domingo, abril 12, 2015

Acromiomancia revisitada - XVII. Da Reivindicação à Revolução




Ao ler as peripécias e tropelias do Movimento dos Capitães contadas pelos próprios, um tipo fico com a clara impressão de estar a assistir a uma hibridação de recreio infantil com pátio de manicómio. Uma primeira inferência possível é que esta gente, por um lado, estava viciada institucionalmente na puericultura fardada (colégios, cacademias, casernas, messes mantinham-nos submersos numa espécie de realidade paralela e hermética);e  por outro, que aquela coisa terrível que os apoquentava, lhes feria a delicada sensibilidade e para a qual não se tinham inscrito, a guerra enfim, tinha-lhes dado a volta ao miolo.
Todavia, sempre suspeitei que por detrás de toda e qualquer loucura há um método. Ou um doido mais doido que os outros que se arvora em Guia lógico do asilo.
Ora, no Movimento dos Capitães acontecem alguns fenómenos curiosos. O primeiro de todos, é a resma de não-capitães - majores, tenentes-coroneis, sobretudo - que coalescem e aparecem depois em espécie de tutoria dos catraios. E o segundo é o próprio móbil do movimento. Numa primeira instância é puramente corporativo e sindicante, como já vimos e escalpelizamos. Estão chateados com o decreto e acham que os espúrios atentam contra o "prestígio" das Forças Armadas (entenda-se, o exército). Mas há um momento em que esse pretexto adquire outros contornos mais desvairados e monomaníacos. Esse momento coincide exactamente na transformação da Reivindicação em...Revolução.

Reunião do MFA, em S.Pedro do Estoril, sábado, dia 24 de Novembro de 1973....

«Soava a voz bem timbrada do major Vitor Alves, coadjuvado pelo major Hugo dos Santos nos assuntos que mais directamente lhes estavam ligados, enquanto o capítão Vasco Lourenço secretariava com anotações e apontamentos de tudo.
Era impressionante o espírito de organização desta gente.
(...)
Por fim, lá veio o momento azado para o tenente-coronel [Luís Ataíde Banazol]:
           (Discurso do Ten.Cor. Luís Ataíde Banazol):
«Meus caros camaradas, eu creio que vocês estão a perder o que têm de bom: energia e tempo, organização e vontade.
Estão a esgotar-se com um assunto que não vale a pena. Decididamente não vale a pena.
O problema que vocês julgam que está no âmago disto tudo não vale um pataco, e vai contra os nossos camaradas milicianos.
Eles também têm as suas razzões, e não será pelo facto de vocês conseguirem levar a melhor, que tudo ficará resolvido. pelo contrário, cada dia que passa, tudo se agrava.
E isto não é por uma questão de galões. O que vocês estão e todos nós, é agonizantes; simplesmente agonizantes. Estrangulados por um regime que nos conduz directamente para o abismo, para a derrocada, aliás como o têm feito todos os regimes fascistas, nomeadamente os de Hitler e Mussolini.
Todo o mundo olha para nós, oficiais do quadro permanente, como verdadeiros agentes do nazismo. Agentes das S.S.
E não podemos de forma alguma evitar essa execranda imagem, se não tomarmos a iniciativa de uma reabilitação, uma redenção aos olhos do nosso povo e dos outros povos do mundo, utilizando a nossa força para derrubar o governo.
Tenho ouvido falar, insistentemente, no abalado prestígio dos oficiais. Pois que esperam voc~es daqueles, cujos filhos, irmãos e noivos são enquadrados por nós, para as guerras de África, donde poderão refressar mutilados, loucos ou mortos?
Que crimes estamos todos a cometer em nome da Voz do Dono?
É preciso que acordemos do pesadelo; é preciso acabarmos de vez com a maldita guerra colonial, que nos consome tudo, incluindo a própria dignidade de militares profissionais de um país civilizado.
Todas as nossas angústias, ansiedades e neuroses se situam na tragédia para que fomos e estamos a ser lançados, por um tenebroso conluio, que tem a hipocrisia por fachada e o assassínio por norma.
E nós, que representamos a força das armas, por que esperamos?
E nós, que vemos todos os dias esses exemplos de coragem dos moços universitários?
Desarmados, enfrentam a polícia de choque, e não deixam amortecer um só dia, a luta pela liberdade.
E nós, homens de armas?
É uma vergonha. Devemo-nos sentir envergonhados. É bem feito que nos humilhem e nos olhem com rancor. Somos a armadura da bestialidade e o bastião da brutalidade.
Não tenhamos ilusões: o governo só sai a tiro, e os únicos capazes de o fazer sair somos nós; mais ninguém.
Se o não fizermos, a História nos julgará, como julgou os abencerragens de Hitler.
Não devemos consentir que isso aconteça, e que os vossos filhos e os meus netos se tenham de envergonhar de nós.
Impõe-se a Revolução Armada desde já, seja qual for o seu preço e as suas consequências

Ecoou uma salva de palmas, como se se tratasse de um comício e não de uma reunião clandestina.
Depois, estabeleceu-se certa excitação, com trocas de impressões de uns para os outros. Entusiasmo efervescente, olhos a brilhar, torrentes de palavras em surdina. (...)
Chamada do primeiro inscrito para falar. Não se está certo de quem fosse. Tinha uma figura vulgar: baixo, cabelo muito curto, casaco largo que lhe pendia dos ombros.
Levantou-se, com ar um tanto empolgado por leve tremor dos lábios. Rendeu calorosa homenagem ao desassombro e à verdade das palavras que acabara de ouvir. Que trazia ali, por escrito, as opiniões dos camaradas que representava, sobre os assuntos constantes da ordem do dia, mas achava que, em presença do acontecido naquela sessão, essas respostas estavam ultrapassadas por completo.
Que agora, a resposta era só uma palavra: Revolução.
Mais aplausos.
Depois outro, no mesmo tom.
Depois outro que divagou sobre a angústia e inquietação colectiva que se revelava em todas as conversas nas salas de oficiais, a toda a hora. Eis que ali encontrou a resposta cabal: Revolução
- Diniz de Almeida,  Origens e Evolução do Movimento dos Capitães.

O relato de Sanches Osório confirma o de Diniz de Almeida:
«Ao fim e ao cabo, nesse plenário de Cascais foi decidido que a Comissão refundisse o programa, que não podíamos continuar com reuniões tão amplas e que o Poder tinha de ser tomado pela força (afinal a tese do Ten.Cor. Banazol). Assim, o plenário deu poderes à Comissão Coordenadora para nomear uma Comissão articulada numa parte militar e outra política, as quais fariam respectivamente o planeamento militar da Revolução e o Programa político.»   (in, O Equívoco do 25 de Abril, pp.25)
Entretanto, a 1 de Dezembro de 1973, nova reunião conspirativa, desta vez em Óbidos.
 «Presidiam-na Vasco Lourenço, Vitor Alves, Hugo dos Santos e Lopes Pires.
Dois pontos essenciais preenchiam a agenda. Para além do estafado ponto da situação, tão estafado quanto necessário, estava previsto submeter à votação as seguintes alíneas:
a) Quem é pela revolução imediata;
b) Quem é pela revoluçãoi após um prazo mais ou menos longo de preparação e aliciamento;
c) Quem é pela revolução com último recurso, depois de esgotados todos os meios de negociação com o actual governo »
- Diniz de Almeida,  in "Origens e Evolução do Movimento dos Capitães", pp216

Na reunião de Óbidos, Diniz de Almeida perora, advogando a revolução imediata. O seu mentor, Ten. Cor. Banazol, qual Trotski resfolgante, vai mais longe e apresenta, de chofre, um programa imediato de dissolução do governo, Presidência e Assembleia nacional.  Onde prescrevia qualquer coisa como:
     « PROCLAMAÇÃO AO PAÍS - JUNTA MILITAR DE SALVAÇÃO NACIONAL
    - Por imperativo da consciência da esmagadora maioria dos oficiais das Forças Armadas, à frente dos seus homens e prontos a fazer uso da Força, exigem:
- Demissão inediata do Presidente da República e de todod o Governo.
- Dissolução da Assembleia Nacional.
- Dissolução de todas as autoridaes polítricas.
Para evitar a efusão de sangue estabelecem que sejam abandonadas as instalações da Presidência da República e do Governo, por todos os actuais ocupantes  e guardas armados, até às 17 horas de HOJE.
Findo este prazo, as Forças Armadas executarão a ocupação dos edifícios a todo o custo e em quaqleur momento, com todos os meios ao seu dispor.
- São constituídas Juntas Militares de Salvação Nacional em:
Lisboa, Porto, Coimbra, Tomar, Évora, Bissau, Luanda, LOurenço Marques, Nampula.
 etc, etc(...)»

O "Programa" do Ten. Cor. Banazol era de tal modo desenfreado que apenas recebeu apoio dos indefectíveis, gerando censura por parte da maioria. Nas palavras do seu acólito Diniz, "ficou desde aí injustamente marginalizado por louco ou incapaz" ( a revolução começava assim por petiscar o seu próprio gatilho)... Não obstante, a semente estava lançada e iria florir meses adiante. Nessa animada reunião, acabou por ganhar, por margem mínima, a alínea c) (ver supra). Não sem que antes Banazol interviesse novamente, num assomo feroz de gana revolucionária:
  «Meus camaradas, eu sei que por esse processo de comissões para aqui, comissões para ali, nunca mais se chega ao fim e entretanto este vosso amigo vai com a trouxa às costas para a costa de África pela quinta vez. Com a devida vénia, não vou nisso. E sem desprimor para ninguém, participo-lhes que vou fazer o seguinte: no dia D, juntamente com a Artilharia de Évora e de Vendas Novas, cujos capitães estão todos comigo, ocupamos Évora, Montemor, Vendas Novas e Pegões. Interditamos assim uma fatia que parte o país em dois, enquanto fechamos as saídas de Lisboa para o Sul.
Constituímos em Évora ema Junta de Salvação Nacional, dufundimos panfletos, fazemos conferências de imprensa e aguentaremos o tempo necessário até sermos seguidos por vocês e por outros.
O Presidente, o Governo, a Assembleia, tudo isso há-de sair como peras podres abanadas pelo vento.»
Em resumo, o Ten-Cor. Banazol ardia em ímpetos bélicos para se atirar ao seu próprio Governo, e estremecia de repugnância visceral à perspectiva de voltar a África para combater o Inimigo. Esta sua derradeira alocução causou algum tumulto, conforme anota Diniz de Almeida:.
«Calma, vociferam uns perante o olhar atento de outros.
Levanta-se excitado o alferes Bargão e continua inflamado, mais jovem, as palavras de Banazol. Este, radiante, pois fizera-se ouvir, constata o eco e dá-se por satisfeito.» 
Assim, de repente, tudo isto me lembra "Os Demónios", de Dostoievski. O jovem alferes Bargão semelha aquelas figuras transtornadas e demenciabundas como a aluno de liceu ou a estudanta. Todas estas assembleias parecem reposições serôdias do serão cultural em casa de Chigalev. O corolário, então, é sumptuoso (nas palavras de Diniz de Almeida):
«Felizmente, no fim da reunião um excelente chouriço assado esperava por nós; também nas castanhas, se conjugavam desta feita, os esforços dos participantes.»


Vamos ao rescaldo.
O que significava "revolução" para aquelas alminhas?
Marxismo-leninismo aos molhos, maoismo de alguidar, jacobinite ao retardador?
É claro que havia por ali influências, geralmente pacóvias, de tudo isso. Mas a essência não era essa. Qual era então? Pura e simplesmente acabar com a guerra. Ora,  a única forma de acabar com a guerra era acabar com o regime. Ou seja, demolir a ordem que obrigava à guerra. Se o país fosse por arrasto, paciência.  Porque a guerra não era apenas com os terroristas, vulgo Movimentos de Libertação, mas com as tais "entidades internacionais" de serviço ao fole da história de conveniência. Repare-se que não é por acaso que o visionário Banazol colocava os militares sob alçada dos mesmos tribunais internacionais que os (nos seus termos propagandísticos) "abencerragens de Hitler. É que no plano internacional, on inimigos de Portugal eram, sobremaneira, e para aquela questão específica (do Ultramar), a Inglaterra, os Estados Unidos e a União Soviética, ou sejam, os aliados da 2ª Guerra. No fundo, os militares portugueses, segundo este erudito paranormal, estariam ao serviço do último resquício do "fascismo derrotado"  em 1945. Esta fantasia política não era nova: logo após a 2ª Guerra tinha sido muito explorada pelas forças anti-regime. Continuara latente e emergira no 13 de Março de 1961, em termos atenuados de mera inversão da política ultramarina, de modo a adequá-la ao gosto da época. Aos militares revolucionados pela arenga Banazólica cumpria, assim, concluir o trabalho inacabado das potências aliadas, varrendo aquele quisto anacrónico da história.
Agora, dir-me-ão os leitores, "sim,  mas essa tese descabelada não granjeou o apoio da maioria."
Pois, caros leitores, apontais muito bem. Mas, como bem sabeis, as revoluções nunca foram feitas por maiorias. O que, de resto, logo na página seguinte, o próprio Diniz de Almeida assinala::
«A consciencialização política, ia lentamente ganhando forma, acessível embora apenas, a uma reduzida minoria. A diferença de mentalidades entre a minoria vencedora do 25 de Abril e a maior parte do Exército havia de se agravar não só com o recalcamento decorrente da sua não-participação no movimento, mas também fruto dos inevitáveis pruridos que sempre surgem nestas circunstâncias.» (in Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, pp.221)
       
A minoria vencedora, sabemo-lo hoje, prosseguiria a sua gesta solapante, até à debandada colonial estar concluída em tempo record. Esta, a debandada, em 1976, ao Ten. Cor. Banazol, no seu livro "Os Capitães  generais e os capitães políticos" (pp.108), mereceria o seguinte comentário:
«A descolonização como está à vista foi uma hecatombe. E fez milhares de vítimas, pois fez. (...)
Estes finais são sempre apocalípticos, infelizmente, mas ninguém é capaz de travar o passo à marcha da Humanidade. Quanto mais se pretender travar, pior.
Por isso se começou por dizer que as personalidades, isto é, os homens em si, pouco ou nada podem contra a corrente dos acontecimentos históricos de tal envergadura.»

Curiosamente, esta perspectiva destravada (que triunfou, por muito que nos custe) aparece hoje repetida e papagueada por zombis mentais que, em tese, mas apenas por efeito de cuspo, se arvoram nos antípodas do Trotski de Abril. A justificação para a mesma reside no simples caso  do seu êxito eventual, tal qual ficou vertido - e gravado - para a posteridade num dos mais belos aforismos do nosso tempo, pela cantora Ágata: "sou pimba, mas tenho um mercedes!" 

Acromiomancia revisitada - XVI. Puros contra Espúrios




«Mas o governo aqui tem uma culpa gravíssima, uma responsabilidade histórica: a de não ter substituído a tempo o general Vassalo e Silva, reconhecendo que não estava à altura dos seus antepassados, um Albuquerque, um D.João de Castro (...) O ministério do Ultramar devia ter visto isso, e o ministério do Exército devia ter avisado o Ultramar. Com meses de antecedência soubemos que ia Goa ser invadida. Tivemos imenso tempo para substituir aquele homem, e mandar para Goa alguém que soubesse bater-se e morrer se necessário. Assim foi uma desgraça, e o Vassalo e Silva cometeu um crime histórico. Quando mandei o telegrama impondo o sacrifício supremo, pensei que me dirigia a um homem da estirpe dos antigos. Mas não, era um simples, um tipo que gostava de passar a vida a indicar como se faziam telhados.(...) Mas que quer o senhor? A Defesa escolhe os nossos guerreiros pela escala de antiguidade, como se fazer a guerra fosse uma simples actividade burocrática ou académica! Assim nada feito. E eu estou convencido de que se as nossas tropas tivesses resistido oito ou dez dias, ainda hoje tínhamos Goa.»
- A.O. Salazar (a Franco Nogueira, em 13 de Abril de 1968)

A verdade é que Salazar não estava a fazer apenas um diagnóstico para a queda do Ultramar passado, mas a enunciar também um prognóstico para o colapso do Ultramar futuro. O mesmo espírito burocrático, funcioneiro e "académico" haveria de ocasionar o descalabro geral meia dúzia de anos adiante.

Surpeendemo-lo, na sua génese, em pleno outono de 1973...

Após os decretos 353/73 e 409/73, a oficialagem do Quadro Permanente começa a comichar-se.  Do múrmurio, rapidamente passa-se à rosnadela sindicativa, traduzida na emissão de papéis indignados perante as instâncias superiores. Note-se que não se trata de ruído meramente conspirativo, mas de protestos abertos cujo intuito é dar notícia ao Estado-Maior e, sobretudo, ao governo. Em Outubro de 1973, o "Projecto de Refutação da Circular Nº 490/S de 14 de Setembro da Repartição de Oficiais", refere, entre outras pérolas reivindicativas:

«Pague-se aos capitães que arriscam a vida para que sigam para a frente os projectos de Cabora Bassa ou a exploração das minas da Diamang AO MENOS METADE do que ganha um engenheiro dessas obras ou minas (...) utópico é querer galinha gorda por pouco dinheiro...

(...)

O País está a sacrificar os seus militares, mas não os seus advogados, os seus banqueiros, os seus engenheiros, os seus industriais, etc. Porquê e com base em que sistema de moral este sacrifício exclusivo de um grupo profissional de cidadãos?»


Ao ler isto, comecei por embarcar na lógica da coisa. Mas depois, ao tentar ajustar a justiça à lógica, a peça não batia com o molde. Então um militar, ainda mais em tempo de guerra, era um funcionário público equiparável aos outros? Sendo que, para cúmulo, fazia-se até uma equiparação a profissionais que, na grande maioria, nem sequer eram funcionários públicos, mas privados. Bem, se queriam ganhar como os engenheiros, tinham bom remédio: saíam da tropa, matriculavam-se no Técnico e, concluído o curso, candidatavam-se a um emprego mais bem pago. Juntavam o útil ao agradável: ganhavam mais e arriscavam menos.Aliás, ainda hoje é assim que fazem os pilotos da força aérea, quando a gula mercenária os invade: saem da aviação militar e vão trabalhar para a aviação civil.
Subitamente, acode-me até à mente aquela frase perturbadora do sono nas aulas de Ética doutros tempos: "Um homem não é uma puta". E um guerreiro a discutir tarifas, não só emula a rameira, como descamba em mercenário. Há qualquer coisa de obsceno neste tipo de reinvindicação. É como um padre a reclamar à Igreja por não usufruir de esposa e amantes como qualquer gerente comercial...
Entretanto, estes mesmos oficiais dispunham de termos de comparação dentro da sua própria instituição, que, bem vistas as coisas, poderiam queixar-se em relação a eles do mesmo, ou pior, que eles se lastimavam em relação a engenheiros, advogados, financeiros e etc. De facto, os oficiais milicianos, auferiam de muito menos privilégios e arriscavam muito mais, pois a maior parte das acções de combate, como está hoje demonstrado, era desempenhada por eles. 
Ora, isso mesmo, preto no branco, apareceu um belo dia manifesto num documento que circulou nas  fileiras, entre 24 e 28 de Novembro de 1973...

                Camarada Oficial Miliciano

1. Já viste quantos oficiais do Q.P. estão contigo na guerra, mas na guerra de facto: no DURO, nas MATAS, nas PICADAS?
 Conta-os e faz a percentagem em referência aos oficiais milicianos.
Se não tiveres dados pergunta aos teus amigos que por lá se batem.
2. Já pensaste que te são exigidas as mesmas responsabilidades enquanto estás nas fileiras?... Sujeiro ao RDM, Código de Justiça Militar, ect, etc?
3. Já te apercebeste, no entanto, que não tens a totalidade dos direitos dos oficiais do Q.P? Que és considerado, apenas, como um adventício inoportuno mas necessário que é necessário explorar para os outros folgarem mais e treparem?
4. Mas não é tudo camarada miliciano.
Se acaso sentires vocação para continuar nas fileiras e desejares ingresar na Academia Militar, ainda que sejas louvado e condecorado como um oficial extraordinário, sabes qual a reacção de grande parte dos oficiais do QP?
Nós esclarecemos-te, que estamos cá dentro e somos do Q.P. oriundos de milicianos:
  a) O que aprendeste como miliciano não conta. Só serviu para irers para a guerra e colocares-te na alçada do RDM e CJM.
b) O ponto de referência para a tua antiguidade é apenas a data de saída da Academia.
c) Podes já ser capitão, tenente ou alferes com vários anos de serviço. Entras, contudo, na Academia e ficas à esquerda de rapazes que têm apenas o sétimo ano liceal e nem sequer sabem se têm vocação militar.
(...)
6. Sabes que saíram dos Decretos ainda não executados, dos quais um,  ajustando o primeiro, pretende que seja contado como prestdo no Q.P. para efeitos de antiguidade, o tempo de serviço efectivo de miliciano?
7. Sabes que uma parte dos oficiais do Q.P. imediatamente se insurgiu quanto à sua execução ainda que os mesmos venham a ser ajustados, para não haver prejuízos?...
8. Sabes que querem a derrogação total dos mesmos porque pensam que se vieres para a Academia te será contada a antiguidade de miliciano?
9. Sabes que para arranjarem partidários derivaram para motivações que nada têm que a ver com esta parte dos Decretos no que se refere a antiguidades?
Quer referindo que o oficial ganha pouco, que não tem prestígio, que a guerra é para todos, que um novo curso da Academia Militar a ser criado é desprestigiante, etc, etc, o que pretendem, na essência, é que te seja negado agora esse direito de antiguidade de miliciano.
10. Já pensaste que nunca reagiram ao ganhar pouco, ou a outros requisitos importantes, senão quando saiu um Decreto que te reconhece valor como miliciano
11. Sabes o que circula nos bastidores?... Que alguns oficiais do Q.P. oriundos de cadetes pensava engavetar os outros oficiais do Q.P. e milicianos que não pensassem como eles para pressionarem depois o governo com vista a te não ser dado o direito de que falei.
12. Sabes que um comandante pensava, num fim de semana, mandar-te para casa e ficar com outros oficiais para tentar fazer um pronunciamento militar?...
Conquanto tenhamos dúvidas que o conseguisse  porquanto as unidades só quase têm sargentos e oficiais milicianos, vê tu a que ponto vai o maquiavelismo!...»

Os dois trechos acima, estou em crer, são extremamente elucidativos, e o segundo, em boa medida, ajuda a esclarecer o primeiro.
Ressalta, logo à partida, uma circunstância fundamental para o entendimento do que se seguiria: a grande heterogeneidade nas Forças Armada (especialmente no Exército). Esta heterogeneidade constituía um dos grandes perigos (e, em bom rigor, aquele donde germinou a dinâmica do futuro golpe) de fragmentação, convulsão e clima de rixa doméstica nas próprias fileiras. Ora, um exército numa guerra (ainda por cima contra-subversiva, ou seja, uma guerra interna, que se processa dentro das fronteiras do território nacional) que, a certa altura, entre em guerra civil consigo mesmo, resulta, invariavelmente, em desastre. O que, de resto, embora assertivo e verdadeiro, não deixa de ser anedótico por paradoxal:  miliatres que se envolvem em guerra civil.
Por outro lado, a questão da mentalidade dominante entre os militares - precisamente aquela descrita por Salazar na citação em epígrafe... É mais que evidente que estava longe de ser a ideal: O espírito de funcionarite aconchegada sobrepunha-se, despoticamente, ao espírito de missão ou à vocação guerreira. Aliás, para os militares profissionais, produto do aviário académico,  na sua grande maioria, a guerra era uma chatice, uma carga de trabalhos e, se em tempo de paz o ordenado era jeitoso e o ripanço garantido, já em teatro de guerra, não compensava, nem direi tanto o risco, mas o sobressalto familiar e o incómodo das deslocações. Tratando-se, ainda para cúmulo, duma guerra que, por sua natureza, seria sempre uma guerra prolongada, o enfado e o desconforto tornavam-se crescentes, senão mesmo insuportáveis.
Está bem que de tenente para cima, exceptuando as tropas especiais, os oficiais já não padeciam tantas agruras no mato (nas especiais, os capitães também iam, em se tratando de operações do nível de Companhia). Mas, mesmo assim, era muito duro para as esposas, de pele sensível e tremela fogosa.. Havia demasiados mosquitos (algumas chegavam a apanhar malária), baratas exorbitantes e um calor gorduroso, enquanto penavam pasmaceiras tropicais, longe do esplendor  socialite da Lisboa cosmopolita em desabroche pantalhoso . Nada que se comparasse, por exemplo, às comissões de serviço nos Estados Unidos (para afazeres da NATO) ou os adidos militares das capitais europeias (aí sim, que vida!...)
Teria sido possível desarmadilhar estes problemas?
O facto é que o país não dispunha de orçamento que permitisse pagar grandes salários à função pública (o contrário disso vimo-lo depois e gerou três bancarrotas). Apesar de tudo, a classe militar usufruía de alguns privilégios específicos. Os milicianos, por seu turno, funcionaram como ovo de Colombo para garantir uma "guerra barata". Eram uma espécie de precários avant-la-lettre: cumpriam todos os deveres, mas com menos direitos, garantias e encargos  para a Fazenda. Se pensarmos que os oficiais mais condecorados do exército português (e não estou a falar apenas de Cruzes de Guerra de 1ª classe, mas de Torre Espadas) foram, na maior parte, oficiais milicianos, por feitos em combate (o Marcelino da Mata, que é o mais condecorado de todos, além de miliciano, é preto retinto),  teremos que concordar que não foi por falta de eficácia ou carência de mão de obra que desbaratámos o empreendimento
Porém, numa classe de oficiais que se dividia, por sua vez, em três categorias distintas - os do Quadro Permanente, os do Quadro Especial e os do Quadro Complementar -, as tensões estavam sempre lá, latentes. O prolongar da guerra traria sempre desgaste, erosão, tendência para que o latente sobreviesse à superfície. Faltava apenas a ignição, para que o processo combustivo se desencadeasse.  O facto do 25 de Abril ter sido orquestrado, confeccionado e perpetrado na Metrópole, no espaço de menos de uma ano, diz tudo daqueles que o consumaram. Não foram companhias ou batalhões operacionais: foram escolas práticas, de fedelhos que mal sabiam ainda usar as armas, enquadrados por ressabiados corporativos, excitados por  alucinados ideológicos,  - adolescentes inveterados e perpétuos todos eles! -, que vieram, mais como necrófagos oportunistas do que como soldados, ao odor dum governo finado por morte anímica do seu líder principal.
Significa também que a moda da reforma por decreto (que se tornaria posteriormente endémica até aos dias de hoje), iniciava a sua saga trágica. E catastrófica. Sendo, em larga medida, justa, a lei (a tal 353/73) atentava todavia contra a regra instalada. Ora, ao contrário da regra que, por longa sedimentação,  tende a conciliar e amortecer tensões, a lei, pela violência da sua própria imposição súbita,  provoca roturas e desiquilíbrios que, no vertente caso e no fim do dia, acarretaram nenhum bem. Acabando com a guerra, os puros acabaram, providencialmente, com todas as veleidades dos espúrios. Mais concretamente ainda: de modo a desmantelar o espírito guerreiro que ameaçava o seu empório exclusivo e a sua mordomia soberana, o activismo académico/burocrático (na terminologia do próprio Salazar), acabou com a guerra. E descolonizou quase instantaneamente, por via das dúvidas ou remorsos.
Tendo ateado inadvertidamente o fogo, sabendo que a seara estava a arder, porque é que o regime não tomou medidas?
Seriam possíceis medidas eficazes, depois de accionada a engrenagem amotinadeira?
Escutemos um dos oficiais do MFA, desde a primeira hora (embora não-comunista nem socialista), Sanches Osório:
«Dadas estas circunstâncias [depois da Intentona das Caldas], o governo deu ordens para se constituir uma comissão dentro do Estado Maior do Exército a fim de refazer os planos de defesa no caso de uma revolta militar.» (in, O Equívoco do 25 de Abril, pp 36)

Pois, caros leitores, o governo nomeou uma Comissão... Onde é que eu já vi isto? Lembra-vos alguma coisa, tempo, ou regime?  Seria, quiçá, uma Comissão para combater a comichão dos Puros mais exaltados e lexofóbicos. Seria este expediente operativo o mais indicado para resolver certos fenómenos de superlativa gravidade, como seja uma ameaça séria à propria sobrevivência do governo?  Sanches Osório, logo de seguida, não é particularmente animador:
«Pela presença do Ten. Cor. Costa Brás na Comissão e pelo facto de eu e o Major Vitor Alves trabalharmos no Estado Maior, havia perfeito conhecimento dos planos do governo.» (idem)
 E quanto a uma das fórmulas possíveis para contrariar o tal MFA em curso, parece que não requeria qualquer lirismo, esoterismo ou especial carga quixotesca (como julgo que, desde logo, me seria rosnado, caso eu apresentasse alguma ideia, das várias que, tecnicamente e por estudo profissional, conheço). 
«Todas aquelas comissões e reuniões [do MFA] começaram a gastar tempo demais pelo que, a certa altura, um grupo de oficiais no qual eu me incluía começou a insistir para actuarmos rapidamente antes que o Governo desmantelasse o Movimento, o que lhe teria sido extremamente fácil. Um simples problema burocrático de transferências e trocas de oficiais para locais distantes teria desorganizado todos os contactos.» (ibidem, pp29)

Pois, vêem? Tinha sido até simples. Mandá-los por exemplo para os Estados Unidos, tirarem cursos na Nato; ou para adidos na Europa, Austrália ou Cochichina... Mandá-los, enfim, para o estrangeiro, o mais longe possível, já que remetê-los à matriz materna, embora justo, seria impraticável.

Deus teve piedade de Salazar. Poupou-o de assistir ao 25 de Abril. Entendeu, lá no Seu Soberano critério, que um Vassalo e Silva já lhe tinha sido penitência bastante. E, curiosamente, ou nem tanto, Salazar concordava comigo (ou eu aprendi onde ele aprendeu), que, a limite, tudo dependia do homem que estava à frente da coisa. Porque sobretudo diante do mostrengo, que a própria alma teme, manda a vontade que ata ao leme. É que o exemplo vem de Cima.... Não depende todo o universo apenas de Um?..


PS: Aquela expressão de Salazar "a estirpe dos antigos" não faz muito sentido (nenhum, aliás) para certa gente de hoje. Para Salazar fazia. Por uma razão muito simples: era a estirpe dele. 

sábado, abril 11, 2015

Um Imenso Portugal





Um génio da música, de insuspeita ideologia, a cantar uma verdade do tamanho do céu: nós, portugueses, somos inconfináveis. Viemos apenas descansar um pouco na sepultura. Dormir uma sesta. Enquanto houver mar... Quando Deus quiser, e o sonho nos acordar, a Obra acontecerá.

quinta-feira, abril 09, 2015

Acromiomancia Revisitada - XV. Escola de Borregos




«Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco.»
- António José Saraiva


A pré-história deste contagioso movimento - o borreguismo - remonta ao Infante D.Pedro, uma ejaculação infeliz dum rei inglório. Despejo, esse, mais tarde transformado em catástrofe, mediante  a nomeação do aborto ambulante para  príncipe Regente do Brasil.  Imbuído -melhor dizendo, toldado pela vesânia da espécie, em vez de reger em nome de Portugal, como lhe competia, improvisou fazer do Brasil o seu próprio Império. Primeiro traço característico do borregante: uma desmesura narcísica típica das adolescências estagnadas e hipertofiadas. Donde borbota um ego alçado a estrela orientadora do universo. Ao mesmo tempo, ressalta o expediente motriz da tara: a borreguice transparece sempre mascarada de adesão. Em vez de defender os interesses de Portugal, o Infante adere ao espasmos do  Brasil.
Vamos reencontrar estes exactos sinais perfeitamente geminados e replicados nos  capitães do MFA, século e meio adiante. Enviados a África para combater o terrorismo mascarado de movimentos de libertação, que fazem eles? Não apenas se furtam de combatê-lo, como, em conjura torpe, se transformam, eles próprios, num "movimento de libertação" terrorista, derrubando o seu próprio governo, traindo o seu próprio povo e entregando metrópole junto com colónias ao neo-colonialismo de arribação. 
Mas tornemos à ordem cronológica.
O segundo episódio ocorre por  alturas da implantação da república - embora "transplantação" seja o termo mais indicado para definir a peripécia. Não só os defensores da Monarquia, em número superior ao desejável, borregam melancolicamente, como uma das figuras de proa dos revolucionários, o Almirante Reis, auto-acagaçado por crença súbita em ventania adversa (e também pela sua bipolaridade), dispara sobre si próprio, borregando, assim, com fragor anedótico. Ainda hoje, uma das maiores e mais emblemáticas avenidas de Lisboa homenageia esse feito de armas (só equiparável, em matéria de lucro colectivo, ao tiro como que o doente mental  do hospital de Rilhafoles, naquele mesmo dia, abateu o preclaro Dr. Miguel Bombarda, baluarte civil da golpada). Na verdade, ainda hoje, a história se interroga como é que, depois da grande maioria dos militares contratados com a conjura ter borregado, foi possível o triunfo peregrino do bananal republicoiso. Mas enquanto ela assim se entrega à reflexão, avancemos para o episódio inaugural propriamente dito.
De facto, o borregguismo fulminante  (e fulgurante) principia, de pleno direito,  com a queda da Índia Portuguesa, em 1961. Fiados na desproporção brutal de forças a seu favor, os Indianos roncam e ameaçam às portas de Goa. Salazar, como era seu péssimo hábito contra-cultural, não borrega. Mais: ordena que ninguém borregue, é preciso ganhar tempo (pobre ingénuo!). Ao mesmo tempo, tenta negociar com os chineses: reconhecimento internacional da República Popular da China e concessão de base no território português da Índia a troco de pressão da grossa sobre os indianos. Jogo arriscado mas audaz: caso os chineses aceitem, os americanos, para obstar, terão que intervir e garantir, por seu lado, veto ao atropelo iminente. Salazar envia um telegrama dramático a Vassalo da Silva onde expõe, com crueza e clareza, a necessidade imperiosa que há em ganhar tempo. Não se trata de combater até à morte, trata-se de combater o mais possível, de modo a demorar o desenlace, permitindo, em esforço contra-relógio,  o resgate diplomático. Mas ordenar que não borregue a um tipo chamado Vassalo é como pedir a um tetraplégico que corra,  ou a um impotente mental que conceba. Na hora da invasão, o borreganço, com a honrosa excepção de Damão e meia dúzia de bravos, foi quase geral. 
Mas um borrego, como qualquer outro (ani)mal, nunca vem só, Nova eclosão apoteótica acontece em 25 de Abril de 1974. Enventualmente contaminado pelo exemplo fascinante de Vassalo, Marcello borrega com todas as suas forças, arrastando consigo um regime desprevenido e vários povos avulsos.  Se em matéria de micção, um português arrasta dois ou três, em se tratando de borregar, pior um pouco: um arrasta quatro ou cinco...milhões.
Parcos meses depois, é o próprio Spínola que borrega com idêntica gulodice.  Zonzo e azucrinado por meses na presidência dum hospício a céu aberto e no descomando esquizofrénico de tropa fandanga em digressão carnavalesca, não resiste à vertigem e bate com a porta. Para logo mais adiante, de monóculo entre pernas, saltar a fronteira, indo borregar pró estrangeiro.
Entretanto, no próprio batalhão de Comandos, na Amadora, a maleita manifesta-se.  Confrontado por uma maioria momentânea de oficiais em ímpetos saneadores, também Jaime Neves  (custa-me até dizer isto...) borrega. É verdade, borrega, tacticamente. Vários graduados pouco entusiastas com a revolução são saneados. Jaime Neves, irritado, condescende; e aguarda por melhores dias. Que virão, é um facto; embora tarde de mais no que concerne ao essencial. E novamente Jaime Neves semi-borregará. Quando não levar a missão até ao fim.
Dir-se-ia que as forças revolucinhárias, após tão amplas, fortuitas e numerosas conquistas, tinham a parada ganha, mais a faca e o queijo. Seria menosprezar estultamente a vertigem borreguista que assola, desde a medula  até à raiz dos cabelos, o burgesso portugalinhóide. Fantasie-se ele em que banda ou bando for. Sobretodos impera o bandulho; e o sentimento das vísceras é, de facto, quem mais ordena.
25 de Novembro de 1975. Finalmente, tarde e a más horas, a única tropa operacional do rectângulo decide-se acordar da longa letargia. Acabou a descolonização-à-vela, pelo que há luz verde para acabar com o granel. Uma aragem murmura de feição. Todavia, a maioria das forças alista-se do lado do processo revolucinhário. Basta que o crocaudilllo vermelho, Otelo de Carvalho, faça cintilar  o seu carisma castrense (no sentido caribenho da palavra, bem entendido). Mas Otelo... aqui dou a palavra a um dos seus apaniguados mais emblemáticos, Diniz de Almeida, o Che daquela revolucinha (para que não digam que achincalho ou efabulo):

«Preocupado e com a percepção de que era agora nos bastidores que se jogava a sorte da Revolução, telefonei ao COPCON.
«O Otelo ainda não veio!", respondeu alguém.
E perante a minha estranheza, aquele desculpar-se-á:
"O que é que tu queres? Ele é assim... nós pedimos-lhe para não abandonar o COPCON mas ele insistiu que queria ir dormir, e nós não pudémos impedi-lo de ir..."
(...)
Apresentei-me no COPCON ainda de manhã e pouco depois de haver telefonado.
O ambiente de manifesta desmobilização que ali se respirava, agravou ainda mais a minha consciência de perigo evidente.
Perguntei uma vez mais por Otelo.
"Ainda não veio, está a dormir", respondeu, igualmente preocupado, alguém.
"Já telefonámos lá para casa a chamá-lo e ele mandou dizer para não o incomodarem que quer descansar", volveram..»
                     - Diniz de Almeida,  "Ascensão, Apogeu e Queda do MFA, Vol.II"


Pois, na hora H, quando o império da revolução estava em jogo, que faz então Otelo? O mesmo que Marcello, nem mais: borrega. Mansamente. As tropas, entre hirsutas e desataviadas, aguardam ordens; Diniz de Almeida exaspera. No Ralis, a soldadesca leninada quer sair a combater os "Comandos". "Agarrem-me senão desgraço-me!", pressente-se (e vocifera-se em surdina!) a cada esquina. Mas o comandante da unidade, Leal de Almeida também borrega. Como tinha borregado anos antes na antecâmara da "Operação Mar Verde". E faz como Otelo, vai dormir. Otelo que, entretanto, borrega ao ralenti. Fica o bravo Diniz, Ché abandonado, Hamlet de Sacavém: "borrego ou não borrego, eis a questinha!"...Sozinho, a aguardar ordens de Godot. Que não chegam. O que chega é a ordem de prisão emanada de Costa Gomes. E o bravo Diniz lá vai, no seu próprio carro, apresentar-se ao cárcere. Borrega em ordem. Há toda uma Goa longínqua a verberar nele. Saldo final:  Tudo bem somado, a revolução de rilhafoles socumbe à mosca tsé-tsé.

Aqui chegados, mais que uma suspeição forte, invade-nos a percepção  clara de que o borreguismo não é apenas um movimento: é aquilo que acciona o movimento... E é também um paradoxo, já que se trata dum movimento estático, e extático. Poderíamos falar, assim, duma força motriz do carácter portugalinhóide, não fôra dar-se o caso singular do carácter portugalinhóide consistir numa paralisia aguda plasmada numa catalepsia súbita de todos e quaisquer princípios, instintos ou preceitos activos em prol dum  assomo (mínimo que seja) de dignidade, destemor, ou, vá lá, honra. Mas há ainda outro sentimento que, sobretodos, congela o borreguista. RESPONSABILIDADE. Na crise, guerra, bernarda, polémica ou o que seja, o portugalinhóide  adquire a posição de estátua camaleónica para que a responsabilidade - a temida e horrenda responsabilidade a passar! - não o detecte, não o descubra, não o aponte. Agora imaginem juntas ou confluentes as suas duas fobias supremas: a "responsabilidade" e o "derramamento de sangue"!...

Falta apenas o corolário actual da saga frouxa...A destilação última do alambique...
É mentalmente que o portugalinhóide hodierno mais sente volúpia em borregar. Com retroactivos e retroversões.
Muitos anos depois de borregar no terreno,  estima de borregar no pensamento. Borrega em solidariedade. O borreganço antepassado não o enoja, não o repugna, nem, muito menos, o incomoda. Pelo contrário, inspira-o. Justifica-o. Convoca-o a alistar-se no desânimo. Compenetra-o da resignação ufana. O que outrora foi cobardia, pusilanimidade, ignávia, infãmia, agora é realismo, cálculo matemático, mandamento, finura e perspicácia.
Pior que impossível, qualquer outra alternativa: Impensável, sequer!
Mas não admira.
Para uma barata tonta, o homem, mais que espécie incognoscível numa galáxia longínqua, constitui uma utopia.



PS: Apesar de tudo, o borreguismo incial (de Goa) é ainda rudimentar se comparado ao surtos dos anos 70. 

quarta-feira, abril 08, 2015

Consultório Oracular - 3. Seria possível?...



Uma distinta leitora e comentadora deste blogue coloca-nos uma questão interessante, se bem que um pouco alcantilada, a saber:

«Achas que hoje- em 2015, ainda poderíamos ter o Império?»

A resposta mais fácil seria relativamente simples: Sim, bastava comprá-lo de volta à Igreja Universal do Reino de Deus, no que o Estado  (ou a Câmara Municipal) desembolsaria uma quantia relativamente irrisória. Já o Monumental seria impossível porque foi vergonhosamente camartelado e substituído por um mamarracho qualquer.

Em relação à resposta mais difcíl, esta, naturalmente, prende-se com o Ultramar Português... Vamos por partes.

Se a pergunta inquirisse pela necessidade de termos Império hoje, talvez a resposta fosse um redondo não. Pois se nós, pelos vistos, já não temos necessidade sequer de ter um país independente, ou meramente asseado, para que raio precisaríamos de um império? Era como aquele caso da barraca com piscina e barbecue. Sim, e a esta hora,  de certeza, a Troica, a Dioica ou patanoica estaria a confiscar-nos o anexo, mais os indígenas todos que por lá piassem.

Todavia, a pergunta, felizmente, não é pela necessidade, mas sim pela possibilidade de termos o Ultramar ainda hoje.

Ora,  possibilidade é uma modalidade bastante mais vasta, espaçosa e facultativa.
Tentemos, então, chegar lá através do rasto da própria coisa...:

a) Seria possível não termos tido a terceira bancarrota?
b) Seria possível ainda termos o escudo?
c) Seria possível não termos aderido à CEE?
d) Seria possível não termos tido a segunda bancarrota?
e) Seria possível não termos tido a Primeira bancarrota?
f) Seria possível não termos anarquizado o país e socializado a economia?
g) Seria possível não ter havido o 25 de Abril?

Note-se apenas uma coisa: se se assume que não seria possível não haver 25, então tem que admitir-se uma negativa da mesma qualidade para todas as restantes questões, assumindo-se igualmente, no corolário de todas elas, não ser possível hoje ter Ultramar. Isto significa que, uma vez ocorridos, determinado fenómenos, neste tipo de mentalidade, passam de possíveis a necessários. Não era possível que tivessem ocorrido de outra maneira.
Admitir isto é admitir que tudo o que acontece no mundo acontece segundo uma cadeia de fatalidade. Este tipo de convicção,  à luz dos  valores cristãos dos seus proponentes,  é absurda, opressiva e pagã, pois remete para um universo de pura mecânica destituído de qualquer liberdade.
Todavia, uma crença deste jaez, como qualquer outro tipo de superstição estritamente individual, ainda que compulsiva, é plenamente legítima. O que já não é particularmente admissível, ou sequer isento de riso, é que o titular dum tão bizarro e unilateral raciocínio pretenda impô-lo como lei geral da sensatez. Como se a sua opinião ligeira e superficial, resultado duma congregação peregrina de preconceitos, irreflexões e boleias analíticas, constituísse baluarte inexpugnável da certeza científica 
Como tudo isto é implausível, e a ninguém no seu perfeito juízo atribuível, teremos que admitir que sim, que tal hipótese, no universo da possibilidade, embora difícil, de contornos incertos e discutíveis, seria possível (e no seguimento, bem entendido, de idêntica possibilidade para todas as restantes). 

Pessoalmente, a questão não se coloca porque o que conta é a realidade. E a realidade é que não temos.  A questão pertinente, e que efectivamente interessa agora, não é se poderíamos ter, mas sim o que fazer para começar a recuperá-lo. Melhor, formulado à antiga portuguesa: primeiro tratamos de recuperá-lo e depois logo tratamos de reunir as condições.

PS: Também não deixa de ser curioso, e brutalmente sintomático, verificar como o marxismo impregna, à maneira de esterilizador de vontades, a mentalidade das massas, metódica e ininterruptamente intoxicadas por toda a espécie de entorpecedores mediáticos. Mesmo pessoas que se arvoram anti-marxistas vivem completamente intoxicadas e peadas com a balela que o acontecer das coisas neste mundo depende de "estarem reunidas determinadas condições históricas", E o mais patético é que segundo estes belos princípios e categorias, o 25 de Abril não deveria ter acontecido a 25 de Abril de 1974, mas apenas uns anos (não sabemos bem quantos) mais tarde...enfim, quando estivessem reunidas as condições objectivas. 
Mas então, deixem que pergunte só para acabar: é a história que faz os homens, ou são os homens que fazem a história?


PS": Nas condições actuais, as mesmas pessoas que acham necessária a submissão - sob  pretexto de patacos - à tutoria externa, dificilmente poderiam achar possível algo que não justificasse o acesso a esse estado de coisas. É o estado a que chegou a (des)alma portuguesa.


PS2: Uma simples pista, para que não digam que não apresento soluções: começar por recuperar o Escudo.


terça-feira, abril 07, 2015

Utopia e Paratopia



Antes de prosseguir com a Acromiomancia, e porque está para breve o tratatamento exaustivo do Inimigo (até aqui procedeu-se avaliação dos méritos e erros das  NT - Nossas Tropas), convém explicitar alguns termos essenciais que irão surgir.
O primeiro é a Paratopia.
Explicando analogicamente, a utopia está para a paratopia como a anóia está para a a paranóia.
Explicando em concreto, analisemos o conceito de "utopia". Na sua versão mais usual e corrente, "utopia" refere uma espécie de paraíso terreal fruto de efabulação teórica, mais ou menos complexa, lógica ou meramente alucinada. Citando só alguns exemplos dos últimos 200 anos, poderíamos referir as utopias de Fourier, Saint-Simon, alguns anarquismos, a Religiâo Universal de Comte,  etc. Há igualmente uma dimensão utópica na ficção de Marx, quando profetiza, com certeza de cientificidade histórica, a sociedade sem classes, dos emancipados e desalienados humanos do futuro éden. Acresce que este éden do amanhã consiste no paraíso primordial às avessas: para que se realize, o homem expulso do paraíso primordial começa por expulsar Deus na antecâmara do final. Portanto, naquele, Ihavé acaba por expulsar Adão, neste Karl começa por expulsar Deus.
Contudo, a utopia aufere duma dimensão mais vasta e mais antiga que essa mera expressão dum local de fábula mental, fora da geografia concreta. De facto, o primeiro momento em que o a-topos (o não-lugar) se manifesta é na cosmogonia grega que deu origem ao pensamento ocidental. Aí, toda a topografia deriva de Geia, a Terra Mãe; e toda a não-topografia descende do Caos primordial - citando os exemplos mais relevantes: a noite, as Moiras, a Morte, o Sono (que, pela sua própria essência, são entidades desprendidas de qualquer âncora territorial.) . Esta raíz mais arcaica , profunda e vasta da utopia não é insignificante. Bem pelo contrário, todo o seu peso não deixa de se fazer sentir através dos tempos e opera no âmago da própria acepção moderna da palavra. as utopias remetem quase sempre para a dimensão onírica, sonâmbula e entretecem geralmente mantos de treva e morte.
Por outro lado, o uso que se dá hoje em dia à palavra utopia é, em vários caso, desapropriado e abusivo. Sobretudo, porque a palavra tomou forma de arma de arremesso retórico, como modo de depreciar determinada posição política que, de algum modo, proponha alternativas à situação hegemónica. Quer dizer, as propostas alternativas podem ser efectivamente de ordem utópica, como podem ser de outra qualquer ordem, sendo que, a estratégia de Poder vigente à escala planetária tenderá sempre a representar-se como fatal, necessária e definitiva, degradando tudo o resto a utopia onírica, insensata e destituída de fundamentos realizáveis. Nesse sentido, a ocidente chama-se "utópico", como na antiga União Soviética se taxava de contra-revolucionário. O sentido é o mesmo, o valor também.
Reportando-nos agora em concreto à utopia marxista, importa sublinhar que a ficção marxista foi utópica até ao momento em que Lenine a realizou na Revolução Russa. Não importa da justeza, perfeição ou fidelidade com que o executou. A partir do momento que emergiu a União soviética, a "ficção marxista" já não era um não-lugar: era uma geografia concreta. Habitava um espaço da Terra. Se o paraíso existia ou não, de facto, é irrelevante. Os crentes não colocam esse tipo de dúvidas, nem se deixam embaraçar por esse género de hesitações. Passara a haver um referencial operativo já não apenas da ordem da promessa, mas do foro da réplica e da consistência, isto é, o crente já não sonhava apenas com o paraíso anunciado: co-existia com ele, embora do lado de fora. Assim, quando os nossos crentes comunistas suspiravam por sovietizar Portugal, na verdade, isso, em bom rigor, nas suas mentes infantilizadas e liquefeitas, significava converter um espaço infernal (onde Salazar desempenhava as funções de demónio supremo) num parque paradisíaco para viúvas e órfãos (o homem, enquanto pai de família, é banido da equação; o novo Grande Pai, o Pai Total, Écran de todas as projecções mentais,  em substituição do antigo Pai Celeste, é o Estado). Desse modo, a ligação ao "eden prometido e profetizado" já não era apenas mental, mas tornava-se peregrina. A fé fortalecia-se na esperança e ambas inflamavam o ardor militante. Depois de sovietizado na alma, o crente comunista ansiava por sovietizar o seu espaço adjacente. Nenhum martírio o demovia. Pelo contrário, animava-o ainda mais, preenchendo-o com volúpias e frémitos interiores de santidade palpável ao virar da esquina.
E o mesmo se poderá dizer da China de Mao, da Albânia de Henver Hoxha, ou de qualquer outro desses manicómios aplicados. Perdão, santuários. O facto de não constituírem paraísos, nem locais de fraternidade angélica ou parques de liberdades celestias aplicadas e, bem concretamente, materializarem o reverso ou avesso disso tudo, em nada diminuía o seu encanto, a  sua perfeição moral, o seu fascínio sedutor. Quem o feio ama, bonito lhe parece; quem o hórrido idolatra, deslumbrante se lhe manifesta.
Nisto tudo, como é evidente, resplandecia uma desadequação completa entre o pensamento e a realidade, ou, melhor dizendo, uma sobreposição despótica e alucinada da imaginação ao pensamento, na forma de tara profunda. Por conseguinte, quando,  em 1974, os comunistas querem importar e estabelecer o modelo soviético em Portugal (como a UDP ou o MRPP advogam o chinês ou albanês), não estão a ser utópicos. Longe disso, é a imitação de algo concreto que demandam. Assim, o que os obsidia e avassala não é a utopia, mas a paratopia. Ou seja, é a submissão do seu próprio espaço pátrio a um modelo paranóico de importação (uma maternidade geral de ideias pré-fabricadas). De tal modo, que quando os seus críticos de facção contrária, geralmente obcecados por paratopias díspares ou concorrentes, os acusam de não terem noção nem preocupação com as realidades do próprio país (classe, tribo, clube, ou o que seja), isto soa a anedótico. Acusar um paranóico de não ter noção da realidade é um completo absurdo (é como acusar um cego de não ter noção das cores, ou um analfabeto de não ter noção das vírgulas) e, não raramente, denuncia um desarranjo qualquer intrínseco no próprio emissor.
Ora, a verdade é que, a partir de 1974, Portugal transformou-se num espaço de paratopia reiterada. Quer dizer, Portugal deixou de ser um espaço onde se realizava Portugal, para passar a ser um espaço onde se realizava a União Soviética, a China, a França, a Europa, os Estados Unidos, a Patagónia-de-Baixo, ou o que quer que ocupasse (e ocupe) a desrealização mental dos títeres em vigor,  aos comandos do Estado. Chamar-se-lhe Estado de Direito é uma pura piada de mau gosto: na verdade, é um Estado de Delírio.
Resumindo: a aplicação deste estado de Delírio a um determinado território constitui a paratopia. Portanto, quando, nos próximos postais, lerem a palavra, já sabem o que quer dizer.
Ou dito em termos ontológicos: se a realização duma coisa consiste na actualização da sua essência, do seu ser/estar-em-si, a desrealização (ou paratopia) dessa coisa, neste caso Portugal, traduz o seu estar/ser fora-de-si. Este Portugal em que vegetamos é um Portugal que, na essência, está fora-de-si. Ou seja, está em permanente trânsito para ser qualquer outra coisa que não ele próprio. Um doido, em suma; um psicótico ambulante, sob auto-sedação interna e  vigilânica externa.


PS: Aproveito para alertar que quando se iniciar aqui a investigação minuciosa do In (o inimigo, em terminologia militar), a coisa será feita a partir do interior do próprio. Será essencialmente pelos relatórios, descrições e diários deles. São mil vezes mais elucidativos -e arrepiantes - do que tudo o o pudéssemos conjecturar a seu respeito. Apenas um aviso: o espectáculo não é nada recomendável a almas sensíveis ou estômagos delicados. É um mergulho a pique no que há de mais sórdido na alma humana.


sábado, abril 04, 2015

Abrilau à Zè du Pip




Pensava eu ser interessante discutir certas questões e debater diversos pontos de vista.
Enganei-me. Redondamente. E disso desde já me penitencio.

Parece que, para quem é, chicana basta. O importante é untar a forma com uma qualquer trafulhice rançosa, bramar muito a mesma petição catita, fazer finca pé na auto-intrujice compulsiva, assar umas folhas de scanner na braza, polvilhadas de umas alegres presunções e já está: Abrilau à Zé du Pip.

O Abrilau à Zè du Pip é uma mistela intragável que é vendida como último grito da culinária gourmet para sopeiras anti-comunistas da 25ª hora. 
Trata-se, na essência, da mais solerte teoria da conspirracinha de que há memória. Culpados - inequívocos e inapeláveis? Todos os militares, ex-militares, polícias, guardas republicanos, escuteiros, enfim, todos os fardados (mesmo à paisana) do dia, mais os sapadores bombeiros da Avenida  D.Carlos, que estavam de prevenção, para o caso dos blindados desfalecerem por falta de combustível ou hipertensão dos galuchos (já que munições parece que nem tinham). Nesse caso, avançariam os bombeiros, de machado reluzente, escada à tiracolo e canhão de água em riste. Aliás, fazendo jus à hedionda cor das suas próprias viaturas auto-tanque, que ao Zé do Pipo nunca o enganaram. O regime-nódoa, caso falhasse o golpe de cuspe, seria assim lavado à mangueirada. E os voluntários, perguntará, o leitor mais curioso? Os voluntários, nesse dia, não alinharam, porque eram milicianos e estavam de candeias apagadas com os sapadores (que, por definição, são profissionais).
Único Imaculado e pulcro  incocente naquele dia sinistro, vítima-mor duma conspiração universal de proporções bíblicas, apenas um: Marcelo Caettano. Um verdadeiro calimero excelentíssimo.  Porquê? Porque sabia pontuar muito bem as frases e escreveu parágrafos que muito deslumbraram, na sua pré-adolescência coorporativa, o Zé du Pip. Também porque o Zé du Pip tem uma crença, aliás fezada, a todos os títulos inexpugnável: o Marcello declarou-se inocente. Tricotou até livros sobre o assunto, todos eles muito bem pontuados e replectos de frases sinceras, entremeados de metáforas, sinestesias e até, pasme-se, alguns anacolutos raros.. Alibi perfeito, convenhamos. Quer dizer, perfeito ou imperfeito depende... se o arguido cai no goto do Zé, é perfeito. Se não cai no goto, cai-lhe no esgoto e aí é uma carga de trabalhos. De scanner  em riste, o Zè du Pip atira-se ao malandrim como gato ao bofe. Embrulhado em papel de jornal, que vai do Correio da manhã ao Expresso da Noite, passando pelos pasquins todos da comarca mais as folhas de couve da paróquia, peixe, e peixeirada, dos mais variados odores e proveniências, é-lhe ministrado, ao condenado, pelas ventas criminosas abaixo, sem dó nem piedade, ou, tão pouco, interrupção para almoço.. Porque o Zé du Pip processa como argumenta: ali indicia, inquire, instrói, julga, condena e executa; aqui faz a festa, lança os foguetes e vai apanhar as canas. Com as quais, para requinte final, constrói  abrigos precários contra intempéries magnas. E põe-se à espera, muito satisfeito consigo próprio, para ver o que acontece. Acontece que a palha lá por ser tripla, na cabeça, no chapéu e na cabana, não constitui grande protecção. Nesta altura, embora tardiamente, o Zè du Pip já percebeu isso. Vagamente, começa até a sentir-se despromovido a Zé  Destelhado.
Mas prossigamos no rol estrepitante das suas audácias chibantes, ou coices de mula sorrateiros, como ele próprio se matricula na zoologia argumentícia.
Concentremo-nos apenas no seu último montículo erístico, que anotarei em detalhe, como manda a tradição e o povo tanto gosta (incluindo o Zé, e vamos lá a ver se, dando ele os lombos ao manifesto, também aprecia)...

«Kaúlza tem sido uma espécie de desejado póstumo para alguns líricos das epopeias em fraldas de camisa. Ele e o então presidente da República poderiam ter sido os salvadores da Pátria e não foram porque, hélas!,  não lhes deixaram ser o que o futuro lhes tinha reservado.»

Aqui o Zé, se bem decifro a esguelhadela, pretende alvejar o Temível Dragão. Acontece que esse temível animal imaginário  o é  triplamente, já que habita  a mitologia, o índex da blogosfera e, sobretudo no vertente caso, a petit mitomania do Zè. É o chamado Dragão de conveniência para o Zeca fazer bonito a armar ao pingarelho semiótico.  Faz de conta que o Dragão defendeu isto ou teceu loas ao Kaúlza ou ao Américo. Assim, atamanca ele, do alto da sua pesporrinha, como o Dragão Mau bateu no meu calimero de estimação, eu, que sou muito azougado, vou gozar o Kaúlza e o Américo. E vou gozá-los como? Ora, na pontuação. Não redigiam primorosamente. Que argumento estupendo, a porejar versúcia e gleba! Mas há melhor: o Zèzu desanca nos dois cromos fascistas exactamente nos mesmos termos depreciativos com que propaganda comunista e esquerdóide os anos  60/70 os mimoseava, para efeito de chalaça de taberna (onde recrutava os principais quadros, e alguns triângulos amorosos também). O próprio Salazar, nos trombones dessas varas, não andava longe de mentecaptidade zoina atribuída àqueles seus dois velhos aliados. Afinal, o Du Pip, mata-comuníscaros e trinca-sushilistas de saguão confunde-se com aqueles que proclama estar em ânsias de passevitar quando lhe convém  à trica. E o pobre dragão de conveniência, coitado, sujeito às comodidades do Zé, vê-se descomposto em fraldas de camisa à desfilada por lírica epopeia. Pior figura, convenhamos, faz o vate indómito de tal rilhafuligem, que desvaira a pedir urgente camisa-sem-mangas. Delírio etrusco e público, onde consome, de resto, o parágrafo seguinte:
«Infelizmente a fantasia de alguns é a frustração do Desejado e por isso o melhor seria descerem à realidade que o próprio Kaúlza contou em tempos no livro que publicou em 1987- "Guerra e Política, em nome da verdade os anos decisivos".»

Traduzindo: Scanner meu, sacaner meu, há alguém mais desenfreado do que eu?”
Não há.  O pobre do scanner já nem deve poder vê-lo à frente. E nem uma míuda gira, uma Gina como deve ser, vá lá, uma Playboy das antigas: aquilo é papel que ninguém, no seu perfeito juízo, se arrisca a usar para limpar o olho cego, quanto mais para educar os dois que mal vêem. E, francamente, para um gajo na minha idade que nem na merda das letras no teclado já acerta, ter que estar de lupa em riste para decifrar o cabrão do ecrã não lembra ao meu primo do apocalipse. Desisto.
Quanto a descer à realidade, se a invectiva é comigo, então negociemos: eu desço à realidade quando a Scanner Man subir à racionalidade. Até lá, temo bem que a comunicação, senão impossível, será difícil.
A pérola seguinte, senhores:
«A explicação para o golpe de Estado dá-a singelamente como Marcello Caetano a dá: toda a gente borregou. Levantaram-se todos  do rancho e começaram a  tilintar talheres. Alguns puseram cravos no cabelo, como os hippies de S. Francisco.»

Toda a gente borregou, ora nem mais. Toda? Não. Na holística da galga há uma aldeia mínuscula que resiste, arrosta e não borrega: Marcello. O Ásterix da Galga. Não borrega porque não tem sequer tempo para isso: explica; conversa em família.... Explica ao Zé Destelhado e o Zé Destelhado explica-nos a nós, dando-se grandes alardes de inteligência superior, aeronáutica. Em suma, todos borregam menos Marcello. Que explica. E explica duma forma tanto mais retumbante quanto uma experiência mediúnica consegue ser: Marcelo incorpora em Zé, Zé mesmetiza-se de Marcello, Marcelo e Zé entrecoçam-se, Marcelllo passa a bola a Zé, Zé cruza para Marcello e.... golo! - a revelação soturna, cavernal, a comunicação telefónica do Além, entre Alhures e Alheira-de-Baixo, produz-se: rancho levantado a tilintar talheres. Parece, assim à primeira vista, código misterioso. Mas não é. Rutilante revelação: Não foi um Golpe de Estado, foi um Buffet itinerante. Um piquenique urbano. Com tantos galuchos e campinos presentes até admira não ter culminado numa largada de toiros.

«Kaúlza nesse dia fatídico nem saiu de casa. Aliás esteve sempre em casa a partir daí e até ao 28 de Setembro, altura em que o comunismo militar do COPCON o foi buscar porque era "fascista".»

Sim, é evidente...Eventualmente esteve escondido debaixo da cama. Durante o dia, claro está. À noite, refugiava-se no armário, por incompatibilidades com o penico. Aos domingos, conta a doméstica reformada, dava uma saltada ao chuveiro e nomadizava entre a a despensa e o sótão. O comunismo militar não foi buscá-lo coisa nenhuma: foi , a pedido de Santo Álvaro, quebrar-lhe a dentadura reaccionária. Que Kaúza guardava num copo, enquanto lavava os dentes. E não era “fascista”. Vamos lá a ser semióticos, caramba: era “ultraconservador”; ou com tendência para “epopeias líricas em fraldas de camisa”

«Ele que assegura que após o pedido de demissão de Marcello Caetano, na sequência de publicação do livro de Spínola, poderia ter sido presidente do Conselho e talvez tivesse evitado o golpe, não o chegou a ser porque o presidente Tomás "hesitou" e não o nomeou.»

O presidente Tomás, na sua cabana do Restelo, hesitou e, naturalmente, borregou. Todos borregaram, já sabemos. Talvez Kaúlza tivesse evitado o golpe? Só se não borregasse. Ora, o Destino (Fado nosso) já tinha ungido o seu eleito: Marcello. Só ele estava destinado a não borregar. O seu poder superlativo de redacção (e arenga) conferia-lhe esse poder mágico. Isso, vários pontos de interrogação, um prontuário ortográfico e a poção que ele bebia duma panela druídica lá de casa. (Receita dietética, subtil, e por isso não engordava)...

«Sobre o presidente Tomás não vale a pena gastar muitos caracteres. Nesse dia esteve em casa e à espera que o fossem buscar para o exílio. E lá foi. Sem um ai.»

Relatos fidedinos, mas mantidos sob reserva “Ultra confidencial” dos Arquivos do Estado-Maior a que tive acesso,  descrevem-no a tentar domar o tapete de Arraiolos (puro sangue) do hall de entrada, de modo a conseguir evadir-se nele. A selvajaria indomável daquele (não sendo persa, recusava-se determinantemente à volatilidade) torpedeou o sagaz expediente. Todavia, e logo para azar do Zè du Pip, há um relato público da peripécia real, por parte de Sanches Osório, no seu livro de Maio de 1975, “Equívocos de Abril”, pp.46.. Reza o seguinte:
«A prisão do Alm. Américo Tomás processou-se da seguinte forma: sabíamos que o presidente da República estava na sua casa do Restelo pelo que para lá se dirigiu o Ten.Cor. Almeida Bruno com uma companhia de para-quedistas a fim de o prender. Acontece que o velho almirante se recusou a sair de casa ou a deixar-se prender. Almeida Bruno telefonou para a Pontinha informando o sucedido, dizendo que não era ético forçar fisicamente o almirante e pedindo instruções. Foi o próprio prof. Marcello Caetano que lhe telefonou da Pontinha, explicando-lhe que tudo estava perdido e que tinha de obedecer à força comandada pelo Ten. Cor. Almeida Bruno, cujas instruções eram as de o levar para o Aeroporto da Portela, de onde seguiria para o Funchal. O Gen Spínola mandou acrescentar que “toda a segurança seria dispensada à família” do Almirante Américo Tomás.»
Vês, Zézinho?  Já podes contar ao Huguinho e ao Luízinho... parece que a cabulice e a scannice não compensam. Afinal, foi mais que um ai. E sempre estrebuchou um bocadinho mais do que o Marcello. Até teve que ser o Marcello a explicar-lhe: senhor Presidente, tem que borregar. O único autorizado a não borregar sou eu.  Um argumentista vindouro assim obriga, bem vê.”
Em resumo: não vale de facto a pena gastar muitos caracteres, bastava apresentar-se um pouco mais de carácter, daquele que distingue os homens dos troca-tintas.

As citações puguessistas não consigo ler, mas imagino o teor edificante e rigoroso. Certamente ao nível da astrofísica do Correio das Manhã. Sem til, já agora.
Vamos ao final infeliz, que isto já vai longo:

«E assim se perdeu a oportunidade de salvação do país. Marcello, esse renegado, estragou tudo com a d. inércia à ilharga e faltou-nos essa experiência fantástica de termos um presidente de Conselho como Kaúlza a tentar edificar as novas bases do Estado, salvíficas e redentoras.»

A salvação do país é uma falsa questão: ele estava a ser salvo nesse dia, é preciso que o Zè du Pip assuma as suas fantasias retroactivas. Ia até, segundo ele, encaminhar-se para um novo paraíso terreal, mercantil, pós-histórico (ou histérico, para as senhoras) – uma verdadeira disneylândia à beira mar plantada- se não fossem...  (grande suspense, porque agora surge a grande tese à Zè du Pip)  «Quem nos estragou o futuro foi o socialismo e o comunismo e quem neles votou ao longo dos anos».
Et voilà, minhas damas e monsenhores: eis o peixe. A pescadinha de rabo na boca...
Portanto, o problema não esteve na salvação do país, mas sim na perdição do país. No seu tresmalhamento escabreado para parte incerta. Por obra e desgraça desses energúmenos que votaram no socialismo e no comunismo.  Vossências, leitores mais jovens, nem imaginais: aquilo a seguir ao 25, por aqueles heróicos e trepidantes meses a fora, eram eleições todos os dias. Às vezes, em dias de festa, era até como os antibióticos: três vezes ao dia, geralmente a seguir às refeições. Um tipo bebia a bica e exclamava, satisfeito: bem, agora vou votar!. E isto já para não falar nos incontinentes, que passavam dias seguidos a correr às urnas. Comunistas e socialistas, todos eles. Os outros também votavam, mas votavam em ambiente, digamos, mais doméstico, no recato do lar (e caso este não estivesse a ser ocupado por alguma brigada revolucinhária). E fora aqueles "ultraconservadortes" e "líricos da epopeia" que eram arrecadados em Caxias, onde dispunham de tempo para longas meditações  pré-eleitorais (ficavam internados por prisão de ventre e dispensados de votar). O certo é que as primeiras eleições quadrienais, em que se organizou uma quermesse festiva para todos tirarem rifas à molhada, só aconteceu em Junho de 1975 (para a Constituinte, onde todos foram socialistas, excepto o CDS que se declarou abstémio e agnóstico, mas piedoso); e em 25 de Abril de 1976, para as primeiras Legislativas. Entretanto, o Ultramar já tinha ido todo à viola. Bem, todo não: os Açores, a Madeira, Macau, as Selvagens e as Berlengas resistiram.
Mas ficarmos sem o Ultramar até nem era mau, para os entreguistas à vela como o Zè du Pip. O pior, senhores, o horrível medonho foi termos ficado sem futuro. Aliás, sem passado nem futuro, estamos condenados a vagar, como almas penadas, num perpétuo gulag do presente. Há um lado bom, agora reparo: assim não envelhecemos (a estupidez é imarcescível). Mas também não coisamos nem saímos debaixo. Há quem goste. Há quem lucre. Há até quem vá de vento(da história em popa). O que, desde logo arruína a tese de Du Pip & Du Pip; . É que esse futuro colectivo do "nós" agora já não se coloca. O que o colocava e fez, porfiadamente,  contra eventos e e marrecos, para que se mantivesse, já morreu. Aliás, ainda estava vivo, e já o estavam a enterrar. Foi o maior de todos os líricos das epopeias, fora o Pessoa, dos últimos cem anos e, juntamente com outros líricos do passado, que remontam ao Rei fundador desta nação, continua a induzir em erro alguns líricos do presente. Que, e pela parte que me toca o avalio, continuam nem vencidos nem convencidos. Portanto, o futuro agora é meramente individual. E foi em nome dessa individualidade que se mandou o colectivo às urtigas. Cada qual trata de si e do seu gigantesco ego, ao volante da sua vidinha, pelo que, futuro, doravante, é de bolso e descartável, Há quem tenha e quem não tenha; quem se amanhe e quem não se amanhe; quem se oriente e quem não se oriente. Eu, seguramente, não tenho. Mas carros alemães, casotas de praia, pingarelhos electrónicos, fermentos corporativos e ascensorismos diversos não faltam nesta piolheira. O Chico sem futuro cobiça o futuro ao Manel montado nele. Os eleitores, que me causam indiscriminadamente um intenso nojo, mais as eleições, que apenas servem à bandalheira instalada, tratam do futuro de alguns, delapidando o futuro de muitos. E o resto são lérias. O Zé du Pip, a avaliar pelos nacos de prosa e as scannagens de três em pipa, com leitmotif muito sistemático ao fundo do túnel, em romaria pré-eleiçoeira,  sob a cortina do "futuro nosso que está no céu", também  se arrisca a que pensem que, se calhar, está a tratar do futuro dele. É a vida. Porque atribuir culpas, com tanta persistência, aos eleitores socialistas e comunistas, soa esquisito. Só estes? Os primeiros, é certo, são casos de polícia, os segundos de psiquiatria, mas os comunistas estão fora do governo desde 1975 e os socialistas têm alternado e associado no saque com outras quadrilhas organizadas... Zé du Pip, a essoutras putativamente angélicas, inocenta-as, arbitrária e antojosamente, como inocenta o Marcello? Neo-Marcellismo aos molhos, é? Calimerismo de conveniência para engrampar papalvos?... Se é do futuro que trata ou de nós que trata por parvos, não sabemos.
Entre tratantes e safados, que pode um velho, lírico e honesto Dragão fazer senão escarrar fogo nesta merda toda?...
Cada povo tem o futuro que merece. E este, enquanto não arranjar ideia que se veja, carácter que se recomende e vontade própria que se manifeste, nem há passado que o reconheça nem há futuro que lhe pegue.
Em 25 de Abril, como certo estrangeiro disse, não mudámos apenas de regime: mudámos de país. Porque, e aí o Estado-Novo falhou redondamente, não conseguiu mudar de gente.





Nota - Comentários voltaram ao antigamente.



quinta-feira, abril 02, 2015

A Acromiomancia revisitada - XIV. Ensaio geral



Durante o seu longo consulado, Oliveira Salazar teve que enfrentar não apenas vários levantamentos militares e tentativas de golpe de estado, como, inclusivamente, um atentado pessoal. Em 1937, um grupo de táxistas (da Cooperativa Palhinhas de Lisboa), com alcunhas pitorescas como "O Fininho", "o Porta-Aviões", "O Fome Seca", e o "Pimenta", entre outros, conjurou-se, em forma de troup anarquista, para fazer explodir o terrível ditador. Na qualdidade de cérebro da organização, o "Fininho", acolitado por um tal Emídio Santana, técnico de explosivos e mestre endoutrinador da pequena seita, presidiu ao empreendimento. Confeccionado o infernal engenho, definiram o local e hora para a experiência e passaram à acção. Armadilharam o colector, à porta da mansão na Avenida Barbosa du Bocage, nº 96, em cuja capela privada, Salazar costumava assistir missa, aos domingos. Por um sistema expedito de detonação artesanal (através de puxão de corda) os conjurados aguardaram a sua odiada presa. E assim, no dia 4 de Julho de 1937, quando o presidente do Conselho saía do carro e se dirigia para a porta da mansão, onde o aguardava, como de costume, o proprietário da mesma em cortesia, o "Pimenta" accionou o detonador que ocasionou, de imediato, uma violenta explosão. Abriu-se uma cratera aos pés de Salazar, cobrindo-o com certa quantidade de caliça  e detritos, mas não lhe causando qualquer dano. Imperturbável,  o fundador do Estado-Novo, sacudiu o pó do fato, comentando para os seus embasbacadas amigos, enquanto prosseguia, contornando a cratera: "Bem, vamos lá à missa!"... 

Em 13 de Abril de 1961 ocorre aquilo que, para muito boa gente, é uma espécie de "ensaio geral" da tragicomédia de Abril de1974. Nas palavras de Jaime Nogueira Pinto «os conjurados são membros da classe dirigente, do governo, altas patentes militares e políticos em desfavor que se identificam com uma "ala liberal" do tempo. (...) Também no seu desfecho a "crise" será abafada; nenhum dos conjurados terá sanções de prisão ou procedimento disciplinar e um dos principais, Costa Gomes, vai conseguir através de um curioso mea culpa fazer perdoar e esquecer o seu envolvimento na intentona».
Acrescente-se que no 13 de Abril, além da confrontação entre as duas linhas existentes no regime, a nível político e militar, de integracionistas e separatistas, aparecem como personagens-chave em cada um dos grupos, Kaúlza de Arriaga e Costa Gomes, cuja rivalidade crescente e luta de influência, no seio das Forças Armadas, acabará com o desforço do segundo, ao mandar prender, na noite de 28 de Setembro de 1974, o homem que muito contribuira para o malogro dos seus planos 13 anos antes.» (in O Fim do Estado-Novo e As Origens do 25 de Abril)

Façamos um curta visita aos bastidores da tentiva de golpada. Havia uma clara concertação de fenómenos:
o Bafo histórico americano a massajar as nucas e as mioleiras destemidas dos conjurados, o rompimento simultâneo das hostilidades terroristas em Angola e a presunção que a idade já avançada de Salazar lhe diminuiria as faculdades e a firmeza. À testa de ponte da excursão palaciana, destacavam-se  Botelho Moniz, Almeida Fernandes e Costa Gomes, respectivamente Ministro da Defesa, Ministro do Exército e Sub-Secretário de Estado do Exército.
O objectivo dos conspiradores consistia, sucintamente, em derrubar Salazar (o que requereram junto do Presidente da República, Américo Thomaz), ao mesmo tempo que tentavam sublevar unidades militares, no que o papel de Costa Gomes foi, imaginem, fulcral e sobreactivo.  No decurso de várias manobras e contra-manobras (que prescindo de enumerar, para não descambar em telenovela), o plano acaba desarticulado pela destituição dos principais conjurados e pela sua rápida substituição por gente de confiança. É depois deste episódio soturno que ocorre o tal "Para Angola e em força!"... Um outro curioso pormenor é que o principal cérebro do golpe, Costa Gomes, inaugurando toda uma metodologia ronceira, nunca se expõe nem destaca, permanecendo sempre na sombra, urdindo e cavilando duma distância "segura". O bom Caius Detritus é assim.
Curioso também é a nota que Franco Nogueira tece no seu diário no rescaldo do golpe (note-se que Franco Nogueira ainda não é Ministro dos Negócios Estrangeiros nesta altura; sê-lo-á no decurso da remodelação subsequente):
«Lisboa, 13 de Abril - «"Para Angola, rapidamente e em força", foi um grito de Salazar que ressoou pelo país. Parece claro que Botelho Moniz preparava um largo golpe. Corre que Marcello Caetano seria o elemento civil principal. Que estará por detrás de tudo isto? Ramada Curto diz na rádio que não se muda de general a meio da batalha. Clima emocional e de grande tensão.

Lisboa, 14 de Abril - Todo o país está vergastado por um temporal político que deve ser raro na sua história. Compreendem-se agora melhor os tumultos, os morticínios, o terrorismo que lavram no Norte de Angola desde há um mês. Há um propósityo internacional claro, deliberado, de fazer ajoelhar o governo de Lisboa e de vergar, pelo medo e pelo desvario, o povo português. Se esta pressão se mantém, e apesar do gesto de Oliveira Salazar, por quanto tempo será suportável esta atmosfera? Firmeza, tenacidade, espírito de sacrifício e luta são coisas que desconhecemos entre nós.»

Figuras determinantes no desmantelamento da aventura e cruciais no apoio a Salazar: Américo Thomaz e Kaúlza de Arriaga, bem como algumas figuras de proa da instituição militar o Almirante Quintanilha, generais Mira Delgado, Francisco Chagas e Machado de Barros, entre outros. Pormenor anedótico: o próprio Marechal Craveiro Lopes adere ao abrilismo precoce. Juntamente, diga-se já agora, com um crânio predestinado e orador empolgante que ganhará notoriedade histórica 13 anos adiante, na qualidade de camarada Vasco, o primeiro-ministro da Revolucinha.

Punições que se vissem, não houve. Costa Gomes lá prosseguiu o seu perâmbulo burocrático na corporação. Em 1970, é comandante militar de Angola, (onde aproveita muitos dos louros devidos a Bettencourt Rodrigues pela vitória no leste, contra o MPLA) e em 1972 é mesmo nomeado para Chefe do Estado-Maior general das Forças Armadas. Por quem?  Pelo governo de Marcello Caetano.

«Outras ascensões de conjurados (além de Costa Gomes) do 13 de Abril se verificam depois da morte de Salazar, o que levou mesmo alguns especialistas de bastidores a admitir que o próprio Marcello Caetano tenha de algum modo sido contactado pelos conspiradores de 1961. Uma convergência de circunstâncias tornou verosímil a hipótese. Marcello, nessa data, andava amuado com o velho diatdor. E, por outro lado, a intentona de carácter reformista precisava, para concretizar-se, do prestígio de um político de carreira, conhecedor do sistema e desafecto de Salazar. (...) Quando já em 1973-74 se vier a falar do apoio que Marcello Caetano buscava em Costa Gomes para se defender dos ultras encabeçados por Kaúlza, está-se a confirmar um pressentimento que si non é vero é bene trovatto
- Jaime Nogueira Pinto, O Fim do Estado-Novo e as Origens do 25 de Abril"

Sintomática também a passagem do diário de Franco Nogueira, em 12 de Setembro de 1968, logo após o colapso de Salazar.
«Dias seguidos entre os hospital de Benfica e o Ministério. Muitos acalentam ilusões, e acaso confiam num milagre; por mim, penso que o chefe do governo, ainda que se salve, chegou ao fim da sua vida política. Sinto-me inteiramente afeito à ideia. Em qualquer caso, parece-me óbvio que está desencadeada a luta pelo poder. E muitas misérias tem revelado este momento, e não são poucas as manobras infantis, e grotescas. Há quem elabore listas de nomes para um futuro governo; segundo um rumor, Marcello Caetano teria reunido no linhó um grupo para fazer o ponto da situação; e velhos políticos estariam desavindos. Por todo o lado, são as tricas e nicas, as insídias, as acusações perversas, os aleives, a destruição deste, a eliminação daquele, num escadeirar geral que deixa tudo esbarrondado. (...) Para mim, uma preocupação, e uma só: o Ultramar. Sintom-me mais que pessimista,»

E tinha plenas razões para isso. A liquidação geral ia começar.
Já Marcello Caetano, para quem manifestava tanto apetite pelo Poder, não deixa de ser, no mínimo, anacrónico, tanto e tão seráfico despreendimento logo na hora em que a nação mais precisava que dele fizesse algum uso. Mentes menos benévolas até poderão ser levadas a suspeitar, como diz aquela anedota antiga do concurso de onanistas: parece que se terá afogado nos treinos. Ou ensaios, já que a coisa parece ter sido mais da ordem do teatro.

O problema das vaidades (e aprendizes de feiticeiro) é que são facilmente manipuláveis. Por peritos na coisa.


PS: Bettencourt Rodrigues, o nosso melhor general a sério, de combate (de certa forma o nosso De Lattre de Tassigny) foi passado à reserva, pela Junta de Salvação Nacional, em 14 de Maio de 1974. Menos de um mês depois do 25 de Abril. Para aqueles que acham que o 25 de Abril até era uma coisa boa, que posteriormente terá sido pervertido por comunas maus, aconselho vivamente que repensem a existência do Pai Natal.. Sempre faz mais sentido e ainda tem alguma utilidade para os infantis avulsos.

quarta-feira, abril 01, 2015

Acromiomancia Revisitada - XIII. Cai o Carmo e a Trindade




«O Comandante-geral da GNR, general Adriano Pires, recebeu-me cordialmente acompanhado de um grupo de oficiais, sargentos e praças. Enquanto nos dirigíamos para o seu gabinet, onde se encontrava o Presidente do Conselho, verberei o Governo pela situação crítica de agitação e revolta em que entregava o país.
O prof. Marcello Caetano, sentado num sofá, embora se encontrasse manifestamente acabrunhado, mantinha, todavia, uma atitude serena e digna, enquanto que os Drs. Moreira Baptista e Rui Patrício, permanecendo numa sala contígua, se encontravam visivelmente desmoralizados. Ao aproximar-me, o Prof. Marcello Caetano levantou-se. Cumprimentei-o cortesmente e afirmei-lhe: "O estado em que Vossa excel~encia entrega o País! Tudo isto se poderia ter evitado!" E ao dizer-lhe "É tarde para Vossa Excelência reconhecer a razão que me assistia», Marcello Caetano interrompeu-me, retorquindo que não era aquela a altura para recriminações. respeitei a sua atitude e não fiz mais comentários. Declarou-me, então, considerar-se vencido e que, por conseguinte, estava pronto a entregar o poder, mas só o faria a alguém que lhe desse garantias de o mesmo "não cair na rua".
Informei-o de que seria transportado numa viatura blindada, juntamente com os dois ministros, para o Quartel da Pontinha, onde estava instalado o "Quartel general" do Movimento, e perguntei-lhe, nessa ocasião, pelo Almirante Américo Thomaz, sujo paradeiro me disse desconhecer.»

- António de Spínola, "País sem Rumo"

Vamos lá por partes. Então decorre uma tentativa séria, pública e radiodifundida de Golpe de Estado, ainda por cima militar com todas as letras, e o Chefe do Governo não sabe do Presidente da República? O Chefe da revolta, pelo menos em tese, também não sabe do principal representante da Nação? Pior, o Chefe dos revoltosos está ali para receber o poder de alguém que não o detém ao nível que seria requirível por uma transmissão daquele quilate? Ambos, o Chefe do Governo e o Chefe dos revoltosos teriam, em termos legais, todo o interesse em saber onde raio parava o presidente da República, já que cumpria ao Presidente do Conselho informar o Presidente da República que não tinha mais condições para governar, de modo a que resolvesse com o Chefe dos revoltosos aquilo que, do alto do seu arbítrio máximo, muito bem entendesse. O Prof. Marcello Caetano, emérito e distintíssimo (com toda a justiça) perito de Direito não sabia deste quesito básico de leigitimidade? Estava de tal modo transtornado que se esqueceu? Segundo Soínola, estava calmo e sereno. Segundo outros que o visitaram também nesse dia, não apresentava sintomas de pânico ou alucinação. Então como é que pode transmitir uma coisa da qual, legalmente, não dispunha? Como explicar um tal desembaraço?
Em 1926, quando os militares tomaram o Poder, o general Gomes da Costa, e posteriormente Carmona, convidaram Salazar para o Governo. Quando Salazar adoeceu gravemente, o Almirante Américo Thomaz convidou Marcello para formar governo. Podia ter convidado outro qualquer, e esse outro qualquer, como Marcello, seriam Chefes do Governo porque o Presidente da República assim os investia. Então como é que um tipo que é segundo na escala do Poder se apronta a entregar algo que não detém autonomamente e a) sem saber onde pára o real e legítimo detentor do Poder constitucional; b) sem, pelos vistos, apresentar qualquer espécie de seríssima objecção ou impedimento à farsa; c) sem manifestar qualquer preocupação pelo desconhecimento do paradeiro do Presidente da República; d) sem ter feito reais e concretos esforços para que esse contacto essencial tivesse existido.
Se isto não é colaboração com o carnaval em curso, é o quê? Manicómio instantâneo e geral automaticamente instalado?...

Podemos até imaginar a cena, em casa do Almirante Américo Thomaz, no Restelo...
Sua Excelência está calmamente debruçado sobre a sua colecçãpo de selos, no escritório. Da sala, chega a Srª Dª Gertrubes que declara, com ar preocupado:
-"Américo, parece que andam militares pelas ruas, com tanques e tudo!..."
O Almirante quase não lhe presta atenção, absorto na alta tarefa de conferência filatélica. Mesmo assim, murmura:
- Ah sim? E estão por onde, dizem...?
- "Pois parece que estão a cercar o quartel do Carmo, onde se terá estabelecido o professor Marcello Caetano..."
O Almirante semi-sorri.
-"Bem , então são questões com o governo. Provavelmente reivindicações salariais. Não há perigo. Se fosse golpe de estado, haveriam de querer mudar o regime... Vês algum aí à porta?"
A srª Dª Gertrudes ainda confere de novo pela janela...
-"Não, não se avista vivalma."
- "Vês? A coisa não é séria. Senão teriam vindo ter logo comigo."

De facto, a coisa não era séria. Adiante, Spínola alude ao Presidente da República, Comandante-em-Chefe das Forças Armadas, nos seguintes e prosaicos termos:
«Como se encontrasse por resolver o problema do Almirante Américo Thomaz, que, finalmente, foi localizado na sua residência particular no Restelo, encarreguei o tenente-Coronel Almeida Bruno de o informar que o Governo se havia rendido e que, por decisão da Junta, deveria embarcar, nessa noite, para a Madeira. Recomendei-lhe, no entanto, para agir com toda a cortesia e respeito devido a um ex-Chefe de Estado(...)»

Portanto, caros leitores, abismemo-nos pela enésima vez. Afinal, o chefe dos revoltosos sabia que existia um "Chefe-de-Estado".... Um Chefe de Estado que, entretanto, passou a ex-Chefe de Estado. De que modo? Por artes mágicas?  Quase. Por artes prestidigitantes de feira, ou seja, por acordo verbal entre o Chefe do Governo e o Chefe dos Revoltosos. Repare-se que o General e aquela catrefa a quem prestava o frete de chefe decorativo atentavam duplamente contra o dever de lealdade ao Almirante Américo Thomaz , em primeiro lugar, como Chefe de Estado, e em segundo, como Comandante em Chefe das Forças Armadas. E de que modo é que o senhor é considerado?  Despacha-se um tenente-coronel para lhe comunicar a sua destituição ad-hoc e a sua trasladação residual à Ilha da Madeira, porque parece que nas Berlengas não havia tendas disponíveis.
Há um aspecto que todo este episódio demonstra sem margem para dúvidas nem especulações: o respeito e consideração que o Estado Português, naquele dia, mereceu, quer ao representante máximo do Governo, quer ao representante dos Golpistas - Nenhum! Zero. Nada. Nicles.
Traição ainda requer alguma dignidade maléfica, mas isto nem sei se excede o mero nível da bandalheira.

Na antecipação daquele dia, Marcello Caetato, em "Depoimento", confessa:
«O episódio das Caldas  não devia ser subestimado, porque decerto os oficiais que o provocaram contavam com apoio que a pronta reacção do governo ou o facto de ter havido precipitação na revolta não tinham permitido actuar. Esses apoios não desarmariam, procurariam fazer a "revolução do remorso" (...)»

Todavia, um mês depois (um ror de tempo, como se vê, propiciador do esquecimento, da descontracção e da sonolência) nas palavras de Marcello, «a revolução que veio efectivamente de surpresa, e conduzida dessa vez com toda a eficiência, em 25 de Abril.»

E a explicação delicada e tocante para que não houvesse resistência? Ora, para que não houvesse derramamento de sangue. Ainda alguém se podia magoar, com aquelas armas todas numa cidade tão linda e primaveril. Um país que tem um guerra aberta em quatro frentes (mais a das estradas e auto-estradas onde nunca há tréguas), enche-se de momices e compunções hipócritas porque alguém pode ferir-se em virtude duma rixa doméstica?!... As Nações, sejam elas quais forem, erguem-se, defendem-se e preservam-se com derramamentos de sangue.  Em oito séculos de história, não foi assim tão pouco o derrame português. Vem um tipo assaltar-me a casa violar-me os parentes e eu aceito mansamente, justificando depois: ah, não o reprimi minimamente para evitar o derramamento de sangue, sujava-me a alcatifa?... Não, pois não? Então se isto que não é aceitável, nem digno, nem minimamente vertebrado para uma pessoa, é pacífico e perfeitamente razoável para um país inteiro?! Como é que qualquer ser humano português, adulto, e dotado de inteligência, que não se tenha degradado à mais estanhada filha-da-putice pode compactuar, ou achar perfeitamente normal, uma infãmia destas?!...

Então- que coquetes e sensíveis que nós somos! -, não podemos derramar sangue em Lisboa... Pois muito bem. Depois desse dia, uma coisa era certa, ninguém mais iria querer derramar sangue no Ultramar. Estavam lá os otários a combater os terroristas e depois cá o governo não enfrentava terroristas mascarados de militares, com medo de derramar sangue. Ou, esperem, Marcello não quis dar ordens porque depois a coisa podia correr mal e ainda o magoavam a ele...  Ah, pronto, coitado, borrou-se. Acontece. enfim, trata-se doutro tipo de derrame.  Ninguém decerto esperava dele grandes rasgos heróicos... Conversar em família, óptimo; agora ralhar aos vizinhos, nem por sombras!...

E depois, a justificação para a entrega do Poder de pechisbeque?
Lucilante. Ora oiçam: Para que o mesmo, o poder de fancaria, não caísse na rua. Sobretudo, presume-se, na rua dos Fanqueiros.
É que os militares não estavam a vir da rua, engolfados e lambuzados de multidões floridas. Não, acabavam de descer das nuvens, dos espaços siderais inefáveis, do olimpo da Rua Augusta. Portanto, com toda a sua consciência cívica salvaguardada, Caetano entregou o despoder a Spínola.

Que uns meses depois, declama já, contaminado pela tóxica dádiva, também ele convertido à calimerice brejeira:
«Tinha chegado a minha hora de opção!
Ceder à vontade do Conselho de Estado, conformando-me com a situação anárquica que conduziria o país à ruína, ou agir em conformidade com a minha consciência, contrariando a opinião colectiva dos membros daquele conselho.»
Torturado por este dilema terrível, o general aflito, socumbe ao stress: demite-se. E entrega o poder de contrafacção... à sargeta.

Em resumo, qual a hipótese mais plausível em que aposto? Tudo somado, inclino-me à piedade: foi mesmo desarranjo intestinal do Marcello. Transtornou-se-lhe a tripa e, no aperto, mandou Portugal pela retrete. O Poder? Alguém o apanhou no esgoto e anda a empestar com ele até aos dias que correm... Ou escorrem, melhor diizendo.