quinta-feira, novembro 08, 2012

Tratado do Nada




Em Junho de 2011, era inaugurado em Portugal o Observatório da Corrupção.
Ora, sendo certo, sabido e certificado que há tanta corrupção em Portugal como poços de petróleo, minas de diamantes e manadas de mamutes, que raio se propõem eles observar - o nada?
De resto, os nossos preclaros deputados, com toda aquela acutilância moral que os caracteriza, esgalga e derreia , já haviam constatado e patenteado o mais que óbvio e evidente aos olhos do mundo inteiro e arredores: sendo o país, por beneplácito divino, imune à corrupção, impermeável ao suborno e absolutamente inexpugnável ao ilícito patrimonial, dispensa toda e qualquer legislação contra o enriquecimenmto ilícito. Entre nós, por isso mesmo, não só  todo o tipo de enriquecimento é lícito (já que, como o Serafuim Calvino revelou, toda a riqueza é justa, pulcra e aspergida lá dos éteres por Deus Nosso Senhor em Cupido), como também, e sobretudo,  essa opção  é-lhe, por natureza e geografia, rigorosamente inacessível. Não havendo ilícito entre nós, qualquer enriquecedor peregrino, mesmo que voluntária (e quiçá suicidariamente) o demandasse, não o encontraria disponível nem acessível em lado nenhum. E tanto assim é que assistimos, nestes últimos anos, a várias ilustrações vivas e gritantes disso mesmo: Dias Loureiro vê-se na contingência de ter que emigrar para Cabo verde. Duarte Lima corre ao Brasil, onde o ílicito é barato e abundante; Pina Moura esfalfa-se entre Cabora bassa e Madrid; Isaltino Morais, e tantos outros, vêem-se obrigado a viajar até à Suiça, sempre que a vertigem lhes ocorre;Paulo Portas, suspeita-se, atravessa Pirinéus e Alpes, duma assentada, até á Alemanha; e José Sócrates, só quando desembarcou em Paris, é que pôde, finalmente,  encontrar coisa que se visse... Está mais que provado que a esterilidade desértica dos nossos solos para o cultivo do ilícito, tanto quanto da corrupção, mai-lo respectivo suborno simbiótico, força os nossos produtores de riqueza mais expeditos (ou meramente excêntricos) à emigração agenciante, primeiro enquanto pesquisadores, depois enquanto nidificadores (o ilícito, de todo, não consegue sobreviver entre nós; nem em estufas, nem em incubadoras artificiais; pelo que a sua criação, procriação e desenvolvimento, requer sempre cuidados específicos e ambiente propício).
Concomitantemente, dada a ausência mais completa de ilícito entre nós, tanto quanto o enriqueccimento, também o empobrecimento ilícito se torna impossível. Da mesma forma que vale tudo para alguém enriquecer, vale também praticamente tudo para empobrecer, de preferência os outros ( primeiro na figura e orçamento do estado, mas depois, esgotado este, nas pessoas particulares e avulsas que estiverem mais à mão). E a relação é de tal modo íntima entre estas modalidades, que está comprovado que quanto mais alguém enriquece nestas peculiares condições, tanto mais empobrece em seu redor.
Por outro lado, convém recordar que não apenas a corrupção inexiste adentro das fronteiras portuguesas: também a pedofilia, excepto naturalmente entre o clero clatólico, mas isso pela razão singular desses elementos serem funcionários dum estado estrangeiro, que é, como devem saber, o Vaticano. A prova mais acabada de que o processo casa Pia não passou duma mistificação anti-democrática, anti-republicana e, sobretudo, anti-maçónica (da imprensa reaccionária monárquica, quem mais...) foi a descrição dum dos antros de prevaricação como situado em Elvas. Ora, toda a gente sabe que, a ser verdade o ignóbil ilícito, ele teria que localizar-se necessariamente do outro lado da fronteira, em Badajoz - isto, no mínimo (e com algumas reservas, pois, dada a proximidade da nossa fronteira e a influência obsidiante do nosso saudável clima, a inibição ao ilícito seria até considerável).
E quem diz a pedofilia, diz a própria mentira. Então para esta, a incapacidade aguda da generalidade da população, mas sobretudo dos jornalistas, dignitários, pantacandidatos (ou seja, candidatos a tudo e mais alguma coisa), vedetas do jet-frete e homens de letras, além de lendária, chega a ser embaraçosa. Completamente inaptos para a efabulação, a ficção e o enredo, limitam-se à enunciação enfadonha de tratados de lógica, auto-vivissecações, análises da urina, registos de propriedade e atas de confessionário (coroladas, nos piores casos, com reportagens ao ralenti das últimas férias no cu de judas -literalmente).
Quase a acabar, umas  palavrinhas sobre a traição e a prostituição. Aquela, como é bem sabido, foi definhando, paulatinamente, desde a última defenestração pública de relevo, e encontra-se praticamente extinta na nossa pátria.  Mesmo para trair a mulher, os portugueses têm que recorrer ao crédito-viagem e percorrer longas distâncias, até ao Brasil, Caraíbas e Seichelles, arrostando, quantas vezes, maremotos, furacões e caterings low-cost). Já a prostituição, essa, benignizou-se completamente - debalde procurar uma prostituta, em dias de hoje, nas ruas ou em casas da especialidade. Agora são, para todos os efeitos,  "trabalhadoras do sexo".  Não tardam sindicalizadas. Fora as  que trabalham no Parlamento, claro está - essas são empresárias da vida fácil.
Voltemos então ao Observatório da Corrupção... Vai observar, portanto, o Nada. Só não é hercúlea, a tarefa, porque em boa verdade é heideggeriana. Na senda do último grande filósofo ocidental, e da sua "Introdução à Metafísica", Portugal avança e acrescenta: porquê observarmos a corrupção e não apenas o Nada? Ora, não dispondo de corrupção, eis que nos debruçamos, perscrucientes, sobre o Nada- o nada, nicles, népia, coisa nenhuma!
A juntar a uma chusma de observatórios que observam tudo e mais alguma coisa, mas, em bom rigor, não observam nada, eis finalmente um observatório que observa tudo aquilo que os outros não alcançam. O Nada, repito.
O leitor mais céptico e amovediço interrogará: merece o balúrdio que se gasta nela, uma espreitação tão peregrina e inefável? Respopndo: senhores, a metafísica não tem preço. E o Nada, uma vez bem esquadrinhado e patenteado ainda gera um fonte de receitas descomunal ao país, providencial sortilégio nesta hora de tão grande necessidade. Basta lembrar-se que metade do "espírito" dos computadores (a net inteira de lés a lés) é nada - zero. Sem o Nada  (na pessoa do seu número 0), que relembro, só chegou à Europa no século XII ou XIII (confiram no google ou na wikicoisa), por intermédio dos árabes, jamais teria havido capitalismo e, consequentemente, salvação da humanidade. Ainda hoje, grande parte dos recursos financeiros mundiais são extraídos do Nada. Aliás, não há nada mais transaccionado nos dias de hoje que o Nada. Tanto que o Nada alastra por todo lado: das instituições bancárias às próprias almas. Os maiores crânios da humanidade actual estão cheios de Nada (e de si, por arrasto). Até já existe um Prémio Nobel para o Nada, carinhosamente eufemizado sob o epíteto de "Paz". Há tanta paz no mundo como corrupção em Portugal. Mas como a ileteracia mundial não compreenderia "um Prémio Nobel do Nada", eles tiveram que improvisar com a "Paz". O mesmo se passa entre nós: ninguém aceitaria um Observatório do Nada; daí eles têm que colorir com "Corrupção".O qual, em todo o caso, é pago com dinheiros essencialmente comunitários. O que quer dizer que não nos sai do bolso do orçamento. Bem, na verdade, até sai -  esguicha naquele item onde consta o pagamento dos 3.000 milhões de juros do resgate, à onzeneirice europeia. Ao fim e ao cabo, eles têm que se fazer pagar.... A troco de - pois é, pois é - Nada.

quarta-feira, novembro 07, 2012

Alguém



Confiar, mesmo, só em Deus. No Estado de Direito, no Estado Social, na Democracia Virtuosa, desculpem lá, não apenas não confio, como não acredito. Mas tal qual não admito que me imponham mistelas e dietas, também não faço questão de impor nada aos outros. Se todas essas balelas vos seduzem e encantam, força!
Não me venham é depois com ciganices lacrimijantes do estilo "Ai que nos violam a Constituição!", "ai que a Constituição nos bloqueia!", "ai que nos estão a ir ao Estado Social", "Ai que o estado social nos vai ao bolso!", "ai que que nos prostituem o Estado de Direito!", ou "Ai que o Estado de Direito não está a render o que devia!", "ai que nos congelam a democracia", "Ai que a democracia está sem fundos, nem fundilhos!", etc, etc.
Parecem posições opostas, antagónicas, mas são a mesmíssima posição. É a mesmíssima gente. Quem conseguir distinguir a merda do cagalhão, faça favor, tenha a bondade. Junte-se ao Luís de Matos, e também ao Júlio, e montem um espectáculo de ilusionismo para bonapartes na reforma. 
Dito isto, julgo que estarei plenamente creditado (ou seja, devidamente encartado na mais olímpica das imparcialidades) para explanar o que se segue.
A principal razão para a minha descrença nos Estados (de Direito e Social), tanto quanto na Democracia (paralamentar ou para-rir-e-chorar), é a realidade da sua exstência entre nós (lá fora, no presente e no passado, também abundam maus exemplos, mas com esses posso eu bem). E essa realidade manifesta a mais desoladora e repugnante perversão dos mesmos. Quer dizer, aqueles que diariamente passam e repassam atestados da mais inoxidável das virtudes a essa sagrada tríade, outra coisa não fazem, refazem e trifazem na prática senão pervertê-la, prostituí-la e enxertá-la de vícios, taras e quimeras canibais. Temos assim, graças em grande parte, aos seus putativos paladinos (na verdade, seus proxenetas) um Estado de Direito, um Estado Social e uma Democracia  completamente pervertidos. Em teoria, seraim semi-angélicos; na prática, estão completamente decaídos e adulterados.
Entretanto, a crise actual de rendimentos levou a seita proxeneta a um cisma aparatoso. Uns continuam a jurar pela virgindade da querida, apesar dos claros sinais de falência senil e dotes atractivos em vias de extinção; outros, adeptos duma gestão mais desembaraçada, conclamam ao abandono rápido do destroço improdutivo e à engenhosa imposição armada dum esquema urgente de entre-sodomia geral da clientlela. Entre-sodomia geral até à morte, bem entendido; que é como a coisa será mais rentável. Isto, numa primeira fase; porque, numa segunda, ainda mais audaz e racional, a exploração prolongar-se-á mesmo para lá dela, através da reciclagem necrófila dos cadáveres. Acrescido de que a conta no banco, além de moeda ou valores, poderá ser também em órgãos. A conta dos proxenetas, claro está.
Ora, a sensatez poderá estar banida, desterrada e até queimada em efígie. Mas continua viva, embora em parte incerta. E, em sonhos, até por força da necessidade, começa a aparecer, com certa frequência, a alguns cidadãos deste país. Um dia destes, ainda algum, daqueles que se fazem ouvir, se lembra de dizer: "Bem, não é possível termos um Estado angélico, nem uma democracia celestial, portanto é estúpido desejá-lo (e ainda mais, proclamá-lo); Mas também não queremos um estado e uma democracia completamente pervertidos, seja porque nos sodomiza arbitrariamente, seja porque nos obriga a sodomizar-nos uns aos outros. A questão não é a falsa questão. E a questão é que o nosso problema não são as funções do Estado: são as disfunções do Estado. O problema é que o dinheiro que chegaria perfeitamente para as funções do Estado, foi desviado e  malbaratado com uma miríade de disfunções do estado, que outra servidão não teve, nem tem, que a sustentação arrogante e opípara duma multidão de disfuncionários do estado. O problema não é o actual governo, ou o governo anterior: o problema é a sucessão de desgovernos, que o actual apenas protagoniza e acentua. O problema é que não houve eleições: houve golpadas legitimadas através dum esquema manhoso nas urnas. A democracia serviu do cobertura a uma cleptocracia legalizada na forma dum aristocracia invertida e burocrática. O povo nada de útil ou concreto decidiu: intoxicou-se. Fumou latrocínio atrás de latrocínio; tripou com  miragens, de panaceias, créditos e migalhas; e acordou um belo dia como qualquer junkie acorda: arruinado, infectado, toxicodependente e sem-abrigo."
Não reivindicamos o paraíso; mas também não queremos nem aceitamos o inferno na terra. Para começar, contentamo-nos com um estado que funcione, uma democracia que tome banho e um país que ande no mundo (que é a rua dos países) de cabeça erguida e não de pata estendida, seja a pedir esmola, seja a pedir colo.
Pois, um dia destes ainda alguém  diz isto. E, mais grave ainda: ainda alguém escuta. Alguém que não apenas o boneco e as paredes.

Se ao menos emigrassem...



O Tomás Filho lá ganhou as eleicinhas no Paraíso Terreal. Era irrelevante quem ganhasse  - a não ser, talvez, para o mafioso de Las Vegas e o amigo Bibi de Israel. E, claro, para toda aquela caterva de expatriados americanos (o Destino também sofre destes desarranjos intestinais) que, repolha, por geração espontânea,  entre nós. Coitados, a Améria não quer saber deles, mas eles adoptaram a América. "Mamã!mamã!", grita, entusiasmado,o verme, dependurado do ânus do pato... ao ver passar diante a imensa e apetitosa  vaca. 
Contorcem-se nos mais esponjosos ruídos, como quem rasteja no esterco em migração esforçada para a folha  dalgum legume fácil ou hortaliça desprevenida.




segunda-feira, novembro 05, 2012

A Possessão dos Aflitos



Começo por uma ilustração introdutória.
Na Câmara Municipal X existe um fornecedor de serviços Y (empreiteiro, serralheiro, marceneiro, etc) que tem um contrato de exclusividade com o município. Significa que é ele que faz todos os serviços necessários naquela área. Em contrapartida, inflacciona os orçamentos, de modo a incluírem o custo real, mais, pelo menos, comissão para o vereador da área e comissão para o presidente da autarquia. O resultado é que o custo da obra municipal fica, religiosamente, entre trinta e cinquenta por cento mais cara (e estou a ser benévolo). Mais cara a quem? Exacto: ao Orçamento, ao contribuinte, ou aos fundos de coesão (que foram a mais recente versão do "ouro do brasil"). Pois bem, este cenário não é restrito à Câmara X. Pelo contrário é endémico e infestante em toda a rede autárquica, do Minho ao Algarve, do Continente às ilhas. Agora multipliquem isto, no mínimo, por trinta anos. Acrescentem-lhe ministérios, direcções-gerais e máquinas partidárias; seitas de advogados e sociedades secretas mas não muito; empresas públicas e oligopolvos; famílias cristalizadas e enquitadas aos úberes do erário em fogoso e hereditário regime de endogamia; e tereis o princípio do panorama devorista que nos desgoverna há décadas. Estado de Direito, estado social, democracia representativa, liberdade de expressão, não passam de balelas para entreter e aturdir papalvos. Na realidade, não passam de pretextos- para o devorismo instalado. E comilão. Claro, nisto, como em tudo na vida, há os que comem pela medida grande, os que comem pela medida pequena e os que andam lá pelo meio a ver se abocanham naco oportuno.
Entretanto, com  a fatalidade cíclica que já a Bíblia anuncia, chegou a crise. E a receita, nesta emergência, é proverbial: os que comeram antes (no orçamento) pela medida grande comem agora (na austeridade) pela medida pequena; e os que comeram antes pela medida pequena, comem agora pela medida grande. É uma questão de semântica: a diferença entre comer à mesa e comer no pelo.
Porém, tudo isto que acabo de escrever, esqueçam. Sabeis bem que não tem pingo de realidade. Não passa de alucinação minha. Delírio fuirioso. A verdade só recentemente foi descopberta e está, agora, em processo de acelerada revelação pública, a cargo de nuvens de papagaios ev-angélicos, em débito (e a crédito) do espírito santo. Todos aqueles senhores da qualidade dos Dias Loureiros, Sócrates, Pina Mouras, Duartes Limas, enfim, todas essas fortunas efervescentes que borbulharam do dia prá noite, ou melhor, da noite da treva fascista para a manhã radiosa da santa democracia, pois, toda essa gente abnegada sempre laborou com probidade, zelo e desinteresse pelo bem comum, pela saúde do estado, pela glória da nacinha; e são, hoje, apenas vítimas infelizes da ingratidão e, sobretudo, da inveja (meu Deus, a inveja, esse alibi-rápido dos medíocres e microtalentos!) da gandulagens ignaras e parvajolas deste país. Como eu, por exemplo. Pois, estes beneméritos, estes filantropos descomedidos (e toda aquela imensa rede orquestrada do devorismo cristalisado, a que eu, tão ignobil quão injustamente os associei, na presidência), nada delapidaram, perverteram ou sequer arrecadaram. Nada! Nem um tostão! nem um cêntimo! Não foram eles. Sabemo-lo agora, anuncia-nos, em coro celestial, a passarada mensageira : foi a Constituição. Suspeitava-se da bicha, da ténia descomunal que rilhava as entranhas deste desgraçado país. Alegremo-nos: Portugal não sofre da Bicha, sofre da Constituição!
Como dizia aquela senhora Cândida, não há corrupção em Portugal. Nunca houve. Nem corrupção, nem, muito menos, corruptos. Nunca! Estamos vacinados; se é que não somos mesmo geneticamente imunes. O que há é a Constituição. Foi ela que roubou, fundiu, refundiu, esbanjou, traficou, vendeu, traíu, malbaratou, malgastou, devorou e esgalamiu. Foi ela! Foi ela que os obrigou! Socialista? Qual quê!, monárquica absolutista!
Isto das revelacinhas é como os segredos de fátima: vem às fatias. A seguir vão revelar-nos que não é, na verdade, a constituição da república: é o fantasma de D.Miguel. Que voltou para se vingar. Para assombrar e acagaçar o constitucionalismo, para entortar e atrair diarreias legais ao Estado de Direito, vómitos esverdeados no Estado Social e fazer andar à roda a cabeça ausente da menina Democracia. É Ele! O Indesejado... ultrapassou D.Sebastião, pela direita, e veio tomar desforço. Até os monárquicos light  se assustam e persignam. É ele, é ele! É ele que nos sabota e tresvaria os gestores, os doutores, os políticos! É Ele que lhes desarranja a moral e extrai a coluna! É ele, o mostrengo tirano, o espírito imundo! O país não precisa da Troika: precisa é dum exorcista! Ou então dum caçador de vampiros, caso seja o outro que se levantou lá da sepultura em Santa Comba!...
O Papa que venha. De urgência! Que nos acuda! O caso não é para menos. Que venha Sua Santidade em pessoa para nos exorcizar a Constituição, seja quem for que lá se tenha calafetado. De repente,  a metafísica - qual quê, a metafísica não chega, a superstição inteira!, a necromancia toda!  - renasce para resgate do materialismo, dialéctico e pialéctico: será o próprio Belzebu?
Até já o actual governo sofre e padece. Enganou-se nas contas? Enganou-se nos cálculos? Enganou-se no plano, na receita, no país? Meteu as patas de trás pelas patas da frente e as ferraduras pelo tapa-orelhas?  Não, não foi ele: foi ela, maléfica, imunda, a Constituição! Sempre ela! Ubícua e omnívora, despótica e plutofágica! Devoradora de toda a nossa riqueza, de toda a nossa energia, de toda a nossa esperança! Esterilizadora de todo o nosso futuro!
E o estúpido do embaixador de Israel não vê. Sempre tão geniais na ficção e tão bacocos na realidade, estes judeus farfantes. Entretido com putatitvas nódoas passadas na nossa feíssima bandeira, nem repara na mancha medonha e presente que alastra, escorre e abomina por toda a nossa Constituição... Socialista? Pior: Nacional-Socialista. É  o terceiro segredo desta lástima: Adolfo Hitler em possessão.

domingo, novembro 04, 2012

Diálogo com um padre




Padre- Então, meu filho, porque queres tu tornar-te católico?

Dragão - Bem, padre... Estou a ficar velho e, pelo sim, pelo não, convém acautelar a reforma celeste. Não descontei toda a vida, mas não poderia agora entrar num  programa rápido de compensações e prestações caridosas por atacado?

Padre - Meu filho, a Providência Divina não é bem igual à Previdência Social, graças a Deus:

Dragão - Pena. Todavia, olhe,  para começar, acredito em Deus!...

Padre - Pois, meu filho, mas isso é irrelevante. Compete-te acreditar é na Santa Madre Igreja. É isso que faz de ti um católico. A Igreja é a concessionária estatal de Deus na terra. Fora Dela, não serás nunca um crente, mas um contrabandista da fé, um evadido aos impostos celestiais!...

Dragão - Ah... já  agora, escute cá, ó padre: se somos praticamente da mesma idade, porque teima em aperfilhar-me? Não faria mais sentido chamar-me "irmão", ou "meu irmão"?

Padre - Não, meu filho. Esta fórmula paternal reflecte o facto de estar sacerdotalmente consagrado e representar aqui, junto de ti, através da Igreja, o Pai Celeste...

Dragão - Zeus?

Padre - Não, o Pai de Jesus Cristo!...

Dragão - Hum, representações contundem-me um bocado com o sistema. Às tantas, embrulha-se tudo na palramentação. Assim de repente até diria que  foram vocês que inspiraram o Kant: não temos acesso à coisa-em-si nem, inerentemente, ao Ser-em-si (Deus), mas apenas às suas representações fenomenológicas. Isto levou o Shopenhauer ao pessimismo, o Nietzsche à loucura, o Heidegger à poesia e a mim, para ser sincero, vamos lá ver aonde!...

Padre - Pois, meu filho, mas as regras são estas: tu falas comigo; eu falo com o bispo, o bispo fala com o cardeal, o cardeal fala com o Papa e Sua Santidade vai a despacho com os anjos, com os santos e, na melhor das hipóteses, com Nossa Senhora. Estes, depois, intercedem junto de Deus.

Dragão - Padre, aprecio hierarquias. Por aí não há problema. Super-crentes com kit de cabine telefónica celestial e auto-eleitos com deus às ordens nunca me fascinaram muito. Pelo contrário, repugnam-me visceralmente. Mas isso de tomar a nuvem por Juno também me causa uma certa urticária moral... Olhe, passemos a coisas mais simples. Antes de ser católico, não haverá um qualquer programa de treino, uma ginástica espiritual, que me permita ganhar destreza e musculatura, de modo a facilitar o acesso à salvação?...

Padre - Começa tudo pelo amor ao próximo. Tens que amar o próximo.

Dragão - Comprendo, dado que Deus está inacessível, começa-se pelo próximo, e vai-se paulatinamente por ali acima, até chegar ao Papa. Suspeito que sei quem é que os maçónicos, à sua escala minúscula, andam a plagiar há séculos...  Em todo o caso, ponderemos o próximo... E se  o próximo só ama riquezas, honrarias, prepotências, bazófias, arrogâncias, desplantes, vaidades, mentiras e coisas assim? Como vou conseguir amá-lo? Pior, e se o próximo, sem aquelas nem queloutras, converteu o "conhece-te a ti mesmo" no "ama-te a ti mesmo", roncando que não precisa do amor dos outros para nada, pois já tem o dele todo, infinito e imenso?...

Padre - Tens que amá-lo redobradamente. Para compensar as suas fraquezas e mundanidades...

Dragão - Mas há-de convir que o sujeito não é nada amável. Amar aquilo é amar um calhau com olhos, um pedregulho despencado sobre uma cidade!... Ainda por cima, é um próximo que se afasta cada vez mais de mim e só decreta é distância entre nós, muros e polícias. Ora, eu aí, estou como Swift: aquele que me põe à distância eu agradeço muito por ficar longe de mim. Mas temos depois aquel'outro próximo que só ama o anterior ou quem, de algum modo, favorece em tornar-se como ele. Se o outro é um penedo em acto, este é um matacão em potência e gestacinha.

Padre- Meu filho, tens que aprender e praticar a humildade. Não te compete julgar os outros, mas apenas amá-los. Deus julgar-nos-á a todos. Pois todos somos seres imperfeitos e carregados de pecados!...

Dragão - Para mim isso é pacífico. Acho muito bem. Encanta-me. O meu problema com o próximo é quando ele começa a agir como se não houvesse Deus no Céu e fosse ele o deus na terra - deus, papa e crente de si mesmo, ídolo ambulatório de cegos, répteis, venais e mentecaptos como ele! Isso eu não consigo amar. Consigo amar o Filho de Deus, mas não consigo amar enteados do diabo! A falha, eventualmente, será minha: Mas é fruto genuíno da inteligência que Deus me deu, e por isso, creio, lhe chamamos Deus, porque deu, não vendeu. Vendesse Ele e não seria Deus, mas o seu oposto: Vendeus.  Por isso, dar a outra face, ainda concebo, mas ven-dar ou vender a alma é que não! Como não troco o Ser pelo ven-cer, nem, tão, pouco, pelo vencimento. Não vale nada quem pensa que vale tudo; não é nada quem pensa que é tudo.

Padre - É humano o erro e o pecado...

Dragão - Mas não é humana a pocilga. E eu julgava que Jesus nos tinha lavado a cara e posto de pé...

Padre - Meu filho, ama o próximo e deixa a doutrina connosco. Vem à missa, reza e arrepende-te das tuas más acções e vais ver que, com o tempo, o horizonte fica menos carregado.

Dragão - Sabe, padre, eu sou o mais imperfeito e inapto de todos. Está visto que tenho que percorrer um longo caminho. O próximo pôs-se a milhas; Deus retirou-se para as insonduras dos céus.  Já percebi que isto tem que ser gradual, por fases. Para já contento-me em treinar com o amor à mulher do próximo. E depois, aos poucos, com muita intercepção dela, ainda acabo a vir à Igreja. De preferência às horas em que o próximo cá não esteja a relambar-se de hóstias.

sábado, novembro 03, 2012

Frases Assassinas - XIII

Há dois prémios de elementar justiça que compete tributar: um a Darwin, pelo conceito de evolução como não sendo necessáriamente um progresso; outro à academia e sobretudo, ao ensino universitário português por essa nova, robusta e pródiga eclosão na cadeia evolutiva para-hominóide: o asno sapiens.

Fazer despesa




O Engenheiro Ildefonso Caguinchas tem agora relações com uma senhora de alta estirpe, o que se traduz, julgo, no porte de importantes apelidos. De modo que me convidou para uma cavaqueira, onde, presumo, me faria relatório amplificado das suas  mais recentes galarozices e hipismos ( a senhora disporá certamente de amigas carentes e prestimosas), num botequim das avenidas. 
Na esperança de poder auferir dalgum do recente desafogo económigo do meu compadre, lá me dirigi ao local marcado para a conferência ilustre; e nele penetrei, com o passo altivo e arcaboiço desempenado que me caracterizam.
Sedimentava há pouco mais de minuto ou dois naquele reduto selecto, na sossegada espera do engenheiro máximo,  quando se intromete um dos serviçais itinerantes com a seguinte léria:
- O que deseja?
Olhei em volta e constatei, assim por alto, uma balzaquiana e três cavalonas alouradas em carnes altamente comestíveis. Como bolinhos e chás não me cativam, redarqui,  voraz:
- Olhe, desejo aquela ali. Pode ir ver se está disponível e trazer-ma descascada?
O tipo começou por pasmar, No que ainda pairou um bom bocado. Mas  depois, com ar malandrote,  português, sorriu, cúmplice e segredou:
- Já está reservada. Mas eu referia-me ao que quer tomar...
. Bem, para já, não quero tomar nada. O meu plano de conquistas é muito restrito: em não havendo mulheres ou castelos disponíveis, deixo-me estar sossegado e contemplativo. - Respondi, muito sério.
Aqui, o criado de mesa, suspeitando que eu dele mangava, adquiriu um semblante  carregado, e, em modos duros, ditou:
- Pois, o senhor lá sabe. Mas a regra é que para aqui estar tem que fazer despesa. Isto não é o miradouro de santa Luzia.
- Tenho que fazer despesa? - Abismei-me eu, muito sinceramente.
- Exactamente. Tem que fazer despesa! - Tornou, imperioso e profissional, ele.
- Tem a certeza? - Ainda reconferi
- Absoluta. São as regras do estabelecimento!
- Bem...se tanto insiste...
Levantei-me e pesquisei em volta, cumpridor. À minha direita, a enorme montra, em vidro espelhado, exercia algo entre a atracção e o convite.... Nem hesitei... Peguei na cadeira e, arremeçando-a com energia bárbara, mas todavia cívica, escavaquei aquela marmelada toda. Depois, calmamente, inquiri:
- Acha que chega? Se quiser também posso rebentar com o balcão!...

E era verdade. Não custava nada. Era um balcão corrido, iluminado, daqueles de vidro, com imensos bolos e folhadinhos... E no que toca a fazer despesa, quando começo nunca mais páro.

sexta-feira, novembro 02, 2012

Abnegados agentes da Higiene Pública

As economias vacilantes embaraçam-se com uma série de escrúpulos e hábitos arreigados, como sejam compaixão com deficientes, amparo a aleijadinhos, assistência aos doentes, protecção aos fracos e indefesos. Em contrapartida, as economias pujantes não perdem tempo com essas pieguices bacocas e emocionais. Desde o social darwinismo feroz de luminárias como Madison Grant, sabem, de ciência limpa, que a deficiência, a doença, a pobreza, o desemprego, a fraqueza em geral são desprezíveis  e merecedoras não apenas do nojo, como, sobretudo, da repressão estatal. Nunca se será suficientemente duro com esse tipo de sub-gente.
O mais recente e edificante episódio dessa saga moral aconteceu em Vancouver. Onde três gorilas justiceiros trataram de disciplinar um detrito social repugnantemente instalado numa cadeira de rodas. Lixo social, ainda por cima motorizado, é de causar vómitos a um robot!...

quinta-feira, novembro 01, 2012

Do Necro-Proxenetismo industrial



Compenetramo-nos de que perdemos de todo a dignidade nacional (junto com o simulacro de independência  a prazo) e arfamos doravante convertidos  em reles colónia ou sórdida  subsucursal da Alemanha quando os minúsculos gnomos necro-proxenetas desta começam a alastrar, a trepar e a exalar ruído eructante entre nós. E quando chegam ao desplante voraz de já nos apontarem nódoas na bandeira e indemnizações veladas em nome do holocausto, sabemos que boiamos definitivamente na sargeta da história, em trãnsito para a estrumeira da propaganda, à mercê de todo e qualquer escaravelho-estercorário que se apresente. 
Isto, no mínimo, ainda nos vai custar um dos submarinos. E, claro, uma implementação decuplicada de emergência, no orçamento do Ministério da Educação, para pagar ao Circo de Israel o neo-catecismo dos nossos mestres-escola . Moral da história: vem aí a Nova Religião e Moral obrigatória. Pois; e tanto quanto ver o ensino do holocoiso a ombrear solene ao lado do brasilês e da matemática, como disciplinas nucleares cá da paróquia, eventualmente desde o jardim infantil, vai ter o seu quê de irónico assistir à Educação, em paixão finalmente materializada, a tiranizar as Finanças.
E tudo isso a bem da nacinha e de quem lá mama? Sim, talvez;  mas sobretudo dos juros da dívida... e de quem lá mina. Como não diz o povo: Um anão lava o outro...


A Procissão dos Flagelantes



Há marasmos mentais que eu, de todo, dispenso. Certas palhas de rebanho, em espécie de psico-ração de comveniência, essas, então, repugnam-se. Por exemplo, aquela muito fresca e repetida: a saber, que foi o socialismo que nos trouxe até aqui, a esta bela bancarrota nova e reluzente. Suponho que se referem ao "socialismo prático", do estilo União Soviética,  (e não ao socialismo angélico que, como todos sabemos, paira, sublime e diáfono, incólume a chacinas e genocídios, à espera da encarnação perfeita num qualquer amanhã chilreante). Este socialismo angélico, de resto (e não esqueçam o que eu ia dizer), é irmão gémeo daquele liberalismo inefável que também flana e flui, em subtil destilaria celestial, aguardando o dia da perfeita e não menos chilreante aurora. Para os seus adeptos e catecúmenos, o liberalismo puro nunca existiu na prática ( e por isso ele é eternamente puro): o que tem pululado e tripudiado pelo mundo é perversões, natural e fatalmente socialistas, daquela imaculada e pulcra essência. Certos espíritos menos benevolentes até já se interrogam se não derivará tudo duma má relação de ambos com a realidade: enquanto o liberalismo não vislumbra quaisquer orifícios nesta, o socialismo  aproveita e viola-a de todas as maneiras possíveis e imaginárias.  Voltando agora onde eu ía, terá sido mesmo através duma dessas maneiras, nitidamente imaginária, que acordámos, um belo dia, nesta esplêndida bancarrota. 
Ora, foi público e notório que o país, nos últimos decénios, se entregou a desregramentos mais que típicos dos antigos paíse socialistas, como, por exemplo (e só para citar os mais emblemáticos): orgias gerais de crédito bancário; consumo desenfreado de gadjets, bugigangas e artigos de luxo; importação desaustinada de tudo e mais alguma coisa; abolição eufórica de fronteiras;  cornucópia de televisões, revistas e jornais em torrencial dilúvio de toda a casta de incitamentos publicitários à ganãncia e luxúria épicas e salvíficas; liberdade de expressão em barda; subsídio generoso a toda a espécie de minoria da moda internacional,; imigração selvagem; destruição metódica e excternamente patrocinada de todo o aparelho produtivo; desindustrialização ufana; multipartidarismo infestante; parlamentarismo incontinente; turismo obsessivo;, agrofobia histérica; financeirização transcendental; etc, etc. Em suma e síntese: como podemos constatar, a exacta réplica de todos os vícios e taras soviéticas (ou de quaisquer dos seus satélites de leste), não é? Ou mesmo de Cuba, da Albânia, da Coreia do Norte, da China Maoista, senão mesmo do Camboja de Phol Pot!... Ressalta à vista e entra pelos olhos a dentro. Especialmente, untado a vaselina, pelo mais cego de todos!... Porque, repito e trepito, como todos estamos cansados de saber, à data do colapso do paraíso terreal socialista, toda aquela gente, um pouco à semelhança do Império Romano lá das antiguidades, chafurdava em toda a variedade de orgias, sobretudo consumistas, opinorreicas e plutofaccientes. Até metia nojo!
Bonito; e segundo os entendidos, qual o principal factor para esta nossa queda ininterrupta no pecado socialista em larga escala?  É que temos uma constituição socialista, proclamam eles, esgazeados e com a coifa ao desalinho; assedia-nos um tabu legal e atávico  que nos inibe de abraçarmos os redentores hábitos capitalistas e nos constrange, tirânico, ao caminho da perdição. De guarda a este hediondo santuário do mal, patrulham demónios e ogres retintamente socialistas, desde o patriarca Soares até ao último guincho Sócrates, ou seja, desde o proto-socialismo até ao metro-socialismo. O mesmo Soares que, nas suas próprias palavras, guardou o "socialismo na gaveta" e tirou a democracia liberal e palramentarista do armário, onde ela estava escondida desde o 25 de Abril, cheia de medo dos comunistas e à espera que a descolonização passasse; e o mesmo Sócrates cujo paradigma inspirador era um marxista-leninista empedernido chamado Tony Blair, imagine-se. Conseguem imaginar? E já agora, imaginem também a mesma choldra mascarada de povo, entre eleiçados e eleiçores (representação, babam eles), que se entregou a todos os desregramentos, que converteu todas as leis e códigos legais numa nova espécie de papel higiénico regimental, que se marimbou para quaisquer regras milenares do civismo, vá lá, só mais um pequenino esforço, e tentem imaginar toda essa ciganagem cheia de inibições com a Constituição. A cultivar traumas e stresses...fobias angustiantes... O Código Penal não os inibe; as próprias leis da natureza não os inibem, o Diário da República funciona por conta, balcão, recreio e encomenda. Mas a Constituição inibe-os, coitadinhos. Revista e descafeinada, podada e recauchutada, ainda os inibe. Demove-os. Causa-lhes aquela disfunção eréctil mental em que vivem diante da realidade. Com a inteligenciazinha mirrada, a moral descartável e a coluna vertebral gasosa, assistindo, frustes e gelatinados, às contínuas violentações socialistas. A constituição é que não os deixa, é que os impede, é que os obriga a ficar assim, hirtos, meros portadores dum acessório inútil, triste, pendente.. Todavia, uma gaitita mágica, fadada misteriosamente, intimamente agregada ao futuro da nacinha.  Este só se endireitará quando eles endireitarem aquela. Mas  primeiro, detalhe crucial, condição sine qua qua, há que lhes tirar a Constituição da frente. Porque então, então sim, livres dessa maldicinha, a realidade vai ver e, sobretudo, eles vão conseguir ver e encarar a realidade.Sem complexos. E a economia vai trepar nos gráficos à medida e ao ritmo com que a sapiência protuberante for capaz de lhes trepar na barriga, à conquista do umbigo. E ninguém duvide: no mínimo, será vertiginoso!...
Só que até lá vamos penar. Vamos pagar. Vamos expurgar-nos e penitenciar-nos nesta procissão de flagelantes. Temos que mostrar ao mundo, aos mercados, às feiras, às praças e até aos lugares de hortaliça que estamos arrependidos, compungidos, sinceramente pesarosos de todos este tempo estéril em que nos entregámos, de corpo e alma, ao deboche socialista. Na esperança paciente e godótica do dia radioso e deslumbrante em que a inteligência solene dos nossos formidáveis gestores ganhe vigor vertical e deixe de apontar, murcha  e engelhada, ao olho do cu. Da Europa tanto quanto da tribo.

quarta-feira, outubro 31, 2012

Frases Assassinas -XII


Nestes nossos vis e apagados tempo, à falta de Deus, os aborígenes acreditam em qualquer farófia. E, com idêntica codícia, à falta de glória, cobrem-se de qualquer coisa... Ridículo, quase sempre.
Aliás, eu bem digo: o problema maior da gente actual deste país é bem pior que simples ignorância: é adolescência. Furiosa, relapsa e contumaz.

Sísifo revisitado



Qual é a saída alternativa num beco sem saída? Qual é o descaminho alternativo a este descaminho? Qual é o remédio alternativo ao arsénico? Tudo formas perversas de colocar uma pseudo-questão. Na realidade, não existe caminho alternativo a uma ausência de caminho, não existe direcção alternativa a uma ausência de direcção, como não existe sentido alternativo no reino absurdo, que é como quem diz, no reino do sentido nenhum.
Ora, o domínio  da pseudo-democracia (e toda a democracia realizada até hoje manifesta esse pseudonismo, dado que a república angélica que pressupõe não corresponde, nem de perto nem de longe, àquela que opera na realidade) coincide invariavelmente com esse império do absurdo. A ausência de sentido, todavia, não impede a existência de mandantes. Cada mandante, no prazo que logra e entretece, instaura o pseudo-sentido que muito bem entende - o pseudo-caminho, a pseudo-direcção, o pseudo-remédio. E, em simultâneo, por hábito e perversão intrínseca, proclama não apenas a excelência fatal desse des-vio (por onde trans-viaja),mas,sobretudo, a sua unicidade incontestável. Precisamente porque,  ao contrário da natureza, da realidade e até da lógica racional comezinha, no absurdo não ocorrem alternativas: cada caminho é único. A escolha é impensável - o absoluto e o instante entresgotam-se e absorvem-se. Tal qual Sísifo exemplifica pela eternidade.
A nós compete-nos ir rebolando o pedregulho da crise e do défice.

terça-feira, outubro 30, 2012

Frases Assassinas - XI

A cada nova legislatura que passa, somos visitados por (des)governantes que entram pela porta grande, com foguetório e fanfarra, e saem invariavelmente, pouco tempo depois, pela porta pequeníssima, quando não mesmo pelas traseiras. O que, manifestamente, é uma tremenda injustiça... É mais que evidente que mereciam - todos eles, em fila, e classe executiva - sair pela janela.

segunda-feira, outubro 29, 2012

O neo-abjeccionismo solene

É todo um panorama rilhafolesco e abracadabrante: o tão proclamado serviço público, dos ministérios às televisões, passando por chafaricas, repartiçosas e quartéis, está, em grande escala, pervertido e escarunchado por suinocéfalos que se servem do público, entre entranhados, migradores e ocasionais. À bica destes usufrutuários reinadontes, orbitam depois enxames de buliçosos e pressurosos serviçais, entre lugar-tementes, anelídeos-aspirantes e bispotes. Estes últimos exibem-se, não raramente, em blogues. Num surto esguichante de qualquer coisa da ordem dum neo-abjeccionismo solene, e infrene. Que parece consistir numa espécie de performance monótona, de tipos a exibirem-se em mergulhos acrobáticos sobre baldes repletos dos próprios despejos, onde previamente, com requintes de volúpia auto-anestesiante, trataram de diluir as próprias vértebras.

domingo, outubro 28, 2012

Frases Assassinas - X



A liberdade não se apregoa: exerce-se!
Por isso mesmo, não há regimes livres, nem economias livres, nem sociedades livres, nem, tão pouco, ideologias ou religiões libertadoras. O que há ou não há é homens livres. E a única dimensão em que o homem consegue manifestar  genuinamente a sua liberdade -que é a sua,intrínseca e humana liberdade, mas jamais  absoluta ou dissoluta  - é a dimensão do espírito. Ora, o que geralmente se assiste é a espíritos atrofiados, soterrados e acorrentados a bandulhos pantabsorventes em vociferante pregação e descabelada pugna por regimes livres, mercados liberalíssimos, sociedades liiberdadérrimas! Não admira: o paraíso terreal  sempre foi uma  ânsia e uma construção de escravos. Donde decorre que o éden planificado descambe invariavelmente no parque policiado, no presídio geral e na masmorra colectiva.
A liberdade, como exemplifica (segundo Aristóteles) o único Ser realmente livre do cosmos, tem um preço: a solidão.

sábado, outubro 27, 2012

Frases Assassinas - IX

Definir o relativismo como o principal mal do nosso tempo afigura-se-me duma superficialidade equívoca. Afinal, o relativismo, mesmo o moral, sempre foi (tal qual é) uma contingência e uma inerência da própria condição humana. O que a nossa época  apresenta de arrepiante e sobremaneira promissor aos piores cometimentos não é tanto o relativismo; é, para ser rigoroso na definição, o absoluto relativismo. Ou seja, a limite, é a negação absurda e impiedosa de toda e qualquer hipótese de relação, pela liquidação terraplenante de todo o tipo de referenciais. Vivemos um tempo de oxímoros

sexta-feira, outubro 26, 2012

Concorrência desleal



A jovem que leiloou a sua própria virgindade (julgo que apenas a vaginal) pela módica quantia de 600.000 euros diz que se não se sente, minimamente, prostituta. É evidente que não. Até porque a última coisa que qualquer tipo - por mais ingénuo que seja - espera encontrar numa puta é precisamente a virgindade. 

É uma empresária, pois claro. Mas sempre vos digo: sórdidos e batoteiros tempos estes, em que as rameiras profissionais já experimentam a impiedosa concorrência das virgens!...

quinta-feira, outubro 25, 2012

Estado quê?!...

Não sei porque raio insistem na fantasia. Não existe Estado Social nenhum. O que existe - e agora retirou a máscara de conveniência - é o Estado sociopata. Mas qualquer sociopata é mesmo assim: começa por ser melífluo, benemérito e ultra-solícito, apenas para conseguir o pleno acesso e a cega confiança da vítima.

quarta-feira, outubro 24, 2012

Um Postal Incorruptível. Mesmo!...




Lembram-se? Está sempre actual. Postei-o pela primeira vez em Maio de 2005. Repostei-o em Abril de 2006 e em Maio de2008. Tornei a postá-lo em Março de 2011. Volto agora com ele, em Outubro 2012, e, não queiram lá ver, permanece viçoso que nem uma alface, absolutamente incólume aos anos e às canseiras.

OS OTÁRIOS QUE PAGUEM A CRISE. É PARA ISSO QUE ELES EXISTEM.

Estou de acordo: "Os ricos não devem pagar a crise".

Em primeiro lugar, porque os ricos são o esteio da sociedade e do mundo. Se acabássemos com os ricos, para que farol guia olhariam os pobres, bem como os remediados e os quase nababos? Ficariam às escuras, pois claro, sem saberem para onde se dirigir nem que paradigma imitar. Naufragariam irremediavelmente de encontro aos escolhos, traiçoeiros e pontiagudos, da existência.
Nenhuma sociedade funciona sem um regime, e nenhum regime se aguenta sem paradigmas orientadores. Depois de inúmeras peripécias que seria fastidioso enumerar, o mundo ocidental arfa sob os primores duma plutocracia vigorosa. Não adianta fazer grandes ginásticas mentais à procura de mundos alternativos; é assim. A História, à boa maneira hegeliana, porta-voz do "Espírito", determinou-o.
Por conseguinte, sendo uma plutocracia, tem nos ricos o vértice da pirâmide – tal qual como se fosse uma monarquia, teria no rei; ou, uma teocracia, encontraria em Deus. Ora, se retirarmos o rei à monarquia, ou o Deus à teocracia, lá ruem ambas, a monarquia e a teocracia, sem apelo nem agravo. O mesmo acontece se retirarmos os ricos à plutocracia. Resulta no caos, na anarquia, desatam-se todos a comer uns aos outros. Descamba o carrossel numa depredação intra-específica sem regras, bestialmente destrutiva e causadora dos piores atropelos e sevícias à ordem pública e não só.
Assim, tal qual vamos, há uma ordem: os ricos comem todos os outros; os pobres são comidos por todos os outros; entre os ricos e os pobres existem uns terceiros que comem e são comidos. Se não é o melhor dos mundos, anda lá próximo. É como na selva: há um equilíbrio natural, racional, que visa a perpetuação do sistema ecológico. Têm que existir poucos ricos e muitos pobres, da mesma forma que devem existir poucos lobos para muitas ovelhas. Se existissem muitos lobos para poucas ovelhas, os lobos exterminariam as ovelhas e, depois, definhariam até à inanição por falta de alimento. A não ser, claro está, que os lobos mais fortes despromovessem os mais fracos a ovelhas e desatassem a pitar neles. Em todo o caso, isso não passaria duma solução de emergência e apenas adiaria o colapso inevitável do sistema.
Portanto, sendo os ricos o que de mais precioso tem o regime, convém preservá-los e protegê-los de todos e quaisquer percalços. Ora, um rico não é rico porque paga crises ou o que quer que seja. Pelo contrário, é rico porque lhe pagam inúmeras coisas: é rico porque recebe. Viaja isento, àborliu.
Também, ao contrário do que se pensa, o rico não é rico porque investe o que quer que seja: é rico porque acumula. Se o rico gastasse o seu precioso dinheiro –a sua essência, e substância inefável do sistema -, em negócios e fabriquetas, corria o risco de ficar pobre. Ora, esse é um risco que nenhum rico que se preze pode correr.
É claro que o pobre, e especialmente o pobre de espírito, cisma que assim é. Isso, porém, não nos deve surpreender: É conveniente ao sistema e ao rico que ele assim pense. Tratam até, ambos, de mimar-lhe essa imbecil convicção, de mantê-lo nessa ilusão mentecapta. Mas, na verdade, o rico apenas se dedica a multiplicar o seu dinheiro, velando, desse modo, pela própria saúde do regime e pelo equilíbrio do ecossistema.
Quer dizer, o rico nunca investe o "seu" dinheiro. Investe, isso sim, o dinheiro que o banco lhe confia para investir. O "seu" dinheiro significa apenas"crédito" junto da banca, funciona como uma espécie de brevet para "piloto de capitais". Porque o rico é essencialmente isso, um piloto de capitais, que se faz pagar a peso de ouro pela crematonáutica que exerce. O "seu" dinheiro é apenas aquilo que antes da operação a garante e que, terminada a mesma, resultará ampliado. A função do rico é tornar-se cada vez mais rico. O ser rico, bem mais que um estatuto, é uma dinâmica: cega, obsessiva, inexorável.
Então, com que dinheiro investe o rico? – Com o dinheiro dos outros, é evidente; precisamente aquele que a banca extrai à grande maioria.
E o que é uma "crise"? – É uma época de desequilíbrio financeiro, em que, por um lado o Estado através de impostos e taxas, e por outro a banca e seus associados, através de "empréstimos" (que mais não são que formas encapotadas de cobrar "taxas" e "impostos" muito acima dos do próprio Estado), deixaram ou ameaçam deixar a grande parte da população na penúria, senão mesmo à beira do colapso enquanto sociedade.
Se o dinheiro deixa de circular com a quantidade necessária a manter um fluxo de oxigenação saudável do sistema, isso só pode significar hemorragia algures.
Quando, em plena crise, a banca apresenta lucros fabulosos, isso significa que esse dinheiro foi sacado à população e entregue nas mãos dos tais "pilotos". O que estes fizeram, obedecendo à sua lógica intrínseca, foi ir investi-lo noutras paragens mais rentáveis. O objectivo do investimento não é criar postos de trabalho: esse é o simples meio. A finalidade é multiplicar o capital inicial. O resto é supérfluo e, em bom rigor, descartável, logo que a finalidade esteja alcançada.
Entretanto, o país de regresso à sua penúria tradicional, do ponto de vista dos ricos e seus acólitos, é positivo: quer dizer que o país, de volta ao terceiro mundo e à realidade, está a transformar-se num país mais competitivo, com mão de obra mais barata e menos esquisita. Para os pobres, os verdadeiros, também não faz grande diferença: abaixo de pobres não passam, e já estão habituados. Concentram-se no futebol, na pinga e lá vão. Os únicos que, de facto, têm motivos para se preocupar seriamente são aquela classe heteróclita e intermediária – daqueles que vivem digladiados entre a angústia de regredirem a pobres e a ilusão de, num golpe de asa, ou por qualquer súbita lotaria do destino, ascenderem a ricos. Esses, temo-o bem, vão ter que sacrificar-se, mais uma vez, pela competitividade do país. É, aliás, urgente que desçam do seu pedestal provisório e se compenetrem dos seus deveres atávicos. São para isso, de resto, que, cíclica e vaporosamente, são criados.
E dado que os pobres não pagam porque não têm com quê, e os ricos também não, por inerência de função e prerrogativa sistémica, resta-lhes a eles, os tais intermédios (ou otários, se preferirem), como lhes compete, chegarem-se à frente. Está na hora de devolverem a sua "riqueza emprestada", o seu "estatuto a prazo"; de se apearem do troleibus da ficção e retomarem o seu lugarzinho na horda chã, em fila de espera para o próximo transporte até à crise seguinte.
Não sei se campeia a justiça neste mundo. Duvido. Mas que reina uma certa ironia, disso não restam dúvidas.

Desvios

«Há um "enorme desvio" entre o que os portugueses esperam do Estado e o que estão dispostos a pagar por isso.», diz o Gaspar Coiso. 
Parte do desvio, eventualmente, deriva de duas espécies que vivem instaladas a expensas do Estado: a escumalha infra e a escumalha supra. Ou seja, a ciganagem à boleia e a ciganagem ao volante. Realmente, bem podem os contribuintes esperar e desesperar: enquanto o estado estiver congestionado por tamanha quantidade de parasitas, a gestão  e a digestão coincidem. Do estado tanto quanto do país.

Por isso mesmo, maior ainda é o desvio entre aquilo que os portugueses esperam daqueles que  elegem e aquilo que estes estão dispostos a fazer por isso. A única certeza é que saem cada vez mais caros, oferecendo, em contrapartida, um serviço cada vez mais reles, manhoso e hostil.