quinta-feira, março 19, 2015

A Acromiomancia Revisitada -VI. Entre a Águia e o Pavão





«Cheguei a Lisboa no dia 15 de Março (de 1974) à noite. na manhã seguinte, fui surpreendido pelo golpe das Caldas.(...)
Relacionei o acontecimento com a publicação do livro do general Spínola, "Portugal e o Futuro", que sabia na "forja" há muito tempo. Da sua existência tivera conhecimento em Dezembro de 1971, durante uma breve viagem de oito dias à Guiné. O general Spínola confidenciara-me que estava a escrever um livro sobre a possibilidade de outra solução que não a do imobilismo político da unidade territorial, adoptada pelo Governo.
Numa conversa com o ministro da Defesa, defendi a obra não como uma solução para o problema ultramarino, mas como demonstração de que se poderia repensar em termos diferentes daqueles a que o governo se aferrava ostensiva e teimosamente. O ministro Silva Cunha retorquiu-me que o livro se limitava a ser um exercício de Direito Constitucional, sem grande viabilidade prática porque os partidos nacionalistas nunca aceitariam a teoria de Spínola, com a agravante de uma tal publicação, subscrita pelo general, criar brechas na resistência nacional.
Enfim, apesar se ter autorizado - sobre informação do General Costa Gomes - a publicação de "Portugal e o Futuro", vê-se que Silva Cunha não se sentia... confortável. Principalmente pelo impacto que provocou.
Telefonei ao general António de Spínola  a felicitá-lo e a informá-lo de que podia contar comigo. Manifestei--lhe, do mesmo passo, a minha estranheza pela celeuma que o livro levantara, a ponto de o prof. Marcelo Caetano o ter atacado na Assembleia Nacional.
Quando, insensatamente, o Governo (ou o Presidente da República, não sei) exigiu um acto de disciplina, por parte dos oficiais-generais, fiquei impressionado e preocupado. Em conversa  com o ministro da Defesa, tentei fazer-lhe ver que aquilo a que chamei o "beija-mão" dos generais fora a alienação definitiva da hierarquia em relação aos oficiais de patentes mais baixas.
O ministro não gostou de me ouvir. Fez comparações com a estrutura da Igreja, na qual, periodicamente, os bispos afirmam a sua fidelidade ao Papa.
Respondi que não era bem o caso, que se criara uma cisão entre os oficiais-generais, que, na sua maioria, disciplinadamente, obedeceram à imposição.
No caso da marinha, alguns fizeram-no apenas por amizade ao ministro, almirante Pereira Crespo, que, sendo um homem de tradições democráticas, não obrigou ninguém a ir, mas pediu, como favor pessoal, que os seus oficiais-generais comparecessem a esse execrável "beija-mão".
Aqueles aos quais, depois, os capitães chamaram a "brigada do reumático", estavam, efectivamente, fora das realidades militares. Por incúria ou porque se recusavam a acreditar, ignoraram o Movimento dos Capitães, já manobrado (e controlado) por líderes de doutrinação marxista-leninista.
O tempo me deu razão.
O 25 de Abril, apesar do meu conhecimento de uma instabilidade crescente e de um descontentamento geral, não se incluía nas minhas previsões.»
- Cmdt. Alpoim Calvão, "De Conakry ao MDLP -Dossier secreto"


«Tive notícia do que se estava a passar em Lisboa pela BBC, no bar de Oficiais da ZOT, a Zona de Operações de Tete. Estava a sós com o comandante da zona, o coronel Rodrigo da Silveira, e ouvimos que o general Spínola estava a chefiar o golpe de Estado. Ingenuamente, e reflectindo de certo modo a imagem que nessa altura Spínola tinha na tropa, disse ao coronel Rodrigo da Silveira que, finalmente, iríamos ter alguém no topo da hierarquia que entendia o nosso esforço militar e que iria finalmente possibilitar-nos melhores meios e mais apoio logístico para a nossa acção. Respondeu-me Rodrigo da Silveira que eu estava completamente enganado, porque, com Spínola no poder, estava tudo perdido. Foi para mim um choque bastante grande ouvir estas palavras porque, como disse, a imagem que os militares  e que a juventude tinham então do general Spínola era a que tinha sido laboriosamente construida nos cinco ou seis anos anteriores àquele 25 de Abril - a imagem do grande centurião português, do grande homem de armas, do grande herói. Só que era uma imagem que não correspondia à realidade. Os anos 63/64 do seu batalhão em Angola estavam já muito longe. Penso que a imprensa internacional foi grandemente responsável pelo mito, e que a imprensa portuguesa se limitou a reflectir o que tinha saído no estrangeiro. Lembro-me, se não estou em erro, que foi a imprensa francesa quem mais trabalhou nesse sentido, com capas de revista em que aparecia o general Spínola de monóculo, de luvas e pingalim, de camuflado no meio das suas tropas - o herói português, um pouco à imagem que nós tínhamos dos heróis franceses das guerras da Argélia e da Indochina, "bebida" nos livros de Jean Lartéguy. Foi essa imagem que nos apresentaram, e penso que ela enganou muita gente - não só a nós, juventude da época, como a muitos portugueses mais responsáveis, que nessa altura embarcaram um pouco nessa esperança de um Spínola à frente do MFA. O que permitiu que não houvesse reacção nem das tropas leais à missão histórica de Portugal, nem dos dirigentes industriais e financeiros portugueses que confiaram no general Spínola. A mesma confiança acabou por se tornar extensiva ao grosso da população: a presença de Spínola tranquilizava, aquilo era um golpe de Estadpo e não uma revolução comunista.
Spínola achava que o Partido Comunista tinha um certo papel a desempenhar, mesmo na democracia que se pretendia instaurar. E dava-se a imagem de que não era o Partido Comunista o motor das revolução, mas sim um grupo de oficiais comandados pelo fiel e grande cabo-de-guerra Spínola.»
- D. Francisco Van Uden, Capitão de Inf. Milº "Comando" "GEP", em "Os Últimos Guerreiros do Império"


Duas breves notas, porque penso que os depoimentos em epígrafe são bastante eloquentes por si, e quase dispensam comentários.


Sobre Alpoim Calvão, oficial de Marinha, "Fuzileiro Especial" e um dos oficiais mais condecorado das Forças Armadas, convém saber que estava indigitado em 1974 para ser o próximo (e a breve trecho) director da DGS. Era portanto uma pessoa da total confiança do governo. E era também uma pessoa das relações próximas do general Spínola, sob as ordens de quem actuou na Guiné, nomeadamente na ultra-secreta "Operação Mar Verde" - raid de tropas especiais portuguesas (fuzileiros e comandos) à capital da Guiné-Conacry -, tendo formado, após a retirada de Spínola para Espanha e depois Brasil, no pós-11 de Março, o M.D.L.P - Movimento Democrático de Libertação de Portugal. O resto vejam no Google, para pouparmos espaço.

Ficamos assim a perceber um pouco melhor a amplitude do desacerto de Marcello (e de Thomaz) na condução de áreas nevrálgicas e cruciais para o regime, como eram as forças armadas (conferir, por favor, postal anterior a este respeito). Esta falta de tacto na abordagem a uma área da maior sensibilidade, era agravado por evidente desleixo na análise e tratamento de informação, pelos vistos, já conhecida. Estava uma bomba relógio em acção e, em vez de desarmadilhar o engenho, acelerou-se-lhe o relógio. A última coisa que um país em guerra precisa é de um governante que use de prepotência ostensiva para com aquilo que representa a própria Força maior duma nação. O próprio Calvão revela o pensamento da classe em relação àquilo: "execrável beija-mão".

Mas a verdade é que da parte das forças mais à direita, protagonizadas por Kaulza de Arriaga, havia, desde 1973, pressões junto presidente da República para substituir Marcello Caetano. Este chegou a apresentar a demissão por duas vezes. E quando o 25 de Abril lhe rebentou ao colo, era, indubitavelmente, um homem só, descrente, amargo (até por trágicas circunstâncias pessoais) e acossado. Nesse dia, a generalidade do país, de início, ficou na expectativa -o golpe tanto poderia ser de esquerda como de direita. Esta, se calhar, até era a mais esperada. E embora sendo de esquerda, como só posteriormente se iria revelando, em crescente virulência, era uma esquerda, por assim dizer, com pele de cordeiro. Nesse aspecto, Alpoim Calvão reforça integralmente a perspectiva do Capitão Van Uden: Os nomes que encabeçaram a Junta de Salvação Nacional, formada no 25 de Abril, justificaram as minhas esperanças de que o Programa apresentado à Nação fosse cumprido. Nomes prestigiosos como os generais Spínola, Diogo Neto, Galvão de Melo, Jaime Silvério Marques; os dois oficiais de Marinha - profissionais competentes e homens de bem - mereciam confiança. principalmente o comandante Pinheiro de Azevedo, meu mestre na Escola Naval, disciplinador sem mácula, fulcro na repressão dos agitadores, que, na década de 30, amotinaram o corpo de Marinheiros.»

A pele de cordeiro, que tinha o mais forte expoente  na figura de Spínola, funcionou assim como anestesiante, dardo tranquilizador da presa, até que o lobo da Quinta Coluna tivesse as patas bem seguras e instaladas no curral. Por isso, quando, finalmente, retirou  a pele, ficou, em todo o seu esplendor, a besta. Da revolução.

quarta-feira, março 18, 2015

A Acromiomancia Revisitada - V. A Vertigem de Pandora




«Uma guerra civil ou uma revolução em Espanha não tem mais consequências que uns tantos mortos e umas tantas ruínas; entre nós seria a perda imediata do Ultramar. E esse é o nosso drama.»
- A.O. SAlazar (a Franco Nogueira, Setembro de 1966)



«Fui adjunto do comandante de companhia e, na sua ausência, assumia o seu comando. Depois chegou um alferes que tinha tirado o curso com a 28º de Comandos, o Alferes Rodrigo Moura (que mais tarde ficou no Regimento de Comandos), e que veio substituir o capitão Humberto Carrapeta. Posteriormente graduado pelo general Kaúlza de Arriaga em capitão-miliciano, foi um comandante de companhia brilhante. Homem de imensas capacidades e de uma grande simplicidade, conseguiu fazer um trabalho notável. Pois, apesar de ter sido um militar distinto, de ter continuado a sua carreira no Regimento de Comandos, e de ter feito os mais variados cursos, continua este homem hoje - passados vinte anos - no posto de capitão. E refiro isto porque, curiosamente, uma das razões que levaram alguns oficiais do Quadro Permanente a formarem o chamado Movimento das Forças armadas - o MFA -, foi em parte o ciúme que alguns dos menos aptos sentiam das autênticas vocações militares de alguns oficiais-milicianos. esse mau corporativismo perdura, de tal maneira que um homem como Rodrigo Moura, um verdadeiro herói do Ultramar, continua a não ser promovido apenas por não ser oriunda da Academia Militar.»
- D.Francisco Xavier Damiano de Bragança Van Uden, Capitão Miliciano de Infª "Comando"; "GEP". ( Digníssimo bisneto de El-Rei D.Miguel)



Não é novidade para ninguém que o alicerce militar constituia o sustentáculo principal do Estado Novo. Essa circunstância conduziu a que se transformasse numa casta privilegiada e imbuída dum espírito corporativo doentio, porque, de certa forma, supra-mimado. Os militares estavam até, por assim dizer, fora do alcance da própria Pide/DGS, mesmo quando em actividades suspeitas ou conspirativas (como , de resto, sucedeu ainda no tempo de Salazar).As instituições de ensino militar, com destaque para as três principais - "Os pupilos do Exército", o "Colégio Militar" e a Academia Militar,  favoreceram o empolamento  duma "má-cultura" congénita, ou seja, em vez dum escol de servidores abnegados do bem comum, foram segregando a tal pseudo-elite de meros funcionários públicos mesquinhos, comodistas, frívolos e aparicados, para volúpia e desfrute, consoante os galões, das sopeiras ou madames. Nas palavras de Otelo, a vocação militar era descrita, com bom rigor, como "o ripanço duma vida sem problemas a troco dum vencimento jeitoso"..
Decorria este melhor dos mundos quando rebenta a guerra do Ultramar, com o seu agravamento em sucessivas e múltiplas frentes....
A guerra subversiva é uma espécie de conflito bastante complexo, que requer tratamento adequado, ou seja, métodos bem mais subtis do que os usados na guerra convencional. A resolução estritamente militar, especialmente em havendo apoio externo (e no nosso caso, havia imenso e fortíssimo) às forças subversivas, nunca é possível em absoluto. Mas é uma guerra cujo objectivo é igual ao de qualquer outra: vence quem retirar ao inimigo a vontade de combater. Já as suas características específicas podem sintetizar-se num efeito preponderante: desgaste ou erosão. Não apenas em termos materiais, de danos físicos, mas sobretudo em termos psicológicos, de danos morais. Quando se refere a "moral de combate" não tem nada que ver com a "moral de costumes", é bom que não se confunda. Uma tropa moralizada é uma tropa que acredita na causa porque combate, no dever dessa missão, na devoção a uma bandeira. Há depois outra coisa que se chama a honra do guerreiro, mas isso, infelizmente, ou se tem ou não se tem ( e remete para o andros dos tempos homéricos, fonte da nossa civiilização em certos conceitos patriarcais). Dificilmente se adquire por ensino, ou perde por desuso. O chefe natural não coincide necessariamente com o chefe burocrático, isto é, no momento do confronto guerreiro, debaixo de fogo, um soldado, pela sua bravura, determinação e presença de espírito pode sobrepor-se a todos os outros, incluindo os oficiais.
Assim, para o que agora mais importa,  no caso da Academia Militar, eram aí formados oficiais, que podiam ou não ser bons oficiais em tempo de guerra, quer dizer, que podiam ou não ser bons guerreiros. Alguns foram excelentes, outros bons, outros medianos e outros maus. Todavia, todos eram promovidos, não por mérito, mas por escrupulosa ordem burocrática de antiguidade. E esta profissão de fé, este autêntico tótem tribal,  sobrepunha-se a todas e quaisquer outras considerações. Daí a tal perversão mental que amesquinhava aquilo que era suposto constituir um escol genuíno, degradando-o  num escol postiço. Nos antípodas disto, e só para exemplificar um caso paradigmático, a Legião Estrangeira, o mais lendário corpo militar de elite à escala mundial, cumpria, nos seus tempos áureos (também já não é hoje o caso) um critério de promoção absolutamente meritocrático: chegava a sargento, oficial e comandante do regimento apenas alguém que se destacasse pela sua bravura e competência marcial desde o posto de soldado raso. Príncipes russos,  oficiais superiores de outros exércitos,  escritores famosos, quem quer que fosse, entrava na legião com o posto de soldado raso. Começa do nada em que principiava por ser. E ascendia ou não consoante o seu valor em combate. O príncipio vigente era, pois, vincadamente aristocrático
Ora, a nossa instituição militar não era aristocrática, como deveria (e adoptava a mera pose fátua de desfile), mas apenas, e ferozmente, burocrática. Era e é. Foi esse o principal cancro que minou  a estrutura e rebentou no 25 de Abril. 
Quanto ao que desencadeou e armou o gatilho que viria a repercutir  toda a nação na fatífica manhã, teve a simples forma dum decreto de lei, do então Ministro da Defesa Sá Viana Rebelo. Um decreto que, justa mas inoportunamente, tentava alterar essa burocracia arreigada. Justa, porque era de todo merecida; inoportuna, porque devia ter sido corrigida há muito e prevista desde antes da própria guerra . Não é no meio da bernarda que se alteram as regras do jogo. O efeito, nesse caso, será sempre contrário e adverso à intenção. E ao procurar corrigir uma maleita, arrisca-se quase sempre em provocar um mal muito maior. Foi o que aconteceu. Mas em que consistia.a tal lei...
Havia um problema crescente de preenchimento do efectivo de quadros do exército. Em tempo de guerra, o ripanço já não é garantido, pelo que a Academia fica um bocado às moscas. Os tipos com vocação guerreira rareiam (característica típica dos povos cada vez mais iludidos e amolecidos pelas sereias do conforto)). Pelo que teve que começar a recorrer-se, cada vez mais, ao recompletamento das necessidades do Ultramar com oficiais e sargentos milicianos (gente vinda do liceu e universidade). Nestes, como nos outros, havia os que tinham vocação e espírito para a guerra, e havia os que estavam ali sem gosto nenhum e bastantes ideias desmoralizantes. O Partido Comunista tripulava alguns deles.
A lei Sá Viana Rebelo (Decreto-lei 353/73) autorizava que os capitães milicianos, após um curso de aperfeiçoamento de 1 ano na Academia,  pudessem  ingressar no quadro permanente, onde lhes seria contado para efeitos de promoção o tempo de serviço em combate (o diploma era apenas aplicável às armas combativas - Cavalaria, Artilharia e Infantaria).  Os meninos da Academia acharam isto um crime de lesa carreira, atentado ao sacrossanto mapa de promoções, pelo que, zelotas ultrajados, inciaram reuniões, que começaram por ser sindico-corporativas e acabaram no endo-esqueleto do Golpe militar de 1974.
Os oficiais milicianos tiveram assim um duplo efeito perverso: os maus tornaram-se foco de contaminação desmoralizante (junto das tropas no terreno e dos outros graduados); os bons, e alguns dos melhores combatentes portugueses foram milicianos, devieram causa para um gesto imprudente da governação.
Não deixa também de ser irónico que foi do que começou por ser um efectivo movimento reaccionário de ordem corporativa (de resistência à mudança) que veio a germinar e emergir um movimento pseudo-revolucionário. Quer dizer, para que se mantivesse a casta em todo o seu regalo burocrático, tinha que se mudar o regime da nação. Ou dito em termos actuais: "Olha, já que vamos lá protestar, aproveitamos e mudamos o governo!"
A transformação do mero egoísmo funcional em altruísmo revolucionário (o reprimir o desplante miliciano camuflou-se de libertação nacional) foi a forma de mascarar este movimento não apenas de capitães, mas de capitães contra outros capitães, tenentes e alferes (que a casta ofendida considerava inferiores e indignos de idênticos privilégios). Foi também uma frente contaminada e armadilhada desde muito cedo por um oportunismo premeditado e capcioso, onde certas figuras mais politizadas por ideários peregrinos e virulentos (ou meras ambições pessoais desmedidas), manobraram, manipularam e conspiraram sem grandes embaraços. Mas essa influência, estou em crer, nunca seria determinante per si. O que lhes facilitou o trajecto e o posterior malefício foi o próprio e inusitado decurso dos fenómenos. Inebriados pela resignação fácil e inerme do regime mais os banhos populares subsequentes, os pategos fardados enquistaram-se na própria máscara e deixaram-se conduzir, alegre e parolamente, pelos acontecimentos... e por aqueles que tinham uma receita prévia para os mesmos. Tirando estes, todos os outros eram autênticos parvenus da revolucinha, com todos os tiques, paloncices e deslumbramentos inerentes. Uma adolescência pegada, serôdia e impenitente, forjada em parque infantil temático.
O entranhamento corporativo era tão profundo, despótico e atávico entre o circo do MFA que foi possível alistar na mesma cegada indivíduos ontologicamente tão díspares como Otelo Saraiva de Carvalho e Jaime Neves. Precisamente porque o que os unia no golpe, não era, manifestamente, algo de ordem política, mas corporativa. Era o Quadro Permanente dos puros contra os espúrios, os rafeiros, os intrusos. Higienismo corporativo, se me permitem o termo.
Um Império soçobrou num mar de infâmia por causa  duma coisa tão reles, pífia e mesquinha? Sim. Restam dúvidas? Apesar do aviso, deixaram-nos à vontade  com a boceta. É possível lavar esta nódoa da face do Exército Português? Com uma espécie de novas Termópilas, talvez. Pela minha parte, e na condição vitalícia de ex-oficial Milº "Comando", embora não tendo participado no descalabro, partilho a vergonha. Pelo que estarei sempre pronto.
E é preciso não esquecer que só uma coisa ficou guardada: a esperança.

PS: O corporativismo do antigo regime, quanto a mim, potenciava perversões decorrentes do carácter pouco nobre dos portugueses. Se a ideia era desarmadilhar a "luta de classes", acabou, de algum modo, por se fomentar a "luta de castas", ainda hoje tão frequente e mediocrizante entre nós. Aprofundarei este considerando quando me debruçar sobre a "formação das elites".

PS2: Em 21 de Fevereiro de 1966, escreve Franco Nogueira no seu diário: "Conversa ao acaso com o Director da Polícia Internacional. Falei-lhe da censura, que me parecia exagerada e às vezes estúpida. Concordou, e disse que há um ambiente político desagradável. Curioso: mostrou apreensão sobre o que se passará com o desaparecimento de Salazar. Em seu entender, apenas as Forças armadas "aguentarão isto", e repisou este ponto de vista uma e muitas vezes.


terça-feira, março 17, 2015

Consultório oracular



Convoca-me um Jovem pós 25, aí na caixa comentarial do postal anterior, à seguinte e espinhuda questão:
« o regime já estava em total desagregação moral; » (Com o "regime" quer ele significar o pré-25 de Abril de 74).

Grande novidade, caro jovem. Pois estava. Chamava-se "Marcellismo" ou, como ele pomposamente estimava catalogar: Estado Social. Ou como Salazar, outrora, vaticinara e avisara acerca de Hitler: quando se vai caçar no território inimigo, acaba-se geralmente caçado.
Coisas de aprendizes de feiticeiro, enfim.

Mas isso, também, deixe que lhe diga, não explica nada. Não sei se já reparou, mas entre nós os regimes estão sempre em permanente estado de desagregação moral e não é por causa disso que caem. Ou sequer periclitam. Mesmo quando a desagregação moral é agravada de desagregação económica, política e até estética, eles continuam todos contentes e satisfeitos da vida, como se nada fosse. Vou mais longe, quanto mais degradados na moral, na economia, na política e até na comédia, mais sólidos e resolutos se ostentam. Sou até levado a crer que o problema da degradação moral do anterior regime, para os seus ferozes críticos, se pecava era por escassa e pouco lesta e desembaraçada. Não se admitia um vagar daqueles. Havia que apressar a coisa e torná-la bastante mais trepidante e fogosa. Modernizar, enfim. Não somos menos que os outros, ora essa! Se eles se desagregam de automóvel, havíamos nós de ir a pé (e ao pé-coxinho, ainda por cima!)?
De lá para cá,  a coisa até já vai a turbo. E a jacto.
Mas a verdade é que nunca estão satisfeitos nem a coisa se degrada a uma velocidade bastante. Competem, é certo. Revezam-se, de modo a nunca perderem o balanço, o ritmo, a aceleração. Sprintam com vigor, a cada ano pré-urnopédico. Embrulham-se, conspurcam-se, cobrem-se mutuamente de cuspo e escarros. Mudam de fato, de gravata, de convicção. "Estamos a degradar-nos a uma velocidade nunca vista!", proclama o governo. "Caracóis, lesmas, preguiças!", vaia a oposição. E porquê tamanho frenesim, tanto despique, tão grande afã?
Porque, lá bem no fundo, sabem da lei universal que lhes preside: A possibilidade efectiva da mudança é inversamente proporcional à velocidade contínua da desagregação.
Concluindo: estava em degraguegação o anterior refime? estava. Mas não estava numa degradação suficientemente rápida. O 25 de Abril, para regalo geral, veio reparar essa inadmissível avaria.

Desculpe lá, mas por momentos aconteceu-me  uma daquelas raras, mas fortes, recaídas oraculares.


segunda-feira, março 16, 2015

A Acromiomancia Revisitada -IV. Da Quinta Coluna ao Anedotário Internacional




«Sem apresentarem soluções para nada, os oposicionistas estúpidos dos anos 70 divertiam-se com as desconcertantes contradições do regime. Nenhum deles valia coisa alguma: liberais uns, marxistas outros, reaccionários quase todos, tanto que pretendiam recomeçar a vida política portuguesa no dia 27 de Maio de 1926...»
-  Bruno Oliveira Santos


Falemos específicamente dos comunistas.
A sua importância é crucial porque protagonizaram a efectiva "oposição ao regime". E serviam para diluir e desacreditar todas as outras. Salazar extraía deles essa utilidade prática. No resto, eram combatidos firmemente, mas sem aqueles afãs de extermínio físico típicos de outros autoritarismos da época. Convinha apenas mariná-los em lume brando. Depois, alguns deles até eram filhos de boas famílias...E como o próprio Salazar definia, "importava mais combater a doutrina do que os homens por ela seduzidos".O estado Novo queria-se uma revolução suave e os seus rigores repressivos de uma parcimónia cristã.
Convém, todavia, não confundir ou resumir aos comunistas o pensamento de esquerda. É preciso não esquecer que o Estado Novo surgiu dum golpe contra o republicanismo efervescente da 1ª República e teve que coabitar desde sempre com anti-corpos mais ou menos latentes, como certa esquerda republicana, a maçonaria e até alguns vira-casacas que, conforme as ventosidades históricas do instante, assim aariscavam certos golpes de asa oportunistas. De resto, as superstições socialistas já remontavam a Antero de Quental & Companhia. E o Partido Democrático, em matéria de jacobinismo serôdio, mas feroz, fora um must. Todavia, havia uma audácia que essa esquerda, nem por sombras, professava: o abandono do ultramar.
Por conseguinte, os comunistas não inventaram nem inauguraram  uma cultura de esquerda ad nihil. Integraram-se nela e, aos poucos, aglutinaram-na. Durante o processo, acrescentaram apenas alguns têmperos mais picantes e idiossincráticos: uma estratégia de conquista do poder; e uma estratégia de subversão que se englobava num movimento internacional concertado. Ou seja, como correia de transmissão da central em Moscovo, o objectivo fulcral consistia no desmantelamento do Império (esta, era, de resto, a sua originalidade maior), mascarado de libertação dos povos oprimidos. Para a concretização desses objectivos, os comunistas dispunham duma receita testada e  promulgada por Lenine: infiltração dos meios culturais e de informação, agitação e catequização da parte da população mais vulnerável e sensível á retórica revolucionária, e, detalhe essencial e sine qua non, alistamento e conjura de parte das forças armadas.
Salazar tinha perfeita consciência disso. E entendia os comunistas como aquilo que realmente representavam: mais que uma mera ameaça ao regime, uma ameaça à civilização. Quando António Ferro lhe pergunta "como vê Hitler?", a resposta é esclarecedora e atestativa do seu frontal anti-comunismo: -"A Europa deve-lhe o grande serviço de ter recuado, com assombrosa energia e com empolgantes músculos, as fronteiras do Comunismo."
Mais adiante, disseca o problema nos seguintes termos:
«O comunismo, como era de prever, tem-se demonstrado na sua aplicação prática uma teoria anti-natural e profundamente anti-económica. Esse retumbante fracasso não tem, porém, evitado que nalguns países se continue a olhar a Rússia como um Eldorado e a pretender imitá-la até naqueles caminhos que ela própria abandonou. (...) Em todo o caso, dum modo geral, pode afirmar-se que o Comunismo, doutrina económica, está outra vez na sua curva descendente. O Comunismo político, porém, está longe de se encontrar na agonia, porque tem vindo a aglutinar, pouco a pouco, todas as forças de esquerda, porque é bandeira a cuja sombra se abrigam todos os movimentos de desordem ou inversão social. Os próprios liberais, que, parece, deviam ser os maiores inimigos dos comunistas, pela negação absoluta da liberdade que o comunismo importa, acolhem-se, não sei porque desvio, a essa bandeira. (...) O Comunismo é a palavra da desordem, a 'frente popular' dos baixos instintos revolucionários do homem de hoje, e, tendo-se transformado de sistema económico em doutrina política, social, moral, religiosa, com a exploração dos mais baixos instintos do homem e dos seus piores defeitos, é impossível negar-lhe o seu perigosos dinamismo que devemos combater sem tréguas.»
Naturalmente, os comunistas pagam-lhe da mesma moeda, arrolando-o no bloco fascista, que a retórica internacionalista da época nomeia e verbera como o grande inimigo da Mãe Soviética. E, de facto,  Salazar, operativamente, nesse território do combate ideológico, embora longe do fascismo italiano na orgânica, no sistema e na metodologia, reconhece-se como co-participante dessa luta titânica contra a tentacular ameaça comunista ao Ocidente. Dessa "gesta heróica", em que os comunistas portugueses se fantasiam numa comunhão épica com a 'Frente Comunista' do resto da Europa, germinará o epítetro  "fascista", que emerge no 25 de Abril e depois se populariza nos mass-media até aos dias de hoje. O termo assoma da clandestinidade à luz da revolução florida em conjunto e uníssono com aqueles que o usavam desde os tempos da Guerra Civil Espanhola (o primeiro - e sobremaneira  próximo - espaço europeu dessa ideo-beligerância marcante). A derrota das forças republicanas no país vizinho é descrita pelos nacionalistas, cá e lá, como a queda do "exército vermelho". E porque os comunistas se foram tornando - por dinâmica própria e, até certo ponto, por conveniência táctica do próprio Salazar -, numa espécie de senhores feudais da oposição, o seu léxico era adoptado e assimilado pelas restantes forças coalescentes.
Ora bem, se Salazar tinha um diagnóstico atento e lúcido do problema, se o próprio aparelho repressivo se destinava específica e quase exclusivamente a esse combate, se os comunistas, em termos numéricos, eram uma minoria, como explicar toda aquela fermentação, preponderância e sobreactividade logo a seguir ao 25 de Abril?
Sendo, como é sabido, o único partido oposicionista organizado, cumulando com os atributos, funções e apoios inerentes à 5ª Coluna de uma superpotência hostil,  não espanta que o Partido Comunista se tenha rapidamente aproveitado do caos resultante da queda abrupta (e patética) do regime. Talvez não contasse pela oportunidade para tão breve, mas fazia parte do seu código genético espreitar e explorar a brecha. Afinal, se as condições concretas se antecipavam às objecticas, só havia que cavalgá-las. Também não surpreendeu tudo aquilo que se seguiu - descolonização desastrosa, desestruturação económica, intoxicação propagandística, saneamentos, etc, etc.
De tal modo que, ainda hoje podemos dar com a jeremiada dos "comunistas, malvados, nacionalizaram, descolonizaram à canzana, deram cabo disto tudo, e por aí fora". Mas era suposto os comunistas fazerem o quê? Por muito que nos custe, eles estavam a cumprir o dever perverso deles. A  sua fidelidade não era para com Portugal, mas para com uma ideologia e uma afeição estrangeira. Se lhes abriam a porta e estendiam a passadeira, haviam de fazer-se rogados? Ora, aqui é que se separam as águas. Numa derrota miserável, vil e a todos os títulos indecorosa, não podemos responsabilizar o inimigo pela nossa cobardia, desleixo ou pura falta de comparência ao combate. E daqui não arredo pé: quem não cumpriu o seu dever para com Portugal foram aqueles que lhe juraram fidelidade e, ou o trairam, ou dele desertaram na hora difícil, ou o abandonaram ao repasto das hienas. E neste capítulo das responsabilidades, temos que começar por cima: Marcello Caetano, o Presidente do Conselho em exercício. Que fez ele em resposta à golpada peregrina?
a) Assombrosamente, ou talvez não, ao saber do avanço da coluna de Santarém para Lisboa, em vez de recolher à Base Aérea do Monsanto, como estava previsto para situações de emergência, e donde poderia ser evacuado de helicóptero em caso de necessidade operativa, vai encurralar-se no Quartel do Carmo.
b) Ao longo do dia, proíbe toda e qualquer acção contra-revolucionária às forças militares leais ao regime. (Perante tão gritante passividade, começa o bandeamento para o lado revoltoso de várias unidades, muito típico da mentalidade portuguesa).
c) Proíbe a PSP e a DGS de intervirem.
d) Quando as unidades de Cavalaria 7 e da GNR cercam os efectivos da Escola Prática de Santarém já no Largo do Carmo, ordena a retirada das forças leais.
e) Sem poder legal para o efeito (competia ao Presidente da República) entrega o Poder ao general Spínola, como representante da Junta de Salvação Nacional.
f) Antes de Abril, e ao longo de 1974, tinha apresentado por duas vezes a demissão ao presidente da República.
g) Num ambiente prévio de intentonas, conjuras, levantamentos sucessivos, o regime podia e deveria ter convocado tropas a sério, do Ultramar (ou reactivar companhias de Comandos desmobilizadas, como aconteceu no 25 de Novembro) para proteger o ponto, ao fim e ao cabo, mais nevrálgico de todo o dispositivo nacional. Nada fez. Tudo somado (e dando de barato a conivência de Caetano com Spínola e deste com o engodo alheio à sua imensa vaidade), dir-se-ia que se Salazar teve o azar de cair da cadeira, num infeliz acidente, já Marcello atirou-se deliberadamente dela abaixo, numa tentativa patética de suicídio. O único problema é que arrastou todo uma nação junto consigo. O resultado prático da queda de ambos é que o insigne professor continuou a dar aulas no Brasil, mas a nação, por via da pancada, nunca mais disse coisa com coisa.

Das responsabiliades militares subsequentes na ordem de gravidade, falarei num capítulo à parte. Deixo aqui apenas uma mostra eloquente quanto à qualidade bélica do aparato golpista, segundo a excelente pena do estimado Bruno Oliveira Santos (no seu interessantíssimo volume "Histórias Secretas da Pide/DGS"...) Serve para rirmos e chorarmos ao mesmo tempo:
«Chegada a coluna motorizada de Santarém a Lisboa, o comandante Salgueiro Maia perguntou a um polícia [sinaleiro?] como se ia para o Terreiro do Paço. Esclarecido, pôs-se a caminho, perante o olhar assustado dos galuchos que o acompanhavam. No Campo Grande, a coluna parou ordeiramente em cada sinal vermelho, receando talvez que algum polícia {de trânsito? Sinaleiro?] mais zeloso apreendesse toda aquela sucata por manobras perigosas. No Quartel da Pontinha, transformado em posto de comando do MFA, Otelo ordenou que uma coluna da Escola Prática de Infantaria, de Mafra, avançasse para Lisboa com o propósito de conquistar o Aeroporto da Portela, com vista a impedir o levantamento ou aterragem de quaisquer aviões. Mas, como não houvesse nenhum polícia [sinaleiro? de trânsito?] ali à mão, a ensonada coluna mafrense seguiu por caminhos ínvios e foi dar a Camarate, perdendo-se em ruas apertadas onde mal cabiam os duvidosos carros de combate.
Quatro horas depois de sair de Santarém, a coluna da Escola Prática de Cavalaria chegou finalmente ao Terreiro do Paço. A fragata Gago Coutinho, que integrava a esquadra da Nato, subiu o Tejo e parou, enorme e ameaçadora em frente dos insurrectos. Mas o comando da fragata também estava em boas mãos. O almirante António Louçã (pai de Francisco Louçã, do PSR), em vez de disparar sobre as forças sublevadas e acabar ali com aquela aventura insensata, aproveitou antes o histórico momento para contemplar a grandiossidade da arquitectura pombalina, a largueza da praça, a iomponência das arcadas, a majestade do Arco da Rua Augusta, umas vistas formidáveis sobre o amplíssimo conjunto. Vale a pena passar os olhos pelo relato que deste pitoresco episódio é feito pelo então Ministro da Defesa, Silva Cunha, no seu livro O Ultramar, a Nação e o 25 de Abril: (...) liguei para o Estado-maior da Armada e disse ao seu chefe, Almirante Ferreira de Almeida, que ordenasse  à fragata que cruzava em frente da Praça do Comércio que fizesse alguns tiros de aviso sobre as forças revoltosas que ali se encontravam.
Fiquei a aguardar. Pouco depois telefonava-me o Dr Marcello Caetano que, mal humorado, me disso que o Almirante Ferreira de Almeida lhe falara pelo telefone, dando-lhe conhecimento da ordem recebida e perguntando se devia cumprir.
Confirmei ter dado a ordem.
O Presidente do Conselho linitou-se a perguntar quem estava a orientar as operações, não se pronunciou sobre a minha decisão (...)»

Entre nós, há muito o hábito, por manha ou conveniência, de procurar condundir os efeitos com as causas, ou melhor, de desculpar a lavar as causas nos efeitos. Como se os filhos servissem apenas de fralda e alibi às mães.



domingo, março 15, 2015

A Acromiomancia Revisitada - III. Do prelúdio ao Dilúvio




«Marcelo Caetano é um belo espírito, tem grandes faculdades de trabalho, é muito culto e sabedor; mas não é flexível, não suporta a contradição mesmo em privado, não aguenta uma ideia oposta, e perde facilmente a moral, apossando-se de pânico e tendo então a tendência para seguir a corrente geral.»
- A.O. Salazar (a Franco Nogueira)

Marcelo Caetano era um excelente académico, um emérito professor e um distinto chefe de família. Mas uma péssima escolha para suceder a Salazar. A situação não requeria brilhantismo intelectual, exigia, sobretudo, firmeza de carácter e tenacidade de espírito. Caso contrário, em vez dum fortalecimento do empreendimento nacional, ocorreria fatalmente uma transição. Como, de facto, aconteceu. Num certo sentido irónico da história, o monge cedeu passo ao pontífice - a primavera Marcelista fez a ponte - e o prelúdio - para a primavera abrileira. De algum modo, a sua substituição do Estado Novo pelo Estado social antecipou o Estado Socialista E em vez de evitá-lo, como em tese pretenderia, apenas o apressou e lhe pavimentou o caminho. Já que ao pretender, muito hegelianamente, antecipar-se-lhe na síntese, afinal, apenas, lhe anteparou o desenlace marxista. 
Para alguns requintes dessa transição, socorro-me do relatório de um homem insuspeito de simpatias esquerdistas - Jaime Nogueira Pinto, no seu  "O Fim do Estado Novo e as origens do 25 de Abril" (obra que ainda para aqui tenho, oferecida e autografada pelo próprio):
«Um dos primeiros personagens a dar sinal das novas disposições foi o ministro do interior. Gonçalves Rapazote, o qual, menos de um mês após a subida de Marcello ao poder declarava, na posse do novo governador civil de Beja, que "a árvore que cresceu e enraizou nestes 40 anos" iria "receber uma poda cautelosa e prudente", anunciando em florido estilo, a "Primavera política" que estendia as suas delícias sobre o país.
(...)
Manuel Maria Múrias era um jornalista nato. Autodidacta, como gostava de se gabar, possuía um estilo rico, virulento, desassombrado, que o tornava temível na polémica. Suspeito de salazarismo e nacionalismo, foi eliminado da direcção do telejornal.(...)
Era presidente do conselho de administração da RTP João Duque, um nacionalista conservador, respeitado pela sua integridade e coerência. Com o advento de Marcello Caetano, Duque pusera o seu cargo à disposição do Governo. Entretanto, Marcello reiterava-lhe, pessoalmente, a sua confiança, insistindo para que ficasse. Mas, ao mesmo tempo, começavam a surgir para Duque, a nível superior e de serviços, certas dificuldades; e vinha a saber, que enquanto lhe diziam pra ficar, formulavam convites a outras personalidades para ocupar o lugar. O escolhido era Ramiro Valadão.(...)
É Valadão que Marcello, apesar das advertências e conselhos em contrário, vindos da sua própria entourage, vai chamar para dirigir o mais importante meio de informação do país e que regressa, triunfante. Valadão indicava, caso a caso, o tempo que teriam os ministros que eram bafejados, com mais ou menos filme. Vigiava-se escrupulosamente para que fossem cumpridas as suas instruções. O que nem sempre era fácil; havia, por exemplo, determinadas personalidades que não se mostravam nem mencionavam. Paulo Rodrigues, culpado do 'exílio' de Valadão [nos Estados Unidos], era uma delas. Adriano Moreiram, que se achava incompatibilizado com Marcello, era outro dos 'proibidos'. Como mais tarde Franco Nogueira e Kaúlza de Arriaga.
Ao mesmo tempo, o novo senhor do Lumiar ensaiava a 'liberalização' da sua casa, abrindo portas a intelectuais ditos de 'esquerda'. alguns dos quais tinham a dignidade de recusar. Outros, acediam gostosamente. Os reaccionários eram depurados sem aviso prévio, como sucedia a Eduardo Freitas da Costa.»
Isto serve apenas de pequena amostra. Poderia ficar aqui a debulhar páginas e páginas...

Não deixa assim de ser curioso que, quando no pós-25 de Abril se proscreve e interdita a "direita reaccionária" (tudo o que estivesse para lá do centro, era considerado fascista), apenas se estava, em certa medida, a confirmar e acentuar uma depuração que já vinha da primavera Marcelista. A única diferença é que o silêncio deu lugar ao léxico descabelado e o ostracismo político ao pelourinho ostensivo na comunicação social. E também não deixava de ser bizarro que aqueles que haveriam de "nacionalizar" a tordo e a direito, tivessem por premissa primordial a ilegalização dos nacionalistas e o descartamento a retalho da Nação.
Da mesma forma, muito do oportunismo, insectomorfismo e moral de gelatina  a que assistiremos posteriormente nos grandes partidos ditos democráticos já se encontram aos molhos entre a camarilha que gravita em torno de Marcello, à pinga das simpatias e boas graças do  mandarim. Este novo presidente do Conselho augura já, enquanto centro gravitatório, o secretário-geral/primeiro-ministro do futuro. De resto, muita desta fauna (se não em pessoa, seguramente por interposta descendência) transmigrará de armas e bagagens para o PSD, PS e CDS, onde, reencontra e reinstala mais que o tachismo de outrora, um devorismo à tripa forra, premiado com subsídio e bênção internacionais. Do melhor dos mundos pós-Salazar, e após uma breve contrariedade tumultuária, ascenderam, com fussanguice e diligência,  ao oásis à beira-mal plantado. Só que doravante sem quaisquer peias, inibições ou escrúpulos com a pátria, o bem comum, ou quaisquer outros desses anacronismo que Salazar, mais pelo seu próprio exemplo e rédea curta do que propriamente por alguma espécie de  mentalidade nacional profundamente arreigada, obrigava e rebocava, cada vez mais a contra-gosto.
Entretanto, esta corrosão e liquefacção interna era acompanha de uma pressão externa, permanente, incidiosa e asfixiante. Americanos, Russos e o próprio Vaticano remoçado  patrocinavam a mudança e o advento dum novo tempo, telecomandando para o efeito uma panóplia de títeres, que iam desde o partido comunista e seus satélites aos católicos progressistas a papa milupa do jaez dum Alçada Baptista e outros bivalves que tais. Menos exuberantes, mas mais generosos e cirúrgicos, os américas iam adquirindo assets, no próprio aparelho de estado, desde os militares à própria polícia política. Por outro lado, dois outros grandes fenómenos iam contribuindo para o agravar do "estado de sítio": a guerra do ultramar e os movimentos migratórios/emigratórios. Aquela merece e exige um capítulo só para si; estes enxamearam, por um lado, a capital de massas alentejanas/ribatejanas para as indústrias (da metalurgia à construção), que facilitariam o recrutamento comunista e as acções de rua e controle da capital no pós-Abril; por outro, o princípio da deserção do interior no norte/centro do país e a inerente expatriação e estrangeiramento daquele que constituía o principal símbolo e baluarte moral do Estado Novo: o "bom povo rural". Os Bidonvilles de Paris e os bairros de lata de Lisboa atestam destes fenómenos paralelos que, por seu turno, indiciam falhas evidentes e, quiçá, fatais, na política interna dos fins do Estado Novo. Falhas de que o próprio Salazar suspeitava e se ia apercebendo, à medida que ia verificando a incompetência e ineficácia grosseiras de alguns daqueles que o rodeavam no próprio governo. Encontramos inúmeras referências disto no Diário de Franco Nogueira ( refiro apenas este exemplo fascinante: "Lisboa, 3 de Maio de 1966 - Conselho de Ministros. Carlos ribeiro, Arantes e Oliveira e Neto de carvalho foram violentos, rudes e mesmo cruéis nas suas críticas às estruturas administrativas portuguesas, às faltas, às misérias, às injustiças. Salazar ouvia tudo sem pestenejar. Depois do Conselho, em privado, o chefe do governo, a sorrir, confia-se-me assim: 'Deu-me vontade de lhes dizer: mas eu não proibi V. Excas de governarem bem e de tomarem as iniciativas apropriadas para evitar ou corrigir as faltas apontadas.' Sarcasmo sangrento - e delicioso."), como na correspondência de Pedro Teutónio Pereira. O certo é que o "bom povo rural", pelo contacto e contágio de urbes e úberes mais abastados, devem propaganda viva quer a uma "europeização", quer a "uma sovietização" (no caso do viveiro lisboeta). Havia também aqueles que migravam para África, mas esses não voltavam. Voltavam apenas os soldados, deslumbrados com Luandas e Lourenços Marques, mais desenvolvidos, liberais e trepidantes do que a própria capital do Império. E populações negras para com quem o Estado Português manifestava mais desvelo e preocupação do que para com o seu próprio interior metropolitano.
Assim, duma parte os relatos das maravilhas europeias onde portugueses famélicos encontravam a salvação, de outra as reportagens de delícias tropicais sustentadas pelo sangue dos filhos do povo (a burguesia regimental e outra tratavam de pôr os filhos a salvo na Paris Rive-gauche; e a academia militar atingia percentagens ínfimas de candidatos), foi inoculando os espíritos gerais (populares e não só) de um crescente ressentimento em relação ao sorvedouro ultramarino.
A ideia de que o Ultramar, jóia sobretodas preciosa para Salazar, bem vistas as coisas, não passava duma carga insuportável (e imoral) para a Metrópole, foi-se instalando muito antes do 25 de Abril. De tal modo que quando este eclodiu, todas as miras apontavam num único e congregante alvo: Descolonização. E era, exclusivamente, disso que se tratava. O resto era paisagem.

O trajecto do Estado Novo foi a todos os títulos notável e, direi mesmo, paradigmático em matéria de política externa. O mesmo não posso dizer no que respeita à política interna. E a prova que apresento, sobretodas, é que enquanto se combatia competentemente a subversão e respectivo húmus nutriente no Ultramar, permitia-se que ambos germinassem e proliferassem na metrópole. Falta de recursos ou falta de visão? Ou uma nação orgulhosamente só dirigida por um homem quase sozinho?

Salazar honrou o passado e cuidou do presente, mas não acautelou devidamente o futuro. Talvez porque este lhe causasse uma profunda antipatia, dados os parâmetros vilmente materialistas em que se anunciava e por toda a parte desfilava, fátuo e basofiante. Talvez porque, por un fatalismo intrinsecamente português, adivinhava que, fisesse o que fizesse, jamais poderia suceder a si próprio.  Ou talvez ainda porque o presente nunca lhe tenha deixado grande margem de manobra para acautelar o futuro condignamente... Como a política externa sempre o distraíu soberanamente da política interna e da sua corte inexpiável e imarcescível de homúnculos, intrigas e grandes vaidades balofas. Embora, em contra-corrente com a generalidade dos portugueses, o estrangeiro sempre lhe tenha interessado mais para combater do que para copiar. E nisso compreendo-o bem: na santa guerra ao alógeno, um tipo até se esquece do almoço.



sexta-feira, março 13, 2015

A Acromiomancia Revisitada - II. Um país sem rei nem roque




Já em 1936, é o próprio Salazar que relata um episódio altamente sugestivo e ilustrador da "mentalidade portuguesa"...
«Lembro-me de que no meu único dia de deputado se debruçou em certa altura sobre a minha carteira um dos homens que neste país ascenderam  às mais altas situações: pertencia à maioria da câmara  e esta era Conservadora. Esse chefe político, que daí a poucos meses veio a ter uma morte horrorosamente trágica, disse-me com ar de desânimo: 'Nada poderemos fazer. Em França as eleições acabam de desfavoirecer os conservadores. A hora é das esquerdas.'
Nunca mais se me varreu da memória essa tristíssima impressão de um governante com maioria na Câmara se sentir moralmente abatido, só porque fora de certa tendência o resultado eleitoral num país estrangeiro.»

Por sua vez, Franco Nogueira,  escreve a 25 de Abril de 1966 (data, a todos os títulos, irónica; e profética) no  seu Diário:1960-1968:
«Inaugurada na Sociedade de geografia, à noite, a Semana do Ultramar. Através de falas e discurso, só pensei numa coisa: no silêncio equívoco de ingleses e americanos quanto à Rodésia. Podem produzir-se acontecimentos de gravidade. E o país encontra-se na maior indiferença. Não me ocorre nada que se deva fazer. E bater-nos-emos? Salazar parece confiar num milagre, mas eu não vejo como este se possa dar. É verdade que os milagres se caracterizam por não se saber como se possam produzir - e produzem-se. E depois - tenho sempre a sensação de que somos um povo subserviente, amedrontado, curvado perante os outros com a espinha a tremer espavorida ao menor bater de pé de uma qualquer potência, ao menor bocejo abespinhado de um qualquer governo estrangeiro

Será mesmo - esta subserviência e poltranice dos portugueses - um fenómeno atávico, recorrente e incontornável? Quer dizer, o português, de seu ordinário, é mesmo um gastrópode ranhoso e assustadiço?
Posso referir alguns dados históricos ou da mera experiência pessoal...
Por exemplo, na história militar, o exército português é considerado o suprassumo na bravura e coragem em matéria de resistência ao cerco e assédio. Um fortaleza defendida por portugueses é qualquer coisa digna de impor respeito a forças hostis, mesmo quando dotadas de superioridade esmagadora.
Significa isto o quê? Que uma vez sem possibilidade de fuga, os portugueses,  resignam-se à sua coragem e batem-se com o desespero dos suicidas e a fúria dos encurralados? Bem, mas podem sempre render-se e não lutar. Como aconteceu, por exemplo, na queda de Goa, Damão e Diu. Então o que é que os transporta, aos portugueses, à bravura ou à desonra cobarde?
Tive o privilégio de comandar militarmente portugueses. Devidamente liderados, são (ou eram), pela sua rusticidade, desembaraço, abnegação e espírito de sacrifício, das melhores tropas do mundo. Mal comandados, são um desastre completo e uma bandalheira ambulante. Uma certeza: os mesmos, dependendo do líder, são capazes do melhor e do pior. Já dizia  Camões que um rei fraco faz fraca a forte gente.
Ora, os mesmos portugueses que em 1961, diante do horror dos massacres da UPA, lutaram e não arredaram pé, treze anos depois, debandaram miseravelmente. Militares, civis, quase todos zarparam à pressa, de cara no chão e  imbamba às costas. Quer dizer, os mesmos que tinham sido corajosos e perseverantes durante uma década, num momento de desnorte e fraqueza, tornaram-se assustados e cobardes.
Na essência, que factor predominante determinou uma tão colossal e vergonhosa mudança?
Pela voz desse "factor":
«Nós precisamos duma coisa que nunca tivemos e cuja falta sensível tem sido a causa dos nossos altos e baixos: formação das vontades para dar continuidade à acção. De quando em quando aparece na História de Portugal um rei, um estadista, um chefe, que levanta a Nação, que faz um pedaço de História, e que a deixa cair quando desaparece ou morre.»
- A.O.  Salazar, 1932

Em 1961, vivia ainda um homem de 80 anos cuja vontade era capaz de congregar e animar ainda uma nação. Em 1974, essa nação perdera a vontade. O ânimo deu lugar ao desânimo. A crença à descrença. O rumo à desorientação.
Neste novo Alcácer-Quibir, repetia-se, em parte, o problema da sucessão - só que enquanto no anterior este decorrera do desastre, neste precedera-o, anunciara-o e propiciara-o.

O livro de Ploncard d'Assac sobre Salazar, termina com uma frase tocante e, ao mesmo tempo, trágica... Porém, verdadeira:
"Agora, debaixo daquela lousa nua e quase anónima, descansa aquele que por mais de 40 anos 'reinou' sobre o último Império do Ocidente."

A principal causa do 25 de Abril? 
Tentam preencher a resposta com uma série de fenómenos e protagonismos  mais ou menos ablutivos, expiatórios, e extremamente convenientes, quando não anestesiantes da má consciência (já lá iremos, no postal seguinte)... Mas na verdade tratou-se, essencialmente, duma ausência, duma omissão, duma vacuidade: Falta de Liderança. Ou dito simbolicamente: Um trono vazio.


NECROLÓGIO

Foi de comboio.
Não logrou separar o trigo do joio
entre os que lhe saíram na rifa para governar a cidade.
Por isso o despacharam por tarifa
em grande velocidade.

Morreu sozinho.
nem lhe deixaram beber o chazinho
da Senhora maria,
que tantos anos o tratou com esmero.
(esteve vinte e dois meses em agonia,
o que é um exagero).

Ah! Fizeram-lhe a última vontade:
ser sepultado longe da cidader,
em campa rasa, ao pé dos pais,
para que a sua fama não ofenda.
isso simplificou os funerais.
nem de encomenda!

Simples cortejo
de labitas. A ponte sobre o Tejo
nem sequer ostentou crepes bizarros.
E o protocolo estendeu-se ao comprido
porque antes deles já tinham morrido
o Dantas e o Leitão de Barros.

Metia medo.
Por isso foi quase em segredo
que o tiraram da sua moradia
e dispensaram lutos a capricho:
em vez do nobre armão de artilharia,
o camião do lixo.

Lá nos Jerónimos
teve, é certo, a homenagem dos anónimos
a quem no mundo só deixou saudades;
e as cornetas tocaram a sentido.
Mas, como oração fúnebre, foi lido
um artigo de fundo das "Novidades".

Repousa em paz.
Por tudo quanto fez, desde rapaz,
o nome que deixou ninguém o esqueça:
António de Oliveira Salazar.
Como D. Sebastião, viveu depressa
e morreu devagar.

P.S.

Não foi por mal.
A verdade é que nós, em Portugal,
somos todos isentos de maldade.
mas, depois da Marítima Aventura,
só com ele soubemos estar à altura.
Falta de gosto e sensibilidade.

              -  António Lopes Ribeiro

.....//....

Este poema diz quase tudo sobre os "sucessores"...



quinta-feira, março 12, 2015

Retomando a Acromiomancia - I. 13 de Novembro de 1966


Já toda a gente decerto ouviu falar na quiromancia - a adivinhação do futuro através da leitura das linhas na palma da mão, pois. Todavia, é apenas uma entre muitas. De facto, exercem-se, há séculos, imensas modalidades de adivinhação, das quais cito algumas deveras pitorescas:
- Dendromancia (adivinhação pela leitura dos troncos de árvores derrubadas);
- Oniromancia (adivinhação pela leitura dos sonhos);
- Ornitomancia (adivinhação pela leitura do voo das aves);
- Aeromancia (adivinhação pelo exame do ar - hoje também chamada metereologia);
- Necromancia (adivinhação através de colóquios com os defuntos).
Existe mesmo uma variante de geomancia a todos os títulos notável: consiste em atirar lixo ao chão e interpretar os resultados.
Já em Portugal, a modalidade mais fascinante chama-se acromiomancia. Trata-se de adivinhar o futuro do país através da leitura das movimentações acrobáticas dos ratos. Ratos de trapézio e ratazanas de ministério, entenda-se. É um método de vaticínio, quase me atrevo a dizer, infalível; duma precisão que chega a causar calafrios.

Querem um exemplo magno?

Franco Nogueira, então Ministro dos Negócios Estrangeiros (e dos brilhantes) de Portugal, ao seu diário, em 13 de Novembro de 1966:
«Não há dúvida: Portugal atravessa uma crise e uma encruzilhada histórica. Encontra-se com quase oitenta anos o Presidente do Conselho; a oposição, ainda que dispersa e em muitos casos demagógica, agita-se com vivacidade crescente, embora apresente apenas teses que levam à perda de tudo: a carência dos ministros das Finanças e da Economia, por saúde ou outros motivos, agrava o problema económico, o dos preços, o dos salários, o do crédito, e sem isto não há política militar e política externa que valham; e os Estados Unidos, a União Soviética, outros ainda, mantêm as mandíbulas de sentinela e as garras afiadas à espera do momento em que nos falte o fôlego. É grave a situação; sê-lo-ia em qualquer caso; mas, sem ser desesperada, torna-se mais séria pela ineficiência da administração, pela lentidão do governo, pela descoordenação da política de cada departamento com a dos outros, pelas rivalidades pessoais, pela sobreposição de ambições individuais aos interesses nacionais. Ulisses Cortez está sempre apavorado com qualquer esforço ou emoção que possa causar-lhe outro enfarte. Em todo o Conselho de Ministros, e além do Presidente do Conselho, haverá neste momento quatro ou seis ministros ministros que sentem e acreditam no Ultramar.Desejariam os outros ver-se livres de África, para se devotarem às delícias de uma política europeia. No fundo, o que adoram é o Conselho da Europa, sem entenderem que este é um nicho para instalar políticos aposentados e na terceira idade, e a OCDE, e as Conferências de Ministros europeus do Trabalho, e da Saúde, e dos Transportes, e da Cultura, e assim; e anseiam pelas idas a Paris e a Viena, a Genebra e a Londres, e demais centros europeus de prazer ou turismoEntregar o país nas mãos dos imperialismos e das multinacionais, e deixá-lo colonizar por uns e outros; perder a independência de decisão, mesmo no que respeita à metrópole; vender o país aos bocados; diluir e perder a independência nacional - tudo isso é indiferente a esses tais desde que, na nova ordem de coisas, mantenham os lugares, o prestígio, os benefícios materiais, a sensação de autoridade, os sinais exteriores de poder. Por todo o lado, no mundo oficial, nota-se uma desorientação básica, confusa, quase um pouco de salve-se quem puder
- in "Um Político confessa-se" (Diário: 1960-1968)


O problema do totalitarismo radica no esmagamento das partes por um pseudo-todo, geralmente usurpador e burocrático, a que se chama Estado. A miséria do partidarismo resulta no ensoberbecimento das partes, que passam a considerar-se mais importantes que o Todo. Entre ambos os flagelos, os povos oscilam, rangem -quando não ricocheteiam - e buscam, cega e tropegamente, através dos séculos, desenvolver uma qualquer imunidade que os resgate, duma vez por todas, a essa mórbida astenia. Temo bem que, nessa tumultuosa demanda, o milénio não seja muito maior que o simples dia.
No 25 de Abril de 1974, o furúnculo rebentou, mas vinha-se enchendo de vurmo há vários anos. Suspeito que, à data do seu crepúsculo consular, Salazar retirou-se com mais nojo de muitos que o rodeavam do que da própria oposição. Ao menos estes, na maior parte das eminências parvas, eram putas vendidas ao estrangeiro, mas eram-no de cara descoberta.

A seguir, eu e as paredes, vamos discutir a génese e metástese do 25 de Abril. Mas sem complacências nem desculpas esfarrapadas. E, sobretudo, sem  mixordices.

Entre o suicídio e a vacina



No JN, lê-se, com algum exagero, que a "ameaça terrorista em Portugal é remota". Digo exagero porque, em bom rigor, é práticamente nula.
Os portugueses descobriram uma forma sui-generis de lidar com os terroristas: colocá-los no governo. É por isso que o terrorismo  não existe entre nós, enquanto ameaça: está sempre am acto. Resulta disto, apesar de tudo, um aspecto positivo: como está sempre a ser maltratado, o povo português, à semelhança das crianças batidas, perdeu completamente o receio que o magoem. Impossível pois aterrorizá-lo já com qualquer ameaça. Num certo sentido, até ganhou um certo prazer insolente pela afronta temerária... Pondo-se debaixo e a jeito de qualquer horda eminentemente sádica.

Perante um tal quadro, vicioso e endémico, não espanta que quaisquer outros terroristas exóticos  desistam e retirem, desmoralizados. Ou enojados, ainda não percebi bem. O facto é que funciona.

quarta-feira, março 11, 2015

Velha cegada, novos critérios



Dum lado estão uns, assanhadíssimos, a escarafunchar no candidato dos outros; do outro lado, estão os outros, escamadérrimos, a escarafunchar no candidato duns. 
Começa a adivinhar-se o resultado inexorável destes prelúdios eleitorais. Até há pouco tempo, elegiam-se os governantes escolhendo-se entre montes de promessas. Doravante, tudo o indica, será a partir de montes de lixo.
Credite-se, todavia, a evolução: do estado gasoso para o sólido.


terça-feira, março 10, 2015

A Argumentúcia Anti-referendária (r)

Os principais argumentículos contra a realização de referendos são bem conhecidos e repenicados. Passo a reenunciá-los, acompanhados dos sopapos que merecem. É sempre oportuno recapitulá-los e ilustram bem esta coisa esquisita a que chamam "regime".

Argumentículo Primeiro: Os portugueses não se interessam pelo referendo. Comparecem em percentagens cada vez mais reduzidas, marimbam-se para o solene acto, fazem manguitos a esmo. Resumindo: São uns irresponsáveis militantes. Gente indigna de tão generosa concessão.

- É verdade. Tem sido esse o fenómeno recorrente. Não obstante, com idêntica má catadura, os portugueses têm descomparecido, maioritaria e escandalosamente, em eleições nacionais de todo o tipo - autárquicas, legislativas e presidenciais - e isso não tem inibido os anõezinhos percentuais vencedores das mesmas de se laurearem e gigantonearem com maiorias absolutas, tanto quanto de se gloriarem em delírio com legitimações fulgurantes e locupletanços anexos. Mais, qualquer maioria absoluta de meia tigela conquistada à boca destes píveos desafluxos é entendida como autorização solene para uma ditadura a prazo. Portanto, se o desinteresse das pessoas é um bom argumento para não realizar referendos, igualmente é um bom argumento para não realizar eleições.


Argumentículo Segundo: Há certas questões de transcendente importância que não devem estar sujeitas ao capricho dos plebiscitos e do povo avulso, mas apenas de profissionais políticos dotados de superlativas clarividências e investidos de superpoderes voláteis.

- Sou o primeiro a admitir que um país não deve andar aos caprichos da turba, sobretudo quando essa turba é diariamente intoxicada, desmiolada, manipulada e estupidiformada por vários canais de televisão, rádio, jornal e revista, replicados por uma constelação de bullblogues, digitenzias, tico-tanques e pornorreias afins. Principalmente, porque sendo essa turba manipulada sem dó nem piedade, os seus caprichos são induzidos e mais não corporizam que os interesses de quem remotamente a telecomanda. Aceito igualmente, e por implícito efeito acumulado, que o povo avulso esteja cada vez menos lúcido e apto a escolher livremente o que quer que seja. No entanto, mais que capaz, essa massa anónima e desqualificada é tida como indispensável e soberana na eleição dos tais profissionais clarividentes -presidentes da república, deputados, governos, etc - que, após culinária urnopédica, se aboletam aos lemes e úberes da Coisa Pública. Ora, se os caprichos da turba são excelentes para eleger tão inefáveis tutores da pátria, não se compreende como ~possam não ser bastantes para opinar sobre assuntos que claramente excedem a gestão ordinária delegada nos mesmos? Relembro que, em tese, estes pinóquios engravatados são investidos para admininistrarem o país, não para aliená-lo. Brada pois à evidência: se o povo avulso não é credível para ser ouvido sobre questões extraordinárias relativas ao seu destino colectivo, então também não é credível para eleger qualquer tipo de representantes ao despacho dessas mesmas questões. E devém, em consonância, um povo cativo duma menoridade e imaturidade atávicas e perpétuas, bem como absolutamente inibidoras de qualquer poder decisório, (de)legal ou administrativo. Os seus tutores, implicitamente, deveriam ser nomeados por supra-entidades externas. Quanto mais longínquas melhor. A limite, Deus. Ou o Presidente dos Estados Unidos da América, Seu actual representante na Terra.
Recapitulando: quem não é confiável para se pronunciar e legitimar em referendo, muito menos é confiável para se pronunciar e legitimar em eleições. Pelo que, no actual regime, e como fica exposto, ao abdicar da legitimação por referendo, o Governo abdica da sua própria legitimidade e comete, grosseira e descaradamente, um abuso, mais ainda que de poder, de confiança. Donde decorre que qualquer português, tanto quanto o direito, tem o dever de apresentar queixa do seu próprio - e exorbitante! - Governo aos tribunais.

Argumentículo Terceiro: O referendo é, de certa forma, redundante. O povo avulso tem os seus representantes eleitos na Assembleia da República, a quem passou devida procuração por quatro anos. Estes podem igualmente, em seu nome, ratificar ou não os Tratados Internacionais.

- Ora bem, o povo avulso, através de eleições periódicas, escolhe entre determinados partidos que apregoam e garantem determinados programas. Os programas até estão escritos, são repetidamente jurados diante de milhões de testemunhas e funcionam como "contratos de promesa". Todavia, uma vez triunfante, cada cacique reinante no partido vencedor (e quanto maior a maioria, pior), constitui governo e marimba-se positivamente para o pré-acordo nupcial. Tendo sido eleito sob o compromisso solene de baixar impostos, levanta-os; de reduzi-los, multiplica-os; de criar empregos, extingue-os; de combater a corrupção e o nepotismo, açambarca-os; de proceder a específicos referendos, contorna-os. Quer dizer, contratado para fornecer determinado produto, não só não o entrega, como, a maior parte das vezes, realiza o seu oposto. Que fariam as pessoas, se em vez da moradia pré-acordada e paga, lhes apresentassem uma casota de cão, ou em vez do Mercedes-Benz sinalizado produzissem um triciclo de criança? Indignavam-se, certamente. Enfureciam-se, faziam queixa à polícia e aos tribunais. Infelizmente, as pessoas parecem dar mais importância à casota e ao automóvel do que ao futuro dos filhos e dos netos. Além de que a polícia e os tribunais andam sob trela invisível, mas deveras efectiva.
Somos forçados a concluir que uma democracia assim é uma fraude descarada e sistemática. Uma ciganice pegada.
O facto é que os representantes que são oferecidos periodicamente ao sufrágio popular resultam duma escolha prévia dum cacique reinante - o capataz partidário do momento. Ora, essa selecção constitui, por si, também um contrato de promessa: os respresentantes são seleccionados com base no compromisso de, uma vez impingidos ao povo, pagarem o investimento através da obediência canina ao cacique que os deferiu. Ou seja, são representantes do cacique antes de serem representantes do povo. E agem em conformidade. A primeira promessa é que conta; a segunda é meramente folclórica. Os putativos representantes do Povo na Assembleia da República representam, antes de tudo, o seu cacique partidário; tal qual o cacique partidário investido e sustentado por eles em turbo-soba da nacinha representa, antes de tudo, os seus accionistas parlamentares e familiares (partidários, meta-partidários, nacionais e internacionais). A este circuito fechado da mais vergonhosa trafulhice tribal e oligárquica chamam eles "disciplina partidária" ou "fidelidade parlamentar".
Pois bem, sendo que todos estes bandoleiros de bancada e ministério se representam e legitimam exclusivamente uns aos outros, servindo-se apenas do voto popular como gazua ou trampolim para os seus assaltos à Coisa Pública, não sobra qualquer espaço de genuína representação pública. O povo avulso, não é tido nem achado nisto tudo. O cacique pergunta aos seus representantes na Assembleia se concordam e ratificam; os parlamentares respondem ao seu régulo e representante no Governo, naturalmente, que sim. Na verdade, o cacique nem pergunta, ordena; e os perguntados nem respondam, prostram-se e veneram.
Uma operação desta qualidade e envergadura, poderá ser uma sublime macacada, uma olímpica intrujice, uma solene farsa, poderá ser tudo menos uma acto de legitimação nacional. O país real só fornece as costas: para corcel da sela destes jóqueis, para faqueiro destas cozinheiras, para gabinete destes conluios; e o fundo das ditas : para glorificação destes tratados. E regalo destes tratantes.

Quanto ao povo, não é soberano: é analfabeto e patego. Por isso é que assina de cruz... Procurações em branco.
Um regime destes não é corrigível através de eleições, reformas, nem revoluções. Porque um regime destes não se muda: varre-se!

Destino Turístico



Não me parece que o futuro próximo de Portugal (próximos 40 anos) ofereça grandes mistérios. À velocidade com que a Europa se desintegrar (dependendo essencialmente das políticas alemãs), Portugal resvalará, mole e viscosamente, para a colónia de férias dos estrangeiros e colónia penal dos indígenas, ou para a plácida dissolução numa União Ibérica. Eu diria que a probabilidade maior é a segunda.
Para obviar a um tal destino, caso sobre ainda alguma vontade e dignidade para isso, duas coisas serão imprescindíveis: recuperar a sua moeda e recuperar o seu Rei.
Para aqueles que acham absolutamente impensável a restauração da Monarquia portuguesa, resta-lhes com certeza a compensação de terem por rei um espanhol. Mas como para eles o que é estrangeiro é que é bom, isso só deve preencher-lhes o tele-patriotismo e gratificar-lhes o âmago estreito da sua doutrina política: o turismo ideológico.
Sim, porque se os americanos têm aquela doutrina peculiar do "destino manifesto", a nós, cada vez mais, vão-nos adestrando, habituando e resignando ao "destino turístico".

segunda-feira, março 09, 2015

Evolução ou Decadência?

                               ISTO:

                                     
                                 DEU NISTO:

                                                 ESTE:


                                         ACABOU NISTO:



     Agora venham-me cá falar em evolução e progresso e mais não sei que fantasias delirantes!....

domingo, março 08, 2015

O Poço e o Pêndulo



Postas as imagens, permitam-me algumas considerações e meia dúzia de constatacinhas. Dirijo-me, naturalmente, às pessoas, pois embora entenda e fale umas quantas línguas, esse domínio ainda não se estende aos ruídos comunicantes quer dos fungos, quer dos coleópteros, ainda para mais colectores. Não despresumo que existam, e até funcionem às mil maravilhas (tudo indica que sim), simplesmente, não consigo decifrá-los nem com eles manter qualquer espécie de conversação.
Pois bem, há pessoas que são capazes de jurar a pés juntos que conseguem distinguir o PS do PSD (Ou seja,  PS com D ou sem D). Deixem-me adivinhar: O PS é o veículo descapotável; o PSD é quando põe a capota. Não? Ah, garantem-me uns quantos, nada disso, é a teoria do mal menor. Aliás, é para isso que as eleicinhas servem: para escolher aquele que nos pode fazer menos mal. Hum, entendo... deve ser até por essa razão que o Churchil, esse grande portento da ciência política, atesta e preconiza: a "democracia é o pior dos barretes, excepto todos os outros". Portanto, não há qualquer bem disponível no mundo (pelo menos da política): Apenas o Mal; nos seus múltiplos gradientes - O Mal absoluto, o mal relativo e o menos mal. E a opção a que temos direito é entre o maligníssimo, o mau e o menos mau. Por conseguinte, e em conformidade, de quatro em quatro anos, munimo-nos de toda esta nossa clarividência, e vamos, muito senhores da nossa responsável pessoa, despejar o sagaz papelinho no útero da urna aberta. O resultado de sucessivas e altamente responsáveis escolhas do mal menor está à vista e todos reconhecem que é péssimo. Todos, naturalmente, excepto os apaniguados da actual bosta executiva. Mas esses não contam, pois para eles (como para os seus rivais em anteriores e similares épocas pré-eleiçoeiras) este é o melhor dos governos possíveis, no melhor dos países possíveis, a preparar o melhor dos futuros possíveis, deus o abençoe e os santinhos o protejam. Em resumo, o primeiro-ministro (dito com mais rigor, o ditadorzeco quadrianal que vamos aturando - e neste peculiar caso, para cúmulo do exotismo, um ditadorzeco-papagaio, que apenas repete e mimetiza os ditames que do exterior lhe transmitem - é um ás, um chanceler, um pastor predestinado! 
Haverá alguma virtude neste  regime actual, que nos vem conduzindo metodicamente à servidão, ao absurdo e à irrelevância histórica?  Como não acredito em males absolutos, nem na capacidade humana para tal, escoro-me na experiência de trinta e tal anos para extrair uma conjectura: os períodos mais malignos e que mais aceleraram a nossa desgraça coincidiram com o prolongamento por mais de quatro anos do cancro instalado. Refiro-me concretamente ao Cavaquistão e à Socratislândia. Aquele foi o berço, esta a sepultura. Agora, e consequentemente, a república serve de  repasto a vermes - vermes políticos, vermes morais e vermes económicos. Coisas destítuidas de qualquer resquício endoesqueléctico, honra ou pinga de sentido de Estado. Mas não era esse o destino fatal do empreendimento, uma vez consagrado o hara-kiri nacional que se adoptou a seguir ao 25 de Abril? O horrível Salazar impedia-nos, com áspera paternidade e austero exemplo, de sermos bafejados e acariciados pelos pretendentes estrangeiros à nossa pulcra mãozinha. Ansiávamos ser desposados e conduzidos ao altar do progresso e da democracia por galantes alógenos, replectos de ideias geniais e fundos inesgotáveis. Felizmente, o desmancha-prazeres morreu e nós pudemos, finalmente, abraçar esse jardim de delícias tão desejado. Num ápice - melhor: num milagre da noite para o dia - trocámos a farpela coçada e pindérica do regime rigoroso pelos penduricalhos e trapos garridos da república da vida fácil. Em nome duma democracia de imitação, a nação independente e orgulhosamente só, converteu-se num estado a crédito, vergonhosamente acompanhado - pelos proxenetas, dealers e tutores económicos (mascarados de credores, financiadores e parceiros europeus). Ou seja, pagámos a preço de ouro, sangue e futuro, uma maquineta avariada que nem sequer funciona, nunca funcionou e está programada, adulterada e armadilhada para jamais funcionar. Na encruzilhada que se colocou ao país, por morte do único que, mal ou bem (no essencial, bem, na fórmula, mal), teve uma ideia para o mesmo nos últimos 200 anos, a saloiada cobarde e deslumbrada, assustada com as ventosidades da história-espantalho, entendeu saltar para dentro do primeiro buraco que encontrou:... Infelizmente, era um poço. O grande salto das hordas chinesas do presidente Mao teve em Portugal uma emulação meritória: o grandessíssimo salto para dentro dum poço. Num ano e picos, saltámos do Império para o lugar de hortaliças, onde, sob a inflação galopante de nabos, bananas e cabeças de alho chocho, passou a imperar a completa ausência de tomates. Agora, presumo, entendem que o único rumo autorizado, caso não morram afogados,  será escavar até à Austrália. E a perícia suprema do eleitorado será escolher a melhor toupeira-guia para tão insigne projecto. Não lhes passa pela cabeça, nem às minhocas-dirigentes, nem aos anelídeos dirigidos, que o mais razoável e aconselhável, se algum caminho ou rumo digno desse nome ainda sonham, seria saírem de dentro do buraco. O problema, tudo indica, é que continuam convencidos que aquele orifício redondo e escuro não era um poço: era a toca da Alice. Diga-se, não obstante, em seu favor que há um risco que, pelo menos, nesse universo imaginário, não correm: que a rainha de Copas lhes mande cortar algo que eles deixaram de ter por falta de uso. A cabeça, pois.
O mal menor, então? Se é o mal menor que realmente procurais, se isso vos basta e preenche, tudo indica coincidir com uma coisa muito simples: garantir que cada cancro lá esteja o menos tempo possível. Quando o bando de fulano está a acabar de instalar-se  nos úberes estatais, convém que outro cancro concorrente o desinstale e remova, a fim de se anichar por sua vez. Coisa em que gastará, no pior dos casos, mais quatro anos, até que novo cancro o destrone e desincruste, e assim sucessivamente. Dado que a única opção que, pelos vistos, nos é concedida, nesta melhor das democracias possíveis, se resume a poder eleger cancros, ao menos que os cancros façam um ao outro o que sensatez e a coragem, que pelos vistos nos estão vedadas, recomendariam que fizessemos a ambos. Se só podemos combater um cancro com outro cancro: antes isso que nada. Antes uma batalha perdida, que a resignação! Antes uma ejaculação precoce, que a imppotência total! Mas é de suma importância que percam, da mais ínfima justiça que caiam, que sofram, que padeçam as agruras da derrota, do desmame periódico, da ressaca do banquete, tal qual nós padecemos o martírio das mil e uma extorções, das mil e uma vigarices, das mil e uma aberrações. E nem sequer é o resumo da minha opinião: é a simples sinopse da sabedoria popular. Pô-los lá, para depois ter o prazer de atirá-los abaixo! O preço, todavia, é elevado: ser rebaixado e flagelado durante 1460 dias, para poder despenhá-los apenas em um. No fundo, é um vício adquirido: numa noite, como de início mudámos de regime e constituição, agora mudamos de moscas.
Relembro uma máxima de Nietzsche muito a propósito: "vale mais um mau sentido que sentido nenhum". Aplica-se à compensação atrás exposta: antes magra, esquálida, que nenhuma. Mas encontra a sua excepção clamorosa, neste nosso Portugal presente, em matéria de governo: dada a qualidade dos políticos que se nos apresentam, melhor governo nenhum que qualquer um dos seus governos possíveis.
Entre o Coelho e o Costa, falta-me o microscópio, para poder espiolhar as diferenças. O microscópio e um olfato menos sensível ao fedor, confesso. Eu sei, o defeito é meu, a míngua de equipamento apropriado também é minha - sou um obsoleto, enfim. Outros que possuam essa tecnologia e a megavisão dela decorrente, que esclareçam e industriem as massas pitosgas, sob a forma catita de palearem o requinte de auto-sodomia.
Não sei quem vai ganhar as próximas eleições. E, francamente, é indiferente. Estou-me nas tintas para tão anedótica romaria. Mas sei, com certeza absoluta, quem vai perdê-las. O mesmo de sempre: Portugal. 


sábado, março 07, 2015

Descubra as diferenças


1. Quanto à substância:

O PS



O PSD






2. Quanto à forma:
                                  O PS:

   


O PSD



3. Quanto aos apaniguados e simpatizantes:
                                   O PS:

                                                   O PSD:


Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras... Mas as palavras vêm já a seguir.


sexta-feira, março 06, 2015

Apocalipse Zombie




A Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, tirou-se de cuidados e criou um Simulador de Apocalipse Zombie. Sério. E ninguém duvide que é coisa de utilidade pública e necessidade premente...

«We present results and analysis from a large scale exact stochastic dynamical simulation of a zombie outbreak. Zombies have attracted some attention lately as a novel and interesting twist on classic disease models. While most of the initial investigations have focused on the continuous, fully mixed dynamics of a differential equation model, we have explored stochastic, discrete simulations on lattices. We explore some of the basic statistical mechanical properties of the zombie model, including its phase diagram and critical exponents. »

Entenderam?

Pena que o simulador só englobe os Estados Unidos. Antigamente, a coisa levaria, no mínimo, uns vinte anos a cá chegar. Mas agora, graças aos meios tecnológicos de transmissão e transporte, a capacidade de gravidez histérica (método pelo qual, usualmente, os nossos semi-vivos contraem a infecções de estrangeirina) é praticamente instantânea. Basta que a notícia cá chegue e é vê-los a desatar às dentadas. A maior parte deles, por enquanto, ainda não morde. Mas farta-se de ladrar. Quando os virmos estranhamente silenciosos, acreditem: fujamos para as montanhas!...

PS: Fujamos, é forma retórica, bem entendido. Fujam vocês, que eu já cá estou.