terça-feira, novembro 20, 2012

A Odisseia da Demagogia



Falemos agora de demagogia. Actualmente, a palavra tem uma cotação extremamente negativa. Taxar um adversário de demagogo" é desqualificá-lo perante a "academia" (entendendo-se aqui "academia"como o círculo de fazedores profissionais da opinião publicada). Os dicionários também não são meigos. O de sinónimos, por exemplo, nem vai de modas e a demagogia justapõe anarquia. Dum modo geral, a demagogia, conforme nos dias de hoje é arremessada, subentende "facilitismo", "embuste" ou"bajulação do povo".
Todavia, na origem, que é a mesma de democracia, ou seja, na grécia antiga, demagogia significa "condução do povo"; tal qual democracia corresponde a "poder ou decisão" do mesmo sujeito. Demagogos famosos foram Péricles, o seu rival Tucídides, e Demóstenes, entre outros. A descrição da fórmula de governo de Péricles por Tucídides, segundo Plutarco, é sugestiva: "uma espécie de aristocracia, à qual se dava o nome de governo democrático, mas que, de facto, era uma verdadeira monarquia na qual só o primeiro dos cidadãos exercia a autoridade". É mais que evidente,  mesmo para o leitor mais distraído, que qualquer semelhança disto com os nossos actuais primeiros-ministros não é pura coincidência: estamos de facto perante pseudo-monarquiazinhas a prazo.
Ora, os atenienses, sobretodas as paixões, estimavam a oratória (cuja ciência, a retórica, já que falamos nisto, anda tão mal vista nos dias de hoje quanto a demagogiia; não raras vezes, circulam mesmo geminadas). Daí a seu gosto colectiva pelos tribunais e pelo teatro, locais, por excelência, do rhetwr - o orador público, o homem de estado, o esgrimista da eloquência. Antes da sua capacidade comprovada de administrador dos negócios da polis, a Péricles, foi a sua eloquência que lhe permitiu conquistar a primazia política e as prerrogativas do demagogo. Claro que a eloquência sem posterior, prévia ou acompanhante solércia prática não bastava. Diz o mesmo Plutarco que de modo a restringir o poder  do Areópago, Péricles terá conquistado os favores do povo "distribuindo dinheiro aos cidadãos pobres para assistirem aos espectáculos e aos tribunais, fazendo-lhes muitas outras concessões à custa do tesouro público". É evidente que também nada disto é estranho aos dias de hoje. Pelas categorias actuais, Péricles teria sido mesmo, neste particular, uma espécie de demagogo proto-socialista. Mas quem nos dera que todos os nossos demagogos eleitos, juntos e por atado, chegassem aos calcanhares de Péricles.
Em todo o caso, tudo isto para apenas expor como mesmo naquele tempo a demagogia não consistia própriamente numa virtude angélica. O que não havia era a sonsice, a hipocrisia e (como adiante veremos) a manhosice retórica que há hoje. Os vícios já existiam, salvas as devidas proporções - ao acto de distribuição de dinheiro do tesouro público pelos cidadãos chama Plutarco de "corrupção da multidão";. Platão e Aristóteles perdurarão pelos tempos em denúncia desta perversão oclocrática da democracia, ou seja, desta oportunidade de manipulação das multidões como um dos perigos inerentes ao governo democrático ( e donde o próprio Platão extrairá até o famoso aforismo: "A tirania é filha da democracia" -, mas a demagogia não era propriamente um kit descartável conforme a conveniência, que se usa e abusa, durante a época eleitoral, como trampolim desenfreado e, uma vez no poder, como tabu hermético às negociatas de estado, labéu inibidor à critica externa e, em geral, estratagema 32 para todos os efeitos. Quer dizer, Péricles foi sempre um demagogo. Antes do Poder e durante o seu exercício. Era ele o condutor do demos e nem por sombra, ou chicana, abdicar dessa responsabilidade, dessa fama e honra. Tal qual Demóstenes, que,  depois dele, personificará o demagogo em combate pela independência e dignidade de Atenas contra Filipe da Macedónia. Mais que vícios e virtudes, há, assim, uma dignidade superior e simbólica no demagogo antigo: ele é o porta-estandarte da polis, sendo que a bandeira maior desta é a palavra. Por isso ele é o porta-palavra, o primeiro e o mais proeminente nas fileiras da língua grega e, por inerência, da Civilização (esta, em contraposição à barbárie - por essência, tudo o que não pertence à Hélade, isto é, tudo o que não enfileira sob o estandarte da língua grega). Tanto que Filipe receava mais a palavra de Demóstenes do que o exército ateniense própriamente dito - afinal, é a palavra que acende a alma de um povo e é a alma deste que o transporta ou não à superação na batalha. Ou à resistência contra o invasor. É a palavra que conduz. Que congrega, Que inflama e encoraja.
Ora, a nossa sórdida actualidade rasteja nos antípodas disto. A eloquência do demagogo, além de sórdida, raquítica e invariavelmente de aluguer, obedece a épocas de abertura e fecho, como a caça. Em período eleitoral, vale toda a demagogia possível e imaginária. Os candidatos ostentam-se e proclamam-se como os ecos vivos, os pimpolhos dilectos, os enfermeiros de serviço, os condutores pressurosos, encartados e diplomados da multidão, do demos em apuros. Ei-los que prometem, assumem, contratam, juram, afagam, bajulam, adivinham, radiografam, anestesiam, profetizam e lambuzam. Mas logo que trepam ao poder, à assembleia, ao cargo, eis que renegam, esquecem, sacodem, ignoram, desprezam e repudiam para longe de si, para imensamente abaixo de si, essa turba suja, acéfala e desqualificada que é o povo, a plebe doravante destituída, com severidade, de todas as sumptuosas dignidades do eleitorado. Pouco confiança nessa turba!  Vade retro, porca res! Completamente incapaz para decisões importantes acerca do seu destino. A demagogia serve apenas de rampa de saltos; uma vez no pseudo-troninho a prazo, os eleitos não são mais demagogos: são semideuses. Nenhuma responsabilidade os liga mais aos governados, nenhuma solidariedade, nenhuma comunidade, nenhuma honra especial e, sobretudo, nenhuma espécie de simpatia. Agora, não lhes compete conduzí-los, mas mandá-los (às urtigas, especialmente). Representá-los? Nem a brincar!... Sobrevoá-los, isso sim. Sobrevoá-los, descartá-los, desconhecê-los  e, quando muito, borrifá-los a partir dos céus olímpicos, com raios fiscais e decretos trovejantes. 
Referendo sobre a entrada para a CEE? Demagogia!... Referendo sobre a assumpção do Euro e abandono do escudo? Demagogia barata!... Referendo sobre os tratados da União europeia? Demagogia imunda!... Referendo para o pedido de resgate externo, vulgo Troika? Aqui d'el rei, demagogia!...
Toda a clarividência, excelência e quintessência legítima do povo termina na hora da contagem dos votos. No minuto seguinte, olhai o milagre, mirai a relampejante magia: toda ela se transfere, inefavel, para os demagogos eleitos. Por troca, e descompensação, estes, ao assumirem a soberania semidivina, abandonam às massas incautas toda sua precária humanidade e, de brinde junto com ela, toda a sua prévia e excitante demagogia proomotora. De tal ordem, que qualquer expectativa  de condução da coisa pública fica confinada aos governados, enquanto nenhuma perspectiva, vontade efectiva ou responsabilidade disso cabe os governantes. Pelo que qualquer reclamação daquele pressuposto perante estes é descartada através de que fórmula universal? Demagogia, evidentemente. Por exemplo, actualmente, o povo português reclamar pela sua soberania, independência ou futuro extra-hades é demagogia. Como antes reclamar contra os fenómenos , decisões e estratégias que conduziram situação actual, também era, calculem, demagogia.
Notem pois o requinte: Péricles foi demagogo toda a vida. Com erros e glórias, foi sempre ele o indubitável condutor do seu povo. Estes nossos demagogos de ocasião e campanha, só conduzem o povo até às urnas. Depois, a condução do povo (a demagogia) fica toda com o povo - ele que se conduza sozinho e assuma as responsabilidades e sobretudo os défices  até às vésperas do próximo sufrágio. Os eleitos, esses, mal ascendem, passam de imediato à autogogia... Que é como quem diz, à condução, estrita e exclusiva, deles próprios através do néctar e da ambrósia que constitui o dinheiro dos outros e a propriedade de todos. Autogogia, aliás, tanto mais urgente quanto menos vitalícia. Precários possidónimos, enfim.
Quanto à eloquência, nestes nossos vis e apagados tempos, quem pode surpreender-se ainda que descompareça das palavras e da própria língua, e transpareça cada vez mais, embora perversamente, nos actos? Eloquentes, mesmo, só já a miséria, a vacuidade e a traição!...

segunda-feira, novembro 19, 2012

Estratégias e estratagemas (r)

Prosseguirei, brevemente, com um postal sobre "demagogia", que é uma palavrinha, - e ainda mais um conceito - muito interessante (há, pelos menos, 25 séculos)..
Mas antes, convém recordar, de modo a ter sempre  bem presente, uns certos estratagemas...

Segundo Shopenhauer, "a Dialéctica Erística é a arte de disputar, e isto de tal forma que se tenha sempre razão -por qualquer meio".
Ora, para se ter sempre razão, por qualquer meio, o grande filósofo pessimista expõe uma série de estratagemas - trinta e oito, mais precisamente. É para o "estratagema 32" que chamo a vossa especial atenção. Passo a enunciá-lo:

«Uma alegação adversa do oponente pode ser rapidamente eliminada, ou pelo menos tornada suspeita, colocando-a numa categoria execrável, ainda que tal ligação seja somente aparente, ou mesmo vaga: por exemplo, "Isso é maniqueísmo, é arianismo; isso é pelagianismo; isso é idealismo; isso é espinosismo; isso é panteísmo; isso é brownianismo; isso é naturalismo; isso é ateísmo; isso é racionalismo; isso é espiritualismo, isso é misticismo", etc. Ao fazer isso, assumimos: 1) que a alegação em causa é efectivamente idênctica a tal categoria, ou está pelo menos contida nela, e bradamos então: "Oh! Já se sabia!", e 2) que tal categoria está totalmente refutada e não pode conter um único termo verdadeiro.»
Este estratagema, escrito em 1830, é, como já devem ter reparado, muito requisitado nos nossos dias. Mais concretamente, vê-se esgrimido ad nausea, a maior parte das vezes sem qualquer pudor ou honestidade. Basta actualizar a lista de "ismos" e adicionar-lhe o "fascismo", "comunismo", "nazismo", "catolicismo", "salazarismo", "nacionalismo", "machismo", "anti-semitismo", etc, etc, e algumas "palavras terminadas em "fobia". As novas minorias iluminadas e totalitárias, à semelhança das antigas, apoderam-se do aparato da propaganda e lançam-no, ferozmente, em campanhas ininterruptas de extermínio de qualquer crítica ou, sequer, dúvida.


A ideia de que o mundo progride é ilusão das mais delirantes. O mundo não progride: chafurda. Geralmente, nos mesmos erros, vícios e filha-da-putices atávicas; e soberanas.


domingo, novembro 18, 2012

A Omnipotência da tripa




Em 74, todo o passado era mau. havia que terraplenar e construir tudo de novo. Inventou-se um Fascismo que nunca tinha existido e um "fascismo nunca mais" que serviu de protodetergente para a lavagem cerebral subsequente.
Em 2011, todo o passado estava inçado de vícios e quistos tumefactos. Havia (e há) que arrasar e construir tudo de novo. Inventou-se um Socialismo - que, de todo, durou os 17 meses necessários à liquidação ultra-rápida do Império e ao assalto partidário à economia, (assalto que prosseguiu nos anos seguintes até à presente data) -  e nunca mais se viu, sendo substituído por um mercantilismo empolgado, um olimpismo gestor e um consumismo desenfreado, a crédito e a subsídio externos, para não dar muito trabalho. Do "fascismo nunca mais" dos anteriores antifascistas de imitação, temos agora  o"socialismo nem vê-lo", dos neo anti-qualquer coisa de conveniência.
À presente data o socialismo é uma coisa tão vulgar e opressiva que o único partido que ainda o defende, o Partido Comunista, é taxado por todos os outros, e respectivas resmas de apaniguados, de "fóssil", "dinossauro", "jurássico", etc. Dá para orçar da influência e pregnância socialista na direcção dos negócios da nacinha.

Toda esta gente, bem no fundo, padece apenas dum mal das tripas -dado que neles o aparelho digestivo é mais complexo que nas pessoas normais, fazendo o cérebro parte crucial dele, na forma de tripa superior, ou intestino grosseiro -, que se resume num nome simples:: estrangeirite. Se o resto da europa tinha tido, nós também tínhamos que ter. Fascismo, claro. Se os outros partidos comunistas se tinham coberto de glória na luta contra a besta fascista, era imprescindível que eles não ficassem à parte na hora do desfile triunfal. E assim, da noite para o dia, em patrocínio da farinha Amparo, o país amanheceu não apenas inundado de socialistas, comunistas e social-democratas efervescentes,  aos molhos e aos saltos, mas, todos eles, com kit  e curso anexo de antifascismo instantâneo e, em muitos casos, por correspondência. Ou mera osmose manifestante.
Este antifascismo de alguidar continua presente nos actuais anticoisos, só que reforçado agora dum anti-socialismo belicoso de ocasião. Porquê? Porque pertence ao passado, o putativo socialismo, e como lhes compete varrer e romper com todo o passado, urge obliterá-lo sem dó nem piedade. E mesmo que já não exista enquanto realidade, mas apenas enquanto fantasma, trauma ou resquício, isso só amplifica a urgência e o alarido extirpador.  Em nome de quê? Já nem se percebe bem. Qualquer coisa que há lá fora, qualquer receita estrangeira. Tanto melhor quanto agora, mais que copiada estupidamente, até é imposta e administrada pelos próprios estrangeiros. E  nem já a crédito, ou engodo, como a desbunda anterior, mas a descrédito, e por castigo de todos os pecados colectivistas, como manda a boa prática sado-masoquista. Do Portugal SA, passamos assim, sem transição nem anestesia, ao Portugal S&M.
Mas o paralelismo destes anticoisos, tudo o indica, tanto quanto perversamente emulador, é retardado: se lá fora tiveram a queda do muro, nós também temos que ter. Toca pois de inventar um muro cá dentro. Para quê? Ora, para derrubar o muro! O muro de betão e asfalto em que delapidámos fundos, abichámos comissões e esfalfámos orçamoentos? Não, o muro do socialismo imaginário e requentado que nos sitia; o muro de fantasia que nos bloqueia; o muro da independência frágil que resta. E se, a pretexto do muro, vai o que resta da economia, isso, como aos seus antecessores a pretexto do fascismo, não os aflige nem minimamente incomoda. Bem pelo contrário, inebria-os e fortalece-os... Arruinados poderemos sempre viver, atrasados é que não. Nunca!
Quanto ao resto, a mesmíssima coisa: Os antifascistas da farinha Amparo, adiantados mentais de 74, consideravam que a a destruição do Portugal Ultramarino era excelente para a economia, maravilhoso para o povo e apaziguador para o estrangeiro (no fundo fazer parecer-nos bem ao estrangeiro é sempre o mandamento principal, senão único, destas dispepsias peregrinas). A ideia dum estrangeiro camarada, solidário, logo depois recauchutada num estrangeiro comunitário, prodigalizante, financiador nunca mais deixou de presidir à mentalidade vigente e, por encharcamento, à grande maioria da populacinha.
Os anticoisos esquisitos, avançados mentais da hora presente, também estão imbuídos da convicção plena que para fazer a economia crescer é imprescindível primeiro reduzi-la a quase nada. (É consabido que crescer a partir de quase nada é bem mais fácil e provável do que crescer a partir do que quer que seja em dimensão apreciável. Do nada fez Deus o universo, e do zero qualquer unidadezinha que seja bota figura. Aliás, quando o crescimento no 1º mundo se torna proplemático ou periclitante, nada como regredir o país ao terceiro para vê-lo ganhar balanço e trampolim). E também arvoram a sublime credulidade toinarenga de considerar o FMI como amiguinho  a Troika como instituição benemérita de índole angelical, cuja única e solene preocupação é a nossa recuperação, saúde e bem estar. De modo que obedecer-lhes cegamente não chega: há que transcendê-los e surpreendê-los com toda a panóplia abracadabrante da nossa própria auto-flagelação, subserviência e capachismo. Todo o país deve assim fervilhar de assimilados fervorosos,  compenetrados e prontos para a redentora assimilação externa, desta vez, reza-se e espera-se, final  e definitiva. Isto lembra um pouco um tipo cercado de canibais que entende que barrar-se de manteiga, limão e molho picante, acrescido duma maçazinha na boca, é a melhor forma (mais: a única!) de apaziguá-los e concitá-los à fraternidade humana. E é o resultado da infantilização e da efeminação - ou seja, da imbecilização-, da política nos últimos cinquenta anos. O espaço sensível em que a visão do mundo foi usurpada pela televisão do mundo.
Ora, tudo isto implica mais uma consideração óbvia: é que esta gentinha iluminada, do Prec I como do Prec II, (chamem eles ao "r" o que quiserem: revolucionário, reformador, refundador, a real PQP!), partilham igualmente de outra idiossincrassia exuberante: ao mesmo tempo que idolatram qualquer nuvem no Além-fronteiras, esse acto nunca excede uma idealização e fantasia suas. É invariavelmente a cegueira mais clamorosa à realidade desse modelo estrangeiro - ontem, das uniões soviéticas e paraísos socialistas, onde, por exemplo, Staline matou mais comunistas do que o próprio Hitler, que fazia disso imperativo categórico -, e hoje, dos FMIs, Agências de rating, Alemanhas, Américas e até, pasme-se, já das próprias Angolas. De repente - aliás, por tradição, isso sim -, o mundo está replecto de santidade, perfeição e melhor das intenções, desígnios e oportunidades: basta passar a fronteira. Mas o mais indecoroso, e patético, é que estes adoradores do longínquo, estes amázios manteúdos do Outlook, tanto quanto duma cegueira selectiva, são acometidos e avassalados por uma amnésia histórica. Da mesma forma que usam de implacável, esbirra e histérica severidade para com a  histórica do seu próprio páis, votam uma desmemória ou lexívia branqueante absolutas à história do estrangeiro de apetite, cobiça ou afeição. Porque, no fundo, não têm país próprio. As tripas inferiores não deixam, e a superior age em conformidade. Nem país próprio, nem sequer de adopção: apenas de conveniência. A prazo.
É por isso que, ontem como hoje, e acima de tudo, estes despaisanos, estes expatriados a juros,  a quem a tripa serve, simultanemante, de alma, de ego e de cordel para irem a reboque da caravana circense da moda, outra vocação, ocupação e desplante não exibem senão o rosnar, ladrar e, por qualquer outra forma arrotante e pesporrente, desvalorizar, despromover ou menoscabar Portugal e os portugueses. 
O Prec I (e o Pós-Prec) serviram para desmantelar o Império e arruinar a Nação. Este Prec II, se o deixarem, vai liquidar o país.. E não se iludam nem se auto-embrumem: como o anterior, não está apenas na rua: está, sobretudo, no poder.
É que a tripa de suíno não induz apenas ao omnivorismo: induz mais ainda à omnipotência.


sábado, novembro 17, 2012

Os Representantes do povo



Por enquanto é só a escumalha-infra a atirar pedras à polícia de intervenção, e a polícia de Intervenção, como lhe compete, a varrer à cacetada a excursão lapidadeira. O episódio encheu de satisfação a escumalha-supra. De dentro dos edifícios guardados pela polícia, vai sentir-se (auto)estimulada a continuar a catapultar pedregulhos e baldes de excremento sobre toda a gente, a polícia incluída.
Chegará o tempo em que a polícia hesitará. Não em carregar sobre a escumalha-infra, que isso é sempre algo que faz por prazer; mas em subdividir-se e carregar stambém sobra a escumalha-supra, bem mais criminosa e reincidente que a sua projecção infra. Ou seja, virá o dia em que a polícia ponderará se ao prazer não competirá também adicionar o dever.
 É que há os que querem destruir as instituições a partir do exterior e os que as vêm minando, carcomendo e desacreditanto por dentro. Na verdade, trabalham em conjunto: os de fora acolitando e sacristando os de dentro. 
Neste recente episódio, ficou cruamente patente todo o regime de falsa-representação que impera e estrangula o país: os representantes do povo não estavam no hemiciclo nem, tão pouco, nas farisaicas transumâncias sindicais - estavam sob a farda da polícia.

E nunca esqueçam. as escumalhas-infra de hoje serão sempre as escumalhas-supra do amanhã. Pensem no Durão barroso, por exemplo.
Pelo que não adianta espancá-los na sua fase juvenil se depois, na fase adulta, acabam a venerá-los e entronizá-los, com todos os regalos e mordomias. 

sexta-feira, novembro 16, 2012

Uma Questão de Sobrevivência

Há um ano atrás, dizia eu do actual governo aquilo que mantenho, transcrevo e culminarei hoje apenas duma pequena adenda (como se verá)...


A demissão do actual governo não é, em bom rigor, um caso de política, como se pretende fazer crer: é um caso de polícia. Mas não apenas do actual - o precedente, mais o precedente do precedente, a somar ao seu antecessor e a culminar, em retroactivo, ao Kavaquistão (já para não falar nos anteriores) - todos eles foram casos de polícia. O estado actual das contas públicas atesta-o soberanamente. O estado actual do património nacional revela-o às escâncaras. O estado actual comatoso do ex-Estado português brada-o aos quatro ventos!
Aliás, nem caso, nem crise - política? Rigorosamente nenhuma. Apenas de polícia.


De resto, os putativos políticos outra coisa não fazem, nem têm feito ao longo destes anos, que convocar a polícia. Esta, porém, assim como a política genuína, séria, consequente, não se avista nem comparece. A nossa desgraça, por isso germina e floresce dessa dupla ausência: de política e de polícia. Tanto quanto do excesso galopante, triunfante e imperador dos seus contrários. Se apenas nos faltasse a política, mas nos acudisse a polícia, ao menos ainda haveria esperança. Ou se nos desfalcasse a polícia, mas nos valesse a política, sempre se poderia emendar o desfalque. Mas assim não. Sem política nem polícia, penamos sem esperança nem emenda. Sem política nem polícia, ficamos à mercê da contrafacção mixordeira de ambas, reféns sob inapelável sequestro do capricho, do apetite, em suma, da venalidade aleivosa de falsos políticos e falsos polícias. Falsos políticos que não nos representam por inteiro, mas apenas nos nossos defeitos e desqualificações; que não nos estimulam para nada, a não ser naquilo que temos de mais baixo e desprezível; que não nos guiam a lado nenhum, a não ser no caminho para o estrangeiro, para a servidão e para a penúria. Falsos polícias que não nos defendem, nem protegem; que não guardam nem investigam. Mas apenas defendem, e protegem, e guardam pretorianamente a falsa política. Mas apenas acolitam à missa negra onde o erário e a fazenda pública são imolados, sem dó nem piedade, aos ídolos tenebrosos da situação. Mas apenas zelam pela tranquilidade do latrocínio instituído e pela segurança comilona do cancro transplantado. Da falsa democracia, da falsa política e da falsa administração, que não servem à polis nem aos seus cidadãos, mas apenas se servem - abusiva e ferozmente - deles. Donde resulta um estado hipertrofiado e autofágico que devora o país; administrações burgessas e africanizadas que se locupletam e refastelam nas empresas; militares castrados e obedientes com mais amor à promoção do que à Pátria; e uma miríade de palradores, mais ou menos escritos, publicados e embrulhados, desatados e untados numa vaselina multiusos de importação, para lubrificar o mega-supositório (mais ou menos instantâneo, mais ou menos recorrente) com que se auto-empalam e, simultaneamente, com o maior escarcéu e espavento possíveis, se expõem à curiosidade pública e à estupefacção do incauto. Afinal, nada como o enxame da falsa informação para nos atestar dos poderes estupefacientes da contrafacção.


Em resumo, não nos promove nem melhora a falsa política: esbulha-nos, desanima-nos e confisca-nos sòmente; como não nos defende a falsa polícia: vigia-nos e ameaça-nos apenas. Não sendo política, de todo, a crise, é, sobretudo e até mais que moral, existencial. A questão íntima que se coloca doravante a Portugal, depois da abdicação forçada de império, é saber se se resigna a esta Liliput rilhafolesca em que pretendem interná-lo.


Seremos, infelizmente, tudo isto que nos torpedeia, intoxica e auto-mutila; mas não somos apenas isto. Nem podemos consentir que nos reduzam a tal. Sob pena de mais valer um maremoto ou super-furacão que nos varra duma vez por todas da face do planeta. Sempre era mais digno e meritório ser varrido pelo Mãe Natureza do que por uma chusma coleoptérica e concertada de burocratas, moços de frete, macacos de imitação e parasitas profissionais. Disse.

E apenas acrescento, ou melhor, reforço, passado que está mais este ano: A remoção deste desgoverno já não se trata apenas duma questão de polícia, de higiene ou, tudo bem ponderado, de justiça: é já uma questão de sobrevivência.
Parafraseando Sexby: "aquele que se arma contra todos, arma todos contra si".



quinta-feira, novembro 15, 2012

Efeito Relvas



O Pseudo-primeiro Passos proclamou hoje aos perplexos  que Portugal é um país de sucesso. E um dos mais eloquentes e empolgantes sinais disso terá sido a proeza maior e recordista do actual governo (vá, não riam):  Conseguiu  perfazer em ano e meio aquilo que a Troika julgava apenas possível em seis anos. É o chamado Efeito Relvas. Só pode. Um catalizador pantaficiente e ultracondensador que permite ganhos de tempo inauditos. E ainda há quem duvide da mais valia que é ter um verdadeiro Ministro knorr-knorr destes ao serviço da república!...
País de ingratos e míopes!

Grândola Vila Mulata



Os alemães metem dinheiro no (des)governo e respectivos funcionários de mão. Os angolanas, tudo o indica, andam a meter dinheiro no PC e satélites (eventualmente até andarão de concílio com os anafados e grotescos capitinhos de Abril,em neo-conselho da revolucinha). O desgoverno instalado, na essência e fito, não diverge do desgoverno reclamado nas ruas Ambos apostam na degradação e desarticulação final deste país, de modo a uma aquisição e controlo facilitados daquilo que interessa e que ainda resta com interesse estratégico. Os manifestantes que, na rua, por masoquismo, contumácia, amnésia ou mera adolescência, insistem em cantalgar o "Grândola Vila Morena" deviam pensar nisto, nesta joint-desventure sob patrocínio externo. Depois, se ainda lhe apetecesse a cantiguinha, ao menos em atenção ao congresso Angogermano actualizavam a coisa e cantavam "Grândola Vila Mulata".

Entretanto, as pessoas de bem deste país deviam pensar seriamente em ultrapassar esta armadilha do esquero/direito op dois. Essa ordem unida do desastre já todos temos mais que obrigação de ter visto onde conduz  - a lado nenhum, ou seja, à catástrofe, à miséria e, finalmente, à extinção do próprio país enquanto nação independente.
As pessoas de bem deste país não são as pessoas desta ou daquela classe, deste ou daquele partido, desta ou daquela facção, regime, região ou extracto. As pessoas de bem, dito muito simplesmente, são todas aquelas que estão fartas e cansadas deste mal maior que se tem instalado, ininterrupta e viciosamente, a conberto dum mal menor. 
O povo unido é pesado, embrulhado e vendido, quanto mais vencido. 
Portugal unido é que jamais será vencido!
Portugal unido jamais será vencido! - Gritem isto e ajam de acordo a isto. Duma vez por todas.  Porque a hora está a chegar!

Ou então calem-se, chorem, deixem-se morrer, ou cantem o "Grândola Vila Mulata, morena, loira oxigenada, ruiva, ou o que à cabeleireira da moda aprouver". É irrelevante.

quarta-feira, novembro 14, 2012

Sinopse de um editorial



Um  escriba mandado do pasquim oficial do MPLA traveste-se de Aquiles e arremete, de cabeça baixa, contra os corruptos tugas por falta de solidariedade e cortesia para com os seus congéneres tropicais em casta e metropolitana peregrinação. Demandavam, ao que parece, Fátima, onde seriam canonizados, e alguém - preboste, táxista ou procurador - lhes fanou, ou tentou fanar os terços. as condecorações e o relógio. Tudo isto num obscuro vão de escada, onde teriam sido conduzidos ao engodo e a pretexto duma cachupa maçónica.
  
Frases a reter:
1. «Inveja foi o combustível que alimentou os beneficiários da guerra colonial.» Sim, e petróleo e diamantes são o combustível que empanturra os cleptocratas jactantes  da Angola neo-colonial.
2. «Nós somos Aquiles! » - Modéstia do avilo. Qual Aquiles, qual carapuça: são Zeus! Zédu prós amigos.

Moral da história: o furúnculo tanto incha, que um dia destes rebenta!...

O verdadeiro Défice





Não sei se já repararam, mas a moral, para certas pessoas sofisticadas cá da paróquia oscila entre a doença bipolar e a erupção cutânea. Fases de euforia e borbulha inflamada cedem lugar a períodos indolentes de prostração mortiça e pele cremosa e macia. Inesperadamente (ou nem tanto), o gafanhoto exaltado e ribombástico transforma-se em baba senil balbuciante. Baluartes da moral e dos bons princípios da governação que atroavam as ciber-avenidas com furores, anátemas e abrenúncios anti-corrupção, anti-desgoverno e zurze-venalidade das massas pouco sensíveis aos delíquios das óperas, surgem subitamente metamorfoseados em ténias ministeriais, recolhidas e aconchegadas a uma qualquer nova vaga comilhonária de esperança, propriedade alheia e orçamentos. Razão tinha quem  afirmava: "Os anti de hoje são sempre os neos de amanhã". Senão, em que é que divergem os anti-abrantes de ontem dos neo-abrantes de hoje?

Meditando nisto, e na figura inerme de certos assessores, clareou-se-me o problema da política em Portugal. É uma fatalidade em tudo gémea da economia: uma genuína questão de poupança. Quando na oposição, esbanja, gasta e esgota toda a moral. Devia poupar alguma para quando ascende ao poder.



terça-feira, novembro 13, 2012

Exibicionistas & mirones. Lda



Neste país ressaltam dois tipos de indignados militantes: os que se indignam com tudo; e os que se indignam com nada. Os que se indignam com tudo, qualquer coisa lhes serve, não são esquisitos, a mínima pentelhice  os acende - são os chamados tipos de indignação fácil. Estão sempre em prontidão indignativa, à espreita de qualquer ninharia crocante. Já os que se indignam com nada, geralmente nenhuma coisa concreta os indigna (o país podia ser até invadido por marcianoss em metódica chacina de criancinhas e velhotes só por mero capricho tecnológico, que isso não lhes causaria o minimo espanto, nenhuma revolta e, nem por sombras qualquer  esboço de indignação; afinal, os marcianos eram mais ricos e evoluídos...) - são as criaturas de indignação difícil. E não digo impossível porque, na verdade, há um caso excepcional e único em que se indignam e barafustam ruidosamente: é com as indignações dos anteriores. Estão sempre de plantão, à coca deles, e quando os detectam a indignar-se com qualquer ninharia crocante, rompem de imediato a indignar-se com essa indignação fácil,  ab nihil. Não sei se além de difícil, não será também ciumenta dessa potenciazinha demiúrgica.. Requentada é, invariavelmente.
Há realmente, entre nós, uma direita de conveniência intrinsecamente mirone: passa a vida a espreitar a esquerda. A excitar-se muito com ela. Há nisto qualquer coisa de perverso... Eventualmente, nem se indigna: onaniza-se.


PS: Outra fórmula de definição seria os disentéricos da indignação versus os dispépticos.

segunda-feira, novembro 12, 2012

President' Eco




Ao mesmo tempo que «exorta jovens a recusarem a "resignação e conformismo"», Cavaco Silva, insufla-lhes no espírito uma séria dúvida: "mas temos um presidente ou um eco?"
Um eco duma descomunal cripta tumular. Ainda por cima online...

(...)
No musgo que esverdece
da coluna que não tem;
Malhas que a república tece.
Jaz morto e apodrece
o presente de sua mãe.

É o Blitz, estúpido!...

A chancelera Merkl andou por aí, segundo a imprensa, numa visita -relâmpago. Queriam o quê? Uma visita de trincheiras?... É a chancelera, que diabo! Não é a kaiserina.

Da passagem naturalmente meteórica ficou, todavia, um legado sumarento... A chancelera teve oportunidade de fazer mais um revelação empolgante: que metade da política económica é psicologia. Isto é formidável. Já sabíamos que a outra metade era astrologia, pelo que, conhecedores agora da ciência completa, começamos, por um lado, a perceber porque é que o gasparzinho não acerta uma, e por outro, a não perceber de que raio está á espera o primeiro-Ministro (vá, não riam) para convocar o professor Karamba com o Júlio Murcon Vaz às cavalitas; ou num sofá de rodas, para não ferir susceptibilidades nem causar indignações. 

Mas como é que nunca nos tínhamos lembrado disto? Na verdade, eu até já tinha. Em tempos, estampei aqui que os economistas são bons para criar depressões; mas para rentabilizá-las, para pô-las, enfim, a dar lucro, não há como os psicólogos (psiquiatras, psicanalistas, astrólogos, cartomantes, videntes e assim).

domingo, novembro 11, 2012

Levantai hoje de novo...







As Forças Armadas também  reduzidas ao queixume. Queixam-se que o governo está a colocá-las num beco. Se pensarmos que são as primeiras responsáveis pela colocação do país em hasta, depois a saque e, finalmente, em liquidação geral, de que se queixam, afinal, as Forças Armadas? De estarem a ser conduzidas ao beco? Deviam queixar-se de si próprias. Afinal, até são uns privilegiados, auferem dum certo tratamento deferencial: o restante país está a ser conduzido ao matadouro. Para já, da esperança; depois, logo se vê.
Há uma diferença entre as Forças Armadas (e todos aqueles que passaram pelas fileiras) e o resto da população civil, dos doutorecos às madames-a-dias: é que aqueles, ao contrário destes, juraram a bandeira, juraram defender a soberania nacional e, se necessário, dar a vida pela pátria dos seus filhos e dos seus antepassados. Portanto quando sabotam, quando colaboram, quando desertam do seu dever, a infâmia da cobardia diante do inimigo é agravada da ignomínia da traição e do estigma do perjúrio. Por alturas de 74 ainda existia, e justamente, a pena de morte na lei portuguesa: no código de Justiça Militar. Pelo crime de Alta-Traição. Claro que foi imediatamente abolida. Afinal, a alta-traição tornava-se a ocupação principal da oficialada em obediência doravante, como lapidarmente timbrou António José saraiva, às vísceras e não à bandeira. A Alta, a Baixa, a Média e todas quantas estivessem ao dispor da conveniência do momento e do capricho peludo.
Escutam-se histórias verídicas de timorenses exilados na Austrália, após a invasão Indonésia, que respeitavam a bandeira portuguesa hasteada à porta das suas casas ao ponto de não pisarem a sua sombra. Se a possuissem, os militares portugueses, deviam experimentar o zénite da  vergonha perante esta gente longínqua mas digna. No tempo e na história. Porque a verdade é que a desonra duma bandeira é tanto maior quando é canibalmente perpretada por aqueles que juraram defendê-la. Mas pedir vergonha a quem abjurou a honra   é pedir água a um penedo.
Não compete às Forças Armadas servir Governos - compete a ambos, Forças Armas e Governo servir a Pátria, nesta se consolidando os vivos e os mortos; o presente, o passado e o futuro. Mas o que aconteceu nestes últimos anos foi a perversão mais rasteira e desprezível disso: foi as Forças armadas e os Governos, em regime de necrófagos, a servirem-se do corpo mutilado, exangue e prostituído da Pátria. 
Proclamam agora, em repenicado assomo corporativo, que as Forças Armadas não servem o governo, mas a Soberania Nacional. A última vez que arvoraram assomos destes, varreram, duma assentada, o governo e a Soberania. Agora, se varrerem, varrem o quê? Governo não se avista, apenas desgoverno recalcitrante e revezado; Soberania também não; por conseguinte as Forças Armadas, das duas uma: ou se varrem a si próprias, e não será pouca a mancha conspurcante que varrem (e a valente poupança prós contribuintes); ou varrem coisa nenhuma, que é a soma exacta do desgoverno e da suja subserviência financeira actuais.
Situação absurda e atroz? Sem dúvida. E de quem a principal responsabilidade por este sórdido desenlace? De quem, em primeira instância, o desencadeou: as Forças Armadas, nem mais.
Quem escreve estas duras linhas é um fascista, um retrógado? Fascista é essa  estupidez que vos oprime! Fascista, mesmo, é essa  cobardia que vos tolhe e despotiza! Fascista, absolutamente fascista, é essa irresponsabilidade soberaníssima, essa frivolidade venal, esse bandulho cruel que vos arrastam e escravizam! E retrógado é quem recambia um país de oitocentos anos ao caos, à balbúrdia, ao neo-feudalismo, ao tribalismo sectário, à partidarite devorista e, por fim, à insolvência e à esmola internacional.
Mas já que ostentam a soberania Nacional deviam então saber que a nação está acima de regimes, governos e partidos. E que a patrulha dessa fronteira, a defesa desse imperativo competiam às Forças Armadas. Não, exactamente, dando tiros, mas exercendo a firmeza e influência que evitam esses extremos, tanto quanto golpadas e revolucinhas. Mas que portentos nobres e elevados desarrincaram as Força armadas, no seu momento MFA? Apearam um mau governo e instalaram o governo nenhum, logo seguido do desgoverno crónico. A título da descolonização, a debandanda pusilânime e criminosa. A título de democracia, umas ditadurazinhas a prazo, uma Desunião nacional aos molhos e aos votos, uma demofagia sectóide, um neofeudalismo insaciável! De tal modo que em vez do tão vituperado colonialismo imperial, passámos ao neo-colonialismo doméstico. A título de desenvolvcimento, betão e asfalto,  shoppings e telenovelas, publicidade e propaganda, extermínio da indústria, da agricultura, das pescas, exportação desenfreada de Dívida e,  para condecoração na história, três bancarrotas exuberantes, a últimas das quais e presente, anunciadora da extinção, pura e simples, do país, sem honra, sem dignidade, sem coluna,  sem independência e sem moeda.
Nestes últimos trinta anos a Soberania foi esquartejada, pesada e vendida a retalho como numa loja de secos e molhados. Tudo à revelia do próprio povo - inimputável encartado fora as periódicas, inócuas e cada vez mais despovoadas peregrinaçãos fúnebres (às urnas); pior, à revelia do próprio Interesee Nacional e do Futuro das gerações. E o que fizeram as Forças Armadas nesse tempo todo? Assistiram zombificadas ao comércio. Coadjuvaram pachorrentamnte nos fretes. Serviram a Pátria? Não; serviram de moço de mercearia. Viajaram pelo mundo, do Kosovo ao Afganistão, a entregar cestos de enlatados anglo-saxónicos e, tão pouco, bacalhaus: hamburgueres, hot-dogs, pizzas!... Fugiram da defesa do Império Português para descambarem em cipaios do Império Americano. E nem sequer necessários, apenas folclóricos!...
Pelo que agora aflige-vos o quê? O beco sem saída da vossa insustabilidade? Mas aonde julgáveis que conduzia a alameda festiva da vossa inconsequência, da vossa impostura e da vossa deserção - ao parque de diversões da  sempiterna vida fácil?  
Acordais, finalmente? Retirais  a cabeça avestruza do buraco maravilhoso, onde visões fascinantes vos entretinham, e que fazeis? Cantais "Grandola. Vila Morena". Mais ainda? Não chega? Não basta? Está aí a terra prometida da fraternidade. Dentro do buraco, caras aves corredoras, provavelmente avistáveis o próspero país dos cangurus, lá nos antípodas. Mas aqui fora, à superfície, são trinta e tal anos de fraterndade grandula, ou seja, prosperidade para alguns e a conta do regabofe para os outros todos. Tínhamos ainda alguma esperança que despertásseis alterados, que a ave corredora desse lugar ao homem firme. Que cantasseis o hino, as vezes que fossem precisas, bem alto, até à rouquidão. Sempre o hino! Até que as palavras não fossem meras palavras, mas convocatória aos vivos e aos mortos, ao passado e ao futuro, à vida contra a morte, ao levantamente contra a submissão, à coragem contra o medo, a Portugal, todo, inteiro, justo, para que se erga da lama e do lixo onde foram despejá-lo, para que se levante da vala imunda onde o planeiam sepultado!
Esta, parece-me, não é coisa nem ocasião de somenos. É a ultima oportunidade que tendes, e a mais dramática, para lavardes a honra da instituição militar, entretanto convertida em tapete de estrebaria, na antecâmara de um albergue espanhol. O povo sempre foi capaz de sacrificar-se para que o Pátria viva; o que não está disposto é a deixar-se enterrar junto com ela. E é mil vezes preferível que as armas acudam ao povo antes que o povo se veja obrigado a pegar em armas.







sábado, novembro 10, 2012

Hodiernidades típicas

O motorista Silvino, mais conhecido pelo Bibi (da Casa Pia, nada de confusões com  Israel); veio agora declarar em tribunal que tudo quanto declarara anteriormente não passara de mentiras e falsidades forçadas.
Esta paixão pelo impossível, esta vertigem mitómana, só podia mesmo ser portuguesa:  numa primeira fase, o sujeito jura ter cometido uma acto de todo imraticável no nosso país - a pedofilia; numa segunda fase, e para reforço da primeira, garante ter perppretado em lugar daquele, um outro tão ou ainda mais irrealizável na nossa nacinha: a mentira.
Assombroso? Pérfido? Bem pelo contrário, típico. Estaremos mesmo perante o modelo chapado  do português actual: a vontade cega e obstinada de superar a ausência através da reincidência.

PS: Esta fórmula extraordimária funciona por toda a parte e a todos os níveis, mas tem na própria "governação" o seu zénite emblemático: confrontados com a ausência de governo, desde 1974 ( a ideia, se bem me lembro, na altura, era substituir um governo casmurro por um governo razoável, e não por governo nenhum ou desgoverno, como se tornou regra), os portugueses reincidiram (e tornarão a reincidir se os deixarem) na condução de desgovernos por cima de desgovernos, empilhando desastres sobre desastres, e défices sobre défices, acreditando assim, e piamente, que pela repetição do nada acabarão por vencer, quiçá por cansaço, o próprio vazio.


Condenados à Desgraça



A juntar à ausência mais completa (e até um tanto embaraçosa) da corrupção entre nós, veio agora a senhora do Banco Alimentar revelar-nos que também a miséria não se avista em parte alguma. Escusam pois os portugueses de porfiar desalmadamente com mais eleições e eleicinhas, votações e votacinhas, sufrágios e naufrágios, que jamais conseguirão ficar miseráveis. Todo este denodado empreendimento, todo este ártduo e compenetrado esforço dos últimos quarenta anos, toda esta república do esbanjamento em série, choremos, foi, snif!, completamente em vão. Demanda mais baldada é difícil lobrigar na história da humanidade. Não havendo miséria, como explica e estabelece Platão na sua teoria das ideias (recomendo o Fedro para um consulta mais elaborada),  impossível constituir-se o miserável. Sequer habilitar-se! Impregna-se como? Prostra-se onde? Participa em quê?
O facto é que nós, os portugueses, por razões insondáveis mas imperiosas, adoraríamos ser miseráveis (e, verdade se diga, tudo temos arquitectado e burilado nesse sentido). Mas também, já agora, convém afirmá-lo sem meias tintas , porque, sobremaneira, gramamos à brava ter muita pena de nós próprios e, à falta de novas ilhas e costas, demos  em descobrir bodes expiatórios de empreitada. Que,acrescente-se, passeamos depois pela trela, com desgarbo e lassitude, onde quer que nos desloquemos ou nos convoquem. Dessarte, a lamúria, entre nós, ganhou mesmo foros de música clássica e assim como outros cultivaram o canto gregoriano, nós desenvolvemos, a requintes de sinfonia gósmica, o queixume. Quer isto dizer que o queixume, cá no burgo, não é individual: é colectivo. Todos se queixam....  De todos e de ninguém em concreto. No fundo: de tudo. O tudo fez-nos mal. A todos. Dispepsia por empanzinamento.  Impossível individualizar. Porque até quando aparentemente se individualiza é só aparentemente: na realidade, o sujeito representa apenas o todo e o tudo. É um condensado universal, ou seja, é o Universo inteiro personificado num sujeito de conveniência.  Num bode. Populacinha mais holofrénica não se conhece. Daí que ou somos todos miseráveis, ou não é ninguém. Ora, o que a senhora Jonet atesta, é que nem somos todos, nem algum indivíduo que quisesse, digamos à revelia,,  tornar-se miserável, não o conseguiria. E porquê? Exactamente, porque a miséria não se digna honrar-nos (e muito menos banhar-nos) com  a sua presença.  Trocariamos de bom grado todo o Atlântico por ela, (em desespero, abandonámos até  a pesca), mas debalde o apregoamos e bradamos aos quatro ventos e às assembleias e cimeiras internacionais. Desertou destas paragens. Abandonou-nos aqui, neste ermo inócuo, triste e definitivamente deserdados.. Ora, nós sem dinheiro ainda conseguimos exercitar  todos os vícios, mas sem miséria não conseguimos ainda ser miseráveis. Esse desmilagre, o da divisão das migalhas ainda não alcançamos (temos o surripianço do pão na massa do sangue; e do Estado) Daí que os portugueses mais tenazes e compenetrados a procurem noutras paragens. É tremendamente injusto dizer que há portugueses a emigrar para  fugir à miséria. Pelo contrário, partem em busca dela. Para Angola, por exemplo, onde podem contemplá-la em abundância e nela refocilarem com volúpia..  Vão destemidos, estugados, mas também solidários, altruístas, benfeitores: na esperança de nos trazerem um pouco dessa essência longínqua e preciosa..  Como outrora se partiu na demanda da pimenta, da canela, do açafrão, zarpa-se agora na senda da miséria, essa especiaria rara e valiosa sobretodas. Inimagináveis os requintes, as exuberãncias miserabilistas que o desmbarque providencial de tão exótica fragrância nos concederia.
 Adivinho alguns murmúrios de incredulidade na audiência. Objectam-me, em surdina, com a miséria moral, pois,  esse substracto que campeia e viceja como nunca antes na nossa história  Não posso  negá-lo. Ninguém pode. É mais que evidente que em matéria de ânimo, aprumo e  moral teremos, nestes últimos anos, alcançado um nível interessante, prodigioso até.. Descemos mesmo abaixo da miséria, à sub-cave da cobardia subterrânia mais invertebrada. As minhocas, aquelas  que ainda nos conseguem encarar sem vómito, já nos olham com ares superiores e desdenhosos. As lesmas ignoram-nos, a grande altitude; e mesmo os persevejos, que acamaradam loquazmente com fungos, até esses snobam de nós. A fraternidade, se é que se pode chamar fraternidade a um bivaque clandestino nas fímbrias duma suinicultura, só já a encontramos junto de certas seitas microscópicas de bacilos e criaturas unicelulares.. Mas esse tipo de miséria (moral, come-se isso da moral?...) não conta nem merece qualquer tipo de consideração. A senhora Jonet refere-se, obviamente, à miséria que interessa para as estatísticas e eurísticas... aquela que, enfim, pode caucionar e alavancar lamúrias, lágrimas e pedidos de socorro, resgate, subsídio! ao universo: a miséria material. Ah, se não é material, não vale nada! Não presta! Direi mais: não existe! Porque só esta, ao contrário da outra que geralmente dignifica, enriquece e causa inveja, excepto naturalmente aos genuínos insectos,  só esta, repito e registem, mete dó. Só ela desfruta desse poder de desencadeamento daquele coro ninfónico (porque, na verdade, nem não nem sim: nin) de lamúria que tanto nos fascina, tripula e preenche.
Podemos ainda assim ser pobres? A pobreza, a irmã penúria ainda velam e aguardam, languidamente, nas margens e recessos das cidades...  Bah, magra compensação, fraca contrapartida.. Um pobre não mete dó: mete nojo! Dá asco. Pede limpeza, não pede auxílio. A pobreza é a lepra moderna; o gafo ignominioso, abominável... a fobia suprema da nossa esquerda auto-beatificada. A pobreza é interdita - não se pode ver, tem que ser escondida, varrida, trancafiada, mascarada, insuflada de silicones e botoques, armazenada em bairros sociais, em ghetos dos subúrbios, em galinheiros a crédito ou coelheiras a prazo. Onde deve marinar e fermentar até - por arte da levedura usurária, da culinária burocrática e do vapor dos mercados - incubar a miséria. Este, pelo menos, era o plano. Foi o plano. E a senhora Jonet vem agora revelar-nos que o plano falhou. Que o sonho ruiu... Que a miséria não veio.  Estamos desgraçados! Duma desgraça, ainda por cima e para cúmulo, inconsequente. Gora, estéril, improfícua... Inútil. Eternamente pobre.
Falta-nos a corrupção, desamparou-nos a mentira, abandonou-nos, ainda mais, a miséria. Avantaja-se e constrange-me uma dura e amarga conclusão: também a estupidez já não é possível - nem se avista - em Portugal.

quinta-feira, novembro 08, 2012

Tratado do Nada




Em Junho de 2011, era inaugurado em Portugal o Observatório da Corrupção.
Ora, sendo certo, sabido e certificado que há tanta corrupção em Portugal como poços de petróleo, minas de diamantes e manadas de mamutes, que raio se propõem eles observar - o nada?
De resto, os nossos preclaros deputados, com toda aquela acutilância moral que os caracteriza, esgalga e derreia , já haviam constatado e patenteado o mais que óbvio e evidente aos olhos do mundo inteiro e arredores: sendo o país, por beneplácito divino, imune à corrupção, impermeável ao suborno e absolutamente inexpugnável ao ilícito patrimonial, dispensa toda e qualquer legislação contra o enriquecimenmto ilícito. Entre nós, por isso mesmo, não só  todo o tipo de enriquecimento é lícito (já que, como o Serafuim Calvino revelou, toda a riqueza é justa, pulcra e aspergida lá dos éteres por Deus Nosso Senhor em Cupido), como também, e sobretudo,  essa opção  é-lhe, por natureza e geografia, rigorosamente inacessível. Não havendo ilícito entre nós, qualquer enriquecedor peregrino, mesmo que voluntária (e quiçá suicidariamente) o demandasse, não o encontraria disponível nem acessível em lado nenhum. E tanto assim é que assistimos, nestes últimos anos, a várias ilustrações vivas e gritantes disso mesmo: Dias Loureiro vê-se na contingência de ter que emigrar para Cabo verde. Duarte Lima corre ao Brasil, onde o ílicito é barato e abundante; Pina Moura esfalfa-se entre Cabora bassa e Madrid; Isaltino Morais, e tantos outros, vêem-se obrigado a viajar até à Suiça, sempre que a vertigem lhes ocorre;Paulo Portas, suspeita-se, atravessa Pirinéus e Alpes, duma assentada, até á Alemanha; e José Sócrates, só quando desembarcou em Paris, é que pôde, finalmente,  encontrar coisa que se visse... Está mais que provado que a esterilidade desértica dos nossos solos para o cultivo do ilícito, tanto quanto da corrupção, mai-lo respectivo suborno simbiótico, força os nossos produtores de riqueza mais expeditos (ou meramente excêntricos) à emigração agenciante, primeiro enquanto pesquisadores, depois enquanto nidificadores (o ilícito, de todo, não consegue sobreviver entre nós; nem em estufas, nem em incubadoras artificiais; pelo que a sua criação, procriação e desenvolvimento, requer sempre cuidados específicos e ambiente propício).
Concomitantemente, dada a ausência mais completa de ilícito entre nós, tanto quanto o enriqueccimento, também o empobrecimento ilícito se torna impossível. Da mesma forma que vale tudo para alguém enriquecer, vale também praticamente tudo para empobrecer, de preferência os outros ( primeiro na figura e orçamento do estado, mas depois, esgotado este, nas pessoas particulares e avulsas que estiverem mais à mão). E a relação é de tal modo íntima entre estas modalidades, que está comprovado que quanto mais alguém enriquece nestas peculiares condições, tanto mais empobrece em seu redor.
Por outro lado, convém recordar que não apenas a corrupção inexiste adentro das fronteiras portuguesas: também a pedofilia, excepto naturalmente entre o clero clatólico, mas isso pela razão singular desses elementos serem funcionários dum estado estrangeiro, que é, como devem saber, o Vaticano. A prova mais acabada de que o processo casa Pia não passou duma mistificação anti-democrática, anti-republicana e, sobretudo, anti-maçónica (da imprensa reaccionária monárquica, quem mais...) foi a descrição dum dos antros de prevaricação como situado em Elvas. Ora, toda a gente sabe que, a ser verdade o ignóbil ilícito, ele teria que localizar-se necessariamente do outro lado da fronteira, em Badajoz - isto, no mínimo (e com algumas reservas, pois, dada a proximidade da nossa fronteira e a influência obsidiante do nosso saudável clima, a inibição ao ilícito seria até considerável).
E quem diz a pedofilia, diz a própria mentira. Então para esta, a incapacidade aguda da generalidade da população, mas sobretudo dos jornalistas, dignitários, pantacandidatos (ou seja, candidatos a tudo e mais alguma coisa), vedetas do jet-frete e homens de letras, além de lendária, chega a ser embaraçosa. Completamente inaptos para a efabulação, a ficção e o enredo, limitam-se à enunciação enfadonha de tratados de lógica, auto-vivissecações, análises da urina, registos de propriedade e atas de confessionário (coroladas, nos piores casos, com reportagens ao ralenti das últimas férias no cu de judas -literalmente).
Quase a acabar, umas  palavrinhas sobre a traição e a prostituição. Aquela, como é bem sabido, foi definhando, paulatinamente, desde a última defenestração pública de relevo, e encontra-se praticamente extinta na nossa pátria.  Mesmo para trair a mulher, os portugueses têm que recorrer ao crédito-viagem e percorrer longas distâncias, até ao Brasil, Caraíbas e Seichelles, arrostando, quantas vezes, maremotos, furacões e caterings low-cost). Já a prostituição, essa, benignizou-se completamente - debalde procurar uma prostituta, em dias de hoje, nas ruas ou em casas da especialidade. Agora são, para todos os efeitos,  "trabalhadoras do sexo".  Não tardam sindicalizadas. Fora as  que trabalham no Parlamento, claro está - essas são empresárias da vida fácil.
Voltemos então ao Observatório da Corrupção... Vai observar, portanto, o Nada. Só não é hercúlea, a tarefa, porque em boa verdade é heideggeriana. Na senda do último grande filósofo ocidental, e da sua "Introdução à Metafísica", Portugal avança e acrescenta: porquê observarmos a corrupção e não apenas o Nada? Ora, não dispondo de corrupção, eis que nos debruçamos, perscrucientes, sobre o Nada- o nada, nicles, népia, coisa nenhuma!
A juntar a uma chusma de observatórios que observam tudo e mais alguma coisa, mas, em bom rigor, não observam nada, eis finalmente um observatório que observa tudo aquilo que os outros não alcançam. O Nada, repito.
O leitor mais céptico e amovediço interrogará: merece o balúrdio que se gasta nela, uma espreitação tão peregrina e inefável? Respopndo: senhores, a metafísica não tem preço. E o Nada, uma vez bem esquadrinhado e patenteado ainda gera um fonte de receitas descomunal ao país, providencial sortilégio nesta hora de tão grande necessidade. Basta lembrar-se que metade do "espírito" dos computadores (a net inteira de lés a lés) é nada - zero. Sem o Nada  (na pessoa do seu número 0), que relembro, só chegou à Europa no século XII ou XIII (confiram no google ou na wikicoisa), por intermédio dos árabes, jamais teria havido capitalismo e, consequentemente, salvação da humanidade. Ainda hoje, grande parte dos recursos financeiros mundiais são extraídos do Nada. Aliás, não há nada mais transaccionado nos dias de hoje que o Nada. Tanto que o Nada alastra por todo lado: das instituições bancárias às próprias almas. Os maiores crânios da humanidade actual estão cheios de Nada (e de si, por arrasto). Até já existe um Prémio Nobel para o Nada, carinhosamente eufemizado sob o epíteto de "Paz". Há tanta paz no mundo como corrupção em Portugal. Mas como a ileteracia mundial não compreenderia "um Prémio Nobel do Nada", eles tiveram que improvisar com a "Paz". O mesmo se passa entre nós: ninguém aceitaria um Observatório do Nada; daí eles têm que colorir com "Corrupção".O qual, em todo o caso, é pago com dinheiros essencialmente comunitários. O que quer dizer que não nos sai do bolso do orçamento. Bem, na verdade, até sai -  esguicha naquele item onde consta o pagamento dos 3.000 milhões de juros do resgate, à onzeneirice europeia. Ao fim e ao cabo, eles têm que se fazer pagar.... A troco de - pois é, pois é - Nada.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Alguém



Confiar, mesmo, só em Deus. No Estado de Direito, no Estado Social, na Democracia Virtuosa, desculpem lá, não apenas não confio, como não acredito. Mas tal qual não admito que me imponham mistelas e dietas, também não faço questão de impor nada aos outros. Se todas essas balelas vos seduzem e encantam, força!
Não me venham é depois com ciganices lacrimijantes do estilo "Ai que nos violam a Constituição!", "ai que a Constituição nos bloqueia!", "ai que nos estão a ir ao Estado Social", "Ai que o estado social nos vai ao bolso!", "ai que que nos prostituem o Estado de Direito!", ou "Ai que o Estado de Direito não está a render o que devia!", "ai que nos congelam a democracia", "Ai que a democracia está sem fundos, nem fundilhos!", etc, etc.
Parecem posições opostas, antagónicas, mas são a mesmíssima posição. É a mesmíssima gente. Quem conseguir distinguir a merda do cagalhão, faça favor, tenha a bondade. Junte-se ao Luís de Matos, e também ao Júlio, e montem um espectáculo de ilusionismo para bonapartes na reforma. 
Dito isto, julgo que estarei plenamente creditado (ou seja, devidamente encartado na mais olímpica das imparcialidades) para explanar o que se segue.
A principal razão para a minha descrença nos Estados (de Direito e Social), tanto quanto na Democracia (paralamentar ou para-rir-e-chorar), é a realidade da sua exstência entre nós (lá fora, no presente e no passado, também abundam maus exemplos, mas com esses posso eu bem). E essa realidade manifesta a mais desoladora e repugnante perversão dos mesmos. Quer dizer, aqueles que diariamente passam e repassam atestados da mais inoxidável das virtudes a essa sagrada tríade, outra coisa não fazem, refazem e trifazem na prática senão pervertê-la, prostituí-la e enxertá-la de vícios, taras e quimeras canibais. Temos assim, graças em grande parte, aos seus putativos paladinos (na verdade, seus proxenetas) um Estado de Direito, um Estado Social e uma Democracia  completamente pervertidos. Em teoria, seraim semi-angélicos; na prática, estão completamente decaídos e adulterados.
Entretanto, a crise actual de rendimentos levou a seita proxeneta a um cisma aparatoso. Uns continuam a jurar pela virgindade da querida, apesar dos claros sinais de falência senil e dotes atractivos em vias de extinção; outros, adeptos duma gestão mais desembaraçada, conclamam ao abandono rápido do destroço improdutivo e à engenhosa imposição armada dum esquema urgente de entre-sodomia geral da clientlela. Entre-sodomia geral até à morte, bem entendido; que é como a coisa será mais rentável. Isto, numa primeira fase; porque, numa segunda, ainda mais audaz e racional, a exploração prolongar-se-á mesmo para lá dela, através da reciclagem necrófila dos cadáveres. Acrescido de que a conta no banco, além de moeda ou valores, poderá ser também em órgãos. A conta dos proxenetas, claro está.
Ora, a sensatez poderá estar banida, desterrada e até queimada em efígie. Mas continua viva, embora em parte incerta. E, em sonhos, até por força da necessidade, começa a aparecer, com certa frequência, a alguns cidadãos deste país. Um dia destes, ainda algum, daqueles que se fazem ouvir, se lembra de dizer: "Bem, não é possível termos um Estado angélico, nem uma democracia celestial, portanto é estúpido desejá-lo (e ainda mais, proclamá-lo); Mas também não queremos um estado e uma democracia completamente pervertidos, seja porque nos sodomiza arbitrariamente, seja porque nos obriga a sodomizar-nos uns aos outros. A questão não é a falsa questão. E a questão é que o nosso problema não são as funções do Estado: são as disfunções do Estado. O problema é que o dinheiro que chegaria perfeitamente para as funções do Estado, foi desviado e  malbaratado com uma miríade de disfunções do estado, que outra servidão não teve, nem tem, que a sustentação arrogante e opípara duma multidão de disfuncionários do estado. O problema não é o actual governo, ou o governo anterior: o problema é a sucessão de desgovernos, que o actual apenas protagoniza e acentua. O problema é que não houve eleições: houve golpadas legitimadas através dum esquema manhoso nas urnas. A democracia serviu do cobertura a uma cleptocracia legalizada na forma dum aristocracia invertida e burocrática. O povo nada de útil ou concreto decidiu: intoxicou-se. Fumou latrocínio atrás de latrocínio; tripou com  miragens, de panaceias, créditos e migalhas; e acordou um belo dia como qualquer junkie acorda: arruinado, infectado, toxicodependente e sem-abrigo."
Não reivindicamos o paraíso; mas também não queremos nem aceitamos o inferno na terra. Para começar, contentamo-nos com um estado que funcione, uma democracia que tome banho e um país que ande no mundo (que é a rua dos países) de cabeça erguida e não de pata estendida, seja a pedir esmola, seja a pedir colo.
Pois, um dia destes ainda alguém  diz isto. E, mais grave ainda: ainda alguém escuta. Alguém que não apenas o boneco e as paredes.

Se ao menos emigrassem...



O Tomás Filho lá ganhou as eleicinhas no Paraíso Terreal. Era irrelevante quem ganhasse  - a não ser, talvez, para o mafioso de Las Vegas e o amigo Bibi de Israel. E, claro, para toda aquela caterva de expatriados americanos (o Destino também sofre destes desarranjos intestinais) que, repolha, por geração espontânea,  entre nós. Coitados, a Améria não quer saber deles, mas eles adoptaram a América. "Mamã!mamã!", grita, entusiasmado,o verme, dependurado do ânus do pato... ao ver passar diante a imensa e apetitosa  vaca. 
Contorcem-se nos mais esponjosos ruídos, como quem rasteja no esterco em migração esforçada para a folha  dalgum legume fácil ou hortaliça desprevenida.




segunda-feira, novembro 05, 2012

A Possessão dos Aflitos



Começo por uma ilustração introdutória.
Na Câmara Municipal X existe um fornecedor de serviços Y (empreiteiro, serralheiro, marceneiro, etc) que tem um contrato de exclusividade com o município. Significa que é ele que faz todos os serviços necessários naquela área. Em contrapartida, inflacciona os orçamentos, de modo a incluírem o custo real, mais, pelo menos, comissão para o vereador da área e comissão para o presidente da autarquia. O resultado é que o custo da obra municipal fica, religiosamente, entre trinta e cinquenta por cento mais cara (e estou a ser benévolo). Mais cara a quem? Exacto: ao Orçamento, ao contribuinte, ou aos fundos de coesão (que foram a mais recente versão do "ouro do brasil"). Pois bem, este cenário não é restrito à Câmara X. Pelo contrário é endémico e infestante em toda a rede autárquica, do Minho ao Algarve, do Continente às ilhas. Agora multipliquem isto, no mínimo, por trinta anos. Acrescentem-lhe ministérios, direcções-gerais e máquinas partidárias; seitas de advogados e sociedades secretas mas não muito; empresas públicas e oligopolvos; famílias cristalizadas e enquitadas aos úberes do erário em fogoso e hereditário regime de endogamia; e tereis o princípio do panorama devorista que nos desgoverna há décadas. Estado de Direito, estado social, democracia representativa, liberdade de expressão, não passam de balelas para entreter e aturdir papalvos. Na realidade, não passam de pretextos- para o devorismo instalado. E comilão. Claro, nisto, como em tudo na vida, há os que comem pela medida grande, os que comem pela medida pequena e os que andam lá pelo meio a ver se abocanham naco oportuno.
Entretanto, com  a fatalidade cíclica que já a Bíblia anuncia, chegou a crise. E a receita, nesta emergência, é proverbial: os que comeram antes (no orçamento) pela medida grande comem agora (na austeridade) pela medida pequena; e os que comeram antes pela medida pequena, comem agora pela medida grande. É uma questão de semântica: a diferença entre comer à mesa e comer no pelo.
Porém, tudo isto que acabo de escrever, esqueçam. Sabeis bem que não tem pingo de realidade. Não passa de alucinação minha. Delírio fuirioso. A verdade só recentemente foi descopberta e está, agora, em processo de acelerada revelação pública, a cargo de nuvens de papagaios ev-angélicos, em débito (e a crédito) do espírito santo. Todos aqueles senhores da qualidade dos Dias Loureiros, Sócrates, Pina Mouras, Duartes Limas, enfim, todas essas fortunas efervescentes que borbulharam do dia prá noite, ou melhor, da noite da treva fascista para a manhã radiosa da santa democracia, pois, toda essa gente abnegada sempre laborou com probidade, zelo e desinteresse pelo bem comum, pela saúde do estado, pela glória da nacinha; e são, hoje, apenas vítimas infelizes da ingratidão e, sobretudo, da inveja (meu Deus, a inveja, esse alibi-rápido dos medíocres e microtalentos!) da gandulagens ignaras e parvajolas deste país. Como eu, por exemplo. Pois, estes beneméritos, estes filantropos descomedidos (e toda aquela imensa rede orquestrada do devorismo cristalisado, a que eu, tão ignobil quão injustamente os associei, na presidência), nada delapidaram, perverteram ou sequer arrecadaram. Nada! Nem um tostão! nem um cêntimo! Não foram eles. Sabemo-lo agora, anuncia-nos, em coro celestial, a passarada mensageira : foi a Constituição. Suspeitava-se da bicha, da ténia descomunal que rilhava as entranhas deste desgraçado país. Alegremo-nos: Portugal não sofre da Bicha, sofre da Constituição!
Como dizia aquela senhora Cândida, não há corrupção em Portugal. Nunca houve. Nem corrupção, nem, muito menos, corruptos. Nunca! Estamos vacinados; se é que não somos mesmo geneticamente imunes. O que há é a Constituição. Foi ela que roubou, fundiu, refundiu, esbanjou, traficou, vendeu, traíu, malbaratou, malgastou, devorou e esgalamiu. Foi ela! Foi ela que os obrigou! Socialista? Qual quê!, monárquica absolutista!
Isto das revelacinhas é como os segredos de fátima: vem às fatias. A seguir vão revelar-nos que não é, na verdade, a constituição da república: é o fantasma de D.Miguel. Que voltou para se vingar. Para assombrar e acagaçar o constitucionalismo, para entortar e atrair diarreias legais ao Estado de Direito, vómitos esverdeados no Estado Social e fazer andar à roda a cabeça ausente da menina Democracia. É Ele! O Indesejado... ultrapassou D.Sebastião, pela direita, e veio tomar desforço. Até os monárquicos light  se assustam e persignam. É ele, é ele! É ele que nos sabota e tresvaria os gestores, os doutores, os políticos! É Ele que lhes desarranja a moral e extrai a coluna! É ele, o mostrengo tirano, o espírito imundo! O país não precisa da Troika: precisa é dum exorcista! Ou então dum caçador de vampiros, caso seja o outro que se levantou lá da sepultura em Santa Comba!...
O Papa que venha. De urgência! Que nos acuda! O caso não é para menos. Que venha Sua Santidade em pessoa para nos exorcizar a Constituição, seja quem for que lá se tenha calafetado. De repente,  a metafísica - qual quê, a metafísica não chega, a superstição inteira!, a necromancia toda!  - renasce para resgate do materialismo, dialéctico e pialéctico: será o próprio Belzebu?
Até já o actual governo sofre e padece. Enganou-se nas contas? Enganou-se nos cálculos? Enganou-se no plano, na receita, no país? Meteu as patas de trás pelas patas da frente e as ferraduras pelo tapa-orelhas?  Não, não foi ele: foi ela, maléfica, imunda, a Constituição! Sempre ela! Ubícua e omnívora, despótica e plutofágica! Devoradora de toda a nossa riqueza, de toda a nossa energia, de toda a nossa esperança! Esterilizadora de todo o nosso futuro!
E o estúpido do embaixador de Israel não vê. Sempre tão geniais na ficção e tão bacocos na realidade, estes judeus farfantes. Entretido com putatitvas nódoas passadas na nossa feíssima bandeira, nem repara na mancha medonha e presente que alastra, escorre e abomina por toda a nossa Constituição... Socialista? Pior: Nacional-Socialista. É  o terceiro segredo desta lástima: Adolfo Hitler em possessão.

domingo, novembro 04, 2012

Diálogo com um padre




Padre- Então, meu filho, porque queres tu tornar-te católico?

Dragão - Bem, padre... Estou a ficar velho e, pelo sim, pelo não, convém acautelar a reforma celeste. Não descontei toda a vida, mas não poderia agora entrar num  programa rápido de compensações e prestações caridosas por atacado?

Padre - Meu filho, a Providência Divina não é bem igual à Previdência Social, graças a Deus:

Dragão - Pena. Todavia, olhe,  para começar, acredito em Deus!...

Padre - Pois, meu filho, mas isso é irrelevante. Compete-te acreditar é na Santa Madre Igreja. É isso que faz de ti um católico. A Igreja é a concessionária estatal de Deus na terra. Fora Dela, não serás nunca um crente, mas um contrabandista da fé, um evadido aos impostos celestiais!...

Dragão - Ah... já  agora, escute cá, ó padre: se somos praticamente da mesma idade, porque teima em aperfilhar-me? Não faria mais sentido chamar-me "irmão", ou "meu irmão"?

Padre - Não, meu filho. Esta fórmula paternal reflecte o facto de estar sacerdotalmente consagrado e representar aqui, junto de ti, através da Igreja, o Pai Celeste...

Dragão - Zeus?

Padre - Não, o Pai de Jesus Cristo!...

Dragão - Hum, representações contundem-me um bocado com o sistema. Às tantas, embrulha-se tudo na palramentação. Assim de repente até diria que  foram vocês que inspiraram o Kant: não temos acesso à coisa-em-si nem, inerentemente, ao Ser-em-si (Deus), mas apenas às suas representações fenomenológicas. Isto levou o Shopenhauer ao pessimismo, o Nietzsche à loucura, o Heidegger à poesia e a mim, para ser sincero, vamos lá ver aonde!...

Padre - Pois, meu filho, mas as regras são estas: tu falas comigo; eu falo com o bispo, o bispo fala com o cardeal, o cardeal fala com o Papa e Sua Santidade vai a despacho com os anjos, com os santos e, na melhor das hipóteses, com Nossa Senhora. Estes, depois, intercedem junto de Deus.

Dragão - Padre, aprecio hierarquias. Por aí não há problema. Super-crentes com kit de cabine telefónica celestial e auto-eleitos com deus às ordens nunca me fascinaram muito. Pelo contrário, repugnam-me visceralmente. Mas isso de tomar a nuvem por Juno também me causa uma certa urticária moral... Olhe, passemos a coisas mais simples. Antes de ser católico, não haverá um qualquer programa de treino, uma ginástica espiritual, que me permita ganhar destreza e musculatura, de modo a facilitar o acesso à salvação?...

Padre - Começa tudo pelo amor ao próximo. Tens que amar o próximo.

Dragão - Comprendo, dado que Deus está inacessível, começa-se pelo próximo, e vai-se paulatinamente por ali acima, até chegar ao Papa. Suspeito que sei quem é que os maçónicos, à sua escala minúscula, andam a plagiar há séculos...  Em todo o caso, ponderemos o próximo... E se  o próximo só ama riquezas, honrarias, prepotências, bazófias, arrogâncias, desplantes, vaidades, mentiras e coisas assim? Como vou conseguir amá-lo? Pior, e se o próximo, sem aquelas nem queloutras, converteu o "conhece-te a ti mesmo" no "ama-te a ti mesmo", roncando que não precisa do amor dos outros para nada, pois já tem o dele todo, infinito e imenso?...

Padre - Tens que amá-lo redobradamente. Para compensar as suas fraquezas e mundanidades...

Dragão - Mas há-de convir que o sujeito não é nada amável. Amar aquilo é amar um calhau com olhos, um pedregulho despencado sobre uma cidade!... Ainda por cima, é um próximo que se afasta cada vez mais de mim e só decreta é distância entre nós, muros e polícias. Ora, eu aí, estou como Swift: aquele que me põe à distância eu agradeço muito por ficar longe de mim. Mas temos depois aquel'outro próximo que só ama o anterior ou quem, de algum modo, favorece em tornar-se como ele. Se o outro é um penedo em acto, este é um matacão em potência e gestacinha.

Padre- Meu filho, tens que aprender e praticar a humildade. Não te compete julgar os outros, mas apenas amá-los. Deus julgar-nos-á a todos. Pois todos somos seres imperfeitos e carregados de pecados!...

Dragão - Para mim isso é pacífico. Acho muito bem. Encanta-me. O meu problema com o próximo é quando ele começa a agir como se não houvesse Deus no Céu e fosse ele o deus na terra - deus, papa e crente de si mesmo, ídolo ambulatório de cegos, répteis, venais e mentecaptos como ele! Isso eu não consigo amar. Consigo amar o Filho de Deus, mas não consigo amar enteados do diabo! A falha, eventualmente, será minha: Mas é fruto genuíno da inteligência que Deus me deu, e por isso, creio, lhe chamamos Deus, porque deu, não vendeu. Vendesse Ele e não seria Deus, mas o seu oposto: Vendeus.  Por isso, dar a outra face, ainda concebo, mas ven-dar ou vender a alma é que não! Como não troco o Ser pelo ven-cer, nem, tão, pouco, pelo vencimento. Não vale nada quem pensa que vale tudo; não é nada quem pensa que é tudo.

Padre - É humano o erro e o pecado...

Dragão - Mas não é humana a pocilga. E eu julgava que Jesus nos tinha lavado a cara e posto de pé...

Padre - Meu filho, ama o próximo e deixa a doutrina connosco. Vem à missa, reza e arrepende-te das tuas más acções e vais ver que, com o tempo, o horizonte fica menos carregado.

Dragão - Sabe, padre, eu sou o mais imperfeito e inapto de todos. Está visto que tenho que percorrer um longo caminho. O próximo pôs-se a milhas; Deus retirou-se para as insonduras dos céus.  Já percebi que isto tem que ser gradual, por fases. Para já contento-me em treinar com o amor à mulher do próximo. E depois, aos poucos, com muita intercepção dela, ainda acabo a vir à Igreja. De preferência às horas em que o próximo cá não esteja a relambar-se de hóstias.

sábado, novembro 03, 2012

Frases Assassinas - XIII

Há dois prémios de elementar justiça que compete tributar: um a Darwin, pelo conceito de evolução como não sendo necessáriamente um progresso; outro à academia e sobretudo, ao ensino universitário português por essa nova, robusta e pródiga eclosão na cadeia evolutiva para-hominóide: o asno sapiens.

Fazer despesa




O Engenheiro Ildefonso Caguinchas tem agora relações com uma senhora de alta estirpe, o que se traduz, julgo, no porte de importantes apelidos. De modo que me convidou para uma cavaqueira, onde, presumo, me faria relatório amplificado das suas  mais recentes galarozices e hipismos ( a senhora disporá certamente de amigas carentes e prestimosas), num botequim das avenidas. 
Na esperança de poder auferir dalgum do recente desafogo económigo do meu compadre, lá me dirigi ao local marcado para a conferência ilustre; e nele penetrei, com o passo altivo e arcaboiço desempenado que me caracterizam.
Sedimentava há pouco mais de minuto ou dois naquele reduto selecto, na sossegada espera do engenheiro máximo,  quando se intromete um dos serviçais itinerantes com a seguinte léria:
- O que deseja?
Olhei em volta e constatei, assim por alto, uma balzaquiana e três cavalonas alouradas em carnes altamente comestíveis. Como bolinhos e chás não me cativam, redarqui,  voraz:
- Olhe, desejo aquela ali. Pode ir ver se está disponível e trazer-ma descascada?
O tipo começou por pasmar, No que ainda pairou um bom bocado. Mas  depois, com ar malandrote,  português, sorriu, cúmplice e segredou:
- Já está reservada. Mas eu referia-me ao que quer tomar...
. Bem, para já, não quero tomar nada. O meu plano de conquistas é muito restrito: em não havendo mulheres ou castelos disponíveis, deixo-me estar sossegado e contemplativo. - Respondi, muito sério.
Aqui, o criado de mesa, suspeitando que eu dele mangava, adquiriu um semblante  carregado, e, em modos duros, ditou:
- Pois, o senhor lá sabe. Mas a regra é que para aqui estar tem que fazer despesa. Isto não é o miradouro de santa Luzia.
- Tenho que fazer despesa? - Abismei-me eu, muito sinceramente.
- Exactamente. Tem que fazer despesa! - Tornou, imperioso e profissional, ele.
- Tem a certeza? - Ainda reconferi
- Absoluta. São as regras do estabelecimento!
- Bem...se tanto insiste...
Levantei-me e pesquisei em volta, cumpridor. À minha direita, a enorme montra, em vidro espelhado, exercia algo entre a atracção e o convite.... Nem hesitei... Peguei na cadeira e, arremeçando-a com energia bárbara, mas todavia cívica, escavaquei aquela marmelada toda. Depois, calmamente, inquiri:
- Acha que chega? Se quiser também posso rebentar com o balcão!...

E era verdade. Não custava nada. Era um balcão corrido, iluminado, daqueles de vidro, com imensos bolos e folhadinhos... E no que toca a fazer despesa, quando começo nunca mais páro.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Abnegados agentes da Higiene Pública

As economias vacilantes embaraçam-se com uma série de escrúpulos e hábitos arreigados, como sejam compaixão com deficientes, amparo a aleijadinhos, assistência aos doentes, protecção aos fracos e indefesos. Em contrapartida, as economias pujantes não perdem tempo com essas pieguices bacocas e emocionais. Desde o social darwinismo feroz de luminárias como Madison Grant, sabem, de ciência limpa, que a deficiência, a doença, a pobreza, o desemprego, a fraqueza em geral são desprezíveis  e merecedoras não apenas do nojo, como, sobretudo, da repressão estatal. Nunca se será suficientemente duro com esse tipo de sub-gente.
O mais recente e edificante episódio dessa saga moral aconteceu em Vancouver. Onde três gorilas justiceiros trataram de disciplinar um detrito social repugnantemente instalado numa cadeira de rodas. Lixo social, ainda por cima motorizado, é de causar vómitos a um robot!...

quinta-feira, novembro 01, 2012

Do Necro-Proxenetismo industrial



Compenetramo-nos de que perdemos de todo a dignidade nacional (junto com o simulacro de independência  a prazo) e arfamos doravante convertidos  em reles colónia ou sórdida  subsucursal da Alemanha quando os minúsculos gnomos necro-proxenetas desta começam a alastrar, a trepar e a exalar ruído eructante entre nós. E quando chegam ao desplante voraz de já nos apontarem nódoas na bandeira e indemnizações veladas em nome do holocausto, sabemos que boiamos definitivamente na sargeta da história, em trãnsito para a estrumeira da propaganda, à mercê de todo e qualquer escaravelho-estercorário que se apresente. 
Isto, no mínimo, ainda nos vai custar um dos submarinos. E, claro, uma implementação decuplicada de emergência, no orçamento do Ministério da Educação, para pagar ao Circo de Israel o neo-catecismo dos nossos mestres-escola . Moral da história: vem aí a Nova Religião e Moral obrigatória. Pois; e tanto quanto ver o ensino do holocoiso a ombrear solene ao lado do brasilês e da matemática, como disciplinas nucleares cá da paróquia, eventualmente desde o jardim infantil, vai ter o seu quê de irónico assistir à Educação, em paixão finalmente materializada, a tiranizar as Finanças.
E tudo isso a bem da nacinha e de quem lá mama? Sim, talvez;  mas sobretudo dos juros da dívida... e de quem lá mina. Como não diz o povo: Um anão lava o outro...


A Procissão dos Flagelantes



Há marasmos mentais que eu, de todo, dispenso. Certas palhas de rebanho, em espécie de psico-ração de comveniência, essas, então, repugnam-se. Por exemplo, aquela muito fresca e repetida: a saber, que foi o socialismo que nos trouxe até aqui, a esta bela bancarrota nova e reluzente. Suponho que se referem ao "socialismo prático", do estilo União Soviética,  (e não ao socialismo angélico que, como todos sabemos, paira, sublime e diáfono, incólume a chacinas e genocídios, à espera da encarnação perfeita num qualquer amanhã chilreante). Este socialismo angélico, de resto (e não esqueçam o que eu ia dizer), é irmão gémeo daquele liberalismo inefável que também flana e flui, em subtil destilaria celestial, aguardando o dia da perfeita e não menos chilreante aurora. Para os seus adeptos e catecúmenos, o liberalismo puro nunca existiu na prática ( e por isso ele é eternamente puro): o que tem pululado e tripudiado pelo mundo é perversões, natural e fatalmente socialistas, daquela imaculada e pulcra essência. Certos espíritos menos benevolentes até já se interrogam se não derivará tudo duma má relação de ambos com a realidade: enquanto o liberalismo não vislumbra quaisquer orifícios nesta, o socialismo  aproveita e viola-a de todas as maneiras possíveis e imaginárias.  Voltando agora onde eu ía, terá sido mesmo através duma dessas maneiras, nitidamente imaginária, que acordámos, um belo dia, nesta esplêndida bancarrota. 
Ora, foi público e notório que o país, nos últimos decénios, se entregou a desregramentos mais que típicos dos antigos paíse socialistas, como, por exemplo (e só para citar os mais emblemáticos): orgias gerais de crédito bancário; consumo desenfreado de gadjets, bugigangas e artigos de luxo; importação desaustinada de tudo e mais alguma coisa; abolição eufórica de fronteiras;  cornucópia de televisões, revistas e jornais em torrencial dilúvio de toda a casta de incitamentos publicitários à ganãncia e luxúria épicas e salvíficas; liberdade de expressão em barda; subsídio generoso a toda a espécie de minoria da moda internacional,; imigração selvagem; destruição metódica e excternamente patrocinada de todo o aparelho produtivo; desindustrialização ufana; multipartidarismo infestante; parlamentarismo incontinente; turismo obsessivo;, agrofobia histérica; financeirização transcendental; etc, etc. Em suma e síntese: como podemos constatar, a exacta réplica de todos os vícios e taras soviéticas (ou de quaisquer dos seus satélites de leste), não é? Ou mesmo de Cuba, da Albânia, da Coreia do Norte, da China Maoista, senão mesmo do Camboja de Phol Pot!... Ressalta à vista e entra pelos olhos a dentro. Especialmente, untado a vaselina, pelo mais cego de todos!... Porque, repito e trepito, como todos estamos cansados de saber, à data do colapso do paraíso terreal socialista, toda aquela gente, um pouco à semelhança do Império Romano lá das antiguidades, chafurdava em toda a variedade de orgias, sobretudo consumistas, opinorreicas e plutofaccientes. Até metia nojo!
Bonito; e segundo os entendidos, qual o principal factor para esta nossa queda ininterrupta no pecado socialista em larga escala?  É que temos uma constituição socialista, proclamam eles, esgazeados e com a coifa ao desalinho; assedia-nos um tabu legal e atávico  que nos inibe de abraçarmos os redentores hábitos capitalistas e nos constrange, tirânico, ao caminho da perdição. De guarda a este hediondo santuário do mal, patrulham demónios e ogres retintamente socialistas, desde o patriarca Soares até ao último guincho Sócrates, ou seja, desde o proto-socialismo até ao metro-socialismo. O mesmo Soares que, nas suas próprias palavras, guardou o "socialismo na gaveta" e tirou a democracia liberal e palramentarista do armário, onde ela estava escondida desde o 25 de Abril, cheia de medo dos comunistas e à espera que a descolonização passasse; e o mesmo Sócrates cujo paradigma inspirador era um marxista-leninista empedernido chamado Tony Blair, imagine-se. Conseguem imaginar? E já agora, imaginem também a mesma choldra mascarada de povo, entre eleiçados e eleiçores (representação, babam eles), que se entregou a todos os desregramentos, que converteu todas as leis e códigos legais numa nova espécie de papel higiénico regimental, que se marimbou para quaisquer regras milenares do civismo, vá lá, só mais um pequenino esforço, e tentem imaginar toda essa ciganagem cheia de inibições com a Constituição. A cultivar traumas e stresses...fobias angustiantes... O Código Penal não os inibe; as próprias leis da natureza não os inibem, o Diário da República funciona por conta, balcão, recreio e encomenda. Mas a Constituição inibe-os, coitadinhos. Revista e descafeinada, podada e recauchutada, ainda os inibe. Demove-os. Causa-lhes aquela disfunção eréctil mental em que vivem diante da realidade. Com a inteligenciazinha mirrada, a moral descartável e a coluna vertebral gasosa, assistindo, frustes e gelatinados, às contínuas violentações socialistas. A constituição é que não os deixa, é que os impede, é que os obriga a ficar assim, hirtos, meros portadores dum acessório inútil, triste, pendente.. Todavia, uma gaitita mágica, fadada misteriosamente, intimamente agregada ao futuro da nacinha.  Este só se endireitará quando eles endireitarem aquela. Mas  primeiro, detalhe crucial, condição sine qua qua, há que lhes tirar a Constituição da frente. Porque então, então sim, livres dessa maldicinha, a realidade vai ver e, sobretudo, eles vão conseguir ver e encarar a realidade.Sem complexos. E a economia vai trepar nos gráficos à medida e ao ritmo com que a sapiência protuberante for capaz de lhes trepar na barriga, à conquista do umbigo. E ninguém duvide: no mínimo, será vertiginoso!...
Só que até lá vamos penar. Vamos pagar. Vamos expurgar-nos e penitenciar-nos nesta procissão de flagelantes. Temos que mostrar ao mundo, aos mercados, às feiras, às praças e até aos lugares de hortaliça que estamos arrependidos, compungidos, sinceramente pesarosos de todos este tempo estéril em que nos entregámos, de corpo e alma, ao deboche socialista. Na esperança paciente e godótica do dia radioso e deslumbrante em que a inteligência solene dos nossos formidáveis gestores ganhe vigor vertical e deixe de apontar, murcha  e engelhada, ao olho do cu. Da Europa tanto quanto da tribo.