Já em 1936, é o próprio Salazar que relata um episódio altamente sugestivo e ilustrador da "mentalidade portuguesa"...
«Lembro-me de que no meu único dia de deputado se debruçou em certa altura sobre a minha carteira um dos homens que neste país ascenderam às mais altas situações: pertencia à maioria da câmara e esta era Conservadora. Esse chefe político, que daí a poucos meses veio a ter uma morte horrorosamente trágica, disse-me com ar de desânimo: 'Nada poderemos fazer. Em França as eleições acabam de desfavoirecer os conservadores. A hora é das esquerdas.'
Nunca mais se me varreu da memória essa tristíssima impressão de um governante com maioria na Câmara se sentir moralmente abatido, só porque fora de certa tendência o resultado eleitoral num país estrangeiro.»Por sua vez, Franco Nogueira, escreve a 25 de Abril de 1966 (data, a todos os títulos, irónica; e profética) no seu Diário:1960-1968:
«Inaugurada na Sociedade de geografia, à noite, a Semana do Ultramar. Através de falas e discurso, só pensei numa coisa: no silêncio equívoco de ingleses e americanos quanto à Rodésia. Podem produzir-se acontecimentos de gravidade. E o país encontra-se na maior indiferença. Não me ocorre nada que se deva fazer. E bater-nos-emos? Salazar parece confiar num milagre, mas eu não vejo como este se possa dar. É verdade que os milagres se caracterizam por não se saber como se possam produzir - e produzem-se. E depois - tenho sempre a sensação de que somos um povo subserviente, amedrontado, curvado perante os outros com a espinha a tremer espavorida ao menor bater de pé de uma qualquer potência, ao menor bocejo abespinhado de um qualquer governo estrangeiro.»
Será mesmo - esta subserviência e poltranice dos portugueses - um fenómeno atávico, recorrente e incontornável? Quer dizer, o português, de seu ordinário, é mesmo um gastrópode ranhoso e assustadiço?
Posso referir alguns dados históricos ou da mera experiência pessoal...
Por exemplo, na história militar, o exército português é considerado o suprassumo na bravura e coragem em matéria de resistência ao cerco e assédio. Um fortaleza defendida por portugueses é qualquer coisa digna de impor respeito a forças hostis, mesmo quando dotadas de superioridade esmagadora.
Significa isto o quê? Que uma vez sem possibilidade de fuga, os portugueses, resignam-se à sua coragem e batem-se com o desespero dos suicidas e a fúria dos encurralados? Bem, mas podem sempre render-se e não lutar. Como aconteceu, por exemplo, na queda de Goa, Damão e Diu. Então o que é que os transporta, aos portugueses, à bravura ou à desonra cobarde?
Tive o privilégio de comandar militarmente portugueses. Devidamente liderados, são (ou eram), pela sua rusticidade, desembaraço, abnegação e espírito de sacrifício, das melhores tropas do mundo. Mal comandados, são um desastre completo e uma bandalheira ambulante. Uma certeza: os mesmos, dependendo do líder, são capazes do melhor e do pior. Já dizia Camões que um rei fraco faz fraca a forte gente.
Ora, os mesmos portugueses que em 1961, diante do horror dos massacres da UPA, lutaram e não arredaram pé, treze anos depois, debandaram miseravelmente. Militares, civis, quase todos zarparam à pressa, de cara no chão e imbamba às costas. Quer dizer, os mesmos que tinham sido corajosos e perseverantes durante uma década, num momento de desnorte e fraqueza, tornaram-se assustados e cobardes.
Na essência, que factor predominante determinou uma tão colossal e vergonhosa mudança?
Pela voz desse "factor":
NECROLÓGIO
Foi de comboio.
Não logrou separar o trigo do joio
entre os que lhe saíram na rifa para governar a cidade.
Por isso o despacharam por tarifa
em grande velocidade.
Morreu sozinho.
nem lhe deixaram beber o chazinho
da Senhora maria,
que tantos anos o tratou com esmero.
(esteve vinte e dois meses em agonia,
o que é um exagero).
Ah! Fizeram-lhe a última vontade:
ser sepultado longe da cidader,
em campa rasa, ao pé dos pais,
para que a sua fama não ofenda.
isso simplificou os funerais.
nem de encomenda!
Simples cortejo
de labitas. A ponte sobre o Tejo
nem sequer ostentou crepes bizarros.
E o protocolo estendeu-se ao comprido
porque antes deles já tinham morrido
o Dantas e o Leitão de Barros.
Metia medo.
Por isso foi quase em segredo
que o tiraram da sua moradia
e dispensaram lutos a capricho:
em vez do nobre armão de artilharia,
o camião do lixo.
Lá nos Jerónimos
teve, é certo, a homenagem dos anónimos
a quem no mundo só deixou saudades;
e as cornetas tocaram a sentido.
Mas, como oração fúnebre, foi lido
um artigo de fundo das "Novidades".
Repousa em paz.
Por tudo quanto fez, desde rapaz,
o nome que deixou ninguém o esqueça:
António de Oliveira Salazar.
Como D. Sebastião, viveu depressa
e morreu devagar.
P.S.
Não foi por mal.
A verdade é que nós, em Portugal,
somos todos isentos de maldade.
mas, depois da Marítima Aventura,
só com ele soubemos estar à altura.
Falta de gosto e sensibilidade.
- António Lopes Ribeiro
.....//....
Este poema diz quase tudo sobre os "sucessores"...
Ora, os mesmos portugueses que em 1961, diante do horror dos massacres da UPA, lutaram e não arredaram pé, treze anos depois, debandaram miseravelmente. Militares, civis, quase todos zarparam à pressa, de cara no chão e imbamba às costas. Quer dizer, os mesmos que tinham sido corajosos e perseverantes durante uma década, num momento de desnorte e fraqueza, tornaram-se assustados e cobardes.
Na essência, que factor predominante determinou uma tão colossal e vergonhosa mudança?
Pela voz desse "factor":
«Nós precisamos duma coisa que nunca tivemos e cuja falta sensível tem sido a causa dos nossos altos e baixos: formação das vontades para dar continuidade à acção. De quando em quando aparece na História de Portugal um rei, um estadista, um chefe, que levanta a Nação, que faz um pedaço de História, e que a deixa cair quando desaparece ou morre.»
- A.O. Salazar, 1932
Em 1961, vivia ainda um homem de 80 anos cuja vontade era capaz de congregar e animar ainda uma nação. Em 1974, essa nação perdera a vontade. O ânimo deu lugar ao desânimo. A crença à descrença. O rumo à desorientação.
Neste novo Alcácer-Quibir, repetia-se, em parte, o problema da sucessão - só que enquanto no anterior este decorrera do desastre, neste precedera-o, anunciara-o e propiciara-o.
O livro de Ploncard d'Assac sobre Salazar, termina com uma frase tocante e, ao mesmo tempo, trágica... Porém, verdadeira:
"Agora, debaixo daquela lousa nua e quase anónima, descansa aquele que por mais de 40 anos 'reinou' sobre o último Império do Ocidente."
A principal causa do 25 de Abril?
Tentam preencher a resposta com uma série de fenómenos e protagonismos mais ou menos ablutivos, expiatórios, e extremamente convenientes, quando não anestesiantes da má consciência (já lá iremos, no postal seguinte)... Mas na verdade tratou-se, essencialmente, duma ausência, duma omissão, duma vacuidade: Falta de Liderança. Ou dito simbolicamente: Um trono vazio.
NECROLÓGIO
Foi de comboio.
Não logrou separar o trigo do joio
entre os que lhe saíram na rifa para governar a cidade.
Por isso o despacharam por tarifa
em grande velocidade.
Morreu sozinho.
nem lhe deixaram beber o chazinho
da Senhora maria,
que tantos anos o tratou com esmero.
(esteve vinte e dois meses em agonia,
o que é um exagero).
Ah! Fizeram-lhe a última vontade:
ser sepultado longe da cidader,
em campa rasa, ao pé dos pais,
para que a sua fama não ofenda.
isso simplificou os funerais.
nem de encomenda!
Simples cortejo
de labitas. A ponte sobre o Tejo
nem sequer ostentou crepes bizarros.
E o protocolo estendeu-se ao comprido
porque antes deles já tinham morrido
o Dantas e o Leitão de Barros.
Metia medo.
Por isso foi quase em segredo
que o tiraram da sua moradia
e dispensaram lutos a capricho:
em vez do nobre armão de artilharia,
o camião do lixo.
Lá nos Jerónimos
teve, é certo, a homenagem dos anónimos
a quem no mundo só deixou saudades;
e as cornetas tocaram a sentido.
Mas, como oração fúnebre, foi lido
um artigo de fundo das "Novidades".
Repousa em paz.
Por tudo quanto fez, desde rapaz,
o nome que deixou ninguém o esqueça:
António de Oliveira Salazar.
Como D. Sebastião, viveu depressa
e morreu devagar.
P.S.
Não foi por mal.
A verdade é que nós, em Portugal,
somos todos isentos de maldade.
mas, depois da Marítima Aventura,
só com ele soubemos estar à altura.
Falta de gosto e sensibilidade.
- António Lopes Ribeiro
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Este poema diz quase tudo sobre os "sucessores"...
















