram e anatemizam a democracia grega (em nome, presumo, da democracia portuguesa). Se bem que a explicação mais lógivca, até, para o seu "internacionalismo estapafúrdio", reside no facto de não se sentirem portugueses, mas alemães, americoisos, FMIs, enfim, qualquer transnacinhalismo delirante desses. Atentemos numa pequena amostra do nível desta opinorreia turística desatada, que, no geral, não ultrapassa a descarga de suinicultura :


A mitologia grega explicada por uma besta...

A tirada mais excitante é quando o solípede proclama ao mundo e arredores:

«A Grécia moderna tem menos de dois séculos»...

Isto é uma argumínia do caraças. Então porque só se reinstalaram independentes e com loja posta há menos de dois séculos não são dignos de confiança, respeito nem piedade. Bonito!... Para extrair uma novidade destas da caixa dos pirulitos é preciso ter miolos de quê - de caca de galinha?...
É que os Estados Unidos só existem há dois séculos e mais uns trocos e não consta que isso os diminua muito. Aos olhos do jagunço escriba, bem pelo contrário, são o farol e o fontanários de virtudes da humanidade. Mais: eles sim, são os verdadeiros herdeiros dos gregos clássicos. E a Alemanha, coitada, só surgiu no mundo há século e meio. O que não a impede de fazer as delícias desta gentinha excitada com o desgraçado do lado. Aliás, parecem aqueles maltrapilhos estropiados à porta da igreja, que, antigamente, odiavam e esgadanhavam os rivais pela esmola da madame. E que dizer de Itália, que só existe há 154 anos? Um piscar de olho do rodas, e enchemo-la de pontapés e vitupérios? Também já não têm nada a ver com os antigos romanos, pois não... Ah, mas ainda constroem Ferraris, Lamborginis e Maseratis, que congregam a devoção maior dos donos destes filisteus da pluma! Valha-lhes isso e Santo Armani!... E há quantos anos existem a Croácia, a república Checa, a Eslováquia,  os Bálticos da esquina, e mais não sei quantas freguesias metidas a nação? 'Bora lá cuspir-lhes em cima e esnobá-los por cima da burra - ai deles se pedirem empréstimos?!...
Mas cúmulo dos cúmulos, e Israel? Foi plantada pelas grandes potências há coisa de meio século, ali, naquele quintal problemático. O que é que os actuais israelitas têm que ver com os velhíssimos hebreus? Praticamente nada. Ou pelos menos tanto quanto os actuais gregos têm que ver com os antigos.
A própria Alemanha, não foi ela, há menos de meio século, retalhada e reformatada pelas grandes potências? Não está reconstruída, em parte, há coisa de 20 anos? E não é digna de fazer pela dívida aquilo que, estupidamente, tentou fazer com divisões panzer? Mais que digna. Tem todo o direito, ora essa. Direito é tempo, e tempo é dinheiro; logo, direito é dinheiro.
Mais formoso que este raciocídio só mesmo a digressão geográfica à volta de certos mitos da nossa cultura. Como se toda a gente não soubesse já, desde há muito, ou pelo menos desde que há internet, que Homero, Hesíodo, Platão, Aristóteles, Sóflocles, Aristófanes, Hipócrates, Euclides, Arquimedes e para cima de uma miríade de outros sujeitos inefáveis, não nasceram à roda do Mediterrâneo coisa nenhuma, mas sim no arquipélago do Google, para lá do estreito da wikipédia!...
Então...
E nós, o que é que nós temos a ver com os antigos portugueses? Mais grave: o que é que o JMF tem a ver com um português? E quem diz o JMF, diz todo estes Centrões que vão do Bloco de esquerda ao Bloco de Direita? (Acho que fazem à moda dos Fulas, na Guiné: o patriarca manda cada filho para um partido diferente: assim, ganhe quem ganhar, a família nunca perde.)


Vamos lá a ver. Só o nome "grécia - Hélade" devia colocar-nos a todos, no mínimo, em sentido. Usar de um certo pudor. Tudo aquilo que, por enquanto, ainda nos distingue dos chimpanzés (não é o caso do JMF, que por isso mesmo escreve as baboseiras que escreve; ou de tantos outros caga-lumes internáuticos), a eles os devemos. Só pela patente das invenções dos antigos gregos que são usadas e abusadas por esse mundo fora, os actuais gregos, sendo um triste e vago arremedo dos outros, sombra próxima do Hades, ainda assim, teriam pleno direito a viverem à grande e à ... americana. De empréstimo? Não. De renda. De juros. Entenderam, ó javardos?...



PS: Tinha deixado isto por publicar, porque de certos circos e freak-shows de monstros, monglóides e mulheres barbudas o melhor mesmo (sobretudo por questão higiénica) é distância. Mas como me perguntaram, cretinamente, aí atrás, numa caixa de comentários, era um desperdício cair no chão.