Como já devem ter percebido, eu poderia ficar aqui, não direi eternamente (porque felizmente não sou eterno), mas o resto da minha vida terrena, a postar imagens de fenómenos tipicamente socialistas que nos torpedearam a felicidade e a plena realização nacinhal dos últimos 40 anos. E não esgotaria o filão.
Diz o povo, e diz bem, que quando um gajo não sabe foder, até os colhões estorvam. No caso desta escumalha que nos desgoverna vai para quase meio século, a cantilena, embora com idêntico significado, apresenta uma fórmula menos vernácula: resume-se ao queixume da "pesada herança". A seguir ao 25 de Abril era a pesada herança do fascismo; agora, neste Prec 2.0, é a pesada herança do socialismo. Como o fascismo antes do 25 de Abril é de idêntico teor ao socialismo prévio a estas neo-bestas, temos que concluir que, em bom rigor, aquilo que nos atormenta a todos, e nos impede de sermos asseados, verticais, sérios e felizes são (tecnicamente, este "são" não estará correcto, mas a técnica aqui é um bocado cacófona) são, dizia eu, os gambosinos. Evidentemente, os gambosinos - os mais vis, insidiosos e renitentes dos animais metafísicos. Quem mais poderia ser?. Aqueles valentes capitães de Abril fizeram o 25 para acabar com eles; estes agora voltam a fazer o 52 que é para os exterminarem duma vez por todas, sob patrocínio da Bayer. Os últimos 37 anos estadearam o fracasso mais completo na LCG (Luta contra os Gambosinos) - golpes, contra-golpes, descolhonizações, adesões, intervenções, revisões, programas, etc, não bastaram. Pior, quando fomos ver, os gambosinos tinham devorado vários orçamentos, rilhado uma cornucópia de fundos comunitários, abarbatado casas, casinhas, casotas, cavalariças e palacetes, e contratado, a crédito, não sei quantas mordomias, luxúrias e sumptuosidades, para eles, família e amigos. E com tal apetite e guloseima o tinham perpetrado, que a nós agora, como de costume, cumpria apenas pagar a conta. Bem, é para isso que cá estamos, não é? A aflição fosse toda essa. Não, o que doi mesmo é a sensação de frustração por após tamanha refrega, tanta batalha ao défice (assim parece cognominar-se o chefe das demoníacas hordas gambosinas), zaragatas e mais zaragatas (que ninguém se lembra já do sabor de um diazinho de paz, sem tiros, estrondos, gritarias ou explosões), não ter dado em nada, fora uma bancarrota pimpona e a ocupação do país por magarefes alógenos às cavalitas de talhantes domésticos... Diabo, mas a consumir desalmadamente, a desperdiçar e delapidar como se não houvesse amanhã, a escaqueirar o aparelho produtivo com todas as ganas, não estavamos a proceder como era suposto, segundo a receita infalível do combate à pesada herança fascista, digo, da LCG (Luta contra os gambosinos) democrata, mercantilona e cada vez mais liberal? Não era aquela a estratégia mirabolante, a panaceia estupenda que nos conduziria à riqueza - qual riqueza!, à opulência e ao potentado entre as nações?... Enfim, não íamos copiar na perfeição os vizinhos (que deixariam de nos soslaiar com aquele irritante desdém do "olha-me, o pindérico, o pobretanas!...")?...
Então, mas afinal, andámos a fazer o quê, este tempo todo: a combater gambosinos, como a urgência requeria, ou a combater moinhos, como o D.Quixote?
Ou será que os gambosinos, pela sua natureza imaterial, volátil e imarcescível, tornam toda a nossa luta vã? Mesmo montados nos nossos mercedes, BMWs ou Volkswagens (alguns até de helicóptero e avião), que podemos nós, bem no fundo, contra seres que se confundem com o próprio vento, que surfam a brisa e a aragem como nós calçamos (por enquanto) sapatos?
Mais, que podemos nós contra a cruel e arrepiante suspeita que, crescentemente, se acastela, fortifica e instala dentro da nossa razão - a de que os gambosinos, pelo seu carácter maligno e pela sua vontade demoníaca, se tenham infiltrado, por arte de bruxaria ou sortilégio, na nossa própria alma e, horror dos horrores, na alma dos nossos esforçados governantes?!... (Aliás, não foi essa a justificativa do actual capataz alemão para o imperativo categórico da nossa auto-punição - em vez de combatermos os gambosinos, haviamo-nos transformado neles?...)
Ora, se combatê-los lá fora já é uma tarefa de Hércules, combatê-los cá dentro só mesmo um São Paulo ultravitaminado e a anabolizantes da Fé.
Aos vampiros, segundo a lenda, para desactivá-los, basta cortar a cabeça ao zombie, ou espetar-lhe uma estaca no coração. Agora imaginem o Passos Coelho: cabeça não tem; e coração, fica-se pela primeira sílaba. Como é que um exorcista, ainda que animado das mais cristãs intenções, opera num caso destes?
Bem, para nos indemnizarmos e compensarmos disto, há já peregrinos que nos propõem uma alternativa: cortamos a cabeça ao antecessor, que até já está nos calabouços, prontinho a servir às neo-tricotadeiras e demais excursões comemorativas destas coisas. É uma ideia. Podemos experimentar. Perdidos por um, perdidos por mil. Só que a coisa, ninguém duvide, vai confundir-se com a mera degola de um bode... expiatório, pois.
Quem sabe, como na antiguidade, talvez isso aplaque e amacie o ânimo do demónio do deserto que nos cerca, tolhe e assombra... O deserto de ideias, de vértebras, de memórias e de vontade própria. O império dos gambosinos, enfim. Que sucedeu à queda do Império Português. Aí o tendes, o vosso regime.







































