Leopold Trepper , judeu comunista, nascido em Novy-Targ, na Galitzia ( região actualmente partilhada pela Eslováquia e pela Ucrânia) teve um papel distinto na 2ª Guerra Mundial: foi o chefe da Orquestra vermelha - nome dado à rede de espionagem soviética que operava na Alemanha. O seu livro de memórias, de que se encontra facilmente ainda hoje a tradução portuguesa da Portugália Editores, é bastante instrutivo e revelador de importantes bastidores não só do terrível conflito, mas também da revolução comunista soviética, do stalinismo e do próprio sionismo.
Trepper foi um comunista convicto e, não obstante, a páginas tantas, testemunha o seguinte:
«Que o caminho do paraíso não estaria juncado de rosas já o sabíamos, comunistas criados na barbárie imperialista.
Mas, se o caminho estava juncado de cadáveres de operários, ele não podia levar ao socialismo. Os nossos camaradas desapareciam, os melhores de nós agonizavam nos porões do NKVD, o regime stalinista desfigurava o socialismo a ponto de o tornar irreconhecível. Stalin, o grande coveiro, liquidou dez, cem vezes mais comunistas que Hitler.
Entre o martelo hitlerista e a bigorna stalinista, a via era estreita para quem acreditava na Revolução.»
- Leopold Trepper, "Le Grand Jeu" (trad port. Portugália eds)
Trotsky acarinhava aquela tese peregrina da "revolução perpétua.". Mas quem prevaleceu foi Stalin, que amava uma alternativa diferente. Uma romaria bastante menos ambiciosa, é certo; todavia, bastante mais pragmática porque execuível: em vez da revolução, a purga. Perpétua, também, por via das dúvidas. Ou talvez dito de outra forma mais rigorosa, a "revolução perpétua", mas estritamente interna. No lugar da disenteria global, o clister doméstico. Com toda a sua operatividade implícita: primeiro exterminara-se os "brancos" do antigo regime; depois os moderados da revolução, à boa maneira parisiense. Doravante, para Joseph, fazia todo o sentido prosseguir, mais ou menos a eito. E lá se debulharam os comunistas da primeira hora, os bolcheviques de outubro; a seguir, na bela e ubesca senda, trucidaram-se os quadros do exército vermelho. Faltava ainda quem? Muitos dos torcionários e esbirros que tão bem vinham servindo Stalin nestas selecções e eliminatórias eram judeus. Muito curioso, achou Stalin. E suspeito. Chegou assim, com toda a lógica, a vez dos judeus. E como havia tantos, a coisa bem podia ser promovida a holocausto. Quem sabe, pode ser que agora, com Puitin super-hediondo (e as revisões de Auschwitz libertada pelos ucranianos, a somar à diminuição do número de internamentos, pelos polacos) - ainda seja. Tipo sequela, como no cinema - «Holocausto II, Micro-ondas nas estepes».
O certo é que, ultimados estavam a ser os judeus e já Stalin ceifava a rigor pela própria família, quando Adolph Hitler ordena a invasão da União Soviética. Admito que possa ter sido com intuitos territoriais ou, sobremaneira, para se apoderar de fontes energética cruciais para a sustentação da sua maluqueira delirante. Não discuto esse ponto. Agora que tenha ido combater o comunismo e mais não sei que diarreia ideológica em forma de cruzada ocidental, façam-me um favor: é como os americanos a combaterem o terrorismo - quanto mais o combatem, mais ele viceja e se multiplica. A combater o comunismo, com todas as suas forças e perícias de expert, estava o bom Stalin. Se haviam de deixá-lo sossegado e entretido nessa meritória tarefa, o que é que a besta do Adolfo faz? Irrompe estupidamente, com um grupo excursionista armado de panzeres desdentados, fatos de verão e bombardeiros em miniatura. Ou seja, a um regime em auto-destruição, as cavalgaduras alemãs, ainda por cima supervisionadas por uma seita de psicopatas puramente genocidas, vão levar a reconciliação nacional, o alento e brio pela mãe Rússia. Dito simplesmente, foram levar o nacionalismo ao vespeiro comunista (como antes tinham levado o vírus Lenine ao reduto da nação russa, e daí, se calhar, agora a lei cósmica da compensação). O resultado foi o inerente à redescoberta da pulsão antiga, tradicional: os russos fizeram pela pátria, aquilo que jamais fariam por Stalin. Perante a força maior duma agressão externa, acabam, natural e automaticamente, as cisões internas. O instinto de defesa da própria sobrevivência suspende religiões, quanto mais superstições ideológicas. Não foram os soviéticos que derrotaram os alemães: foram os russos, com toda a justiça e a benção de Nemesis, aliados à estupidez congénita da horda alemã. Alemanha, diga-se a terminar, que, se tem produzido indivíduos de grande excelência em todas as áreas, é, todavia, enquanto colectivo, e como já referia Nietzsche, uma manada cuja irracionalidade chega a raiar a loucura. Um bovinismo perigosamente armadilhado de fortes tendências auto-destrutivas. "Oh, vejam só que bela máquina que eu construi! Óptimo, vou já despistar-me por uma ribanceira!..."
PS: era bom que os toxicodependentes ideológicos, de esquerda e direita, largassem a droguinha. Os tempos que aí vêm não serão seguramente bons para devaneios oníricos.








