terça-feira, novembro 25, 2008

Smells like... Napalm.




Estou perfeitamente consciente dos tremendos riscos que corro, mas optei por não emigrar apressadamente. Com o Rato Mickey e o Pateta não se brinca, eu sei; pelo que agora, à cautela, falarei a sério. E se um resquício de coragem suicida não bastasse, um assombroso e piramidal evento que não posso deixar incólume compelir-me-ia. Há assomos epopeicos, leitores, que não podem deixar de ser registados, celebrados e proclamados para memória dos vindouros e, sobretudo, das vindouras.
Este, que aqui me convoca, é o que vou narrar já de seguida.


Pois bem, já todos sabíamos que o (nas palavras eloquentes duma das suas referências intelectuais, uma tal Ermelinda do Padeiro) doutor economista Arroja, code name Rato Mickey, se arvorava, nas horas vagas, em sociólogo de elevadíssima craveira. Mas agora, num acesso desbordante de erudição polissaturada, tomamos conhecimento que, afinal, também é um ás na sexologia. Terá fundo este poço de sabedorreia? Sinceramente, começo a duvidar dessa contingência. Eu e centenas de milhares de deslumbrados como eu. Neste momento já se organizam excursões e romarias das quatro partes do mundo para virem assistir, in louco, ao prodígio. O caso não é para menos. Acaba de inventar, aquele portentoso sabão, um novo método de medição da virilidade masculina em ambiente doméstico. Este espantoso, engenhoso e revolucionário método, que deixará certamente a espumar de inveja o sexólogo residente da blogosfera (um tal Morcão Vaz), consiste, nem mais nem menos, pasmemos ó conterrâneos, na contagem de palavras emitidas na rede, mais especificamente em blogues. Quanto mais palavras assim derramadas, menos espermatozóides despejados por via de fornicadelas à coelho na legítima. Coelho missionário, naturalmente, nada de fantasias ou acrobacias menos devotas. Ou resfolegantes.

Formidável!, ovacionamos nós; se o sexólogo moviflor (zazie dixit) já era um must, este, então, é um mister! Para o distinguirmos do outro, atenderemos à diferença geográfica e mobiliária do palestrante, pelo que o cognominaremos como sexólogo-de-penico (até porque depenica que se farta). Recapitulando, então, a lei fundamental da sexologia depeniqueira: a fornicação matrimonial é inversamente proporcional ao número de palavras escritas no blogue. Escritas, na terminologia arcaica e doravante cancelada; pois na nova terminologia científica, deve dizer-se "ejaculadas". Afinal, ficamos agora a saber, as pessoas não escrevem em blogues: ejaculam palavras. Freud teve soluços na cova.

Detalhe superlativo em toda esta história, que muito me desvanece: o distinto sexólogo-de-penico honra-me com a glória de cobaia principal no seu devassante estudo. Serei assim, segundo ele e as suas apuradas - embora instantâneas e mediúnicas - esporrometrias, um frouxo na cama, porque, lá está, sou um dilúvio no blogue. Se ejaculo a mais na rede é porque ejaculo a menos no leito conjugal, já não falando no sofá, na banheira e no tapete da sala. Caros amigos, é assim, não há como escapar a tão mosaica legislação.

Bem, por um lado, fico banzado com a perspicácia deste vidente-voyeur. Consegue espreitar do Porto até Lisboa, ida e volta, mais depressa que o futuro TGV. O que não nos deve, afinal de contas, surpreender: ele até conseguiu espreitar através dos séculos, descobrindo Hume em actos menos másculos e larilices clandestinas. Por outro lado, competições de garganta nunca foi o meu forte. Certame de garnizé é coisa de galináceos e pior que léria de puta só mesmo goela de puto. Mas quem sou eu para contradizer a ciência, ainda mais quando esguicha dum sexólogo-de-penico? Nem por sombras. Já não seria pecado: seria blasfémia. Seja, então. Cumpra-se a lei. Superpotente no teclado, erecto-disfuncional no resto - eis-me exposto ao vexame do transeunte galaró.

Só que, entretanto, alguns impertinentes claramente necessitados de pimenta na língua, poderão maldosamente conjecturar que, fazendo fé nos últimos dois anos, período em que é possível uma comparação directa, o doutor economista Arroja despejou na blogosfera, e isto a contar por baixo, cerca de dez vezes mais palavras do que eu. Uma verdadeira torrente ao lado dum regato. O que, segundo a sua metodologia imaculada, fará dele, fatalmente, um gay passivo coroado com ramificações de veado exuberante. Outros meliantes, igualmente dados a analogias venenosas, se bem que mais optimistas, poderiam ainda orçamentar que, embora ele, quantitativamente, tivesse ejaculado dez vezes mais, dado que cada palavra dele, qualitativamente, não alcança um décimo das minhas (acrescido que considerável parte delas até tinha sido ejaculada numa língua canina) então, mais coisa menos coisa, resultava num empate técnico, pelo que o ilustre sábio irmanava comigo na incompetência conjugal e na flacidez reiterada da gaita (apenas com a ressalva que enquanto eu, às mulheres, submergiria de poemas e galanteios literários, ele, em contrapartida, cobriria de queixumes, remoques e lamúrias). Uns terceiros energúmenos, da raça dos anteriores, alavancados por esta relação íntima e necessária entre a produção de postais e a improdutividade de bebés, poderiam também insinuar, soturnamente, que o doutor economista Arroja, code name Mickey Mouse, compensava a mediocridade na escrita com a excelência na queca legal. Aqui, na blogopólis, por conseguinte, era um franguinho mimoso e birrento que fazia beicinho quando lhe puxavam merecidamente as orelhas, mas, em compensação, lá na capoeira doméstica, virava galo doido encartado. Enfim, uma catadupa de assombrações e pântanos colaterais que nunca mais acabariam e eu, por piedade e amor à decência, me contenho de elencar além deste promontório.

É meu dever afastar esses rumores e esclarecer todas essas pessoas propensas ao torpe equívoco e à vil suspeita.

Assim, ó pessoas desabridas, se é um facto que o bom doutor economista sociólogo e sexólogo-de-penico Arroja ejaculou dez vezes mais palavras o que eu, isso não é, em bom rigor, comparável. Nem em bom, nem em mau. Não é, pronto. Muito menos com essa ligeireza.

Em primeiro lugar, porque a cobaia sou eu e o cientista é ele. Logo, usufruímos de prerrogativas diferentes e apanágios opostos. Quem chega primeiro, escolhe. Ele chegou primeiro, repimpou-se na cadeira e ficou com a bata e o laboratório. Não há que barafustar.

Em segundo lugar, sabemos de ciência certa e dogma associado que ele é, sem qualquer dúvida ou direito a ela, um jockey fogoso e exemplar (às vezes até maçador) da esposa por via duma prova irrefutável muito simples: porque ele no-lo diz e, assim, automaticamente, com força de sentença, certifica, autentica e atesta. As suas palavras, como toda a gente sabe, possuem dom mágico e dotes demiúrgicos instantâneos. Basta adicionar água e já está.

Finalmente, e nec plus ultra, porque as ejaculações dele, como é público e notório, se distinguem abissalmente das minhas - quer quanto ao órgão emissor, quer quanto à cor, teor e aroma. Na verdade, as dele, ao contrário das minhas, em nada taxam ou diminuem o caudal inerente à fornicação doméstica, por isso não estão sujeitas à lei funesta. A razão é óbvia e simples (como, de resto, qualquer pessoa minimamente imparcial e atenta pode testemunhar com facilidade): enquanto eu ejaculo pelo pénis (desviando-o e exaurindo-o de outras funções naturais), ele,- como é sobremaneira gritante nestes últimos dias, muito poupadinho e agiota das suas sementes -, ejacula pelo rabo. Ou seja, a mim, a escrita, mana-me dos testículos, obriga-me a testosterona; a ele jorra-lhe dos intestinos, compelem-no as fressuras.

Resumindo, aqui assam-no. Mas lá em casa, nem duvidem: desforra-se e assa ele as vrilhas à pobre da costela.






PS: Parto do princípio que o ilustre doutor não é dado a coprofilias - ou melhor, se à tara de as exibir, às fezadas, não junta a bizarria de as ingerir. O que, a ocorrer, temo bem, arruínaria irremediavelmente este meu terceiro e límpido raciocínio.

PUV - Patetas unidos vencerão



MICKEY, AMIGO, O CAGUINCHAS ESTÁ CONTIGO!



Avante camarada, avante

junto a minha à tua voz!

Avante, camarada

o shall brilhará pra todos nós!



Uma gaivota argumentava e voava

filha da puta nunca mais se cansava.

Como ela somos livres, somos livres

somos livres de argumentar!

Somos livres, somos livres

somos livres de ir ao google.


SLB, Glorioso SLB!!

Cultura nunca mais!!
Liberdade! Liberdade de excreção! Abaixo o Dragão!
Pornografia sim, filosofia não!!

E ganda Mickey, é isso mesmo: Dá-lhe com o Consultório Maria pelos chifres abaixo!

(PS: mas as "Ginas" manda-mas a mim, 'tá?...)

segunda-feira, novembro 24, 2008

Dragão Bafo-de-Onça

Encontrei o Labaredas estranhamente refundido na mesa do fundo da tasca. À rasca, o gajo. O copo de bagaço duplo até lhe termia nas patas. E olhava em volta todo nervoso.
-"Então, o que foi, ó Dragão? Tremes que nem varas!..." - Atirei-lhe logo às ventas.
Diz-me a besta, naquela lábia cavernosa, entre o Luís Armaestrondo e o Frango Sinatra:
-"'Tou fodido, ó Ildefonso. 'Tou fodido! desta vez é que a arranjei bonita. Nem sei se faça já o testamento..."
-"Quê, comeste a legítima dalgum bófia, daqueles da Judite ou dalgum tele juiz ?!..." - Orçamentei logo eu, conhecedor e perito na peça.
-"É pior que isso.." - Tornou ele. - "Pá, a cena desta vez é mesmo fúnebre: tenho o Rato Mickey e o Pateta à perna!..."
- "Ah-Ah! - Não me contive de gritar de alegria. - Gramei! É bem feita! Até que enfim, alguém para te meter nos eixos! Julgavas que o teu reino ia durar para sempre, não era?! Agora é que vais ver como elas te mordem! Com o Rato Mickey e o Pateta ninguém brinca!..."
- "Foda-se!, rico amigo me saíste. Animador como uma praga de chatos nos colhões. Mas o pior é que tens razão, lampião do caralho... Até 'tou a pensar emigrar." - Rosnou de lá, o tirano opressor, em queda, abençoadinha, todo desanimado. E c'uma destas cagufas que só visto. Aproveitei para lançar a fateixa:
- "Fico com a Svetlana, a Irina, a Natália e o blogue! Não te preocupes, eu tomo bem conta do material enquanto andas fugido na clandestinidade."
- "Quero lá saber! - Geme, para meu grande espanto, o gajo. - O blogue... Maldito blogue! Eu nunca me devia ter metido nisto. Razão tinha a senhora Dragão, que eu não devia rebentar com trombas que desconhecesse nem visse à frente. Isto de dar enxertos à distância não é natural!... O Rato Mickey e o Pateta... 'Tou fodido. Se escapar vivo desta, vou de joelhos a Fátima!..."


E foi assim, ó bacanos e garinas. O javardolas foi fazer as malas e eu vim aqui dar a boa nova: é o 25 de Abril da blogosfera! Viva o Pateta e o Rato Mickey! Viva a Ucrânia libertada!... Viva o Eusébio! Viva o Benfica!!...

Tabu



Uma das acusações que pendem sobre Oliveira e Costa, por obra e graça no BPN, é de, segundo li, "branqueamento de capitais". O BPN telecomandava (ou coisa que o valha) um banco esquisito em Cabo Verde. Curiosamente, essa esplêndida aventura financeira coincidiu com o período em que aquele arquipélago se tornou a principal placa giratória do tráfico de cocaína para a Europa. Actividade nebulosa que entretanto ali prossegue, mas cujo protagonismo e primazia se transferiram para uma outra antiga colónia nossa: a Guiné-Bissau.

Depois da descolonização criminosa tem sido o deboche rapinante: uma espécie de joint-venture cleptogógica entre descolonizados e descolonizadores. Entre nós, tem-se assistido (basta olhar para o parque domo e auto) a um proliferar de fast-fortunas verdadeiramente obscenas e típicas dum país de Terceiro Mundo. A podridão que espreita debaixo deste tapete, suspeito bem, mais que inefável, é tabu: nela assentam, tanto quanto os alicerces, as colunas do regime. Um regime que, diga-se em abono da verdade, é inderrubável. Impossível derrubar algo que rasteja.


domingo, novembro 23, 2008

Pelourinho

Um leitor, a quem desde já agradeço a chamada de atenção, alertou-me para uma questão ortográfica: "bolsar" (no postal "Aquecimento"). Inquiria se eu não queria dizer "bolçar". Está correctíssimo o leitor, venham de lá merecidas reguadas. Na verdade, o sentido pretendido era "bolçar", no sentido de "golfar", e não "bolsar", no sentido de "enfunar". Eu podia agora por-me com frescuras a dizer que queria dizer "enfunar", mas era mentira.
Alhures, também vi levantada a questão do verbo haver. Eu tinha usado "haverão", onde deveria ter escrito "haverá" (sujeito subentendido "ele haverá" dias). Mais uma asneirola, neste caso gramatical, que, embora mais fruto da pressa que do desconhecimento, merece duplas pauladas nos lombos.
Aqui sim, pode falar-se em ofensa, e ofensa merecedora de reparo e exposição em pelourinho: ofensa à Língua Portuguesa.

Ou em forma de fábula...

Era uma vez um cordeiro que gostava de vestir pele de lobo e arvorar um pequeno pau a imitar cajado. Punha-se então, à beira dum regato, com grande empáfia, a proclamar a sua superioridade genética e intelectual em relação à estúpida carneirada. "Essa ralé! Essa populaça!", proclamava, "essa choldra precisa duma elite devidamente vestida, superiormente equipada, adornada por um preclaro domínio das leis da selva, dos imperiais princípios da cadeia alimentar, dos quesitos, protocolos e hierarquias do pedigree social, da epistemania gaiteira e do suave proxenetismo da verdade, em suma, um escol recheado e postiço de gado como eu, que a pilote, tosquie e administre na sua estúpida e tasquinheira existência!..."
Mais um dia se esfumava no horizonte e mais um dia ele dispendera nessas perlendas ufanas. Compenetrado em tais afazeres, nem se apercebeu duma sombra negra e inquietante, ampliada pela luz crepuscular, que foi crescendo atrás dele. Um rosnar cavo e sinistro de fera escutou-se então:
«Ouvi dizer que de mim muito bem tens dito e por mim generosamente tens falado...»
Antes de se virar, o cordeiro ainda jactou qualquer coisa irrelevante. Depois, encarando a dura realidade, quis despir apressadamente a pele, pedindo imensa desculpa.
«Venho reclamar o que me pertence. - Riu-se o lobo, sem piedade. -Mas essa pele não é minha, para nada me interessa - furtaste-a nalguma sepultura, desgraçado?!... É o que está debaixo dela que, por lei (a lei que tanto adoras), me pertence e que vou agora cobrar".
E a treva, caindo, serviu de pano ao teatro da crueldade.



Moral da história: se não queres experimentar o lobo, não lhe vistas a pele.

sábado, novembro 22, 2008

A chave do puzzle

Quando somos insensíveis à desgraça dos outros isso constitui desrespeito, mais que para com a dor do próximo, para com a própria Desgraça campeã. Desprezando-a na casa alheia, atraimo-la à nossa própria casa. Mais dia menos dia, sob o máscara que lhe aprouver, virá bater à nossa porta. Então, diante do rosto inexorável da fria e cósmica crueldade, aprenderemos, a duras penas, o dever da compaixão. E de como à fortuna, sempre efémera, cíclica e fatalmente passageira, convém sobretudo o tributo do pudor.
Teu, verdadeiramente, nada é e nada tens.
A riqueza não é filha da Graça de Deus: é fruto da Desgraça do Mundo. A dos outros é só o espelho retardado da tua.

Grey house

"Obama's White House is beginning to look a lot like Clinton's".

sexta-feira, novembro 21, 2008

Aquecimento

Caro Pedro Arroja,

se eu fosse de me espantar facilmente, estava agora perplexo, senão mesmo estarrecido; se eu fosse atreito a crenças, estava agora a persignar-me de alto a baixo; e se fosse dado a juízos psíquicos apressados, estaria agora a recomendar-lhe sedativos e uma boa -não direi camisa, mas - luva-de-forças, a ver se atenua essas convulsões e espoldrinhamentos no teclado.

No essencial, é público e está à vista de quem saiba ler, agradeci-lhe e desejei-lhe (sem qualquer ironia, aliás) Boas Festas. Vossência, todavia, depois de rir, preferiu atirar-se às minudências e pentelhices. Presumo que terá contraído essa tendência com os anglo-saxofónicos, porque entre nós, lusotoinos, isso é extremamente raro. Daí a lançar-se a jacto pela estultosfera a fora e - alcançada a velocidade de cruzeiro, por volta dos 5.000 pés-de-salsa- a ligar o peixeiro-automático, foi um ápice. Menos que um ápice: uma fracção de centésimo de segundo.
Motivo para o tremendo escarcéu: foram-lhe ao acólito. Coisa gravíssima, ao que vislumbro. Hirsutante, descomposto, em suma, ridículo, rompe em clamores às autoridades da higiene pública, à futura ASAE dos blogues, que venha, que venha depressa, urgentemente, condimentar línguas, condomizar penas e ultrapasteurizar léxicos. Que é um despautério, uma pouca vergonha, um crime de lesa-hipocrisia, a mais imunda das tradicinhas! Socorre-se até da sombra proba e austera do Presidente do Conselho para servir de tenda de circo a tão descabelados contorcionismos e acrobacias. Não tarda, temo bem, empoleira-se na Santa Madre Igreja e serve-se dela para catapulta dos seus remoques e azedumes descabidos. Vício de instrumentalização dá nisso.

Mas vamos ao busílis. Considera então que lhe ofendi o anão. Acha mesmo? Sério? Urinei-lhe no duende de jardim, o seu rico duende de jardim, foi? Não tive essa intenção, afianço-lhe. Referi-o apenas tal qual se me exibe, enquanto fenómeno. A coisa-em-si (isto é, nele) desconheço-a olimpicamente. O problema, ó estimado Arroja, é que vossência não sabe a diferença básica entre númeno, fenómeno e coisa-em-si, do que resulta essa lamentável mistificação onde, com certa reincidência, se atasca; essas ideias-movediças em que, calamitosamente, se engalfinha; esses amontoados de nuvens que teima, ixionicamente, em tomar por Juno. Mas o pior é que não apenas não sabe: não quer saber e tem raiva de quem sabe. E assim permite que essa Kantofobia frenética e compulsiva o transporte às mais deploráveis figuras e encenações. Como esse drama de caca e alguidar que está agora a fazer acerca de coisa nenhuma e em redor dum pentelho raquítico, por alma dum piolho púbico, vulgo chato, que transporta à boleia na peúga.
Por outro lado, note bem, limitei-me a derivar consequências. Explico: eu, ocasionalmente, quando me mendigam muito, destruo. Tenho requintes de malvadez no acto? Pois tenho. Ou, pelo menos, faço por ter. Depende do capricho da musa de serviço. Isto, se não sabe fica a saber, funciona a crédito. Uma coisa, porém, é certa: um gajo depois de ter sido devastado por mim pode quase ir apresentar-se numa galeria de arte. Ou às portas do céu, por ablução expresso de todos os pecados e cristofacção à sec. Deviam, pois, agradecer-me, desejar-me as maiores felicidades, enviar-me donativos e subsídios (bom uso lhes saberia dar: tantas conas e tão pouco tempo, meu Deus!) Ao contrário; em vez disso, desse módico de gratidão e justiça, melindram-se, escamam-se, descabelam-se, espumejam que nem lesmas aflitas ou caracoletas stressadas... trepam às paredes, muros e sebes vivas - e até, pasme-se, aos arames (pelos vistos, farpados, tal a chinfrineira acompanhante). Como conseguem espumar-se e trepar ao mesmo tempo é prodígio que nunca deixará de me encantar. Mas, dizia eu, e dizia muito bem, queira perdoar o extravio, ocasionalmente escavaco, escavaco muito bem escavacadinho, como convém e manda a ordem. É uma coisa que tem que ser feita com um certo espaçamento, com criteriosa parcimónia, senão, como tudo na vida, enjoa. A fome, ensina a experiência, é o melhor esmoril do paladar. No entanto, por ciganice, porque lhe convinha ou porque lhe apeteceu, o digníssimo Arroja, vossência em pessoa, benza-o Deus, entendeu converter o ocasional em eterno, o casual em permanente. Ou seja, deu em proclamar aos quatro ventos e brisas associadas que eu não faço mais nada no blogue senão destruir e gozar; que nada mais me ocupa na blogovida senão mandar abaixo o idealhame alheio, e fazer em fanicos argumentários imaculados de peregrinos incautos da Santa Verdade de Assobio. Isto é, para si, às três pancadas e colado a cuspo, o píncaro é a montanha; a cereja no topo do bolo é o bolo; o engodo é o caçador. Achei piada à finura. Como sou duma bonomia já quase lendária, não me agastei minimamente. Porém, não pude conter-me de murmurar para com os meus botões: "olha que método interessante! Vamos lá experimentá-lo." Reparei então no seu símio amestrado, o Quim Panzé (panzé porque todo ele é zézinho) e decidi inocular nele a injecção experimental (compreenderá que não ia agora experimentar em si, assim de chofre, tenho-lhe consideração; demais, a ciência tem que cultivar princípios, temos que respeitar uma certa ética: primeiro experimentamos nos macacos, pois claro). Ora, esse seu bugio é conhecido por bolçar guinchos e imbecilidades com uma certa regularidade. Bem, mas não é sempre imbecil, calculo. Lá terá decerto alguns períodos do dia, em que, presumo, esteja calado e quieto, sobretudo quando dorme. Todavia, graças à prodigalidade do seu método arrojado, eu pude calmamente extrapolar que ele era absoluta e ininterruptamente imbecil, que gastava dia e noite nisso; e apresentei, de enfiada e supetão, o resultado conveniente à comunidade científica, digo blogosférica. Vossência, aí, como foi público e notório, não gostou das consequências. Devia ter pensado nisso quando andava, tão alegremente, a semear as causas. Aplicado em mim era ciência, sociologia puro malte, ideurgia de alto nível, mas aplicado ao seu macaquinho é insulto? Isto tem um nome, aliás, dois: fariseísmo, tartufice.

Contudo, para lhe ser simpático, admitamos que me excedi. Que não respeitei, entre outras flausinices de estalo, a moda da época. Defronte do aleijadinho mental não devia, pois, ter exclamado imbecil, mas cidadão portador de imbecilidade. Portador e exportador, tudo o indica. Pois bem, logo à partida, a má fé está a ser sua, não há como negá-lo. Inventa e distorce que "imbecil" é um insulto. Que, ao taxá-lo de tal, alimentava eu a vil intenção de diminui-lo. Quando, na verdade, era exactamente o contrário: mais uma vez, traído pela minha boa índole mancomunada com o meu espírito benemérito, eu estava, isso sim, a promovê-lo. À realidade ostensiva do mentecapto tentava eu apenas atenuar e suavizar com os ouropéis e garridices da imbecilidade, tão simples (e edificante) quanto isso. E desde quando imbecil constitui injúria, nestes mimosos tempos que correm, hein? Vá, diga-me!... Imbecil é, actual e mundialmente, a classe dominante, a raça eleita, a tribo imperatriz, enfim, o Alfa do Admirável Mundo Moderno. Mais: o Topo da evolução! Os imbecis, esses privilegiados pimpões, assistimo-lo a toda a hora, açambarcam já nóbeis de tudo e mais alguma coisa, ministérios de empreitada, presidências de toda a espécie, generalatos, parlamentos, pódiuns, comendas, fundações, cátedras, dómus municipais, administrações, tabelas, televisões, eu sei lá, uma cornucópia! Direi mais, a imbecilidade, hoje, é quase condição sine qua non de sucesso, de carreira triunfal, de pança e papada - e não apenas na função pública! (como a actual crise financeira global, aliás, bem demonstra.) Chamar imbecil, por conseguinte, ao seu Quimpanzé, longe de menoscabá-lo ou enxovalhá-lo é predestiná-lo às maiores proezas e cometimentos, é augurar-lhe o melhor dos mundos, um futuro risonho, em suma, o paraíso na Terra. No mínimo, vai a deputado. E a presidente de Câmara só se ele não quiser. Talvez prefira um clube de futebol, quem sabe. Como vê, (e se teimar em não ver então é que corre o risco de eu me zangar mesmo consigo), diminui-lo? Qual quê! nem por sombras: é, isso sim, turboprojectá-lo à mais altíssima e finíssima roda! Fi-lo por maldade, por vingança? De maneira nenhuma. Fi-lo por inveja, nem mais. O jeito que me dava ser um calhau com olhos!...O repouso e a maravilha ambulatória, a ascensão meteórica, a glória em vida que não seria!...

E se, à luz da realidade, não constitui insulto, sequer vitupério, muito menos se tratou dum acto gratuito. Pelo contrário, foi fruto e longa maturação, de aturado estudo, de leitura atenta. Segui com a maior e mais científica das curiosidades, durante um largo período, as momices do seu buliçoso mono. Verifiquei, assim, empírica e exaustivamente, que era destituído, como diagnostica Aristóteles (De Anima, Livro III) de intelecto activo. Mas possui algumas capacidades rudimentares de aprendizagem. Dou-lhe um exemplo: Em 21 de Fevereiro deste ano, bolçava ele, o seguinte: "Não somos uma tábua rasa (conceito aristotélico)". Não obstante, dez meses depois, em Novembro, ele já tinha adquirido outra ideia, a saber: "Nenhum ser humano é uma tábua rasa em que tudo se pode escrever, como supunha o meu colega John Locke". Quer dizer, em dez meses, ele conseguiu descobrir que afinal fora o colega dele e não Aristóteles o autor da treta. O mais interessante é que nem se dignou corrigir a asneira: demonstra, como é bom de ver, uma capacidade rudimentar de progresso, ensombrada por uma ausência completa de auto-crítica.

Agora, vossência, caro Arroja, deseja assistir a insulto gratuito, alarvajolas e duma trolhice absolutamente pacóvia? Repare novamente no seu macaquinho. Ainda ontem, garatujava ele: "Até hoje nunca tinha lido o Dragoscópio e não vou voltar a ler". Não obstante, nunca me tendo lido nem observado, (e eu acredito e agradeço, pois calculo, comiserado, a canseira mental que não lhe acarrateria, antes de desistir, furioso) já deduziu instantaneamente uma série de deficiências profundas, sobretudo estético-literárias, a meu respeito. O seu macaco, ó Arroja, é duma analfabrutice verdadeiramente atroz, mas dá opiniões. Desova ao desbarato. É peremptório da silva. Confunde arrotos com ideias. Mas como é que ele sabe, pesca e garimpa tantas novidades supimpas, tantas pescadinhas frescas do pensamento ? Vai ao Google, ora aí está. Lê na ciberbola de cristal, o orangotangas. Foi ao Google, confessou ele. Mas nem precisava, já todos tinham percebido que ele vai ao Google. E se calhar o Google vai-lhe a ele. Doi-lhe de lhe terem ido ao acólito, ó caro professor? Não olhe para mim, olhe pró Google. Foi o Google que lhe emprenhou a criatura e a faz estar de tanta esperança e dar à luz de tão incontinente jorrão.
E macaco, papagaio, eco ou boneco
está predestinado ao mais veloz sucesso.
Agora que, além de imbecil, está marreco:
fertilizado pelas orelhas, emprenhou pelo sesso.*

Acusa-me, ainda assim, de lhe ter ofendido o Quim? Criminoso, vil e pusilânime, há-de convir, era se eu tivesse ofendido a verdade.




(E amanhã leva a segunda dose da vacina anti-rábica , que agora vou dormir, tive um dia lixado, e isto até sabe melhor com intervalo, como no cinema. A pena que eu tenho de andar com tão pouco tempo para estes quiosques!...).

* - Com vénia pela glosa ao grande Bocage.

quarta-feira, novembro 19, 2008

O Novo blogue do Caguinchas

Cansado da censura feroz e impiedosa a que se vê sujeito neste blogue (é verdade, eu censuro-o com uma certa selvajaria, aliás, tanta quanto posso e sou capaz), o Engenheiro Ildefonso Caguinchas está a pensar abrir casa própria. É só o tempo de aprender a ler e a escrever. Isso e a conseguir abrir outras páginas na net que não as eróticas, pornográficas e obscenas (entenda-se o site do SLB).
Neste momento, até já pondera e oscila entre dois títulos deveras sugestivos para a inquietante página:
- "Homem-ao-bar" ou "Diário de Montanelas".
Página, que é como quem diz... Na verdade, confidenciou-me ainda há pouco, relampejando naqueles olhares alucinados característicos, o nosso Engenheiro Ildefonso arquitecta mesmo, seriamente, não há quje duvidá-lo, empreender um up-grade no conceito de página: para vágina. Desejo-lhe as maiores felicidades e sigo-lhe a epopeia com atenção.
Entretanto, quem quiser ajudá-no na escolha, só tem que enviar-lhe a preciosa opinião embrulhada no não menos valioso voto. Telepaticamente, claro está. Julgo mesmo que será a única forma funcional de democracia, esta que acabo neste exacto momento de inventar: a democracia telestésica, ou seja, por sufrágio -mais que universal - telepático.
E depois ainda me acusam de não ter ideias construtivas!...

terça-feira, novembro 18, 2008

Dragão, o destruidor de mundinhos

Não podem ver um dragão sossegado que não queiram logo vir desinquietá-lo. O que, convenhamos, feito sem um bom fato de amianto, pode descambar numa experiência deveras traumatizante. É muito ténue, vista aqui do alto destas escamas, a distância entre o homem e o torresmo. Ligeiramente (nestes tempos actuais) maior que a que medeia entre o homem e o insecto, mas não muito.

Vem isto a propósito da mais recente ideia peregrina do Pedro Arroja. Lembrou-se, o distinto académico, de me tecer um avantajado louvor. Nem mais nem menos: elege-me a epítome da destruição e "gozação" (ele quer significar gozo, mas às vezes falta-lhe o português) blogosféricas em Portugal. Nos seus doutos e eméritos versos: " Os posts do Dragão revelam talento, maturidade, graciosidade, imaginação e uma excelente formação filosófica e clássica. Mas quando o leitor se pergunta com que objectivo todo este capital intelectual é utilizado, a resposta é quase invariavelmente um de dois, às vezes ambos ao mesmo tempo: gozação e destruição."

Bem, não é todos os dias que me tecem um estupendo encómio destes. No essencial, cumpre-me agradecer a amabilidade apologética e enviar daqui os antecipados (tanto quanto sinceros) votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo. Algumas minudências acessórias e outras pubofelpúcias circundantes, contudo, requerem umas brevíssimas e complementares notas de rodapé. Ou mão, como estiver mais a jeito.
Começo pela primeira. Provavelmente o Pedro Arroja tem uns certos e compreensíveis cíumes do João Miranda. Isto, porque, como é público e notório, a chamada posta à Mirandesa é-me irresistível. Mais que ao tempero, agora que penso nisso, creio que deve creditar-se à putreza imaculada dos ingredientes. O Pedro Arroja bem se esforça (desse acabado imbecil que lhe serve de sacristinho nos dias pares e side-conas nos ímpares e que responde pelo inenarrável epíteto de Jaquim, então, nem comento), mas não consegue. Às vezes, confesso, até me aproximo, pondero o snack, aprecio os lombos, avalio a tenrinhidade da posta, mas retiro-me invariavelmente entediado. Não duvido, em modo ou tempo algum, da guloseima garantida que o fedor abona e credita; muito menos desprezo os enfeites e rodelinhas sempre a preceito. A realidade, porém, é que nunca está suficientemente vácua, manhosa, sofista, pueril e tratante. Não é que o caro Pedro não se esfalfe e não se note esse -às vezes, titânico – esmero suado, mas deixa sempre umas costuras de senso à vista, alguns pedacinhos de verdade na mistura; uns grumos de decência aqui e ali; um resquício de portuguesismo que, apesar de serôdio, promete desde logo estragos e sobressaltos na digestão. Ora, o senso, a decência, a verdade et al, por minúsculos que sejam, torpedeiam (quando não envenenam) qualquer culinária. Arruínam qualquer sopa, salada, guisado ou simples petisco, tanto quanto desencorajam a mandíbula mais exigente e audaz. Com as postas à Jota Miranda, Deus o abençoe e no-lo guarde por muitos e bons anos, não temos problemas desses. Aquilo mana-lhe naturalmente; a trampolinice está-lhe na massa do sangue; respira falácia como qualquer humano não anfíbio respira oxigénio; é duma protérvia fanática e inefável, quase a raiar o angélico. Quase, que digo eu, a trespassá-lo mesmo, a crivá-lo a eito de ávidas e ferozes dentadas! E depois, não toscando coisa que se veja de praticamente nada, consegue debitar invariáveis e sumptuosas enormidades sobre praticamente tudo. Não é apenas, no meu imodesto entender, o maior de todos os blogueres ao cimo da Terra: é o bloguer quase perfeito. Porque a perfeição, essa, como é evidente, está reservada para a ovelha ronhosa cá da família: o meu primo do Apocalipse, pois. Portanto, estimado Arroja, aceite um conselho amigo: não perca tempo com certas emulações impossíveis. Não se exaura em metas inalcançáveis, em desidérios e refrigérios ultraviçosos e semprerectus. Não basta andar sempre a pedi-las: há também, e sobretudo, que merecê-las. Se o peditório bastasse era a falência da Santa Casa.
Avancemos para o segundo ponto. Ao passear a vista pelo seu laudatório, lembrou-me quase instantaneamente aquela entrevista que fizeram um belo dia ao Anthony Burgess, o ditoso e preclaro autor da “Clockwork Orange”. Questão manhosa, mas capital, do entrevistador: “Porque é que os seus livros versam obsessivamente sobre um mundo de sexo e violência?” Resposta do Burgess: “Mas há mais alguma coisa no mundo?!...” (Já não me recordo das palavras exactas, mas o sentido era este)...
Da mesma forma, ao lê-lo, ó caro Arroja, proclamando que gasto todo a minha vasta e cintilante constelação de virtudes, qualidades e talentos (que clara e galopantemente exagera) num exercício metódico de zombaria e escalavrura, também apetece responder: “E acha que todo este efervescente asnódromo de egos, superegos, pategos e labregos que é a blogosfera merece mais?” Ou então, pior um pouco, vai-nos dizer que milita naquela horda de gente vociferina (ora hostiofágica, ora hostiofóbica) que confunde piamente um blogue com um púlpito ou uma varanda napoleónica?...
Terceiro e não o amasso mais. Acordemos que lhe revelo a chave do mistério, a razão da odisseia. Que, afinal, até é bem simples. Tome nota: tipos com talento, maturidade, graça, imaginação e -nem sequer direi excelente, mas mediana - formação filosófica e clássica, como eu, entregam-se alegremente à destruição e ao desfrute das nano-ideias e pseudo-argumentúcias de energúmenos sem talento, nem maturidade, nem graça, nem imaginação e uma formação filosófica e clássica abaixo de zero. Chama-se a isto justiça poética. Um avatar hodierno da Nemesis ou Ate gregas.
Nemesis, já agora, deixe que lhe diga, poderia ser traduzida (entre outras) por “retribuição”. Ora, ao contrário dos tartufos esquerdóides que bramam a todas as horas por mais distribuição e contribuição, eu não creio que os problemas deste mundo residam num défice crónico de distribuição, muito menos contribuição ou coisa que o valha, mas numa aguda e escandalosa falta de retribuição. Eu sei que estou a ver a coisa a curto-prazo. É um erro típico dos humanos. Mas que quer, apesar de dragão, sou um impaciente. Deixo-me contagiar facilmente pelos indígenas.

Rematando: digamos que assim como o Cireneu ajudou o Cristo a arcar com o madeiro no passo difícil, eu vou adiantando serviço, auxiliando O Lá-de-Cima a dar com idêntica matéria vegetal devidamente aparelhada nos cornos dos sacripantas cá de baixo.

Não possuo, todavia, e como é evidente, os dotes artísticos e justiceiros do meu antepassado Vlad, mas disso, bem amarga, diária e contristadamente, me penitencio.

segunda-feira, novembro 17, 2008

Babel

Entendam isto como prémio de consolação aos irredutíveis leitores desta casa.


«Como em Babel, a Torre pressupõe a Escada, cada novo degrau representa o abandono do segundo. A viagem, por seu turno, é migratória e unilateral: trata-se duma ida para o céu. À partida está fora de questão o regresso, ou sequer a circulação. Nenhuma dúvida é tolerável, nem nenhuma hesitação. Cada novo degrau reflecte portanto uma conquista, um triunfo, uma aproximação ao céu, à divindade, e, isocronicamente, também um abandono, um desprezo, um afastamento do solo, tanto quanto do degrau anterior. Babel metaforiza a Evolução. Nesta é suposto que não só o salto se mascare de voo, como este se consume na ascensão. Arrebatado com cada novo lanço, o homem não sabe exactamente a que altitude encontrará a meta, nem a distância a que fica; sabe apenas que é para cima, que o tempo escasseia e a vida é breve, pelo que cada patamar que atinge, ou melhor, onde se imagina, imagina-o mais próximo do céu e cada vez mais longe da partida. Nesse delírio de se fantasiar cada vez mais próximo do que o obceca esquece completamente aquilo que vai deixando para trás. Cada degrau serve-lhe apenas como trampolim para o degrau seguinte. Uma vez usado, ultrapassado, torna-se irrelevante, descartável, vaga recordação indiferenciável. É como se só existisse consoante o pé humano o pisa e a mão humana o constrói. A mão à frente, o pé logo a seguir.
Por outro lado, o delírio instaura a sofreguidão, a ânsia, o frenesim desvairado: a cada passo, a evolução acelera, exorbita, disparata. Já não é só uma evolução, é uma revolução permanente. Cada novo patamar alcançado, reflecte já um êxtase absoluto: imagina-se o céu. Auto-proclama-se. Inflama-se. Autofunda-se. O Céu é já uma sucessão de céus, andares sobrepostos numa torre, e a escadaria virou elevador a jacto. Doravante, onde está o homem, donde firma novo salto, nesse presente sempre a ameaçar um rejuvenescimento mais acima, uma promoção, aí, é onde está o Céu. Afinal, ao contrário do que Jesus insinuava, o reino não está dentro do coração humano, está debaixo dos seus pés. E na ponta dos seus dedos. Na terminologia Blobglob, claro está, não se diz o “Céu”, mas simplesmente “o melhor dos mundos possíveis”.
De todo este processo trampolineiro –quer dizer, de usar cada momento como trampolim do seguinte-, fica o repúdio pelos trampolins entretanto tornados obsoletos pelo trampolim actual, da moda. Assim, como, na escalada, decorre um processo mais ou menos acrobata de construção duma actualidade celestial, também, na proporção e declive inversos, acontece um processo de obsolescência das etapas que vão ficando para trás e, sobremaneira, do ponto de partida. Um pouco à semelhança do fogo que, conforme alastra, vai acendendo luz e chama à sua frente e deixando, no mesmo acto, cinzas e escombros atrás de si.
Diante dum presente cada vez mais auto-suficiente, arrogante e hermético, já pouca ou nenhuma falta faz o passado. Pelo contrário, só atrapalha. O tempo agora não é de enleios nem vacilações. Mesmo que o sarilho seja de tal ordem, e o erro crónico de tal grau, que as nuvens sombrias da catástrofe iminente espreitem a toda a hora do horizonte, a haver fuga ela só pode ser em frente, a todo o vapor, alguém se há-de salvar. Mesmo que se quisesse voltar atrás já não seria possível. Já se chegou demasiadamente longe. Perderam-se os sinais do próprio rasto. Não se faz a mínima ideia por onde fica o caminho de retorno, se é que ele existe. Por outro lado, voltar agora atrás só atestaria o fracasso absoluto de toda a civilização tal qual a entendemos, ou melhor, nos auto-impingimos. Antes a morte! Antes um desastre total!, que esse reconhecimento da vaidade e do vazio de todo um esforço e trabalho milenares. Seria matar os mortos. Seria dizer que nunca viveram. Se tudo se passou como se passou, foi porque não havia alternativa. Fez-se o melhor que se podia. Nunca foi um mundo perfeito, mas foi sempre o melhor dos mundos possíveis. Especialmente agora, súmula actualizada e revigorada de todos os progressos e conquistas do passado. Mais: é precisamente o presente que justifica e redime do passado. Porque se trata duma escada ascensional, o último degrau é sempre superior ao anterior e infinitamente mais meritório que os iniciais. Ao alcançar cada novo patamar, o homem não só consegue uma proeza atlética e arquitectónica, como se liberta do patamar anterior e de toda a penúria e infâmia decorrentes até aí. É assim que, na relação do peregrino evolutivo com o seu passado, o patamar do presente, mais que uma continuação, é um colocá-lo a salvo. Não admira, portanto, que cada geração se barrique e entrincheire na sua época, no sua actualidade, na sua moda. Quanto mais radical a separação, a estanquicidade, o isolamento desta ao passado, menor o risco de recaída ou contaminação. Trata-se aqui, muito retorcidamente, dum homem a tentar vencer o seu próprio mal pela aceleração. Com arranques e guinadas bruscas, fugas de cometa, tenta que ele desequilibre, resvale e, apanhado de surpresa, traído pelo seu peso e inércia, fique para trás. O pior é que em cada novo patamar, ofegante, exasperado, descobre que ele ainda está consigo, sorridente, impante, pronto para nova corrida. E também maior, mais pesado e opressivo. Instintivamente, como o cão com a cauda a arder, espécie de cometa desvairado, o homem corre para diante, rebola-se, perfaz círculos. E se o mal não desanima, em contrapartida, o homem esboroa-se, confunde-se, dissolve-se.
A Evolução, como em Babel, é uma subida sem opção de retrocesso.
Mas se o mal não se apeia, nem resvala, a não ser na imaginação tecnofântica, há algo que resvala e se vai perdendo nos solavancos e arremetidas loucas da correria. Enquanto o mal não se torna minimamente obsoleto – canta-se o prodígio da medicina e esquece-se que está muito aquém do desenvolvimento das doenças, cada vez mais sofisticadas, sinistras e letais; glorifica-se a tecnologia de ponta e finge não reparar-se na miséria e escravidão da maior parte da manada humana; apregoa-se que a ciência libertaria e afinal só contribui para a eficácia de tiranias cada vez mais desumanas, ignóbeis e perigosas porque camufladas; a fome vai de vento em popa; a guerra é indispensável às economias; comercializam-se drogas a nível planetário e arruinam-se irremediavelmente jovens aos milhões; a violência intra-específica banaliza-se; o incitamento martelante ao desgoverno, à incontinência, ao frenesim é permanente e amplificado; a alimentação, o ar, a água são metodicamente envenenados em nome do lucro e da indústria; os políticos assemelham-se a bandos de parasitas maléficos, peritos no desgoverno, na corrupção e na subversão de todos os valores, expectativas e ideais da humanidade; os regimes, sob a pele de cordeiro das democracias, escondem as garras e as mandíbulas afiadas do despotismo ao serviço de seitas cleptocratas e adeptas furiosas do vampirismo hereditário e vitalício; enfim, eternizar-nos-iamos no inventário-, pelo contrário, certos e ancestrais bens, propriedades do cosmos e da vida, vêm-se, senão varridas da face da terra, à beira da extinção e, em cada dia que passa, ignobilmente sujeitas ao ostracismo da obsolescência.»
- in "O Tratado da Besta"

quinta-feira, novembro 13, 2008

Bruxa de esfregona

Mas sempre vos digo que, mais que um claro exagero, considero um tremendo desperdício gastar ovos com a ministra da deseducação nacinhal. Ovos, tomates ou quaisquer outras hortaliças, frutas, tubérculos ou leguminosas. Mesmo nabos seria demais. Já bastam os alunos e os abóboras dos pais. Em suma: exceptuando talvez couves-de-bruxelas (por razões óbvias), toda e qualquer substância orgânica bradaria ao esbanjamento, à prodigalidade. Um pano encharcado nas ventas era mais do que suficiente. E justo.
Devo até confessá-lo: nas noites em que a metereologia o permita, consigo imaginar ímpetos voláteis numa bruxa daquelas. Lupo-lhe até a silhueta frenética em assombração de horizontes. Só que em vez de vassoura, tenta descolar de esfregona. Debalde.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Amanhecer



Os homens são como os dias: alguns nascem gloriosos; outros nascem cinzentos e enevoados; e outros ainda não nascem de todo: são apenas a imagem pálida e nua da obscura e interminável noite.

quarta-feira, novembro 05, 2008

Tomem lá para o peditório!...

Como diria o general Não-Sei-das-Quantas Sheridan, um bom presidente americano é um presidente morto. Uma regra dourada que poderíamos estender à generalidade da população daquele monturo superpotente, mas isso não vem agora ao caso. O caso é que George WC Bush nunca conseguiu ser um bom presidente. Nem razoável, sequer. E foi pena. Nunca me cansarei de deplorá-lo. Dez anos completos dum grande desapontamento. Obama, porém, estou em crer, não incorrerá em tragédia semelhante. Augura vir a tornar-se, a qualquer momento, um bom presidente. Só espero, com sinceridade, que não nos desiluda e o alcance, a esse belo e justo estado, o mais brevemente possível.

terça-feira, novembro 04, 2008

Do Ghetto ao Globo - VI. Pincelada final

Karl Ludwig Börne começou por nascer e crescer Loeb Baruch, sendo, por essas épocas, conterrâneo da proto-ninhada Rothschild na Rua dos Judeus de Frankfurt. O nome mudou-o quando se tornou, além de luterano, escritor (duplicando assim o desgosto ao pai Jacob que, além de judeu, era banqueiro). Foi já em Paris, onde passou a residir, que legou à posteridade as linhas que se seguem:

«Não seria uma grande infelicidade para o mundo, se todos os reis fossem depostos e a família Rothschild subisse aos seus tronos? Pensem nas vantagens que adviriam. A nova dinastia nunca contrairia um empréstimo, porque saberia melhor do que ninguém como essas coisas se pagam caras, e só por isso o fardo dos seus súbditos seria aliviado de vários milhões por ano. O suborno, activo e passivo, dos ministros teria de cessar; para que haveriam de ser subornados, ou com que haveriam de ser subornados? Tudo isso seriam histórias antigas, e a moralidade seria grandemente fomentada.»

segunda-feira, novembro 03, 2008

Do Ghetto ao Globo - V. O Sindicato

«Antes de 1914 o Banco de Viena fora o financeiro principal do grande império, o primeiro a mover-se no centro nervoso financeiro da Europa do sudeste. Depois de 1918 a Áustria ficou reduzida a uma fracção empobrecida do que fora. Inevitavelmente a firma Rothschild austríaca reduziu-se também.
Na sua qualidade de primeiro, e quase "oficial", Banco particular, "S.M. Rothschild und Söhne" estava ligado ao destino da pequena pátria enfaquecida. Por lealdade comprara papéis do Estado aos milhões, e viu a inflacção devorar-lhe os seus investimentos. Por volta de 1925 não podia, como o seu grande rival vienense, o Banco Castiglione, abalar o Governo especulando com a baixa da moeda austríaca. Esta baixou, é claro. Castiglione adquiriu uma posição altíssima e ameaçava abafar Rothschild.
Castiglione continuou a especular com a baixa do franco. Os seus aliados lançavam e tornavam a lançar no mercado dinheiro francês. O franco descia, a libra e o dólar subiam velozmente. E Rothschild? Os peritos começaram a considerar como acabada a importância da Família da Europa Central. No escritório de seda vermelha da Renngasse fizera-se um grande silêncio. Então, de repente, o franco começou a subir de um modo espantoso, aos solavancos a princípio, depois com uma fúria autêntica, que aniquilou Castiglione. O mundo financeiro estava assombrado. O Barão Louis, com um sorriso impassível, foi para Itália jogar polo.
Que acontecera? Na realidade fora uma história Rothschild muito e muito antiga, que se desenrolara mais uma vez em 1925. Os vários Bancos da mishpoche*, em Inglaterra, França e Áustria tinham secretamente alinhado os seus tentáculos. Com a Casa francesa à cabeça (o Barão Edouard era o director do Banco de França), organizaram um sindicato internacional secreto, que se estendia desde J.P. Morgan em Nova Iorque até ao Creditanstalt de Viena, controlado pelo Barão Louis. Em toda a parte, a um sinal pré-combinado, o sindicato Rothschild começou a fazer baixar as libras e a fazer subir os francos. Tal como no passado ninguém pôde resistir a uma tão grande riqueza manejada com tal perícia.»

- Frederic Morton, "Os Rothschilds"

* - "família", em hebraico

domingo, novembro 02, 2008

Do Ghetto ao Globo -IV. Dinheirus rex

«O trabalho dos Rothschild e o nome dos Rothschild (como o de Napoleão, a maior imagem feita por si própria), serviram para substitiuir a era dos títulos e das árvores genealógicas, pela era do dinheiro e da habilidade. Num dos momentos em que mais comeu e bebeu na Rua Laffitte, Heine considerava os cinco irmãos, grandes revolucionários: Não tinham eles usurpado as últimas pretensões do feudalismo? Não tinham abolido a importância estagnada e hirta da propriedade rural? Não a tinham substituído pelo domínio do dinheiro, pelo capital e juros, que qualquer pessoa podia possuir em qualquer altura? Não eram estes os instrumentos de governação mais flexíveis, justos e produtivos, que jamais tinham sido inventados? E os Rothschild não eram os arquidiabos do progresso?
Não é necessário deixarmo-nos arrastar pelo entusiasmo, como Heine, para reconhecer um facto: os rapazes de Mayer ajudaram a abolir o próprio absolutismo que os utilizara a princípio como seu instrumento. Mesmo sem querer, os Rothshild forneceram mais terreno para o florescimento da democracia burguesa, do que quaisquer outros cinco indivíduos da Europa.
(...)
Lytton Strachey, considerando a Rainha Vitória "excessivamente rica", mesmo entre monarcas reinantes, calculava o valor máximo da sua fortuna em cinco milhões de libras. Pobre Vitória. Um ramo da família podia, sem esforço, fazer compras no valor da fortuna inteira de Sua Majestade, de um momento para o outro. Isto ia ser demonstrado pela compra do Canal do Suez.
A fortuna total do clã, durante quase todo o século XIX, foi calculada em mais de 400 milhões de libras (6.000 milhões de dólares). Mais ninguém, desde os Fuggers aos Rockfellers, se aproximou sequer desse número arrepiante.
Mas é preciso mais do que uma vasta fortuna para criar o mito que celebrizou o nome Rothschild. É preciso, acima de tudo, um ar convincente da parte da própria celebridade. Depois de Aix os cinco irmãos ficaram inabalavelmente convencidos de que o direito divino dos soberanos tinha sido destronado pelo direito divino do dinheiro, e de que Amschel, Nathan, Salomão, Kalmann e James (Jacob) eram dinheiro.»
- Frederic Morton, "Os Rothschilds"

sábado, novembro 01, 2008

Feed our Frankenstein


Em resumo, dos 430 biliões de dinheiro dos otários (vulgo contribuintes) que a plutocracia americana despejou nos bancos, os 6.1 biliões que couberam à Goldman Sachs nem vão chegar para pagar os prémios anuais e bónus de Natal que aquela associação benemérita vai distribuir pelos seus insaciáveis gestores. Ou melhor dizendo, que eles, como já é tradição, vão distribuir entre si.
E ainda há esquerdalhos visionários que se queixam da falta de distributividade da economia capitalista!...
Sim, porque se julgam que é só o Goldman Sachs, o melhor é mesmo irem tirando o cavalinho da chuva:
E a cereja no topo do bolo:

Do Ghetto ao Globo -III. Endogamia eugénica de imitação

«Começando no ramo mais alto, vemos que dos cinco filhos do velho Mayer, os dois mais velhos casaram com simples e sólidas raparigas judias alemãs. O casamento seguinte realizou-se em 1806, quando "Rothschild" já significava êxito para aqueles que percebiam do assunto. Nathan levou para casa Hannah Cohen, filha de Barnett Cohen, o judeu mais rico de Inglaterra. A seguir foi a vez de Kalmann, em 1818. Nessa altura era natural que qualquer membro da Família pudesse escolher entre a fina flor das noivas. Kalmann escolheu Adelheid Herz; os Herzes eram a nata da sociedade hebraica culta, na Alemanha.
Finalmente James, o mais novo, escolheu esposa. O Imperador da Áustria já o fizera, a ele e aos irmãos, barões, e eles próprios tinham-se tornado por si a família mais rica do mundo. Na festa anterior eram importantes. Agora sabiam que eram únicos. O dia 11 de Julho de 1824 exprimiu essa qualidade de um modo convincente. James entrou debaixo de "chupah" (o baldaquim de casamento hebraico) com Betty, sua própria sobrinha, filha de seu irmão Salomão.
Rapidamente se tornou um dogma dinástico, como no caso dos Habsburgos, que o casamento mais brilhante para um membro da Família era com outro membro. Dos doze casamentos consumados pelos filhos dos cinco irmãos, nada menos de nove foram com filhas dos tios. De cinquenta e oito casamentos contraídos pelos descendentes do velho Mayer, realizaram-se exactamente metade entre primos do mesmo grau.
O que é que provocou tantas paixões "em família"? Por um lado havia o facto de que só um pai Rothschild podia fornecer um dote digno de um genro Rothschild. Havia também o desejo de consolidar, e não dissipar, as fortunas; e, talvez o mais importante, de não desperdiçar o nome com estranhos.»
- Frederic Morton, "Os Rothschilds"

quarta-feira, outubro 29, 2008

Do Ghetto ao Globo - II. O Nascimento do Banksterismo

«A economia da Europa pós-napoleónica estava em grande parte centralizada nos esforços de vários países para fazerem sangrar os recursos financeiros internos; isto é, pôrem a flutuar empréstimos nacionais. Aqui os Rothschild, com o seu imenso capital novo, encontravam-se sem um ponto de apoio.
Só a minúscula Prússia os deixou negociar um empréstimo. A Áustria, a taluda, preferia companhia mais elegante. A sua corte antiquada alimentava-se de precedentes e formalidades.(...)
Em França a situação parecia ainda pior. Aqui, Luis XVIII tinha literalmente pedido emprestado o esplendor da restauração dos Bourbon, a Nathan e James Rothschild. Tinham-lhe adiantado saques britânicos para financiar a sua imponente entrada em Paris. Mas isso passara-se em 1814, quando os tiros de canhão eram ainda uma recordação palpável. Agora, três anos depois, os velhos banqueiros aristocráticos tinham regressado, dando ordens dos seus salões. Comparado com eles, qualquer gesto dos Rothschilds parecia um ruído muito impertinente.
O novo governo francês preparava um grande empréstimo, de 350 milhões de francos, e confiou-o a Ouvrard, um distinto nome financeiro francês, e aos irmãos Baring, banqueiros ingleses da moda. Para eles os filhos de Mayer eram "simples troc-moedas". O empréstimo, sem os Rothschild, foi um grande êxito.
Em 1818 começaram as negociações para uma emissão adicional de 270 milhões de francos. De novo Ouvrard e Baring iam à frente; os Rothschilds continuavam a frequentar inutilmente o Ministério das Finanças. Este empréstimo, contudo, era para liquidar a indemnização de guerra francesa. A sua disposição final realizar-se-ia numa conferência com os países vitoriosos em Aix-la-Chapelle.
Na história da família, o esquecido congresso de Aix é um ponto mais importante do que o ainda notável exclusivo de Waterloo. Aix marcou a primeira acareação social entre o grande mundo e os recentemente grandes Rothschilds. Começou com uma roda de banquetes e "soirées" à moda do Congresso de Viena, com os Rothschilds fascinados e gelados lá fora, como crianças pobres diante de uma montra de Natal iluminada. Atingiu o seu auge com um trovão furioso. E quando o estrondo diminuiu, as "crianças" tinham-se apoderado da loja.
Ninguém previu este resultado durante a primeira semana, possivelmente nem mesmo Salomão e Kalmann, que estavam presentes como representantes da família. Para começar, a Inglaterra enviara Lord Castlereagh, em vez de John Herries, o seu velho amigo. Salomão e Kalmann deviam ter-se sentido perdidos num mundo tão sobrecarregado de protocolo antiquado, com elogios tão enviesados. O seu "habitat" natural era a Bolsa, e não a sala de baile.
No entanto os alfaiates mais caros tinham-lhes fornecido coletes e gravatas dos melhores tecidos. As suas carruagens brilhavam. Os cavalos reluziam. Que importância tinha o facto de a sua gramática ser um pouco primitiva? Além disso Kalmann acabara de casar com Adelheid Herz, da família hebraica mais soignée da Alemanha. A noiva encabeçaria o "bon ton" da família.
Porém não serviu de nada. Sempre que os irmãos queriam falar com o Príncipe Metternich, este estava a ser recebido pelo Duque de Richelieu. Lord e Lady Castlereagh não se encontravam em lugar nenhum, pois andavam sempre a passear com o Príncipe Hardenberg. Os Rothschilds não eram incluídos em nenhuma destas reuniões. Baring e Ouvart, os seus rivais, pareciam tomar parte em tudo.
Só os secretários estavam disponíveis, e os secretários sorriam com frieza: Sim, as negociações com Baring e Ouvrard encaminhavam-se para uma conclusão. Para quê mudar de parceiro a meio da valsa? As obrigações do empréstimo de 1817 não estavam naquele momento a subir na Bolsa de Paris?
Os Rothschilds decidiram tentar mais uma vez. Completaram a compra de Friedrich von Gentz, um brilhante publicista, amigo de Metternich, e peralvilho do congresso. Compraram David Parish, um jovem banqueiro elegante, que se gabava de boas relações com Baring. Compraram todas as graças sociais vendáveis. verificaram e tornaram a verificar se as suas calças e sobrecasacas e as librés dos criados estavam impecáveis. Tudo estava em ordem.
Nada deu resultado. Nos salões as pessoas divertiam-se com o aspecto intrigado de Kalmann, com as expressões carrancudas de Salomão. No meio do divertimento geral passou despercebida outra circunstância: os correios que entravam e saiam da residência dos irmãos, com frequência crescente.
Todo o mês de Outubro de 1818 Aix fez salamaleques, pulou, passeou e ignorou a existência daqueles tolos dos Rothschilds. A 5 de Novembro aconteceu uma coisa estranha. As obrigações do governo francês, o famosos empréstimo de 1817, começaram a descer, depois de subirem continuamente durante um ano. Dia após dia desciam cada vez mais. E não era apenas isso - outros papéis também oscilavam. Do céu azul rebentavam tempestades. Estava à vista um "crash", não só em Paris, mas nas Bolsas de toda a Europa.
A música parou em Aix. Os cavalheiros nobres estavam como que encadeados no esplendor subitamente interrompido. É que, no fim de contas, tinham-se feito uns empregozitos de capital.
Os príncipes é que mostravam agora expressões carrancudas, ao passo que - caso curioso! - Kalmann e Salomão sorriam. Um rumor fez estremecer os salões. Teriam aqueles Rothschilds...
Aqueles Rothschilds tinham... Com as suas reservas ilimitadas tinham comprado durante semanas, as obrigações emitidas pelos rivais, especulando com o papel, comprando secretamente em grandes quantidades. E depois, num gesto impiedoso, tinham lançado no mercado tudo o que tinham adquirido. Através de todo o continente os alicerces das finanças gemiam. A alta sociedade sabia agora o que significava recusarem reconhecer um Rothschild.
Metternich, o Duque de Richelieu, o Príncipe Hardenberg fizeram o que havia a fazer. Seguiu-se uma entrevista séria entre eles e Ouvrard e Baring, em cujo novo empréstimo (ainda por nascer), eles tinham já reservado quantias por sua conta própria. Falaram; separaram-se; o empréstimo projectado desfez-se em nada.
Então, Salomão e Kalmann foram convocados e -pasmai! - os seus trajos eram agora a última moda, o seu dinheiro o mais precioso para quem o pedia emprestado.»

- Frederic Morton, "Os Rothschilds"

terça-feira, outubro 28, 2008

Do Ghetto ao Globo

É uma 1ª edição de 1963 e encontrei-a numa das minhas voltas pelas alfarraburas. Refiro-me à tradução portuguesa de "Os Rothschilds", de Frederic Morton. A história é escrita em tom apologético, sob o beneplácito da Família, mas não está mal escrita, a tradução recomenda-se, e lê-se com bastante agrado. Deve ainda realçar que, em meu entender, são geralmente mais esclarecedoras e sugestivas estas obras apologéticas, laudatórias, até triunfais, que os seus inversos.
Em homenagem a esta crise actual, beirabunda de sabe Deus o quê, que, dizem, a economia planetária atravessa, julgo da maior pertinência postar algumas passagens desta feérica e fulminante saga. Farei apenas transcrições, sem quaisquer comentários meus. Limitar-me-ei ao título da série: "Do Ghetto ao Globo", porque descreve exactamente a ascensão. Mas vamos ao que interessa...

«A batalha de Waterloo estabeleceu a Inglaterra como a maior força europeia. Para os Rothschild, seus principais agentes financeiros, Waterloo representou uma "caixa" no valor de muitos milhões de libras. A fama desse golpe enfeitou-a, em anos posteriores, com pombos correios e outros acessórios lendários. Mas, como a maioria dos feitos da família, baseou-se em trabalho muito árduo e em astúcia muito fria.
O trabalho começara há muito tempo. Logo que os rapazes saíram de Francfort e se espalharam pela Europa, tinham começado a enviar uns aos outros, afadigadamente, interminavelmente, tópicos de interesse comercial ou geral. Não tardou que surgisse um serviço de notícias privado. (Na Casa de Londres manteve-se até à 2ª guerra Mundial, sob a forma de uma dúzia de Correios vestidos de azul, prontos a partirem, de um momento para o outro, para o Rio, Melbourne ou Nairobi).
As carruagens dos Rothschild corriam pelas estradas; os barcos dos Rothschild atravessavam o Canal da Mancha; os mensageiros dos Rothschild eram sombras ligeiras que deslizavam pelas ruas. Transportavam dinheiro, títulos, cartas e notícias. Principalmente notícias - as últimas notícias exclusivas que iam ser vigorosamente processadas nas Bolsas de Títulos e de Mercadorias.
E não havia notícia mais preciosa do que o resultado de Waterloo. Durante dias e dias a Bolsa de Londres tinha arrebitado as orelhas. Se Napoleão ganhasse, as consolidadas inglesas sofreriam uma grande baixa. Se perdesse, o império inimigo despedaaçar-se-ia e as consolidadas subiriam.
Durante trinta horas o destino da Europa esteve pendente, envolto em fumo de canhão. A 19 de Junho de 1815, ao fim da tarde, um agente dos Rothschild saltou para um barco em Ostende. Na mão levava uma gazeta holandesa ainda húmida de tinta. Ao alvorecer de 20 de Junho, Nathan Rothschild, no porto de Folkstone, percorria com os olhos os primeiros parágrafos das notícias. Um momento mais tarde ia a caminho de Londres (batendo o mensageiro de Wellington por muitas horas de avanço), para dizer ao governo que Napoleão fora aniquilado. Depois dirigiu-se para a Bolsa.
Outro homem na sua posição teria convertido todo o seu dinheiro em consolidadas. Mas este homem era Nathan Rothschild. Encostou-se à "sua coluna". Não investiu. Vendeu. Vendeu a preços muito baixos.
O seu nome era tal que um único gesto substancial da sua parte era o suficiente para fazer descer ou subir uma emissão. As consolidadas desceram. Nathan continuava encostado, e vendia e tornava a vender. As consolidadas desceram ainda mais. - O Rothschild lá sabe, - murmurava-se pela Bolsa- Waterloo está perdido.
Nathan continuava a vender, o rosto redondo, imóvel e severo, os seus dedos grossos afundando o mercado em dezenas de milhares de libras, a cada sinal de venda que faziam. As consolidadas iam a pique, as consolidadas iam ao fundo - até que, um segundo antes de ser demasiado tarde, Nathan de repente comprou uma quantidade gigantesca por dez réis de mel coado. Passados uns momentos estalava a grande notícia, que fazia com que as consolidadas subissem muito alto.
Não podemos adivinhar o número de esperanças e pecúlios desfeitos com este pânico preparado. Não podemos calcular quantos criados de libré, quantos Watteaux e Rembrandts, quantos cavalos puro-sangue dos estábulos dos seus descendentes, foram ganhos pelo homem encostado à coluna da Bolsa, nesse dia.»

segunda-feira, outubro 27, 2008

Celebridade e multidão

«Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos.»
- Fernando Pessoa

«Ao contrário das catástofres, Deus não aprecia multidões.»
- César Augusto Dragão

No grego, o verbo chelew significa seduzir (com o canto ou por qualquer arte), encantar, mas também corromper. Posteriormente, no latim, "celeber" significará "frequentado", "festejado", de que se fala muito", "célebre", "numeroso", "abundante". Dai provirá o nosso "célebre".
O célebre é assim, não custa lobrigá-lo, aquele que seduz a multidão, aquele que a multidão festeja, aclama e frequenta, em suma, o encantador de multidões. O enlevo ou entertainer das massas. O truão da cegada.
Entretanto, a multidão, que os gregos denominavam "ochlos", já repugnava ao bom Jesus. A cada passo vêmo-lo a afastar-se dela, a retirar-se sozinho para os olivais. O número não o seduz nem fascina lá muito. Mesmo o bando de apóstolos, ora pusilânime, ora sonolento, merece-lhe algum cepticismo lúcido. Atravessa a turba e o tumulto como atravessa as águas indiferenciadas e revoltas do lago Tiberíades: caminhando enxuto por sobre aquilo tudo.
Sair daqui enxuto, isto é, não lambuzado pela turba. Acreditem-me: meta de vida mais nobre não conheço.



domingo, outubro 26, 2008

Esquisitice

Dois antropófagos amazónicos tinham acabado de caçar um missionário jesuíta. Estavam agora a pitá-lo, quando, perto dali, avistaram um terceiro canibal que passava...
-"Olha! Não é o teu primo Tapuri?" - Exclamou um deles.
-"É." - Respondeu o outro.
-"Então, e não o convidas para a petiscada? É bem gordinho este padre, chega bem para três."
-"Pois, de facto. Mas o meu primo não come padres."
-"Não come padres?!!" - Assombrou-se o primeiro. - Não me digas que deu em vegetariano!..."
-"Não. Só come rabis. Diz que é um canibal Koscher."

sábado, outubro 25, 2008

Brincar às casinhas (rep.)

Sobre este frenesim das bichonas, escuso de me repetir, no essencial. Basta repor o que já aqui declarei há uns anos, com duas pequenas actualizações (desde então, apenas as eleições e o tsunami mudaram de vítimas)...


A juntar às eleições nos Estados Unidos, ao Tsunami nas metafinanças e ao Holocausto da Segunda Guerra Mundial, outro dos grandes problemas nacionais, dos mais prementes e prioritários na agenda política, é a adopção de crianças por casais homossexuais. Começo por dizer que não entendo, não é compreensível sequer, que os homossexuais sendo tão avançados, tão liberabundos, afrontando tão visceralmente a sociedade num dos seus núcleos fulcrais (a própria família biológica –e que eu saiba, não há outra), se tenham depois contentado com aquela farsazinha burguesa do casal. O maridinho e a esposa, a esposa e o maridinho, quiçá por turnos, numa monogamia tão rançosa quanto a dos piores burgueses de Stendhal. Para cúmulo, como se essa paródia grotesca já não bastasse, agora reclamam o resto dos acessórios, a filharada em comitiva, de lacinho e chapéu, para irem todos -muito dignos e apessoados - à missa, ao domingo. Antes disso, e depois também, é mais que certo que tratarão de mover o céu e a terra de modo a obrigar os padres a casá-los, a baptizar-lhes os fedelhos adoptivos, a dar-lhes catequese, e a ouvi-los –a todos, aos cabrões dos putos e aos estafermos dos pais – em confissão semanal. Menos que isso, ó da guarda, que é discriminação. Uma miséria, enfim! Mandá-los a todos para o caralho seria redundante.
Mas, isto do "casal" intriga-me. De facto, porquê casal homossexual? Porque não trio, quarteto, quinteto, caterva, centúria ou, como até bem mais emblemático seria, comboio ou sanduiche? Porque carga de água se lembraram de arremedar a famelga tradicional, estúpida, obsoleta, e não o grupo de jazz, a tuna académica ou o expresso transcontinental? Porquê uma monogamia a todos os títulos gasta, nas vascas, e não uma poligamia, ou poliandria, ou policongresso itinerante? Como quereis que vos levem a sério, ó bichonas, com essas parelhazinhas de imitação, de pechisbeque, de pacotilha? Casal por casal, o juiz, que não é parvo nenhum, entrega o desgraçado do órfão aos burgueses tradicionais, caga-se nos peregrinos. E acho muito bem. Mal por mal, antes aquele que já se conhece e contra o qual já existe legislação. Agora imaginem: “Quarteto homossexual”, “comboio homossexual”...
É catita, não? O meirinho anunciava: “meritíssimo, está lá fora um “comboio homossexual” que pede para adoptar uma criança, de preferência menino!” Aqui, o juiz, no mínimo, impressionado pelo número, hesitava, suspendia na balança e era forçado a admitir que vinte, ou duzentos (fora os contactos, as liaisons), sempre pesam mais que dois. Mesmo um quarteto ou quinteto, um trio que fosse, já acrescentavam qualquer coisa. Já o levavam a pensar duas vezes. Já o punham a fazer contas de cabeça, a extrair raízes quadradas, co-senos e algoritmos. Nestes nossos dias, a contabilidade é preciosa, vale muito, avassala as mentes. É preponderante. Agora assim, vão duas avantesmas amaneiradas, a cavalo num livro de cheques, de braço dado, e o que é que o meirinho murmura ao juiz? “meritíssimo, estão ali fora duas bichonas, armadas em barbies chocas, a pedirem criancinhas para irem brincar às casinhas!” Em resumo: um casal homossexual, gay, ou o que lhe queiram chamar, não é digno de adoptar crianças porque é uma anedota de mau gosto, uma bimbalhice abaixo de cão, mais digna até de dó e cuidado clínico que propriamente de apedrejamento ou invectiva. E se a inteligência e o conhecimento são limitados, a estupidez também deveria sê-lo. Urgentemente. Até por uma questão de higiene e saneamento básico. Quando não, é a própria sanidade mental das sociedades que entra em colapso. Porque em degradação consumptiva anda ela há muito tempo.

Cassandras ao desbarato

Perguntado sobre o que de mais injusto lavra no país, o cidadão avulso não hesita: a Justiça; inquirido sobre o que de mais desgovernado, impestenejante, dispara: o Governo; interrogado sobre o que de mais errático, grosseiro e analfabeto, nem vacila : a Educação. E o restante vai pela mesma tabela... O mais doente? A Saúde. O mais mentiroso? A Informação. O mais vulgar e rasteiro? As Elites. O mais delapidador? A Economia & Finanças. O mais imundo? A Asae.

É todo um país virado do avesso. A berrar pelas costuras. Mas o mais sintomático é que não estamos perante mero paleio de táxista. O problema é que a realidade escorreu e liquefez-se num sórdido charco de absurdo cada vez mais alucinante. Já não são apenas simples verbos delirantes que vão ao volante de táxis: são Cassandras. À realidade, os politólogos, pantósofos e analistas lambuzam-na, quando não estão de pata alçada nela; eles, todavia, os outrora tresloucados motolálios, doravante chocalhantes de lucidez, proferem-na.
Ressalta uma, entre muitas evidências: Não foi só a completa noção de higiene mental básica que o país perdeu; foi a inteira noção de ridículo.

segunda-feira, outubro 20, 2008

Finanssauros Rex



«JPMorgan Responsible for the Destruction of U.S. Financial System»

Todo um vórtice em acção...

«JPMorgan is a monster predator at work, hidden from view...»

Mas "escondido das vistas" só se for mesmo dos ceguinhos e pataratas. Está bem que é a generalidade da população, mas ainda assim...

domingo, outubro 19, 2008

Purga com justa causa

Aproveitando a onda de purga democrática em que a blogosfera, sempre tão devotamente, surfa, sinto-me tentado a expulsar deste blogue o Engenheiro Ildefonso Caguinchas. Ele, segundo me confessou há bocadinho, também se debate em ânsias de correr comigo a pontapés o quanto antes. Mais que divergências acerca da linha editorial - que, como todos sabem, ora prima pela inexistência, ora lucila pela cornucópia-, anima-nos uma esperança galifona e doravante não mais secreta: que o vencedor, democrata redimido e recauchutado, receba como prémio o convite para participar no Corta-Fitas. Onde substituirá, com garantida vantagem, o deposto Paulo Cunha Porto, não na escrita (até porque promete de antemão não escrever), mas, isso sim, todos os dias (domingos e feriados inclusivé) no ronroneio e assédio galante à donzela em epígrafe.
Aliás, se for eu o felizardo, como bem espero, levo comigo um bónus acrescido: falo francês. (O Paulo, estou em crer, também falava, mas não com a guturalidade cavernosa que é apanágio cá da espécie).

Venha a higiene!

«Os agiotas da Bolsa esganiçam-se agora a filosofar acerca da humanidade..., que para muitos deles não passa de um negócio. Porque, na realidade, sem a guerra, pode acontecer que se derramasse ainda mais sangue. Acreditai-me, em não poucos casos, se não em todos, - prescindindo das guerras civis -, é a guerra um meio de alcançar com um mínimo de efusão de sangue, de dor e de rasgos de energias a paz internacional e de estabelecer, quanto mais não fosse aproximadamente, relações normais entre os povos. Claro que é triste que assim seja; mas assim é. Mais vale acabar de uma vez à espada que sofrer dores intermináveis. E em que é preferível à guerra a paz actual entre as nações civilizadas? Pelo contrário, muito mais do que a guerra, animaliza o homem a paz duradoura, tornando-o cruel. Porque uma longa paz gera sempre vulgaridade, cobardia, um egoísmo cru e ácido e sobretudo... inércia espiritual. Nas épocas de prolongada paz só engordam os exploradores do povo. É crença geral que a paz produz riqueza... Mas isso apenas para a décima parte dos mortais. E essa décima parte, que não tarda a contagiar-se das enfermidades da riqueza, comunica-lhes, naturalmente, essas doenças às nove partes restantes, claro que sem a riqueza. Mas adoece de corrupção e de cinismo. Como resultado de a riqueza se acumular nas mãos de alguns poucos, os sentimentos desses embotam-se até raiar pela estupidez. O sentimento de distinção converte-se em manifestações de anormal ousadia e de anormalidades caprichosas. A voluptuosidade gera crueldade e cobardia. A alma grosseira e ébria do voluptuoso é mais cruel que a do próprio vicioso. Voluptuoso que desmaia diante de um dedo cortado é capaz de não perdoar a um pobre diabo uma dívida insignificante, pondo-o, tranquilamente, à sombra. Mas a crueldade gera uma preocupação meticulosa, cobarde, com a segurança própria, que, com o tempo, numa paz duradoura, se converte em angústia quase mórbida, a qual acaba por penetrar em todas as camadas sociais, provocando a mais tremenda ambição do dinheiro.»

- Dostoievski, "Diário de um escritor"

Dizia Nietzsche que "a guerra é a higiene dos povos". Nos últimos séculos, porém, tornou-se uma negociata suja de agiotas, um autêntico jacuzzi de pocilga. Pelo que, num sentido íntimo, actualmente, nem se diferenciará muito da paz. Ambas servem os mesmos interesses, ambas ordenham a mesma gadeza repugnantemente horizontal e suinocéfala. Que lhes faça bom proveito. Por mim, continuo imune às subtilezas destes progressos agro-pecuários. Permaneço um nostálgico incurável e empedernido duma boa guerrazinha à moda antiga. De um daqueles ginásios daquilo que os gregos apelidavam - com infinita justeza - de "andros". Ou seja, o viril.
A esta transumância burgueza, a toque de mamon, façam-me um favor: não lhe chamem civilização. Soa obsceno. Chamem-lhe castração & esterilização Inc. Do corpo, do espírito e dos sonhos.
E das duas uma: ou tomamos banho, ou ficamos à espera que nos varram daqui. Pois num tempo em que cada vez mais nos adestramos na separação do lixo e em que cada vez menos nos separamos e distinguimos dele, este, temo bem, será, mais dia menos dia, o destino fatal.

sábado, outubro 18, 2008

Jeff Beck - A day in the life (Beatles)

No meu modesto entender, o maior guitarrista do rock.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Haia com Deus!...

Um senador americano, do estado do Nebraska, apresentou queixa em tribunal contra Deus. Não é brincadeira. Aconteceu mesmo. O Todo Poderoso foi destemidamente processado por terrorismo contra os habitantes de Nebraska e os indígenas do planeta Terra em geral. De caminho, Ernie Chambers, o queixoso, requereu uma providência cautelar contra O Lá-de-Cima, de modo a impedi-lo de prosseguir com as seus reiterados abusos, ilegalidades e perfídias antropofóbicas. O Juiz federal a quem, em primeira instância, coube avaliar o caso, lamentavelmente, não foi lá muito sensível às razões do demandante: mandou arquivar o processo por desconhecimento absoluto do paradeiro domiciliar do arguido, acrescido da impossibilidade concomitante de lhe fazer chegar, em tempo útil, a notificação legal.
Entretanto, irredutível, o queixoso ameaça apelar. Argumentando, não sem alguma lógica, omnisciência reconhecida da parte do criminoso.
Não vou discutir aqui a pertinência da demanda. Direi apenas que o foro me parece, de todo, desadequado. Para os alegados crimes em questão, o queixinhas deverá dirigir-se a Haia.

PS: Em todo o caso, sempre parece menos estúpido proceder-se contra alguém que não sabemos onde mora do que contra alguém que garantimos, a pés juntos, nem sequer existir.

terça-feira, outubro 14, 2008

quarta-feira, outubro 08, 2008

US Economy Collapsing

Um vídeo altamente instrutivo.

Otárius ininterruptus


Pobres otários... Ainda nem tinham acabado de pagar o défice interno e já os albardam para alombarem com a crise global!...

terça-feira, outubro 07, 2008

A vanguarda

Em "MacBeth", escreve Shakespeare a dado passo:
« - E que é ser traidor?
- Faltar à palavra e juramento.
- A isso chama-se traição?
- E quem a pratica merece ser enforcado.
- Todo aquele que a pratica?
- Todos.
- E quem os enforcará?
- As pessoas honradas.
- Então bem tolos são os traidores, pois sendo tantos parece que deveriam ser eles a enforcar a gente honrada.»
E depois viviam a expensas de quem? (poderia acrescentar eu, pensando e transpondo para esta nossa lusa actualidade)...

A traição, aliás, tem por hábito mascarar-se de vanguarda. Dito à maneira da esquerda. Na direita, chamam-lhe elites. A mesma bosta com embalagens diferentes. A forma como o nosso saudoso D.João II tratou da elites deveria ter constituído paradigma e farol para a posteridade.

domingo, outubro 05, 2008

Dia de Nojo



«Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço de terra
Que é Portugal a entristecer -
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer,
ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro...

É a hora!»

- Fernando Pessoa, " Mensagem"

Culinária Legal

Acompanhemos o evoluir duma cavilação através do labirinto jurídico...

No Decreto-Lei 48/95 podia ler-se:

Artº 240 - Descriminação racial

1. - Quem:
a) fundar ou constituir organização ou desenvolver actividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência raciais, ou que a encoragem; ou
b) participar na organização ou nas actividades referidas na alínea anterior ou lhes prestar assistência, incluindo o seu financiamente;
é punido com pena de prisão de 1 a 8 anos.

2 - Quem, em reunião pública, por escrito destinado a divulgação ou através de qualquer meio de comunicação social:
a) provocar actos de violência contra pessoas ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor ou origem ética; ou
b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor ou origem étnica;
com a intenção de incitar à discriminação racial ou de a encorajar, é punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos.

_________ //__________________

Pois bem, três anos depois, através da Lei 68/98, o mesmo artº 240 enriquece-se com o acrescento da discriminação religiosa à racial, passando a rezar do seguinte jaez:

Artº 240 - Discriminação racial ou religiosa

1 - Quem:
a) Fundar ou constituir organização ou desenvolver actividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência raciais ou religiosas (...)
2 - Quem, em reunião pública, por escrito destinado a divulgação ou através de qualquer meio de comunicação social:
a) provocar actos de violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional ou religião; ou
b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional ou religião, nomeadamente através da negação de crimes de guerra ou contra a paz e a humanidade (...)

_________ //__________________

E, finalmente, no ano transacto, chega-se à redacção actual, por via da Lei 59/2007:

Artº 240 - Discriminação racial, religiosa ou sexual

1. - Quem:
a) Fundar ou constituir organização ou desenvolver actividades de propaganda organizada que incitem à discriminação, ao ódio ou à violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo ou orientação sexual, ou que a encorajem (...)
................ .......................
2 - Quem, em reunião pública, por escrito destinado a divulgação ou através de qualquer meio de comunicação social ou sistema informático destinado à divulgação:
a) Provocar actos de violência contra pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo ou orientação sexual; ou
b) Difamar ou injuriar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, religão, sexo ou orientação sexual, nomeadamente através da negação de crimes de guerra ou contra a paz e a humanidade; ou
c) Ameaçar pessoa ou grupo de pessoas por causa da sua raça, cor, origem étnica ou nacional, religião, sexo ou orientação sexual;
com a intenção de incitar à discriminação racial, religiosa ou sexual, ou de a encorajar, é punido com pena de prisão de seis meses a cinco anos.


_________________________ //___________________________


Esta informação foi-me fornecida por um ilustre contertúlio, homem de leis, a quem daqui envio os meus agradecimentos e homenagens.
Penso que a clareza da receita, os seus temperos, molhos e tempos de confecção ressaltam bem patentes do próprio texto, nos seus meandros evolutivos, e dispensam ulteriores comentários. Fica o alerta. É sempre bom sabermos das linhas com que nos cosem... as beiças.

sábado, outubro 04, 2008

O Panihilismo

O capitalismo está onde sempre esteve: falido; e o Mercado é uma fantasia que alguns papagaios de serviço teimam em investir com os atributos de divindade omnisciente e omnipotente. Notem que quando eu digo "o capitalismo" quero tudo menos significar o "sistema capitalista". "Sistema capitalista" constitui um dos maiores oximoros ao cimo deste planeta de otários. Colocar "sistema" e "capitalismo", mais que na mesma frase, no mesmo conceito, equivale a reunir na mesma solução a água e o azeite. O réptil e a ave. Quando refiro "capitalismo" designo, pois, a realidade e não a quimera.
O Capitalismo, dito com propriedade, consiste, desde sempre, numa multiplicidade de esquemas sob um denominador comum: lucro. Sendo que a característica intrínseca e régia dessa multiplicidade é a ausência de freio ou limite, seja em termos éticos, seja em termos políticos, seja, ainda mais, em termos estritamente económicos. Essa, de resto, é a sua tendência motora permanente e obsidiante: o demandar sempre mais e mais, numa lógica bruta, fria e cega de pura acumulação. No capitalismo - a que o maquiavelismo serve, em simultâneo, de pajem e cábula - nem a moral, nem a sistematização são para ali chamados. Ou não tivesse resultado, tal aventesma, precisamente da ausência quer de moral, quer de sistema. Ou não germinasse, tamanho aborto, precisamente duma falência: a da civilização europeia.
Por isso, investi-lo de qualquer sistema, moral, finalidade, princípio ou, pior ainda, ideologia, só não raia a bacoquice porque, em bom rigor, a ultrapassa a galope. O capitalismo não cumpre ideologias, receitas nem programas: excede-os. Dizendo melhor: serve-se deles. Conferir-lhe qualquer uma dessas roupagens putativas é atribuir-lhe limites ou definições, ou seja, é mascará-lo e cobri-lo daquilo que ele, de facto, não é.
Assim, a ideia de que há um capitalismo benigno e um capitalismo selvagem é, sem sombra de dúvida, dos delírios mais tansos que me foi dado assistir nesta vida. Mais que alheamento, requer aturdição. É como dizer que o crocodilo se comporta pessimamente à solta num rio, mas devém óptima companhia uma vez confinado às paredes duma piscina pública ou tanque municipal.
No entanto, concorrendo em paralelo com esta perspectiva delirante, existe e persiste, anedoticamente, uma outra ainda mais cómica: a de, pelos mais diversos meios e fórmulas peregrinas ou dissolventes, querer destruir o capitalismo. É como querer destruir a destruição, arruinar a ruína, corroer a corrupção ou desmantelar o caos. É como combater corpo a corpo contra areias movediças. O capitalismo agradece. Depois de, geralmente, ter promovido, pago e agenciado.
Por conseguinte, nesse sentido paradoxal, o capitalismo é inatacável e indestrutível. Não se combate, não se desmonta, nem se derruba. Requer, outrossim, alguns procedimentos básicos de abordagem, de que saliento apenas dois, ambos indispensáveis: tanto quanto inalar, evitar pisar-se. Pois tão perigosa quanto a sua toxicidade, só mesmo a sua peganhentice.

quinta-feira, outubro 02, 2008

Vasos comunicantes

«The business of taking deposits and lending by banks had been split during the Great Depression from the business of underwriting and selling stocks and bonds—investment banking—by an act of Congress, the Glass-Steagall Act of 1933. The law was passed amid the collapse of the banking system in the United States following the bursting of the Wall Street stock market bubble in October 1929.
That Glass-Steagall act was a prudent attempt by Congress to end the uncontrolled speculative excesses of the Roaring Twenties by New York finance. It established the Federal Deposit Insurance Corporation to guarantee personal bank deposits to a fixed sum that restored consumer confidence and ended the panic runs on bank deposits.
In November 1999, after millions spent lobbying Congress, the New York banks and Wall Street investment banks and insurance companies won a staggering victory. The US Congress voted to repeal that 1933 Glass-Steagall Act. President Bill Clinton proudly signed the repeal act with Sandford Weill, the chairman of Citigroup.
The man whose name is on that repeal bill was Texas Senator Phil Gramm, a devout advocate of ideological free market finance, finance free from any Government fetters. The major US banks had been seeking the repeal of Glass-Steagall since the 1980s. In 1987 the Congressional Research Service prepared a report which argued the case for preserving Glass-Steagall. The new Federal Reserve chairman, Alan Greenspan, just fresh from J.P. Morgan bank on Wall Street, in one of his first speeches to Congress in 1987 argued for repeal of Glass-Steagall

Justice for all

«Banquo - It will be rain tonight.
First Murder - Let it come down.»
- Shakespeare, "Macbeth"

«Ten reasons not to bail out Wall Street.»

A Bolsa ou a vida!...

Se não lhes derem imediatamente (e para começar, porque depois novas exigências se seguirão) o dinheiro que eles exigem, podemos, desde já, ir antecipando alguns dos efeitos devastadores daí decorrentes:
-«Petróleo pode recuar para os 50 dólares em caso de recessão mundial».

Mas, afinal, estão a ameaçar-nos ou a seduzir-nos?...

Se bem que, após toda esta recente farsa do "crash de faz-de-conta", alguém levar ainda a sério previsões, prognósticos, augúrios ou o que quer que seja destes gangsters financeiros só mesmo por tonhura grosseira, hirsuta, relapsa e obsessiva.

quarta-feira, outubro 01, 2008

O Crime compensa

«Wall Street Executives Made $3 Billion Before Crisis »

«Merrill Lynch & Co. paid its chief executives the most, with Stanley O'Neal taking in $172 million from 2003 to 2007 and John Thain getting $86 million, including a signing bonus, after beginning work in December. The company agreed to be acquired by Bank of America Corp. for about $50 billion on Sept. 15. Bear Stearns Cos.'s James "Jimmy'' Cayne made $161 million before the company collapsed and was sold to JPMorgan Chase & Co. in June.»