terça-feira, abril 21, 2015

Acromiomancia Revisitada - XX. Ocloclismos e barricadas






«Jesus perguntou-lhe: Qual é o teu nome? - "Legião", respondeu.»
-Lucas, VIII 
Em 31 de Março de 1974, nas vésperas da golpada fantástica, Marcello Caetano decide tomar banho de multidão. Para o efeito, e muito apropriadamente, dirige-se à banheira de Alvalade onde assiste a um Sporting-Benfica do antanho.  O ocloclismo futebolesco é descrito pelo próprio no seu  "Depoimento":
«Quando o alto-falante anunciou que eu me achava no camarote principal, a assistência, calculada em 80.000 espectadores, como que movida por mola oculta levantou-se a tributar-me quente e demorada ovação que a TV transmitiu a todo o País. E note que, tendo saído do estádio quinze minutos antes do fim do desafio, não houve ninguém nas duas longas filas de pessoas que, como eu, procuravam evitar a confusão do final e por entre as quais passei que não me desse palmas - o que às pessoas que me acompanhavam pareceu ainda mais expressivo que a manifestação colectiva. E as informações que chegavam ao governo também garantiam sossego geral e apoio ao regime»

Menos de um mês depois, o mesmo  Marcello Caetano, cercado no Carmo ( por tanques velhos, mas uma multidão revolucinhária novinha em folha), descobre o reverso da medalha:
«(...) fui vaiado, insultado e caluniado, houve quem reclamasse o meu julgamento como criminoso(...) Assisti então sem espanto de maior, diga-se a verdade, ao vergonhosos espectáculo próprio das ocasiões revolucionárias em que o medo é o sentimento dominante e leva os homens às mais inconcebíveis manifestações de mesquinharia, de grosseria, de incoerência, de pusilanimidade e covardia.»
Onde estava o povo que o aplaudira vibrantemente em Alvalade? Quem era o povo que o apupava e injuriava descabeladamente no Carmo?
Jaime Nogueira Pinto, tem um trecho interessante sobre a matéria, quando escreve:
«Outra das ilusões que Marcello Caetano começou a cultivar foi o "banho de multidão". E é curioso notar que o trágico fim do regime, arrastando com ele o País, a meditação que o exílio lhe deve ter proporcionado, um balanço ao qual com certeza procedeu, não o convenceram nem esclareceram sobre o vazio de tudo aquilo. Não quer dizer que as multidões que o aplaudiam não fossem sinceras. Mas julgar que isso significa mais que a homenagem que um povo expansivo, dado ao acontecimento e à novidade como o português, presta a qualquer novo líder político, que apareça em cortejo, com polícias de moto à frente, é espantoso num homem que, sobre a multidão, os seus impulsos, crenças e sentimentos, escrevera algumas páginas lúcidas. As multidões que aclamavam Marcello Caetano eram as mesmas que antes aclamavam Salazar (que não lhes dava muitas oportunidades de o fazer) e depois Spínola. E se não aclamaram Costa Gomes é porque tudo tem limites!» 

Mas, francamente, será possível falar-se na "sinceridade" ou "falsidade" duma multidão? Vou mais longe: a multidão representa o povo - que "povo"? O estádio de Alvalade apinhado para um Sporting-Benfica representa exactamente o quê? É possível um plebiscito informal (como hoje em dia se faz com as  tais "amostras para sondagem") a partir dum estádio de futebol?  Ou duma arena de touros? Ou mesmo dum comício na Praça do Comércio?... E já agora, convém rectificá-lo, Costa Gomes também foi aclamado, em Belém, por uma multidão qualquer. Que não era, aí podemos estar certos, exactamente a mesma que aplaudira Spínola ou Caetano. Mas que, não obstante, representava a nova modalidade de poder informal que passava a ditar as leis: o poder da Rua. E de quem melhor pilotava, condicionava e manipulava multidões, multidinhas e multideias nesta. Turbas que, evidentemente, estavam distantes da "multidão espontânea" de Alvalade, em 31 de Março de 1974, mas, precisamente por serem mais dirigidas e telecomandadas se tornaram mais eficazes. Sobretudo, porque destruir é mil vezes mais fácil e expedito do que construir.
A pseudo-vigência spinolista, que sucedeu a Marcello Caetano e terminou, fruste e ingloriamente, no 28 de Setembro, soçobrou também após um ocloclismo afamado. Neste caso, não de índole futebolesca, mas tauromáquica (presságio deveras símbólico para a verdadeira tourada que se lhe seguiria). O episódio é rico de peripécias funambulares e enredos novelescos que merecem algum relato.
Estamos no dia 26 de Setembro de 1974. Para dois dias adiante está convocada a manifestação da Maioria Silenciosa. O seu principal objectivo é apoiar o presidente da República, general Spínola, de modo a fortalecer uma posição contra a deriva sinistra. Os partidos de Esquerda, PC e PS, pelos seus representantes no governo, bastiões da democracia de conveniência, pugnam para que a manifestação seja proibida.
No Conselho de Ministros, Santo Álvaro argumenta, em tom soturno: "trata-se duma manobra da reacção" "As informações dos camaradas comprovavam que eram fascistas que se iam manifestar" e, nec plus ultra, "independentemente da atitude do Governo os camaradas tudo iam fazer para desmontar a manifestação hedionda". Resumindo, mesmo que não fosse interdita de jure, seria interditada de facto.
Melo Antunes, como lhe competia, secundou a moção.
Já os dois ministros do PS, Salgado Zenha e Almeida Santos, advogados compenetrados, inauguram todo um modus operandi que nunca mais deixará de flagelar esta terra: propõem que se ilegalize a manifestação através de um decreto-lei. Devidamente estribada na lei, a repressão torna-se benignamente democrática.
Por seu turno, Magalhães Godinho destrata a projectada manifestação como "democraticamente impensável". A maioria estava pois pela proibição, mas nada de concreto ficou estabelecido ou consignado legalmente.
Acontece que nessa mesma noite estava prevista a tal tourada organizada pela Liga dos Combatentes.
Santo Ávaro, epítome viva da democracia, entendia que devia proibir-se também a corrida de touros. Nova discussão, entretanto interrompida por uma chamada telefónica de Spínola, a informar que ia à tourada. Sanches Osório e Firmino Miguel, ministros da Informação e da Defesa, apoiam-no e escoltam-no na viagem. Vasco Gonçalves, após instância do presidente, resigna-se a ir também. A cena do Campo Pequeno, deixo ao relato de Sanches Osório, participante no evento:
«Na tribuna Presidencial estavam o Presidente da República, o 1º Ministro; o Ministro da Defesa; o Ministro Almeida Santos; os generais Galvão de Melo, Jaime Silvério Marques e Almeida Viana, este na qualidade de presidente da Liga dos Combatentes, além dos membros das Casas Civil e Militar do Presidente da República, a saber: ten. Cor. Dias de Lima; ten. Cor. Almeida Bruno; Maj. Zuquete da Fonseca; cap. António Ramos e Com. Sameiro.
Da tourada vou apenas falar de dois aspectos: o ambiente muito festivo em relação ao Gen. Spínola e tremendamente hostil em relação ao Brig. Gonçalves.
A praça estava cheia. Cantou-se o Hino Nacional, deram-se vivas a Spínola o qual, em cada "sorte", era ovacionado. No intervalo houve um pequeno beberete onde compareci com minha mulher. Era patente o isolamento dos dois clãs: 1º Ministro e ajudantes, e Presidente da República e ajudantes.
Após o intervalo, ao reentrar no camarote sozinho, o Gen. Spínola foi triunfalmente recebido. Pouco depois, ao dar entrada o Brig. Vasco Gonçalves, verificou-se uma vaia formidável e intensa. Era gritante a inimizade pelo Governo e por aquilo que Vasco Gonçalves representava!
No fim da tourada novamente se deram vivas a Portugal e a Spínola.
No exterior, entretanto, havia-se organizado uma pequena manifestação com o slogan: "fascista escuta, o povo está em luta"; Abaixo a reacção"; "Viva o MFA"; etc.(...)
Além dos slogans, houve algumas agressões e correrias e um pelotão a cavalo da GNR ia pacientemente desmontando a manifestação.
Um ponto considero, no entanto, muito importante: verifiquei a presença, como líderes da manifestação, de oficiais da Comissão Coordenadora da Armada. Eram dois e convém dizer que a manifestação havia sido organizada pela União dos Estudantes Comunistas.» (in, O Equívoco do 25 de Abril")
A mesma tourada descrita agora da esquerda, por Diniz de Almeida:
«Perante uma Praça de Touros do Campo Pequeno com a lotação esgotada, Spínola surgiria no camarote presidencial acompanhado de Galvão de Melo e Almeida Bruno além de outros componentes da sua comitiva.
Com a chegada de Vasco Gonçalves, a ovação dispensada a Spínola, transforma-se numa vaia insultuosa.
(...)
Já no camarote, Silveira Machado propõe a Spínola que se faça um minuto de silêncio pelos mortos do Ultramar; pouco à vontade, Spínola vira-se para Vasco Gonçalves e pergunta-lhe a opinião...
-"Se fosse em memória dos combatentes Portugueses e dos combatentes dos Movimentos de Libertação caídos, eu concordava..." - assentiu condicionalmente Vasco Gonçalves: - "...agora ostensivamente só para Portugueses, não!..."
Spínola preferirá não insistir; virando-se agora para Silveira Machado, obstou então:
-"Bom, então é melhor não fazer; pode haver provocações e é preciso respeitar os mortos.
(...) A praça pareceu entusiasmar Spínola, que não descurou fazer o seu aproveitamento junto de Vasco Gonçalves como forma de pressão:
- "Como vê a praça está cheia... O Povo já estava desligado do Presidente da República... quando eu passava nas ruas já o sentia... mas agora, como vê, já estão outra vez comigo" - e exibia-os pouco discretamente a Vasco Gonçalves.» (in Ascensão, Apogeu e Queda do MFA, Vol. 1, pp.167)

E, de facto, galvanizado pelo ocloclismo tauromáquico, Spínola insiste em autorizar e abençoar a "manifestação de 28 de Setembro". Só que, pelos vistos, o presidente da  República daquela república não contava muito. Ainda para mais, acolitado por um espírito santo de orelha do quilate de um Costa Gomes...
Vasco Gonçalves, na qualidade de Primeiro-Ministro acaba por ser constrangido a emitir uma declaração de autorização à manifestação e de apelo ao restabelecimento da ordem. O boicote porém segue os seus trâmites informais: o povo é quem mais ordena. Já a 26, o plano do MDP/CDE, sancionado pelo General Costa Gomes inicia toda uma procissão de detenções arbitrárias, que os próprios MDPs elaboram e executam devidamente armados e escoltados por militares afetos. À volta de Lisboa são erguidas barricadas, guarnecidas por "brigadas populares" e procede-se ao controlo e revista de viaturas. Mais tarde o COPCON, enviado para as substituir, limita-se a assistir passivamente, quando não a auxiliar. Os comunistas tripudiavam a seu bel-prazer, sob o beneplácito socialista e a passividade dos restantes partidos menos à esquerda - pois já no dia 25, e nas palavras do próprio Spínola:
«Também recebi, separadamente, as visitas do prof. Freitas do Amaral e do Dr. Sá Carneiro para me comunicarem que os seus partidos - CDS e PPD - não participariam na manifestação...» (in País sem Rumo, pp.213)

Entretanto, quando a notícia das barricadas ad-hoc, com todo o seu arraial de atropelos, rebenta nas altas esferas, a Junta de Salvação Nacional reúne-se na Presidência da república,  onde é convocado o primeiro-Ministro, Vasco Gonçalves e onde se encontram também outros oficiais próximos de Spínola... A cena, onde Osório e Diniz de Almeida também coincidem na descrição, merece registo para a posteridade. Nas palavras do primeiro:

«O ambiente era muito tenso por causa das barricadas - que estavam a ser feitas em todos os acessos a Lisboa e em todo o país - e por causa dos apelos à sua intensificação e à intransigente vigilância das massas populares. Aguardei na sala enquanto os generais da Junta entravam para o Gabinete do Presidente da República.
Foi então convocado o 1º Ministro, que compareceu e entrou no Gabinete.  Ao estender a mão ao gen. Galvão de Melo, proferiu o cumprimento habitual:
- "Como está meu General?
O general ficou imóvel.
-"O meu general não me aperta a mão?", perguntou Vasco Gonçalves surpreendido.
-"Não, eu não falo a filhos da puta", respondeu calmamente Galvão de Melo.
-"O meu General é um estupor", respondeu o 1º Ministro.
Para evitar o pior, o Gen. Diogo Neto interpôs-se entre os dois e, de frente para o 1º Ministro, levantou a mão e exclamou:
- "Tu és uma vergonha! Meu comunista ordinário que queres levar o país para uma Guerra Civil. Se abres a boca parto-te a cara."
Nesta altura, e com a calma que me era possível, expus ao 1º Ministro o problema da manifestação e disse-lhe textualmente:
-"O governo emitiu um comunicado. É verdade. Mas, por outro lado, incitou os partidos a isolarem a manifestação, o que é pelo menos desonesto. Corresponde à boicotagem da manifestação."
Vasco Gonçalves respondeu-me:
-"Isso é uma calúnia. O senhor está a insultar-me."
-"Não estou", retorqui. "Isto são os factos tais como se passaram e eu não posso nem devo esconde-los".
O Gen. Diogo Neto interrompeu este diálogo e declarou, virando-se para o 1º Ministro:
-"És um merdas."
E o Gen. Silvério Marques acrescentou:
-"Olha-me bem de frente. Eu tenho 4 estrelas mas só duas são da Revolução: deixo-tas aqui, atiro-tas à cara. Tu vais dar ordem ao teu partido (entenda-se PCP) para acabar com a rebelião." (in O Equívoco do 25 de Abril, pp.96)

A  reunião, entretanto, prossegue já com a presença de Spínola e, a certa altura, Sanches Osório tem um desarrincanço ainda com mais piada:
«Nada nem ninguém pode fazer nada neste país enquanto não se souber quem manda!"
Pus então várias hipóteses: "A JSN? O Governo Provisório? A Comissão Coordenadora? Ou o estado Maior general das Forças Armadas?" E acrescentei que, naquele momento, o meu espírito não tinha dúvidas, o Poder encontrava-se numa quinta identidade: a Rua, controlada pelo PCP.»  (idem, pp.97)
Neste momento rubro, com o Poder na Rua e em quem lá ordenava, barricadas a céu aberto, prisões políticas em barda e  até o Santo Álvaro, coitado, pelo sim pelo não, a pernoitar na embaixada Soviética, o que faz Spínola?  Resigna. Demite-se.  Com que intuito inefável, senão mesmo mirabolantel?
«...com a convicção de que se impunha denunciar ao País, com toda a crueza, o grave desvio que a Revolução de Abril estava sofrendo, para que o Povo Português tomasse conhecimento de que, à sombra de uma falsa bandeira da Democracia, estava sendo conduzido para uma nova forma de escravatura.» (in País sem Rumo, pp.237)
O Povo a tomar conhecimento, depois de nele o general ter tomado banho,  não deixa de ser uma imagem tocante.
E passa a bola a Costa Gomes. Na esperança que este "uma vez satisfeita a sua ambição do poder, tomasse plena consciência das responsabilidades que iria assumir perante o País".

Moral da história?
Há alguém que a cunha bem melhor do que eu, até porque a tinha profetizado muitos anos atrás:
«Nós constituímos um regime popular, mas não um Governo de massas, influenciado ou dirigido por elas. Essa boa gente que nos aclama hoje, levada por paixões momentâneas, não poderá ser aquela que tende a revoltar-se amanhã, levada por outras paixões? Quantas vezes não me tenho deixado impressionar, comover, pela sinceridade clara, indiscutível de certas manifestações! Quantas vezes não me tenho sentido interiormente abalado, sacudido com o desejo quase irresistível, de falar ao povo, de lhe dizer a minha gratidão, a minha ternura. Mas quando o vou fazer, qualquer coisa me detém, qualquer coisa me diz: "Não fales! Arrastado pela emoção, pelo efémero, vais sair de ti próprio, vais prometer hoje o que não poderás fazer amanhã!" E conseguindo impor o seu perfil à própria treva cada vez mais espessa: -"Não posso mentir! Só poderei mandar, só me julgarei com autoridade para mandar, enquanto me sentir eu. A defesa do eu corresponde em mim à própria defesa da verdade. Se fosse arrastado por influências passageiras, se as minhas atitudes ou palavras fossem escravas do entusiasmo das multidões ou somente dos meus amigos, já não seria eu. E então não era honesto sequer que continuasse a governar.»
 - A.O.Salazar (In Entrevistas a António Ferro, pp.191)

A multidão - que em grego se diz oclos - é só o homem fora de si.


Nota: ocloclismo significa "banho de multidão". Pode ter um outro sentido que deixo à imaginação do leitor.

sexta-feira, abril 17, 2015

Acromiomancia Revisitada - XIX. Portugal às avessas




«O comunismo soviético tirou o modelo das grandes religiões. Tem, salvo o devido respeito, um papa, um colégio de cardeais, O Politburo, a assembleia dos arcebispoos e dos bispos, o comité central e os seus secretários especializados. tem também o KGB que se assemelha mutatis mutantis à Santa Inquisição e que tem como uma das tarefas principais, se não a principal - não o esqueçamos - estar atento aos divisionismos que surjamm e que podem degenerar em sismas. Como já aconteceu. É preciso compreender bem que a semelhança com a organização da Igreja católica é surpreendente. Poderíamos acrescentar que tem igualmente os seus missionários e os seus mártires. A grande diferença é que a Igreja deles não tem Deus e estão perdidos por uma razão muito simples. Vê-se que todas as Igrejas tiveram a prudência de não prometer a verdadeira felicidade senão depois da morte. Eles estão perdidos por terem prometido a felicidade sobre a Terra, porque são incapazes de nos dar sequer uma amostra...»
-Alexander Marenches


Ao restrospectivar as forças envolvidas no golpe do 25 de Abril, Diniz de Almeida, um dos mais activos e virulentos revolucionários (portanto, insuspeito de quaisquer simpatias fascistas), em matéria de agentes militares envolvidos, faculta o seguinte relatório:
«1. A componente vencedora (integrando cerca de 5 % das Forças Armadas)
  A - Ala spinolista - constituída por uma minoria de oficiais, geralmente de valor, aos quais cedo acresceram oportunisticamente numerosos outros oficiais, anteriores émulos ou não, do carismático general.
B - Ala Autónoma do Movimento ou MFA propriamente dito - constituída por uma minoria de oficiais numericamente superior à primeira (cerca de duas vezes) geralmente de valor aproximado aos primeiros, mas com uma média de patentes acentuadamente inferior em relação a estes. Este último facto determinaria novos focos de tensão...
2. A componente vencida (integrando cerca de 95% das Forças Armadas)
A - Amorfos - constituindo cerca de 50% dos efectivos totais das Forças Armadas. Neste grupo incluem-se ainda, e aliás em elevada percentagem, oficiais que, dispensando uma maior ou menor hostilidade do Movimento, por razões diversas o não fizeram contudo directamente.
B - Activos (ou potencialmente activos) - cerca de 45 %, abrangendo uma vasta gama de elementos num leque que incluía desde os oficiais ideologicamente afectos ao regime, aos que por diferentes razões se viriam a sentir lesados económica, social, profissional ou psicologicamente, pelo Golpe de Estado de 25 de Abril e suas consequências.» (in  Ascensão, Apogeu e Queda do MFA, Vol I, pp.15)

Deste trecho altamente significativo podemos, desde logo, extrair algumas deduções particularmente devastadoras para as mitologias instaladas. Assim,
a) O golpe não decorreu das Forças Armadas enquanto bloco, mas duma minoria inexpressiva e residual das ditas;
b) Mesmo entre a minoria golpista existiam duas alas não coincidentes, na motivação e objectivo finais;
c) A maioria esmagadora (mais,  quase total) das Forças Armadas não aderiu, nem dispunha de razões, oportunidades ou motivos para apoiar o golpe;
d) Os melhores oficiais, entre a minoria golpista, não pretendiam nem apoiavam a deriva esquerdista posterior;
e) Constitui pois assombro, a todos os títulos bramante, o facto, em primeiro lugar, do golpe ter triunfado sem resistência visível; e em segundo lugar, que os piores e mais descabelados entre os golpistas, tenham depois prevalecido e tripudiado, repetidamente, sobre os restantes (com destaque para o chefe reconhecido deles, o general António de Spínola);
f) Corporiza não menor perplexidade, saber que essa deriva revolucionária dos piores se escorou e, simultaneamente, serviu de instrumento numa e a uma minoria frenética da população civil em prol da destruição do país, sob design e patrociínio externo e a coberto duma camuflagem de "revolução".
g) Finalmente, a bizarria maior de todas: como foi possível uma acção subversiva tão fraca, armada de meios -humanos e técnicos - tão rudimentares, animada de justificações tão desamparadas ou insignificantes, rodeada de circuntâncias internas tão indiferentes ou mesmo adversas, ter triunfado? E pior, ter triunfado não apenas no próprio dia do Golpe inicial, como em todos os golpes posteriores até a catástrofe estar consumada, e, para cúmulo, ter permanecido  impune até aos dias de hoje, quer moral, quer histórica, quer mesmo  politicamente?...

Bem, tentemos descascar a cebola.

1. Lembrava ao diabo a implantação dum regime comunista em plena Europa Ocidental, num tempo em que o próprio comunismo a Leste, entre satélites, abria brechas por todos os lados e emitia claros sinais de deterioração avançada no  paradigma terreal? A quem mais havia de lembrar? Tanto assim é que lembrou. Depois, para liquidar, flagelar e punir um país rebelde não há nada melhor que o comunismo aos saltos. Duas coisas contribuíam para esta ascensão comunista: amplo apoio externo e exclusiva capacidade interna. Por outro lado, a via comunista (ou da "terra queimada") era a garantia da concretização rápida do alvo real da "revolução florida": uma descolonização instantânea.

2. Como foi possível o comunismo adquirir o poder e a predominância que alcançou em tão curto espaço de tempo? Os comunistas eram a única força organizada e pronta a ensaiar consistentemente uma nova modalidade de controle.  Num país que perdera o rumo, a fé, a vontade e abdicara das ideias, os comunistas tinham um rumo, tinham uma fé e tinham um pacote completo de ideias a cavalo numa determinação feroz: o rumo era tenebroso, as ideias péssimas, a fé  alucinada, o plano criminoso, mas, como bem cunhou certo filósofo, onde não resta sentido nenhum até um mau sentido parece bom. Acresce  o oportunismo tipico das seitas maléficas: erigidos em antítese do anterior, arvorados em mártires da liberdade, apropriaram-se rapidamente da nova patente e montaram portagem na auto-estrada para o paraíso (claro que a via nunca chega a ser construída, mas o que importa é que se pague o acesso à concessionária). Que método era o seu? Um salazarismo às avessas. Só parecerá estranho aos menos atentos. O suporte era idêntico: as Forças Armadas, só que de pernas pró ar (não como garante da ordem, mas da desordem); o magistério social da Igreja convertia-se no magistério socialista da seita; a ideia do indivíduo-pessoa humana dava lugar à mania do colectivo partidário em constante purga e saneamento de indivíduos-pessoas que, de algum modo, constituíssem posto chave a ocupar no aparelho do Estado; a ditadura  nacionalista e supra-partidária (em espírito de monarquia implícita), hierarquizante e aristocrática, devia ser substituída pela ditadura do proletariado, internacionalista, terraplenante e burocrática; o monopólio político e o corporativismo económico baseado na livre iniciativa do Estado-Novo, cedia passo ao monopolismo económico (público) e ao sindicalismo político unicitário e monolítico do Estado Socialista. Havia até um novo "Salazar" na figura do Anti-salazar em pessoa, Santo Álvaro das estepes; etc, etc.. É assim tão difícil perceber que neste novo tempo de anti-Descobertas toda a aventura terreal se firmou numa "nova Ordem de Anticristo", onde as caravelas foram mistificadas por carroças fúnebres a que se atrelou um povo degradado a cavalgadura de tracção sob a flâmula da foice & martelo?...
Por outro lado, e requinte fulcral, a religião tradicional  via-se silenciada e usurpada pela propaganda revolucionária, onde a nova censura - o antifascismo depurativo - e a nova-Pide - o COPCON sumaríssimo - implantavam não já o respeito ou a disciplina, mas o terror e a arbitrariedade pop-demo.

3. O comunistas (e a esquerda satélite, entenda-se o MDP/CDE) sabiam antecipadamente da golpada? Saber, sabiam. Duvidavam era que tivesse êxito. Os próprios golpistas, mais animados por um sucessivo desfile de impunidades flagrantes do que por uma qualquer vantagem militar concreta capaz de garantir um sucesso inequívoco, vieram sobretudo testar - em forma de bluff - o regime, ou, hipótese ainda mais plausível, senão cumulativa, actuaram de conivência e em conjura com forças da propria situação (e quando refiro forças, significo não instituições em bloco, mas parcialidades no interior dessas instituições (a DGS, o Governo, órgãos de informação, etc), e estou em crer, foram os que ficaram mais surpreendidos com a relativa facilidade do seu sucesso A razão óbvia porque os comunistas sabiam traduz-se em toda a operação psicológica e propagandística montada no próprio dia 25, em séquito e reforço das operações militares; o facto da Comissão coordenadora do Movimento dos Capitães ser constituída por tipos sinistros do jaez dum Charais, em íntima conexão com outras figuras retintamente sovietizantes como Vasco Gonçalves e Rosa Coutinho (este, membro da Junta Nacional de Salvação, que assumiu o simulacro de poder no pós-Marcellismo imediato). Também, segundo Sanches Osório,
 "a verdade é que houve contactos entre o Movimento dos Capitães e certas forças políticas, pois que no dia seguinte ao golpe militar apareceram milhares de cartazes dizendo "Viva o Movimento das Forças Armadas" e "Viva o general Spínola". Ora , estes cartazes não se fazem de um dia para o outro... As ligações políticas do Movimento dos Capitães foram realizadas pelo Major melo Antunes o qual estava estreitamente ligado, através da CDE, ao DR. José Tengarrinha.» 
E Osório atesta mesmo:
« De certo modo, podemos considerar o comprometimento político do Movimento das Forças Armadas, através de alguns dos seus oficiais, com o MDP/CDE»
Convém, entretanto, notar, que a  transformação do Movimento dos Capitães em MFA acontece no próprio dia do golpe e seguintes, englobada em toda uma operação de propaganda que denota já uma intenção íntima devidamente articulado com toda uma lógica que, os eventos do processo subsequente, apenas comprovaram e foram exibindo cada vez mais abertamente. Alguns historiadores consideram que no 25 de Abril acontece não um mas vários golpes. Dois pelo mesmo, distintos, são visíveis: os spinolistas pensam aproveitar-se do movimento dos capitães, e o MFA utiliza os spinolistas como máscara pública e vaselina política para o seu programa subterrâneo de violação nacional. A vitória do MFA sobre os seus rivais decorre da força maior dum rumo sobre um pseudo-plano, ou dito de outro modo, dum projecto de mera apropriação, exploração e perversão de estruturas existentes sobre um projecto de peregrinação de estruturas imaginárias. Quer dizer, os spinolistas, cândida e  infantilmente, acreditavam que tinham uma alternativa à situação e que esta devia ser transformada nesse sentido; os outros possuiam simplesmente um programa de desmantelamento e aproveitamento da situação. Na política, como na natureza, as soluções simples tenderão sempre a sobrepor-se às complicadas. A partir do momento em que se provoca uma crise exorbitante e se proclama um problema vital diante do povo, este, no dia seguinte, será sempre mais facilmente persuadível a acreditar naqueles que lhe apresentem um solução rápida do problema do que naqueles que lhe exponham uma resolução complicada do mesmo. Entre morosas obras de fachada  e uma casa nova de raiz, quase instantânea, só mexer e juntar água, está-se mesmo a ver o que a malta escolhe. Naquelas circunstâncias - e para aqueles que tanto apreciam as condições históricas - era praticamente impossível um desenvolvimento benigno e harmonioso da desordem. Quando se atira com um edifício abaixo é estúltícia pensar que se vai depois conseguir um melhoramento a partir das ruínas. Pelo contrário, o que acontece é acabar atropelado por saqueadores.
Outra das razões pesadas porque os spinolistas perderam aparece descrita pelo Coronel Viana de Lemos, Subsecretário do Exército, do último governo de Marcello Caetano, quando relata uma conversa entre ele e o seu amigo íntimo de longa data, o general Costa Gomes:
«Por mais estranho que pareça, pois esta conversa tinha como pano de fundo a controvérsia levantada pelo livro "Portugal e o Futuro", nem o livro nem o seu autor foram discutidos.. Apenas duas frases muito curtas, uma das quais verdadeiramente profética. Eu disse-lhe: "Veja lá o meu General os sarilhos em que o seu amigo nos meteu a todos". Resposta pronta: "Não tenha receio, eu sou perfeitamente capaz de controlar o meu amigo sempre e quando quiser.» (in Duas Crises, pp.90-91)
Finalmente, um detalhe sobremaneira significativo senão mesmo o mais inquietante de todo aquele dia dos prodígios: a emissão ininterrupta e massiva do Rádio Clube Português, falcatruando, tanto ou mais que as tropas, a dimensão demiúrgica do acontecimento - fabricando uma autêntica realidade de ficção que, à medida que o tempo passava, ia adquirindo consistência material. Até que, por fim, todos acreditaram na mentira, de tanto ela ser matraqueada: estava a haver uma revolução. "Mas que revolução é esta?", terá perguntado, a certa altura, Marcello.
Passado todos estes anos ocorre-me, subitamente, uma resposta: uma revolução igual ao mundo que anos antes, Orson Wells, na sua emissão radiofónica da "Guerra dos Mundos", transportou ao pânico. Só que ao contrário da América de Wells, a emissão, entre nós, nunca mais acabaria... e a Terra Portuguesa seria mesmo tomada e devastada por extra-terrestres.

PS: Faltou apenas dizer, entre mil outras coisas, que na primeira reunião da Junta de Salvação Nacional, Costa Gomes e Rosa Coutinho advogaram a manutenção da DGS na Metrópole.


A essência do "nobre povo" - O Vira-casaquismo






De salazaristas a comunistas numa noite.
 Saíu-nos um País novo na Farinha Amparo. Por via dum povo caquético, hipocondríaco, alzeimherizado e bipolar...
convulsionário da febre e da tosse
ricochete perpétuo do projéctil
entre a disfunção eréctil
e a ejaculação precoce.


terça-feira, abril 14, 2015

Acromiomancia Revisitada - XVIII. Antecâmara e Palco


A propósito da reunião do Movimento dos Capitães, decorrida em Óbidos, no dia 1 de Dezembro de 1973, Diniz de Almeida, tece um comentário deveras elucidativo:
«O ridículo prático de uma votação com a curiosa miscelânea que era a existência de adeptos do governo infiltrados, oficiais independentes, e o número crescente de oficiais curiosos que faziam das salas de reuniões autênticas casas de passe, quer pela irregularidade de frequência, quer pelo comodismo ou desinteresse com que assistiam, ganhava curiosa realidade, quando minuciosos relatórios forneciam ao coronel Viana de Lemos,  a informação de tudo o que lá se passava.» (in Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, pp221)

Ora, o coronel Viana de Lemos (não esqueçam o nome) era, nem mais nem menos, o sub-secretário de Estado do Exército do governo de Marcello Caetano. O que, indiscutivelmente, aponta para um conhecimento detalhado, por parte do governo, de tudo o que se ia cozinhando naquelas assembleias conspirativas. Dito com mais rigor, em teoria poderia indicá-lo. Só que... O Coronel Viana de Lemos pertencera ao gabinete de Botelho Moniz e era da confiança de Costa Gomes. Acresce que, segundo os entendidos, estava de algum modo  em "connection" com certos serviços de informações ocidentais. O que nos pode levar a inquirir o óbvio: será que ele informava devidamente o Governo, pelo menos com a mesma eficiência com que informava Costa Gomes e os seus contactos exóticos? O certo é que, pela mão de Marcello, as figuras derrotadas no 13 de Abril de 1961 vão readquirindo algum tipo de protagonismo na sua reconstituição 13 anos depois. Das duas, uma: ou para seu conforto, ou para seu prejuízo. Quer dizer, no menos mau dos casos, tudo indica que Marcello, à semelhança de outras asneiras políticas, apostou em gente que, não só pouco ou nada atenuou aos oposicionismos conspirativos (ainda mais com sede externa), como os monitorizou e, de algum modo, os promoveu através duma olímpica permissividade.
Também Sanches Osório faz referências a um conhecimento antecipado do Governo, mas em termos diferentes:
«Será verdade que o Governo saberia algo do que se passava pelas informações da PIDE, mas desde a reunião  dos generais em S.Bento que as posições se tinham radicalizado. Antes dessa reunião o Gen. Costa Gomes teria tentado um acordo com o Prof. Marcello Caetano, mas esses contactos não foram muito nítidos.» (in O Equívoco do 25 de Abril, pp.42)
Jaime Nogueira Pinto vai mais longe:
«Um facto: depois do 16 de Março, Spínola procura Marcello Caetano, reafirmando-lhe o seu lealismo. Que não é, nem nunca será um general golpista. De qualquer modo os contactos entre Marcello e Spínola vão manter-se por interposta pessoa - Veiga Simão, o ministro da Educação. Spínola, depois do 16 de Março, é assíduo visitante do gabinete daquele membro do governo. Têm longas conversas, a seguir às quais, segundo funcionários do Miinistério, Simão se dirige a S.Bento, ao Presidente do Conselho.» (in O Fim do Estado Novo e as Origens do 25 de Abril)
Ora, outro facto é que a conspiração dos "ultras" - a direita militar que pretendia a substituição de Marcello e o reforço militar da política ultramarina -, tinha sido abortada por denúncia oportuna de um dos principais militares spinolistas, Carlos Fabião. A intentona das Caldas, por seu turno, em larga escala, seria uma movimentação de spinolistas (mais uma vez a caírem na esparrela das precipitações, o que se tornaria um hábito). O general Spínola, entretanto, confirma esta movimentação mais como uma antecipação à direita do que um clara hostilização a Marcello:
«(...)porque, dos contactos havidos com o Presidente do Conselho e com alguns membros do seu Governo, me ficara a firme convicção de que era urgente contrabalançar as pressões da corrente ultradireita - defensora de uma solução monolítica - como o peso da vontade maioritária da Nação, que se impunha esclarecer em ordem à abertura para soluções consentâneas com as realidades conjuntorais.» (in  País sem Rumo, pp.76) ~

Note-se como, dentro da própria situação, os defensores da continuação firme da política de Salazar são desclassificados como "ultradireita" . Ora, o que estas forças dentro da situação procuram (Costa Gomes também pontifica, mas sempre com um pé de reserva para outra plataforma que entretanto possa surgir mais vantajosa) é, sem reservas, a condução a bom termo daquilo que tinha sido frustrado em 13 de Abril de 1961. Os peões são os mesmos, os jogadores externos também, falta apenas o actor principal, entretanto falecido. E há um outro que muda agora de lado: Spínola. Que serve de testa de ferro involuntário a Costa Gomes.
O mesmo Spínola, aliás, que corrobora também os contactos com Veiga Simão (após a publicação do livro "Portugal e o Futuro"):
«Durante este período realizei ainda várias diligências junto do Ministro da Educação Nacional no sentido de oferecer ao Presidente do Conselho uma possibilidade de modificação radical da política do País. Apesar de todo o esforço despendido pelo Prof. Veiga Simão, as tentativas foram infrutíferas, tendo sido este que, por sua iniciativa, me comunicou que o Prof. Marcello Caetano nos receberia separadamente, a mim e ao general Costa Gomes, na esperança de que no último momento o Presidente do Conselho reconsiderasse.» (in País sem Rumo, pp, 79).
Um pequeno comentário: "modificação radical" não seria exactamente uma reforma daquelas tão típicas entre nós, sobretudo desde 1968... O certo é que por altura destas conversas, Spínola, segundo ele próprio atesta, bem como Sanches Osório e Diniz de Almeida, ia sendo mantido ao corrente das actividades subterrâneas do Movimento dos Capitães. Quanto à data a partir da qual começa a ser notificado dessas movimentações, Spínola situa-a em "meados de Dezembro de 1973". Por outro lado,  o golpe dos "ultras", que deveria ter acontecido em Dezembro de 1973,  teria abortado muito por via da oposição duma maioria relativa de oficiais metropolitanos (60%), bem como dos generais Costa Gomes e António de Spínola. Tudo indica que este, como forma de recompensa do Governo, viu criado especialmente para si o cargo de Vice-Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. Parece que é uma tendência de governos erráticos e atabalhoados, a criação de cargos peregrinos como Vice qualquer coisa. Actualmente, acho que já vão em vice-primeiro-ministro. Confio que a breve trecho chegarão a vice-presidente da república. Entretanto, a versão que corria nos meios "liberais" de Fevereiro de 1973, enredo que viria a ter repercussão no Le Monde (os franceses estavam a par do movimento revolucionário clandestino e fazia todo o sentido pretenderem antecipar-se aos soviéticos/americanos), calculava um golpe que obteria a renúncia forçada do Presidente da República, a subida de Marcello à Presidência, com Spínola a chefiar o Governo, até novas eleições. Seria, muito provavelmente, esta, a proposta de "mudança radical" de Spínola?...
Pormenor assaz interessante é o depoimento do chefe dos Serviços Secretos Franceses na altura, Marenches. Convém ter bem presente que a França nos apoiava internacionalmente, bem como no esforço de guerra (era, por conseguinte, um aliado; à semelhança da Alemanha). Responde ele, o tal Marenches, quando lhe perguntam se estava a par da golpada de 1974...
«Estávamos bem informados sobre a revolução que se preparava, não só em Portugal, mas no seu império ultramarino: Angola, Cabo Verde, Macau, Moçambique, São Tomé, Guiné, Timor. O enclave indiano de Goa já se fora. Angola, Moçambique e a Guiné iam desaparecer e a parte portuguesa da ilha de Timor ia-se tornar indonésia.» (in No Segredo dos Deuses, pp160)
O mais curioso é que na manhã do dia 25 de Abril de 1974, o director operativo da DGS, Barbieri Cardoso, encontra-se onde? Em França, de visita ao gabinete do Chefe dos Serviços Secretos Franceses. E, segundo este, faz um ar incrédulo, quando recebe a notícia de que está a haver uma revolução em Lisboa.
Cunha Passo, outro importante DGS, confirma a geografia: «Fui com o dr. Barbieri Cardoso, que depois seguiu para Paris para se avistar com Alexander de Marenches, director do SDECE». (in Histórias Secretas da Pide/DGS, pp.143, de Bruno Oliveira Santos)
Outro ex-DGS, Abílio Pires, à pergunta se o 25 de Abril os tinha apanhado de surpresa, responde:
«Não. Já sabíamos que, naquela noite, ia dar-se qualquer coisa. É por isso que à meia noite eu ainda estava na António Maria Cardoso. Repare: na noite anterior, os militares foram buscar os aparelhos de rádio ao Quartel de Cascais. Se existiam dúvidas sobre a possibilidade de eclodir uma nova revolta, elas ficaram logo dissipadas!.» (idem, pp. 145)
Só para concluir este intróito sobre as vésperas, uma última passagem de Nogueira Pinto:
«"O Governo não suspeitava apenas, sabia", há-de declarar Otelo Saraiva de Carvalho a respeito do conhecimento pelas autoridades, do Movimento das Forças Armadas. E um franco-atirador esquerdista, acrescentará: "O golpe de Estado militar teve a conivência da PIDE, do Caetano, do tenebroso Estado-Maior do Exército e transformou-se no Movimento do 25 de Abril; só depois é que aparece o MFA " Algumas pistas conduzem, hoje em dia, para esta explicação, aliás a única plausível aos olhos de vencidos e vencedores.» (in O Fim do Estado Novo e as Origens do 25 de Abril, pp.485)
Quanto ao dia 25 de Abril, e às suas peripécias própriamente ditas, passemos a alguns detalhes significativos, que importa anotar...
Comecemos pelo testemunho de um dos golpistas, o Major Sanches Osório, futuro Ministro da Informação: 
«Os aspectos militares do 25 de Abril estão largamente descritos e eu não vou repeti-los. Mas não há dúvida de que se tivesse havido uma reacção forte da Guarda Nacional Republicana do Carmo a vitória teria sido extremamente difícil. Os carros de combate estavam velhos e em más condições mecânicas; o abastecimento de combustíveis para os carros e de alimentação para os soldados era muito precário e, a acrescentar a estas condições, havia ainda o treino das tropas que era muito mau na medida em que a maior parte dos soldados não tinha sequer a instrução militar completada. O que se passou no Carmo, ao fim e ao cabo, foi uma acção pessoal, uma acção psicológica e a presença do próprio Povo. Se o regime não estivesse moralmente podre, teria disposto de chefes que desencadeariam o contra-ataque.» (in O Equívoco do 25 de Abril, pp.42)

Em que consistiria esta putativa putrefacção moral/psicológica do regime? É um facto que não esboça qualquer gesto de defesa digno de relevo. Mas agora transparece uma nova agravante.... Até aqui considerava-se que as unidades militares que cercaram os revoltosos, por um qualquer motivo, não tinham desencadeado acções concretas para acabar com a revolta. Mas o que agora atesta um dos próprios golpistas é que teria bastado uma reacção armada da GNR do Carmo para colocar todo aquele circo em muito maus lençóis. Até porque entre os amotinados parece que a moral também não era assim tanta... Diniz de Almeida relata mesmo um estado de semi-borregação do heróico Salgueiro:
«Para além dos aspectos conhecidos, a tomada do Carmo não se processou com tanta facilidade. O capitão Salgueiro Maia foi praticamente abandonado à sua sorte e juventude: daí a sua temporária indecisão.
Apresentando uma ordem escrita para tomar o Carmo de qualquer maneira, o capitão Luz insistiu então com Salgueiro Maia:
- Eh pá, tem que ser! É aqui que se vai decidir muita coisa...
- Não tenho coragem moral..., não tenho coragem moral...
- Tens de tomar aquilo!.... Tens de tomar aquilo...
O Quartel do Carmo erguia-se rijo de frialdade. Lá dentro desorientadas e assustadas, as forças da GNR afectas ao regime, esperavam reforços que não mais vieram. Cá fora, sem que tal facto afectasse o seu excelente comportamento, Salgueiro Maia hesitava:
- Põe-me em contacto com o Otelo; não tenho ligações... Não consigo ligar com ele.
O capitão Luz partiu então como uma flecha para a casa mais próxima, tentando a via telefónica. Experimentou a porta mais a jeito:
Um casal de velhinhos, ajoelhou-se diante dele:
- Por favor, por favor, nós não queremos meter-nos nisso! Por favor...Por favor...
O tempo urgia: correu para um estabelecimento. Agrediu violentamente os vidros da casa comercial "Eduardo Martins". Pressuroso, o gerente ofereceu-lhe o telefone.
Não foi difícil a ligação. O Otelo respondeu-lhe que entretanto já conseguira entrar em contacto com o capitão Salgueiro Maia, que parecia finalmente decidio a resolver a questão. Mais do que Otel, a população, ao seu lado, tê-lo-á ajudado a decidir.
Luz é pouco depois avisado que no cimo dos telhados estariam a aparecer "pides" e outros elementos afectos ao regime.
Uma jovem comunista aproximou-se e declarou decidida:
- Somos quase duzentos, estamos armados e dispostos a ajudar-vos... disponha de nós.» (in Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, pp. 325)
Agradeço que registem, sobremaneira, o negritado último - o "poder da rua" na sua primeira manifestação e no seu impulso determinante inaugural. Iremos assistir aos seus acessos posteriores, cada vez mais ousados e "determinantes".
Por outro lado, há testemunhos dentro do Quartel do Carmo nada tranquilizadores. Um deles, o Chefe de Brigada da DGS, Diogo Albuquerque (que é quem vai buscar Marcello Caetano a casa, na madrugada do 25 de Abril), presta as seguintes declarações:
«(...)Disse-lhe que o conduziria  à 1ª Região Aérea, em Monsanto, para onde ele fora no 16 de Março e como de resto estava previsto para situações de emergência. Marcello disse-me que não queria ir para Monsanto e impôs o Carmo como destino.(...)
Fomos recebidos pelo comandante da GNR, general Adriano Pires, que estava à nossa espera. Percebi depois que Marcello Caetano lhe telefonara de casa, antes de eu lá chegar, informando-o que iria para ali. 
(...) telefonaram-lhe também os generais Kaúlza de Arriaga e Santos Costa, dizendo-lhe que tinham unidades da Força Aérea e do Exército prontas a acabar com a sublevação, mas a todas essas indicações Marcello respondia ou que não queria um banho de sangue, ou que ficassem a aguardar ordens suas. As horas foram passamdo e... nada! Marcello nunca deu ordens a ninguém para resistir ou contra-atacar.» (in Histórias Secretas da Pide/Dgs, pp.159-160)

Um outro visitante do Carmo, naquele dia histórico, o inspector Óscar Cardoso, também da DGS, confirma em pleno Sanches Osório:
«E repare que a GNR aquartelada no carmo era, só por si, uma força, um esquadrão de Cavalaria que tinha certamente autometrelhadoras e que, sem necessitar de mais ninguém, podia acabar com aquilo. O Marcello Caetano é que nunca permitiu que a PSP ou a GNR actuassem.» (idem, pp. 153

Por conseguinte, caros leitores, das duas uma: ou há de facto uma teoria da conspiração universal contra o pobre Marcello , ou há aqui qualquer coisa que não cheira lá muito bem no reino da Dinamarca. Osório argumenta que o regime estava podre; Nogueira Pinto diz que ele morre de caquexia, especialmente agravada nos últimos 6 anos. Eu, se querem a minha opinião, não perderia muito tempo com esse tipo de epitáfios. Nem, tão pouco, com as conjecturas retroactivas, por mais óbvias ou lineares que pareçam. Há, isso sim, um detalhe que sobretodos me parece indiscutível (e que, de resto, já referi num postal transacto): chamo-lhe o efeito calmante do acontecimento. Algo que funcionou como uma espécie de dardo anestesiador para todo e qualquer alarme ou reacção digna desse nome: a figura emblemática e tutelar de Spínola. Para as tropas de África, para os não golpistas da metrópole, para a própria DGS, o efeito Spínola teve resultados absolutamente relaxantes. Óscar Cardoso expressa-o liminarmente. Interrogado se a DGS ou o Governo já sabiam que ia ocorrer uma revolução a 25 de Abril",  riposta:
 «É claro que sabiam. principalmente depois do golpe das Caldas, a 16 de Março, controlámos todos os movimentos dos militares subversivos. São eles próprios que hoje o dizem. Sabe o que é que nos enganou? estávamos convencidos de que o Spínola dominava a situação. É que o Spínola ainda nos inspirava alguma confiança, não era comunista. Sabíamos que ia dar-se o 25 de Abril, o que não sabíamos é que o 25 de Abril teria o desfecho que teve...»

Para finalizar, fechemos o círculo. O coronel Viana de Lemos, lembram-se dele? Que faz ele na noite de 24 para 25 de Abril? Janta no Gambrinus com Pereira de Carvalho, o poderoso chefe da Secção Central da DGS (e, tudo o indica, toupeira dos americanos na instituição). Abílio Pires, outro DGS, que é quem informa do encontro, refere que seu superior teria ido avisá-lo, mais uma vez, das movimentações existentes. "Mas o Viana de Lemos não ligava nenhuma. Dizia sempre que, quando os militares se revoltassem, o cunhado dele - o coronel Romeiras, de Cavalaria 7 - resolvia tudo num ápice",  acrescenta.
Não parece que Viana de Lemos precisasse que o avisassem. Nem o outro estava lá, muito provavelmente, para isso. Apostaria mais num acertar de agulhas, em função de interesse e patrono comum.
O dia seguinte, vai passá-lo, o Cor. Viana de Lemos, segundo descrição do próprio, nos seguintes propósitos:
«A minha reacção, nessa noite, foi um pouco estranha: estava farto e tinha sono! Por isso, durante todo o resto da acção, limitei-me a assistir como mero espectador...» (in Duas Crises, pp.103
Pelos vistos, as sequelas africanas foram fatais. Tal como a revolução de rilhafoles mais adiante, também o regime socumbiu à doença do sono. E também à espera dum Godot/Spínola que, afinal, tendo chegado, nunca chegou.

segunda-feira, abril 13, 2015

Consultório oracular - 4. O que significa "estirpe dos antigos"?




Eu compreendo que os meus postais são longos, enfadonhos, abstrusos, tratam de assuntos que já não interessam ao menino Jesus e as pessoas têm coisas mais importantes para fazer, como ler jornais, brincar com o scanner, remendar o ego e  barrar-se de viagra para ver se as penas crescem mais depressa.
Portanto, admito perfeitamente que tresleiam apenas as notas de rodapé, a correr, e mesmo estas, desdenhando verbos e fazendo olhos de mercador às  linhas ímpares. Conforta-me também muito que me tributem links alucinados, a porejar remoques pataratas e outras frioleiras que tais. O meu contador de visitas agradece. E como isto por estas bandas é quantificado ao clique, o meu prestígio aumenta. Não tarda, ultrapasso a  Bomba Inteligente. Os meus agradecimentos!

Agora que uma expressão tão simples (que nem sequer é minha) como "estirpe dos antigos" cause um tal destrambelho só me pode encher de angústia, culpa e remorso galopante. Juro que não é minha intenção transtornar pessoas de melindre fácil e ressaibo à flor da pele. Nem por sombras! Felizmente que não lêem os postais completos, ou sequer os post-scripta inteiros, senão não sei o que seria!... Ah, mas imagino! Tornar-me-ia decerto moralmente responsável por suicídios em catadupa, internamentos no Júlio de Matos (ala dos furiosos), ou alistamentos frenéticos no exército islamico, passe a redundância. Medo à polícia não tenho, mas o inferno sempre me infunde um certo respeito, que diabo!...
Ora, se a mera leitura de uma frase minha converte um ser humano adulto (presumo, pelo menos no BI) no mais completo balhelhas, sinto-me tentado a repensar toda esta minha actividade blogosférica. A minha ideia não é propriamente causar catástrofes psíquicas ou colapsos cognitivos às pessoas. Por tudo aquilo que me é sagrado, acreditem: não é.
Haverá redenção ou remissão possível para um pecado destes? Duvido. Ainda mais não sendo eu um católico praticante, mas apenas cultural (imaginem o que era eu, que só com uma frase escrita transporto crentes ao estado de asnolexia compulsiva, a debitar parágrafos inteiros, no confessionário, ao senhor prior...No mínimo, irrompia para ali, o incauto, em derivações horripilantes, mais próprias do filme  "O exorcista" do que da casa de Deus. 
Não obstante, haja ou não haja perdão, devém-me imperativo de consciência, no mínimo, tentar atenuar o mal cometido. Só espero que não seja tarde demais e que a delicantropia tenha retrocesso, ou até, por milagre da Senhora de Fátima (nunca devemos perder a fé!), cura.
Passo então a explicar o que significa "estirpe dos antigos".
Como a expressão é do Dr. Oliveira Salazar, quando refere, com mágua, que "pensava que Vassalo e Silva era da estirpe dos antigos" queria exprimir, atrevo-me a certificar, uma coisa muito simples, clara e que hoje já não se compreende porque caíu completamente em desuso: pensava que ele os tinha no sítio. Sim, os tinha - aos tomates, aos testículos, aos colhões, enfim, essa coisa que era atributo essencial dos antigos e um estorvo total para os actuais.
E quando eu referi que essa estirpe antiga era a dele, Salazar, também queria significar esse fenómeno óbvio: que ele também os tinha no sítio. No que deu provas bastantes, e,  geralmente, quem duvida disto é porque os não tem. No sítio. E apostrofa  de realismo fantástico a mera hipótese de os ter. Estão a acompanhar-me?... Penso que estou a ser clarinho e pedagógico como água. Dispensam-se, pois, de todo, exoterismos rurais de engenheiro Sousa Veloso ou transvisões bucólicas de Dr Sousa Martins.

Entretanto, Vassalo e Silva, nas palavras de Salazar, era um simples; um tipo que gostava de passar a vida a indicar como se faziam telhados. Este José, em deriva simplória, bem jeito lhe dava que o  Vassalo e Silva, em vez de lhe pilotar a alma, lhe projectasse algum tipo de cobertura prá cabeça. 

Ainda a propósito, outra coisa fundamental que distinguia Salazar do nosso José Destelhado é que, segundo descoberta recente deste, no seu curso rápido de Salazar-na-Braza (e correu a transmitir-nos, com eurekas), Salazar tinha pavor do ridículo. Pois, e por isso era um cobarde. Claro, já se vê, tinha medo do ridículo. Já ele, o J,  é um indómito - do ridículo não tem medo nenhum!. Pelo contrário, tem paixão. Refocila nele com volúpia... e frenesim. Exibicionistas.




domingo, abril 12, 2015

Acromiomancia revisitada - XVII. Da Reivindicação à Revolução




Ao ler as peripécias e tropelias do Movimento dos Capitães contadas pelos próprios, um tipo fico com a clara impressão de estar a assistir a uma hibridação de recreio infantil com pátio de manicómio. Uma primeira inferência possível é que esta gente, por um lado, estava viciada institucionalmente na puericultura fardada (colégios, cacademias, casernas, messes mantinham-nos submersos numa espécie de realidade paralela e hermética);e  por outro, que aquela coisa terrível que os apoquentava, lhes feria a delicada sensibilidade e para a qual não se tinham inscrito, a guerra enfim, tinha-lhes dado a volta ao miolo.
Todavia, sempre suspeitei que por detrás de toda e qualquer loucura há um método. Ou um doido mais doido que os outros que se arvora em Guia lógico do asilo.
Ora, no Movimento dos Capitães acontecem alguns fenómenos curiosos. O primeiro de todos, é a resma de não-capitães - majores, tenentes-coroneis, sobretudo - que coalescem e aparecem depois em espécie de tutoria dos catraios. E o segundo é o próprio móbil do movimento. Numa primeira instância é puramente corporativo e sindicante, como já vimos e escalpelizamos. Estão chateados com o decreto e acham que os espúrios atentam contra o "prestígio" das Forças Armadas (entenda-se, o exército). Mas há um momento em que esse pretexto adquire outros contornos mais desvairados e monomaníacos. Esse momento coincide exactamente na transformação da Reivindicação em...Revolução.

Reunião do MFA, em S.Pedro do Estoril, sábado, dia 24 de Novembro de 1973....

«Soava a voz bem timbrada do major Vitor Alves, coadjuvado pelo major Hugo dos Santos nos assuntos que mais directamente lhes estavam ligados, enquanto o capítão Vasco Lourenço secretariava com anotações e apontamentos de tudo.
Era impressionante o espírito de organização desta gente.
(...)
Por fim, lá veio o momento azado para o tenente-coronel [Luís Ataíde Banazol]:
           (Discurso do Ten.Cor. Luís Ataíde Banazol):
«Meus caros camaradas, eu creio que vocês estão a perder o que têm de bom: energia e tempo, organização e vontade.
Estão a esgotar-se com um assunto que não vale a pena. Decididamente não vale a pena.
O problema que vocês julgam que está no âmago disto tudo não vale um pataco, e vai contra os nossos camaradas milicianos.
Eles também têm as suas razzões, e não será pelo facto de vocês conseguirem levar a melhor, que tudo ficará resolvido. pelo contrário, cada dia que passa, tudo se agrava.
E isto não é por uma questão de galões. O que vocês estão e todos nós, é agonizantes; simplesmente agonizantes. Estrangulados por um regime que nos conduz directamente para o abismo, para a derrocada, aliás como o têm feito todos os regimes fascistas, nomeadamente os de Hitler e Mussolini.
Todo o mundo olha para nós, oficiais do quadro permanente, como verdadeiros agentes do nazismo. Agentes das S.S.
E não podemos de forma alguma evitar essa execranda imagem, se não tomarmos a iniciativa de uma reabilitação, uma redenção aos olhos do nosso povo e dos outros povos do mundo, utilizando a nossa força para derrubar o governo.
Tenho ouvido falar, insistentemente, no abalado prestígio dos oficiais. Pois que esperam voc~es daqueles, cujos filhos, irmãos e noivos são enquadrados por nós, para as guerras de África, donde poderão refressar mutilados, loucos ou mortos?
Que crimes estamos todos a cometer em nome da Voz do Dono?
É preciso que acordemos do pesadelo; é preciso acabarmos de vez com a maldita guerra colonial, que nos consome tudo, incluindo a própria dignidade de militares profissionais de um país civilizado.
Todas as nossas angústias, ansiedades e neuroses se situam na tragédia para que fomos e estamos a ser lançados, por um tenebroso conluio, que tem a hipocrisia por fachada e o assassínio por norma.
E nós, que representamos a força das armas, por que esperamos?
E nós, que vemos todos os dias esses exemplos de coragem dos moços universitários?
Desarmados, enfrentam a polícia de choque, e não deixam amortecer um só dia, a luta pela liberdade.
E nós, homens de armas?
É uma vergonha. Devemo-nos sentir envergonhados. É bem feito que nos humilhem e nos olhem com rancor. Somos a armadura da bestialidade e o bastião da brutalidade.
Não tenhamos ilusões: o governo só sai a tiro, e os únicos capazes de o fazer sair somos nós; mais ninguém.
Se o não fizermos, a História nos julgará, como julgou os abencerragens de Hitler.
Não devemos consentir que isso aconteça, e que os vossos filhos e os meus netos se tenham de envergonhar de nós.
Impõe-se a Revolução Armada desde já, seja qual for o seu preço e as suas consequências

Ecoou uma salva de palmas, como se se tratasse de um comício e não de uma reunião clandestina.
Depois, estabeleceu-se certa excitação, com trocas de impressões de uns para os outros. Entusiasmo efervescente, olhos a brilhar, torrentes de palavras em surdina. (...)
Chamada do primeiro inscrito para falar. Não se está certo de quem fosse. Tinha uma figura vulgar: baixo, cabelo muito curto, casaco largo que lhe pendia dos ombros.
Levantou-se, com ar um tanto empolgado por leve tremor dos lábios. Rendeu calorosa homenagem ao desassombro e à verdade das palavras que acabara de ouvir. Que trazia ali, por escrito, as opiniões dos camaradas que representava, sobre os assuntos constantes da ordem do dia, mas achava que, em presença do acontecido naquela sessão, essas respostas estavam ultrapassadas por completo.
Que agora, a resposta era só uma palavra: Revolução.
Mais aplausos.
Depois outro, no mesmo tom.
Depois outro que divagou sobre a angústia e inquietação colectiva que se revelava em todas as conversas nas salas de oficiais, a toda a hora. Eis que ali encontrou a resposta cabal: Revolução
- Diniz de Almeida,  Origens e Evolução do Movimento dos Capitães.

O relato de Sanches Osório confirma o de Diniz de Almeida:
«Ao fim e ao cabo, nesse plenário de Cascais foi decidido que a Comissão refundisse o programa, que não podíamos continuar com reuniões tão amplas e que o Poder tinha de ser tomado pela força (afinal a tese do Ten.Cor. Banazol). Assim, o plenário deu poderes à Comissão Coordenadora para nomear uma Comissão articulada numa parte militar e outra política, as quais fariam respectivamente o planeamento militar da Revolução e o Programa político.»   (in, O Equívoco do 25 de Abril, pp.25)
Entretanto, a 1 de Dezembro de 1973, nova reunião conspirativa, desta vez em Óbidos.
 «Presidiam-na Vasco Lourenço, Vitor Alves, Hugo dos Santos e Lopes Pires.
Dois pontos essenciais preenchiam a agenda. Para além do estafado ponto da situação, tão estafado quanto necessário, estava previsto submeter à votação as seguintes alíneas:
a) Quem é pela revolução imediata;
b) Quem é pela revoluçãoi após um prazo mais ou menos longo de preparação e aliciamento;
c) Quem é pela revolução com último recurso, depois de esgotados todos os meios de negociação com o actual governo »
- Diniz de Almeida,  in "Origens e Evolução do Movimento dos Capitães", pp216

Na reunião de Óbidos, Diniz de Almeida perora, advogando a revolução imediata. O seu mentor, Ten. Cor. Banazol, qual Trotski resfolgante, vai mais longe e apresenta, de chofre, um programa imediato de dissolução do governo, Presidência e Assembleia nacional.  Onde prescrevia qualquer coisa como:
     « PROCLAMAÇÃO AO PAÍS - JUNTA MILITAR DE SALVAÇÃO NACIONAL
    - Por imperativo da consciência da esmagadora maioria dos oficiais das Forças Armadas, à frente dos seus homens e prontos a fazer uso da Força, exigem:
- Demissão inediata do Presidente da República e de todod o Governo.
- Dissolução da Assembleia Nacional.
- Dissolução de todas as autoridaes polítricas.
Para evitar a efusão de sangue estabelecem que sejam abandonadas as instalações da Presidência da República e do Governo, por todos os actuais ocupantes  e guardas armados, até às 17 horas de HOJE.
Findo este prazo, as Forças Armadas executarão a ocupação dos edifícios a todo o custo e em quaqleur momento, com todos os meios ao seu dispor.
- São constituídas Juntas Militares de Salvação Nacional em:
Lisboa, Porto, Coimbra, Tomar, Évora, Bissau, Luanda, LOurenço Marques, Nampula.
 etc, etc(...)»

O "Programa" do Ten. Cor. Banazol era de tal modo desenfreado que apenas recebeu apoio dos indefectíveis, gerando censura por parte da maioria. Nas palavras do seu acólito Diniz, "ficou desde aí injustamente marginalizado por louco ou incapaz" ( a revolução começava assim por petiscar o seu próprio gatilho)... Não obstante, a semente estava lançada e iria florir meses adiante. Nessa animada reunião, acabou por ganhar, por margem mínima, a alínea c) (ver supra). Não sem que antes Banazol interviesse novamente, num assomo feroz de gana revolucionária:
  «Meus camaradas, eu sei que por esse processo de comissões para aqui, comissões para ali, nunca mais se chega ao fim e entretanto este vosso amigo vai com a trouxa às costas para a costa de África pela quinta vez. Com a devida vénia, não vou nisso. E sem desprimor para ninguém, participo-lhes que vou fazer o seguinte: no dia D, juntamente com a Artilharia de Évora e de Vendas Novas, cujos capitães estão todos comigo, ocupamos Évora, Montemor, Vendas Novas e Pegões. Interditamos assim uma fatia que parte o país em dois, enquanto fechamos as saídas de Lisboa para o Sul.
Constituímos em Évora ema Junta de Salvação Nacional, dufundimos panfletos, fazemos conferências de imprensa e aguentaremos o tempo necessário até sermos seguidos por vocês e por outros.
O Presidente, o Governo, a Assembleia, tudo isso há-de sair como peras podres abanadas pelo vento.»
Em resumo, o Ten-Cor. Banazol ardia em ímpetos bélicos para se atirar ao seu próprio Governo, e estremecia de repugnância visceral à perspectiva de voltar a África para combater o Inimigo. Esta sua derradeira alocução causou algum tumulto, conforme anota Diniz de Almeida:.
«Calma, vociferam uns perante o olhar atento de outros.
Levanta-se excitado o alferes Bargão e continua inflamado, mais jovem, as palavras de Banazol. Este, radiante, pois fizera-se ouvir, constata o eco e dá-se por satisfeito.» 
Assim, de repente, tudo isto me lembra "Os Demónios", de Dostoievski. O jovem alferes Bargão semelha aquelas figuras transtornadas e demenciabundas como a aluno de liceu ou a estudanta. Todas estas assembleias parecem reposições serôdias do serão cultural em casa de Chigalev. O corolário, então, é sumptuoso (nas palavras de Diniz de Almeida):
«Felizmente, no fim da reunião um excelente chouriço assado esperava por nós; também nas castanhas, se conjugavam desta feita, os esforços dos participantes.»


Vamos ao rescaldo.
O que significava "revolução" para aquelas alminhas?
Marxismo-leninismo aos molhos, maoismo de alguidar, jacobinite ao retardador?
É claro que havia por ali influências, geralmente pacóvias, de tudo isso. Mas a essência não era essa. Qual era então? Pura e simplesmente acabar com a guerra. Ora,  a única forma de acabar com a guerra era acabar com o regime. Ou seja, demolir a ordem que obrigava à guerra. Se o país fosse por arrasto, paciência.  Porque a guerra não era apenas com os terroristas, vulgo Movimentos de Libertação, mas com as tais "entidades internacionais" de serviço ao fole da história de conveniência. Repare-se que não é por acaso que o visionário Banazol colocava os militares sob alçada dos mesmos tribunais internacionais que os (nos seus termos propagandísticos) "abencerragens de Hitler. É que no plano internacional, on inimigos de Portugal eram, sobremaneira, e para aquela questão específica (do Ultramar), a Inglaterra, os Estados Unidos e a União Soviética, ou sejam, os aliados da 2ª Guerra. No fundo, os militares portugueses, segundo este erudito paranormal, estariam ao serviço do último resquício do "fascismo derrotado"  em 1945. Esta fantasia política não era nova: logo após a 2ª Guerra tinha sido muito explorada pelas forças anti-regime. Continuara latente e emergira no 13 de Março de 1961, em termos atenuados de mera inversão da política ultramarina, de modo a adequá-la ao gosto da época. Aos militares revolucionados pela arenga Banazólica cumpria, assim, concluir o trabalho inacabado das potências aliadas, varrendo aquele quisto anacrónico da história.
Agora, dir-me-ão os leitores, "sim,  mas essa tese descabelada não granjeou o apoio da maioria."
Pois, caros leitores, apontais muito bem. Mas, como bem sabeis, as revoluções nunca foram feitas por maiorias. O que, de resto, logo na página seguinte, o próprio Diniz de Almeida assinala::
«A consciencialização política, ia lentamente ganhando forma, acessível embora apenas, a uma reduzida minoria. A diferença de mentalidades entre a minoria vencedora do 25 de Abril e a maior parte do Exército havia de se agravar não só com o recalcamento decorrente da sua não-participação no movimento, mas também fruto dos inevitáveis pruridos que sempre surgem nestas circunstâncias.» (in Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, pp.221)
       
A minoria vencedora, sabemo-lo hoje, prosseguiria a sua gesta solapante, até à debandada colonial estar concluída em tempo record. Esta, a debandada, em 1976, ao Ten. Cor. Banazol, no seu livro "Os Capitães  generais e os capitães políticos" (pp.108), mereceria o seguinte comentário:
«A descolonização como está à vista foi uma hecatombe. E fez milhares de vítimas, pois fez. (...)
Estes finais são sempre apocalípticos, infelizmente, mas ninguém é capaz de travar o passo à marcha da Humanidade. Quanto mais se pretender travar, pior.
Por isso se começou por dizer que as personalidades, isto é, os homens em si, pouco ou nada podem contra a corrente dos acontecimentos históricos de tal envergadura.»

Curiosamente, esta perspectiva destravada (que triunfou, por muito que nos custe) aparece hoje repetida e papagueada por zombis mentais que, em tese, mas apenas por efeito de cuspo, se arvoram nos antípodas do Trotski de Abril. A justificação para a mesma reside no simples caso  do seu êxito eventual, tal qual ficou vertido - e gravado - para a posteridade num dos mais belos aforismos do nosso tempo, pela cantora Ágata: "sou pimba, mas tenho um mercedes!" 

Acromiomancia revisitada - XVI. Puros contra Espúrios




«Mas o governo aqui tem uma culpa gravíssima, uma responsabilidade histórica: a de não ter substituído a tempo o general Vassalo e Silva, reconhecendo que não estava à altura dos seus antepassados, um Albuquerque, um D.João de Castro (...) O ministério do Ultramar devia ter visto isso, e o ministério do Exército devia ter avisado o Ultramar. Com meses de antecedência soubemos que ia Goa ser invadida. Tivemos imenso tempo para substituir aquele homem, e mandar para Goa alguém que soubesse bater-se e morrer se necessário. Assim foi uma desgraça, e o Vassalo e Silva cometeu um crime histórico. Quando mandei o telegrama impondo o sacrifício supremo, pensei que me dirigia a um homem da estirpe dos antigos. Mas não, era um simples, um tipo que gostava de passar a vida a indicar como se faziam telhados.(...) Mas que quer o senhor? A Defesa escolhe os nossos guerreiros pela escala de antiguidade, como se fazer a guerra fosse uma simples actividade burocrática ou académica! Assim nada feito. E eu estou convencido de que se as nossas tropas tivesses resistido oito ou dez dias, ainda hoje tínhamos Goa.»
- A.O. Salazar (a Franco Nogueira, em 13 de Abril de 1968)

A verdade é que Salazar não estava a fazer apenas um diagnóstico para a queda do Ultramar passado, mas a enunciar também um prognóstico para o colapso do Ultramar futuro. O mesmo espírito burocrático, funcioneiro e "académico" haveria de ocasionar o descalabro geral meia dúzia de anos adiante.

Surpeendemo-lo, na sua génese, em pleno outono de 1973...

Após os decretos 353/73 e 409/73, a oficialagem do Quadro Permanente começa a comichar-se.  Do múrmurio, rapidamente passa-se à rosnadela sindicativa, traduzida na emissão de papéis indignados perante as instâncias superiores. Note-se que não se trata de ruído meramente conspirativo, mas de protestos abertos cujo intuito é dar notícia ao Estado-Maior e, sobretudo, ao governo. Em Outubro de 1973, o "Projecto de Refutação da Circular Nº 490/S de 14 de Setembro da Repartição de Oficiais", refere, entre outras pérolas reivindicativas:

«Pague-se aos capitães que arriscam a vida para que sigam para a frente os projectos de Cabora Bassa ou a exploração das minas da Diamang AO MENOS METADE do que ganha um engenheiro dessas obras ou minas (...) utópico é querer galinha gorda por pouco dinheiro...

(...)

O País está a sacrificar os seus militares, mas não os seus advogados, os seus banqueiros, os seus engenheiros, os seus industriais, etc. Porquê e com base em que sistema de moral este sacrifício exclusivo de um grupo profissional de cidadãos?»


Ao ler isto, comecei por embarcar na lógica da coisa. Mas depois, ao tentar ajustar a justiça à lógica, a peça não batia com o molde. Então um militar, ainda mais em tempo de guerra, era um funcionário público equiparável aos outros? Sendo que, para cúmulo, fazia-se até uma equiparação a profissionais que, na grande maioria, nem sequer eram funcionários públicos, mas privados. Bem, se queriam ganhar como os engenheiros, tinham bom remédio: saíam da tropa, matriculavam-se no Técnico e, concluído o curso, candidatavam-se a um emprego mais bem pago. Juntavam o útil ao agradável: ganhavam mais e arriscavam menos.Aliás, ainda hoje é assim que fazem os pilotos da força aérea, quando a gula mercenária os invade: saem da aviação militar e vão trabalhar para a aviação civil.
Subitamente, acode-me até à mente aquela frase perturbadora do sono nas aulas de Ética doutros tempos: "Um homem não é uma puta". E um guerreiro a discutir tarifas, não só emula a rameira, como descamba em mercenário. Há qualquer coisa de obsceno neste tipo de reinvindicação. É como um padre a reclamar à Igreja por não usufruir de esposa e amantes como qualquer gerente comercial...
Entretanto, estes mesmos oficiais dispunham de termos de comparação dentro da sua própria instituição, que, bem vistas as coisas, poderiam queixar-se em relação a eles do mesmo, ou pior, que eles se lastimavam em relação a engenheiros, advogados, financeiros e etc. De facto, os oficiais milicianos, auferiam de muito menos privilégios e arriscavam muito mais, pois a maior parte das acções de combate, como está hoje demonstrado, era desempenhada por eles. 
Ora, isso mesmo, preto no branco, apareceu um belo dia manifesto num documento que circulou nas  fileiras, entre 24 e 28 de Novembro de 1973...

                Camarada Oficial Miliciano

1. Já viste quantos oficiais do Q.P. estão contigo na guerra, mas na guerra de facto: no DURO, nas MATAS, nas PICADAS?
 Conta-os e faz a percentagem em referência aos oficiais milicianos.
Se não tiveres dados pergunta aos teus amigos que por lá se batem.
2. Já pensaste que te são exigidas as mesmas responsabilidades enquanto estás nas fileiras?... Sujeiro ao RDM, Código de Justiça Militar, ect, etc?
3. Já te apercebeste, no entanto, que não tens a totalidade dos direitos dos oficiais do Q.P? Que és considerado, apenas, como um adventício inoportuno mas necessário que é necessário explorar para os outros folgarem mais e treparem?
4. Mas não é tudo camarada miliciano.
Se acaso sentires vocação para continuar nas fileiras e desejares ingresar na Academia Militar, ainda que sejas louvado e condecorado como um oficial extraordinário, sabes qual a reacção de grande parte dos oficiais do QP?
Nós esclarecemos-te, que estamos cá dentro e somos do Q.P. oriundos de milicianos:
  a) O que aprendeste como miliciano não conta. Só serviu para irers para a guerra e colocares-te na alçada do RDM e CJM.
b) O ponto de referência para a tua antiguidade é apenas a data de saída da Academia.
c) Podes já ser capitão, tenente ou alferes com vários anos de serviço. Entras, contudo, na Academia e ficas à esquerda de rapazes que têm apenas o sétimo ano liceal e nem sequer sabem se têm vocação militar.
(...)
6. Sabes que saíram dos Decretos ainda não executados, dos quais um,  ajustando o primeiro, pretende que seja contado como prestdo no Q.P. para efeitos de antiguidade, o tempo de serviço efectivo de miliciano?
7. Sabes que uma parte dos oficiais do Q.P. imediatamente se insurgiu quanto à sua execução ainda que os mesmos venham a ser ajustados, para não haver prejuízos?...
8. Sabes que querem a derrogação total dos mesmos porque pensam que se vieres para a Academia te será contada a antiguidade de miliciano?
9. Sabes que para arranjarem partidários derivaram para motivações que nada têm que a ver com esta parte dos Decretos no que se refere a antiguidades?
Quer referindo que o oficial ganha pouco, que não tem prestígio, que a guerra é para todos, que um novo curso da Academia Militar a ser criado é desprestigiante, etc, etc, o que pretendem, na essência, é que te seja negado agora esse direito de antiguidade de miliciano.
10. Já pensaste que nunca reagiram ao ganhar pouco, ou a outros requisitos importantes, senão quando saiu um Decreto que te reconhece valor como miliciano
11. Sabes o que circula nos bastidores?... Que alguns oficiais do Q.P. oriundos de cadetes pensava engavetar os outros oficiais do Q.P. e milicianos que não pensassem como eles para pressionarem depois o governo com vista a te não ser dado o direito de que falei.
12. Sabes que um comandante pensava, num fim de semana, mandar-te para casa e ficar com outros oficiais para tentar fazer um pronunciamento militar?...
Conquanto tenhamos dúvidas que o conseguisse  porquanto as unidades só quase têm sargentos e oficiais milicianos, vê tu a que ponto vai o maquiavelismo!...»

Os dois trechos acima, estou em crer, são extremamente elucidativos, e o segundo, em boa medida, ajuda a esclarecer o primeiro.
Ressalta, logo à partida, uma circunstância fundamental para o entendimento do que se seguiria: a grande heterogeneidade nas Forças Armada (especialmente no Exército). Esta heterogeneidade constituía um dos grandes perigos (e, em bom rigor, aquele donde germinou a dinâmica do futuro golpe) de fragmentação, convulsão e clima de rixa doméstica nas próprias fileiras. Ora, um exército numa guerra (ainda por cima contra-subversiva, ou seja, uma guerra interna, que se processa dentro das fronteiras do território nacional) que, a certa altura, entre em guerra civil consigo mesmo, resulta, invariavelmente, em desastre. O que, de resto, embora assertivo e verdadeiro, não deixa de ser anedótico por paradoxal:  miliatres que se envolvem em guerra civil.
Por outro lado, a questão da mentalidade dominante entre os militares - precisamente aquela descrita por Salazar na citação em epígrafe... É mais que evidente que estava longe de ser a ideal: O espírito de funcionarite aconchegada sobrepunha-se, despoticamente, ao espírito de missão ou à vocação guerreira. Aliás, para os militares profissionais, produto do aviário académico,  na sua grande maioria, a guerra era uma chatice, uma carga de trabalhos e, se em tempo de paz o ordenado era jeitoso e o ripanço garantido, já em teatro de guerra, não compensava, nem direi tanto o risco, mas o sobressalto familiar e o incómodo das deslocações. Tratando-se, ainda para cúmulo, duma guerra que, por sua natureza, seria sempre uma guerra prolongada, o enfado e o desconforto tornavam-se crescentes, senão mesmo insuportáveis.
Está bem que de tenente para cima, exceptuando as tropas especiais, os oficiais já não padeciam tantas agruras no mato (nas especiais, os capitães também iam, em se tratando de operações do nível de Companhia). Mas, mesmo assim, era muito duro para as esposas, de pele sensível e tremela fogosa.. Havia demasiados mosquitos (algumas chegavam a apanhar malária), baratas exorbitantes e um calor gorduroso, enquanto penavam pasmaceiras tropicais, longe do esplendor  socialite da Lisboa cosmopolita em desabroche pantalhoso . Nada que se comparasse, por exemplo, às comissões de serviço nos Estados Unidos (para afazeres da NATO) ou os adidos militares das capitais europeias (aí sim, que vida!...)
Teria sido possível desarmadilhar estes problemas?
O facto é que o país não dispunha de orçamento que permitisse pagar grandes salários à função pública (o contrário disso vimo-lo depois e gerou três bancarrotas). Apesar de tudo, a classe militar usufruía de alguns privilégios específicos. Os milicianos, por seu turno, funcionaram como ovo de Colombo para garantir uma "guerra barata". Eram uma espécie de precários avant-la-lettre: cumpriam todos os deveres, mas com menos direitos, garantias e encargos  para a Fazenda. Se pensarmos que os oficiais mais condecorados do exército português (e não estou a falar apenas de Cruzes de Guerra de 1ª classe, mas de Torre Espadas) foram, na maior parte, oficiais milicianos, por feitos em combate (o Marcelino da Mata, que é o mais condecorado de todos, além de miliciano, é preto retinto),  teremos que concordar que não foi por falta de eficácia ou carência de mão de obra que desbaratámos o empreendimento
Porém, numa classe de oficiais que se dividia, por sua vez, em três categorias distintas - os do Quadro Permanente, os do Quadro Especial e os do Quadro Complementar -, as tensões estavam sempre lá, latentes. O prolongar da guerra traria sempre desgaste, erosão, tendência para que o latente sobreviesse à superfície. Faltava apenas a ignição, para que o processo combustivo se desencadeasse.  O facto do 25 de Abril ter sido orquestrado, confeccionado e perpetrado na Metrópole, no espaço de menos de uma ano, diz tudo daqueles que o consumaram. Não foram companhias ou batalhões operacionais: foram escolas práticas, de fedelhos que mal sabiam ainda usar as armas, enquadrados por ressabiados corporativos, excitados por  alucinados ideológicos,  - adolescentes inveterados e perpétuos todos eles! -, que vieram, mais como necrófagos oportunistas do que como soldados, ao odor dum governo finado por morte anímica do seu líder principal.
Significa também que a moda da reforma por decreto (que se tornaria posteriormente endémica até aos dias de hoje), iniciava a sua saga trágica. E catastrófica. Sendo, em larga medida, justa, a lei (a tal 353/73) atentava todavia contra a regra instalada. Ora, ao contrário da regra que, por longa sedimentação,  tende a conciliar e amortecer tensões, a lei, pela violência da sua própria imposição súbita,  provoca roturas e desiquilíbrios que, no vertente caso e no fim do dia, acarretaram nenhum bem. Acabando com a guerra, os puros acabaram, providencialmente, com todas as veleidades dos espúrios. Mais concretamente ainda: de modo a desmantelar o espírito guerreiro que ameaçava o seu empório exclusivo e a sua mordomia soberana, o activismo académico/burocrático (na terminologia do próprio Salazar), acabou com a guerra. E descolonizou quase instantaneamente, por via das dúvidas ou remorsos.
Tendo ateado inadvertidamente o fogo, sabendo que a seara estava a arder, porque é que o regime não tomou medidas?
Seriam possíceis medidas eficazes, depois de accionada a engrenagem amotinadeira?
Escutemos um dos oficiais do MFA, desde a primeira hora (embora não-comunista nem socialista), Sanches Osório:
«Dadas estas circunstâncias [depois da Intentona das Caldas], o governo deu ordens para se constituir uma comissão dentro do Estado Maior do Exército a fim de refazer os planos de defesa no caso de uma revolta militar.» (in, O Equívoco do 25 de Abril, pp 36)

Pois, caros leitores, o governo nomeou uma Comissão... Onde é que eu já vi isto? Lembra-vos alguma coisa, tempo, ou regime?  Seria, quiçá, uma Comissão para combater a comichão dos Puros mais exaltados e lexofóbicos. Seria este expediente operativo o mais indicado para resolver certos fenómenos de superlativa gravidade, como seja uma ameaça séria à propria sobrevivência do governo?  Sanches Osório, logo de seguida, não é particularmente animador:
«Pela presença do Ten. Cor. Costa Brás na Comissão e pelo facto de eu e o Major Vitor Alves trabalharmos no Estado Maior, havia perfeito conhecimento dos planos do governo.» (idem)
 E quanto a uma das fórmulas possíveis para contrariar o tal MFA em curso, parece que não requeria qualquer lirismo, esoterismo ou especial carga quixotesca (como julgo que, desde logo, me seria rosnado, caso eu apresentasse alguma ideia, das várias que, tecnicamente e por estudo profissional, conheço). 
«Todas aquelas comissões e reuniões [do MFA] começaram a gastar tempo demais pelo que, a certa altura, um grupo de oficiais no qual eu me incluía começou a insistir para actuarmos rapidamente antes que o Governo desmantelasse o Movimento, o que lhe teria sido extremamente fácil. Um simples problema burocrático de transferências e trocas de oficiais para locais distantes teria desorganizado todos os contactos.» (ibidem, pp29)

Pois, vêem? Tinha sido até simples. Mandá-los por exemplo para os Estados Unidos, tirarem cursos na Nato; ou para adidos na Europa, Austrália ou Cochichina... Mandá-los, enfim, para o estrangeiro, o mais longe possível, já que remetê-los à matriz materna, embora justo, seria impraticável.

Deus teve piedade de Salazar. Poupou-o de assistir ao 25 de Abril. Entendeu, lá no Seu Soberano critério, que um Vassalo e Silva já lhe tinha sido penitência bastante. E, curiosamente, ou nem tanto, Salazar concordava comigo (ou eu aprendi onde ele aprendeu), que, a limite, tudo dependia do homem que estava à frente da coisa. Porque sobretudo diante do mostrengo, que a própria alma teme, manda a vontade que ata ao leme. É que o exemplo vem de Cima.... Não depende todo o universo apenas de Um?..


PS: Aquela expressão de Salazar "a estirpe dos antigos" não faz muito sentido (nenhum, aliás) para certa gente de hoje. Para Salazar fazia. Por uma razão muito simples: era a estirpe dele. 

sábado, abril 11, 2015

Um Imenso Portugal





Um génio da música, de insuspeita ideologia, a cantar uma verdade do tamanho do céu: nós, portugueses, somos inconfináveis. Viemos apenas descansar um pouco na sepultura. Dormir uma sesta. Enquanto houver mar... Quando Deus quiser, e o sonho nos acordar, a Obra acontecerá.

quinta-feira, abril 09, 2015

Acromiomancia Revisitada - XV. Escola de Borregos




«Os cravos do 25 de Abril, que muitos, candidamente, tomaram por símbolo de uma Primavera, fanaram-se sobre um monte de esterco.»
- António José Saraiva


A pré-história deste contagioso movimento - o borreguismo - remonta ao Infante D.Pedro, uma ejaculação infeliz dum rei inglório. Despejo, esse, mais tarde transformado em catástrofe, mediante  a nomeação do aborto ambulante para  príncipe Regente do Brasil.  Imbuído -melhor dizendo, toldado pela vesânia da espécie, em vez de reger em nome de Portugal, como lhe competia, improvisou fazer do Brasil o seu próprio Império. Primeiro traço característico do borregante: uma desmesura narcísica típica das adolescências estagnadas e hipertofiadas. Donde borbota um ego alçado a estrela orientadora do universo. Ao mesmo tempo, ressalta o expediente motriz da tara: a borreguice transparece sempre mascarada de adesão. Em vez de defender os interesses de Portugal, o Infante adere ao espasmos do  Brasil.
Vamos reencontrar estes exactos sinais perfeitamente geminados e replicados nos  capitães do MFA, século e meio adiante. Enviados a África para combater o terrorismo mascarado de movimentos de libertação, que fazem eles? Não apenas se furtam de combatê-lo, como, em conjura torpe, se transformam, eles próprios, num "movimento de libertação" terrorista, derrubando o seu próprio governo, traindo o seu próprio povo e entregando metrópole junto com colónias ao neo-colonialismo de arribação. 
Mas tornemos à ordem cronológica.
O segundo episódio ocorre por  alturas da implantação da república - embora "transplantação" seja o termo mais indicado para definir a peripécia. Não só os defensores da Monarquia, em número superior ao desejável, borregam melancolicamente, como uma das figuras de proa dos revolucionários, o Almirante Reis, auto-acagaçado por crença súbita em ventania adversa (e também pela sua bipolaridade), dispara sobre si próprio, borregando, assim, com fragor anedótico. Ainda hoje, uma das maiores e mais emblemáticas avenidas de Lisboa homenageia esse feito de armas (só equiparável, em matéria de lucro colectivo, ao tiro como que o doente mental  do hospital de Rilhafoles, naquele mesmo dia, abateu o preclaro Dr. Miguel Bombarda, baluarte civil da golpada). Na verdade, ainda hoje, a história se interroga como é que, depois da grande maioria dos militares contratados com a conjura ter borregado, foi possível o triunfo peregrino do bananal republicoiso. Mas enquanto ela assim se entrega à reflexão, avancemos para o episódio inaugural propriamente dito.
De facto, o borregguismo fulminante  (e fulgurante) principia, de pleno direito,  com a queda da Índia Portuguesa, em 1961. Fiados na desproporção brutal de forças a seu favor, os Indianos roncam e ameaçam às portas de Goa. Salazar, como era seu péssimo hábito contra-cultural, não borrega. Mais: ordena que ninguém borregue, é preciso ganhar tempo (pobre ingénuo!). Ao mesmo tempo, tenta negociar com os chineses: reconhecimento internacional da República Popular da China e concessão de base no território português da Índia a troco de pressão da grossa sobre os indianos. Jogo arriscado mas audaz: caso os chineses aceitem, os americanos, para obstar, terão que intervir e garantir, por seu lado, veto ao atropelo iminente. Salazar envia um telegrama dramático a Vassalo da Silva onde expõe, com crueza e clareza, a necessidade imperiosa que há em ganhar tempo. Não se trata de combater até à morte, trata-se de combater o mais possível, de modo a demorar o desenlace, permitindo, em esforço contra-relógio,  o resgate diplomático. Mas ordenar que não borregue a um tipo chamado Vassalo é como pedir a um tetraplégico que corra,  ou a um impotente mental que conceba. Na hora da invasão, o borreganço, com a honrosa excepção de Damão e meia dúzia de bravos, foi quase geral. 
Mas um borrego, como qualquer outro (ani)mal, nunca vem só, Nova eclosão apoteótica acontece em 25 de Abril de 1974. Enventualmente contaminado pelo exemplo fascinante de Vassalo, Marcello borrega com todas as suas forças, arrastando consigo um regime desprevenido e vários povos avulsos.  Se em matéria de micção, um português arrasta dois ou três, em se tratando de borregar, pior um pouco: um arrasta quatro ou cinco...milhões.
Parcos meses depois, é o próprio Spínola que borrega com idêntica gulodice.  Zonzo e azucrinado por meses na presidência dum hospício a céu aberto e no descomando esquizofrénico de tropa fandanga em digressão carnavalesca, não resiste à vertigem e bate com a porta. Para logo mais adiante, de monóculo entre pernas, saltar a fronteira, indo borregar pró estrangeiro.
Entretanto, no próprio batalhão de Comandos, na Amadora, a maleita manifesta-se.  Confrontado por uma maioria momentânea de oficiais em ímpetos saneadores, também Jaime Neves  (custa-me até dizer isto...) borrega. É verdade, borrega, tacticamente. Vários graduados pouco entusiastas com a revolução são saneados. Jaime Neves, irritado, condescende; e aguarda por melhores dias. Que virão, é um facto; embora tarde de mais no que concerne ao essencial. E novamente Jaime Neves semi-borregará. Quando não levar a missão até ao fim.
Dir-se-ia que as forças revolucinhárias, após tão amplas, fortuitas e numerosas conquistas, tinham a parada ganha, mais a faca e o queijo. Seria menosprezar estultamente a vertigem borreguista que assola, desde a medula  até à raiz dos cabelos, o burgesso portugalinhóide. Fantasie-se ele em que banda ou bando for. Sobretodos impera o bandulho; e o sentimento das vísceras é, de facto, quem mais ordena.
25 de Novembro de 1975. Finalmente, tarde e a más horas, a única tropa operacional do rectângulo decide-se acordar da longa letargia. Acabou a descolonização-à-vela, pelo que há luz verde para acabar com o granel. Uma aragem murmura de feição. Todavia, a maioria das forças alista-se do lado do processo revolucinhário. Basta que o crocaudilllo vermelho, Otelo de Carvalho, faça cintilar  o seu carisma castrense (no sentido caribenho da palavra, bem entendido). Mas Otelo... aqui dou a palavra a um dos seus apaniguados mais emblemáticos, Diniz de Almeida, o Che daquela revolucinha (para que não digam que achincalho ou efabulo):

«Preocupado e com a percepção de que era agora nos bastidores que se jogava a sorte da Revolução, telefonei ao COPCON.
«O Otelo ainda não veio!", respondeu alguém.
E perante a minha estranheza, aquele desculpar-se-á:
"O que é que tu queres? Ele é assim... nós pedimos-lhe para não abandonar o COPCON mas ele insistiu que queria ir dormir, e nós não pudémos impedi-lo de ir..."
(...)
Apresentei-me no COPCON ainda de manhã e pouco depois de haver telefonado.
O ambiente de manifesta desmobilização que ali se respirava, agravou ainda mais a minha consciência de perigo evidente.
Perguntei uma vez mais por Otelo.
"Ainda não veio, está a dormir", respondeu, igualmente preocupado, alguém.
"Já telefonámos lá para casa a chamá-lo e ele mandou dizer para não o incomodarem que quer descansar", volveram..»
                     - Diniz de Almeida,  "Ascensão, Apogeu e Queda do MFA, Vol.II"


Pois, na hora H, quando o império da revolução estava em jogo, que faz então Otelo? O mesmo que Marcello, nem mais: borrega. Mansamente. As tropas, entre hirsutas e desataviadas, aguardam ordens; Diniz de Almeida exaspera. No Ralis, a soldadesca leninada quer sair a combater os "Comandos". "Agarrem-me senão desgraço-me!", pressente-se (e vocifera-se em surdina!) a cada esquina. Mas o comandante da unidade, Leal de Almeida também borrega. Como tinha borregado anos antes na antecâmara da "Operação Mar Verde". E faz como Otelo, vai dormir. Otelo que, entretanto, borrega ao ralenti. Fica o bravo Diniz, Ché abandonado, Hamlet de Sacavém: "borrego ou não borrego, eis a questinha!"...Sozinho, a aguardar ordens de Godot. Que não chegam. O que chega é a ordem de prisão emanada de Costa Gomes. E o bravo Diniz lá vai, no seu próprio carro, apresentar-se ao cárcere. Borrega em ordem. Há toda uma Goa longínqua a verberar nele. Saldo final:  Tudo bem somado, a revolução de rilhafoles socumbe à mosca tsé-tsé.

Aqui chegados, mais que uma suspeição forte, invade-nos a percepção  clara de que o borreguismo não é apenas um movimento: é aquilo que acciona o movimento... E é também um paradoxo, já que se trata dum movimento estático, e extático. Poderíamos falar, assim, duma força motriz do carácter portugalinhóide, não fôra dar-se o caso singular do carácter portugalinhóide consistir numa paralisia aguda plasmada numa catalepsia súbita de todos e quaisquer princípios, instintos ou preceitos activos em prol dum  assomo (mínimo que seja) de dignidade, destemor, ou, vá lá, honra. Mas há ainda outro sentimento que, sobretodos, congela o borreguista. RESPONSABILIDADE. Na crise, guerra, bernarda, polémica ou o que seja, o portugalinhóide  adquire a posição de estátua camaleónica para que a responsabilidade - a temida e horrenda responsabilidade a passar! - não o detecte, não o descubra, não o aponte. Agora imaginem juntas ou confluentes as suas duas fobias supremas: a "responsabilidade" e o "derramamento de sangue"!...

Falta apenas o corolário actual da saga frouxa...A destilação última do alambique...
É mentalmente que o portugalinhóide hodierno mais sente volúpia em borregar. Com retroactivos e retroversões.
Muitos anos depois de borregar no terreno,  estima de borregar no pensamento. Borrega em solidariedade. O borreganço antepassado não o enoja, não o repugna, nem, muito menos, o incomoda. Pelo contrário, inspira-o. Justifica-o. Convoca-o a alistar-se no desânimo. Compenetra-o da resignação ufana. O que outrora foi cobardia, pusilanimidade, ignávia, infãmia, agora é realismo, cálculo matemático, mandamento, finura e perspicácia.
Pior que impossível, qualquer outra alternativa: Impensável, sequer!
Mas não admira.
Para uma barata tonta, o homem, mais que espécie incognoscível numa galáxia longínqua, constitui uma utopia.



PS: Apesar de tudo, o borreguismo incial (de Goa) é ainda rudimentar se comparado ao surtos dos anos 70.