domingo, agosto 31, 2008

Com hífen ou sem hífen - I

O Engenheiro Ildefonso Caguinchas desembestou na tasca, aliás cibertasca, visivelmente preocupado e todo ele a coçar-se, da nuca aos cotovelos. À maneira dos peregrinos defronte dos oráculos, cachapou-me com a seguinte e hirsutíssima questão:
-"Dragão, parece que anda para aí uma epidemia de anti-semitismo. Dizem que é uma espécie de sarampo, bexigas doidas, ou lá o que é. Aquilo pega-se, ó Dragão! É a nova sífilis, Ando até preocupado: estarei eu também anti-semítico? Na volta, montei alguma anti-semítica infectada e o escarépio já me trepa, da cabeça da gaita à cabeça do engenheiro. Não há médicos para estas coisas? Centros de rastreio? radiografias? Foda-se, pá, tu diz-me: onde é que um gajo pode ir fazer análises por via das dúvidas?..."
Reconheci-o genuinamente angustiado, pelo que, como me competia e obrigava a tradicinha, tratei de retirar o devido e tradicional proveito da situação.
Comecei para convocar, de emergência, o C.A.F.T.E.N. (Comité de Análise de Factos Técnicas e Empresários da Notícia). Congregado o devido quórum, mais o fórum e o bóra-bórum - e já com a ucraniana protocolar ao colo - presidi. Como de resto me competia, soberanava e estava predestinado desde o primeiro orgasmo do cosmos. Abri, rompi e desflorei a sessão, vociferando, em tom peremptório, o ponto de ordem que passo a enunciar:
-"Comissáurios, o nosso ilustre - e geralmente intrépido - engenheiro (além de arquitecto, diácono, webbmonstro e mestre de gramática) Ildefonso Caguinchas, com a perícia manhosa que lhe é universalmente reconhecida, exfiltrava-se de casa da Sara Mafalda e, com pertinácia lampeira, progredia em direcção à alcova da Zulmira Cândida, quando, sem aviso nem presságio, foi emboscado e assaltado -persignemo-nos, conlusos! - pelo seguinte problema...
Nesta altura, porém, vi-me obnubilado na palestra pela entrada abrupta -e atrasada - do safardana do Gervásio Galabilhas. Vinha dum incêndio, ainda na farda de bombeiro voluntário e, não contente com a delonga, agravou com a audácia suplementar de inquirir logo à chegada:
-"Então, o que há? Qual é a crise?..."
Ao que o Bisnau, sob a anuência supervisionante e gaviã do Beto Lingrinhas, esclareceu: "É o Ildefonso, pá. Foi assaltado por um problema!... Ele e a Pertinácia que ia com ele."
O Gervásio olhou de esguelha para o Dedinhos, com quem mantém uma desavença antiga, e teimou em bacorejar:
"Já não bastavam os carteiristas e os ladrões de rádios, agora também os problemas. Este país está entregue à bicharada!...Mas essa Pertinácia deve ser nova cá no bairro. É boa?..."
-"O Dragão ia agora explicar como é que o sacana do problema conseguiu assaltar o Caguinchas. E depois, que também deve ser interessante, o que é que o Engenheiro fez ao problema!" - Entendeu bedelhar o Armindo Taberneiro, que também se achava gente.
Aproveitei a deixa para, após um ósculo repenicado na ucraniana, explodir publicamente com toda a minha justa, sonora e legítima indignação.
-" Diz bem, o tasqueiro residente: eu ia explicar. Ia, bem entendido, pretérito imperfeito do verbo ir, se as grandessíssimas bestas me deixassem. Isto é, caso, por milagrosa deferência, se dignassem fechar a matraca e prestar um mínimo de atenção à mesa. E quantas vezes já disse - a esse bigorrilhas, a esse melcatrefe, a esse salafrário pirofóbico recém-chegado! - que está rigorosamente proibido de comparecer diante de mim nesse nojento e repugnante traje, hein?! Quantas vezes?!! Além de atrasado, desembarca de bombeiro, ainda por cima voluntário! Quando vai à Protectora dos Animais também se veste de toureiro?!! Caralho, recaralho e rerrecaralho que o foda, refoda e tetrafoda!...- está multado! São quinze imperiais, mais as respectivas guarnições, acepipes e rescaldos. E um vigia de olho na aguardente, não vá o tarado compulsivo, à surrelfa, querer apagá-la!..."
A caterva ouviu, amainou e estremeceu. Quando estou de ucraniana ao colo, sabem que não sou para brincadeiras nem molezas. A ditadura obsidia-me e tolda-me a razão.
Marinada uma pausa para remuniciar os fagotes, reavivar a caldeira e acariciar o coxame protocolar, passei, finalmente, à explitação técnica do problema:
-"Como eu ia dizendo, o assunto, a questão, o problema é o seguinte: Como é que o cidadão sabe se é anti-semita positivo ou anti-semita negativo?"
Grande bruá na assembleia. "Anti-o-quê?!", engasgavam-se uns; "anti-sanita quantos?!", confundiam-se outros; "então mas o Problema não era o marido da Pertinácia", encanastrava-se mais que todos o Gervásio, agora fardado de fantasma por via da toalha branca com que o Armindo o preservara da minha ira; "sim, boa pergunta, e o Caguinchas ficou-se?", alporquiava-se, não menos alucinéfilo, o Beto Lingrinhas. Como era de esperar, rebentou uma autêntica brainstorm. Que os vapores da besana, por via do avançado estado da hora, mais não faziam que amplificar. E uma brainstorm, não é preciso dizê-lo, que, a qualquer momento ameaçava virar brainurricane, se me é permitido o neologismo.

Ora bem, dizer que aquilo me lembrava vagamente a ala dos furiosos do hospital Júlio de Matos em noite de lua cheia é desnecessário, já que, com cristalinidade infinitamente superior, emulava na perfeição o Parlamento da República. Verificando-me a presidir a uma tão deprimente baderna, experimentei um tal furor que, não fosse o efeito altamente pacificador da ucraciana-ao-colo, a esta hora, é garantido, estaria a ser ouvido em tribunal por pluricídio voluntário (e a ser libertado, em tempo record, ao abrigo do novo Código de Processo Penoso). Salvou-os a Svetlana, esse anjo aveludado com dedinhos de fada e coxas de sereia, mas não os salvou o regimento da assemblagem, esse meandro cabeludo, com base no qual, ao abrigo dum pentelho e três borbulhas processuais, retaliei aos urros, punindo-os, de supetão, em conformidade, enormidade e especialidade. Tonitruei, pois, de modo perfeitamente audível, como recomenda Aristóteles, sempre que se alveja uma eficaz persuasão:
-"Ai é, parlamacentam, democratosgam, republicanejam?!, então levam com uma comissão nos lombos por causa das cócegas!
-"Uma comissão?!" - Urticarizou-se todo, o Dinossauro (o sénior, porque o júnior estava ausente, numa pós-graduação em Bilhares e matraquilhos). - Uma comissão é que não! Tudo menos uma comissão. Já sei que o frete me toca sempre a mim. Eles é que armam o circo e depois eu é que tenho que limpar a bosta das alimárias!..."
-"Ah-Ah! - exultei, satanicamente (o protocolo além do exclusivo ucraniano outorga-me também a concessão vitalícia das mefistofelonias). - É uma comissão, sim senhor. E está já nomeado, o vetusto recalcitrante, para caudilhar e apascentar a mesma. Pegue no Engenheiro e em mais dois desses energúmenos à escolha e proceda à peritagem do acidente, digo, do problema. Chic transit, habeus cornus e cona da tia!..."

A minha despótica decição, caucianada no meu lendário mau feitio, não deixava margem para dúvidas, tergiversúcias nem apelos. Limitou-se a resmungar, o idoso - como de resto também lhe competia - "acho que me vou matricular num desses universadouros séniores... é preferível rebolar em autocarros por ribanceiras que aturar uma tirania destas!..." e foi tratar de aviar a receita. Colegiou-se do Ildefonso, do Bisnau e do Gervásio e lá foram comissionar para o quintal. "Leva tu as cartas e o dominó, eu vou buscar as brasileiras!", ouvi ainda o manhoso do Caguinchas propugnar para o sub-secretário Bisnau, mas como ao abrigo do artigo 1903, secção B do regime especial do código que já não me lembra, essa excepção está consignada, cerzida e isenta de apocalipse, soda e imposto de sê-lo, fingi que não ouvi e retirei-me com a ucraniana para o reservado, onde tratei de dar despacho aos pendentes.

Do relato exaustivo dos trabalhos da Comissão, logo detalharei, se à musa aprouver. Porque, devo referir, além duma gulosa, fogosa e apetitosa, às vezes dá-lhe para ser insaciável. Mas nada que demova ou apoquente um lídimo descendente de Vlad, o Empalador.


sábado, agosto 30, 2008

O Anti-semitismo endémico e hereditário




Basicamente, a tese dos sites sionistas é a seguinte (e recomendo a todos que o confirmem pessoalmente): todos os gentios, sobretudo europeus, são anti-semitas congénitos. Temos dificuldade em lidar com a raça superior. Nesta pandemia geral e ancestral, ocorrem três categorias principais: aqueles que tomam consciência disso mas procuram curar-se, penitenciando-se e lambuzando Israel mai-lo seu estatuto excepcional a todas as horas; aqueles que tomam conhecimento disso mas não resistem ao atavismo assediante e desatam a odiar e invejar os seres superiores; e aqueles que, um pouco à semelhança dos seropositivos ingénuos, desconhecem esta terrível fatalidade que os embosca e pastam indefesos, ou, em percentagem inquietante, começam já a manifestar sinais da síndrome, senão ainda em palavras, já em pensamentos...e sonhos premonitórios.

A magna e santa tarefa do activismo sionista (não direi que é uma conspiração porque me parece mais uma transpiração) é desenvolver estrénuos e congregados esforços para que os da primeira categoria não negligenciem o tratamento; os da segunda categoria não esmoreçam na fobia (crucial, justificante e fermentadora de todo o processo); e, finalmente, que os da terceira categoria, a mais vasta e problemática, se transfiram gradual e convenientemente para as outras duas, ou seja, em larga escala para a primeira, e em pequena -mas sempreviçosa - porção para a segunda. Porque, tanto quanto incensados, os manipanços adoram sentir-se importantes.

terça-feira, agosto 26, 2008

Asnomancia e vaselina



É verdade, leitores: é F. Nietzsche, o autor em questão. Na Genealogia da Moral.

Mas antes de referir o maravilhoso prémio a que os felizes contemplados têm direito, permitam que desfrute um pouco mais duma certa fauna de arribação, decerto evadida duma qualquer Etar transbordante, que por aqui deu à costa.

Começou por nos proclamar a alimária, às 9.11 da semana passada:
«Eu pus aqui só para confrontar a opinião de um grande filósofo com a opinião do(s) o(s) merda(s)que promove(m) e merdifica(m) este blog, haja vista outros posts racistas. Outra, aprenda mais o português antes de vir escrever asneiras.»
O "grande filósofo" era Nietzsche, e a passagem era retirada do "Humano, demasiado Humano".
Limitei-me a responder confrontando este pára-quedista herbívoro com a opinião do mesmo "grande filósofo" numa outra obra sua, a "Genealogia da Moral" (se bem que uma das citações também possa ser encontrada no "Para além do bem e do mal"). Como, de resto, podia ter citado, em barda, passagens do "Anticristo", da "Vontade de Poder", ou até, imagine-se, da "Gaia Ciência". Sendo que nos primeiros, quase se poderia citar capítulos inteiros.
Resposta da criatura ungulada, hoje, às 1.53 AM:
Portanto, meus amigos, e sintetizando, é duvidoso que a "Genealogia da Moral" tenha sido escrita por Nietzsche, embora seja anterior ao "Humano demasiado Humano", e tudo isso, ainda segundo o depoimento erudito deste dromedário arguto, sirva como prova demonstrativa duma benigna evolução no pensamento do filósofo alemão que, entretanto, genuflictamos irmãos, terá procedido a uma auto-revisão, dispensando assim, desse modo intrépido, ulteriores recursos a garagistas, mecânicos e outros gabirus. Não é que eu não ache este conceito de "auto-revisionismo" fascinante, mas sendo sabido que o "Humano demasiado Humano" é de 1878 (confirmado pelo próprio Nietzsche, no Ecce Homo : "assim, se compreende a publicação deste meu livro em 1878, ano do centenário da morte de Voltaire"), e a "Genealogia da moral" de 1887, fica um bocado difícil compreender esses dois prodígios que calculo simultâneos e que o trisonte (bisonte peca por escasso) nos prega: a evolução e a auto-revisão. Ou então se houve evolução e auto-revisão, como o mesmo e ululante proboscídeo preclaríssimo advoga, terá sido precisamente no sentido contrário aos seus peculiares bordados e crochés.
Não obstante, tem a bonomia de informar-nos, ainda à 1.53 de hoje, que "na internet e bibliotecas, o que não faltam são artigos sobre o equívoco recorrente de se associar anti-semitismo com as idéias de Nietzsche". Bem, deve ser um equívoco quase tão recorrente como o desembestarem aqui cavalgaduras mirabolantes, em altas babas e zurros, a quererem à viva força aviar as minhas com idêntica receita; e, certamente, um equívoco menos descabelado do que querer alistá-lo em filo-judiarias de sabujo beija-cu ou beato louvadinheiros. A ele, Nietzsche, ou a mim, César Augusto Dragão.
Mas, pelas 4.48, finalmente, tudo se esclarece e desnubila. Da diatribe cavalar, o nosso visitante passa à epístola confessional. Compungido, começa por relatar-nos:
«A língua portuguesa não é meu idioma de berço». Tocante mas descessário, este prelúdio, ó inenarrável solípede. Desde as primeiras sonoridades e guturedos que o adivinháramos. Demais, quando berço subentende estábulo, a língua portuguesa apresenta algumas -direi até imensas - limitações. Pela sua complexidade, não é de todo o veículo comunicacional mais adequado. No vertente caso, julgo mesmo que só a linguagem gestual reforçada dum bom cacete lograria alguma eficácia. Tudo isto levado a cabo, no mínimo, pelo braço vigoroso dum ferrador-exorcista.
Mas não desanimemos. Vem depois coisa mais polposa:
Acredite, caro asnobode, também eu dou graças ao Altíssimo por nos ter poupado a essa lastimável eventualidade. Jumentos, cretinos e pacóvios lambe-geocricas já por cá temos em sobreabundância. E só o desprazer que me daria sabê-lo meu compatriota!... Deus obrou assim uma benfeitoria em dobro: a si poupou-o ao azar, a nós a mais uma biocalamidade. E que a língua portuguesa para si seja insignificante só reforça a minha tese anterior. O que, de resto, a traumatizada alimária só recrudesce e refina na seguinte, quando reconhece:
Realmente, ter cocheiro como professor de línguas, chicote como coadjutor de gramática e carroça como carteira é capaz de não ser a mais idílica e estimulante das escolas.
É claro que o emprego faz o mongo e a mula nas horas livres vira papagaio, declamando aos incautos as lições e o vocabulário colhidos no coiro durante as viagens. Termina, pois, a besta, com uma mostra cabal desses flagícios:
«Portugal é cu da Europa...», bla-bla-bla e coiso e tal.
Não me alongarei sobre assunto tão aromático. O grande Almada chamou-lhe retrete, que é pior que ser cu, pois é onde o cu senta e onde o dono-do-cu caga. Ser pois cu não deslustra tanto como ser a merda que esse dito cujo expele, ou sórdido troninho para a fétida função. Nestas matérias e ginásticas, do mal o menos: antes produtor que produto ou recipiente. Donde que ser "cu da Europa" sempre será infinitamente mais elevado e meritório que ser a bosta cagada, fedida, fermentada e exorbitanada que essa Europa cagou vai para séculos e agora chamam América, ou ser esse híbrido mimoso de cotão e bolinha de merda ressequida e catrafilada num pintelho do Cu da América, que pomposamente se pretende fazer passar por umbigo do Globo, e que traficam, mixordeiam e embalam por Israel. Israel a martelo, se tanto.
É claro que se o primeiro epifenómeno não abona da sanidade das entranhas europeias, o segundo abona ainda menos da sua higiene. Uma Europa que não segura a tripa e uma Europa que não se lava resulta neste planeta convertido, ele sim, em pocilga a boiar no espaço. Mas uma coisa são os maus vícios e péssimos hábitos da Europa, outra, totalmente diversa, a anodisseia a céu aberto dos seus excrementos, imundícies e respectiva fauna simbiótica.
Fica-nos, ainda assim, uma certeza: se à América a cagou, por via de monumental diarreia, a Europa, a este quadrúpede nauseabundo, por via de visceral lucidez e parto justo, golfou-o decerto no mundo o orifício anal da mãezinha!
Falta apenas falar da cereja no topo do monturo:
Agradecemos a gentileza da notificação. Mas não carecia, em absoluto... De tal modo é evidente. Gritante até. Guinchante, melhor dizendo. Uma ligação estreita que, com uso, dedicação e muita vaselina, tratará seguramente de alargar. É intercâmbio, ninguém questiona, para toda uma carreira briosa de suinotauro vigilante.




PS: Quanto ao prémio dos felizes contemplados... Querem receber em gajas, em cerveja ou em cruzeiros no Mediterrâneo?...

segunda-feira, agosto 25, 2008

Anti-semitas pedidos

Já prosseguiremos, dentro em breve, com as coisas sérias, ou seja, com a genealogia desse excremento-mor da civilizacinha que é o intelectual. Antes disso, porém, e aproveitando, por um lado, a erupção intempestiva do Engenheiro-Arquitecto-e-agora-parece-que-também-Astrogramático Ildefonso Caguinchas, e por outro, o grotesco ressurgimento duma certa ratazana darwinóide (que nem distingue racista de anti-semita com hífen) em desova estival aqui pelas desvalidas caixas do estaminé, e a quem, desde já, no legítimo usufruto do providencial ensejo que me proporciona, quero mandar à grandessíssima e hiantíssima racha do esgoto que a pariu, com votos de boa viagem, feliz hanukkah e beijinhos à priminha, pois, dizia eu, e muito bem, seduzido por uma tal confluência de astros (ou melhor, dum astro e dum desastro), é, com todo o prazer, idêntico gozo e a maior das alacridades, que coloco à adivinhação pública a seguinte charada:
- Diga quem escreveu:

a) «Os sacerdotes são os inimigos mais malignos; porquê? Porque são os mais impotentes. A impotência faz crescer neles um ódio monstruoso, sinistro, intelectual e venenoso. Os grandes ressentidos, na história, foram sempre sacerdotes, e nada se pode comparar com o engenho que o sacerdote desenvolve na sua vingança.(...) Ponhamos o exemplo mais notável. Tudo o que na terra se fez contra os "nobres", os "poderosos", os "senhores", os "governantes" não se pode comparar com o que fizeram os judeus. Os judeus vingaram-se dos seus dominadores por uma radical mudança dos valores morais, isto é, com uma vingança essencialmente mental. Só um povo de sacerdotes podia obrar assim.»

b) « Com os judeus começou a emancipação dos escravos na moral, esta emancipação que tem já vinte séculos de história e que já hoje perdemos de vista por ter triunfado completamente.»

c)«Ao menos uma coisa é certa: é que com a sua vingança e transformação de valores, Israel triunfou sub hoc signo de todos os ideias mais nobres.»

d) « -" Mas para que falar de um ideal mais nobre? Inclinemo-nos ante os factos consumados: o povo é que venceu; os "escravos", o "populacho", o "rebanho", chamai-lhe como quiserdes, se é aos judeus que se deve, nunca povo algum teve missão histórica mais brilhante. Foram abolidos os amos, triunfou a moral do povo. Se disserdes que foi um veneno, foi um veneno salutar. A redenção do género humano está no bom caminho: tudo se judaíza, se cristianiza e se plebeíza a olhos vistos. O impulso é irresistível, o progresso incessante: poderá haver marchas e contramarchas, pressas e demoras, mas o tempo é muito... Tem ainda a Igreja alguma missão necessária? Tem ainda o direito à existência? Poderíamos passar sem ela? Queritur. Parece antes que atrasa a marcha, mas nisto consiste precisamente a sua utilidade. Há nela alguma coisa de grosseiro e de rústico que repugna às inteligências delicadas e aos gostos modernos. Não deveria polir-se alguma coisa? Hoje mais repele do que seduz. Qual de nós quereria ser livre-pensador se a Igreja não existisse? A Igreja repugna-nos, mas não o seu veneno. Tirai a Igreja e ainda saborearíamos o seu veneno..." - Tal foi o epílogo que fez ao neus discurso um livre-pensador, um honrado animal, e acima de tudo um democrata. Não pôde conter-se mais. Aqui devo calar-me.»

e)«Os dois valores opostos "bom e mau", "bem e mal", mantiveram durante milhares de anos um combate largo e terrível e ainda que, há muito tempo que o segundo valor logrou vantagem, não faltam ainda hoje terrenos onde a luta continua com vário êxito. (...) O símbolo desta luta, traçado em caracteres legíveis no cume da história da humanidade é "Roma contra Judeia, Judeia contra Roma".»

f) «Roma via no Judeu uma natureza oposta à sua, um antípoda monstruoso, "um ser convicto de ódio contra o género humano", e com razão, se é certo que a salvação e o futuro da humanidade consiste no domínio absoluto dos valores aristocráticos, dos valores romanos.»

g) «Os Romanos eram os fortes e os nobres, mais que todos os povos da terra; cada vestígio do seu domínio, a menos inscrição maravilha-nos e eleva-nos. Os judeus, pelo contrário, eram um povo levita e rancoroso por excelência, um povo que possuía um singular génio para a moral plebeia: basta comparar os judeus com os povos de carácter semelhante - como os chineses e os alemães -, para discernir qual é o da primeira ordem e qual é o da quinta ordem.»

h) «...esse movimento de ódio (alemão e inglês) fundamentalmente plebeu, que se chama a Reforma...»

i) «Num sentido ainda mais radical e decisivo, ganhou a Judeia outra nova vitória com a Revolução Francesa: então a última nobreza política que ainda subsistia na Europa, a dos séculos XVII e XVIII franceses, arruinou-se aos golpes do aluvião popular...»

Quem acertar mais de três alíneas ganha um prémio sumptuoso.

domingo, agosto 24, 2008

Dados viciados

Diz um título de jornal: "Metade dos casamentos terminam com divórcios". Nem o verbo concorda com o sujeito, nem a parangona constitui qualquer admiração. Metade dos casamentos termina com divórcios, e todos juntos, casamentos e divórcios, acabam em funerais. É o vício do costume: abandonam os princípios, masturbam-se com os meios e esquecem-se dos fins.
Dantes casavam-se até que a morte os separasse. Agora casam-se até que o divórcio os separe e a morte os reúna de novo. Na mesma esterqueira ou cinzeiro póstumos. Disse.

Da Missa para a Miss

Coisas realmente importantes:

«Padre organiza "Miss Freira" na internet»

Adianto desde já o mais que óbvio: a não ser que eu, como soberanamente me compete, presida ao júri, considero esta uma iniciativa de mau gosto. Sobretudo, porque as concorrentes não desfilam na passarelle em trajes diurnos e nocturnos. Já não falando nos montafísicos, como os da divina criatura, não sei se ex ou pré-freira, que se segue:




De qualquer modo, caso persistam nesta inqualificável redução, vão intitular a vencedora como? - Miss Passe? Miss Boca-doce?...

quinta-feira, agosto 21, 2008

Joint venture

Repare-se na excelência do esquema: primeiro eles compram títeres estrangeiros com dinheiro dos contribuintes americanos; depois, os títeres estrangeiros reembolsam-nos, a título de lobby, com o dinheiro dos contribuintes deles. É este o melhor dos mundos. São aliados porque, na verdade, se pagam uns aos outros. E, para falar com franqueza, o lanzudo do contribuinte, servo da gleba no novo feudalismo fiscal, não merece outra coisa!...

quarta-feira, agosto 13, 2008

O caso Cáucaso

Um artigo bastante informativo sobre a mais recente aventura americana no Cáucaso:

«The fall of the Soviet Union created three new independent nations in the Caucasus: Georgia, Azerbaijan and Armenia. Almost immediately the ethnic enclaves in all of these nations began to fulminate for territorial reunification with their co-ethnic populations in other nations. These included South Ossetia and Abkhazia in Georgia, Nakhchivan in Armenia, which is mostly Azerbaijani; and Nagorno-Karabakh in Azerbaijan, which is mostly Armenian. Enter the United States. U.S. interests in this region were vastly different than that of the people of the region, or of Russia. The United States wanted access to Caspian Sea oil, and it wanted to contain Iran. The Caucasian nations were ideal for both purposes. The United States blasted ahead with no regard for the historical tensions in the region. Therefore the United States blindly pursued a steady policy of propping up the dictatorial regimes of the region. Georgia, Azerbaijan and Armenia are among the most corrupt nations on earth, and it was easy to buy a government. The price for this support was unquestioning alliance with the United States and its regional policies. Access to Caspian oil was one burning policy goal of all administrations since 1990. The easy route for transport of petroleum products from the region would be through Iran's well developed pipeline system. Literally just a few miles of pipeline would connect the Azerbaijani oil fields to the Iranian system. However, Washington was ready to do almost anything to avoid providing any economic benefit to Iran. Hence, working with U.S. petroleum producers, they constructed a difficult and tortuous pipeline across Azerbaijan and Georgia, to emerge in Turkey for shipping to the world. Many millions in government bribes changed hands to make this happen.
As Iran became a target of the George W. Bush administration, having friendly powers in the Caucasus became a priority for the Washington establishment. The Velvet Revolution in Georgia was aided by the United States. In Azerbaijan, the United States virtually installed the current president, Ilham Aliyev, son of the previous president for life, Heydar Aliyev. The election itself was highly controversial. Heydar Aliyev was in Cleveland, Ohio for medical treatment, and was rumored to have died four months before his son was elected. The United States government was reportedly involved in the cover-up, and supported Ilham's election despite mass protests among Azerbaijani citizens.
President Mikheil Saakashvili of Georgia has close ties to the United States, having graduated with law degrees from Columbia and George Washington Universities. He was the leader of the Rose Revolution in 2003, which ousted President Eduard Shevardnadze, former Soviet foreign minister, and striking a blow for Georgian independence. Elected president in 2004, he also greatly improved ties with Israel, and received an honorary doctorate from Haifa University, and has allowed Israeli intelligence to operate in Georgia. All of this endeared him to the Bush administration. The United States tried to engineer the entrance of Georgia into NATO in April, 2008, but was surprised when 10 NATO members vetoed the proposal. Russia viewed this as a hostile act on the part of the United States. President Saakashvili's presidency has not stopped continual ethnic violence from breakaway regions in his country. The South Ossetia conflict is only one of the latest, but it was different in that it serves as a smokescreen for Russian attacks on Saakashvili's government. If Saakashvili should be ousted from office, a major U.S. and Israeli outpost would be lost. The fate of the oil pipeline would be in danger, and pressure on Iran would lessen considerably. All of these outcomes are seen as disastrous for the Bush administration. Thus all of the high-minded rhetoric about Georgian sovereignty coming out of Washington is ultimately cynical. If U.S. interests were not at stake, no one would care. »

domingo, agosto 10, 2008

Babelúrgicos pedagogos

«À concepção do trabalho-penitência substitui-se a ideia do trabalho como meio positivo de salvação. Como não sentir, por detrás, deste impulso de um novo mundo monástico, a pressão das novas categorias profissionais - mercadores, artesãos, trabalhadores desejosos de encontrarem, no plano religioso, a justificação da sua actividade, da sua vocação, a afirmação da sua dignidade e a garantia da sua salvação, não apesar da sua profissão, mas precisamente através dessa mesma profissão? A projecção destas aspirações no universo hagiográfico é, ainda aqui, esclarecedora. Em princípios do século XIII, o tempo dos santos-trabalhadores está já em vias de ceder o lugar ao tempo dos trabalhadores-santos.
Há mais. Esta nova espiritualidade do trabalho, como é normal, tende a enraizar-se numa teologia do trabalho. Deveremos procurar o esboço desta teologia nos comentários do Génesis, comentários que se esforçam por demonstrar que o trabalho tem as suas raízes positivas em Deus, porque: 1.º a obra do Criador (e haveria que seguir o desenvolvimento do tema do summus artifex ou summus opifex) foi um verdadeiro trabalho - trabalho superior, sublimado, criação, mas com todas as suas penosas consequências: um labor de que Deus teve de descansar ao sétimo dia. Deus foi o primeiro trabalhador. 2.º O trabalho, um certo trabalho (a definir no sentido de uma manutenção) havia sido dado ao homem, a Adão, como vocação antes da queda, pois Deus havia-o posto no Paraíso para que o trabalhasse e o conservasse (Gen. 2, 15-16). Antes do trabalho-penitência, consequência do pecado e da queda, houve um trabalho feliz, bendito por Deus, e o trabalho terrestre conservou algo do trabalho paradisíaco anterior à queda.
Não é de admirar que, nesta conjuntura, o esquema tripartido da sociedade deixe de estar adaptado às realidades sociais e mentais. [...]
Há, sem dúvida - e é até capital para que as novas categorias socio-profissionais recebam direito à vocação -, permanência e mesmo reforço da concepção unitária da sociedade cristã. Porém, o corpus cristão estrutura-se - e esta estruturação faz-se a partir da função, da profissão, do mester. O corpus já não se compõe de ordens, como na sociedade sacra da Alta Idade Média, mas sim de estados, entre os quais pode haver, e há, efectivamente, uma hierarquia mas uma hierarquia horizontal, não vertical.»

- Jacques Le Goff, "Para um novo conceito de Idade Média"


Atente-se como a transformação do trabalho - de ocupação indigna, típica de escravos ou penitentes, na Antiguidade e Alta Idade Média - em via de salvação, no século XII, antecipa toda uma série de romarias hagiofóricas decorrentes, desde os protestantismos aos marxismos, passando pelos positivismos, liberalismos, cientismos e tecnolatrias afins.
Nesta fase inicial, o trabalho tornar-se-á possibilidade de salvação; mas posteriormente, sobretudo no pós-revolução francesa, devirá condição de liberdade. Nisso, aliás, e tão curiosa como significativamente, capitalistas, comunistas e nazis concordarão: "O trabalho liberta".
Entretanto, à boleia do trabalho, avança o dinheiro. Como Le Goff, na mesma obra, expõe eloquentemente:
«Antes do século XIII, no Ocidente Bárbaro, todas as actividades remuneradas eram atingidas pelo opróbio que se aplicava às categorias ditas mercenárias. Era indigno tudo o que se pagava, tudo o que se comprava. A honra ou o dever definiam-se por serviços, de cima para baixo e reciprocamente. O dinheiro, economicamente marginal, era-o também do ponto de vista moral. A sociedade cristã da Alta Idade Média reforçava-se nesta crença ao ver o sector monetário "infestado" de judeus. A comercialização e o salariato continuamente em progressão transformam os valores.
Duas categorias, dois mesteres conduzem esta transformação.
Primeiramente, os professores. Antes do século XII, a ciência e a cultura eram apanágio de clérigos que a adquirem e a dispensam parcimoniosamente, sem gasto de dinheiro. Escolas monásticas ou episcopais formam disciplinas para o opus Dei, que não se mercadeja.
Com as escolas urbanas do século XII, arrastadas pelo desenvolvimento das cidades, animadas por mestres que devem, tal como os alunos, encontrar maneira de viver com o que têm, as condições materiais, sociais e espirituais do saber são profundamente transformadas. Este é o sentido do debate que a partir de meados do século XII se instaura em volta de uma fórmula: a ciência é um dom de Deus e não pode por isso ser vendida. Pouco importa aqui saber que possibilidades de remuneração se oferecem aos novos mestres e que soluções se encontrarão: salário público, remuneração dos clientes, isto é, dos estudantes, benefícios eclesiásticos. O essencial está em que à pergunta Os mestres podem licitamente receber dinheiro dos estudantes?, os manuais de confessores, eco da prática e da opinião, respondem pela afirmativa.
Paralelamente, levanta-se a questão dos mercadores, no domínio do crédito, onde a expansão da economia monetária afasta, para segundo plano, os judeus, confinados a operações de empréstimos de importância restrita. Há, a partir de então, o problema da usura cristã. O juro, sem o qual a economia monetária pré-capitalista não poderia desenvolver-se, supõe, em termos escolásticos, uma operação maldita até então: a venda do tempo. Exactamente simétrico da comercialização da ciência, põe-se o problema da comercialização do tempo, aos quais se opõe uma mesma tradição, uma mesma fórmula: O tempo é um dom de Deus e não pode por isso ser vendido. E, ainda neste caso, acompanhada sem dúvida de precauções, duma casuística restritiva, dá-se uma resposta favorável, que encontramos nos manuais de confessores.»

O intelectual eclode, assim, como comerciante da ciência, mercador de ideias, profissional glossúrgico. E até aos dias de hoje poderemos acusá-lo de tudo excepto de infidelidade à sua matriz.
Em pormenor, de como se constitui, não só em inversão, mas sobremaneira em aversão ao filósofo antigo, tentaremos dilucidar no próximo postal.

sexta-feira, agosto 08, 2008

A casta a imitar elite

A tese nem sequer é minha, eu apenas a subscrevo: O intelectual, esse nematelminte da civilização, desabrocha na Idade Média. Resulta de três camadas sucessivas de sedimentação mental intrinsecamente urbana: a vagabundagem goliarda, a coorporação universitária e o racionalismo humanista.
Ora, visto o goliardo, passemos agora ao universitário.
Em jeito preliminar, autorizem que cite um trecho particularmente sugestivo de Jacques Le Goff, in "Para um novo conceito de Idade Média":
«Os historiadores e os eruditos que tentaram dar uma ideia aproximada do "orçamento" de um mestre ou de um estudante em qualquer universidade medieval têm mais ou menos desprezado um elemento cuja importância e interesse são, no entanto, mais que certos: os presentes em dinheiro e em géneros que se exigiam aos estudantes, na altura dos exames.
Além dos banquetes tradicionalmente oferecidos pelos novos doutores, após a obtenção da "licentia docendi", os presentes representavam despesas obrigatórias, cujo montante e natureza foram bem cedo inscritos nos estatutos.
[...] desde 1260, a comuna de Pádua garante um salário aos mestres do seu studium.
No entanto, este salário não impediria os doutores de reclamarem dos candidatos os presentes tradicionais em todas as Universidades. A partir dos fins do século XIV, provavelmente sob a influência da crise económica e das suas repercussões sobre o valor da moeda e o custo de vida, as exigências dos mestres tornam-se maiores e mais minuciosa a regulamentação dos "direitos de exame".
[...] Enquanto que os estatutos de 1382 haviam ratificado uma decisão tomada em 1355, segundo a qual mestres suplentes (surnumerari) não receberiam dinheiro, excepto se fossem chamados a substituir efectivamente um dos doze mestres titulares, um decreto de 25 de Julho de 1453 reservava aos suplentes presentes uma parte do peditório feito na altura do exame e que, até então, ia inteiramente para o bispo.
De resto, são bem definidas as sanções aplicadas aos estudantes que faltassem ao pagamento das despesas. A 18 de Novembro de 1441, tomam-se medidas contra os estudantes que se limitam a pagar arras (brevia).
Esta ganância pelo ganho contribui para explicar a progressiva rarefacção do número de estudantes isentos do pagamento desses direitos. A protecção tradicional da Igreja assegurara aos estudantes pobres um lugar nas Universidades, ao mesmo tempo que, no século XIII, sobretudo o afluxo de população para as cidades povoara as universidades com uma multidão de jovens sem recursos que foram especialmente o fermento das Faculdades das Artes. Com o refluxo demográfico, o número destes estudantes decresce e os mestres aproveitam o facto para acentuar esse recuo, eliminando ao máximo os estudantes pobres isentos de pagamento de propinas: entre 1405 e 1409, uma modificação introduzida nos estatutos não permite admitir mais que dois alunos pobres em toda a Faculdade de Direito: um em direito canónico e outro em direito civil. Já só se trata de um princípio que se é obrigado a respeitar sob forma praticamente simbólica. Acabara, na Universidade de Pádua, o tempo dos pobres.
[...] Em contrapartida, dá-se uma evolução inversa que abre gratuitamente as portas da universidade a uma nova categoria de jovens: os filhos dos universitários.
[...] Assim estes textos permitem definir a tripla e convergente evolução da Universidade de Pádua, nos fins do século XIV e na primeira metade do século XV.
Eliminação dos estudantes pobres, constituição de uma casta de famílias universitárias, nacionalização, quer dizer, tendência para se limitar ao recrutamento local, pelo menos no que respeita aos mestres

Convenhamos, é todo um código genético em erupção. Cinco séculos depois, o sistema de casta aciganada (ciclicamente municiado a enxurradas) suscitar-me-á, de passagem, o seguinte aforismo: «quanto mais convivo com universitários, mais louváveis me parecem os estivadores.»
Desnecessário será dizer que equivalente ao nojo só mesmo a lucidez.

domingo, agosto 03, 2008

O Nascimento da Esquerda

«De origem urbana, camponesa ou até nobre, são antes de mais [os Goliardos] seres errantes, representantes típicos duma época em que o surto demográfico, o despertar do comércio, a construção das cidades, fazem dar de si as estruturas feudais, atiram para os caminhos e reunem nas encruzilhadas que são as cidades, os marginais, os audaciosos, os infelizes. (...)
Por vezes, para ganharem a vida, tornam-se jograis ou bobos, e daí, sem dúvida, o nome porque são frequentemente tratados. Lembremo-nos, no entanto, de que a palavra joculator, de jogral, é o epíteto lançado, na época, à cara de todo o indivíduo considerado perigoso, que se pretende afastar da sociedade. Um joculator é um "vermelho", um rebelde...
(...) Formam o corpo da vagabundagem estudantil tão característica, ela também, do século XII. Contribuem para lhe dar uma aspecto aventureiro, espontaneista, ousado. Mas não constituem uma classe. De origem diversa, têm ambições diversas. Escolheram, evidentemente, o estudo e não a guerra. Mas os seus familiares foram engrossar as fileiras dos exércitos, as tropas das Cruzadas, vão pilhando pelas estradas da Europa e da Ásia, vão saquear Constantinopla. Se todos criticam, alguns, talvez muitos, sonham identificar-se com os criticados. (...) Sonham com um mecenas generoso, uma renda eclesiástica gorda, uma vida larga e feliz. Parecem querer, sobretudo, tornar-se os novos beneficiados da ordem social; mais do que alterá-la.
(...)
É significativo que a poesia goliarda ataque - muito antes que isso se torne um lugar-comum na literatura burguesa - todos os representantes da ordem estabelecida pela Alta Idade Média: o eclesiástico, o nobre e até o camponês.
(...)
Se o padre, considerado como vítima da hierarquia, confrade na miséria e na exploração, é geralmente poupado pelos Goliardos, o monge é violentamente distinguido nos ataques. Há neles mais do que os tradicionais gracejos relativos aos seus maus hábitos: gula, preguiça, luxúria. Há o espírito secular - próprio do espírito laico - que denuncia, nos monges, concorrentes que roubam aos pobres dos padres rendas, penitentes e fiéis . Voltaremos a encontrar, no século seguinte, esta querela agudizada nas Universidades. E há ainda mais a recusa de uma parte inteira do cristianismo: a que pretende afastar-se do mundo, a que rejeita a terra, a que escolhe a solidão, o ascetismo, a pobreza, a contingência, a ignorância considerada como renúncia aos bens espirituais. Dois tipos de vida; a confrontação, levada ao extremo, entre a vida activa e a vida contemplativa, o paraíso preparado na terra face à salvação persistentemente procurada fora do mundo; é o fundamento do antagonismo existente entre o monge o o Goliardo, e que faz deste o percursor do humanista do Renascimento.»
- Jacques Le Goff, "Os intelectuais na Idade Média"

Estes tipos, filhinhos, estes frenéticos anarquistas, cheios de fome da sobremesa alheia, eram clérigos. E isto, vejam lá bem, passa-se no século XII, em plena Idade das Trevas. Quer dizer, eles já a fazerem Maios de 68 no original, beat-generations avant la lettre, esquerdalhagens cantadeiras em primeira-mão e a malta d'agora ainda a armar ao evoluído. Evoluído? Desbotado, amaricado, frouxo, totó, isso sim.
Não estranhamente, será das fileiras goliardas que emergirá Pedro Abelardo. No dizer (quanto a mim, correcto) de Le Goff, «é a primeira grande figura moderna de intelectual, dentro dos limites da modernidade do século XII. Abelardo é o primeiro professor.»
O mesmo Abelardo que no dia em "que constata que é incapaz de cultivar a terra e que tem vergonha de mendigar", confessa, resignadamente:
«Regressei ao ofício que conhecia; incapaz de trabalhar com as minhas mãos, vi-me reduzido a servir-me da língua.»
Há muito de similar entre a prostituta e o professor (no sentido universitário da funçanata, entenda-se). Parte dessa fatalidade transpira no desabafo inaugural do proto-espécime. Só que, há que reconhecê-lo, o mestre-escola cagão tem uma capacidade - mais até que de entendimento - de atendimento bastante superior à rameira: o que esta só consegue por árdua sucessão, alcança aquele em facunda simultaneidade. Onde uma esfola de guiché, regra geral, indivíduos, avia o outro, de empreitada, às turmas e classes.
De resto, ninguém julgue que é por acaso que a palavra fetiche da esquerda é "educação". Ou, traduzindo: titilar-nos e delamber-nos o juízo até à morte. Com intervalos para, do alto das suas sebentas cátedras, bochecharem uns felatios ao Poder do instante a ferver e debicarem uns annilingus à Verdade em saldo de ocasião.

quarta-feira, julho 30, 2008

A quem possa interessar...

«O maquiavelismo que se define em 1516 n'O Príncipe, de Maquiavel, constitui antes de mais nada a afirmação da independência da Política relativamente à Teologia. O princípio estabelecido durante a Idade Média era da que os príncipes deveriam realizar na Terra a ordem definida pelos teólogos. Presumia-se que a autoridade vinda de Deus, e esta presunção exprimia-se na supremacia reconhecida ao Papa como pastor dos pastores, com a faculdade de destituir os chefes de Estado. Nem outra coisa era concebível, uma vez que na Idade Média é impensável uma vida laica a par da vida religiosa, e todos os valores decorriam da doutrina religiosa.
Maquiavel vem justamente laicizar a Política, retirando-lhe a sua base religiosa. O fim que o príncipe ideal tem em vista é puramente terreno, mundano: a unificação da Itália num Estado.
Ora, fora da religião não havia nesta época moral possível. A Política separada da Teologia ficava à margem da Moral.
Por isso é talvez errado dizer simplesmente que para Maquiavel os fins justificam os meios. O que acontece é que tanto os meios como os próprios fins deixam de ter base teológica, e portanto justificação moral. Mas o fim proposto por Maquiavel tinha uma justificação histórica, e já então intuitiva. E os meios, uma vez abolidos os valores tradicionais, só no fim podiam encontrar a sua justificação. O fim estava fora da moral teológica; os meios não podiam estar dentro dela. Em resumo, a moral de Maquiavel é, na sua própria substância, uma moral antimedieval, antiteológica; e parece-nos, por outro lado, uma moral anárquica, uma moral sem norma, porque não se refere a um sistema de coordenadas ligado a uma visão totalizante do mundo.
Mas depois de Maquiavel uma nova moral se definiu que nos pode orientar na crítica do maquiavelismo. Ela só foi possível mediante a derrocada do mundo feudal e a afirmação do direito igual de todos os homens à cultura e à riqueza. Depois disso toda a moral passou a ter como critério o considerar-se cada indivíduo como um fim, e não como um meio. Deixou de ser moralmente possível considerar certos homens como "sujeitos" e outros como "objectos" da vida política. Todos passam a ser sujeitos, participantes em plena consciência da transformação que tem por objecto eles mesmos. Assim, deixa de haver massas e indivíduos, rebanhos e pastores. Ninguém pode ser "utilizado", ninguém pode ser instrumento para fins de outrem. É cada um que se utiliza a si próprio para um fim que não pode ser outro senão a mais perfeita realização pessoal de todos e cada um.
É este o conteúdo profundo da palavra "liberdade", e o sentido verdadeiro da corrente ideológica que se chama "liberalismo".
(...)
O Maquiavelismo (em sentido depreciativo) consiste hoje em afirmar a prioridade da Autoridade sobre a Liberdade, em pretender que há outros fins sociais além da própria Liberdade (entendida em toda a extensão: jurídica, política, económica, biológica); em endeusar a razão de Estado; em exaltar o segredo como instrumento de governo. Mas este sentido depreciativo atraiçoa o significado histórico da palavra. Maquiavel deu no seu tempo um passo em frente, libertando a Política da Teologia; os pseudomaquiavelistas de hoje pretendem retroceder, procurando justificar os meios inumanos com fins teológicos.»
- António José Saraiva, "Dicionário Crítico"


Sendo eu, intrinsecamente, um tipo antiprogressista (considero a badalenga do "progresso" como a arte da sofisticação da mentira e da prepotência), estou à vontade para citar este texto, dum autor cuja inteligência considero indiscutível mas que se coloca aqui - à data de 1960 - duma perspectiva claramente diversa da minha, ou seja, dum miradouro optimista, progressista e "liberal". Todavia, no restante, isto é, no diagnóstico histórico, em larga medida concordamos. Há de facto uma antiga moral (a medieval e não só, sobremaneira aristocrática ou pseudo-aristocrática), uma nova moral (a moderna, democrática ou pseudo-democrática) e uma não-moral - ou amoral - que coincide com o, digamos assim, momento de crise maquiavélico.
Este momento de crise maquiavélico, ou de transição amoral entre a antiga e a nova moral, corresponde na História Universal a uma época: o Renascimento. O tal que faz de passadiço entre a Idade das Trevas e a Idade das Luzes.
António José Saraiva, imbuído da ingenuidade típica dos neófitos da nova moral - à data de 1960, repito e sublinho - acreditava então que, apesar de tudo, a amoralidade maquiavélica teria constituído um progresso em relação à velha moral. E isto é perfeitamente lógico, já que, à luz da nova-moral, a velha moral é uma imoralidade, uma moral perversa. Nesse sentido, não será difícil preferir a amoralidade à imoralidade.
Todavia, mais que preparar o terreno para a nova moral, o maquiavelismo -isto é, a amoralidade renascentista -, mina-o, armadilha-o, dissolve-lhe as fundações. Pior: transforma-se nelas. Ao refundar a moral com base na "luz da razão" contra a "treva da tradição", o Iluminismo apenas mistifica e embruma: na verdade, planta-se sobre o maquiavelismo, nele se enxerta e frutifica. Desde então, a razão mais não serve que de pódio e trampolim à vontade. E a ciência, em grande parte, conforma-se a assento para as alcatras e respectivas vazões do Poder. Exactamente na proporção em que o trono da regra se resume a mero penico da lei.
Da ausência de fundamento real germinarão todos os fundamentalismos inerentes aos sucessivos "renascimentos morais". A retórica política tentará sempre compensar o vazio ontológico. O Ter a Verdade eclipsará, metódica e perversamente, o Ser da Verdade. A busca cederá lugar à usura.
Se três séculos de exuberante comprovação empírica não chegam, venham mais três milénios!...
E tudo começa em Maquiavel, que, por incrível que pareça, não consta que fosse protestante nem tivesse andado a ler Kant?...
Deixemo-nos de descobertas da pólvora. Tudo vem de muito antes, até de antes dos medievais que, por sua vez, já vinham às cavalitas de outros. A fórmula, aliás, crismara-a Protágoras para a posteridade: "O Homem é a medida de todas as coisas". A "Nova-moral" é quase tão velha como a mais antiga das profissões.
Embrulhem.

terça-feira, julho 29, 2008

Idologias

Do "Dicionário Crítico", de António José Saraiva, se diz, e julgo que com propriedade, que "foi um livro de cabeceira da esquerda nos anos 60". Por algum motivo, pelo menos, a polícia o apreendeu logo após a sua impressão.
A obra está replecta daquele optimismo peregrino tão típico do marxismo evangélico, mas é interessante a muitos títulos. Na edição de que me sirvo, de 1984, o Dicionário vem precedido dum Prólogo do Autor de 1983. Neste se faz, de certo modo, a crítica e o balanço do Dicionário Crítico de 23 anos antes. Nem uma é benévola, nem o outro é animador. Saraiva reconhece, até mais que o logro, o embuste - os devaneios nefelibatas que se desvanecem perante os sopros do tempo e as montanhas da realidade. Uma fórmula condensa a distância: de solução, o Progresso deveio problema. Ou seja, de motor salvífico, tornou-se portal para a ameaça.
Em tandem com a Acromiomancia que aqui vinha expondo, encetarei agora diálogo com António José Saraiva, no seu Dicionário Crítico (que servirá de logradouro para o pensamento que, se bem que duma forma aleijada, ribalda e pífia, haveria de emergir no 25 de Abril), mas também no seu Prólogo de 1983 (verdadeiro epitáfio do anterior).
Aliás, é deste que retiro o trecho inaugural que se segue:
«Há homens que funcionam como totems da Tribo e para isso não é preciso estar vivo, mas dar aos outros essa ilusão.
Há outras motivações ainda. O momento da Revelação e da conversão é um estado de graça comparável ao enamoramento, e é natural que se deseje prolongá-lo indefenidamente, permanentemente. Para conseguir isso é preciso conservar teimosamente a imagem inicial, defendê-la contra toda a dúvida que faz despegar-se a realidade do sonho. Isto consegue-se por meio de uma arte de interpretação escolástica que pode atingir cumes de subtileza sem sair do terreno estreito da crença. Este tipo de interpretação tende a criar um espaço místico que não precisa de sair de si próprio. Quanto mais os factos o contradizem mais ele se adelgaça e se eleva, até lembrar uma torre gótica perigosamente frágil e por isso mesmo mais rígida e mais impenetrável ao exterior. Quanto mais impossível, mais verdadeira: Credo quia absurdum. O crente passa a proteger-se, a proteger a sua verdade contra os desmentidos da realidade, nem que seja preciso dar o passo necessário para dar à sua verdade uma qualidade religiosa.»
António José Saraiva descreve aqui os comunistas. O retrato, porém, tem um alcance bem mais vasto. Se é que não vem mesmo atravessando os séculos pós-medievais. O homem que se erige em totem tribal prenuncia uma "metamorfose". Saraiva, a certa altura, refere-a para aquele caso específico: «o marxismo está sofrendo uma metamorfose do mesmo género. A luta de classes transforma-se cada vez mais numa luta descarnada entre o Bem e o Mal, que terminará inevitavelmente pela vitória do Bem. A vitória do Bem é a vitória do Partido, que inicialmente fora um meio para alcançar a sociedade sem classes. E é nesse ponto que as linhas divergentes se encontram, a linha oportunista, golpista, materializante, e a linha escolástica, talmudista, exegética, etérea: encontram-se no exalçamento do Partido, que é a materialização da Verdade.»
Ora, é nisso que, precisamente, consiste a metamorfose: na transformação da Tribo (seja partido, seita, clube, loja, associação, escola ou gangue) em Igreja; e do Totem em Deus. A limite, redunda sempre tudo numa espécie grotesca e anã de cristianismo: um catolicismo de contrafacção, de pechisbeque. Maniqueísmo caiado e traficado por ciganos.

domingo, julho 27, 2008

Meteorito autografado

Os eventos formidejandos que eu venho perdendo... As pintelhices exorbitantas que vêm escapando ao camartelo da minha fina análise!...
O Pedro Arroja, por exemplo, revelou-se agora, arfa e suspira por um aeroporto com o seu nome. Bem, ao ritmo de inanidades substantivas com que vai armadilhando a sola dos sapatos aos filósofos, e à cadência infernal de safaris púbicos com que lhes vai espreitando e comichando o fundilho, eu diria que, senão um lounge internacional, seguramente uma feira já tem garantida. E não podemos dizer que não ficava catita: Feira do Arroja. Carcavelos e o Relógio estremeceriam. Enquanto aguardamos a supra-humanidade profetizada, vamo-nos entretendo com a super-ciganice. Enfim, são os tremoços, ou nem isso - as pevides-, em ante-sala para a lagosta.
Já o meu sócio e engenheiro Ildefonso Caguinchas também tem devaneios oníricos desses. Também sonha com o nome dele numa tremenda duma infraestrutura pública. Só que, no seu peculiar caso, é, invariavel e obsessivamente, aquele estádio cor de mênstruo que fica ali para os lados da Segunda Circular.
-"Estádio Engenheiro Ildefonso Caguinchas... diz-me lá que não era um mimo, ó Dragão!...", alanzoava-me ele, um dia destes. -"E tu, não gostavas de ver o teu nome num estádio?"
Pergunta estúpida, está bem de ver, porque eu já tenho o meu nome num estádio. E isso, para ser franco, não me dá prazer especial nenhum. Nem proveito. Não obstante, lá o esclareci, pacientemente:
-"Não, Caguinchas, meu velho, isso dos estádios não me diz grande coisa. Sempre preferi o teatro Grego ao circo romano. Agora um meteorito, daqueles grandes, bem grandes, densos, pesados, devastadores, que penetram a estratosfera, riscam a atmosfera e abrem grandes crateras no solo, ah, aí, a título excepcional, confesso que me encheria de satisfação!... Minto: de regozijo. Já imaginaste, ó caro amigo: o estádio Engenheiro-Arquitecto Ildefonso Caguinchas em tarde de derby, todo atestado e ululante, o árbitro quase a apitar, e vir do céu aquele formidável e justiceiro rochedo incandescente - o ilustre e benemérito meteorito César Augusto Dragão - para acertar em cheio naquela merda?!... "
Ou então na TVI, no Parlamento, no festival super-bock/super rock, na Moda Lisboa, na Festa do Avante, no Dez de Junho, em suma, num qualquer desses arraiais de gadeza vácua, infestantes desta terrinha mártir, onde o marasmo, o pasmo e o pleonasmo se entretecem, geminam e confundem.

quinta-feira, julho 10, 2008

O KIT BALNEAR do Dragão (rep)

Estimado leitor/a, este verão, como no anterior e no outro antes desse, há todo um mundo de novas experiências e excitantes aventuras à sua espera. Para que possa usufruir cabalmente desse luxuriante parque de diversões em que se estão a converter as praias deste nosso belo país, o Dragão, imbuído do espírito samaritano que o caracteriza, relembra que continua à venda o Kit Balnear Dragão, bem como o Manual de Operações em Férias. Não se esqueça que para se divertir é fundamental, antes do mais, que sobreviva. E para que a sua sobrevivência, em vez dum grande trauma, se converta num inolvidável prazer, não perca esta nossa promoção...de verão.

KIT BALNEAR Dragão

1. Esqueça os ataques dos raios solares, armados de ultra-violetas desaçaimados. Outros raides mais trepidantes esperam por si. O bronzeador já era. Há cancros mais ameaçadores que o cancro de pele. Compenetre-se: Agora o que está a dar é o "Estojo de camuflagem". Imprescindível, se quer decepcionar os olhares gananciosos do inimigo.


Nota: Também existe em stick, para bagagens minimalistas.

2. Não insista em t-shirts de marca, nada de Lacostes. Opte pelo nosso colete ligeiro à prova de bala. Leve, mas resistente. E óptimo para a pesca submarina...


3. Em vez dos corriqueiros óculos escuros, equipe-se com os nossos binóculos militares, graduados e excelentes para o seu Posto de Observação. Detecte o inimigo antes que ele o detecte a si! Óptimos também para balizar o fogo de artilharia.


4. Não são só os seus filhos que precisam dos baldes e pázinhas; você também vai querer a nossa pá de engenharia militar. Senão como é que cava as trincheiras e abrigos, mal chegue ao areal? E as galerias de tunéis e escapatórias, à boa maneira vietnamita, para casos de extrema urgência? Ou as valas para enterrar os cadáveres, de modo a não atrair moscas nem chusmas de caranguejos inconvenientes?...



5. Não distraia os seus filhos do computador ou da televisão. Até porque a violência não é recomendável a menores, muito menos crianças. Leve antes, para a praia, um ou vários cães especialmente adestrados. Os nossos simpáticos cachorros são particularmente belicosos e xenófobos. Basta declamar-lhes a "password" e vai ver como, em menos de nada, as tropas In (inimigas) retiram.


6. Em vez da toalha, recomendamos-lhe sacos para encher de areia e traves de madeira, ambos essenciais para a construção do seu Bunker. Não arrisque. Um Bunker dá sempre jeito.

7. Nada de raquetes, bolas ou quaisquer outros equipamentos de diversão. Não vai ter tempo nem espaço; nem, temo bem, disposição. Prefira a nossa submetralhadora Ingram MC-10, facilmente transportável e com elevada cadência de tiro. Excelente para senhoras.


Para cavalheiros mais tradicionalistas, não é de desprezar a Remington 870, military shotgun, gadget capaz de pequenas maravilhas, sobretudo se abastecida com cartuxos expresso de zagalote.


8. Não perca tempo com chapéus de sol ou cadeirinhas ridículas. Piece de resistence, literalmente falando, para este verão é a nossa concertina de arame farpado, essencial para retardar a horda invasora e dar-lhe tempo, a si, para remuniciar.


9. Os tempos de enterrar lixos e porcarias na areia também estão, felizmente, a cair em desuso. Não polua o que é de todos. Em vez de pacotes e latas de cerveja ou refrigerante, enterre as nossas Minas anti-pessoal M14, engenhos das melhores colheitas e proveniências, directamente importadas dos Estados Unidos, via Balcãs, que zelarão pela sua tranquilidade, contribuindo para um alerta em tempo útil e uma dissuasão nada menosprezável.




Finalmente, nunca descure: quando em trânsito para a praia ou no regresso dela, não facilite - viaje sempre em caravana. Você e os seus vizinhos, familiares e amigos. E contratem, por avença, um batedor da polícia. Em caso de ataque, ao mínimo sinal da marabunta, formem as viaturas em círculo, mulheres e menores de idade ao centro, homens ao perímetro.
E, por falar nisso, aceite também uma singela recomendação (enquanto não está à venda o "Manual de Operações em Férias", do Dragão): troque o seu obsoleto e inútil extintor de incêndios por este belo e reluzente apetrecho de diálogo social:

Foto: uma das nossas monitoras em plena demonstração.

Boas férias!...

segunda-feira, julho 07, 2008

Acromiomancia - VI. Social, mas não socialista

«Porque agia dentro de uma Constituição que sempre procurei respeitar, e por convicção própria, mantive, portanto, o Estado Corporativo. Mas lancei poucos dias depois de tomar posse do governo, a fórmula do Estado Social a fim de acentuar o conteúdo da política que me propunha seguir.
Esta fórmula é, há bastantes anos, corrente na literatura da ciência política por esse mundo publicada e foi consagrada nalgumas constituições, designadamente na da República Federal Alemã.
O sentido que lhe dei na curta alocução proferida em 10 de Outubro de 1968 ao receber os presidentes das corporações foi o de - "um poder político que insere nos seus fins essenciais o progresso moral, cultural e material da colectividade que, pela valorização dos indivíduos e pela repartição justa das riquezas, encurte distâncias e dignifique o trabalho". E meses depois, por ocasião da apoteótica visita ao Porto, em 21 de maio de 1969, voltava, no discurso proferido da varanda dos Paços do Concelho, a proclamar um Estado Social, mas não socialista.
(...) Está, pois, claro o pensamento que me animava ao preconizar o Estado Social: embora mantendo a propriedade privada e a liberdade de iniciativa em economia de mercado, o Estado deveria intervir fortemente na vida social para corrigir as injustiças da repartição dos rendimentos, directamente através do ajustamento dos salários e indirectamente mediante a concessão de vantagens e oportunidades que permitisse aos trabalhadores e às suas famílias vencer obstáculos à sua promoção e encurtar distâncias sociais.»
- Marcello Caetano, "Depoimento"

Foi, portanto, este, filhinhos, o perigoso fascista que democratas impolutos, hiperactivos e vitalícios, da envergadura e pujança dum Otelo Saraiva de Carvalho, dum Costa Gomes, dum Melro Antunes, dum Álvaro Cunhal, dum Mário Soares e tantos outros, numa bela manhã de Abril, descadeiraram e proscreveram.
"Fascismo nunca mais!", troaram mil papagaios e megafones, na época. Ocasionalmente, ainda nos revisitam os seus ecos serôdios e crocitantes. Só espanta quem não assistiu. E quem não presenciou, entre enauseado e divertido, a modinha subitamente frenética e furibunda daquela romaria à solta. Porque, não duvidem, o slogan descabelado fazia pleno sentido então: é que quem não fosse marxista-leninista, era fascista ou para lá caminhava. Facho, nazi, pide, reaccionário e o que mais houvesse!...
Mas o que era mais fascinante era a autoridade moral, o pedestal seráfico de quem o vociferava, geralmente em enxame querubineiro. Vociferava e, pasme-se, vocifera, ainda hoje, trinta anos passados. Só que agora, em tom mais pastoso, esporádico, sarnento, do alto de sebosa papada, com uma gravata - feita chocalho - a escorrer dela.
Todavia, deixem que vos diga, eu, slogan por slogan, sempre preferi o "putas ao poder, que os filhos já lá estão!" E, já agora, permitam até que o actualize: Os filhos e, entretanto, também os maridos. Pois, tudo indica, desposaram os rebentos as matrizes, ascendeu ao matrimónio a clientela. Afinal, este não é apenas um regime de mentira: é de incesto. Os filhos da república não saem de cima da mãe.

sábado, julho 05, 2008

Este Kant à beira-mar plantado (rep)

Embora não pareça e não sei quantos mil jornalistas insidiem e conspirem, Portugal é um país de génios. De génios, de doutores congénitos, de crânios predestinados, é o que vos digo! A prova? Nenhuma outra região do globo, creio mesmo que da galáxia, reune sob as suas fronteiras uma tal densidade de eruditos em Kant. É preciso dizer mais? Experimentem, numa qualquer esquina, interrogar um transeunte, um indígena avulso, mesmo uma porteira que por ali ande, de cão em trela, à espera que a alimária se alivie... perguntem-lhe, vá. “Kant? Emanuel Kant, o filósofo de Konisgsberg?! –Obsequia-vos logo, o aborígene, todo pressuroso. –Não tem nada que enganar, amigo: segue sempre em frente, vira à direita, outra vez á direita, encontra uma praça, com um jardim, é aí mesmo!” E se não vos brindar, à despedida, com um trocadilho brejeiro –do estilo: “mas cuidado não vire à esquerda na segunda direita, senão em vez de Konigsberg vai dar a Caralhisberg, uma chatice, ah-ah-ah!...” – já ides com sorte. Isto tudo se, entretanto, qualquer outro basbaque, daqueles que rondam sempre de olho atento e ouvido à escuta, não flanar nas redondezas e se aperceber da questiúncula. Porque, nesse caso, arrepiai-vos boa gente, pois haverá debate pela certa. Kant é matéria que nenhum português de gema se atreve a deixar impune. O segundo obstará de imediato ao primeiro: “Olhe que não, está a fazer confusão. Aí, na praça, é o Hegel, o filósofo da dialéctica. Kant, o Emanuel, fica dois quarteirões mais acima, logo antes da Travessa do Fichte, o amigo do Schelling”. “Você está a fazer confusão entre o filósofo e o crítico da razão, ora essa!... –retorquirá, o primeiro. –“O crítico é que mora no Largo da Transcendência, o filósofo é como eu digo!...” Nada a fazer: muni-vos de toda a vossa santa paciência e preparai-vos para uma logomaquia das antigas. Um terceiro, um quarto, não tardarão. Parecem moscas atraídas pela bosta. Em menos de nada já é um areópago, uma assembleia, uma conferência. Cada qual –e serão muitos, garanto-vos–, tentará impingir-vos um itinerário diferente, o último sempre mais peregrino e rocambolesco que o anterior. Quando começarem a berrar alto coisas como “Leibnitz”, a vociferar “Hume” e “Wolf”, e a mandarem-se uns aos outros para o Platão que os pôs ou a socratizar-se naquela parte que vós imaginais, então, temei, fixai que é chegada a hora de sairdes pianinho, à francesa, que o caldo, depois de ferver em três tempos, vai entornar-se pela certa. Ora, se o povo avulso é assim, imaginem agora os assistentes universitários, os catedráticos, os jubilados (já não falando nos estudantes, essa inefável classe de vermes em trânsito para mariposas). Pois, envernizai a espontaneidade popular com uma camada lustrosa de neurose obsessiva e aí tendes o quadro dos eruditos (em acto ou im-potência). Resumindo: neste raio de país, não há quem não nos explique Kant, com minúcias do arco-da-velha, escalas mirabolantes e em versões tão abstrusas e estapafúdias que nem ao diabo lembrariam, mas todas elas geniais, é claro. Aliás, quanto mais abstrusas, mais talentosas, foras-de-série. Este, de resto, é um traço essencial do carácter luso, um fundamento da sua idiossincrasia: o português não explica, complica. Respira convicto que saber uma coisa -dominá-la até à medula dos ossos-, é complicá-la, ou seja: arrastá-la pelos cabelos a um labirinto, atomizá-la num alucinante puzzle ou triturá-la em pasta homogénea, em puré imarcescível, com a varinha mágica da sua sobrinteligência. Os portugueses alcançam mesmo o prodígio inaudito de conseguir complicar Kant. E tudo isto duma forma inata, espontânea, enciclopédica. O preço para tanta glória? Apenas uma ligeira contrariedade... Emerso em tão feéricas e prolixas tramas, o patrício nunca entende as coisas: contende com elas. (Uma bagatela, portanto, Deus o abençoe).

Escrevi aqui isto em 18 de Outubro de 2004 - há quase quatro anos, portanto. Hoje, todavia, poderia ainda acrescentar:
Nestes nossos vis e apagados tempo, à falta de Deus, os aborígenes acreditam em qualquer farófia. E, com idêntica codícia, à falta de glória, cobrem-se de qualquer coisa... Ridículo, quase sempre.

Aliás, eu bem digo: o problema maior da gente actual deste país é bem pior que simples ignorância: é adolescência. Furiosa, relapsa e contumaz.

sexta-feira, julho 04, 2008

Acromiomancia - V. A eterna juventude

«No decurso dos anos 60 nunca mais deixaram as escolas de ser alvo da doutrinação comunista, mais ou menos encoberta, e de nelas se fazer trabalho de organização, a partir, em geral, da conquista das associações académicas ou das chamadas comissões pró-associação nas escolas onde aquelas não existiam. O emburguesamento do operariado alterara os termos da concepção clássica da revolução social, mas os jovens intelectuais viriam substituir os proletários como tropa de choque. A acção na escola tinha ainda as vantagens de, por intermédio da juventude, infectar a vida social, desorganizar o esforço militar no Ultramar e abalar as estruturas capitalistas. (...)
As escolas superiores iam sendo, assim, persistente e habilmente trabalhadas pelo partido comunista que só começou a ter dificuldades pelo aparecimento dos seus inimigos à esquerda - os trotskistas, maoístas e anarquistas.»
- Marcello Caetano, "Depoimento"

Se pensarmos que foi desta incubadora que germinou grande parte dos nossos governantes dos últimos trinta anos ficamos a perceber porque é que a nossa "democracia" se parece tanto com um albergue espanhol.

Agora atentem nesta descrição perfeitamente surrealista e - o mais espantoso! - plenamente actual:

«E em Portugal os ecos dessa contestação global encontravam ressonância não faltando quem, como de costume, se apressasse a papaguear os pontos da doutrina revolucionária quanto ao ensino.
Foi aliás por diante um delírio de regress0o a pedagogias libertárias, incluindo a ressurreição das ultrapassadas concepções de Jean-jacques Rousseau. Respeitáveis professores e boas mães de família passaram a afirmar enormidades antideducativas, onde as pretensões filosóficas tomavam laivos de psicanálise em fórmulas mal digeridas e dogmaticamente proclamadas.
E aqui se insere a terceira das causas das dificuldades do governo na definição e na prática da reforma educativa: enquanto progrediam os ataques revolucionários, comunistas ou anarquistas, contra a educação dita burguesa, do lado da burguesia entrava-se francamente em crise. Os professores antigos recusavam-se a discutir com quem os acusava de atraso ou reacção, e depois, perante a pressão dos mais novos, começaram a ter medo de fazer figura em público de ultrapassados, ainda quando em particular divergissem das novas ideias e dos novos métodos.
O mesmo sucedeu com os padres. A Igreja fora sempre em Portugal o grande sustentáculo da moral tradicional, que é a moral cristã, e o sólido apoio das famílias na educação dos jovens segundo esses princípios. Mas o espírito da dúvida acerca dos valores morais e dos métodos de educação entrou também na Igreja. Sacerdotes com fumos de intelectualidade apressaram-se a perfilhar as novas ideias sobre conduta em sociedade onde o materialismo pusera a sua marca e a abençoá-los como frutos apurados de um requintado espírito cristão. Cheios os bispos do temor de usar a autoridade pastoral (não fossem chamá-los fascistas!) não tardou que nos retiros, nos colóquios, nos colégios religiosos começasse a imperar como bo a doutrinação progressista que relegava para o mundo das velharias os conceitos e os métodos em que haviam sido educados os pais dos jovens de hoje. E as famílias recebiam no seu seio o impacto desta mensagem. Os jovens em crise de adolescência proclamavam agora, perante pais atónitos, a negação de quanto estes acreditavam, e autorizavam-se para isso com o prestígio da adesão da escola e da bênção da Igreja.
Perante os pais - quando havia pais... Porque a crise da família fazia com que, cada vez mais, os jovens não encontrassem em casa com quem dialogar. As mães para um lado, os pais para outro, caminha-se para a destruição da comunidade familiar.
Foi neste quadro que se trabalhou no domínio da educação durante os cinco anos e meio do meu governo.»
- Marcello Caetano, "Depoimento"

Caetano descreve o rilhafoles socio-educativo daquele tempo, mas, incrivelmente (ou nem tanto), o retrato continua a assentar que nem uma luva neste em que ainda hoje patinamos. Afinal, o jovens acumularam anos, tachos, pedestais, sinecuras e mordomias, mas a crise de adolescência continua a mesma. Imarcescível e inoxidável. No fundo, é a única e verdadeira e crise que não despega - a crise-mãe e locomotiva de todas as outras: a da incapacidade destas efebências que nos desgovernam - e tiranizam com toda a espécie de birras, leviandades e macaquices - em alcançarem a idade adulta. Dir-se-ia até que, em Portugal, foi finalmente encontrado o segredo da "eterna juventude". Só que, pelos vistos, não é uma fonte: é uma chucha.



quinta-feira, julho 03, 2008

Acromiomancia - IV. 28 de Março de 1974

«Consola-me ouvir dizer a muitos, estrangeiros ou que no estrangeiro residam habitualmente, mas que nos visitam de quando em vez, que é visível a profunda transformação da vida nacional em todos os sectores, a partir de acentuada melhoria económica e da aceleração da política social. Essa transformação rápida tem um custo. A muita gente aflige ver a modificação de hábitos, de mentalidade e de costumes que se processa na sociedade portuguesa. E que nem sempre é para melhor. Tínhamos, e graças a Deus ainda há muito quem tenha, uma bondade natural de trato com os outros, um espírito de afabilidade no acolhimento dos estranhos, um respeito recíproco nas relações sociais, uma compreensão das dificuldades alheias, uma contenção púdica de sentimentos, que vão cedendo cada dia mais aos impulsos do egoísmo. O egoísmo é a lepra da humanidade contemporânea. À medida que se vai implantando a convicção de que esta vida são dois dias, dos quais importa tirar o máximo de prazer sem qualquer esforço e suceda aos outros o que suceder, desfazem-se as famílias, desmoronam-se os exércitos e ruem os Estados.
A vida em sociedade implica numa atitude de solidariedade e de colaboração que exige dádiva de si próprio, sacrifício de interesses, espírito de serviço, integração em planos colectivos. Mas o egoísmo materialista desfaz tudo isso. Nega-se ao sacrifício, escusa-se a servir o próximo, aborrece a obediência às leis e a quem as executa, instaura a indisciplina em todos os sectores, recusando-se a acatar outra norma que não seja a das conveniências pessoais de cada um.
Quantas vezes as pessoas se queixam de injustiças, por não lhes ser feita a vontade! Para muitos justiça é o que lhes convém.
Estamos perante a invasão de uma mentalidade que grassa já na maior parte dos países e que, infelizmente, está longe de ser um sinal de progresso. »
- Marcello Caetano, "Última Conversa em Família, através da rádio e da televisão, em 28 de Março de 1974"

Atentemos no lúgubre paralelismo entre este presságio-mortalha dum ciclo e um outro de 27 de Setembro de 1968, com que Franco Nogueira encerrava o seu Diário:
«Anunciada a composição do novo governo. Nos Estrangeiros, lavro um despacho determinando que cesse o envio dos telegramas oficiais ao Doutor Salazar e que os mesmos passem a ser remetidos ao Presidente do Conselho Doutor Marcello Caetano. Findou uma época com lampejos de grandeza, um estilo de governo onde havia sentido de medida e elegância de forma, uma concepção de vida assente em certezas, uma visão de Portugal haurida na história, também erros e sombras sem dúvida; mas foi toda uma política onde a firmeza e a coragem desempenhavam papel de monta. Uma viragem, em suma. Vamos ter novos tempos, novas vontades
Franco Nogueira, lucidamente, adivinhava a mudança de rumo. Estarrecido, Marcello Caetano descobria a invasão duma mentalidade infestante, perturbadora, pandémica. Augurava que não era um progresso. Nós, que a padecemos vai para mais de trinta anos podemos confirmar a plena correcção desse augúrio. De facto, não foi um progresso. Pelo contrário, tem sido um retrocesso constante. Tanto, que, por este andar e a este ritmo caranguejante, não tarda estaremos -não decerto no 24 de Abril de 74, mas - num híbrido deveras monstranhiço do 27 de Maio de 1926 com o 30 de Novembro de 1640. Uma enorme bosta ouriçada de patas, goelas, cloacas e pêlos.
Por outro lado, se a uma vontade sucediam outras vontades, já com a mentalidade invasora era a diluição de toda e qualquer genuína vontade numa chusma heteróclita e carnavalesca de meras gulas apetites o que se adentranhava. Mas o que não deixava de ser ainda mais perverso e inquietante é que o púlpito donde o infeliz governante lançava o seu alerta coincidia precisamente com a principal porta de entrada da peçonha: a rádio e a TV.
E quando mais adiante, nessa sua derradeira Conversa em Família, Caetano profere: «No que todos os estrangeiros, desejosos de nos ver despojados do Ultramar, jogam é no colapso da retaguarda em Portugal», nem imagina o quão justo e paradoxal está a ser.
Sterne defendia que todo o homem tem o direito inalienável ao seu cavalinho de pau. Para azar de Marcello Caetano, e ainda mais nosso, o seu cavalinho de pau era também o de Tróia. Bem vistas as coisas, as suas Conversas em Família não passavam dum breve e inócuo interstício na propaganda do inimigo. Uma minúscula pausa no bombardeamento. Que, passados trinta anos, não só não abrandou como se tornou maciço... e ininterrupto.