sábado, janeiro 10, 2015

O terrorismo para totós

As pessoas, especialmente nos ciber-éteres, utilizam as palavras dum modo arbitrário e, a maior parte do tempo, descabelado. Quer dizer, usam-nas como usam a generalidade das coisas no seu quotidiano: ignorando (ou tripudiando) completamente o seu significado.  Um exemplo recorrente disso é, por exemplo, o termo "terrorismo" e, por inerência, "terrorista". Já várias vezes aqui, pedagogicamente, tentei  obstar a tanta e tão confragedora desmioleira, mas, pelos vistos, debalde. De balde, bacia e alguidar, porque não sendo este um espaço frequentado pelas massas, apenas um ou outro transeunte menos enmanedescido daqui retira algum proveito.
Não obstante, sou tenaz. Pela enésima vez socorro a ignorância transumante. De seguida, três definições da palavra "terrorismo". Para os eruditos, para o vulgo e para a elite da humanidade que são os leitores desta casa.
Assim, respectivamente, segundo o Houaiss da Língua Portuguesa:
Terrorismo - 1. Modo de impor a vontade pelo uso sistemático do terror; 2. emprego sistemático da violência para fins políticos, esp. a prática de atentados e destruições por grupos cujo objectivo é a desorganização da sociedade existente e a tomada do poder; 3. regime de violência instituído por um governo; 4. atitude de intolerância e de intimidação adoptada pelos defensores de uma ideologia, sobretudo nos campos literário e artístico, em relação áqueles que não participam das suas convicções.

Segundo o Dicionário da Porto Editora:
Terrorismo - s.m, sistema de governo por meio de terror e de medidas violentas; actos violentos praticados contra um governo, uma classe dominante ou pessoas desconhecidas que acidentalmente se deslocam em meios de transporte, ruas, etc: aspecto terrível; modalidade de acção da guerra subversiva, pela qual se procura criar a insegurança dos dirigentes políticos e militares e o medo da população civil.

E , finalmente, segundo o Dicionário Shelltox Concise do Dragão:
Terrorismo - s.m, modalidade dramatúrgica moderna, de causas nebulosas, finalidades obscuras e patrocínio sinistro, que, por meio de grande espectáculo e difusão pública, visa o entretenimento mórbido e macabro das massas; auto-medicação para o tédio, spleen e depressões associadas por parte de super-elitres globais e organizações secretas subsidiadas; inversão  da tragédia grega quanto às finalidades, segundo Aristóteles: doravante não se pretende suscitar nos espectadores o terror e a piedade, mas, o pavor e a impiedade; forma psicologicamente expedita e  juridicamente desembaraçada de condução das massas, bem como de incrementação de certos astronegócios; terapia política de choque de valor variável a) quando praticado contra portugueses ou europeus em geral até 1974, denomina-se, suaviza-se e substitui-se pelo designativo "luta de libertação". b) quando praticado na actualidade por muçulmanos contra outros muçulmanos, drusos,  yazedis ou cristãos avulsos, benigniza-se sob a qualidade de "legítimo processo de democratização em curso". c) excepcionalmente, se praticado pelos mesmos árabes ou qualquer outra etnia de conveniência sobre americanos, jornalistas avulsos (se televisionados) ou, no pior ou mais extremo dos casos, israelitas (abertos, cobertos ou discretos), maligniza-se desmesuradamente a "1.forma superlativa de desumanidade. 2. abjecção suprema. 3. motivo de concertado alarido, repúdio e retaliação à escala global.

quinta-feira, janeiro 08, 2015

O Demo-fascismo

«Por outro lado, é necessário evitar que a Revolução fascista ponha tudo em jogo. Temos que conservar alguns pontos firmes, sólidos, a fim de não dar ao povo a impressão de que tudo é abalado, que tudo deve recomeçar; porque então à onda de entusiasmo do primeiro momento poderia suceder a onda de pânico do segundo e talvez ondas sucessivas capazes de subverter a primeira. Assim, as coisas ficam claras: - trata-se de demolir toda a estrutura social-democrática!
Teremos um estado que faça este simples raciocínio: "O Estado não representa um partido, representa a colectividade nacional, abrange tudo, supera tudo, protege tudo e procederá contra todo aquele que atentar contra a sua soberania imprescritível".
(...)
Toda a armadura do Estado desaba como um cenário gasto de opereta, quando não existe a consciência íntima dum dever ou duma missão a cumprir. Esta a razão porque queremos despojar o Estado de todos os seus atributos económicos. [Basta de Estado ferroviário, de Estado telégrafo-postal, de estado segurador! estamos fartos dum Estado que, exercendo as suas funções à custa das despesas de todos os contribuintes italianos, agrava assim o esgotamento das exaustas finanças do Estado! ficar-lhe-á a polícia, que protege os homens bons dos atentados, dos ladrões e dos delinquentes; ficar-lhe-á a educação das novas gerações; ficar-lhe-á o exército, que há-de garantir a inviabilidade da Pátria, e, finalmente, a política externa.»
            - Benito Mussolini

Aí tendes, ó almas cândidas: fascismo à séria, pela voz do seu principal protagonista. Agora, se não for pedir muito, convido-vos ao seguinte exerciciozinho: Substituam apenas três palavrinhas no texto acima - "fascista", "nacional" e "pátria"; respectivamente por "democrática", "global" e "Mercado". E verifiquem se o texto continua a fazer algum sentido. E, melhor ainda, se retrata alguma região ou patologia actuais do vosso esplêndido planeta.


PS - Qualquer semelhança  com o ogrezinho à solta, fruto da herpetogamia entre a pulhítica neo-conas e a economínia neo-liberal não é pura coincidência. 

Hirondelles à Paris



Calma, um massacrezinho não faz a Primavera. Ainda agora, no auto-rádio, ouvi um porta-voz da polícia francesa a garantir que os meliantes já estavam há muito catalogados e que as autoridades, com todos os seus múltiplos e sofisticados meios, andavam atentas. Felizmente! Imaginem o que teria sido se não andassem... Provavelmente uma chacina do Parlamento,  o despovoamento abrupto da torre Eiffel (eiffel tower, para os liberais), ou os Champs-Elisées a eito, que sei eu. Sei é que se me tocam no Moulin-Rouge, nas Folies-Bergere ou, vá lá, no Louvre, pego em armas. E olhem que tenho treino feroz. Eu, e  o Ildefonso Caguinchas - que, em princípio, desde que se estenda o chapéu protector ao Bois-de-Boulogne, à Rua de Saint-Denis e a mais não sei quantos trottoirs que ele para lá monitoriza, também se alista. Para já, estamos de prevenção.

Em todo o caso, falar-se em terrorismo, parece-me um claro exagero, um tremendo delírio,  mais típicos da hipocrisia e do ciber-histerismo condicionado que estas exibições macabras sempre atiçam do que, propriamente, de qualquer erupção concreta na realidade. Afinal, é mera geopolítica artesanal, pura black-operation de bolso, não franchisada no pior dos casos (ou no melhor, para os menos extravagantes). Fica mal à indústria (do massacre et al) e aos seus apaniguados ou meros totós de boleia desdenharem assim do negócio ambulante. Ainda para mais quando trabalham todos em tandem, numa sórdida joint-desventure, os fundamentalistas islamicos e os fundamentalistas democráticos. Então, pode-se democratizar à bomba e não se pode islamizar a tiro?...

Por falar em Primavera.... Já aterram andorinhas em Paris, mas em Riade nem vê-las. Pelos vistos, a Primavera, quando nasce, não é para todos. E é pena.


terça-feira, janeiro 06, 2015

Introdução à Misosofia. I. A Coisa-Homem

O Homem é escravo em múltiplas dimensões e de múltiplas maneiras; e senhor apenas numa só. Serve ao estômago, serve ao sexo, serve à embalagem de tudo isto e serve, quotidiana e fatalmente, de porteiro na discoteca das sensações ou de guarda-nocturno no beco dos instintos, ali prós lados das escadinhas da vontade, onde moram, entre outros, o Aleive, a Gana e o Capricho; é, na medida em que se consiga elevar acima destas servidões, senhor do seu pensamento. 
O dinheiro não tem nem reconhece senhores: apenas servos, escravos e vítimas.
Duas ilacções logo à partida: a liberdade não pertence à dimensão material do Homem, nem se compra a peso de ouro. Quem pensa que pode adquirir a liberdade por via da finança, não pensa e apenas adquire uma servidão ainda mais profunda, impiedosa e atroz. Não se é mais livre porque se é mais rico; nem se é mais escravo porque se é mais pobre. Quando muito é-se, respectivamente, mais servo ou mais vítima.  Do pseudo-pastor neste curral da Necessidade. E o aplicável a pessoas é naturalmente extensível a sociedades e países.
A liberdade também não é objecto do pensamento: é condição para a existência do mesmo. O homem pensa na medida em que se liberta. O pensamento é a liberdade ou, de todo, não é. Fica algures entre o Nada, o Absurdo e a Sumptuosa Ninharia.

Há um valor vulgar e utilitário nas palavras, mas há também uma substância nobre. Dizer o para o que uma coisa serve é  distinto do  dizer o que uma coisa é. Uma distinção do tamanho duma imensidade. Porém, no nosso tempo, o valor utilitário das coisas não apenas eclipsa a substância das coisas: substitui-a. Usurpa-a. Ora, se as coisas se atrofiam e nanificam numa mera servidão, reduzidas e miniaturizadas a meros utensílios, e entre elas a coisa-homem, então o reflectir, calcular ou elaborar sobre isso não é exactamente da ordem do pensamento, nem, intrinsecamente, da liberdade.Rumina-se bastante, mas pensa-se nada. Vai-se reboque de fezes, fezinhas e fezadas, gasta-se a vida numa odisseia de bosta mais ou menos fertilizante. Não creio sinceramente que buliçosas conferências em torno da rentabilidade, competitividade, teor de gás ou sangue do estrume duma civilização constituam qualquer forma genuína de debate ou nobre demanda. Compensa-se com alarido a ausência de horizonte. A Caverna, pois é, descambou em Curral, portas meias com o açougue. Mas cada tempo tem a Alegoria que merece.

terça-feira, dezembro 30, 2014

Spes ultima dea




Antes que me esqueça... Um Bom Ano Novo a todos!...

segunda-feira, dezembro 29, 2014

O Mercado a disfuncionar

Prestem atenção a uma coisa chamada "derivatives market". Donde destila uma outra chamada "derivatives debt". Parece que não é coisa pequena. Mesmo nada. E atesta dois fenómenos curiosos: 1. Que a economia de casino continua em força (os famigerados CDS, por exemplo, são infestantes na Europa); 2. Que, em boa verdade, ninguém confia no "funcionamento puro e inefável do mercado" a não ser os toinos da paróquia e outros pacóvios neo-deslumbradinhos - e tanto assim é que o "funcionamento do mercado" consiste precisamente, e em larga medida, num acautelar contra o seu "funcionamento puro", ou num especular com certas irregularidades artificialmente induzidas nesse mesmo "funcionamento". Em bom rigor, a disfunção e a rotura  é que dão dinheiro.
Mas vamos ao que interessa...Efeitos disto a curto/médio prazo: aposto noutra crise financeira/económica. Só que agora pior. Eventualmente com socorrismos bélicos à mistura. O que é que eu percebo de economia? Tanto quanto os economistas: nada. A minha vantagem é da ordem da pura sorte ao jogo: até hoje não falhei nenhuma. Isso e a não completa analfabetice perante certos sinais. Se falhar esta, serei o primeiro a congratular-me. E aceito que me felicitem efusivamente. Acreditem que sou o mais infeliz e contrafeito dos espectadores de catástrofes.

domingo, dezembro 28, 2014

Absurdotomia dum hipopote

"Objecção contra a ciência: este mundo não merece ser conhecido."
                                                                                           E.M.Cioran



Um tipo vai ali passar o Natal e quando regressa descobre que o taxaram de protozoário, zero invejoso e, pasme-se, "pintelho anónimo"... Todo este vitupério hirsuto, ao que parece, em defesa de Carlos Abreu Amorim e da "classe política em geral".
Bem, tomo o "protozoário" por verborreia snob de um oxiúro. É sabido que as lombrigas, do alto ambulatório dos seus aquários ilustres, gostam sobremaneira de diminuir, menoscabando, os humildes peões. Não é para ser levado a sério. Mera basófia de verme motorizado, enfim.
Idêntica condição poderemos atribuir ao "Pintelho anónimo" (o helminto queria muito provavelmente dizer pentelho, capilaridade púbica). Porque, em bom rigor, o anonimato é inerência do pentelho. Ninguém, em seu perfeito juízo, consegue numerar os seus cabelos íntimos, quanto mais baptizá-los. Dispensava-se, pois, a redundância. Mas como estamos perante um parasita particularmente afectado. não é descabido presumir que arraste a sua pedantícia farfante ao ponto de distinguir o simples pentelho do "pentelho de tal". Para quem tem como horizonte máximo o orifício anal do hospedeiro...
Agora, senhores, "zero invejoso" é que me intriga e aturde. Ainda mais quando se trata, segundo a acusação, duma nulidade invejosa que, alucinadamente, inveja aquilo que despreza.  Caramba, ou bem que inveja, ou bem que despreza, não será? Mesmo a raposa perante as uvas distantes, não inveja: cobiça; e não despreza, desdenha. Ora, vai um abismo de distância entre um dragão e uma raposa. Tanto quanto ser a mais rotineira das realidades invejar-se aquilo que se ambiciona, não aquilo que se despreza. Despreza-se, neste país e neste mundo, a pobreza, a antiguidade, a honestidade, a coerência, a lealdade, a ingenuidade, a fraternidade, a verdade e a justiça mais que tudo; ora, não consta que alguém as inveje.
Claro que o helminto, no seu desfile jactante, cavila que lhe invejamos o pedestal, que lhe cobiçamos a atmosfera, que, enfim, conspiramos na sombra para lhe usurpar a gulodice. Mas, pronto, isso são as angústias naturais do parasita.
Todavia, ainda assim, admitamos, ab absurdo, que nos assolava a tal invejosice tão ao gosto do argumentário pimba. E ponhamos de parte a "classe política em geral", que é termo algo nebuloso e abstracto; atenhamo-nos concretamente ao hipopótamo em questão, digo questinha. "Zero invejoso", porém, é demasiado genérico, quiçá metafísico; convém especificar. Inveja de quê?  
Eu proprio fui assertivo e específico quando circunscrevi  a figura no grau de toucinho. Se ainda fosse liberal, estaria naturalmente bacon, mas como deixara de o ser, impunha-se destituí-lo de todo e qualquer anglicismo. O que fiz com alguma caridade, dada a quadra. Banha ruidosa,  embora mais realista, teria sido bem pior; e catalogá-lo na ordem dos presuntos ou fiambres indiciaria, claramente, um mero exercício de wishfull thinking. Pelo que ficou toucinho. Voador, bem entendido. E ficou muito bem, ninguém duvide. 
Por conseguinte, se eu desprezo este paquiderme palramentício porque - segundo a hipótese absurda do mesmo, ou dalgum colega, familiar ou adepto - o invejo, elucidem-me, se faz favor: Que qualidades invejáveis o habitam? Invejo-lhe,  exacta e concretamente, o quê? O físico atlético? A fotogenia? A estatura moral? A coerência inoxidável? A cultura vastíssima? A tolerância almocrévica? A inteligência aparatosa? A tribunícia parlapatita? O apetite voraz? O poder a reboque? A irresistibilidade junto do belo sexo? A coluna no Correio da Manhã? O trampolim no Blasfémias? A  manjedoura do erário? A alcatra na bancada? O hipismo eleitoral? O charme boçal? Em suma, o quê?!
Pois, já agora convém que eu saiba, já que não sei mais nada,  porque raio ou carga de água um tal aglomerado de parvoíce enxertado num tão rotundo cepo de corticite imarcescível, não sendo digno de mais nada, é apenas digno de inveja. Curioso, no mínimo, não?!...

terça-feira, dezembro 23, 2014

Impressões de Natal

Coragem para a vida e destemor perante a morte - parece-me uma síntese possível dos ensinamentos de Jesus. Não é fácil. Nem tinha piada nenhuma se fosse. Afinal, a selecção espiritual, ao contrário da selecção natural, não é para  todos... Quer dizer, Deus, ao contrário dos evolucionistas, consegue distinguir os homens dos macacos, dos micróbios e das ratazanas. Em resumo, a selecção espiritual é só para as pessoas. É claro que estas, depois, são de uma enorme diversidade. Aristóteles, na sua ética realista e extremamente perspicaz, divide a humanidade em três classes essenciais: aqueles que encontram a felicidade na satisfação dos prazeres venais; aqueles que a encontram na satisfação dos desejos políticos; e aqueles que a buscam na sabedoria. Naturalmente, neste mundo, os últimos são - e sempre foram - os menos numerosos e os mais insatisfeitos de todos. Mas, genuína e paradoxalmente, também os mais felizes.

Há, assim, muito naturalmente, quem se contente na emulação com coisas inferiores, de modo a sobressair mais facilmente; e há quem,  muito espiritualmente, não encontre sentido senão na emulação com entes superiores, de modo a procurar melhorar-se e refinar-se. É um caminho árduo e muitas vezes penoso, o segundo. Mas tem uma superlativa vantagem: não conduz à mediocridade, como o primeiro.

Entretanto, ao reparar, algo perplexo, no sermão do Papa Francisco aos cardeais romanos, não pude refrear o seguinte comentário íntimo: "Aqui está algém que, claramente, não tem medo da morte!"



Feliz Natal!

segunda-feira, dezembro 22, 2014

Estar ou não estar, eis a questinha

Desconhecia que o Carlos Abreu Amorim era liberal. Aliás, tenho a certeza: fosse o que quer que fosse é que ele não era. Em bom rigor, o verbo ser e ele não se conjugam, são mesmo incompatíveis. O seu verbo exclusivo e obsessivo, como o de tanta fulanagem que por aí chafurda, é o "estar". Ele nunca foi: estava. Estava liberal; agora está qualquer outra coisa qualquer - mais conveniente, lubrificante e trampolineira, por certo. Um dia destes está ministro. O Camilo e o Eça têm descrições eloquentes deste tipo de fauna palramentar. Videirinhos balofos e gelatinosos, vivissecavam eles. Toucinhos em ascensão, digo eu.

domingo, dezembro 21, 2014

Mistérios da República

Duas ou três palavrinhas sobre o ex-ministro da nacinha. Em seu devido tempo, quando o figurão se encontrava no auge do  poder, zurzi-o aqui sem contemplações.  Não pelos sucessivos fait-divers que lhe foram catabichando, mas pela qualidade patente da sua acção (des)governativa. Estou-me perfeitamente nas tintas para as habilitações académicas do sujeito, bem como para os primores estéticos dos ex-projectos do engenheiro. Podia até ter sido uma desgraça em ambos, desde que, na qualidade de governante, fizesse alguma coisa de jeito pelo país. Não fez. Foi uma nulidade  quase completa,  uma calamidade em andamento, com a agravante de não ter acautelado o óbvio mais que ululante: a bancarrota. Bem pelo contrário, sprintou para ela com a fogozidade tresloucada dos Titanics. Ele e todo um país descerebrado que via na vaselina do crédito uma espécie de retroprotector solar infantil. Ainda por cima, os mesmos que logo adiante, com geminada toinice empedernida, fantasiariam a troika com ou ouropéis angélidos dum comité de benfeitores e curandeiros ao domicílio. Tem sido o que se vê.
Mas agora encarceraram a criatura. Por corrupção, branqueamento de capitais e fraude fiscal, dizem. Como? Assombro-me eu. Podia repetir? Corrup-quê?! Ção?! Entre nós? Ora, isso não existe. Ou se existe não é crime: ninguém vai preso por isso. Pelo contrário, ganha asas, velas, vai de vento em popa... Até aos mais altos cargos da nacinha. Na política, mas também na finança, na magistratura, na comunicação social e até, com não menor vigor, nas artes. "Corrompem-me, logo existo", chega a ser lema nacinhal. Adubo das elites, pois... Corrupção, entre nós, é só um plebeísmo para "importância". Há os que têm importância e os que têm inveja; o restante não existe. Eu próprio, descobri ao longo desta vida, não existo. Não conto. Eu e gente como eu. Que não se deixa corromper ou que nada possui que o justifique.
Por conseguinte, eu que julgava piamente que o pinócrates não continha quaisquer virtudes, agora fiquei na dúvida. Prenderam-no. Certamente não foi por corrupção ou branqueamento. Afinal, estamos numa república com um Cavaco a presidente, um Passos Coelho a Pimeiro-coiso e um Paulo Portas a vice-coiso. Vegetamos num lugarejo em que o Correio da Manhã vence tiragens e a TVI bate recordes de audiência. Padecemos a extorsão instalada duma Nova-Pide económica mascarada de Autoridade Tributária e ISS. Mais que mergulhado na estupefacção, dou comigo perplexo, intrigado, confundido, às aranhas... tentando espiolhar, afinal, que virtude insuspeita e misteriosa habita o arrecadado engenheiro e comentador aos domingos. Alguma há-de ter, não, para padecer um tão evidente pelourinho.

sábado, dezembro 20, 2014

Para que fique bem claro

Há pouco tempo, a seita que nos desgoverna acusava o PS de estar a resgatar Sócrates. Convenhamos, na sua qualidade estanhada de associação de malfeitores, o PS não dispunha, nem de perto nem de longe, dessa miraculosa capacidade. Podia tentar as piruetas e funambulices que bem entendesse, os pensos e cataplasmas que mais lhe aprouvesse, que jamais, em tempo algum, alcançaria tão descomunal prodígio. E, não obstante, eis que Sócrates resplandecia, mais que resgatado,  redimido, indultado, repimpão! Por que artes e magias, senhores? Ora, por obra e graça daqueles que, pelos vistos, possuíam a peçonhenta receita para tão quimérica alquimia... Exactamente, os mesmos que acusavam o PS de tentativa: Passos Coelho e respectiva pandilha. Para que precisava o PS de tentar algo já tão profusamente realizado? 
Na verdade, o actual desgoverno não apenas resgata Sócrates com todas as suas forças: resgata Miguel de Vasconcelos, Cristóvão de Moura, o Conde Andeiro, o labrego que traiu Viriato e toda a resma de traidores, vendidos, aleivosos, cobardes e renegados que, séculos a fora, conspurcaram e aviltaram esta infeliz nação.
Resgata ainda, com  destreza não menos inaudita, os comunistas,  bloquistas e demais verduras palrantes... Todos eles, doravante, e por contraste, enfileiram no rol das forças patrióticas, moderadas e alcandoram-se até, pasme-se,  com inusitada regularidade, a promontórios de prudência, probidade e sensatez. A sério, os tipos da Primeira República eram gigantes benfazejos ao pé destes escroques completamente destituidos de ponta de vértebra ou pinga de sangue quente. E tudo isto calafetado duma olímpica burrice, duma alarve incompetência e duma tonitruante desfaçatez.
Esta gentalha, em bom rigor, conseguiu mesmo o inconcebível: estar para lá da possibilidade do insulto. Tudo o que disséssemos ficaria àquem da realidade; soaria a suavização e encómio. Por isso não insisto no baldado esforço.
Desenganem-se apenas aqueles que presumam nesta praga o mal absoluto. Essa pureza do mal não está ao alcance da humana condição. Até porque se lhes vislumbra, nestes magarefes, pelo menos, uma virtude: ao contrário dos antecessores, depois deles já não é possível advir um pior.

sexta-feira, dezembro 19, 2014

Tanatoscopia

Temos muito que conversar... Deste neo-cartesianismo à portuguesa, onde a Dúvida Metódica deu lugar à Dívida metódica; deste neo-feudalismo europeu, onde o servos da gleba revivem nos servos da Dívida; deste neo-totalitarismo global onde a homogeneização mercantil, a chicote da finança, depois das fronteiras, se prepara para digerir, à ignóbil maneira da aranha-lobo, o que resta da diversidade dos povos, das culturas e da independência dos estados. É, temos muito que conversar, que reflectir, que meditar. Infelizmente, já não se trata mais de análises ou contra-análises, de exames ou contra-exames, mas, simplesmente, de uma autópsia. De um  mero exercício de tanatoscopia, se assim se pode dizer.

quinta-feira, dezembro 18, 2014

Rói-te, ó Fénix! Rói-te toda!...

Se a Fénix renasce, em que é que um dragão é menos que uma fénix, fónix?!! Ãh, não me dizem?...

Sem mais preâmbulos nem destilações:
Declaro encerrado o justo período de silêncio,  e proclamo, solenemente, a reabertura das hostilidades. Acabei agora mesmo de desenterrar o machado de guerra e estou a poli-lo e afiá-lo com todos os requintes. 
Além do mais, como dizia o Fred, não é em redor dos fazedores de grandes barulhos que gira o mundo - é em redor dos engendradores dos grandes silêncios. Por isso mesmo, fiz um enorme e profundo silêncio para ver o mundo todo a girar e robolar à minha volta. Acreditem - pasmem até, se quiserem : não vi grande merda. Bem pelo contrário, como dizia eu: isto não evolui nem progride, deteriora-se.
O Caguinchas manda cumprimentos. Não pode estar presente porque anda a fugir ao Fisco. Alguém foi delatar junto deste que o Ildefonso lhe andava a montar a esposa...à borla..



sexta-feira, dezembro 12, 2014

Agora é a sério.




Em 18 de Dezembro de 2003 iniciava-se o Dragoscópio. Em 18 de Dezembro de 2014 reiniciar-se-á. Que Deus nos ajude!...

terça-feira, dezembro 18, 2012

0




                                 

1...


(Som de fundo:
"À Nossa Senhora das Mordomias")




Leitores, compatriotas, amigos,
minhas senhoras e meus senhores
Excelências,

eu tinha preparado um brilhante e solene discurso. Tinha mesmo. Uma pungente e impressionante mensagem de despedida. Coisa descoroçoante, acreditem, de fazer chorar as pedras... Sabeis que não minto; que, quando quero, embora raramente, sou capaz de cintilâncias e granifulgências arrebatadoras. Pois é verdade que tinha. Só que o meu sócio, confrade e imediato Ildefonso Caguinchas, mais que as palavras, tirou-me as imagens da boca. Vendo a minha querida Svetlana assim exposta, fiquei também eu núcego de metáforas e hipérboles, sinestesias e onomatopeias, anacolutos e anáforas. Que vos hei-de eu dizer numa hora destas?... Olhem, vou ali comprar fósforos!...





2...

Diz-me o tirano: "Acabou, Caguinchas! Vai lá e despede-te das pessoas."
 Portanto, cá estou. Não sou muito de discursos. E como uma imagem, dizem, vale mais que mil palavras, deixo-vos uma imagem que vale mais que um milhão... E que, não é preciso acrescentar, simboliza tudo o que eu penso do universo, da vida, da humanidade e do tempo efémero que aqui passamos...









PS: Sim, porque tudo bem espremido, filosofias, literaturas, economias, políticas (excepto certas religiões mais dadas à monotonia), tudo se resume a uma frase: "Mim Tarzan, tu Jane!..."

Ó Leonilde is Love! Ó Leonilde is Love!...


(E agora roam-se de inveja, ó seus piças moles!!...)

segunda-feira, dezembro 17, 2012

3...

Havia que escolher um postal que sintetisasse a generalidade do que aqui ficou escrito e que servisse também de mnemónica para o futuro...

Nada comos os provérbios do povo a que pertenço, só que devidamente adaptados à realidade moderna e, consequentemente, despidos de todo o eufemismo e suavização tradicionais. Nem todos nascemos brandos aqui nesta Brandoa...



Provérbios impopulares do Dragão

· Nem tudo o que lês é ouro
· Tristezas não apagam dívidas
· Vêem-se caras, não se vêem cotações
· Devagar se vê ao longe
· O silêncio é de outro
· A cavalo doido não se molha o dente
· Não guardes para amanhã o que podes foder hoje
· Os umbigos são para as ocasiões
· Em tempo de guerra não se limpam Karmas
· Cada maluco com a sua maria
· Cão que ladra não fode
· Contra flatos não há argumentos
· Da discussão nasce a cruz
· De boas invenções está o Inferno cheio
· De noite todos os patos são parvos
· Mudam-se os tempos, mudam-se as vaidades
· Não deites foguetes com fé na testa
· No papar é que está o ganho
· No melhor plano cai a nódoa
· O hálito não faz o monge
· O que não mata, engoda
· O Saber não ocupa lagar
· O futuro morreu de velho
· Olhos que não vêem, coração que não mente
· Cabrão fora, dia santo na gaja
· Quem fala, contende
· Quem morre por gosto, não descansa
· Quem espeta sempre alcança
· Quem mais jura, mais monta
· Quem te evita, teu amigo era
· Quem tem cu, tem mundo
· Um mal nunca tem dó
· A união faz a forca
· Ardor com ardor se apaga
· As aparências elegem
- Diz-me em quem mandas, dir-te-ei quanto é
-  A ração tem sempre cliente

domingo, dezembro 16, 2012

4...



«O Homem é humano quase tanto como voa a galinha. Quando apanha uma traulitada, quando um carro a obriga a bailar, lá vai ela pelos ares até ao telhado, mas logo de seguida aterra no lodo e desata a debicar na bosta. É a natureza, a ambição dela. Entre nós, na sociedade, dá-se exactamente o mesmo. Deixa-se de ser tratante sob a acção de uma catástrofe. Quando tudo torna ao normal, a natureza retorna logo ao que era. Por isso mesmo é que, de uma Revolução, só vinte anos depois se pode ajuizar.
"Eu sou! tu és! nós somos rapaces, pérfidos, sacanas!" Jamais se dirão coisas destas! jamais! Jamais! verdadeira revolução porém seria a das Confissões, a grande purificação!»

-Céline, "Mea culpa"

Peguem em qualquer postal que eu aqui tenha escrito em 2005 ou 2007 ou 2010 sobre os (des)governos da época. Ajusta-se que nem uma luva ao desgoverno de hoje. A mesma coisa sobre americanos, europeus, árabes (de burka ou de penca),  esquimós, marcianos, aliões constipados, etc, etc. Às tantas, um tipo dá consigo a sentir-se papagaio de si próprio. A patinhar ab aeterno em bosta. Ou a debicar militantemente nela, como a galinha do Céline. E o pior é que como em tudo, o eco fica sempre àquem do original. A repetição perde sempre o brilho, o lustro da descoberta. De facto, neste mundo doravante entregue aos vermes e aos parasitas, as coisas não evoluem: deterioram-se. O único sentido de mudança que experimentam é a alteração física - essa qualidade de movimento estático definido por Aristóteles como geração/corrupção. Eventualmente, os países, os povos, as civilizações são como as pessoas. Nascem, crescem e morrem. No fim da geração (e das gerações ínclitas) aguarda fatalmente a corrupção (e as corrupções sórdidas). Senil, amnésico, hipocondríaco, flatulento, velhaco, cobarde, podre do corpo e abandonado pelo espírito, Portugal está a morrer. Não é matéria para galhofa, chalaça, nem  riso. Aos desfiles fúnebres assiste-se em silêncio. Um Dragão não é uma hiena.