sexta-feira, março 13, 2015

A Acromiomancia Revisitada - II. Um país sem rei nem roque




Já em 1936, é o próprio Salazar que relata um episódio altamente sugestivo e ilustrador da "mentalidade portuguesa"...
«Lembro-me de que no meu único dia de deputado se debruçou em certa altura sobre a minha carteira um dos homens que neste país ascenderam  às mais altas situações: pertencia à maioria da câmara  e esta era Conservadora. Esse chefe político, que daí a poucos meses veio a ter uma morte horrorosamente trágica, disse-me com ar de desânimo: 'Nada poderemos fazer. Em França as eleições acabam de desfavoirecer os conservadores. A hora é das esquerdas.'
Nunca mais se me varreu da memória essa tristíssima impressão de um governante com maioria na Câmara se sentir moralmente abatido, só porque fora de certa tendência o resultado eleitoral num país estrangeiro.»

Por sua vez, Franco Nogueira,  escreve a 25 de Abril de 1966 (data, a todos os títulos, irónica; e profética) no  seu Diário:1960-1968:
«Inaugurada na Sociedade de geografia, à noite, a Semana do Ultramar. Através de falas e discurso, só pensei numa coisa: no silêncio equívoco de ingleses e americanos quanto à Rodésia. Podem produzir-se acontecimentos de gravidade. E o país encontra-se na maior indiferença. Não me ocorre nada que se deva fazer. E bater-nos-emos? Salazar parece confiar num milagre, mas eu não vejo como este se possa dar. É verdade que os milagres se caracterizam por não se saber como se possam produzir - e produzem-se. E depois - tenho sempre a sensação de que somos um povo subserviente, amedrontado, curvado perante os outros com a espinha a tremer espavorida ao menor bater de pé de uma qualquer potência, ao menor bocejo abespinhado de um qualquer governo estrangeiro

Será mesmo - esta subserviência e poltranice dos portugueses - um fenómeno atávico, recorrente e incontornável? Quer dizer, o português, de seu ordinário, é mesmo um gastrópode ranhoso e assustadiço?
Posso referir alguns dados históricos ou da mera experiência pessoal...
Por exemplo, na história militar, o exército português é considerado o suprassumo na bravura e coragem em matéria de resistência ao cerco e assédio. Um fortaleza defendida por portugueses é qualquer coisa digna de impor respeito a forças hostis, mesmo quando dotadas de superioridade esmagadora.
Significa isto o quê? Que uma vez sem possibilidade de fuga, os portugueses,  resignam-se à sua coragem e batem-se com o desespero dos suicidas e a fúria dos encurralados? Bem, mas podem sempre render-se e não lutar. Como aconteceu, por exemplo, na queda de Goa, Damão e Diu. Então o que é que os transporta, aos portugueses, à bravura ou à desonra cobarde?
Tive o privilégio de comandar militarmente portugueses. Devidamente liderados, são (ou eram), pela sua rusticidade, desembaraço, abnegação e espírito de sacrifício, das melhores tropas do mundo. Mal comandados, são um desastre completo e uma bandalheira ambulante. Uma certeza: os mesmos, dependendo do líder, são capazes do melhor e do pior. Já dizia  Camões que um rei fraco faz fraca a forte gente.
Ora, os mesmos portugueses que em 1961, diante do horror dos massacres da UPA, lutaram e não arredaram pé, treze anos depois, debandaram miseravelmente. Militares, civis, quase todos zarparam à pressa, de cara no chão e  imbamba às costas. Quer dizer, os mesmos que tinham sido corajosos e perseverantes durante uma década, num momento de desnorte e fraqueza, tornaram-se assustados e cobardes.
Na essência, que factor predominante determinou uma tão colossal e vergonhosa mudança?
Pela voz desse "factor":
«Nós precisamos duma coisa que nunca tivemos e cuja falta sensível tem sido a causa dos nossos altos e baixos: formação das vontades para dar continuidade à acção. De quando em quando aparece na História de Portugal um rei, um estadista, um chefe, que levanta a Nação, que faz um pedaço de História, e que a deixa cair quando desaparece ou morre.»
- A.O.  Salazar, 1932

Em 1961, vivia ainda um homem de 80 anos cuja vontade era capaz de congregar e animar ainda uma nação. Em 1974, essa nação perdera a vontade. O ânimo deu lugar ao desânimo. A crença à descrença. O rumo à desorientação.
Neste novo Alcácer-Quibir, repetia-se, em parte, o problema da sucessão - só que enquanto no anterior este decorrera do desastre, neste precedera-o, anunciara-o e propiciara-o.

O livro de Ploncard d'Assac sobre Salazar, termina com uma frase tocante e, ao mesmo tempo, trágica... Porém, verdadeira:
"Agora, debaixo daquela lousa nua e quase anónima, descansa aquele que por mais de 40 anos 'reinou' sobre o último Império do Ocidente."

A principal causa do 25 de Abril? 
Tentam preencher a resposta com uma série de fenómenos e protagonismos  mais ou menos ablutivos, expiatórios, e extremamente convenientes, quando não anestesiantes da má consciência (já lá iremos, no postal seguinte)... Mas na verdade tratou-se, essencialmente, duma ausência, duma omissão, duma vacuidade: Falta de Liderança. Ou dito simbolicamente: Um trono vazio.


NECROLÓGIO

Foi de comboio.
Não logrou separar o trigo do joio
entre os que lhe saíram na rifa para governar a cidade.
Por isso o despacharam por tarifa
em grande velocidade.

Morreu sozinho.
nem lhe deixaram beber o chazinho
da Senhora maria,
que tantos anos o tratou com esmero.
(esteve vinte e dois meses em agonia,
o que é um exagero).

Ah! Fizeram-lhe a última vontade:
ser sepultado longe da cidader,
em campa rasa, ao pé dos pais,
para que a sua fama não ofenda.
isso simplificou os funerais.
nem de encomenda!

Simples cortejo
de labitas. A ponte sobre o Tejo
nem sequer ostentou crepes bizarros.
E o protocolo estendeu-se ao comprido
porque antes deles já tinham morrido
o Dantas e o Leitão de Barros.

Metia medo.
Por isso foi quase em segredo
que o tiraram da sua moradia
e dispensaram lutos a capricho:
em vez do nobre armão de artilharia,
o camião do lixo.

Lá nos Jerónimos
teve, é certo, a homenagem dos anónimos
a quem no mundo só deixou saudades;
e as cornetas tocaram a sentido.
Mas, como oração fúnebre, foi lido
um artigo de fundo das "Novidades".

Repousa em paz.
Por tudo quanto fez, desde rapaz,
o nome que deixou ninguém o esqueça:
António de Oliveira Salazar.
Como D. Sebastião, viveu depressa
e morreu devagar.

P.S.

Não foi por mal.
A verdade é que nós, em Portugal,
somos todos isentos de maldade.
mas, depois da Marítima Aventura,
só com ele soubemos estar à altura.
Falta de gosto e sensibilidade.

              -  António Lopes Ribeiro

.....//....

Este poema diz quase tudo sobre os "sucessores"...



quinta-feira, março 12, 2015

Retomando a Acromiomancia - I. 13 de Novembro de 1966


Já toda a gente decerto ouviu falar na quiromancia - a adivinhação do futuro através da leitura das linhas na palma da mão, pois. Todavia, é apenas uma entre muitas. De facto, exercem-se, há séculos, imensas modalidades de adivinhação, das quais cito algumas deveras pitorescas:
- Dendromancia (adivinhação pela leitura dos troncos de árvores derrubadas);
- Oniromancia (adivinhação pela leitura dos sonhos);
- Ornitomancia (adivinhação pela leitura do voo das aves);
- Aeromancia (adivinhação pelo exame do ar - hoje também chamada metereologia);
- Necromancia (adivinhação através de colóquios com os defuntos).
Existe mesmo uma variante de geomancia a todos os títulos notável: consiste em atirar lixo ao chão e interpretar os resultados.
Já em Portugal, a modalidade mais fascinante chama-se acromiomancia. Trata-se de adivinhar o futuro do país através da leitura das movimentações acrobáticas dos ratos. Ratos de trapézio e ratazanas de ministério, entenda-se. É um método de vaticínio, quase me atrevo a dizer, infalível; duma precisão que chega a causar calafrios.

Querem um exemplo magno?

Franco Nogueira, então Ministro dos Negócios Estrangeiros (e dos brilhantes) de Portugal, ao seu diário, em 13 de Novembro de 1966:
«Não há dúvida: Portugal atravessa uma crise e uma encruzilhada histórica. Encontra-se com quase oitenta anos o Presidente do Conselho; a oposição, ainda que dispersa e em muitos casos demagógica, agita-se com vivacidade crescente, embora apresente apenas teses que levam à perda de tudo: a carência dos ministros das Finanças e da Economia, por saúde ou outros motivos, agrava o problema económico, o dos preços, o dos salários, o do crédito, e sem isto não há política militar e política externa que valham; e os Estados Unidos, a União Soviética, outros ainda, mantêm as mandíbulas de sentinela e as garras afiadas à espera do momento em que nos falte o fôlego. É grave a situação; sê-lo-ia em qualquer caso; mas, sem ser desesperada, torna-se mais séria pela ineficiência da administração, pela lentidão do governo, pela descoordenação da política de cada departamento com a dos outros, pelas rivalidades pessoais, pela sobreposição de ambições individuais aos interesses nacionais. Ulisses Cortez está sempre apavorado com qualquer esforço ou emoção que possa causar-lhe outro enfarte. Em todo o Conselho de Ministros, e além do Presidente do Conselho, haverá neste momento quatro ou seis ministros ministros que sentem e acreditam no Ultramar.Desejariam os outros ver-se livres de África, para se devotarem às delícias de uma política europeia. No fundo, o que adoram é o Conselho da Europa, sem entenderem que este é um nicho para instalar políticos aposentados e na terceira idade, e a OCDE, e as Conferências de Ministros europeus do Trabalho, e da Saúde, e dos Transportes, e da Cultura, e assim; e anseiam pelas idas a Paris e a Viena, a Genebra e a Londres, e demais centros europeus de prazer ou turismoEntregar o país nas mãos dos imperialismos e das multinacionais, e deixá-lo colonizar por uns e outros; perder a independência de decisão, mesmo no que respeita à metrópole; vender o país aos bocados; diluir e perder a independência nacional - tudo isso é indiferente a esses tais desde que, na nova ordem de coisas, mantenham os lugares, o prestígio, os benefícios materiais, a sensação de autoridade, os sinais exteriores de poder. Por todo o lado, no mundo oficial, nota-se uma desorientação básica, confusa, quase um pouco de salve-se quem puder
- in "Um Político confessa-se" (Diário: 1960-1968)


O problema do totalitarismo radica no esmagamento das partes por um pseudo-todo, geralmente usurpador e burocrático, a que se chama Estado. A miséria do partidarismo resulta no ensoberbecimento das partes, que passam a considerar-se mais importantes que o Todo. Entre ambos os flagelos, os povos oscilam, rangem -quando não ricocheteiam - e buscam, cega e tropegamente, através dos séculos, desenvolver uma qualquer imunidade que os resgate, duma vez por todas, a essa mórbida astenia. Temo bem que, nessa tumultuosa demanda, o milénio não seja muito maior que o simples dia.
No 25 de Abril de 1974, o furúnculo rebentou, mas vinha-se enchendo de vurmo há vários anos. Suspeito que, à data do seu crepúsculo consular, Salazar retirou-se com mais nojo de muitos que o rodeavam do que da própria oposição. Ao menos estes, na maior parte das eminências parvas, eram putas vendidas ao estrangeiro, mas eram-no de cara descoberta.

A seguir, eu e as paredes, vamos discutir a génese e metástese do 25 de Abril. Mas sem complacências nem desculpas esfarrapadas. E, sobretudo, sem  mixordices.

Entre o suicídio e a vacina



No JN, lê-se, com algum exagero, que a "ameaça terrorista em Portugal é remota". Digo exagero porque, em bom rigor, é práticamente nula.
Os portugueses descobriram uma forma sui-generis de lidar com os terroristas: colocá-los no governo. É por isso que o terrorismo  não existe entre nós, enquanto ameaça: está sempre am acto. Resulta disto, apesar de tudo, um aspecto positivo: como está sempre a ser maltratado, o povo português, à semelhança das crianças batidas, perdeu completamente o receio que o magoem. Impossível pois aterrorizá-lo já com qualquer ameaça. Num certo sentido, até ganhou um certo prazer insolente pela afronta temerária... Pondo-se debaixo e a jeito de qualquer horda eminentemente sádica.

Perante um tal quadro, vicioso e endémico, não espanta que quaisquer outros terroristas exóticos  desistam e retirem, desmoralizados. Ou enojados, ainda não percebi bem. O facto é que funciona.

quarta-feira, março 11, 2015

Velha cegada, novos critérios



Dum lado estão uns, assanhadíssimos, a escarafunchar no candidato dos outros; do outro lado, estão os outros, escamadérrimos, a escarafunchar no candidato duns. 
Começa a adivinhar-se o resultado inexorável destes prelúdios eleitorais. Até há pouco tempo, elegiam-se os governantes escolhendo-se entre montes de promessas. Doravante, tudo o indica, será a partir de montes de lixo.
Credite-se, todavia, a evolução: do estado gasoso para o sólido.


terça-feira, março 10, 2015

A Argumentúcia Anti-referendária (r)

Os principais argumentículos contra a realização de referendos são bem conhecidos e repenicados. Passo a reenunciá-los, acompanhados dos sopapos que merecem. É sempre oportuno recapitulá-los e ilustram bem esta coisa esquisita a que chamam "regime".

Argumentículo Primeiro: Os portugueses não se interessam pelo referendo. Comparecem em percentagens cada vez mais reduzidas, marimbam-se para o solene acto, fazem manguitos a esmo. Resumindo: São uns irresponsáveis militantes. Gente indigna de tão generosa concessão.

- É verdade. Tem sido esse o fenómeno recorrente. Não obstante, com idêntica má catadura, os portugueses têm descomparecido, maioritaria e escandalosamente, em eleições nacionais de todo o tipo - autárquicas, legislativas e presidenciais - e isso não tem inibido os anõezinhos percentuais vencedores das mesmas de se laurearem e gigantonearem com maiorias absolutas, tanto quanto de se gloriarem em delírio com legitimações fulgurantes e locupletanços anexos. Mais, qualquer maioria absoluta de meia tigela conquistada à boca destes píveos desafluxos é entendida como autorização solene para uma ditadura a prazo. Portanto, se o desinteresse das pessoas é um bom argumento para não realizar referendos, igualmente é um bom argumento para não realizar eleições.


Argumentículo Segundo: Há certas questões de transcendente importância que não devem estar sujeitas ao capricho dos plebiscitos e do povo avulso, mas apenas de profissionais políticos dotados de superlativas clarividências e investidos de superpoderes voláteis.

- Sou o primeiro a admitir que um país não deve andar aos caprichos da turba, sobretudo quando essa turba é diariamente intoxicada, desmiolada, manipulada e estupidiformada por vários canais de televisão, rádio, jornal e revista, replicados por uma constelação de bullblogues, digitenzias, tico-tanques e pornorreias afins. Principalmente, porque sendo essa turba manipulada sem dó nem piedade, os seus caprichos são induzidos e mais não corporizam que os interesses de quem remotamente a telecomanda. Aceito igualmente, e por implícito efeito acumulado, que o povo avulso esteja cada vez menos lúcido e apto a escolher livremente o que quer que seja. No entanto, mais que capaz, essa massa anónima e desqualificada é tida como indispensável e soberana na eleição dos tais profissionais clarividentes -presidentes da república, deputados, governos, etc - que, após culinária urnopédica, se aboletam aos lemes e úberes da Coisa Pública. Ora, se os caprichos da turba são excelentes para eleger tão inefáveis tutores da pátria, não se compreende como ~possam não ser bastantes para opinar sobre assuntos que claramente excedem a gestão ordinária delegada nos mesmos? Relembro que, em tese, estes pinóquios engravatados são investidos para admininistrarem o país, não para aliená-lo. Brada pois à evidência: se o povo avulso não é credível para ser ouvido sobre questões extraordinárias relativas ao seu destino colectivo, então também não é credível para eleger qualquer tipo de representantes ao despacho dessas mesmas questões. E devém, em consonância, um povo cativo duma menoridade e imaturidade atávicas e perpétuas, bem como absolutamente inibidoras de qualquer poder decisório, (de)legal ou administrativo. Os seus tutores, implicitamente, deveriam ser nomeados por supra-entidades externas. Quanto mais longínquas melhor. A limite, Deus. Ou o Presidente dos Estados Unidos da América, Seu actual representante na Terra.
Recapitulando: quem não é confiável para se pronunciar e legitimar em referendo, muito menos é confiável para se pronunciar e legitimar em eleições. Pelo que, no actual regime, e como fica exposto, ao abdicar da legitimação por referendo, o Governo abdica da sua própria legitimidade e comete, grosseira e descaradamente, um abuso, mais ainda que de poder, de confiança. Donde decorre que qualquer português, tanto quanto o direito, tem o dever de apresentar queixa do seu próprio - e exorbitante! - Governo aos tribunais.

Argumentículo Terceiro: O referendo é, de certa forma, redundante. O povo avulso tem os seus representantes eleitos na Assembleia da República, a quem passou devida procuração por quatro anos. Estes podem igualmente, em seu nome, ratificar ou não os Tratados Internacionais.

- Ora bem, o povo avulso, através de eleições periódicas, escolhe entre determinados partidos que apregoam e garantem determinados programas. Os programas até estão escritos, são repetidamente jurados diante de milhões de testemunhas e funcionam como "contratos de promesa". Todavia, uma vez triunfante, cada cacique reinante no partido vencedor (e quanto maior a maioria, pior), constitui governo e marimba-se positivamente para o pré-acordo nupcial. Tendo sido eleito sob o compromisso solene de baixar impostos, levanta-os; de reduzi-los, multiplica-os; de criar empregos, extingue-os; de combater a corrupção e o nepotismo, açambarca-os; de proceder a específicos referendos, contorna-os. Quer dizer, contratado para fornecer determinado produto, não só não o entrega, como, a maior parte das vezes, realiza o seu oposto. Que fariam as pessoas, se em vez da moradia pré-acordada e paga, lhes apresentassem uma casota de cão, ou em vez do Mercedes-Benz sinalizado produzissem um triciclo de criança? Indignavam-se, certamente. Enfureciam-se, faziam queixa à polícia e aos tribunais. Infelizmente, as pessoas parecem dar mais importância à casota e ao automóvel do que ao futuro dos filhos e dos netos. Além de que a polícia e os tribunais andam sob trela invisível, mas deveras efectiva.
Somos forçados a concluir que uma democracia assim é uma fraude descarada e sistemática. Uma ciganice pegada.
O facto é que os representantes que são oferecidos periodicamente ao sufrágio popular resultam duma escolha prévia dum cacique reinante - o capataz partidário do momento. Ora, essa selecção constitui, por si, também um contrato de promessa: os respresentantes são seleccionados com base no compromisso de, uma vez impingidos ao povo, pagarem o investimento através da obediência canina ao cacique que os deferiu. Ou seja, são representantes do cacique antes de serem representantes do povo. E agem em conformidade. A primeira promessa é que conta; a segunda é meramente folclórica. Os putativos representantes do Povo na Assembleia da República representam, antes de tudo, o seu cacique partidário; tal qual o cacique partidário investido e sustentado por eles em turbo-soba da nacinha representa, antes de tudo, os seus accionistas parlamentares e familiares (partidários, meta-partidários, nacionais e internacionais). A este circuito fechado da mais vergonhosa trafulhice tribal e oligárquica chamam eles "disciplina partidária" ou "fidelidade parlamentar".
Pois bem, sendo que todos estes bandoleiros de bancada e ministério se representam e legitimam exclusivamente uns aos outros, servindo-se apenas do voto popular como gazua ou trampolim para os seus assaltos à Coisa Pública, não sobra qualquer espaço de genuína representação pública. O povo avulso, não é tido nem achado nisto tudo. O cacique pergunta aos seus representantes na Assembleia se concordam e ratificam; os parlamentares respondem ao seu régulo e representante no Governo, naturalmente, que sim. Na verdade, o cacique nem pergunta, ordena; e os perguntados nem respondam, prostram-se e veneram.
Uma operação desta qualidade e envergadura, poderá ser uma sublime macacada, uma olímpica intrujice, uma solene farsa, poderá ser tudo menos uma acto de legitimação nacional. O país real só fornece as costas: para corcel da sela destes jóqueis, para faqueiro destas cozinheiras, para gabinete destes conluios; e o fundo das ditas : para glorificação destes tratados. E regalo destes tratantes.

Quanto ao povo, não é soberano: é analfabeto e patego. Por isso é que assina de cruz... Procurações em branco.
Um regime destes não é corrigível através de eleições, reformas, nem revoluções. Porque um regime destes não se muda: varre-se!

Destino Turístico



Não me parece que o futuro próximo de Portugal (próximos 40 anos) ofereça grandes mistérios. À velocidade com que a Europa se desintegrar (dependendo essencialmente das políticas alemãs), Portugal resvalará, mole e viscosamente, para a colónia de férias dos estrangeiros e colónia penal dos indígenas, ou para a plácida dissolução numa União Ibérica. Eu diria que a probabilidade maior é a segunda.
Para obviar a um tal destino, caso sobre ainda alguma vontade e dignidade para isso, duas coisas serão imprescindíveis: recuperar a sua moeda e recuperar o seu Rei.
Para aqueles que acham absolutamente impensável a restauração da Monarquia portuguesa, resta-lhes com certeza a compensação de terem por rei um espanhol. Mas como para eles o que é estrangeiro é que é bom, isso só deve preencher-lhes o tele-patriotismo e gratificar-lhes o âmago estreito da sua doutrina política: o turismo ideológico.
Sim, porque se os americanos têm aquela doutrina peculiar do "destino manifesto", a nós, cada vez mais, vão-nos adestrando, habituando e resignando ao "destino turístico".

segunda-feira, março 09, 2015

Evolução ou Decadência?

                               ISTO:

                                     
                                 DEU NISTO:

                                                 ESTE:


                                         ACABOU NISTO:



     Agora venham-me cá falar em evolução e progresso e mais não sei que fantasias delirantes!....

domingo, março 08, 2015

O Poço e o Pêndulo



Postas as imagens, permitam-me algumas considerações e meia dúzia de constatacinhas. Dirijo-me, naturalmente, às pessoas, pois embora entenda e fale umas quantas línguas, esse domínio ainda não se estende aos ruídos comunicantes quer dos fungos, quer dos coleópteros, ainda para mais colectores. Não despresumo que existam, e até funcionem às mil maravilhas (tudo indica que sim), simplesmente, não consigo decifrá-los nem com eles manter qualquer espécie de conversação.
Pois bem, há pessoas que são capazes de jurar a pés juntos que conseguem distinguir o PS do PSD (Ou seja,  PS com D ou sem D). Deixem-me adivinhar: O PS é o veículo descapotável; o PSD é quando põe a capota. Não? Ah, garantem-me uns quantos, nada disso, é a teoria do mal menor. Aliás, é para isso que as eleicinhas servem: para escolher aquele que nos pode fazer menos mal. Hum, entendo... deve ser até por essa razão que o Churchil, esse grande portento da ciência política, atesta e preconiza: a "democracia é o pior dos barretes, excepto todos os outros". Portanto, não há qualquer bem disponível no mundo (pelo menos da política): Apenas o Mal; nos seus múltiplos gradientes - O Mal absoluto, o mal relativo e o menos mal. E a opção a que temos direito é entre o maligníssimo, o mau e o menos mau. Por conseguinte, e em conformidade, de quatro em quatro anos, munimo-nos de toda esta nossa clarividência, e vamos, muito senhores da nossa responsável pessoa, despejar o sagaz papelinho no útero da urna aberta. O resultado de sucessivas e altamente responsáveis escolhas do mal menor está à vista e todos reconhecem que é péssimo. Todos, naturalmente, excepto os apaniguados da actual bosta executiva. Mas esses não contam, pois para eles (como para os seus rivais em anteriores e similares épocas pré-eleiçoeiras) este é o melhor dos governos possíveis, no melhor dos países possíveis, a preparar o melhor dos futuros possíveis, deus o abençoe e os santinhos o protejam. Em resumo, o primeiro-ministro (dito com mais rigor, o ditadorzeco quadrianal que vamos aturando - e neste peculiar caso, para cúmulo do exotismo, um ditadorzeco-papagaio, que apenas repete e mimetiza os ditames que do exterior lhe transmitem - é um ás, um chanceler, um pastor predestinado! 
Haverá alguma virtude neste  regime actual, que nos vem conduzindo metodicamente à servidão, ao absurdo e à irrelevância histórica?  Como não acredito em males absolutos, nem na capacidade humana para tal, escoro-me na experiência de trinta e tal anos para extrair uma conjectura: os períodos mais malignos e que mais aceleraram a nossa desgraça coincidiram com o prolongamento por mais de quatro anos do cancro instalado. Refiro-me concretamente ao Cavaquistão e à Socratislândia. Aquele foi o berço, esta a sepultura. Agora, e consequentemente, a república serve de  repasto a vermes - vermes políticos, vermes morais e vermes económicos. Coisas destítuidas de qualquer resquício endoesqueléctico, honra ou pinga de sentido de Estado. Mas não era esse o destino fatal do empreendimento, uma vez consagrado o hara-kiri nacional que se adoptou a seguir ao 25 de Abril? O horrível Salazar impedia-nos, com áspera paternidade e austero exemplo, de sermos bafejados e acariciados pelos pretendentes estrangeiros à nossa pulcra mãozinha. Ansiávamos ser desposados e conduzidos ao altar do progresso e da democracia por galantes alógenos, replectos de ideias geniais e fundos inesgotáveis. Felizmente, o desmancha-prazeres morreu e nós pudemos, finalmente, abraçar esse jardim de delícias tão desejado. Num ápice - melhor: num milagre da noite para o dia - trocámos a farpela coçada e pindérica do regime rigoroso pelos penduricalhos e trapos garridos da república da vida fácil. Em nome duma democracia de imitação, a nação independente e orgulhosamente só, converteu-se num estado a crédito, vergonhosamente acompanhado - pelos proxenetas, dealers e tutores económicos (mascarados de credores, financiadores e parceiros europeus). Ou seja, pagámos a preço de ouro, sangue e futuro, uma maquineta avariada que nem sequer funciona, nunca funcionou e está programada, adulterada e armadilhada para jamais funcionar. Na encruzilhada que se colocou ao país, por morte do único que, mal ou bem (no essencial, bem, na fórmula, mal), teve uma ideia para o mesmo nos últimos 200 anos, a saloiada cobarde e deslumbrada, assustada com as ventosidades da história-espantalho, entendeu saltar para dentro do primeiro buraco que encontrou:... Infelizmente, era um poço. O grande salto das hordas chinesas do presidente Mao teve em Portugal uma emulação meritória: o grandessíssimo salto para dentro dum poço. Num ano e picos, saltámos do Império para o lugar de hortaliças, onde, sob a inflação galopante de nabos, bananas e cabeças de alho chocho, passou a imperar a completa ausência de tomates. Agora, presumo, entendem que o único rumo autorizado, caso não morram afogados,  será escavar até à Austrália. E a perícia suprema do eleitorado será escolher a melhor toupeira-guia para tão insigne projecto. Não lhes passa pela cabeça, nem às minhocas-dirigentes, nem aos anelídeos dirigidos, que o mais razoável e aconselhável, se algum caminho ou rumo digno desse nome ainda sonham, seria saírem de dentro do buraco. O problema, tudo indica, é que continuam convencidos que aquele orifício redondo e escuro não era um poço: era a toca da Alice. Diga-se, não obstante, em seu favor que há um risco que, pelo menos, nesse universo imaginário, não correm: que a rainha de Copas lhes mande cortar algo que eles deixaram de ter por falta de uso. A cabeça, pois.
O mal menor, então? Se é o mal menor que realmente procurais, se isso vos basta e preenche, tudo indica coincidir com uma coisa muito simples: garantir que cada cancro lá esteja o menos tempo possível. Quando o bando de fulano está a acabar de instalar-se  nos úberes estatais, convém que outro cancro concorrente o desinstale e remova, a fim de se anichar por sua vez. Coisa em que gastará, no pior dos casos, mais quatro anos, até que novo cancro o destrone e desincruste, e assim sucessivamente. Dado que a única opção que, pelos vistos, nos é concedida, nesta melhor das democracias possíveis, se resume a poder eleger cancros, ao menos que os cancros façam um ao outro o que sensatez e a coragem, que pelos vistos nos estão vedadas, recomendariam que fizessemos a ambos. Se só podemos combater um cancro com outro cancro: antes isso que nada. Antes uma batalha perdida, que a resignação! Antes uma ejaculação precoce, que a imppotência total! Mas é de suma importância que percam, da mais ínfima justiça que caiam, que sofram, que padeçam as agruras da derrota, do desmame periódico, da ressaca do banquete, tal qual nós padecemos o martírio das mil e uma extorções, das mil e uma vigarices, das mil e uma aberrações. E nem sequer é o resumo da minha opinião: é a simples sinopse da sabedoria popular. Pô-los lá, para depois ter o prazer de atirá-los abaixo! O preço, todavia, é elevado: ser rebaixado e flagelado durante 1460 dias, para poder despenhá-los apenas em um. No fundo, é um vício adquirido: numa noite, como de início mudámos de regime e constituição, agora mudamos de moscas.
Relembro uma máxima de Nietzsche muito a propósito: "vale mais um mau sentido que sentido nenhum". Aplica-se à compensação atrás exposta: antes magra, esquálida, que nenhuma. Mas encontra a sua excepção clamorosa, neste nosso Portugal presente, em matéria de governo: dada a qualidade dos políticos que se nos apresentam, melhor governo nenhum que qualquer um dos seus governos possíveis.
Entre o Coelho e o Costa, falta-me o microscópio, para poder espiolhar as diferenças. O microscópio e um olfato menos sensível ao fedor, confesso. Eu sei, o defeito é meu, a míngua de equipamento apropriado também é minha - sou um obsoleto, enfim. Outros que possuam essa tecnologia e a megavisão dela decorrente, que esclareçam e industriem as massas pitosgas, sob a forma catita de palearem o requinte de auto-sodomia.
Não sei quem vai ganhar as próximas eleições. E, francamente, é indiferente. Estou-me nas tintas para tão anedótica romaria. Mas sei, com certeza absoluta, quem vai perdê-las. O mesmo de sempre: Portugal. 


sábado, março 07, 2015

Descubra as diferenças


1. Quanto à substância:

O PS



O PSD






2. Quanto à forma:
                                  O PS:

   


O PSD



3. Quanto aos apaniguados e simpatizantes:
                                   O PS:

                                                   O PSD:


Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras... Mas as palavras vêm já a seguir.


sexta-feira, março 06, 2015

Apocalipse Zombie




A Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, tirou-se de cuidados e criou um Simulador de Apocalipse Zombie. Sério. E ninguém duvide que é coisa de utilidade pública e necessidade premente...

«We present results and analysis from a large scale exact stochastic dynamical simulation of a zombie outbreak. Zombies have attracted some attention lately as a novel and interesting twist on classic disease models. While most of the initial investigations have focused on the continuous, fully mixed dynamics of a differential equation model, we have explored stochastic, discrete simulations on lattices. We explore some of the basic statistical mechanical properties of the zombie model, including its phase diagram and critical exponents. »

Entenderam?

Pena que o simulador só englobe os Estados Unidos. Antigamente, a coisa levaria, no mínimo, uns vinte anos a cá chegar. Mas agora, graças aos meios tecnológicos de transmissão e transporte, a capacidade de gravidez histérica (método pelo qual, usualmente, os nossos semi-vivos contraem a infecções de estrangeirina) é praticamente instantânea. Basta que a notícia cá chegue e é vê-los a desatar às dentadas. A maior parte deles, por enquanto, ainda não morde. Mas farta-se de ladrar. Quando os virmos estranhamente silenciosos, acreditem: fujamos para as montanhas!...

PS: Fujamos, é forma retórica, bem entendido. Fujam vocês, que eu já cá estou.

quinta-feira, março 05, 2015

Voando sobre um Ninho de Cucos - 3. A Génese ao Espelho (Parte 2)



Em !911, Félix Theilhaber, um sexólogo pioneiro ( nas mais recentes descrições) de origem judaica, publica "A Decadência dos Judeus Alemães". A tese principal da obra resume-se aos problemas resultantes da extensão das práticas malthusianas de contracepção - que acompanham a ascensão social dos burgueses -  para a população judia alemã. Segundo Theilhaber, esta, por via disso, corria riscos de extinção.
Um tal pessimismo provoca rejeição por parte de comunidade ortodoxa judaica, bem como pelos partidários da assimilação. Aqueles, em nome de promessas divinas lavradas em acta de convénios sagrados, nomeadamente Jeremias 30:11 ("exterminarei todas as nações entre as quais te dispersarei, mas a ti não te exterminarei"), recusam falar em "decadência", embora reconhecendo as estatísticas;  estes, atribuindo o abaixamento demográfico não aos casamentos mistos, mas à emigração para a América do Norte. Em bloco, sionistas e partidários da assimilação, unem-se para condenarem as extrapolações pessimistas de Theilhaber.
Felizmente, no entretanto, Theilhaber converte-se à ideia sionista e, em 1921, um ano depois da promulgação do mandato na Palestina, quando publica a 2ª edição da obra, a sua posição sobre a "decadência dos judeus alemães" evolui. Doravante, há uma forma de escapar ao funesto desenlace: a emigração para a Terra Prometida, onde, "vivendo como os judeus de outrora, será possível reconstituir um "Volkstum" (judeu) são. A análise da degeneração, outrora de advertência, termina agora em tom menos agreste e mais galvanizante... Curiosamente, também com um versículo de Jeremeias: "Ainda há esperança para ti".

Por sua vez, as tribos da eugenia e da higiene racial, à semelhança dos antropólogos, descobrem no povo judeu um objecto do maior interesse - uma "raça endógama desde a noite dos tempos, cujo estudo permite, finalmente, compreender, com alguma clareza, e dentro de uma perspectiva comparativa", os mecanismos da "degenerescência" e da "regenaração". E dentro desta perspectiva, todos eles acolhem com vivo entusiasmo "A decadência dos Judeus alemães", do referido Theilhaber. Alfred Grotjahn, higienista racial, fundador da higiene social (como agora lhe chamam), sustenta que a "decadência" descrita por Theilhaber é extensível também aos outros povos; e  Ernst Rüdin, psiquiatra e higienista racial, escreve na sua obra coetânea  A Decadência: "o espelho no qual os cidadãos cristãos podem, igualmente, ver o futuro do cristão culto, futuro inelutávelmente também perturbado, a menos que emirjam uma sensibilidade e um comportamento conformes à higiene sexual, tal como Theilhaber recomenda aos Judeus":
Poderão obstar-me, "ah, isso são intelectualices e academuras que pouco afectam a vida das pessoas e os concursos da história. Ninguém, no mundo real, liga a cata-pentelhices  dessas."
De facto, não. E tanto assim foi que Rüdin, por exemplo, esteve por detrás da legislação eugénica nacional-socialista, que culminou no programa e esterilização e eliminação de doentes mentais e outros, e saudou as leis de Nuremberga como um grande triunfo da higiene racial.
Como refere Cornelia Essner, na "Demanda da Raça - uma Antropologia do Nazismo": "Constata-se, definitivamente, que os eugenistas e higienistas raciais do Império Wilhelmiano, longe de fazerem afirmações anti-judeus, se mostram, pelo contrário, "filo-semitas". A primeira exposição internacional de higiene, organizada em Dresden em 1911, consagra aos cuidados corporais e aos ritos de purificação judeus uma sala de exposição a fim de ilustrar a contribuição da religião hebraica no domínio da higiene. À maneira do antropólogo Virchow, falecido em 1902, que via em Moisés "o maior médico de todos os tempos", proclama-se o profeta de Israel o "maior higienista racial".
Theilhaber, por seu turno, após batalhar na Alemanha pela liberalização do aborto e pela promoção da contracepção, emigrou para a Terra Prometida em 1935. Onde viria a falecer, em Tel-Aviv, no ano de 1956.
No próximo postas, faremos uma visita ao co-fundador do Sionismo, com Hertzl: Max Nordau.

PS: A todos aqueles que se interessem pelo estudo do sionismo, recomendo vivamente a leitura do livro Jeremias do Antigo Testamento. Está lá, em bom rigor, grande parte do aparato mitológico, que ainda hoje, obsidia e transtorna o movimento e respectivos crentes. Até muitas ds atitudes que, ao leigo espectador, segundo a lógica comum, parecem absurdas, irracionais e tresloucadas,  ganham todo um sentido intrínseco e quase necessário, quando vistas à luz de "Jeremias"
Aliás, a própria língua portuguesa tem um verbo elucidativo a esse respeito. "Jeremiar" - fazer jeremiadas; lamentar-se; choramingar. Do substantivo "jeremiada" - lamentação longa e importuna.
No fundo, encontramo-nos nos antípodas de Nietszche e do seu Super-Homem: aqui é o culminar do ressentimento atávico e ancestral na forma da Super-Vítima. Rimo-nos deles ou das suas figuras ridículas? Odiamo-los. Apontamos-lhe uma qualquer nódoa no casaco da consciência ou mancha no fundilho das calças do pensamento? Planeamos exterminá-los.  E o mais curioso é que não é apenas o Estado sionista que se esconde atrás da totalidade dos judeus (como se o coitado dum judeu não tivesse sequer direito a individualidade e consciência próprias); não, é também qualquer crente fanático e imbecil no sionismo sacrossanto que se vai esconder atrás do arsenal e da panóplia militar de Israel, às tantas, dardejando urros e ameaças veladas de eliminação física ou perseguição com a tal jeremiada (hitler!holocausto!anti-semita!nazi!goy...!) até aos portões da eternidade. Poderíamos apelar ao bom senso, ao civismo, à amena convivência, com este tipo de zombies? Já tentei muitas vezes. Continuarei a tentar, porque sou tenaz e obstinado. Mas sei, bem no fundo, que é inútil. "Jeremias" explica porquê.



quarta-feira, março 04, 2015

Entre Cila e Caribdis

Por me falarem em Aristóteles...
Notem que o postal que se segue é de Julho de 2004.
Notem que os suprassumos da gestão que então relampejavam  e acabaram naquilo que hoje bem sabemos (desde o DDT aos Bavas e associados), faziam as delícias de muitos dos que agora se tomam de virgindade austeritária e estatolatria partidona. Mas naquela época, com que furor e gula conclamavam à globalização formidável, ao financeirismo catita, à santa banca dos gestores marvilhosos, etc, etc. E o alucinado, claro está, era eu. Bem, acho que hoje já se pode tentar um juízo com mais sólida base empírica. Pelo menos para apurar, com um bocadinho mais de rigor, de que banda é que, efectivamente, bufava a fantasia...

...//...


«Quanto ao homem de negócios, é um ser fora da natureza, e está bem claro que a riqueza não é o bem supremo que procuramos." 

-Aristóteles, "Ética a Nicómaco", Liv I 



«As ferramentas são, umas, animadas, e outras, inanimadas.(...)Também o escravo é uma propriedade animada.(...) Aquele que sendo homem não pertence por natureza a si mesmo, mas que é homem (ferramenta/instrumento) de outro, esse é, por natureza, escravo.» 
- Aristóteles, "Política", Liv.I 



Eu cada vez acho mais graça aos nossos democratas liberais. Dispõem dum raciocínio a todos os títulos singular. Esgrimem argumentos lógico-dedutivos fulgurantes. 
Não se cansam de propalar aos quatro ventos como detestam tiranias, absolutismos (especialmente estatais), arbitrariedades e ditaduras. Fascismos, nazismos, comunismos, religiões, filosofias, agoniam-nos, infestam-nos de comichões alérgicas. Solidariedades sociais transportam-nos a indignações semi-epilépticas, a jorros eméticos. Burocracias, ainda que mínimas, deixam-nos transtornados, cacofóricos, a quase espumar pela boca, atirando madeixas de cabelo ao chão e murros ao peito. 
Mas isto, tudo isto, meus amigos, em termos políticos. Em termos estritamente políticos. Aliás, o problema, segundo eles, qualquer problema, é sempre político. Já a solução (e com ela a salvação), é invariavelmente económica. 
Mas atentemos na sua cartilha economística... 
Uma empresa, por exemplo, o que é uma empresa? Para mim e para outros leigos heréticos como eu, será (dito simploriamente, é claro) um conjunto orgânico de pessoas (administração, direcção, produção, transporte, comercialização, etc,) com diversos níveis de tarefa, responsabilidade e recompensa, + um conjunto de meios (máquinas, viaturas, matérias primas e outras, ferramentas, etc), + um conjunto de instalações, e com a finalidade de ser auto-subsistente e dar lucro. Haverá empresas grandes, médias e pequenas, mas todas elas, com as adaptações inerentes à sua dimensão, cumprirão, mais ou menos, este padrão. 
Mas isto somos nós, os leigos, os simplórios, a delirar. Porque, uma vez poisados na realidade, o quadro é outro: os nossos democratas liberais, crânios sofisticados, inspirados nas idílicas engrenagens anglo-saxónicas (e apenas nessas, que nada mais presta ao cimo da Terra, e todo o restante mundo ou vive na indigência -física ou mental -, ou pra lá caminha), expurgam e purificam substancialmente a coisa. A empresa restringe-se à sua administração (os empresários e gestores), transferindo-se todo o seu restante pessoal -especialmente a malta da produção-, para a categoria dos meios, sob o item "ferramentas". Quanto à finalidade, resume-se agora ao dar lucro ao empresário (e gestor), seja, essa mesma empresa, auto-subsistente ou não. Toda a essência da coisa passa, assim, para o empresário/gestor; todo o resto desce para a categoria do acessório. Dito doutra maneira: a empresa é uma espécie de máquina (composta de ferramentas -humanas e não-humanas-, meios e instalações) que compete ao empresário (administrador/gestor) pilotar e extrair gozos. Em boa verdade, só este, o piloto, é que doravante pode ser considerado efectivamente humano, ou seja, com cidadania plena; com direitos e necessidades grandessíssimas. O resto sujeita-se aos ditames do mercado. E carrega, em calvário se preciso for, com os deveres gerais. 
Esta nova religião encontrou em Portugal solo fértil e estrume em abundância para o seu cultivo. O empresário português, dadas as excelentes condições naturais, é pródigo em superações ao próprio modelo. Se lhe perguntássemos (e aos seus apologetas, os democratas liberais) o que é a empresa? Ele responderia, prontamente, todo ufano e vaidoso, detrás da gravata e da panóplia de telemóveis: "A empresa sou Eu!" 
Ora, nem mais. Eis o solipsismo mercantil no seu melhor! O absolutismo econocrata elevado ao patamar sublime! O reinado do Empresário-Sol, no zénite do seu apogeu! 
Compreende-se, assim, a nova revolução copernicana que os nossos democratas liberais catequizam: Estando o Empresário investido das funções de Sol não se compreende que gire à volta do País-Terra, mas sim o País-Terra que gire e se submeta à sua massa atractiva e soberana de Sol, à sua luz e calor beneméritos, aos seus caprichos de estrela e astro comandante do sistema. É Ele que dá vida, isto é, o emprego. É ele, lá no alto, que, pelo seu toque demiúrgico, anima as ferramentas humanas, doutro modo prostradas e pasto de ferrugem e desemprego, à mercê de depressões e lotarias. 
Mas compreende-se, sobretudo, como aquilo que eles execram na dimensão política -a autocracia, a ditadura, a burocracia estatal-, idolatram, em contrapartida, na dimensão económica. O que nas garras do Estado é infâmia (e é, de facto), devém virtude nas patas do privado. A ditadura do proletariado é horrível (pois é); mas a ditadura do empresariado é santa. Que uma oligarquia parasita, endogâmica e endémica, se sirva dos cargos do estado para roubar e sabotar o esforço e o trabalho das pessoas deste país é péssimo; mas uma oligarquia de empresários que a substitua nessas mesmas funções é óptimo, representa um progresso inaudito, uma conquista revolucionária. 
Repare-se numa aplicação prática desta mentalidade peregrina: 


Mas aqui, atente-se, é já o próprio estado, ou alguém em nome dele, a converter-se à nova ideologia. A Direcção Geral de Impostos é promovida a empresa, ou seja, a máquina. Contrata-se um bom piloto, um homem da Fórmula 1, para guiar a máquina. Gratifica-se e estimula-se o piloto em conformidade, caso contrário ele não aceitava a nobre missão. É uma excelente teoria. Até já vi pessoas normalmente inteligentes e sensatas a elogiá-la. 
Só tem um ou dois problemas, pequenos é certo, mas que não cabem debaixo do tapete. Não adianta pois varrê-los para lá. 
1. Sendo uma "máquina", todos concordamos que está avariada. Contrata-se um piloto de fórmula 1 para guiar um monte de sucata? 
Vamos competir em que campeonato? 
2. Não sendo uma "máquina" (como não é), ao estimular-se e gratificar-se principescamente o Director, duma forma ilegal e obscena (dada a realidade actual), está-se a desestimular e a simbolicamente espoliar todas as outras centenas de pessoas que constituem essa Direcção Geral (e os próprios contribuintes do país, a limite). Em vez dum esforço geral de melhoria, está-se, pois, a promover um esforço individual de melhoria (por parte do novo director) e um contra-esforço geral de resistência e desinteresse coorporativo (por parte de quase todos os outros). Experimentem colocar-se no lugar deles...As intenções que presidem ao expediente, como sempre, poderão ser as melhores; mas o Inferno é que vai, mais uma vez, lucrar com elas. A esta altura já transborda. 
3. Por fim, usando o léxico muito querido aos nossos democratas liberais a respeito das empresas públicas em dificuldades: resolve-se o problema não atirando dinheiro para cima da Direcção Geral de Impostos SA (que dá prejuízo e devia dar lucro), mas atirando dinheiro para o bolso do novo Director, em comissão messiânica. É isso, não é? 



Ainda D.Sebastião não se dignou regressar ao país, e já querem desviá-lo para as empresas, ainda por cima estatais?... 



E nós, portugueses, qual é o nosso papel no meio disto tudo (além de basbaques, claro está)?!... 
Andamos aos tombos, da esqerda prá direita, da direita prá esquerda. Vamos de roldão, de Cila para Caríbdis, e de Caríbdis para Cila. Estamos reduzidos a esta confrangedora odisseia, com Ulisses naufragado entre as sereias e Ítaca entregue à voragem dos pretendentes. Vamos queixar-nos de quem? O esquema é deles. Mas a culpa é nossa. 



E o que mais convinha que percebessemos, todos, é que Portugal se constrói com os portugueses e não contra os portugueses, sejam eles quais forem. 
Mas desculpem, já me esquecia: afinal, é da destruição que se trata. Pois, que distracção a minha. 
Já cá não está quem falou. 



PS: Entretanto, com todo este know-how peregrino em erupção, com tanta tempestade cerebral à solta, erguemo-nos cada vez mais destacados, qual farol altaneiro - imune às vagas da lógica e do bom senso - no Cabo do Paradoxo: temos, ao mesmo tempo, os mais divinos empresários e administradores do universo, e as empresas e o Estado mais rascas e miseráveis da Europa. 

Marcianos perifrásticos

Tradução para idioma terrestre da alocução de Bibi ao Congresso:

«-Agarrem-me! Agarrem-me!, senão eu desgraço-me!...»




terça-feira, março 03, 2015

Cibertasca - Lei das probabilidades

Há muito que não entrava na tasca, digo, ciber-tasca. Encontrei o Ildefonso Caguinchas, de olhar vago, meio alucinado,  a fitar um qualquer interstício entre nenhures e sítio nenhum. Sentei-me e pedi o trotil da ordem, para aclaração conveniente dos fagotes, como manda a santa praxe da nossa ordem.
Eis senão quando, despegando os olhos do televisor, subitamente desperto do peculiar transe, me troa o gajo:
- "Dragão, assalta-me aqui uma puta duma dúvida..."
-" Bem, antes uma dúvida, que uma dívida. E se te assalta, significa decerto  que é especuladora, a gaja. Deve estar a reclamar-te alguma exorbitância, imagino!..." - Acudi, o mais desatento à questão que me era possível.
-"Nada dessas. É mais uma questão de ordem sonântica."
.-"Semântica. - Corrigi. - Mas vá, desembucha, que temos uma série de árbitros para discutir!..."
-"Pois, isso. É o seguinte: Como é que se chama um gajo que tem cara de filho da puta, faz coisas de filho da puta e nos trata a todos como se nós é que fossemos  uns filhos da puta?.."
Fitei o Caguinchas, entre intrigado e sagaz, e após sopesar por breves instantes o problema, respondi:
- "Depende."
- "Depende? - admirou-se o gajo. - Depende de quê?..."
-" Então, depende do local no planeta onde isso se passe."
- "Ah. E se, por exemplo, for em Portugal?"
- "Bem, nesse caso, há que ter muito cuidado. Não se pode dizer em voz alta." - Esclareci, com ar de franco sigilo e preocupação.
- "Não se pode dizer porquê?"
- "Porque há uma probabilidade muito grande (aqui entre nós: enorme, mesmo) de um tipo com essas características chegar a primeiro-ministro."
Embasbacou, o Ildefonso. E o caso não era para menos.

Voando Sobre um NInho de Cucos - 2. A Génese ao espelho ( Parte I)

«Espelho mau, espelho mau. há alguém mais puro do que eu?»



Quando se anuncia uma utopia específica e não universal (a terra prometida, como condómino fechado judaico), surge desde logo um problema: em que consiste essa especificidade, ou seja, o que é um judeu. Quem pode habilitar-se legitimamente à viagem e ingresso?
Quatro essências possíveis são desde logo, elencáveis: Língua, religião, cultura e raça. Nenhuma delas será , todavia, indubitável nem , tão pouco, pacífica. De facto, há volta de todas elas instaurar-se-á, entre o fim do século XIX e os primórdios do século vinte, acesa polémica. Um confronto que decorrerá entre anti-semitas, sionistas, filo-semitas (judeus e não-judeus) e pensadores que. além duma certa equidistância, procuram um rigor mais científico e menos sectário.
A principal tese dos anti-semitas acaba por congregar-se à volta da essência racial. Um dos chefes de fila do movimento, Theodor Fritsch, define-o claramente no seu "Enigma do Sucesso Judaico": «Enquanto a chamada religião judaica continuar, assim o judaísmo, enquanto  força hostil compacta viverá e operará entre as outras nações. Mas mesmo que fosse possível extirpar essa religião, a peculiaridade racial do judeu, que adquiriu uma extraordinária tenacidade por via de incessante inbreeding, continuaria a funcionar.»
Assim, para os anti-semitas, e resumindo, há uma raça judaica, que não se mestiçou ao longo da história e que, por isso mesmo, adquiriu vantagem na concorrência com a raça ariana, vítima de misturas que a fragilizam e ameaçam de fatal decadência. O Judeu, neste contexto, surge não apenas como ameaça concorrencial, mas também, paradoxalmente, como exemplo a seguir. No seu "Manual da Questão Judaica, de 1907, o mesmo Fritsch declara: "A força do Judeu reside na natureza da sua raça e não lhe poderemos fazer frente vitoriosamente enquanto não estivermos em condições de lhe opormos, de novo, o homem de raça ariana. (...)Em relação a nós, mestiços decadentes, surge dotado de um carácter, de um tipo, de uma individualidade..."
Deste modo, por um lado, o desiderato anti-semita, segundo Fritsch, será remover da sociedade aquele corpo estranho vil e perigoso que é o judeu; por outro, emulá-lo na sua característica mais invejável: a raça pura, não mestiçada. Daqui ressalta uma ambivalência óbvia que é reconhecida pelo prórprio Fritzsch ("Parece bastante singular que seja, justamente, o tipo mais inferior, o homem degenerado que deva transmitir-nos este ensinamento") e que se propaga à fracção anti-semita no Reichstag, claramente embaraçada na hora de definir o termo "Judeu" - "Verificou-se que nos era impossível apresentar uma lei antijudaica devido à nossa incapacidade para concordarmos sobre o próprio conceito de "judeu"» Não obstante, todos concordavam num ponto: "Pouco importa aquilo em que o Judeu acredita, a porcaria reside na raça em si":
Entretanto, do lado dos antropólogos judeus, o embaraço e as divergências não são menores. Depois de Felix von Luschan, membro da nova Associação para a Resistência contra o Anti-Semitismo, em 1892, ter desmistificado a "estranha crença", segunda a qual "os Judeus constituem pelo sangue, uma raça não mestiçada e absolutamente pura", demonstrando, pelo seu método classificativo que o judeu moderno era oriundo primeiramente dos Amoritas arianos, em segundo lugar de Semitas autênticos, e  por fim, e principalmente, dos antigos Hititas, sendo que da influência destes, derivara a braquicefalia tão frequente nos judeus modernos, os antropólogos judeus, após medirem os compatriotas em toda a Europa, constatm a predominância da braquicefalia, fenómeno, esse, explicável pela superioridade numérica dos Asquenazis sobre os Sefardins. O mesmo Luschan, secundado neste aspecto óbvio por Werner Sombart, relembram que o termo "semita" ou "ariano" não define uma ração, mas um grupo linguístico, pelo que não faz qualquer sentido esgrimi-los noutra qualidade que não essa. "A controvérsia Semita, como aquela acerca dos arianos, apenas mostra quão perverso é permitir que conceitos linguísticos interfiram nas divisões antropológicas da humanidade. É geralmente aceite que os Semitas são todos aqueles povos cuja língua é Semita, embora antropologicamente pertencendo a diversos e diferentes grupos.», refere Sombart, em "Os Judeus e o Capitalismo moderno".
Contudo, estas boas intenções e opiniões sensatas destes vultos maiores da cultura alemã não encontram ressonância nem aceitação entre as fileiras anti-semitas, nem, tão pouco, sionistas. A nenhum deles interessa que o povo judeu possa ser considerado tão assimilável ou mestiçado quanto qualquer outro (como a tendência para a braquicefalia, segundo os antropólogos, atestava). Vários antropólogos judeus, entre eles Judt (1903), não negam a tese de Luschan, sobre a mistura inicial, verificada antes da dispersão, mas que depois, e uma vez adquirida, teria sido ciosamente preservada, em toda a sua pureza, ao longo da Diáspora. Auerbach, por seu turno, vai mais longe. Feroz adversário da tese luschaniana da mestiçagem racial, proclama todos os antigos Semitas como "cabeças redondas", eliminando assim toda e qualquer oposição entre Sefardins e Asquenazins.
No seguimento destes debates, Maurice Fischberg, antropólogo americano de origem judaica, acorda um belo dia sob fogo intenso pelo "crime de destruição sistemática do mito da Raça judia". Mito de que se apropriam, indiferentemente, judeus conservadores, sionistas e anti-semitas. Para Fischberg, o judaísmo fora e continuava a ser essencialmente uma religião. Não existia isso de "raça judia". "Nas veias dos judeus da Alemanha, da Áustria e da Inglaterra corre mais sangue 'indogermânico' - se é que isso existe - do que nas veias dos 'arianos' da Itália meridional, de Espanha, da Grécia, da Arménia e de outros grupos étnicos de cor escura". Ou seja, segundo Fischberg, os judeus já nem se poderiam considerar semitas.  No mesmo ano, 1911, um outro antropólogo judeu alemão, Ignaz Zollschan, em prol da "ideia sionista",  rebate Fischberg, tentando demonstrar a "pureza imaculada da raça judia". Descobre nos "judeus o tipo ideal de raça endógama (Inzuchtrasse) e dotada, por isso, de criatividade cultural, capaz de engendrar génios". Esta ideia, todavia, como verificou Kautsky (um outro intelectual judeu), ao ler o "Problema da Raça" de Zollschan, tinha sido assimilada a partir de H.S. Chamberlain, um anti-semita notório (que Zollschan crítica acerrimamente, ao mesmo tempo que plagia pela inversa). Essa mesma constatação azeda faz Ruppin, ao ler a obra de Zollschan. O que o leva a reflectir amargamente sobre os efeitos devastadores das teorias anti-semitas sobre a consciência judaica: "Quando um povo procura justificar a sua existência por motivos racionais, é um sinal de degeneração. Ora, foram os inimigos dos Judeus (...), os Renan, os Dühring e outros Chamberlain que, apresentando os Judeus como uma raça inferior que deve desaparecer perante a raça superior "ariana" ou "germânica", obrigaram os judeus a interrogarem-se se são realmente inferiores, se merecem realmente desaparecer."
No entanto, Zollschan permanecerá como um marco, a partir do qual o sionismo confirmará um rumo necessário. Perante o processo de eventual assimilação da raça judia, que taxa de dissolução, coloca a pergunta fulcral: "é preferível que o povo judeu seja preservado ou que se desintegre e seja absorvido sem deixar rasto ma matéria dos outros povos"? E culmina no ponto essencial da sua demanda (de espírito marcadamente darwinista): "Sem o Sionismo, só há duas possibilidades: a dissolução da raça ou a degenaração física".



segunda-feira, março 02, 2015

Do Reino animal ao Terceiro reino (rep)

Antes de passarmos ao 2º capítulo do "Voando sobre um Ninho de Cucos", onde se analisará a génese imbricada do anti-semitismo e do sionismo, convém recordar um postal de 2008, que retrata o ambiente mental que facilitou dupla incubação. Ou de como a predominância do conceito de raça se instaurou, amanhando e fertilizando o futuro terreno de certas culturas particularmente racistas..

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Devolvido ao reino animal, sujeito às leis mecânicas da restante bicharada, o homem torna-se apenas um espécime mais desenvolvido -um animal superior - cuja alma é produto apenas do seu corpo. Por um lado, isto significa que o homem se torna "o animal doméstico de si próprio"; por outro, que adquire as características típicas dos animais domésticos, designadamente, a raça. Pode, assim, e doravante, criar-se e melhorar-se homens como se criam e melhoram cães, ou cavalos, ou ovinos. Este será o fascínio de Francis Galton, primo de Darwin e pai da eugenia. Mas juntamente com ele, em paralelo com ele, ou movidos de semelhante axiomática, na senda da nova antropologia racial, outros peregrinos avançam. Especialmente na Alemanha, onde Haeckel estabelecera a história do homem como mero fragmento da história do mundo orgânico. Como é o caso de Woltmann. Abandona os elementos psico-culturais em prol da estrutura física. Condena o método de escrever história como relato da evolução das instituições e ideias políticas. Advoga, ao invés, uma modalidade que proporcione uma descrição da evolução das diversas raças humanas. Segundo ele, estas encontram-se tão sujeitas às leis naturais - hereditariedade, variação, adaptação, selecção natural, hibridismo, progresso e decadência - quanto quaisquer outros organismos vivos.
No virar do século, Woltmann, que estudara com Haeckel, é tido como o campeão da ideia da "raça nórdica superior", cuja defesa e manutenção propala na revista racista Politisch-anthropologische Revue, por ele próprio fundada em 1902. Antes disso, em 1900, participa no concurso académico patrocinado por Alfred Krupp, sob o tema: "O que podemos aprender dos princípios do Darwinismo para aplicação ao desenvolvimento político interno e às leis do Estado?"
Em obras posteriores, todavia, esforça-se por fundir as ideias de Marx com as de Haeckel. Embora crítico das posições deste em relação ao socialismo, aceita a sua tese fundamental que estipula um paralelismo exacto entre as leis da natureza e as leis da sociedade. A partir daí, Woltmann transforma o conceito marxista da "luta de classes" no conceito mais darwinizado da "luta mundial de raças". E é a essa luz que descreve os alemães como o padrão mais elevado da humanidade. Segundo ele, a suas perfeitas proporções físicas expressariam uma superior intelectualidade e um espiritualidade mais profunda. Avisa dramaticamente contra as misturas, nefastas contaminações que só podem causar a deterioração desta raça superior.

Outro antropólogo racial alemão, ainda mais próximo do social-darwinismo de Haeckel, é Otto Ammon. Acredita igualmente que as leis da natureza - luta pela existência, desigualdade, etc - são as leis da sociedade humana. Na senda de Haeckel, advoga que o Darwinismo deve tornar-se a nova religião alemã. E vaticina que, graças ao monismo evolucionista, chegará o dia em que filosofia e religião chilrearão de contentamento e unanimidade. Acredita também que a "luta de raças" traduz uma necessidade de apuramento da espécie humana. Apenas quando as raças mais débeis desaparecerem, diagonstica, poderá extrair-se o cabal benefício de todo esse formidável processo para toda a humanidade. Naturalmente, Ammon também reconhece nos alemães o exemplo acabado da superioridade racial e sugere mesmo um retorno à matriz tribal alemã, de vitalidade brava ainda não arrefecida pelos equívocos da civilização cristã.

Galopantemente, portanto, a ciência deslumbra-se com o invólucro humano. Mais importante e determinante que a alma, outrora legada por Deus, torna-se agora a embalagem fabricada pela natureza. A aventura iniciada no Homo-faber medieval atinge finalmente o seu desenlace lógico: a Homo-factura. O pensamento pode medir-se e avaliar-se agora a peso -da massa encefálica -, e a metro - da caixa craneal. De Lapouge, outro destes prospectores visionários da raça, di-lo expressamente em 1888, na Revista de Antropologia, sob o título "A hereditariedade na ciência política": "Quase todos os grandes homens pertencem à raça dolicocéfala, de cabelo louro, ainda quando alguns pareçam pertencer a outro povo. Não me surpreenderia que a cultura desenvolvida por algumas outras raças, se deva à circunstância de se terem misturado elementos dolicocéfalos de cabelo louro com outros de sangue mais espesso, mistura, essa, que foi dissimulada pelo passar do tempo. Esta mesma raça de cabelo louro constituía provavelmente a classe dirigente do Egipto, Caldeia e Assíria. O facto está quase demonstrado para a Pérsia e para a Índia, e é possivelmente certo na antiga China. A sua importância na civilização Greco-Romana está praticamente demonstrada, e nos tempos modernos a influência das diversas raças vivas é directamente proporcional ao número de dolicocéfalos louros nas classes dirigentes da sua população. Desta raça provêm os elementos gauleses e francos que propulsionaram o esplendor da França; o mesmo povo dava vida e movimento às massas na Alemanha.»

domingo, março 01, 2015

Voando Sobre um Ninho de Cucos - 1. A Boa Nova

  Advogado e jornalista, produto da Viena fim de século, Theodor Hertzl foi o fundador do movimento sionista. No seu "Mille Ans de Bonheur", Delumeau refere-o como um dos episódios do "Futuro Radioso prometido pelas Utopias do século XIX". Por seu turno, Zeev Sternell integra-o nos "políticos de massas da Viena Finissecular" e assinala, sintomaticamente, que "o seu êxito junto das massas judaicas do Leste (Ostjuden) representou um "feito dramático" que não deixava de estar relacionado com a sua intuição, embora profundamente vienense, para o teatro, para a importância dos mitos, dos símbolos e dos signos, que moldam inconsconcientemente a vida dos indivíduuos e das nações". Mais adiante, a tudo isto chamar-se-á propaganda.
O texto que se segue é retirado da obra de Delumeau, e intitula-se: "Os Macabeus vão Ressuscitar".

«Antigamente era impensável alimentar a ideia de um tal projecto, mas hoje nada se lhe opõe. O que há cem ou mesmo cinquenta anos teria sido uma utopia pode hoje ser encarado numa outra perspectiva. Os ricos, que se gabam de emitirem com tanta perspicácia opiniões particularmente preciosas sobre as novas descobertas da ciência, não ignoram as mil e uma coisas que podem fazer-se com o dinheiro. Mas, na verdade, as coisas passar-se-ão deste modo - serão precisamente os pobres e os simples que ignoram ainda o poder que o homem exerce já sobre as forças da Natureza aqueles que, por ainda não terem perdido a esperança na Terra prometida, mais profundamente acreditarão na nova mensagem.
Ei-la Judeus, essa Terra prometida! nada de histórias, nada de trapaças! cada um poderá convencer-se a si próprio porque ao ir para lá cada um levará consigo um fragmento da Terra prometida - este levá-lo-á na cabeça, outro, nos braços, outro ainda, nos seus haveres.
A realização deste empreendimento poderá parecer-nos agora como ainda muito distante. Mesmo na hipótese mais favorável, o nascimento da fundação do Estado poderá levar muitíssimos anos. E durante esse tempo os Judeus continuarão a ser gozados, batidos, pilhados e desancados por toda a parte. Bastará que lancemos mãos à obra para que o anti-semitismo cesse imediatamente. Concluiremos, com esse gesto, um tratado de paz com o mundo.
A notícia da fundação da "Jewish Company", logo que seja um facto consumado, será imediatamente difundida pelas faíscas dos nossos fios eléctricos até aos pontos mais recuados da Terra.
E sentiremos nesse instante um alívio de felicidade.
A nossa burguesia produz um número demasiado elevado de intelectuais de cultura média; a organização inicial do nosso movimento no novo país absorverá imediatamente esses valores que formarão os nossos primeiros engenheiros, oficiais, professores, empregados, advogados, médicos. Rezar-se~´a nos templos pelo êxito da nossa obra; e também nas igrejas! E chegaremos ao fim de uma longa era de opressão que tanto nos fez sofrer.
mas, antes de mais, é necessário que se faça luz nos nossos espíritos. Será preciso que o nosso ideal possa voar até aos últimos casebres onde habitam os nossos; o nosso ideal despertá-los-á dos seus devaneios confusos. Porque para todos nós vai começar uma vida nova, portadora de novos destinos. Bastará que cada um pense em si próprio para que a corrente se amplifique.
Eis porque acredito que uma nova geração de judeus admiráveis surgirá da terra. Os Macabeus vão ressuscitar.
Volto a dizer agora o que já disse no princípio deste livro - os Judesu que quiserem terão o seu estado.
O mundo será libertado pela nossa liberdade, enriquecido com as nossas riquezas, engrandecido com a nossa grandeza.
E tudo o que tentarmos na nova terra, tendo em vista a nossa própria prosperidade, terá, fora dela, um efeito poderoso e benéfico sobre a prosperidade de todos os homens.»

- Theodor Hertzl, "L'État Juif"




Há uma contradição grosseira no texto em epígrafe. Num primeiro passo, Hertzl afirma. «e durante esse tempo os Judeus continuarão a ser gozados, batidos, pilhados e desancados por toda a parte.»; mas logo a seguir atesta: "A nossa burguesia produz um número demasiado elevado de intelectuais de cultura média". Quer dizer que enquanto andam a ser brutalizados omni-sítio, os judeus vão, ao mesmo tempo, desfrutando de universidades e formação académica superior, e ascendendo na sociedade em consequência?
Freud, por exemplo,é contemporãneo de Hertzl, em Viena, e nunca o vimos queixar-se de que lhe andavam a bater. Poderia citar aqui inúmeras figuras de relevo, de origem judaica, das quais poderíamos constatar o mesmo. A quem se dirige então Hertzl (até porque Freud sempre o olhou com desconfiança, alistando-o naquilo que denominou como "psicopatologia das massas")? Pois dirige-se às grandes massas de deserdados e pobres judeus, como Marx se dirige aos "proletários de todo o mundo". E é claro no seu projecto: é com eles que conta para o corpus principal do garande empreendimento. Um estado precisa duma população. Só que ao contrário de Marx, que preconiza um paraíso universal, para toda a humanidade, Hertz proclama a urgência dum paraíso meramente tribal - a "Terra Prometida" dos Hebreus, agora ainda mais restrito aos especificamente "judeus". (Dos problemas resultantes desta "especificidade" falaremos num futuro postal).
Aliás, não é por acaso que o anti-semitismo, o anti-semitismo à séria e não este de contrafacção do nosso tempo, eclode com especial vigor no século XIX, na Europa Central. Porque a ascensão judaica na sociedade começou a ser interpretada, muito por via duma ostentação novo-rica e parvenu, como ameaçadora e conspirativa. Todavia, o mesmo problema que ocupava os anti-semitas, preenchia também os sionistas: a assimilação, isto é, a diluição dos judeus no mosaico étnico da Europa. Os judeus estavam a integrar-se e isso tornava-se inadmissível para ambos. Para uns, significava a contaminação da raça ariana, a infestação das suas instituições públicas, o prejuízo económico dos europeus; para outros o desaparecimento do povo judaico e o fracasso do seu projecto político migratório. Só que, naturalmente, não eram todos os judeus que estavam a integrar-se, eram substancialmente os bem sucedidos, as elites tecno-culturais - a classe média/superior enfim ( e nos países mais industrializados). Sobravam, em maioria, as classes baixas e destituídas (sobretudo a Leste) . E é sobre estas que quer anti-semitas, quer sionistas, vão incidir sobremaneira o seu proselitismo. Aqueles sobre as "arianas"; estes sobre as "semitas". 
Posteriormente, entre as duas utopias concorrentes, o Marxismo e o Sionismo, acontecerá muitas vezes que quadros judaicos da primeira acabem por migrar para a segunda. O primeiro grande caso típico acontece na União Soviética, na ressaca da depuração stalinista; um segundo caso decorre nos Estados Unidos, no pós-guerra, quando de ex-trotskistas se enforma a primeira fornada dos ideólogos neoconservadores. Convém, de resto, ter bem presente que a fundação do Estado de Israel teve o apoio principal da União Soviética. Que foi sucedida nessa função, mais adiante, pela França, dando esta, por sua vez, lugar protector aos Estados Unidos.

De todos os nacionalismos  e projectos utópicos nascidos do século XIX, o sionismo é, simultaneamente, o mais antigo e o único que permanece activo e extremamente agressivo nos dias que correm.