sexta-feira, setembro 04, 2015

Por detrás das "Primaveras" - 2. OSF




Open Society Foundations

-  Desagregação e desintegração à escala global. O caos como operação "filantrópica". Soros, The Thing...

Por detrás das "primaveras" - 1. O novo Comintern

NED - National Endowment for Democracy
(Supporting Freedom arround the world)

Chamam-lhe "a versão globalista do Comintern", em modo bastante mais subversivo que a original. Pudera, com acesso a papel-moeda sem limites...

quinta-feira, setembro 03, 2015

Outros miradouros




«Is a Lack of Water to Blame for the Conflict in Syria?»
A 2006 drought pushed Syrian farmers to migrate to urban centers, setting the stage for massive uprisings...

Bem, a seca, decerto, há-de ter ressequido a palha. Que facilitou o trabalho aos incendiários... 

Entretanto, os Turcos açambarcaram a água, suportaram o Exército islãmico (é público e notório) e agora despacham migrantes às carradas para a Europa. E aquilo é uma democracia  puro malte, não é? Com a outra a sul, já faz duas. 

Mais rebates H2O aqui: 


«Water scarcity drives conflict in Middle East, and it’s worsening: study»


E no Midle East Forum, site essencialmente sionista, coordenado pelo afamado Daniel Pipes, pode ler-se::


Em resumo, petróleo com abundância, gente a mais e água a menos. As manadas que vão beber à Europa (se alguns se afogam no mediterrãneo é estrita ironia do destino); a água para os democratas; e o petróleo para a Democracia em Si (ou por antonomásia).

Pois, e quanto ao Líbano, esse "único país abençoado com reservas substanciais de água fresca", não temam: está já na calha. Para a "democratização a martelo"...



terça-feira, setembro 01, 2015

Partidofagias e contos do vigário



Mas alguma vez os partidos, em Portugal, se guiaram coisa que se visse por ideologia, doutrina, receita (culinária, que fosse), programa de partido ou sequer de governo? Mal se apanham no poleiro, passam por isso tudo com o maior desembaraço, velocidade e amnésia súbita. Mesmo os comunistas (dos vários credos e alambiques) quando, no pós-25 de Abril, se entretiveram a desmantelar a nação à boleia da peregrinice zoina dos moderados (como já tinha sido em Outubro de 1917, na Rússia), mesmo esses, nunca deixaram, no essencial, de acautelar a vidinha e o futuro sem sobressaltos na "democracia burguesa" pós-Novembro. Nos restantes quarenta anos, os partidos têm sido nada mais que agências de emprego, feiras de contactos e influências, trampolins sociais e trambicódromos para safardanas, sicofantas e arranjistas das mais diversas estirpes, cores e proveniências. E quanto mais instalados ou com acesso ao Poder, pior. A não ser no folclore da treta, não há socialistas nem não socialistas, sociais-democratas ou populares, esquerdistas ou direitistas, conservadores ou liberais: é tudo devoristas, trepadoristas  e empalmadores. A máquina partidária encarrega-se de produzir, em regra, enchidos desses. Mesmo indivíduos honestos e genuinamente bem intencionados que, por algum milagre da santa, escapassem à filtragem interna, acabariam rapidamente submersos e varridos pela marabunta infestante.
Fora tudo isso, as úinicas agendas que cumprem vêm de fora e fazem parte do kit/alvará comercial. Ou do estojo de emergência, por dictatum ainda e sempre externo. Resume-se o fenómeno inteiro num aforismo simples: sacrifica-se o pagode para salvação dos eleitos.

Os partidos são o cancro. Está provado e servido, à náusea e à exaustão, desde a cegada de 1820. E também já vimos a cura, pelo que não requer descobertas da pólvora ou da roda dentada. Não há metásteses boas nem metásteses más: há metásteses que se tornam particularmente nefastas e malfazejas logo que abocanham o Poder. A diferença no malefício é directamente proporcional à quantidade de poder nas unhas da quadrilha e à duração da mamada. A dinâmica da mediocridade, da chicana, da safadeza e da filha-da-putice que reina no interior das cloacas partidárias (dos quais o modelo universal e perpétuo é o do próprio Partido Comunista - cada Secretário-geral converte-se num tótem tribal a prazo, e, uma vez no Poder, degenera num Kim-Kong-ill à solta, a arder em frémitos de eternidade) alastra ao país e instaura a dispersão, o oportunismo, a velhacagem e a zaragata permanente. Acangotada na Administração Pública, naum cascata de alvéolos, casulos e bolsas marsupiais, esmera-se, afana-se e desunha-se, a um ritmo cada vez mais frenético, em extorquir e brutalizar, sem dó nem piedade (e toda a burrocracia de que é capaz), o contribuinte e o desamparado em geral.  Desamparado, entenda-se como todo aquele que não pertence ou é patrocinado por qualquer uma das camarilhas em exercício: dos partidos à maçonaria,  das Ordens às Opus, dos Clubes  às seitas (excepto naquele caso emblemático em que o clube e a seita se confundem), passando por todas as mancebias e manjedouras a jusante, cujo elenco me dispenso de explicitar por economia de espaço e nojo. O certo é que é toda uma escumalha - que não vale a ponta dum corno nem serve para nada de útil à nação - a armar ao importante, ao fino e, sobretudo, ao caro. Mainates que se fazem pagar como arquiduques.

Os partidos, entretanto, foram todos socialistas no pós-25 de Abril; foram todos democráticos no pós-25 de Novembro; e serão todos o que for preciso para garantir o estipêndio dos seus comensais (devidamente hierarquizados à boa moda feudal, pois claro, que isto da democracia é só mesmo para inglês ver e otário aplaudir). Acreditar na reforma deste esquema, ou, ainda pior, na sua cura milagrosa, é o mesmo que acreditar na redistribuição da riqueza. Os mesmos que não impedem os ladrões de roubar e, ainda por cima, os ajudam a sacar a seu bel-prazer, apregoam  depois projectar persuadi-los a devolver o que quer que seja? Os mesmos que facilitam são depois os mesmos que moralizam? No menos mau dos casos, é o mesmo que pretender educar um filho na idade adulta, depois de deixá-lo adquirir todos os vícios, taras e más tendências. Uma nódoa, parafraseando o Eça, não se reforma: remove-se.
Mas pior ainda é tentar camuflar o surro duns debaixo do tapete do lixo dos outros. Quem o faz não o realiza por amor genuíno à higiene, mas por  frete escuso ou interesse escaninho numa das imundícies. Repito: Não é devoção à limpeza: é propaganda eleitoral. E das rascas.
Ou então não, dir-me-ão as almas mais caridosas; que é mero fruto da ingenuidade, de boa fé, com boa intenção. Pois, contra bem intencionados desses já fiquei eu  vacinado (e pena não ter também ficado o país) no 25 de Abril. Já sei qual vai ser o resultado da "boa intenção"... Que, diz o provérbio, povoa os infernos.

PS: consta que as "câmaras corporativas"  rosas e laranjas que infestam a blogosfera (quem a viu e quem a vê!...) são, em larga percentagem, tripuladas por funcionários públicos. Faz todo o sentido. Em pleno mundo às avessas, numa sociedade em putrefacção acelerada, o parasita ascende a guardião da moral pública. .


domingo, agosto 30, 2015

Carambolas óbvias



E, paulatinamente, nos telejornais aos domicílio o enfoque nos resultados das democratizações à pressão em redor da Europa (e inerentes carnificinas em série de Exércitos Islâmicos, Al-Cagadas e outros franchisings amerosaudossioníssimos) é mínimo, e o enfoque nos desconfortos vários que os refugiados padecem na sua invasão da Europa, sobretudo por latitudes da Húngria (essa recaída abominável em anacronismos desdemocráticos e nacionalistas, passe o pleonasmo) é máximo. Uma catástrofe humanitária e genocídio inaceitável, não tarda nada. As desumanidades dos húngaros equiparam-se, agravam e culminam as do horrendo ditador da Síria, ignóbil causador de toda esta maçada. Subsidiado e instigado pelos russos, é preciso nunca esquecer.
Por este andar, os americanos em vez de bombardearam, a conta-gotas e sonolentos, as putativas posições do ISIL, acabam a bombardear, com todo o gosto e o amparo histérico da Nato, os fascistas da Húngria. Isto se uma revolução colorida ad-hoc não se lhes antecipar. As novas Bósnias, Kosovos e  islamo-albânias são onde um homem quiser. E já repararam na exotíssima língua que estas vagas de migrantes utilizam para as suas reinvindicações televisivas?... Espontaneidade é assim. 

sexta-feira, agosto 28, 2015

Imagens em nu integral do Apocapitalipsismo

Tenho que agradecer à sempre impagável (e, por conseguinte, insubornável) leitora Marina o conhecimento destas maravilhas. São imagens duma eloquência e actualidade  avassaladoras. O autor - um gentleman que responde pela graça de Steve Cutts - merece destaque e visita atenta. Aqui deixo duas ou três das minhas preferidas...





Filhos da Tábua Rasa

Eu depois explico melhor, - isto é, mais tecnicamente e à bordoada. Mas, para já, fica a apresentação por um inglês insuspeito de qualquer heresia anti-democrática. Um daqueles que tão bem decoram o hall de entrada da "sociedade aberta".

«O pai era puritano e lutou no Parlamento. No tempo de Cromwell, quando Locke estava em Oxford, a Universidade era ainda escolástica em filosofia. (...)
Foi o mais feliz dos filósofos. Completou a obra de filosofia teórica justamente quando o governo do seu país caía na mão de homens que partilhavam das suas opiniões políticas. Na prática e em teoria, as ideias que advogava foram por muitos anos defendidas pelos políticos e filósofos mais vigorosos e influentes. As suas doutrinas políticas, com os desenvolvimentos de Montesquieu, foram insertas na Constituição americana, e podem reconhecer-se sempre que há uma disputa entre o presidente e o Congresso. A Constituição britânica baseava-se nas suas doutrinas até há cerca de cinquenta anos, assim como a francesa de 1871.
Deveu-se a Voltaire a sua imensa influência em França no século XVIII. Voltaire, que em novo passara algum tempo na Inglaterra, interpretou as ideias inglesas aos seus compatriotas nas Lettres Philosophiques. (...)
Os herdeiros de Locke são: primeiro, Berkeley e Hume; segundo, os philosophes franceses que não pertencem à escola de Rousseau; terceiro, Bentham e os radicais filosóficos; quarto, com acrescentos importantes da filosofia continental, Marx e seus discípulos. (...)
«No tempo de Locke os seus maiores contraditores filosóficos eram os cartesianos e Leibnitz. Ilogicamente, a vitória da filosofia de Locke em França e Inglaterra deveu-se em grande parte ao prestígio de Newton. A autoridade de Descartes como filósofo foi acrescida mesmo no seu tempo pela sua obra matemática e de filosofia natural. Mas a sua teoria dos vórtices era claramente inferior à lei da gravitação de Newton como explicação do sistema solar. A vitória da cosmogonia newtoniana enfraqueceu o respeito por Descartes e aumentou o respeito pela Inglaterra. Ambas as causas favoreciam Locke. Na França setecentista, onde os intelectuais estavam revoltados contra o despotismo estéril, corrupto e antiquado, a Inglaterra era considerada pátria da liberdade, predispondo-os em favor da filosofia de Locke pela sua doutrina política. Nos últimos tempos antes da Revolução a influência de Locke foi reforçada pela de Hume, que viveu algum tempo em França e conheceu pessoalmente muitos dos savants orientadores.
Necessidade do Ateísmo, de Shelley, que o fez ser expulso de Oxford, está cheia da influência de Locke.»
- Bertrand Russell, in "História da Filosofia Ocidental"
Chamo a atenção que o Russell se encontra nos antípodas das minhas simpatias filosóficas. Mas para falar da seita, nada melhor que um membro efectivo. E neste caso o cavalheiro limita-se a descrever o óbvio ululante. Além disso,  estas coisas quando proferidas por um anglocoiso ganham logo um valor acrescentado, toda uma mais valia... Mas é verdade,  nasceram da mesma punheta: os comunas da treta e os democratas do cuspo. E o litígio é mera rixa entre irmãos... Por causa da herança.

quarta-feira, agosto 26, 2015

Os servos da Bolha

Aqui há uns anos, os deslumbradinhos e parafílíticos de plantão atiravam olhares embevecidos à Irlanda e apontavam aí toda a montanha de virtudes  económicas que nos faltavam. Em menos de nada, porém, a Irlanda que ia à frente passou para trás e ei-la na mendicidade financeira. Um pouco antes tinham sido os "tigres asiáticos". Dum momento para o outro, transformaram-se em gatos assustados esgaravatando em caixotes de beco sem saída. Desmesurou-se então no nano-horizonte destas abéculas, zénite nec plus ultra da globalização, altar vivo à glória do capitalismo milagreiro, a China. A China é que era. Crescia a olhos vistos e a ritmos vertiginosos. Produzia, exportava, alistava hordas de operários perfeitos, alastrava pelo mundo, da áfrica à semi-áfrica (Portugal e ilhas), pechinchando empresas e açambarcando negócios. Pois parece que, subitamente, a assombrosa China entrou em não menos assombroso colapso. Os estampidos de manadas na bolsa multiplicam-se; pelos quatro cantos do planeta, os conquistadores de ontem amanhecem saldosos e liquidatários.
Uma coisa que sabemos de ciência segura nos tais "mercados" é que são tudo menos livres e espontâneos. E coisa mais simples do que desencadear o pânico e a balbúrdia entre a parvoíce convulsiva e atávica dos investidores (em especial nos de arribação) não deve haver. Simples e rotineira, diga-se.
Há quem teime, por estupidez idólatra, em fazer do capitalismo uma ideologia, ou, por estupidez fóbica, um sistema. De seu real e concreto nada tem disso. Bem pelo contrário. E aí reside, em boa parte,  a sua força. E o que se tem verificado, tretas e propagandas à parte, é que anda pelo mundo não exactamente a criar paraísos, mas bolhas.
A fantasia dura até que a bolha rebenta.


PS: A economia de mercado, sem uma higiene básica de nacionalismo, não é remédio: é veneno. Vou só ali acender mais uma vela ao Oliveira Salazar.

segunda-feira, agosto 24, 2015

O Apocapitalipsismo


Há um paralelismo muito interessante de fazer. Entre os movimentos migratórios do colonialismo/imperialismo europeu (nos finais do século XIX) e o actual neocolonialismo/imperialismo esquisito (chamemos-lhe assim, por caridade).
No postal anterior, Cecil Rhodes definia a coisa, há pouco mais de cem anos, como um movimento de descompressão das tensões sociais inerentes ao capitalismo na Grã-Bretanha (e como o preceito foi rapidamente emulado por franceses, alemães, belgas, etc, podemos até dizer na Europa). Assim, europeus excedentários adquiriam espaço e oportunidade noutros continentes (sobretudo África e Ásia). 
Ora, pelo que vamos assistindo em catadupa diária nos telejornais, hoje, o processo é completamente ao contrário: numa Europa onde se vão acumulando tensões inerentes ao neocapitalismo (crise, desemprego, aculturação, anomia, amnésia, desagregação familiar, deslocalização produtiva, precarização, especulação financeira desenfreada, e o que mais queiram), não só os europeus crescentemente "excedentários" estão encafuados num curral cada vez mais burocratizado como suportam uma invasão de árabes e africanos em avalanche.
Entretanto, os governantes europeus ("governantes" é para rir, claro), em vez de tomarem medidas sérias e consequentes para acudir às tensões internas e aos exércitos de aflitos europeus, entretêm-se, na companhia, sempre benemérita e geo-altruísta, dos americanos, a instalar balbúrdias e carnificinas caóticas nos países em redor da Europa, promovendo exércitos de hiper-aflitos exógenos que depois afluem para reforçar a aflição europeia. Não é difícil de antever, a breve prazo, o resultado disto.
Decerto o óbvio não requer desenho a lápis: no meio das hordas afro-muçulmanas da hora presente,  por entre genuínos desgraçados e coitados avulsos, infiltram-se já terroristas aos molhos e a futura fonte de recrutamento, agitação e conflito social. Em sociedades onde se avolumam os exércitos de destituídos e ostracizados, a chegada de turbas alógenas em debandada serve para quê? Para os estados que não querem saber dos seus brincarem à caridadezinha com os outros? E depois toda esta gente, sem emprego nem perspectiva, vai sobreviver como? A expensas do otário europeu, vulgo contribuinte, ou a expensas próprias via criminalidade de recurso?
Em suma, os líderes europeus do antanho podiam ser acusados de terem em fraca consideração os povos afro-asiáticos (na altura ainda não tinha sido inventado o "terceiro mundo"). Os actuais, imbuídos de palpitante espírito democrático, desconsideram todos por igual. . A aflição que semeiam em redor é só para vir agravar ainda mais a aflição que fomentam dentro de portas. Diante de tão edificante, absurdo e suicidário quadro,  quem tenha ainda dificuldade em perceber que as actuais governâncias europeias não mandam coisa nenhuma e, ainda menos, mandam no interesse dos respectivos povos, das duas três: ou é burro convicto, ou cego fanático, ou suíno de engorda. Não temos governantes, temos governantas.

PS: É verdade que, enquanto projecto de desarmadilhamento duma hipotética guerra civil britânica, o colonialismo de Rhodes foi largamente ultrapassado pelo matadouro da 1ª Guerra: nada melhor que uma guerra  civil europeia para turbo-escoadouro  das tensões anglo-sociais. Mas de crise em crise, de guerra em guerra (alternado entre militar e económica), o capitalismo lá vai de vento em popa, ou melhor dizendo, de pseudo-apocalipse em pseudo-apocalipse. Prova mais acabada da regência do Anticristo não se conhece: até o Fim do Mundo é às prestações. E com juros.

terça-feira, agosto 18, 2015

O colosso Rhodes

«Estive ontem no East End [bairro operário de Londres] e assisti a uma reunião de desempregados. Ouvi aí discursos arrebatados. Era apenas um grito: "Pão,Pão!" Revivendo toda a cena ao regressar a casa, fiquei ainda mais convencido do que dantes, da importância do imperialismo... A ideia que me é mais cara, é a solução do problema social, isto é: para salvar os quarenta milhões de habitantes do Reino-Unido duma guerra civil  mortífera, nós, os colonizadores, devemos conquistar novas terras afim de aí instalar o excedente da nossa população, encontrar novos mercados para os produtos das nossas fábricas e das nossas minas. O Império, sempre o disse, é uma questão de barriga. Se quereis evitar a guerra civil, é preciso tornar-vos imperialistas.»
- Cecil Rhodes, 1895

O colonialismo britânico, que tem em Rhodes o seu sumo pontíficie, surge assim como uma primeira forma de desarmar uma tensão social que o ímpeto inaugural do capitalismo resfolgante instaurava a passos largos nas sobrelotadas urbes britânicas. Colonizar era, pois, segundo Rhodes, uma forma benigna de desinfestar as Ilhas e ampliar os negócios. A ideia tinha a sua lógica e não se pode dizer que fosse destituída de senso. Acudia, em simultâneo, às angústias prolefóbicas do reverendo Malthus e apresentava trampolins providenciais às efervescências social-darwinistas da época. E até Stuart Mill, em bênção antecipada, já proclamara: "Pode-se afirmar, no estado actual do mundo, que a fundação de colónias é o melhor negócio em que se possa aplicar os capitais dum velho e rico país.»
Desta peregrinação desembestada  resultaram muitas coisas que a história documenta. A guerra Bôer foi uma delas e merece referência especial por uma invenção que faria furor no século vinte: o Campo de Concentração (british made, registe-se). Conheço uma rapariga aul-africana (bastante jeitosa, por sinal) cuja avó penou num desses beneméritos estabelecimentos. Além do rapinanço das vastas minas de diamantes e ouro aos Boers, os Ingleses acharam também de bom tom expropriar aos Portugueses (seus velhos aliados, aspas, aspas) os territórios entre Angola e Moçambique (baptizadas logo de seguida como Rodésia do Norte e Rodésia do Sul, em homenagem ao chefe flibusteiro). Para o efeito, apresentaram o famigerado Ultimato à coroa portuguesa, sob ameaça de bombardeamento sumário por vaso de guerra entediado, caso o deferimento não fosse imediato. O rei encolheu-se (entalado entre a partidofagia interna e patifofagia externa, não seriam abundantes os seus recursos em campo de manobra) e acabaria removido pouco adiante, muito em consequência desta prenda dos prestimosos aliados. Agradeceram os auto-proclamados republicanos (qualquer bando de malfeitores e ladrões, uma vez na posse dum palácio, estima de arvorar-se em nobre e bestialmente digno). E trataram de materializar a sua gratidão aquando da carnificina industrial na esquina logo adiante, enviando milhares de portugueses para o matadouro da Flandres. Ao lado dos ingleses, pois claro. Para que estes (mai-los franciús)  não nos larapiassem o resto do ultramar, impunha-se que nos deixássemos massacrar pelos alemães. Não há colónias grátis. E a rapaziada lá foi; e lá cumpriu a rigor.

Podemos dizer que a república portuguesa é uma engendradela do colonialismo britânico?  O que é que acham?


PS: Não será mesmo a evolução lógica da esngendradela que já "constitucionalizara" a monarquia portuguesa?... Só perguntas difíceis...

segunda-feira, agosto 10, 2015

Prelúdio à Anatomia Geopulhítica

«A chamada “democracia” é um logro, o sufrágio universal uma máscara. Nos sistemas modernos burocratizados, cujo nascimento data de meados do século dezanove, a organização feudal foi, digamos assim, transposta para um nível seguinte. O objectivo principal daquilo que Tucídides referiu na sua época comosynomosiai (literalmente, “conjura”), isto é, as confrarias ocultas que agem por detrás dos clãs dirigentes, tem sido transformar o processo de cobrança de rendas à população (um “free income” na forma de alugueres, encargos financeiros e extorsões similares), tão imperscrutável e impenetrável quanto possível. A tremenda sofisticação, e a muralha propagandista de mistificações engenhosamente divulgadas, em redor do sistema bancário - instrumento principal através do qual os hierarcas expropriam e controlam a riqueza das suas comunidades hospedeiras -, constitui o testemunho límpido desta transformação essencial suportada pela organização oligárquica/feudal na era moderna. O Ocidente passou duma estrutura agrária de baixa tecnologia, assente nas costas de servos privados de direitos, para uma colmeia pós-industrial altamente mecanizada que se nutre da força de não menos desprivilegiados escravos de colarinho-branco ou azul, cujas vidas são hipotecadas para comprarem de acordo com as modas do consumo. Os mais recentes Lordes da Mansão já não são mais avistados a exigir o tributo, desde que passaram a confiar nos mecanismos da contabilidade bancária para esse fim, enquanto os sicofantas da classe média, tais como académicos e publicitários, permaneceram inteiramente leais ao synomosiai. A outra diferença concreta entre o antigamente e o agora reside no enorme aumento de rendimentos da produção industrial (cujo nível potencial, não obstante, tem sido sempre significativamente mais elevado que a produção real, de modo a manter os preços altos). No que respeita à “participação democrática” dos vulgares cidadãos, estes sabem lá bem no fundo dos seus corações que nunca decidem nada de importante, e que a política consiste na arte de influenciar as multidões nesta ou naquela direcção, consoante os desejos ou antecipações dos poucos que possuem as chaves da informação, do conhecimento efectivo (secreto) e da finança. Este pequeno número pode, em determinada altura, estar mais ou menos dividido em facções antagónicas; quanto mais profunda a divisão, mais sangrenta a disputa social. O registo eleitoral do Ocidente no século passado constitui um monumento cintilante à completa inconsequência da “democracia”: apesar de duas guerras de proporções cataclísmicas e um sistema último de representação que produziu uma pletora de partidos, a Europa Ocidental não conheceu alteração significativa na sua constituição socio-económica, enquanto a América, com o passar do tempo, foi-se tornando cada vez mais idêntica à sua própria oligarquia, reduzindo o aparato democrático a um concurso entre duas alas rivais duma estrutura monopartidária ideologicamente compacta, que é, de facto, “lobbyzada” por “grémios” mais ou menos ocultos: o grau de participação pública nesta flagrante falsificação é, conforme se sabe, compreensivelmente baixo: um terço dos cidadãos, no melhor dos casos.»
- G.G. Preparata, "Conjuring Hitler - How Britain and America made the Third Reich" (tradução minha)

Nos próximos tempos, e na medida do pouco tempo disponível que me assiste, tentarei investigar um pouco melhor certas mitologias impostas à força de propaganda ultra-pasteurizante. Primeira e Segunda Guerras Mundiais, em concreto.


sábado, agosto 08, 2015

O Mal e as suas apologias

O espectador neutro e imparcial da Segunda Guerra dá consigo entre o perplexo e o abismado. A coisa é
anunciada como uma guerra de épicas dimensões, mas mais parece um concurso de genocídios. Dir-se-ia que a atrocidade devém primado estratégico e expoente táctico. O combate é apenas um pretexto: o essencial é a chacina, a hecatombe industrial.

Houve atrocidades para todos os gostos e para todos os credos. Internos e externos. Ditatoriais e democráticos. Mas que as ditaduras, fruto da sua dinâmica de poder ultra-pessoalizado e concentrado possam ceder, de roldão, às maluquices de um único indivíduo (caso emblemático dos Hitler e Stalines que tanto jeito dão à sonsice americólatra) não deveria espantar-nos (não é a impiedade uma das características da tirania?). Já o mesmo não pode dizer-se desses sistemas neo-angélicos, a arfar cheques e balanços e a chocalhar direitos e garantias... Que tenham massacrado em moldes industriais (caso dos tapeteamentos aéreos sobre alvos civis) e, para cereja no topo do bolo, ainda tenham encerrado as festividades com o foguetório mais assassino e concentrado de que há memória (salvo eventualmente Dresden, mas aí, com uma chusma de bombardeiros), isso, sim, é que é genuinamente espantoso. Porque o Mal a realizar coisas malvadas é lógico e já estamos calejados; agora que o bem ultrapasse o mal nesses exercícios é que deveria transportar-nos, senão ao escândalo, ao menos à estupefacção. 
Que Hitler, ou os japoneses, tivesem atirado com a bomba atómica a um parque infantil, preferencialmente kosher ou chinês, obederia à sua perversidade lendária. Agora, os americanos, senhores, os santos americanos, baluartes da liberade, da democracia e do gentil mercado!... Justificável? Só do ponto de vista moral dum percevejo ou político dum verme!... Justificável é o nascimento de quem o lambuza como descuido extra-vaginal da mãezinha!

Mas a verdade é ainda mais inquietante. Verificamos ainda algum escrúpulo e resquício de pudor entre os chacinadores maléficos - dos nazis aos comunas. Dão-se ao trabalho de mascarar as carnificinas - abrem valas, improvisam crematórios, estudam soluções suavizantes para o sinistro empreendimento (enfim, retêm ainda alguma vaga noção da infâmia da coisa; não pretendem gabar-se nem fomentar um qualquer tele voyeurismo de basbaques frenéticos ). Os alemães, aliás, como não me canso de proclamar, são mesmo (e continuam a ser) um caso paradoxal de inteligência e burrice, em trepidante tandem. São capazes das mais brilhantes engenharias e, em simultãneo, das mais sumptuosas asneiras. O caso dos judeus foi um hino à segunda. Despendem toda uma azáfama de expedientes e meios para retirarem os judeus das cidades, enviando-os para fora do raio de acção dos bombardeiros aliados. Mas, afinal, queriam exterminá-los ou protegê-los? Ora, fazia mais sentido retirarem os alemães e deixarem lá os judeus para serem furiosamente pulverizados.  Das duas, uma: ou os aliados se inibiam com a clientela, ou cometiam eles o holocoiso. Está bem que no fim, acabariam sempre a culpar os alemães, como os israelitas culpam os palestinianos pelos massacres que lhes acontecem, mas, enfim, pelo menos poupavam, os germânicos, comboios e combustível (já não para falar numa horda de funcionários que bem mais utéis teriam sido na frente leste). Pronto, mas é como digo: nota-se ainda algum humanitarismo, embora perverso, nos maligníssimos.
Agora os neo-querubínicos e panta-serafiníssimos, Mãe Santíssima, tratam de transformar o genocídio, mais que num espectáculo, num acto global de exibicionismo macabro. É isso que Hirosshima significa: o Mal já não precisa de máscara nem camuflagem. Já não se esconde. A sua ordem já não é apenas a da vil e furtiva descendência de Caim: emerge doravante nu, completamente desembaraçado, a céu aberto... negro e impiedoso... No altar vazio de Deus.


PS:  Nunca louvaremos o suficiente Oliveira Salazar por nos ter mantido fora daquela orgia das trevas que foi a Segunda-Guerra Mundial. Vou já ali acender-lhe uma vela!

PSS: A mesma lógica do "mal menor" que justifica Hiroshima serviu a Hitler para justificar o programa nacional de eutanásia. Portanto, esfreguem-se e relambuzem-se!

quinta-feira, agosto 06, 2015

O MAL



Experimentar uma bomba atómica sobre alvos militares é um acto abjecto. Experimentá-la, sem aviso, sobre uma cidade civil, destituída de qualquer interesse militar ou estratégico, tem outro nome. Que, para cúmulo, tenha sido perpetrado por aqueles que já tinham a guerra completamente ganha, não podendo portanto alegar desespero ou necessidade maior, torna a coisa especialmente monstruosa. 
Não é o mal absoluto, mas é a absoluta desumanidade.

sábado, agosto 01, 2015

A Lotaria das Almas, segundo Platão


«E as almas, à medida que chegavam, pareciam vir de uma longa travessia e regozijavam-se por irem para o prado acampar, como se fosse uma panegíria; as que se conheciam, cumprimentavam-se mutuamente, e as que vinham da terra faziam perguntas às outras, sobre o que se passava no além, e as que vinham do céu, sobre o que sucedia na terra. Umas, a gemer e a chorar, recordavam quantos e quais sofrimentos haviam suportado e visto na sua viagem por baixo da terra, viagem essa que durava mil anos, ao passo que outras, as que vinham do céu, contavam as suas deliciosas experiências e visões de uma beleza indescritível. referir todos os pormenores seria, ó Gláucon, tarefa para muito tempo. Mas o essencial dizia ele que era o que se segue. Fossem quais fossem as injustiças cometidas e as pessoas prejudicadas, pagavam a pena de tudo isso sucessivamente, dez vezes por cada uma, quer dizer, uma vez em cada cem anos, sendo esta a duração da vida humana - a fim de pagarem, decuplicando-a, a pena do crime; por exemplo, quem fosse culpado da morte de muita gente, por ter traído Estados ou exércitos e os ter lançado na escravatura, ou por ser responsável por qualquer outro malefício, por cada um desses crimes suportava padecimentos a decuplicar; e, inversamente, se tivesse praticado boas acções e tivesse sido justo e piedoso, recebia recompensas na mesma proporção. Sobre os que morreram logo a seguir ao nascimento e os que viveram pouco tempo, dava outras informsações que não vale a pena lembrar. Em relação à impiedade ou piedade para com os deuses e para com os pais, e crimes de homicídio, dizia que os salários eram ainda maiores.
Contave ele, com efeito, que estivera junto de alguém a quem perguntaram onde estava Ardieu o Grande. Este Ardieu tinha sido tirano numa cidade de Panfília, havia já então mil anos; tinha assassinado o pai idoso e o irmão mais velho, e perpretado muitas outras impiedades, segundo se dizia. E o interpelado respondera:"Não vem, nem poderá vir para aqui. Na verdade, um dos espectáculos terríveis que vimos foi o seguinte: Depois de nos termos aproximado da abertura, preparados para subir, e quando já tinhamos expiado todos os sofrimentos, avistámos de repente Ardieu e outros, que eram tiranos, na sua quase totalidade; mas também havia alguns que eram particulares que tinham cometido grandes crimes - que, quando julgavam que iam subir, a abertura não os admitia, mas soltava um mugido cada vez que algum desses, assim incuráveis na sua maldade ou que não tinham expiado suficientemente a sua pena, tentava a ascensão. Estavam lá homens selvagens, que pareciam de fogo, e que, ao ouvirem o estrondo, agarravam alguns pelo meio e levavam-nos, mas, a Ardieu e outros, algemaram-lhes as mãos, pés e cabeça, derrubaram-nos e esfolaram-nos, arrastaram-nos pelo caminho fora, cardando-os em espinhos, e declaravam a todos, à medida que vinham, por que os tratavam assim, e que os levam para precipitar no Tártaro. (...)
[A Lotaria das Vidas futuras pelas Moiras]
«Declaração da virgem Láquesis, filha da Necessidade. Almas efémeras, vai começar outro período portador da morte para a raça humana. Não é um génio (daimon) que vos escolherá, mas vós que escolherteis o génio. O primeiro a quem a sorte couber, seja o primeiro a escolher uma vida a que ficará ligado pela necessidade. A virtude não tem senhor; cada um a terá em maior ou menor grau, conforme a honrar ou desonrar. A rersponsabilidade é de quem escolhe, O deus é isento de culpa.»
Ditas estas palavras, atirou como os lotes para todos e cada um apanhou o que caiu perto de si, excepto Er, a quem isto não foi permitido. Ao apanhá-lo, tornara-se evidente para cada um a ordem que lhe cabia para escolher. Seguidamente, dispôs no solo, diante deles, os modelos de vidas, em número muito mais elevado do que o dos presentes. Havia-as de todas as espécies: vidas de todos os animais, e bem assim de todos os seres humanos. Entre elas havia tiranias, umas duradouras, outras derrubadas a meio, e que acabavam na fuga, na pobreza, na mendicidade. Havia também vidas de homens ilustres, umas pela forma, beleza, força e vigor, outras pela raça e virtudes dos antepassados; depois havia também as vidas obscuras, e do mesmo modo sucedia com as mulheres. Mas não continham as disposições de carácter, por ser forçoso que este mude, conforme a vida que escolhem. Tudo o mais estava misturado entre si, e com a riqueza e a inteligência, a doença e a saúde, e bem assim o meio termo entre esses predicados.»
- Platão, "Políteia" (vulgarmente traduzido por "República")
Quatro séculos antes de Jesus Cristo. Qualquer semelhança entre isto e o céu/ inferno cristão não é mera coincidência. Santo Agostinho usou e abusou.
O equivalente cristão do daimon/génio que a alma escolhe é o "anjo da guarda". Eventualmente, o nosso investigador do espiritismo vai falar-me em "guia".
Espero, sinceramente, que Platão esteja atestado de razão no que respeita àquela parte negritada. Temos por aqui, à beira mar plantada, abundante freguesia.
Não por acaso, vários filósofos lúcidos referem-se ao cristianismo como um platonismo para uso popular. Portanto, se querem crucificá-lo por ter inspirado algumas perversões comunistas, lembrem-se que antes disso arcou com a Igreja em peso e forneceu estrutura e consistência ao pensamento cristão. 

sexta-feira, julho 31, 2015

A Parafísica (r)

O vulgo, que é cada vez mais crivado de pseudo-informação e está cada vez mais ruidoso e estúpido, convenceu-se de que a Metafísica é uma sucata mental completamente inútil que, mais coisa menos coisa, consiste em discutir o sexo dos anjos, nas suas diversas ordens e classes: querubins, tronos e serafins.
Todavia, quando um ateu - melhor ainda, um ateísta moderníssimo - proclama que Deus não existe nem faz cá falta nenhuma -haja dinheiro e tecnologia, que o resto vem por arrasto -, está a responder a uma das perguntas basilares da Metafísica -que, recordo, são quatro: 1. O que é o Homem? 2. Donde vimos? 3. Para onde vamos? 4. Deus existe? Exactamente, e por incrível que pareça, está a responder - pela negativa, mas a responder. Por conseguinte, e apesar da sua jura de amor eterno e exclusivo a uma mera e redentora Físico-química, está a patinhar na Metafísica. E o caso é tanto mais grave e patético quanto se serve de tudo para erguer e esgrimir contra Deus, para firmar a não-existência Deste. Quer dizer, a sua metafísica resume-se, não a quatro, mas a uma única pergunta: a quarta - Deus existe? - Não; que disparate anacrónico e aberrante: Deus não existe!, proclamam a todas as horas.
Tentem inquirir-lhes pelo Homem, pela proveniência ou pela finalidade do mundo. Nada disso lhes interesssa ou minimamente os intriga ou afecta. O importante, o essencial é que Deus não exista. Crucial é que Ele não estorve. Acreditam pois, e piamente, na "Não-existência de Deus". E acreditam à maneira das crianças apavoradas com qualquer papão ou monstro emboscado nas trevas que atravessam a noite a repetir a si próprias: "os monstros não existem! O papão não existe!..." Eles, porém, não só atravessam as noites como passam os dias. E não apenas o repetem mentalmente a si próprios, ou martelam obsessivamente a quem quer que encontrem, como o escrevem por toda a parte. Aposto que até nas toalhas e guardanapos dos restaurantes, concluído o repasto, lá deixam garatujado: "Deus não existe!" Já não falando nas paredes dos sanitários ou nos blogues que criam para o efeito, passe a redundância. É uma espécie de religião automática, este ateísmo monocórdico.
No entanto, a bem da verdade, convém precisar que a metafísica ateísta -chamemos-lhe parafísica - não é apenas uma mutilação e uma miniaturização utilitária da metafísica ocidental. De facto, mais do que reduzi-la a uma única pergunta, eles convertem-na numa única resposta. Se ao longo de milénios se pesquisaram e entreteceram "provas da existência de Deus" era porque, por um lado, existia a pergunta e, por outro, existindo essa pergunta, existia a dúvida própria do mortal. Ora, nos antípodas disso, a afirmação da não-existência de Deus destes religiosos modernos é peremptória, definitiva, axiomática. Não responde nem duvida em tempo ou modo algum: decreta. Sendo automática, é igualmente uma Fé de burocratas, aliás, mais que Fé: uma fézada. Nitidamente, constata-se que ambiciona o império absoluto duma qualquer Repartição Geral das Crenças donde, após publicação em Diário da República, se obrigará, com força policial, à ilegalização de Deus e, no mínimo, ao internamento compulsivo para desintoxicação dos infractores. Quando, há dias atrás, o Governo Chinês proibiu o Buda de reencarnar, surpreendemos em pleno acto uma eclosão exuberante dessa mesma mentalidade peregrina - epifania mirabolante, essa, que deve ter enchido de volúpia onírica e projecções equiláteras os ateístas cá da paróquia. "O chamado Buda existente reencarnado é ilegal e inválido sem a aprovação governamental", decreta o Partido Comunista Chinês. Isto não é apenas hilariante: é sinistro. E não é apenas património folclórico dum país despótico ou duma cultura longínqua: entre nós porfia-se e avança-se, a passos visíveis, para uma uniformização forçada e burocrática de idêntico jaez tecnoeficiente; uma universão em que os cidadãos são degradados a meros porta-modas -sendo estas, todas elas (económicas, políticas, científicas, jurídicas e morais), obrigatoriamente compactadas numa única religião laica, monototemística, rigorosa e exclusivista. Creem, os seus apóstolos frenéticos, que através duma hábil manipulação - onde a alquimia do voto enxertada na cabalística mercantileira operará milagres -, a Opinião Pública poderá ser contrafeita em Religião Pública. Já que Deus não morre, ilegalize-se. Já que teima em persistir, proiba-se. A limite, encarcere-se. Por conspiração e contumácia.
Ninguém se surpreenda se um dia destes a parafísica for objecto de referendo.
Há toda uma nova religião de ímpetos proselitistas e globais em marcha. Só se pode espantar com o carácter cada vez mais opressivo de nova-catequese que infecta os sistemas educativos ocidentais quem ainda não percebeu isso. Estes ateístas são apenas uma das suas tropas de choque - uma espécie de novos dominicanos espontâneos. Deus criou o mundo, mas é a eles que compete corrigi-lo.
E preparemo-nos: Moral e Religião devirá, a breve trecho, disciplina nuclear nos diversos ciclos do Ensino. A única, aliás.

PS: Daqui nasceu aquela fórmula pública que, entretanto, deveio apócrifa, do "ateu - aquele que acredita piamente na não-existência de Deus". Tenho muitos filhos desses. É um pouco como as anedotas: às tantas, todas são de geração espontânea. E assim é que deve ser.

quarta-feira, julho 29, 2015

Lições Antigas (rep)

«Um tempo houve no qual Creonte era digno de inveja, preservara o país dos seus inimigos, tornara-se o seu recto monarca e governava, criando prosperidade para a sua nobre descendência. Agora não existe nada, tudo está perdido.
Quando, por sua culpa, o homem trai a sua própria alegria, já não me parece um ser vivo mas antes um cadáver ambulante. Amealha, se quiseres, grandes riquezas em casa; encerra-te no fausto da tirania: se a isso não juntares a felicidade íntima, não compraria eu todo o resto a troco da sombra dum fumo».
- Sófocles, "Antígona"


Uma antítese constante do pensamento grego é a monarquia versus tirania. Como diria mais tarde um filósofo: "poucos são dignos de inveja, a maioria é digna de pena". Para o grego clássico, no auge da sua civilização, o recto monarca é digno de inveja; o desmedido tirano é digno de lástima. Por uma razão muito simples: porque ao transgredir as regras eternas do equilíbrio cósmico está, inexoravelmente, a convocar sobre si o desastre. A hubris gera necessariamente a athe. Ou seja, a desmesura atrai a ruína, a peste, o desastre, a desgraça, enfim, a retaliação cósmica. Esta noção, para os gregos, não era mera poesia ou estrita religião: era farol ético, resultado de aturada observação empíricaEra, por isso mesmo, cultura. E era, dito com plena propriedade, sabedoria. Em relação a eles, nós só diferimos porque temos mais de dois milénios de comprovação real acrescida daquela regra cósmica. Em tese, deveríamos estar mais sensatos, mais prudentes; mas, na realidade, comportamo-nos como cegos guiados por loucos - como descobridores da pólvora a cada instante, como umbigos recriadores de todo o Universo em cada passagem de moda. Temos olhos cegos de tanta prótese, de tanto óculo, binóculo, telescópio e microscópio. De tanto distorcermos o mundo, de tanto espreitarmos atrás das coisas fomos perdendo a visão para aquilo que temos à frente. Entretidos com pinchavelhos e pentelhices, tornámo-nos míopes e vesgos à plenitude. De tanto embascacarmos diante de tanto novo adereço, já perdemos de vista o sagaz velho que, sob tanta máscara, plástica e maquilhagem, lá no fundo, somos. Por desuso, os olhos de águia devieram olhos de corvo; o legado de Prometeu atrofiou-se a uma tripa palradora e suinocéfala. Da Grécia trágica viemos dar a esta anti-grécia grotesca e sórdida. Esta civilização de aviário e pechisbeque. Este egódromo da algazarra e do chinfrim. Este viveiro de tiranias e tiranetes. Desde a tirania do bandulho à tirania dos bandalhos e das turbas.
Mas não nos podemos queixar que não nos avisaram, lá, desde as raízes. A tirania, que pode ser exercida por um em nome de muitos ou por muitos em nome de um, é sempre uma excreção da mesma glândula: a oclocracia. Seja na forma de despotismo (mais ou menos desenfreado), seja na aparente democracia (menos ou mais envaselinada), é sempre a mesma derivação da massa desordenada e confusa, a mesma desorientação colectiva - a balbúrdia sistematizada. E, tão certo como o nascer o o pôr do sol, será sempre, por decreto eterno, a desagregação desmedida que precederá a catástrofe.

A melhor lição é, pois, a mais antiga: resguardemo-nos da turba, dos seu jóqueis e, sobretudo, das suas infatigáveis aleivosias.

terça-feira, julho 28, 2015

Uma revolução completa

O sol não evoluiu nada nos últimos milhares de anos.  Ao contrário do homem, que, evoluiu duma forma assombrosa, nunca vista...o campeão das galáxias! Pelos vistos, agora já não evolui mais, porque atingiu o zénite, a perfeição económica (a única que interessa, afinal). Mas, caramba, até que foi uma cavalgada emocionante.
Pois, o homem está sempre a mudar. De ideias, então, é pior que os trapos: umas de manhã e outras à tarde. Até porque quem veste o alheio nunca anda descansado. Já o sol, pobre coitado, não muda. Nem pensa. Deita-se e levanta-se todos os dias à mesma hora. E brilha. 
Não, obstante, tudo gira à volta dele. Até os negócios. E é por tudo girar como um relógio, ou seja, é por a mudança cumprir regras cósmicas anteriores e superiores ao homem que a vida é possível. Qualquer pastor, agricultor ou pescador tradicional percebe e intui isto com relativa facilidade. E respeita religiosamente.
Mas no dia em que o sol, cansado da sua completa ausência de liberdade, decidir evoluir, nesse dia, aí sim, é  garantido, terminará a "evolução" do homem.
Embora para muitos homúnculos encerrados diante de ecrã, ela, mais até que acabado, já entrou em regressão ao troglodita descrito por Prometeu, segundo Ésquilo, como o pré-antropóide: "viviam em cavernas, como formigas, sem entendimento...olhavam e não viam". 
Se calhar, faz parte do ciclo. O fim da evolução é voltar ao incío. Uma revolução completa.

domingo, julho 26, 2015

Do Gulag ao galug




É sempre edificante recordar...

«As taxas de criminalidade Americanas sempre foram mais elevadas do que a maioria dos países europeus. O que é novidade é o recurso nos Estados Unidos a uma política de encarceramento maciço, em substituição dos controlos comunitários enfranquecidos pelas forças do mercado desregulado. Ao mesmo tempo, os americanos ricos estão, em número crescente, a afastar-se da co-habitação com os seus concidadãos, recolhendo-se a propriedades comunitárias muradas. Cerca de 28 milhões de americanos -mais de 10% da população - vivem hoje em prédios ou condomínios com guardas privados.
Nos fins de 1994, mais de 5 milhões de americanos viviam sob uma forma ou outra de restrições legais. De acordo com os números do Ministério da Justiça (Department of Justice), cerca de 1,5 milhões estavam encarcerados - em prisões estaduais, federais ou municipais. Isto significa que 1 em cada 193 adultos americanos está preso, o que corresponde a 373 em cada 100.000 americanos. Este número era de 103 em 100.000 quando Ronal Reagan foi eleito presidente. 3,5 milhões de americanos estavam em liberdade condicional.
A taxa de encarceramento dos Estados Unidos no fim de 1994 era quadrúpla da do Canadá, quíntupla da da Grã-Bretanha e catorze vezes superior à do Japão. Apenas a Rússia pós-comunista tem uma percentagem maior dos seus cidadãos atrás das grades. Na Califórnia, cerca de 150.000 pessoas estão presas. A população da Califórnia na cadeia é agora oito vezes superior à de 1970. Excede a da Grã-Bretanha e a da Alemanha juntas.(...)
A confluência de divisões e antagonismos étnicos e económicos nos Estados Unidos não tem equivalente em nenhum outro país desenvolvido. O mercado livre produziu uma mutação no capitalismo americano, em consequência da qual ele se assemelha mais aos regimes oligárquicos de alguns países latino-americanos do que à civilização capitalista liberal da Europa ou dos próprios Estados Unidos em fases mais recuadas da sua história.(...)
Os níveis de todos os crimes de violência, excepto homicídio, são consideravelmente mais elevados na América do que na Rússia pós-comunista. Em 1993 houve 264 roubos por 100.000 habitantes (contra 124 na Rússia), 442 assaltos (comparados com 27 na Rússia) e 43 violações (9,7 na Rússia). (...)
O assassínio de crianças é particularmente comum nos Estados Unidos. Cerca de três quartos dos assassínios de crianças no mundo industrializado ocorrem nos Estados Unidos. Entre os 26 países mais ricos do mundo,os Estados Unidos têm de longe as maiores taxas de suicídio infantil e de homicídios e outras mortes relacionadas com armas de fogo.(...)
Em 1987, a mortalidade infantil no Harlem oriental e em Washington DC era praticamente a mesma que na Malásia, na Jugoslávia e na antiga União Soviética. Um bebé nascido em Xangai em 1995 tinha menos probabilidade de morrer no primeiro ano de vida, maior probabilidade de aprender a ler e uma esperança de vida dois anos mais longa (até aos 76 anos) do que um bebé nascido em Nova Iorque.
As elevadas taxas de encarceração e de crime nos Estados Unidos estão acompanhadas por números igualmente excepcionais de litígios e de advogados. A América tem pelo menos um terço de todos os advogados do mundo.(...) Os condóminos privados, murados, fechados e vigiados electronicamente que protegem os habitantes dos perigos da sociedade que abandonaram são a imagem das prisões americanas. Erguem-se como símbolos do esvaziamento de outras instituições sociais - a família, a vizinhança e mesmo o emprego - que no passado suportavam o funcionamento da sociedade. A combinação de prisões de alta tecnologia e empresas virtuais pode tornar-se o emblema da América dos inícios do século XXI.
Na América do fim do século XX, o mercado livre tornou-se o motor de uma modernidade perversa. O profeta da América de hoje não é Jefferson ou Madison. E ainda menos Burke. É Jeremy Bentham, o pensador iluminista britânico do século XIX, que sonhava com uma sociedade hipermoderna reconstruída segundo o modelo de prisão ideal.»
  - John Gray, "False Dawn" 


Os outros tinham a Sibéria para onde enviar o refugo da Revolução. Estes não precisam: a revolução consiste no encarceramento generalizado. Com duas modalidades prodominantes: o encarceramento forçado e o auto-encarceramento (para defesa daqueles em trânsito para o encarceramento forçado). Entre uns e outros, os encarcerados forçado e os auto-encarcerados, vagueia o restante da população em regime de liberdade condicional, angustiado com o risco de resvalar ao encarceramento forçado e seduzido pela ganância de ascender ao auto-encarceramento. Moral da história: os ventos desta, afinal, são fruto de aerofagia crónica.

quinta-feira, julho 23, 2015

Prego a fundo e fé nos Mercados

É evidente que Portugal continua na bancarrota. Até porque a mais recente erupção da evidência foi combatida com a contracção descomunal de dívida ao FMI/BCE, e continua a ser "gerida" através da emissão rotineira de mais dívida (para pagar a dívida, dizem). A voragem estatal continua a mesma (embora doravante com as refeições gratuitas exclusivas a membros da seita, que os tempos são de austeridade para os outros). Portanto, basta um stressezito induzido e lá voltamos nós. Aliás, em menos de dois anos estaremos lá de novo; basta fazerem as continhas e largarem os alucinogéneos por um instante.
Mas será isto grave, ou sequer preocupante, o estarmos abivacados na bancarrota crónica?
Julgo que não. Como de costume, apenas seguimos a moda externa e aproveitamos a brisa. Os Estados Unidos também estão na bancarrota , todos pimpões (ao contrário de nós, como devem calcular, um fenómeno de proporções armagedónicas), e não parece que isso lhes cause grandes insónias. Nem a eles nem, pelos vistos, a ninguém: toda a gente corre a emprestar-lhes mais e a afagar-lhes e estimular-lhes mais o buraco, digo, o abismo.
Portanto, o que se depreende é que as bancarrotas só são graves quando são pequenas. Um pouco como as dívidas à banca: se um tipo lhes deve mil contos tem um problema; se lhes deve dez milhões é o banco que tem um problema.
Começo até a compreender a estratégia azougada e ladina dos nossos desgovernantes: tentam, a todo o custo, imitar os americanos. O segredo, presumo, é que se ela já fosse dez ou cem vezes maior, ninguém nos chateava. Quanto é que custa um porta-aviões?...

quarta-feira, julho 22, 2015

Um Homem Sério



«Do Estado nada podemos esperar também, mas, aqui, por uma outra razão. O Estado não é português, o Estado não é decente, o Estado está, desde 1820, na posse de homens cuja obra é a essência da traição e da falência. Procurar o auxílio do Estado é tão absurdo como procurar influenciar os homens que o possuem. Não há neles uma centelha de boa vontade patriótica, nem de lucidez portuguesa. Vivem daquilo e nem vivem elegantemente. O esforço revolucionário para os deitar abaixo é um gasto espúrio de energia. Quem é que se lhes vai seguir? Não há em Portugal nenhum grupo ou partido, nenhuma reunião de homens duradoura ou ocasional capaz de gerir o país. O que há é péssimo, mas é o que há. Sidónio Pais era Sidónio Pais, e a sua regência foi célebre pela imoralidade, pela profusão de apadrinhamentos, pela prolixa desvergonha dos negócios escuros e nos crimes políticos. Quando esse homem, que tinha as qualidades místicas do chefe de nação, que tinha as qualidades de astúcia precisas para manejar os homens, e as energias para os compelir, não pôde, honesto como era, romper com a cercadura de ladrões que tinha, não pôde, leal como era, evitar estar cercado por traidores e bandidos, não pôde, nobre na coragem como era, evitar ser rodeado de assassinos e trauliteiros - que espécie de homem esperamos nós que virá, que faça a obra da regeneração?
(...)

Que ideias gerais temos? As que vamos buscar ao estrangeiro. Nem as vamos buscar aos movimentos filosóficos profundos do estrangeiro; vamos buscá-las à superfície, ao jornalismo de ideias.»
- Fernando Pessoa, "Sobre Portugal"





Depois de Sidónio, tivémos Salazar. Que conseguiu, pelo menos, não ser assassinado. E conseguiu também, com denodo e perseverança titânicos, libertar e levantar a nação. Da partidofagia interna e da tutoria externa. Que depois fosse apodado de ditador por aqueles que a prostraram e entragaram de novo à servidão externa não admira. Mas mesmo Salazar viveu rodeado de alguns oportunistas que, nos últimos anos da sua governação, começaram a tornar-se infestantes. Marcello, que lhe sucedeu no fado, soçobrou à mediocridade e safadeza envolvente. Nãi acabou assassinado, mas deportado vitaliciamente. Venha o diabo e escolha.

Não acredito em partidos nem ideologias, sobretudo entre nós. Demonstram-mo, exaustivamente, a realidade e a história. Tudo é postiço, lodoso e improfícuo. Esquerdas, direitas, geminam-se na mesma mediocridade invertebrada, materialista e imediateira. Mediocridade é favor; malignidade seria o termo rigoroso. A política enferma de todos os vícios e baixezas do futebol: a partidarite é apenas uma clubite mais rasteira.

Portanto, isto não vai lá com associações de malfeitores ou quadrilhas de amigos do alheio à boleia do Estado. Um Homem providencial? Deixem lá a metafísica. Basta-nos um homem sério e probo. No meio de tanto insecto rastejante alcançaria de pronto a força e a autoridade de um gigante.

PS: O espírito do povo português continua intrinsecamente monárquico. Só respeita ou um rei legítimo e consequente, ou alguém que governe como tal. E a diferença não está nos adereços, mas na essência, ou seja, no homem. E no seu espírito.