quarta-feira, janeiro 14, 2015

Terrorismo avant-garde, ou à Zé do Pipo


Outubro de 1970. Portugal.



(...)

O português, mesmo no estado de lobotomia ideológica ou de auto-castração química por sobredosagem de xenoxinas, isto é, mesmo reduzido ao estado de vegetal ambulante, nunca perde duas coisas: 1. a sua trapalhice desembaraçada; 2. o seu pioneirismo congénito. Muitas vezes, a conjugação simultânea de ambas resulta num pacote explosivo...literalmente.
Chamo apenas a atenção especial para os dois trechos a negritado da notícia em epígrafe: no primeiro momento, a descoberta, muito à frente dos islamicos, do bombismo suicidário em ambiente doméstico. Involuntário apenas devido, lá está, ao concurso sempre fogoso entre a vanguarda e o desastre. No segundo caso, uma antecipação primorosa e cilindradora aos américas. Muito antes deles implantarem democracia à bomba, já os nossos convocavam ao pacifismo com explosivos.

Servir a Máquina




Curiosamente, se formos consultar o Dicionário Lello Ilustrado da Língua Portuguesa, por alturas da última década do século XIX, pode ler-se na definição de "Terrorismo": "Sistema, regime de Terror, em França (1793-1794). Por extens. Sistema de governo por meio do terror ou de medidas violentas.". Até 1974, a definição mantém-se a mesma".
E, dado que corresponde a uma realidade histórica muito concreta e bem documentada, não deixa de ser, no mínimo, irónico. Quer dizer, o resultado das ideias iniciadas por Descartes, Locke e Hobbes, prosseguidas e transpostas seguidamente pelos noctiluzes, vulgarmente conhecidos por iluministas, e aplicadas na prática pelos revolucionários de Paris, resultaram no triunfo duma  máquina, isto é, no regime duma máquina - a guilhotina. Cuja invenção, recordo, e estudei a fundo a sua génese, obedeceu a crítérios e preceitos humanitários. Não brinco: impunha-se executar o condenado com o menor sofrimento possível. Requeria-se o mais limpo e asséptico dos despachos. Doravante, ser executado já não doeria quase nada. Daí à banalização da degola benemérita, foi um pequeno passo. Afinal, a máquina inclina fatalmente à indústria, à produção em larga escala, no caso, ao abate em série. E em ambiente de festa. Como não festejar tamanho avanço do progresso, da tecnologia e, porque não dizê-lo, da própria ciência anestésica?!... Agora o crente, embora forçado, já não recorria ao confessionário para ablução dos pecados: era levado à guilhotina. Esta, com proficiência e rapidez, separava e removia a parte inconveniente.
Como refere Jaques Delarue, na sua "Profissão de Carrasco", acerca da filantrópica decapitadeira:
«Instrumento familiar, deram-lhe nomes ridículos e atrozes: postigo, navalha de barba nacional, chapa de fazer notas, gateira, encurtadora nacional, navalha de barba à Carlitos, porque o carrasco, Charles Sanson, fora, havia muito tempo, baptizado Carlitos pela populaça. Nas bacias de barbeiro liam-se frases como esta: "A minha navalha é mais macia do que a do Carlitos!"
(...)
Subir ao cadafalso era jogar ao frio ou quente, fazer o pino, marcar hora no postigo, meter a cabeça na janelinha, espirrar no saco(...) e, depois de 1793, experimentar a gravata à Capeto.
(...)
Criou-se uma verdadeira imprensa especializada para celebrar as façanhas da máquina nacional. O cidadão Tisset publicava regularmente uma folha que trazia no frontispício cadáveres de gente da corte, bispos e generais empilhados junto ao cesto da guilhotina cheio de cabeças cortadas. Por baixo deste desenho liam-se dois versos:
         Estes monstros empilhados por omnipotência divina
         Proclamam a obra da Santa Guilhotina
(...)
Por último, o mais célebre destes jornalistas muito especiais, Hébert, excitava diariamente com o seu Père Duchène os mais baixos instintos da populaça e injuriava as vítimas imoladas.»

Há, pois, um certo tipo de humor jornalista, bestialmente democrático, com tradições em França. Um riso típico das hienas nas imediações do açougue. Uma mistura de escárnio e injúria soez perante a desgraça (ou desclassificação) alheia. Um lançamento rapazola de carniça ao magote, um atiçar à matilha....à bulha. 
A turba-multa da época alcunhara Carlos Samson, o carrasco, de Carlitos. Em francês, Charlie. Era o personagem mais pitoresco de Paris. Foi o único funcionário que transitou do Anciènt-regime para a revolução e seguintes. Decapitara, esquartejara e enforcara na monarquia, guilhotinou na república e no Império. E é a esse Charlie que, muito provavelmente, remonta o Charlie antes do Hebdo. Ao funcionarismo do abate. Só que agora, a bem da democracia, nem os mortos, nem os deuses escapam. Tortura-se, infama-se, expõe-se e pelourinha-se em vida e em éfigie. Ao gosto da moda ou do pagante. A nova revolução perpetua-se muito por regurgitação. Já nada promete: apenas rumina. Nutre-se no seu próprio vómito. O carlitos tem uma máquina cada vez maior, uma engrenagem cada vez mais voraz para servir. E uma plateia cada vez mais rasteira para entreter.

Em Paris, do parto iluminista, nasceu um novo e sempreviçoso totalitarismo: o Totalitarismo da Morte. Exactamente o mesmo que estas bestas do Estado Islamico servem. Embora sem quaisquer preceitos filantrópicos nem dispositivos tecnológicos suavizantes. Degolam à mão. 





terça-feira, janeiro 13, 2015

A civilização oxidental




Há pessoas muito espantadas com o facto de selvagens psicopatas realizarem actos bárbaros. Eventualmente, estariam na expectativa de acções caridosas, ternuras exóticas e rasgos beneméritos. Sim, o que deveríamos esperar de psicopatas ferozes eram, calculo, catedrais, painéis e sinfonias. Compreendo, pois, que se persignem, desesperem e arrepelem, estas pulcras alminhas. Afinal, actos  genuínamente bárbaros, atrocidades condignas, crudelismos elevadíssimos - como morticínio industrial, massacre em larga escala, despovoamento sistematizado, disseminação de caos ao domicílio e guerra civil por controlo remoto - estavam reservadas às nossas queridas e ultra-civilizadas democracias. Estas pessoas sensíveis, de estômago delicado e pele cremosa, não se arrepiam quando vêm a barbárie praticada por civilizados profissionais. Não, qual quê!, enchem-se todos de urticária e gases é quando assistem à barbárie praticada por bárbaros amadores. Há aqui qualquer coisa que me escapa... uma dissonância qualquer, ela sim, verdadeiramente arrepiante, não há?
E ainda por cima, permitam que acrescente, os brutos são uns completos mal-agradecidos. Andaram as nossas amoráveis democracias, os nossos estados de direito tão fofinhos, a ampará-los, a chocá-los e municiá-los na sua emancipação... a ajudá-los, tão abnegadamente, na remoção daqueles déspotas retrógrados que os oprimiam e impediam de exprimir, em todo o seu esplendor, a imensa  vocação iluminista que os habita (e que, como sabemos, já ardia no fundo do mais arcaico cro-magnon), que os estorvavam sanguinariamente na adesão feliz à modernidade canora, às delícias e maravilhas do Mercado, e a paga que eles nos dão é esta!... Ora bolas! Ora gaita!...

segunda-feira, janeiro 12, 2015

Sofisticacinha




Agoro fico para aqui a imaginar os tipos, de capuz, fato preto a rigor e kalashnicokov em punho, a inquirirem um estarrecido qualquer: "é aqui o Charlie-hebdo?"

Numa primeira observação, principiei por catalogar o acto como rudimentar (está aí escrito num postal anterior). Mas agora começo a achar que se tratou mais de um excesso de confiança... No google-maps.



Entre a monotonia e o pitoresco

No decurso desta descarga noticiosa que vem escorrendo dos atentados de Paris, sucedem-se os momentos e os depoimentos avassaladores. Vou enumerar apenas uma amostra - alguns recorrentes nestas ocasiões, outros deveras pitorescos e singulares.

1. Algures, o velho queixume: "Eles desprezam - ou atentaram contra - os valores da nossa civilização" .
Apetece logo perguntar: " como, mas eles atacaram algum banco?... Os tipos chacinados tinham dívidas à banca, pelo que, horror dos horrores, ocasionou-se um personal-default múltiplo que, por efeito dominó, ainda atenta contra uma qualquer bolha do crédito?..."
É que o estado actual da "civilização" das pessoas que geralmente gemem este tipo de lamúria consiste precisamente na liquidação geral dos valores milenares da civilização. Mesmo a tríade "iluminista" anda pelas ruas da amargura: liberdade, só vigiada e devidamente corrigida; igualdade, só perante o fisco e os sistemas organizados de extorsão pública; e fraternidade, Deus nos acuda! O preceito essencial agora é competitividade. Temos tiranias nacionais do Estado, a saque de quadrilhas, tirania transnacional sabe-se lá de quem (sob o pseudónimo de Mercado) e um ego descomunal ao volante de cada alminha, de modo a esterilizá-la de todos e quaisquer pensamentos altruístas, ou de qualquer outra ordem... Sobretudo, nada de pensamento! O pouco tempo "livre" que o indígena aufere, derrama-o nas "redes sociais", conformando-se à manada global. Sobre isto tudo, e de modo a cimentar e calafetar tudo isto, paira um qualquer papão de conveniência: ontem o comunismo, hoje o islamismo terrorista, amanhã chineses ou russos canibais. Portanto, temos uma coisa que ninguém sabe muito bem o que é ao ataque de coisas que não existem. No fundo, um conjunto de novas superstições (do fundamentalismo democrático ao islamismo psicopata, passe a redundância) em luta violenta e furiosa contra as velhas religiões. :

2. A sempre peregrina ideia "temos de integrar as comunidades muçulmanas, se não elas viram-se para o terrorismo". Isto, manando das mesmas mentes e tribos que outra coisa não têm feito senão desintegrar e fragilizar as comunidades europeias. Vão integrar portanto os muçulmanos onde? Na nossa própria desintegração? É natural que eles prefiram não ser "integrados". Eu, no lugar deles, e não sendo propriamente simpatizante do grupo, também preferiria. Mas note-se a beleza do raciocínio: temos que integrá-los porque senão eles atacam-nos. Fraca perspectiva do outro, não? Serão assim  uma espécie de ciganos que convém mimar e afagar nos seus caprichos atávicos de modo a anestesiá-los de toda e qualquer turbulência congénita. Determinismo de vão de escada enxertado em iogurte rousseau fora de prazo, nem mais. Por outro lado, a mesma sociedade que não quer saber dos pobres - dos velhos, dos desempregados e de todo e qualquer incompetitivo em geral - para nada, vai agora cuidar maternalmente dos muçulmanos. Pois. A velha esquerda, pelo menos em tese, batia-se pela melhoria das condições de vida da maioria (já que a maioria constituía o grosso dos desfavorecidos); esta "nova-esquerda" decidiu borrifar-se para a maioria, é uma súcia que desdenha do seu próprio povo, que despreza a sua própria história,  é, enfim, o progressismo-turista-e-snob: primeiro a minoria, a seguir o estrangeiro de arribação, quanto mais exótico melhor; o resto logo se vê. 

3.  Finalmente,o momento Monty Python: a restauração da pena de morte, segundo a FN. Em primeiro lugar, não é preciso restaurá-la: ela já acontece quotidianamente em catadupa, mesmo em França. Ainda recentemente, foi subministrada pelos terroristas aos tipos do Charlie, aos coitados do supermercado e, logo a seguir, pela polícia aos terroristas. Traduzindo: houve primeiro uma subministração privada, na boa tradição do esquematismo liberal, e depois uma subministração pública, pelos representantes do estado. A segunda, portanto, com custos para os contribuintes. Falta apurar em quanto. Eventualmente, se o serviço de polícia estivesse outsourcizado a uma empresa de segurança privada, teria saído muito mais barato. Aliás, a pena de morte é o negócio mais explorado por este manicómi...., digo mundo, e arredores. Bem, mas o que a FN pretende, presumo, é a reintrodução da guilhotina e respectivo servente, da família Samson de preferência, para que se recupere, com a panache tipicamente gaulesa, o velho cerimonial da Praça de Grève. Ora, a pena de morte, segundo os apologistas, tem como intuito fulcral a dissuasão de crimes graves, pelo medo à pena capital. Como surge a propósito de um acto terrorista islamico, deduz-se que a ideia será meter medo aos terroristas, de modo a dissuadi-los firmemente de quaisquer ilícitos legais em França. Tipos que regra geral se fazem explodir com grandes cargas devem estar neste momento crivados de dúvidas e hesitações. A mim o que me intriga é como é que as autoridades de medicina legal vão conseguir, após a explosão, reconstituir o arcaboiço completo do facínora de modo a poderem, com ele, abastecer condignamente o carrasco.

Em resumo, uns a comenterem atentados contra algo que não existe; outros a restaurarem o que  mais abunda.

Os meus antepassados descobriram o caminho marítimo para a Índia. Visto daqui, já não constitui grande proveito ou reconforto. O que me encheria agora de enorme satisfação era descobrir o caminho para um qualquer outro planeta habitável... E emigrar para lá urgentemente. 

domingo, janeiro 11, 2015

Não sois Charlie, não senhor!

Mas isto, lá está, como apenas a via utilitária prevalece e infesta, pouco importa a essência da palavra. Apenas interessa como utensílio, neste caso, como arma de arremesso.. Os "terroristas" atiram com tiros ou bombas, os nossos geo-estrategas de sofá atiram-lhes com palavras. O Ruído contra o barulho; o cuspo como resposta à pólvora. Basicamente, injuria-se, desclassifica-se e criva-se de execrações o terrorista e o seu abominável acto. Todo este escarcéu, todavia, não diminui nem atenua os efeitos do atentado: apenas o amplifica. E é isso que o terrorismo pretende. O terrorismo e todo aquele que dele pretende tirar algum lucro, rescaldo ou vantagem. Admitindo, sem mais complexificações nem metástases, que a execução dos crimes de Paris foi obra do denominado "Estado islâmico", a coisa terá sido rudimentar (porque mais não era preciso, convenhamos)... Qualquer coisa do estilo "vão para lá, arranjam umas AKs na loja albanesa, estudam o alvo, aguardam pelo dia oportuno e abatem meia dúzia de infiéis. Depois pôem-se ao fresco, aguentam o mais possível até que Alá vos recompense no céu e pronto, é tudo!"
«Só isso?!...",terão pasmado decerto os operativos. "Só. - terá respondido o tipo da agência de viagens. -"O resto do circo, eles montam automaticamente, por sua - e para nossa - alta-recreação.
Enquanto modalidade de acção da guerra subversiva  (e, caramba, não é preciso ir à tropa, basta ir ao dicionário), ao terrorismo interessa-lhe uma reverberação o maior possível dos seus atentados. Por isso procura que estes se processem em locais e condições que a favoreçam. A quem faz o combate a essa subversão (as autoridades de um país, presumo eu, se calhar optimisticamente)  compete evitar por todos os meios que 1. essas acções terroristas se concretizem; 2. que, em se concretizando, produzam o menor efeito possível; e 3. e decorrente da anterior, uma vez concretizadas, que logrem a menor reverberação e propaganda possível. Propaganda significa essencialmente isso mesmo: propagação pública. E a principal finalidade dos actos terroristas é, precisamente, o alastramento posterior junto da população. E quanto maior essa propagação e mais retumbante o alarme causado, maior o sucesso do acto.
Ora, o que assistimos, com toda esta algazarra e ruído manifestante é que, da parte dos mass-e- miss-media e das autoridades atacadas, em vez do sério combate à subversão, o que se verifica, a raiar o escândalo, é a mais pressurosa colaboração e conivência, na medida em que ao contrário de um esforço concertado e organizado de atenuação dos efeitros, esfalfam-se num trabalho porfiado de amplificação e enriquecimento.
O assassínio frio e metódico (na verdade, uma execução) de um grupo de pessoas foi transformado num ataque à liberdade de expressão, ao âmago da França e aos alicerces da civilização! Em suma, um perfeito circo de rilhafoles. Toda esta gritaria é dirigida, em boa verdade a quem? Decerto não acharão que psicopatas organizados e ultra-armados, que têm vido a chacinar alegremente pessoas às dezenas de milhar, ficam muito comovidos ou sensibilizados com os vossas pequeninas indignações e lacrimejorros por encomenda, coro e descargo de consciência!... Bem espremido, em que é que toda esta chinfrineira distingue esta boa gente dum bando de babuínos sob a imaginação acagaçante de um leopardo?... Pretendem exactamente o quê - assustá-los com o barulho?
Mas o que vem a ser o terror, afinal? Assassinar não é terror: é homicídio voluntário, psicopatia, ou guerrilha. Atenta contra a vida das vítimas, que não é coisa de somenos, bem pelo contrário, é a essência da questão. A vida das pessoas devia valer alguma coisa enquanto pessoas, per si. O terror, contudo, não é isso. O terror é o medo que desse tipo de actos, de desvalorização e nadificação da vida das pessoas violentamente mortas, se destila e asperge para as restantes pessoas, potencialmente candidatas ao mesmo tipo de tratamento. A propagação desse horror ao maior número de receptores é que constitui a essência do terror, a sua realização e a motivação intrínseca do terrorismo. Só depois de publicitado é que o assassínio simples devém terrorismo completo. Tecnicamente, há dois tipos de terroristas, uma vez alcançada  esta realidade última: os que iniciaram o processo  (neste caso, a célula islamita); e os que corporizaram e materializaram o processo, ou sejam, as próprias autoridades francesas, os mass-media (e miss-media, por mimesis e contaminação poluidora) desenfreados e todos aqueles que, de algum modo, contribuíram para a publicidade e alastramento social do acto. Em resumo, vós não sois todos Charlie. Compenetrem-se: Sois, sim, todos, terroristas.


sábado, janeiro 10, 2015

O terrorismo para totós

As pessoas, especialmente nos ciber-éteres, utilizam as palavras dum modo arbitrário e, a maior parte do tempo, descabelado. Quer dizer, usam-nas como usam a generalidade das coisas no seu quotidiano: ignorando (ou tripudiando) completamente o seu significado.  Um exemplo recorrente disso é, por exemplo, o termo "terrorismo" e, por inerência, "terrorista". Já várias vezes aqui, pedagogicamente, tentei  obstar a tanta e tão confragedora desmioleira, mas, pelos vistos, debalde. De balde, bacia e alguidar, porque não sendo este um espaço frequentado pelas massas, apenas um ou outro transeunte menos enmanedescido daqui retira algum proveito.
Não obstante, sou tenaz. Pela enésima vez socorro a ignorância transumante. De seguida, três definições da palavra "terrorismo". Para os eruditos, para o vulgo e para a elite da humanidade que são os leitores desta casa.
Assim, respectivamente, segundo o Houaiss da Língua Portuguesa:
Terrorismo - 1. Modo de impor a vontade pelo uso sistemático do terror; 2. emprego sistemático da violência para fins políticos, esp. a prática de atentados e destruições por grupos cujo objectivo é a desorganização da sociedade existente e a tomada do poder; 3. regime de violência instituído por um governo; 4. atitude de intolerância e de intimidação adoptada pelos defensores de uma ideologia, sobretudo nos campos literário e artístico, em relação áqueles que não participam das suas convicções.

Segundo o Dicionário da Porto Editora:
Terrorismo - s.m, sistema de governo por meio de terror e de medidas violentas; actos violentos praticados contra um governo, uma classe dominante ou pessoas desconhecidas que acidentalmente se deslocam em meios de transporte, ruas, etc: aspecto terrível; modalidade de acção da guerra subversiva, pela qual se procura criar a insegurança dos dirigentes políticos e militares e o medo da população civil.

E , finalmente, segundo o Dicionário Shelltox Concise do Dragão:
Terrorismo - s.m, modalidade dramatúrgica moderna, de causas nebulosas, finalidades obscuras e patrocínio sinistro, que, por meio de grande espectáculo e difusão pública, visa o entretenimento mórbido e macabro das massas; auto-medicação para o tédio, spleen e depressões associadas por parte de super-elitres globais e organizações secretas subsidiadas; inversão  da tragédia grega quanto às finalidades, segundo Aristóteles: doravante não se pretende suscitar nos espectadores o terror e a piedade, mas, o pavor e a impiedade; forma psicologicamente expedita e  juridicamente desembaraçada de condução das massas, bem como de incrementação de certos astronegócios; terapia política de choque de valor variável a) quando praticado contra portugueses ou europeus em geral até 1974, denomina-se, suaviza-se e substitui-se pelo designativo "luta de libertação". b) quando praticado na actualidade por muçulmanos contra outros muçulmanos, drusos,  yazedis ou cristãos avulsos, benigniza-se sob a qualidade de "legítimo processo de democratização em curso". c) excepcionalmente, se praticado pelos mesmos árabes ou qualquer outra etnia de conveniência sobre americanos, jornalistas avulsos (se televisionados) ou, no pior ou mais extremo dos casos, israelitas (abertos, cobertos ou discretos), maligniza-se desmesuradamente a "1.forma superlativa de desumanidade. 2. abjecção suprema. 3. motivo de concertado alarido, repúdio e retaliação à escala global.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

O Demo-fascismo

«Por outro lado, é necessário evitar que a Revolução fascista ponha tudo em jogo. Temos que conservar alguns pontos firmes, sólidos, a fim de não dar ao povo a impressão de que tudo é abalado, que tudo deve recomeçar; porque então à onda de entusiasmo do primeiro momento poderia suceder a onda de pânico do segundo e talvez ondas sucessivas capazes de subverter a primeira. Assim, as coisas ficam claras: - trata-se de demolir toda a estrutura social-democrática!
Teremos um estado que faça este simples raciocínio: "O Estado não representa um partido, representa a colectividade nacional, abrange tudo, supera tudo, protege tudo e procederá contra todo aquele que atentar contra a sua soberania imprescritível".
(...)
Toda a armadura do Estado desaba como um cenário gasto de opereta, quando não existe a consciência íntima dum dever ou duma missão a cumprir. Esta a razão porque queremos despojar o Estado de todos os seus atributos económicos. [Basta de Estado ferroviário, de Estado telégrafo-postal, de estado segurador! estamos fartos dum Estado que, exercendo as suas funções à custa das despesas de todos os contribuintes italianos, agrava assim o esgotamento das exaustas finanças do Estado! ficar-lhe-á a polícia, que protege os homens bons dos atentados, dos ladrões e dos delinquentes; ficar-lhe-á a educação das novas gerações; ficar-lhe-á o exército, que há-de garantir a inviabilidade da Pátria, e, finalmente, a política externa.»
            - Benito Mussolini

Aí tendes, ó almas cândidas: fascismo à séria, pela voz do seu principal protagonista. Agora, se não for pedir muito, convido-vos ao seguinte exerciciozinho: Substituam apenas três palavrinhas no texto acima - "fascista", "nacional" e "pátria"; respectivamente por "democrática", "global" e "Mercado". E verifiquem se o texto continua a fazer algum sentido. E, melhor ainda, se retrata alguma região ou patologia actuais do vosso esplêndido planeta.


PS - Qualquer semelhança  com o ogrezinho à solta, fruto da herpetogamia entre a pulhítica neo-conas e a economínia neo-liberal não é pura coincidência. 

Hirondelles à Paris



Calma, um massacrezinho não faz a Primavera. Ainda agora, no auto-rádio, ouvi um porta-voz da polícia francesa a garantir que os meliantes já estavam há muito catalogados e que as autoridades, com todos os seus múltiplos e sofisticados meios, andavam atentas. Felizmente! Imaginem o que teria sido se não andassem... Provavelmente uma chacina do Parlamento,  o despovoamento abrupto da torre Eiffel (eiffel tower, para os liberais), ou os Champs-Elisées a eito, que sei eu. Sei é que se me tocam no Moulin-Rouge, nas Folies-Bergere ou, vá lá, no Louvre, pego em armas. E olhem que tenho treino feroz. Eu, e  o Ildefonso Caguinchas - que, em princípio, desde que se estenda o chapéu protector ao Bois-de-Boulogne, à Rua de Saint-Denis e a mais não sei quantos trottoirs que ele para lá monitoriza, também se alista. Para já, estamos de prevenção.

Em todo o caso, falar-se em terrorismo, parece-me um claro exagero, um tremendo delírio,  mais típicos da hipocrisia e do ciber-histerismo condicionado que estas exibições macabras sempre atiçam do que, propriamente, de qualquer erupção concreta na realidade. Afinal, é mera geopolítica artesanal, pura black-operation de bolso, não franchisada no pior dos casos (ou no melhor, para os menos extravagantes). Fica mal à indústria (do massacre et al) e aos seus apaniguados ou meros totós de boleia desdenharem assim do negócio ambulante. Ainda para mais quando trabalham todos em tandem, numa sórdida joint-desventure, os fundamentalistas islamicos e os fundamentalistas democráticos. Então, pode-se democratizar à bomba e não se pode islamizar a tiro?...

Por falar em Primavera.... Já aterram andorinhas em Paris, mas em Riade nem vê-las. Pelos vistos, a Primavera, quando nasce, não é para todos. E é pena.


terça-feira, janeiro 06, 2015

Introdução à Misosofia. I. A Coisa-Homem

O Homem é escravo em múltiplas dimensões e de múltiplas maneiras; e senhor apenas numa só. Serve ao estômago, serve ao sexo, serve à embalagem de tudo isto e serve, quotidiana e fatalmente, de porteiro na discoteca das sensações ou de guarda-nocturno no beco dos instintos, ali prós lados das escadinhas da vontade, onde moram, entre outros, o Aleive, a Gana e o Capricho; é, na medida em que se consiga elevar acima destas servidões, senhor do seu pensamento. 
O dinheiro não tem nem reconhece senhores: apenas servos, escravos e vítimas.
Duas ilacções logo à partida: a liberdade não pertence à dimensão material do Homem, nem se compra a peso de ouro. Quem pensa que pode adquirir a liberdade por via da finança, não pensa e apenas adquire uma servidão ainda mais profunda, impiedosa e atroz. Não se é mais livre porque se é mais rico; nem se é mais escravo porque se é mais pobre. Quando muito é-se, respectivamente, mais servo ou mais vítima.  Do pseudo-pastor neste curral da Necessidade. E o aplicável a pessoas é naturalmente extensível a sociedades e países.
A liberdade também não é objecto do pensamento: é condição para a existência do mesmo. O homem pensa na medida em que se liberta. O pensamento é a liberdade ou, de todo, não é. Fica algures entre o Nada, o Absurdo e a Sumptuosa Ninharia.

Há um valor vulgar e utilitário nas palavras, mas há também uma substância nobre. Dizer o para o que uma coisa serve é  distinto do  dizer o que uma coisa é. Uma distinção do tamanho duma imensidade. Porém, no nosso tempo, o valor utilitário das coisas não apenas eclipsa a substância das coisas: substitui-a. Usurpa-a. Ora, se as coisas se atrofiam e nanificam numa mera servidão, reduzidas e miniaturizadas a meros utensílios, e entre elas a coisa-homem, então o reflectir, calcular ou elaborar sobre isso não é exactamente da ordem do pensamento, nem, intrinsecamente, da liberdade.Rumina-se bastante, mas pensa-se nada. Vai-se reboque de fezes, fezinhas e fezadas, gasta-se a vida numa odisseia de bosta mais ou menos fertilizante. Não creio sinceramente que buliçosas conferências em torno da rentabilidade, competitividade, teor de gás ou sangue do estrume duma civilização constituam qualquer forma genuína de debate ou nobre demanda. Compensa-se com alarido a ausência de horizonte. A Caverna, pois é, descambou em Curral, portas meias com o açougue. Mas cada tempo tem a Alegoria que merece.

terça-feira, dezembro 30, 2014

Spes ultima dea




Antes que me esqueça... Um Bom Ano Novo a todos!...

segunda-feira, dezembro 29, 2014

O Mercado a disfuncionar

Prestem atenção a uma coisa chamada "derivatives market". Donde destila uma outra chamada "derivatives debt". Parece que não é coisa pequena. Mesmo nada. E atesta dois fenómenos curiosos: 1. Que a economia de casino continua em força (os famigerados CDS, por exemplo, são infestantes na Europa); 2. Que, em boa verdade, ninguém confia no "funcionamento puro e inefável do mercado" a não ser os toinos da paróquia e outros pacóvios neo-deslumbradinhos - e tanto assim é que o "funcionamento do mercado" consiste precisamente, e em larga medida, num acautelar contra o seu "funcionamento puro", ou num especular com certas irregularidades artificialmente induzidas nesse mesmo "funcionamento". Em bom rigor, a disfunção e a rotura  é que dão dinheiro.
Mas vamos ao que interessa...Efeitos disto a curto/médio prazo: aposto noutra crise financeira/económica. Só que agora pior. Eventualmente com socorrismos bélicos à mistura. O que é que eu percebo de economia? Tanto quanto os economistas: nada. A minha vantagem é da ordem da pura sorte ao jogo: até hoje não falhei nenhuma. Isso e a não completa analfabetice perante certos sinais. Se falhar esta, serei o primeiro a congratular-me. E aceito que me felicitem efusivamente. Acreditem que sou o mais infeliz e contrafeito dos espectadores de catástrofes.

domingo, dezembro 28, 2014

Absurdotomia dum hipopote

"Objecção contra a ciência: este mundo não merece ser conhecido."
                                                                                           E.M.Cioran



Um tipo vai ali passar o Natal e quando regressa descobre que o taxaram de protozoário, zero invejoso e, pasme-se, "pintelho anónimo"... Todo este vitupério hirsuto, ao que parece, em defesa de Carlos Abreu Amorim e da "classe política em geral".
Bem, tomo o "protozoário" por verborreia snob de um oxiúro. É sabido que as lombrigas, do alto ambulatório dos seus aquários ilustres, gostam sobremaneira de diminuir, menoscabando, os humildes peões. Não é para ser levado a sério. Mera basófia de verme motorizado, enfim.
Idêntica condição poderemos atribuir ao "Pintelho anónimo" (o helminto queria muito provavelmente dizer pentelho, capilaridade púbica). Porque, em bom rigor, o anonimato é inerência do pentelho. Ninguém, em seu perfeito juízo, consegue numerar os seus cabelos íntimos, quanto mais baptizá-los. Dispensava-se, pois, a redundância. Mas como estamos perante um parasita particularmente afectado. não é descabido presumir que arraste a sua pedantícia farfante ao ponto de distinguir o simples pentelho do "pentelho de tal". Para quem tem como horizonte máximo o orifício anal do hospedeiro...
Agora, senhores, "zero invejoso" é que me intriga e aturde. Ainda mais quando se trata, segundo a acusação, duma nulidade invejosa que, alucinadamente, inveja aquilo que despreza.  Caramba, ou bem que inveja, ou bem que despreza, não será? Mesmo a raposa perante as uvas distantes, não inveja: cobiça; e não despreza, desdenha. Ora, vai um abismo de distância entre um dragão e uma raposa. Tanto quanto ser a mais rotineira das realidades invejar-se aquilo que se ambiciona, não aquilo que se despreza. Despreza-se, neste país e neste mundo, a pobreza, a antiguidade, a honestidade, a coerência, a lealdade, a ingenuidade, a fraternidade, a verdade e a justiça mais que tudo; ora, não consta que alguém as inveje.
Claro que o helminto, no seu desfile jactante, cavila que lhe invejamos o pedestal, que lhe cobiçamos a atmosfera, que, enfim, conspiramos na sombra para lhe usurpar a gulodice. Mas, pronto, isso são as angústias naturais do parasita.
Todavia, ainda assim, admitamos, ab absurdo, que nos assolava a tal invejosice tão ao gosto do argumentário pimba. E ponhamos de parte a "classe política em geral", que é termo algo nebuloso e abstracto; atenhamo-nos concretamente ao hipopótamo em questão, digo questinha. "Zero invejoso", porém, é demasiado genérico, quiçá metafísico; convém especificar. Inveja de quê?  
Eu proprio fui assertivo e específico quando circunscrevi  a figura no grau de toucinho. Se ainda fosse liberal, estaria naturalmente bacon, mas como deixara de o ser, impunha-se destituí-lo de todo e qualquer anglicismo. O que fiz com alguma caridade, dada a quadra. Banha ruidosa,  embora mais realista, teria sido bem pior; e catalogá-lo na ordem dos presuntos ou fiambres indiciaria, claramente, um mero exercício de wishfull thinking. Pelo que ficou toucinho. Voador, bem entendido. E ficou muito bem, ninguém duvide. 
Por conseguinte, se eu desprezo este paquiderme palramentício porque - segundo a hipótese absurda do mesmo, ou dalgum colega, familiar ou adepto - o invejo, elucidem-me, se faz favor: Que qualidades invejáveis o habitam? Invejo-lhe,  exacta e concretamente, o quê? O físico atlético? A fotogenia? A estatura moral? A coerência inoxidável? A cultura vastíssima? A tolerância almocrévica? A inteligência aparatosa? A tribunícia parlapatita? O apetite voraz? O poder a reboque? A irresistibilidade junto do belo sexo? A coluna no Correio da Manhã? O trampolim no Blasfémias? A  manjedoura do erário? A alcatra na bancada? O hipismo eleitoral? O charme boçal? Em suma, o quê?!
Pois, já agora convém que eu saiba, já que não sei mais nada,  porque raio ou carga de água um tal aglomerado de parvoíce enxertado num tão rotundo cepo de corticite imarcescível, não sendo digno de mais nada, é apenas digno de inveja. Curioso, no mínimo, não?!...

terça-feira, dezembro 23, 2014

Impressões de Natal

Coragem para a vida e destemor perante a morte - parece-me uma síntese possível dos ensinamentos de Jesus. Não é fácil. Nem tinha piada nenhuma se fosse. Afinal, a selecção espiritual, ao contrário da selecção natural, não é para  todos... Quer dizer, Deus, ao contrário dos evolucionistas, consegue distinguir os homens dos macacos, dos micróbios e das ratazanas. Em resumo, a selecção espiritual é só para as pessoas. É claro que estas, depois, são de uma enorme diversidade. Aristóteles, na sua ética realista e extremamente perspicaz, divide a humanidade em três classes essenciais: aqueles que encontram a felicidade na satisfação dos prazeres venais; aqueles que a encontram na satisfação dos desejos políticos; e aqueles que a buscam na sabedoria. Naturalmente, neste mundo, os últimos são - e sempre foram - os menos numerosos e os mais insatisfeitos de todos. Mas, genuína e paradoxalmente, também os mais felizes.

Há, assim, muito naturalmente, quem se contente na emulação com coisas inferiores, de modo a sobressair mais facilmente; e há quem,  muito espiritualmente, não encontre sentido senão na emulação com entes superiores, de modo a procurar melhorar-se e refinar-se. É um caminho árduo e muitas vezes penoso, o segundo. Mas tem uma superlativa vantagem: não conduz à mediocridade, como o primeiro.

Entretanto, ao reparar, algo perplexo, no sermão do Papa Francisco aos cardeais romanos, não pude refrear o seguinte comentário íntimo: "Aqui está algém que, claramente, não tem medo da morte!"



Feliz Natal!

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Estar ou não estar, eis a questinha

Desconhecia que o Carlos Abreu Amorim era liberal. Aliás, tenho a certeza: fosse o que quer que fosse é que ele não era. Em bom rigor, o verbo ser e ele não se conjugam, são mesmo incompatíveis. O seu verbo exclusivo e obsessivo, como o de tanta fulanagem que por aí chafurda, é o "estar". Ele nunca foi: estava. Estava liberal; agora está qualquer outra coisa qualquer - mais conveniente, lubrificante e trampolineira, por certo. Um dia destes está ministro. O Camilo e o Eça têm descrições eloquentes deste tipo de fauna palramentar. Videirinhos balofos e gelatinosos, vivissecavam eles. Toucinhos em ascensão, digo eu.

domingo, dezembro 21, 2014

Mistérios da República

Duas ou três palavrinhas sobre o ex-ministro da nacinha. Em seu devido tempo, quando o figurão se encontrava no auge do  poder, zurzi-o aqui sem contemplações.  Não pelos sucessivos fait-divers que lhe foram catabichando, mas pela qualidade patente da sua acção (des)governativa. Estou-me perfeitamente nas tintas para as habilitações académicas do sujeito, bem como para os primores estéticos dos ex-projectos do engenheiro. Podia até ter sido uma desgraça em ambos, desde que, na qualidade de governante, fizesse alguma coisa de jeito pelo país. Não fez. Foi uma nulidade  quase completa,  uma calamidade em andamento, com a agravante de não ter acautelado o óbvio mais que ululante: a bancarrota. Bem pelo contrário, sprintou para ela com a fogozidade tresloucada dos Titanics. Ele e todo um país descerebrado que via na vaselina do crédito uma espécie de retroprotector solar infantil. Ainda por cima, os mesmos que logo adiante, com geminada toinice empedernida, fantasiariam a troika com ou ouropéis angélidos dum comité de benfeitores e curandeiros ao domicílio. Tem sido o que se vê.
Mas agora encarceraram a criatura. Por corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, dizem. Como? Assombro-me eu. Podia repetir? Corrup-quê?! Ção?! Entre nós? Ora, isso não existe. Ou se existe não é crime: ninguém vai preso por isso. Pelo contrário, ganha asas, velas, vai de vento em popa... Até aos mais altos cargos da nacinha. Na política, mas também na finança, na magistratura, na comunicação social e até, com não menor vigor, nas artes. "Corrompem-me, logo existo", chega a ser lema nacinhal. Adubo das elites, pois... Corrupção, entre nós, é só um plebeísmo para "importância". Há os que têm importância e os que têm inveja; o restante não existe. Eu próprio, descobri ao longo desta vida, não existo. Não conto. Eu e gente como eu. Que não se deixa corromper ou que nada possui que o justifique.
Por conseguinte, eu que julgava piamente que o pinócrates não continha quaisquer virtudes, agora fiquei na dúvida. Prenderam-no. Certamente não foi por corrupção ou branqueamento. Afinal, estamos numa república com um Cavaco a presidente, um Passos Coelho a Pimeiro-coiso e um Paulo Portas a vice-coiso. Vegetamos num lugarejo em que o Correio da Manhã vence tiragens e a TVI bate recordes de audiência. Padecemos a extorsão instalada duma Nova-Pide económica mascarada de Autoridade Tributária e ISS. Mais que mergulhado na estupefacção, dou comigo perplexo, intrigado, confundido, às aranhas... tentando espiolhar, afinal, que virtude insuspeita e misteriosa habita o arrecadado engenheiro e comentador aos domingos. Alguma há-de ter, não, para padecer um tão evidente pelourinho.

sábado, dezembro 20, 2014

Para que fique bem claro

Há pouco tempo, a seita que nos desgoverna acusava o PS de estar a resgatar Sócrates. Convenhamos, na sua qualidade estanhada de associação de malfeitores, o PS não dispunha, nem de perto nem de longe, dessa miraculosa capacidade. Podia tentar as piruetas e funambulices que bem entendesse, os pensos e cataplasmas que mais lhe aprouvesse, que jamais, em tempo algum, alcançaria tão descomunal prodígio. E, não obstante, eis que Sócrates resplandecia, mais que resgatado,  redimido, indultado, repimpão! Por que artes e magias, senhores? Ora, por obra e graça daqueles que, pelos vistos, possuíam a peçonhenta receita para tão quimérica alquimia... Exactamente, os mesmos que acusavam o PS de tentativa: Passos Coelho e respectiva pandilha. Para que precisava o PS de tentar algo já tão profusamente realizado? 
Na verdade, o actual desgoverno não apenas resgata Sócrates com todas as suas forças: resgata Miguel de Vasconcelos, Cristóvão de Moura, o Conde Andeiro, o labrego que traiu Viriato e toda a resma de traidores, vendidos, aleivosos, cobardes e renegados que, séculos a fora, conspurcaram e aviltaram esta infeliz nação.
Resgata ainda, com  destreza não menos inaudita, os comunistas,  bloquistas e demais verduras palrantes... Todos eles, doravante, e por contraste, enfileiram no rol das forças patrióticas, moderadas e alcandoram-se até, pasme-se,  com inusitada regularidade, a promontórios de prudência, probidade e sensatez. A sério, os tipos da Primeira República eram gigantes benfazejos ao pé destes escroques completamente destituidos de ponta de vértebra ou pinga de sangue quente. E tudo isto calafetado duma olímpica burrice, duma alarve incompetência e duma tonitruante desfaçatez.
Esta gentalha, em bom rigor, conseguiu mesmo o inconcebível: estar para lá da possibilidade do insulto. Tudo o que disséssemos ficaria àquem da realidade; soaria a suavização e encómio. Por isso não insisto no baldado esforço.
Desenganem-se apenas aqueles que presumam nesta praga o mal absoluto. Essa pureza do mal não está ao alcance da humana condição. Até porque se lhes vislumbra, nestes magarefes, pelo menos, uma virtude: ao contrário dos antecessores, depois deles já não é possível advir um pior.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Tanatoscopia

Temos muito que conversar... Deste neo-cartesianismo à portuguesa, onde a Dúvida Metódica deu lugar à Dívida metódica; deste neo-feudalismo europeu, onde o servos da gleba revivem nos servos da Dívida; deste neo-totalitarismo global onde a homogeneização mercantil, a chicote da finança, depois das fronteiras, se prepara para digerir, à ignóbil maneira da aranha-lobo, o que resta da diversidade dos povos, das culturas e da independência dos estados. É, temos muito que conversar, que reflectir, que meditar. Infelizmente, já não se trata mais de análises ou contra-análises, de exames ou contra-exames, mas, simplesmente, de uma autópsia. De um  mero exercício de tanatoscopia, se assim se pode dizer.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Rói-te, ó Fénix! Rói-te toda!...

Se a Fénix renasce, em que é que um dragão é menos que uma fénix, fónix?!! Ãh, não me dizem?...

Sem mais preâmbulos nem destilações:
Declaro encerrado o justo período de silêncio,  e proclamo, solenemente, a reabertura das hostilidades. Acabei agora mesmo de desenterrar o machado de guerra e estou a poli-lo e afiá-lo com todos os requintes. 
Além do mais, como dizia o Fred, não é em redor dos fazedores de grandes barulhos que gira o mundo - é em redor dos engendradores dos grandes silêncios. Por isso mesmo, fiz um enorme e profundo silêncio para ver o mundo todo a girar e robolar à minha volta. Acreditem - pasmem até, se quiserem : não vi grande merda. Bem pelo contrário, como dizia eu: isto não evolui nem progride, deteriora-se.
O Caguinchas manda cumprimentos. Não pode estar presente porque anda a fugir ao Fisco. Alguém foi delatar junto deste que o Ildefonso lhe andava a montar a esposa...à borla..



sexta-feira, dezembro 12, 2014

Agora é a sério.




Em 18 de Dezembro de 2003 iniciava-se o Dragoscópio. Em 18 de Dezembro de 2014 reiniciar-se-á. Que Deus nos ajude!...

terça-feira, dezembro 18, 2012

0




                                 

1...


(Som de fundo:
"À Nossa Senhora das Mordomias")




Leitores, compatriotas, amigos,
minhas senhoras e meus senhores
Excelências,

eu tinha preparado um brilhante e solene discurso. Tinha mesmo. Uma pungente e impressionante mensagem de despedida. Coisa descoroçoante, acreditem, de fazer chorar as pedras... Sabeis que não minto; que, quando quero, embora raramente, sou capaz de cintilâncias e granifulgências arrebatadoras. Pois é verdade que tinha. Só que o meu sócio, confrade e imediato Ildefonso Caguinchas, mais que as palavras, tirou-me as imagens da boca. Vendo a minha querida Svetlana assim exposta, fiquei também eu núcego de metáforas e hipérboles, sinestesias e onomatopeias, anacolutos e anáforas. Que vos hei-de eu dizer numa hora destas?... Olhem, vou ali comprar fósforos!...





2...

Diz-me o tirano: "Acabou, Caguinchas! Vai lá e despede-te das pessoas."
 Portanto, cá estou. Não sou muito de discursos. E como uma imagem, dizem, vale mais que mil palavras, deixo-vos uma imagem que vale mais que um milhão... E que, não é preciso acrescentar, simboliza tudo o que eu penso do universo, da vida, da humanidade e do tempo efémero que aqui passamos...









PS: Sim, porque tudo bem espremido, filosofias, literaturas, economias, políticas (excepto certas religiões mais dadas à monotonia), tudo se resume a uma frase: "Mim Tarzan, tu Jane!..."

Ó Leonilde is Love! Ó Leonilde is Love!...


(E agora roam-se de inveja, ó seus piças moles!!...)

segunda-feira, dezembro 17, 2012

3...

Havia que escolher um postal que sintetisasse a generalidade do que aqui ficou escrito e que servisse também de mnemónica para o futuro...

Nada comos os provérbios do povo a que pertenço, só que devidamente adaptados à realidade moderna e, consequentemente, despidos de todo o eufemismo e suavização tradicionais. Nem todos nascemos brandos aqui nesta Brandoa...



Provérbios impopulares do Dragão

· Nem tudo o que lês é ouro
· Tristezas não apagam dívidas
· Vêem-se caras, não se vêem cotações
· Devagar se vê ao longe
· O silêncio é de outro
· A cavalo doido não se molha o dente
· Não guardes para amanhã o que podes foder hoje
· Os umbigos são para as ocasiões
· Em tempo de guerra não se limpam Karmas
· Cada maluco com a sua maria
· Cão que ladra não fode
· Contra flatos não há argumentos
· Da discussão nasce a cruz
· De boas invenções está o Inferno cheio
· De noite todos os patos são parvos
· Mudam-se os tempos, mudam-se as vaidades
· Não deites foguetes com fé na testa
· No papar é que está o ganho
· No melhor plano cai a nódoa
· O hálito não faz o monge
· O que não mata, engoda
· O Saber não ocupa lagar
· O futuro morreu de velho
· Olhos que não vêem, coração que não mente
· Cabrão fora, dia santo na gaja
· Quem fala, contende
· Quem morre por gosto, não descansa
· Quem espeta sempre alcança
· Quem mais jura, mais monta
· Quem te evita, teu amigo era
· Quem tem cu, tem mundo
· Um mal nunca tem dó
· A união faz a forca
· Ardor com ardor se apaga
· As aparências elegem
- Diz-me em quem mandas, dir-te-ei quanto é
-  A ração tem sempre cliente

domingo, dezembro 16, 2012

4...



«O Homem é humano quase tanto como voa a galinha. Quando apanha uma traulitada, quando um carro a obriga a bailar, lá vai ela pelos ares até ao telhado, mas logo de seguida aterra no lodo e desata a debicar na bosta. É a natureza, a ambição dela. Entre nós, na sociedade, dá-se exactamente o mesmo. Deixa-se de ser tratante sob a acção de uma catástrofe. Quando tudo torna ao normal, a natureza retorna logo ao que era. Por isso mesmo é que, de uma Revolução, só vinte anos depois se pode ajuizar.
"Eu sou! tu és! nós somos rapaces, pérfidos, sacanas!" Jamais se dirão coisas destas! jamais! Jamais! verdadeira revolução porém seria a das Confissões, a grande purificação!»

-Céline, "Mea culpa"

Peguem em qualquer postal que eu aqui tenha escrito em 2005 ou 2007 ou 2010 sobre os (des)governos da época. Ajusta-se que nem uma luva ao desgoverno de hoje. A mesma coisa sobre americanos, europeus, árabes (de burka ou de penca),  esquimós, marcianos, aliões constipados, etc, etc. Às tantas, um tipo dá consigo a sentir-se papagaio de si próprio. A patinhar ab aeterno em bosta. Ou a debicar militantemente nela, como a galinha do Céline. E o pior é que como em tudo, o eco fica sempre àquem do original. A repetição perde sempre o brilho, o lustro da descoberta. De facto, neste mundo doravante entregue aos vermes e aos parasitas, as coisas não evoluem: deterioram-se. O único sentido de mudança que experimentam é a alteração física - essa qualidade de movimento estático definido por Aristóteles como geração/corrupção. Eventualmente, os países, os povos, as civilizações são como as pessoas. Nascem, crescem e morrem. No fim da geração (e das gerações ínclitas) aguarda fatalmente a corrupção (e as corrupções sórdidas). Senil, amnésico, hipocondríaco, flatulento, velhaco, cobarde, podre do corpo e abandonado pelo espírito, Portugal está a morrer. Não é matéria para galhofa, chalaça, nem  riso. Aos desfiles fúnebres assiste-se em silêncio. Um Dragão não é uma hiena.

sábado, dezembro 15, 2012

5...




«(...)Leobundo dirigiu-se para a Síria, direito a Antioquia.
Como sempre,ao longo do seu itinerário - virasse à esquerda, virasse à direita, subisse às montanhas, descesse aos rios -, não encontrava vivalma. Mesmo da criação, nas quintas, só os porcos, adultos e calejados, o recebiam, remirando-o então interessados, de dentro das suas pocilgas, ou fossando nas enxovias que bordejavam as casas, conforme ele passava célere, em ritmo de marcha acelerada e trompeta justa. Leobundo benzia-os e prosseguia em bom ritmo. Desde Jerusalém, adquirira o hábito de se ir arauteando, em jeito de anúncio: "A mim, os paralíticos, os leprosos, os cegos-tristes e os surdo-gagos!"
Também as populações e as regiões visitadas, aos poucos, começavam a adoptar curiosos costumes. Assim, consoante se apercebiam da  sua aproximação (o que não era difícil) e reuniam um cálculo abalizado sobre o seu presumível itinerário, iam abandonar todos os seus paralíticos e cegos-tristes bem no enfiamento da rota do santo. Nos dias em que o vento soprava de feição, ainda o beato peregrino vinha a quilómetros, e a cura milagrosa não se fazia esperar. Os paralíticos, arrebatadamente, levantavam-se, e desatavam, mais que a andar, numa correria louca; os cegos-tristes, sem sequer quererem saber nem ver onde raio punham os pés, largavam em tropel semelhante, doravante alegres e dando graças a Deus, já que para mirar a abominação correspondente a semelhante aroma, mais valia não ver, bendita a hora em que haviam perdido a visão, que os poupava a tais horrorers, etc, etc. E mesmo quando, mais tarde, os repescavam dos precipícios, poços ou rios onde se despistavam por via da desorientação, encontravam-nos sempre com um sorriso nos lábios, mesmo se mortos ou feridos. O poder do santo só não era eficiente junto dos surdo-gagos, pois estes, à primeira inalação, regrediam imediatamente para surdos-mudos. Quanto aos leprosos, como já sabemos, o panorama era misto, mas não deixava de ser animador: aqueles que já haviam perdido o nariz recebiam-no cortesmente, escutavam-no e tornavam-se mesmo seus discípulos; os que perseverassem com nariz fugiam apavorados; mas todos eles, à uma, perdiam a melancolia e o acabrunhamento que, até aí, os assombrava.
Foi numa manhã cinzenta de baixas neblinas que Leobundo regressou a Antioquia, ou melhor, aos arredores desta, junto da coluna onde Simão, o seu mestre-treinador, morava.
É claro ue se fizera preceder duma debandada miraculada de paralíticos-corredores e cegos-alegres. Esta revoada anunciadora começava a tornar-se, para bom entendedor, péssimo e indubitável augúrio.
Mas Simão, lá nas alturas onde vivia, pouco se apercebia das peripécias e folclores, sempre patéticos, do mundo. Nessa noite dormira particularmente feliz pois os seus adeptos e admiradores tinham-lhe acabado de elevar a mansão até aos 22 metros onde agora se encontrava. Mais próximo doravante do céu e, por conseguinte, de Deus, Simão afagava voluptuosamente as nuvens, sem reparar na revoada de entrevados-corredores e cegos-alegres que, mais abaixo, desarvoravam.
Estas revoadas, convém referi-lo, faziam-se acompanhar de gritarias e alaridos  onde predominavam "Deus nos acuda!", "Ó da guarda!", "salve-se quem puder!", "Ai minha mãe!, "Nossa Senhora nos valha!, "vade retro e abrenuncio!", e por aí fora. Essa manhã não foi excepção: os adeptos e fiéis de Simão, acampados à volta da coluna, puideram, com grande estupefacção, vê-los passar em correria desautinada, como se a própria peste os perseguisse. Um dos dos cegos-alegresq ue, entre sprintes e tombos, se distinguia pelo vigor com que accionava os joelhos, veio mesmo esbarrar estrondosamente no poste magnífico onde o asceta apontava ao céu. Correndo a socorrê-lo e ampará-lo - ao cego desgovernado, já que o asceta continuava firme lá no alto -, os fiéis, perplexos, interrogavam-no sobre os motivos para tanta pressa e as razões de tão ébria condução. Mas logo que recobrou os sentidos, o frenético invisual esbracejou que nem um endemoinhado, cuspiu vários dentes e, apesar do nariz a golfar sangue, arrancou num galope ainda mais desaurido do que antes. Enquanto ele se ia despenhar por uma ribanceira deveras íngreme que ficava logo adiante, os adeptos de Simão entreolhavam-se, entre aturdidos e preocupados. Que raio se passava, afinal?
É preciso recordar que muitos deles eram peregrinos oriundos de longínquas paragens, pouco eruditos nos costumes e perigos da região. Chegavam, após árduas jornadas, na expectativa de algum milagre, relíquia ou sermão iluminante. Madrugavam e congregavam-se ali, ainda mal o sol raiava, porque era todos os dias àquela hora que o santo, lá de cima, procedia à vazão diária. Uma multidão ansiosa montava sentinela atenta à liquefacção inspirada. Ao princípio, quando a coluna pouco mais tinha que três metros de altura, era simples: o jorro descia coeso e bem defenido. dada a boa visibilidade, conseguia prever-se com eficaz antecipação para que lado o asceta visaria. A turba convergia então, não sem alguns precalços e atropelos, estendendo potes e vasilhames. Mas depois que o torreão se elevara para lá da dezena de metros, o vento e o prognóstico começaram a interferir. O jorro derivava, a maior parte das vezes, para chuveiro. Nunca se sabia exactamente que ponto cardeal o anacoreta aéreo privilegiaria para a sua devota rega. O cálculo das probabilidades implantou-se. Complexos processos de adivinhação e vaticínio antecediam a madrugada. Áugures profissionais passaram a montar consultório nas redondezas e a cobrar tarifa aos crentes. Postos de observação artificiais terão sido levantados, com o intuito de espreitar o eremita e transmitir as suas tendências. "É leste!", gritavam os vigias; ou "é sudoeste!", avisavam os logradores.  E a maralha comprimia-se, atropelava-see contundia-se por um lugar vantajoso, à bica do santo.»

- in "Leobundo, o Mártir"


Duas ou três notas complementares, se me permitem abusar da vossa condescendência.  É evidente que estamos perante um exercício cruel de humor negro. O único, aliás, que verdadeiramente me interessa e apaixona. Mas também uma espécie que em Portugal gera invariavelmente um dose monumental de incompreensão, para não dizer mesmo desconforto. Até à ironia, em porções suaves e descaroçadas, a malta ainda vai. Todavia,  dum modo geral, mesmo essa é olhada de esguelha, com desconfiança, melindre bacoco ou desdém alarve. Será consequência dum défice endémico de inteligência - isto é, serão os portugueses, intrinsecamente, um povo troncho e estúpido, em que a nata e a borra se confundem no mesmo paúl de indigência mental? Bem, nisso, e no tempo actual, o povo português não se distinguiria da generalidade dos povos, sobretudo ocidentais. Pelo que não vou por aí: Se isso, em parte é verdade, não o é absolutamente. Portanto, não define a coisa nem o fenómeno envolvente da coisa. Eu diria antes que o que cada vez mais atravanca e menoriza o pensamento das pessoas é a pressa, a vertigem aquisitiva, de bugiigangas tanto quanto de notícias, de sinais exteriores de sucesso tanto quanto de (pseudo)conhecimentos - sendo que, para cúmulo, a cultura do conhecimento refina-se e resume-se sobremaneira no "conhecimento de pessoas úteis", e nas mil e uma formas, sortilégios e expedientes para seduzi-las e atrai-las ao nosso proveito, nem que seja,  à falta de melhores trunfos ou armamentos, pela bajulice, o rapapé e a tele-osmose pública, estrepitosa e repenicada. Dessa vertigem resulta a fatal superficialidade do crivo: sempre a encher-se e sempre a sentir-se vazio. Quanto mais perpassa menos retém. E essa, infelizmente, é a cultura da internet, do google, da wikimérdia, do palramento que alastra da acrópole ao necrotério. Ingurgita-se cada vez mais, mas digere-se cada vez menos. Tudo é uma papa. E não tarda, nem isso: pílulas e soro directo na veia, o que dispensará gastos supérfluos, como actualmente, com o funil. Diz-se que os capitalistas promoveram a alfabetização para pôr as massas a ler jornais. Já passaram à segunda fase: agora já as colocaram a escrevê-los. Bem como a best-sellers literários E aí o fenómeno adquire contornos tenebrosos, que se traduzem numa constatação tão gritante quão eloquente: o segredo não está em limitar e, muito menos, reprimir, a liberdade de expressão; o truque, através do despejo ininterrupto de "informação" e expressão à pendura, consiste, ao invés, em, atrofiar, até à erradicação funcional, mais que a liberdade, a própria possibilidade de pensamento.  Desde que não penseis, podeis dizer tudo o que vos der na real gana. Aliás, quanto mais tempo gastardes a debitar esses chorrilhos imarcescíveis entre a lamúria e a aleivosia, esse perpétuo diz-que-diz-do-que-o-outro-disse, menos perigo - e sobretudo tempo! - há de pensares efectivamente no que quer que seja. As pessoas ainda não perceberam que a troco da palavra gratuita, estão a dar, de barato e confisco, o sentido. A coisa descamba assim num recreio infantil em átrio de manicómio, onde a opinião e a pilinha já não se distinguem. Micro-napoleões do sitemeter, nano-profetas da economia, mini-lenines de chucha, churchils'r'us de plástico, escuteiros-mirins da disneylândia esbirra competem por púlpito, pedestal e megafone.
Para mim, basta.

PS: Um último reparo, tendo até em atenção o velho Simão, Estilita, na sua coluna ascética. Os homens regrediram muito desde esses baluartes da demanda vertical. O mundo processa-se agora às avessas.   Assistimos, não raramente, a personagens invertidas destes promontórios. Hoje em dia, por exemplo,  incapazes de subirem na coluna, os descetas afundam-se no blogue, isto é, escavam um buraco, do fundo do qual expelem os seus ruídos. Também congregam devotos. Só que estes, já não elevam os pescoços à coca das pingas redentoras: debruçam-se, acocoram-se, tão sòmente, na fossa, à espera do géiser. A ascese da coluna deu, pois, lugar ao chafariz de bidé. Outrora, como se fustigavam a aspergiam as cabeças, agora abluem-se, lambuzam-se e acariciam-se os cus. Afinal,  nada de surpreendente, num tempo em que que estes cada vez menos se distinguem das caras. E  não precisam que eu vos aponte casos reais, concretos e avulsos disto, pois não?... Afinal, não fiz outra coisa nestes últimos nove anos.


sexta-feira, dezembro 14, 2012

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«Recorde-se que é o título nacional do Pantaboxbol que vai estar em disputa. O Pantaboxbol, como é sabido, ten vindo a tornar-se nos últimos tempos, para além da arte marcial suprema, o desporto predilecto das massas. Isso deve-se muito provavelmente ao facto desse desporto reunir em si as regras e possibilidades de todos os desportos. Os atletas podem fazer uso de quaisquer equipamentos de quaisquer outras modalidades, o que confere um garrido e espectacularidade ímpares. Aliás, na escolha do equipamento adequado reside quase sempre o requisito para o bom ou mau sucesso no combate. Tradição, essa, reconheça-se, que já remonta à Ilíada.
Ora,o confronto desta noite não é excepção. Para o primeiro round, adivinham-se já as tácticas, a avaliar pelos arreios. Assim, Gonçalo Lapada, o Tio, parece apostar na estabilidade defensiva, envergando um par de esauis e empunhando um taco de golfe, tamanho 5; já o seu adversário, Tony Pimba, o Pato bravo, alardeia intençõesde maior mobiliade ofensiva, calçando um par de patins em linha e arvorando na mão direita um bastão de basebol. É claro que tudo rodopiará em paradas e contra-paradas, estocadas e contra-estocadas, ataques e defesas, à procura duma brecha para o golpe fatal. O público, adepto e conhecedor, sabe perfeitamente que, a limite, o Tio tudo fará para conseguir aplicar o seu golpe mais mortífero e decisivo, ou seja, o já lendário "estalo"; enquanto, por seu turno, o Pato Bravo manobrará no sentido de tentar uma aberta para desfechar com o seu famigerado e letal "cachucho".
Entretanto, o árbitro olha mais uma vez para a mesa do júri, enquanto os lutadores recebem as últimas instruções dos treinadores e são refrescados e afagados pelos massagistas. Gonçalo, o Tio, depois de complicado embrulho com o equipamento por causa de se ajoelhar, escuta com atenção beata as palavras do padre melífluo que, além de treiná-lo, também o abençoa, confessa, absolve de todos os pecados e entoa, a culminar, um Lhe Deum de vésperas de pancadaria; enquanto o massagista, jurista de profissão e momentanemente acólito, lhe faz chegar a hóstia galvanizante ás dentuças sôfregas. Enquanto, no canto oposto, Tony, o Pato Bravo, memoriza os planos maquiavélicos do seu deputado-treinador, ao mesmo tempo que vai emborcando copázios de tintol incentivante, que o carroceiro massagista (e historiador por conta) lhe atesta e despenha pela goela abaixo. Ambos, no entanto, vão adquirindo lampejos cada vez mais maníacos nos olhos e começam a mal disfarçar os tremores homicidas que lhe sacodem os membros. O Tio acaba mesmo, neste momento de proto-exaltação, por ter um ataque epiléptico dos tesos, o que, dados os esquis á mistura, não deixa de ser assombroso de se ver e também algo contundente para o seu próprio staf. O público, sempre atento, aplaude esta espécie convulsiva de Cata já tradicional neste atleta. O rival, por seu turno, não querendo ficar atrás, esmurra o peito peludo de cidadão atarracado e entoa roncos formidáveis de gorila maguila, aspergindo gafanhotos em todas as direcções e espuma esbranquiçada pelas comissuras ruidosos. A audiência, maravilhada, rompe em olés. Entusiasmado, o Pato Bravo, deriva para o fado vadio, numa variação de chimpanzé alarvemente nostálgico, o que, por osmose eniviesada, causa alguma comoção e lágrimas. E, logo de seguida, novo coro de olés, e "ah fadista!", por toda o pavilhão.
Entrementes, o Tio mordeu a língua à mistura com a hóstia e esperneou tanto que partiu um dos esquis nas costas do seu próprio treinador. Finalmente serenado, após várias cadeiradas na cabeça, recebe suturas e primeiros socorros, bem como uma excomunhão passageira que o presbítero ressentido (e opus dei famoso) não deixa de lhe aplicar, tem que, igualmente, trocar os esquis por uma prancha de surf. O clérigo, esse, fala-lhe agora de longe, com um megafone.
Mas eis que o árbitro convoca os dois lutadores ao centro, para se cumprimentarem e dar início ao combate. Isto acarreta algum embaraço. Por um lado, o Tio, em cima da prancha, não consegue mover-se por falta de ondulação; por outro, o Pato Bravo, desdestro  na patinagem, desembesta em cima das rodas e sai estatelado pelo lado oeste, depois de quase atropelar o juís da contenda, Este, apelando à sensatez e ao pragmatismo, opta por dar incício á partida, sem mais protocolos nem anteparos.
A multidão ruge, satisfeita. As claques rompem em tonitruantes mensagens de apoio e estímulo incondicional aos seus meninos, bem como sugestões argutas e exemplos urgentes de ordem táctica e operacional.
O combate, no entanto, apesar de oficialmente iniciado, tarda a iniciar-se. É que se o Pato Bravo teve a felicidade de ver a sua queda amortecida por vários cidadãos embasbacados, teve também a infelicidade conjunta de acertar numa área ocupada pela claque inimiga. A viagem de regresso ao ringue não deixa, pois, de ser atribulada e custa-lhe um certo número de escoriações e saliva a pingar pela cara abaixo. Felizmente, durante todo o tempo, conseguiu manter-se na posse do providencial bastão de basebol, com que, qual pioneiro da selva amazónica, lá foi abrindo caminho pelo matagal agreste. Mal acaba de transpor, a salvo, as cordas, e, legitimameente enraivecido, atira com os patins ao magote perseguidor. Sem mais delongas, com a ajuda do treinador, monta na bicicleta e troca a moca rachada por uma raquete de ténis.
Cá estão portanto, e até que enfim, os dois colossos frente a frente. Usando de idênticas técnicas, um de cima da prancha, o outro do alto da ciclocoisa, começam por insultar-se obscenamente, recorrendo a um vernáculo cabeludo, entre o erudito e o chunga. A fase, claro está, é ainda de estudo recíproco e reconhecimento selvaginoso. Mas há um impropério expedido pelo Tio que parece ter um efeito devastador. O Pato Bravo fica bravíssimo. Desata a guitar apopleticamente: "Agarrem-me! segurem-me, que eu dou cabo dele! Eu mato-o! Eu bebo-lhe o sangue todo!!... Segurem-me, senão eu desgraço-me!" Porém, da outra banda, o outro insiste e reforça. Repete os terríveis vocábulos e acrescenta sardonicamente: "Sim, é melhor segurarem-no, senão ainda lhe dou um estalo!"  Esta aparte cai que nem uma bomba. Apesar de já agarrado e acalmado pelo árbitro, pelo deputado, pelo massagista carroceiro e autarca municipal, e por vários espontâneos da assistência, Tony Pimba, o Pato Bravo, explode que nem um vulcão: "Ai, agora não há perdão! Vou massacrá-lo! Vou-lhe dar com este meu cachucho bem no alto dos cornos!! Larguem-me! Deixem-me ir a ele!!"  Os outros assim fazem e se o gongo afortunado não soasse para o fim do primeiro assalto, não se sabe bem que hecatombe geral poderia sobrevir.
Novamente nos respectivos cantos, donde curiosamente ainda não saíram (excepto para deambulações marginais à refrega), os dois magníficos desmontam dos veículos e sentam-se nos banquinhos. O Tio recebe sermões e conselhos proficientes do seu treinador, via telemóvel; enquanto, no canto defronte, o Pato Bravo atenta nas arengas do dele, e ingere um whisky duplo. O som do gongo para o segundo assalto vem já encontrá-los prontos para façanhas inéditas e traumatismos múltiplos. Um, o Tio, depois de ponderar o trampolim de ginástica, deixou a prancha de surf - pouco dinãmica, reconheça-se -, e optou por uma sela de montar com a respectiva égua adstrita; na mão esgrime agora uma raquete de squash. O outro, o Pato Bravo, pôs de lado a bicicleta e trepou na moto de água, levando à tiracolo um remo.
O público recrudesce nos incitamentos e cantorias. Que apocalipses nos reservarão os próximos minutos? Guardando o telemóvel, e empunhando novamente o megafone, o prelado Melífluo guia o seu prosélito à carga: "Dá cabo da besta meu filho! Morte ao Satanás, ao herege, ao Judas! Usa o escudo da fé!..." e assim sucessivamente.
Da outra banda, ao volante ufano da sua moto-de-água, o Pato Bravo recorre à sua injúria preferida e, em altos berros, coloca publicamente em dúvida a masculnidade do oponente. Apanhado em cheio, o Tio vacila mas, recapitulando toda a catequese, riposta com o mais desabrido e alucinado dos seus vitupérios: "Socialista!!"
Ambos os gladiadores estão agora deveras maltratados. Não admira, dada a violência dos golpes, que raiaram mesmo a ilegalidade regulamentar. O combate é interrompido, como mandam as regras, embora ninguém saiba bem quais. O árbitro procede a uma contagem de protecção aos dois atletas claramente zonzos. O Tio caiu até do cavalo abaixo (passe o excesso de preciosismo) e o Pato Bravo chora que nem uma madalena prostrado sobre a viatura de recreio. Num auge  visceral de fúria, por entre as lágrimas, o segundo dispara intempestivamente, à queima-roupa: "Ai é? Vou chamar o meu padrinho!!" O Tio não se quer ficar e ameaça com o tio dele. Das palavras aos actos é um instante.
Ante os clamores de grande regozijo por parte da turba apreciadora, eufórica com o resvalar da guerra convencional para o cataclismo nuclear, sobem ao ringue o Padrinho da Pato Bravo - o famigerado "Bimbo da Praça"; e o tio do Tio - o tristemente célebre "Filisteu das Berças".»

- in "Antropomaquia Lusitana, ou as Memoráveis Crónicas do Pantaboxbol"

quinta-feira, dezembro 13, 2012

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«As manadas existem, mas não existem só as manadas. Mais precisamente, o facto de existirem chusmas lemmings não significa necessariamente que toda a humanidade possa ser entendida, enfileirada e manobrada feita uma chusma lemming; como, de certa forma, o facto de existirem indivíduos não constitui prova suficiente de que todos os homens sejam indivíduos. A experiência tem demonstrado precisamente o contrário destas generalizações aberrantes, mas normatizadas e cíclicas. Por outro lado, sabe-se tanto da lógica ou da necessidade da existência do indivíduo, como da lógica ou razão de ser da manada. De resto,  apenas se comprova a existência de indivíduos exactamente no fenómeno oposto de existirem manadas: é que, decerto. não é indivíduos aquilo que constitui as manadas. A ideia peregrina de acabar com os conflitos entre manadas, convertendo tudo na mesma e acéfala manada global esquece esse pormenor, aparentemente insignificante mas deveras incómodo, de existirem os indivíduos. Quanto mais opressiva for a escuridão, mais intenso resultará o brilho da vela solitária. Como a massa Blobglob reagirá, a limite, àquilo que não consiga digerir e fundir, é ainda uma incógnita superficial. Mas, no fundo, adivinha-se...
Além do mais, e voltando atrás, a homogeneização germina e viceja no Terror: torna-se possível, senão necessária e indubitável, a um homem-aterrado, que já não trepa aos olimpos nem mergulha nos abismos, que já não sonha nem pensa para lá da superfície, quer enquanto espaço, quer enquanto tempo. Um hominídeo pragmático, utilitarista, com os pés bem assentes na terra. Um homem aparentemente em correria perpétua, em transportes de libertação, mas, na verdade, ancorado, enjaulado, parqueado, com toda a liberdade para correr dentro dos limites do parque. Cada vez mais a correria humana é uma correria de hamster. Ou de Sísifo. Um correria circuitante, recorrente, erosiva; uma tournée aos quatro cantos do seu presídio. Um Tour, ou melhor, um turismo do seu próprio inferno. Talvez seja essa a forma de o climatizar: se antes se encontrava degredado nele, doravante está só de visita, de passagem, de férias. Ou não fosse a actualidade a exibição confrangedora dum homem que tirou férias da sua própria essência.»

in "O Tratado da Besta"

«A mesma força que empurra o homem para a Ordem, catapulta-o contra a Desordem! E, o diabo se roa todo!,  não é uma questão numérica: milhares de abortos não fazem uma criança e, muito menos, um homem que seja! Por isso mesmo, este,  não tem que estar à espera que milhões de bestas cavalgaduras e bestas cavaleiras se dignem conceder-lhe o benefício da sua simpatia ou assentimento; chegada a hora, aceso o fogo, irrompe, nasce, ergue-se acima da lama, cumpre a força que o determina, a coragem que o incendeia, sem olhar para trás e sem esperar jamais que a lama o acompanhe ou a baixeza o eleve e exalte! O Homem não se ergue da bestialidade para a conduzir: levanta-se contra ela, como a estrela se acende contra as trevas do céu. É só um pontinho minúsculo e longínquo no meio dum infinito negro e vazio, mas é esse pequeno nada que brilha e guia o ser! Essa é a prova de fogo, a têmpera vulcânica que forja o gume olímpico e o aço inquebrável. Poisai a máscara, ó fariseus melífluos: É a mesma bestialidade cega que ergue a cruz para Cristo e a forca para o pirata. No fim, ambos sabem que estão, como sempre estiveram, sozinhos; que ninguém os segue na ascensão que conta, no momento da verdade, porque a humanidade não se imita, nem se aprende, nem se ensina: é-se, vive-se, de pé, sem medo nem vaidade. Não, pelos tomates de Aquiles!, o homem não se subleva: ergue-se; mesmo sabendo, especialmente sabendo, que é para caminhar para o cadafalso, seja esta a cruz do Nazareno, seja a forca do pirata! Porque diante de Deus,  aos olhos perscutantes do Cosmos que tudo vê e julga eternamente, vale mais uma morte de homem que uma vida inteira de réptil! A morte dum homem é o preço pela sua vida; a vida do réptil em figura de gente é uma vida tão desprezível e insignificante que nem preço tem!...»

- Retirado do "Sermão de Não-São Iceberg aos Tubarões" (Capítulo IV duma determinada obra que me compete acabar antes que este rilhafoles acabe comigo).




terça-feira, dezembro 11, 2012

Lisbon Sunset



O tempo de escrever para o boneco e falar para as paredes está a chegar ao fim. Outro tempo, um tempo mais antigo e demiúrgico prevalece: o tempo de voltar a escrever para o baú. Gastei nove anos da minha vida a falar aos presentes. Não me poderão acusar nunca de não ter pago tributo. De não ter descido à polis. Resta-me agora sacudir o pó das sandálias e, se voz alguma tenho ou pena me resta, ir falar aos vindouros. Eu e, mais do que eu, os antepassados que em mim reverberam.
"Esperos", no grego, significa isso mesmo: entardecer, poente, oeste. E, todavia, é nesse entardecer, nesse findar da luz que nasce a esperança - a espera pela manhã de um novo dia. Por isso se diz (digo-o eu, pelo menos) que a esperança, na etimologia tanto quanto na vida, é filha do crepúsculo. É assim, é cíclico, eterno. imune e inexorável. Desde o princípio dos tempos...  Se é que no Tempo o princípio e o fim se destrinçam.

sábado, dezembro 01, 2012

O Mostrengo (r)




Escrevi-o aqui, em janeiro de 2005, e está mais actual que nunca. 

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O MOSTRENGO

«O mostrengo que está no fim do mar
na noite de breu ergueu-se a voar;
à roda da nau voou três vezes
voou três vezes a chiar,
E disse:" quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo
mus tectos negros do fim do mundo?»
E o o homem do leme disse, tremendo:
»El-Rei D.João Segundo!"
- Fernando Pessoa, "Mensagem"

A figura do mostrengo é eloquente. Ainda hoje brame, para quem o quiser ouvir. Ainda hoje apavora quem o escuta e, pelo zoar do seu estrugir desumano, o imagina envolto em fiapos de tormento e cortinas de pesadelo.
Em Quinhentos, nesse tempo de coragem, de Audácia, mais que de ganância, os mares ressumbravam, infestados. Ao longe, nos oceanos, que iam vomitar-se lugubremente no abismo tartárico, senão na goela insaciável do próprio inferno em chamas, uivavam abominações medonhas, habitavam pavores inomináveis. Sob o manto vertiginoso das águas, moravam braços descomunais, tentáculos mortíferos, mandíbulas escancaradas prontas a devorar, a varrer e a despedaçar, sem dó nem piedade, a casca de noz e o insecto que se atrevessem, que experimentassem a viagem, que ousassem sequer o pensamento. Enfim, emboscados, sempre à espreita, famintos de dor e carne humana, cardumes de horrores patrulhavam os mares ignotos. Para quem escondia os olhos –como hoje ainda esconde -, o mostrengo era tudo isso. Escutava-se e dava vontade de nunca ter nascido.
Mas, na verdade, o mostrengo não habitava os mares: rodopiava fantasmagórico na alma dos homens. Tolhia-lhes o ânimo e quebrantava-lhes a força. E chiava –oh, com que tenebror ele chiava! - a enregelar o coração e a liquefazer a espinha. Que até os dentes crepitavam, os cabelos encaneciam e o chão nos chamava, em refúgio, para o mais humilde e obscuro dos seus orifícios.
Só que havia uma semente - uma centelha de odisseia - que Ulisses deixara por estas bandas. E uma semente pode muito. Mais que todos os medos. Mais que todas as filosofias, literaturas e ciências! Mais que a treva e os abismos. Porque uma semente sabe o caminho do céu. Rompe a lama e as angústias, fende os ares e as neblinas e estende os braços, feita árvore, a abraçar a luz e o firmamento. A saudar o sol e as estrelas. A respirar o sopro divino que dá vida ao mundo.
As sementes são a lenha dos sonhos. Os portugueses de Quinhentos foram a carne dessa semente.
E do chão agreste, triste, sujo e escuro, onde o medo os agrilhoava e mantinha encarcerados, rasgaram horizontes e elevaram-se para uma luz que os guiava a sul de todos os crepúsculos, à procura de edens e fontes sagradas, em busca de tesouros, de aventuras, de terras exóticas, mas, acima de tudo, ou como estrela guia para tudo isso, do mais bem-aventurado e exótico de todos os tesouros: a verdade.
Foram banhar-se no sonho e no abismo. Foram para o mar enfrentar o mostrengo que levavam na alma.
Guardamos essa memória nas veias e sabemos que não foi fácil. Sabemos que não foi uma coreografia sonoplástica e narcótica, como os filmes de hollywood. Que não foi insípido e inodoro. Que o cheiro a merda e sangue, a escorbuto e malária, a desespero e desinteria se misturaram muitas vezes, quase sempre, com o perfume da maresia, que entra pelos pulmões e descongestiona a alma. Que as lágrimas das mulheres salgaram o cais e as maldições dos velhos crismaram o vento. Que isso toldou o horizonte e açulou o mostrengo que de dentro de nós –nós naquele tempo – assombrava o mar.
Mas nós –nós naquele tempo – nós sem automóveis, televisões, figoríficos, nós sem electricidade nem água canalizada, nós sem subsídios nem peritos de pintelhices a granel, nós sem doutores da mula russa a parirem reformas de empreitada, nós sem formação profissional nem confortos, sem sindicato nem segurança social, nós sem computadores nem cinemas, nós sem petróleo nem diamantes, fomos capazes de uma obra colossal, fomos capazes dum milagre, a semente fez-se árvore.
Nós –naquele tempo muito mais magros, destituídos, ainda mais indigentes e pequenos que hoje – fomos capazes. Porque é que hoje não somos? Não somos capazes porque nem sequer somos nós. Entre aquele tempo e este tempo interpôs-se um limbo onde vagamos quais sombras penadas. Sobra-nos a matéria, o esterco que nos amortalha; sobram-nos bugigangas em catadupa, adubos, pesticidas e cuidados de flores de estufa, mas falta-nos o essencial: a vontade, esse gume afiado do espírito. Falta-nos aquele que a vaca da Isabel Católica, ao saber da sua morte, disse: “Morreu o Homem”
Mas não apenas o homem-rei, símbolo de um povo, da união sagrada entre terra, mar e gente, e duma vontade colectiva; também, e sobretudo, o Homem dentro de todos nós, o homem que sonha, o homem que navega, o homem que acredita.
Porque em vez dele, a velar o seu sono forçado, soltando peçonha e susto, reina o mostrengo. Adeja, rodopia e chia sem parar. Entoa a sua umbrífera lengalenda, que cobre, como uma névoa tóxica, venenosa, o sol e as estrelas, e entranha-se nos ossos, nos músculos, nas mentes, a roubar-nos toda a coragem, a decantar-nos toda a esperança.
“Sois fracos!”, chia ele, escarninho. “Sois débeis! Sois poucos! Sois pobres! Sois atrasados! Sois obsoletos! Sois a escória da Europa! Sois vis! Sois preguiçosos! Sois desgovernados, desorganizados, viciados, dependentes, individados, mesquinhos, intriguistas, fala-baratos, quezilentos, alarves, pacóvios...sois o desespero de Cristo!...” As suas asas negras esvoaçam por cima de nós, sombrias e, à noite –nesta infinita noite em que se tornou a nossa vida-, pressentimos que ele poisa, de colmilhos afiados, para nos vampirizar os sonhos. Mas mesmo nessa pausa hedionda, a sua cantilena exasperante não cessa: repercute em ecos descarnados, lutuosos, nas abóbadas do nosso pavor.
Mas que pensáveis vós que ele, esse mesmo mostrengo chiante, uivava há quinhentos anos atrás? -A mesmíssima gosma paralizante, a gémea baba de aranha dissolvente. Sem tirar nem pôr.
E os homens - daquele tempo em que ainda havia homens - deixaram para trás as lágrimas das mulheres, as maldições dos velhos, o espanto maravilhado nos olhos das crianças e saíram mar a fora, levando todo o medo consigo, e foram enfrentar a ululante avantesma lá onde o mundo acaba e o abismo começa. Saíram as naus da barra e o mostrengo infame ia por cima delas, como uma sombra de Outro-Mundo.
Choraram as mulheres porque viam ambos, praguejaram os velhos porque viam a abominação, maravilharam-se as crianças porque eram seus os sonhos que iam dentro dos homens, com a forma de mastros e velas.
Os homens não voltaram. Só o mostrengo voltou.

«O mostrengo que está pra cá do mar
Na noite de breu continu’a voar;
Por dentro da alma voa mil vezes
Voa mil vezes a agoirar,
E diz: “quem persiste ainda a sonhar
Com algo que não meu trono execrando
com céus acima deste pó imundo?
E a nau sem leme geme, sangrando :
”Quem há-de vingar D. João Segundo?...”