«Cheguei a Lisboa no dia 15 de Março (de 1974) à noite. na manhã seguinte, fui surpreendido pelo golpe das Caldas.(...)
Relacionei o acontecimento com a publicação do livro do general Spínola, "Portugal e o Futuro", que sabia na "forja" há muito tempo. Da sua existência tivera conhecimento em Dezembro de 1971, durante uma breve viagem de oito dias à Guiné. O general Spínola confidenciara-me que estava a escrever um livro sobre a possibilidade de outra solução que não a do imobilismo político da unidade territorial, adoptada pelo Governo.
Numa conversa com o ministro da Defesa, defendi a obra não como uma solução para o problema ultramarino, mas como demonstração de que se poderia repensar em termos diferentes daqueles a que o governo se aferrava ostensiva e teimosamente. O ministro Silva Cunha retorquiu-me que o livro se limitava a ser um exercício de Direito Constitucional, sem grande viabilidade prática porque os partidos nacionalistas nunca aceitariam a teoria de Spínola, com a agravante de uma tal publicação, subscrita pelo general, criar brechas na resistência nacional.
Enfim, apesar se ter autorizado - sobre informação do General Costa Gomes - a publicação de "Portugal e o Futuro", vê-se que Silva Cunha não se sentia... confortável. Principalmente pelo impacto que provocou.
Telefonei ao general António de Spínola a felicitá-lo e a informá-lo de que podia contar comigo. Manifestei--lhe, do mesmo passo, a minha estranheza pela celeuma que o livro levantara, a ponto de o prof. Marcelo Caetano o ter atacado na Assembleia Nacional.
Quando, insensatamente, o Governo (ou o Presidente da República, não sei) exigiu um acto de disciplina, por parte dos oficiais-generais, fiquei impressionado e preocupado. Em conversa com o ministro da Defesa, tentei fazer-lhe ver que aquilo a que chamei o "beija-mão" dos generais fora a alienação definitiva da hierarquia em relação aos oficiais de patentes mais baixas.
O ministro não gostou de me ouvir. Fez comparações com a estrutura da Igreja, na qual, periodicamente, os bispos afirmam a sua fidelidade ao Papa.
Respondi que não era bem o caso, que se criara uma cisão entre os oficiais-generais, que, na sua maioria, disciplinadamente, obedeceram à imposição.
No caso da marinha, alguns fizeram-no apenas por amizade ao ministro, almirante Pereira Crespo, que, sendo um homem de tradições democráticas, não obrigou ninguém a ir, mas pediu, como favor pessoal, que os seus oficiais-generais comparecessem a esse execrável "beija-mão".
Aqueles aos quais, depois, os capitães chamaram a "brigada do reumático", estavam, efectivamente, fora das realidades militares. Por incúria ou porque se recusavam a acreditar, ignoraram o Movimento dos Capitães, já manobrado (e controlado) por líderes de doutrinação marxista-leninista.
O tempo me deu razão.
O 25 de Abril, apesar do meu conhecimento de uma instabilidade crescente e de um descontentamento geral, não se incluía nas minhas previsões.»
- Cmdt. Alpoim Calvão, "De Conakry ao MDLP -Dossier secreto"
Telefonei ao general António de Spínola a felicitá-lo e a informá-lo de que podia contar comigo. Manifestei--lhe, do mesmo passo, a minha estranheza pela celeuma que o livro levantara, a ponto de o prof. Marcelo Caetano o ter atacado na Assembleia Nacional.
Quando, insensatamente, o Governo (ou o Presidente da República, não sei) exigiu um acto de disciplina, por parte dos oficiais-generais, fiquei impressionado e preocupado. Em conversa com o ministro da Defesa, tentei fazer-lhe ver que aquilo a que chamei o "beija-mão" dos generais fora a alienação definitiva da hierarquia em relação aos oficiais de patentes mais baixas.
O ministro não gostou de me ouvir. Fez comparações com a estrutura da Igreja, na qual, periodicamente, os bispos afirmam a sua fidelidade ao Papa.
Respondi que não era bem o caso, que se criara uma cisão entre os oficiais-generais, que, na sua maioria, disciplinadamente, obedeceram à imposição.
No caso da marinha, alguns fizeram-no apenas por amizade ao ministro, almirante Pereira Crespo, que, sendo um homem de tradições democráticas, não obrigou ninguém a ir, mas pediu, como favor pessoal, que os seus oficiais-generais comparecessem a esse execrável "beija-mão".
Aqueles aos quais, depois, os capitães chamaram a "brigada do reumático", estavam, efectivamente, fora das realidades militares. Por incúria ou porque se recusavam a acreditar, ignoraram o Movimento dos Capitães, já manobrado (e controlado) por líderes de doutrinação marxista-leninista.
O tempo me deu razão.
O 25 de Abril, apesar do meu conhecimento de uma instabilidade crescente e de um descontentamento geral, não se incluía nas minhas previsões.»
- Cmdt. Alpoim Calvão, "De Conakry ao MDLP -Dossier secreto"
«Tive notícia do que se estava a passar em Lisboa pela BBC, no bar de Oficiais da ZOT, a Zona de Operações de Tete. Estava a sós com o comandante da zona, o coronel Rodrigo da Silveira, e ouvimos que o general Spínola estava a chefiar o golpe de Estado. Ingenuamente, e reflectindo de certo modo a imagem que nessa altura Spínola tinha na tropa, disse ao coronel Rodrigo da Silveira que, finalmente, iríamos ter alguém no topo da hierarquia que entendia o nosso esforço militar e que iria finalmente possibilitar-nos melhores meios e mais apoio logístico para a nossa acção. Respondeu-me Rodrigo da Silveira que eu estava completamente enganado, porque, com Spínola no poder, estava tudo perdido. Foi para mim um choque bastante grande ouvir estas palavras porque, como disse, a imagem que os militares e que a juventude tinham então do general Spínola era a que tinha sido laboriosamente construida nos cinco ou seis anos anteriores àquele 25 de Abril - a imagem do grande centurião português, do grande homem de armas, do grande herói. Só que era uma imagem que não correspondia à realidade. Os anos 63/64 do seu batalhão em Angola estavam já muito longe. Penso que a imprensa internacional foi grandemente responsável pelo mito, e que a imprensa portuguesa se limitou a reflectir o que tinha saído no estrangeiro. Lembro-me, se não estou em erro, que foi a imprensa francesa quem mais trabalhou nesse sentido, com capas de revista em que aparecia o general Spínola de monóculo, de luvas e pingalim, de camuflado no meio das suas tropas - o herói português, um pouco à imagem que nós tínhamos dos heróis franceses das guerras da Argélia e da Indochina, "bebida" nos livros de Jean Lartéguy. Foi essa imagem que nos apresentaram, e penso que ela enganou muita gente - não só a nós, juventude da época, como a muitos portugueses mais responsáveis, que nessa altura embarcaram um pouco nessa esperança de um Spínola à frente do MFA. O que permitiu que não houvesse reacção nem das tropas leais à missão histórica de Portugal, nem dos dirigentes industriais e financeiros portugueses que confiaram no general Spínola. A mesma confiança acabou por se tornar extensiva ao grosso da população: a presença de Spínola tranquilizava, aquilo era um golpe de Estadpo e não uma revolução comunista.
Spínola achava que o Partido Comunista tinha um certo papel a desempenhar, mesmo na democracia que se pretendia instaurar. E dava-se a imagem de que não era o Partido Comunista o motor das revolução, mas sim um grupo de oficiais comandados pelo fiel e grande cabo-de-guerra Spínola.»
- D. Francisco Van Uden, Capitão de Inf. Milº "Comando" "GEP", em "Os Últimos Guerreiros do Império"
Duas breves notas, porque penso que os depoimentos em epígrafe são bastante eloquentes por si, e quase dispensam comentários.
Duas breves notas, porque penso que os depoimentos em epígrafe são bastante eloquentes por si, e quase dispensam comentários.
Sobre Alpoim Calvão, oficial de Marinha, "Fuzileiro Especial" e um dos oficiais mais condecorado das Forças Armadas, convém saber que estava indigitado em 1974 para ser o próximo (e a breve trecho) director da DGS. Era portanto uma pessoa da total confiança do governo. E era também uma pessoa das relações próximas do general Spínola, sob as ordens de quem actuou na Guiné, nomeadamente na ultra-secreta "Operação Mar Verde" - raid de tropas especiais portuguesas (fuzileiros e comandos) à capital da Guiné-Conacry -, tendo formado, após a retirada de Spínola para Espanha e depois Brasil, no pós-11 de Março, o M.D.L.P - Movimento Democrático de Libertação de Portugal. O resto vejam no Google, para pouparmos espaço.
Ficamos assim a perceber um pouco melhor a amplitude do desacerto de Marcello (e de Thomaz) na condução de áreas nevrálgicas e cruciais para o regime, como eram as forças armadas (conferir, por favor, postal anterior a este respeito). Esta falta de tacto na abordagem a uma área da maior sensibilidade, era agravado por evidente desleixo na análise e tratamento de informação, pelos vistos, já conhecida. Estava uma bomba relógio em acção e, em vez de desarmadilhar o engenho, acelerou-se-lhe o relógio. A última coisa que um país em guerra precisa é de um governante que use de prepotência ostensiva para com aquilo que representa a própria Força maior duma nação. O próprio Calvão revela o pensamento da classe em relação àquilo: "execrável beija-mão".
Mas a verdade é que da parte das forças mais à direita, protagonizadas por Kaulza de Arriaga, havia, desde 1973, pressões junto presidente da República para substituir Marcello Caetano. Este chegou a apresentar a demissão por duas vezes. E quando o 25 de Abril lhe rebentou ao colo, era, indubitavelmente, um homem só, descrente, amargo (até por trágicas circunstâncias pessoais) e acossado. Nesse dia, a generalidade do país, de início, ficou na expectativa -o golpe tanto poderia ser de esquerda como de direita. Esta, se calhar, até era a mais esperada. E embora sendo de esquerda, como só posteriormente se iria revelando, em crescente virulência, era uma esquerda, por assim dizer, com pele de cordeiro. Nesse aspecto, Alpoim Calvão reforça integralmente a perspectiva do Capitão Van Uden: Os nomes que encabeçaram a Junta de Salvação Nacional, formada no 25 de Abril, justificaram as minhas esperanças de que o Programa apresentado à Nação fosse cumprido. Nomes prestigiosos como os generais Spínola, Diogo Neto, Galvão de Melo, Jaime Silvério Marques; os dois oficiais de Marinha - profissionais competentes e homens de bem - mereciam confiança. principalmente o comandante Pinheiro de Azevedo, meu mestre na Escola Naval, disciplinador sem mácula, fulcro na repressão dos agitadores, que, na década de 30, amotinaram o corpo de Marinheiros.»
A pele de cordeiro, que tinha o mais forte expoente na figura de Spínola, funcionou assim como anestesiante, dardo tranquilizador da presa, até que o lobo da Quinta Coluna tivesse as patas bem seguras e instaladas no curral. Por isso, quando, finalmente, retirou a pele, ficou, em todo o seu esplendor, a besta. Da revolução.


















