Em 31 de Março de 1974, nas vésperas da golpada fantástica, Marcello Caetano decide tomar banho de multidão. Para o efeito, e muito apropriadamente, dirige-se à banheira de Alvalade onde assiste a um Sporting-Benfica do antanho. O ocloclismo futebolesco é descrito pelo próprio no seu "Depoimento":
«Quando o alto-falante anunciou que eu me achava no camarote principal, a assistência, calculada em 80.000 espectadores, como que movida por mola oculta levantou-se a tributar-me quente e demorada ovação que a TV transmitiu a todo o País. E note que, tendo saído do estádio quinze minutos antes do fim do desafio, não houve ninguém nas duas longas filas de pessoas que, como eu, procuravam evitar a confusão do final e por entre as quais passei que não me desse palmas - o que às pessoas que me acompanhavam pareceu ainda mais expressivo que a manifestação colectiva. E as informações que chegavam ao governo também garantiam sossego geral e apoio ao regime»
Menos de um mês depois, o mesmo Marcello Caetano, cercado no Carmo ( por tanques velhos, mas uma multidão revolucinhária novinha em folha), descobre o reverso da medalha:
«(...) fui vaiado, insultado e caluniado, houve quem reclamasse o meu julgamento como criminoso(...) Assisti então sem espanto de maior, diga-se a verdade, ao vergonhosos espectáculo próprio das ocasiões revolucionárias em que o medo é o sentimento dominante e leva os homens às mais inconcebíveis manifestações de mesquinharia, de grosseria, de incoerência, de pusilanimidade e covardia.»Onde estava o povo que o aplaudira vibrantemente em Alvalade? Quem era o povo que o apupava e injuriava descabeladamente no Carmo?
Jaime Nogueira Pinto, tem um trecho interessante sobre a matéria, quando escreve:
«Outra das ilusões que Marcello Caetano começou a cultivar foi o "banho de multidão". E é curioso notar que o trágico fim do regime, arrastando com ele o País, a meditação que o exílio lhe deve ter proporcionado, um balanço ao qual com certeza procedeu, não o convenceram nem esclareceram sobre o vazio de tudo aquilo. Não quer dizer que as multidões que o aplaudiam não fossem sinceras. Mas julgar que isso significa mais que a homenagem que um povo expansivo, dado ao acontecimento e à novidade como o português, presta a qualquer novo líder político, que apareça em cortejo, com polícias de moto à frente, é espantoso num homem que, sobre a multidão, os seus impulsos, crenças e sentimentos, escrevera algumas páginas lúcidas. As multidões que aclamavam Marcello Caetano eram as mesmas que antes aclamavam Salazar (que não lhes dava muitas oportunidades de o fazer) e depois Spínola. E se não aclamaram Costa Gomes é porque tudo tem limites!»
Mas, francamente, será possível falar-se na "sinceridade" ou "falsidade" duma multidão? Vou mais longe: a multidão representa o povo - que "povo"? O estádio de Alvalade apinhado para um Sporting-Benfica representa exactamente o quê? É possível um plebiscito informal (como hoje em dia se faz com as tais "amostras para sondagem") a partir dum estádio de futebol? Ou duma arena de touros? Ou mesmo dum comício na Praça do Comércio?... E já agora, convém rectificá-lo, Costa Gomes também foi aclamado, em Belém, por uma multidão qualquer. Que não era, aí podemos estar certos, exactamente a mesma que aplaudira Spínola ou Caetano. Mas que, não obstante, representava a nova modalidade de poder informal que passava a ditar as leis: o poder da Rua. E de quem melhor pilotava, condicionava e manipulava multidões, multidinhas e multideias nesta. Turbas que, evidentemente, estavam distantes da "multidão espontânea" de Alvalade, em 31 de Março de 1974, mas, precisamente por serem mais dirigidas e telecomandadas se tornaram mais eficazes. Sobretudo, porque destruir é mil vezes mais fácil e expedito do que construir.
A pseudo-vigência spinolista, que sucedeu a Marcello Caetano e terminou, fruste e ingloriamente, no 28 de Setembro, soçobrou também após um ocloclismo afamado. Neste caso, não de índole futebolesca, mas tauromáquica (presságio deveras símbólico para a verdadeira tourada que se lhe seguiria). O episódio é rico de peripécias funambulares e enredos novelescos que merecem algum relato.
Estamos no dia 26 de Setembro de 1974. Para dois dias adiante está convocada a manifestação da Maioria Silenciosa. O seu principal objectivo é apoiar o presidente da República, general Spínola, de modo a fortalecer uma posição contra a deriva sinistra. Os partidos de Esquerda, PC e PS, pelos seus representantes no governo, bastiões da democracia de conveniência, pugnam para que a manifestação seja proibida.
No Conselho de Ministros, Santo Álvaro argumenta, em tom soturno: "trata-se duma manobra da reacção" "As informações dos camaradas comprovavam que eram fascistas que se iam manifestar" e, nec plus ultra, "independentemente da atitude do Governo os camaradas tudo iam fazer para desmontar a manifestação hedionda". Resumindo, mesmo que não fosse interdita de jure, seria interditada de facto.
Melo Antunes, como lhe competia, secundou a moção.
Já os dois ministros do PS, Salgado Zenha e Almeida Santos, advogados compenetrados, inauguram todo um modus operandi que nunca mais deixará de flagelar esta terra: propõem que se ilegalize a manifestação através de um decreto-lei. Devidamente estribada na lei, a repressão torna-se benignamente democrática.
Por seu turno, Magalhães Godinho destrata a projectada manifestação como "democraticamente impensável". A maioria estava pois pela proibição, mas nada de concreto ficou estabelecido ou consignado legalmente.
Acontece que nessa mesma noite estava prevista a tal tourada organizada pela Liga dos Combatentes.
Santo Ávaro, epítome viva da democracia, entendia que devia proibir-se também a corrida de touros. Nova discussão, entretanto interrompida por uma chamada telefónica de Spínola, a informar que ia à tourada. Sanches Osório e Firmino Miguel, ministros da Informação e da Defesa, apoiam-no e escoltam-no na viagem. Vasco Gonçalves, após instância do presidente, resigna-se a ir também. A cena do Campo Pequeno, deixo ao relato de Sanches Osório, participante no evento:
«Na tribuna Presidencial estavam o Presidente da República, o 1º Ministro; o Ministro da Defesa; o Ministro Almeida Santos; os generais Galvão de Melo, Jaime Silvério Marques e Almeida Viana, este na qualidade de presidente da Liga dos Combatentes, além dos membros das Casas Civil e Militar do Presidente da República, a saber: ten. Cor. Dias de Lima; ten. Cor. Almeida Bruno; Maj. Zuquete da Fonseca; cap. António Ramos e Com. Sameiro.A mesma tourada descrita agora da esquerda, por Diniz de Almeida:
Da tourada vou apenas falar de dois aspectos: o ambiente muito festivo em relação ao Gen. Spínola e tremendamente hostil em relação ao Brig. Gonçalves.
A praça estava cheia. Cantou-se o Hino Nacional, deram-se vivas a Spínola o qual, em cada "sorte", era ovacionado. No intervalo houve um pequeno beberete onde compareci com minha mulher. Era patente o isolamento dos dois clãs: 1º Ministro e ajudantes, e Presidente da República e ajudantes.
Após o intervalo, ao reentrar no camarote sozinho, o Gen. Spínola foi triunfalmente recebido. Pouco depois, ao dar entrada o Brig. Vasco Gonçalves, verificou-se uma vaia formidável e intensa. Era gritante a inimizade pelo Governo e por aquilo que Vasco Gonçalves representava!
No fim da tourada novamente se deram vivas a Portugal e a Spínola.
No exterior, entretanto, havia-se organizado uma pequena manifestação com o slogan: "fascista escuta, o povo está em luta"; Abaixo a reacção"; "Viva o MFA"; etc.(...)
Além dos slogans, houve algumas agressões e correrias e um pelotão a cavalo da GNR ia pacientemente desmontando a manifestação.
Um ponto considero, no entanto, muito importante: verifiquei a presença, como líderes da manifestação, de oficiais da Comissão Coordenadora da Armada. Eram dois e convém dizer que a manifestação havia sido organizada pela União dos Estudantes Comunistas.» (in, O Equívoco do 25 de Abril")
«Perante uma Praça de Touros do Campo Pequeno com a lotação esgotada, Spínola surgiria no camarote presidencial acompanhado de Galvão de Melo e Almeida Bruno além de outros componentes da sua comitiva.Com a chegada de Vasco Gonçalves, a ovação dispensada a Spínola, transforma-se numa vaia insultuosa.(...)Já no camarote, Silveira Machado propõe a Spínola que se faça um minuto de silêncio pelos mortos do Ultramar; pouco à vontade, Spínola vira-se para Vasco Gonçalves e pergunta-lhe a opinião...-"Se fosse em memória dos combatentes Portugueses e dos combatentes dos Movimentos de Libertação caídos, eu concordava..." - assentiu condicionalmente Vasco Gonçalves: - "...agora ostensivamente só para Portugueses, não!..."Spínola preferirá não insistir; virando-se agora para Silveira Machado, obstou então:-"Bom, então é melhor não fazer; pode haver provocações e é preciso respeitar os mortos.(...) A praça pareceu entusiasmar Spínola, que não descurou fazer o seu aproveitamento junto de Vasco Gonçalves como forma de pressão:- "Como vê a praça está cheia... O Povo já estava desligado do Presidente da República... quando eu passava nas ruas já o sentia... mas agora, como vê, já estão outra vez comigo" - e exibia-os pouco discretamente a Vasco Gonçalves.» (in Ascensão, Apogeu e Queda do MFA, Vol. 1, pp.167)
E, de facto, galvanizado pelo ocloclismo tauromáquico, Spínola insiste em autorizar e abençoar a "manifestação de 28 de Setembro". Só que, pelos vistos, o presidente da República daquela república não contava muito. Ainda para mais, acolitado por um espírito santo de orelha do quilate de um Costa Gomes...
Vasco Gonçalves, na qualidade de Primeiro-Ministro acaba por ser constrangido a emitir uma declaração de autorização à manifestação e de apelo ao restabelecimento da ordem. O boicote porém segue os seus trâmites informais: o povo é quem mais ordena. Já a 26, o plano do MDP/CDE, sancionado pelo General Costa Gomes inicia toda uma procissão de detenções arbitrárias, que os próprios MDPs elaboram e executam devidamente armados e escoltados por militares afetos. À volta de Lisboa são erguidas barricadas, guarnecidas por "brigadas populares" e procede-se ao controlo e revista de viaturas. Mais tarde o COPCON, enviado para as substituir, limita-se a assistir passivamente, quando não a auxiliar. Os comunistas tripudiavam a seu bel-prazer, sob o beneplácito socialista e a passividade dos restantes partidos menos à esquerda - pois já no dia 25, e nas palavras do próprio Spínola:
«Também recebi, separadamente, as visitas do prof. Freitas do Amaral e do Dr. Sá Carneiro para me comunicarem que os seus partidos - CDS e PPD - não participariam na manifestação...» (in País sem Rumo, pp.213)
Entretanto, quando a notícia das barricadas ad-hoc, com todo o seu arraial de atropelos, rebenta nas altas esferas, a Junta de Salvação Nacional reúne-se na Presidência da república, onde é convocado o primeiro-Ministro, Vasco Gonçalves e onde se encontram também outros oficiais próximos de Spínola... A cena, onde Osório e Diniz de Almeida também coincidem na descrição, merece registo para a posteridade. Nas palavras do primeiro:
«O ambiente era muito tenso por causa das barricadas - que estavam a ser feitas em todos os acessos a Lisboa e em todo o país - e por causa dos apelos à sua intensificação e à intransigente vigilância das massas populares. Aguardei na sala enquanto os generais da Junta entravam para o Gabinete do Presidente da República.
Foi então convocado o 1º Ministro, que compareceu e entrou no Gabinete. Ao estender a mão ao gen. Galvão de Melo, proferiu o cumprimento habitual:
- "Como está meu General?
O general ficou imóvel.
-"O meu general não me aperta a mão?", perguntou Vasco Gonçalves surpreendido.
-"Não, eu não falo a filhos da puta", respondeu calmamente Galvão de Melo.
-"O meu General é um estupor", respondeu o 1º Ministro.
Para evitar o pior, o Gen. Diogo Neto interpôs-se entre os dois e, de frente para o 1º Ministro, levantou a mão e exclamou:
- "Tu és uma vergonha! Meu comunista ordinário que queres levar o país para uma Guerra Civil. Se abres a boca parto-te a cara."
Nesta altura, e com a calma que me era possível, expus ao 1º Ministro o problema da manifestação e disse-lhe textualmente:
-"O governo emitiu um comunicado. É verdade. Mas, por outro lado, incitou os partidos a isolarem a manifestação, o que é pelo menos desonesto. Corresponde à boicotagem da manifestação."
Vasco Gonçalves respondeu-me:
-"Isso é uma calúnia. O senhor está a insultar-me."
-"Não estou", retorqui. "Isto são os factos tais como se passaram e eu não posso nem devo esconde-los".
O Gen. Diogo Neto interrompeu este diálogo e declarou, virando-se para o 1º Ministro:
-"És um merdas."
E o Gen. Silvério Marques acrescentou:
-"Olha-me bem de frente. Eu tenho 4 estrelas mas só duas são da Revolução: deixo-tas aqui, atiro-tas à cara. Tu vais dar ordem ao teu partido (entenda-se PCP) para acabar com a rebelião." (in O Equívoco do 25 de Abril, pp.96)
A reunião, entretanto, prossegue já com a presença de Spínola e, a certa altura, Sanches Osório tem um desarrincanço ainda com mais piada:
«Nada nem ninguém pode fazer nada neste país enquanto não se souber quem manda!"
Pus então várias hipóteses: "A JSN? O Governo Provisório? A Comissão Coordenadora? Ou o estado Maior general das Forças Armadas?" E acrescentei que, naquele momento, o meu espírito não tinha dúvidas, o Poder encontrava-se numa quinta identidade: a Rua, controlada pelo PCP.» (idem, pp.97)
Neste momento rubro, com o Poder na Rua e em quem lá ordenava, barricadas a céu aberto, prisões políticas em barda e até o Santo Álvaro, coitado, pelo sim pelo não, a pernoitar na embaixada Soviética, o que faz Spínola? Resigna. Demite-se. Com que intuito inefável, senão mesmo mirabolantel?
«...com a convicção de que se impunha denunciar ao País, com toda a crueza, o grave desvio que a Revolução de Abril estava sofrendo, para que o Povo Português tomasse conhecimento de que, à sombra de uma falsa bandeira da Democracia, estava sendo conduzido para uma nova forma de escravatura.» (in País sem Rumo, pp.237)
O Povo a tomar conhecimento, depois de nele o general ter tomado banho, não deixa de ser uma imagem tocante.
E passa a bola a Costa Gomes. Na esperança que este "uma vez satisfeita a sua ambição do poder, tomasse plena consciência das responsabilidades que iria assumir perante o País".
Moral da história?
Há alguém que a cunha bem melhor do que eu, até porque a tinha profetizado muitos anos atrás:
«Nós constituímos um regime popular, mas não um Governo de massas, influenciado ou dirigido por elas. Essa boa gente que nos aclama hoje, levada por paixões momentâneas, não poderá ser aquela que tende a revoltar-se amanhã, levada por outras paixões? Quantas vezes não me tenho deixado impressionar, comover, pela sinceridade clara, indiscutível de certas manifestações! Quantas vezes não me tenho sentido interiormente abalado, sacudido com o desejo quase irresistível, de falar ao povo, de lhe dizer a minha gratidão, a minha ternura. Mas quando o vou fazer, qualquer coisa me detém, qualquer coisa me diz: "Não fales! Arrastado pela emoção, pelo efémero, vais sair de ti próprio, vais prometer hoje o que não poderás fazer amanhã!" E conseguindo impor o seu perfil à própria treva cada vez mais espessa: -"Não posso mentir! Só poderei mandar, só me julgarei com autoridade para mandar, enquanto me sentir eu. A defesa do eu corresponde em mim à própria defesa da verdade. Se fosse arrastado por influências passageiras, se as minhas atitudes ou palavras fossem escravas do entusiasmo das multidões ou somente dos meus amigos, já não seria eu. E então não era honesto sequer que continuasse a governar.»
- A.O.Salazar (In Entrevistas a António Ferro, pp.191)
A multidão - que em grego se diz oclos - é só o homem fora de si.
Nota: ocloclismo significa "banho de multidão". Pode ter um outro sentido que deixo à imaginação do leitor.





