quarta-feira, maio 30, 2007

Babelização, ou A escadaria-rolante para o Céu




O progresso e a modernização, primeiro, desertificaram os campos e as aldeias. Depois, paulatinamente, têm vindo a desertificar as grandes cidades. Lisboa, exemplo clamoroso, é uma pungente montra disso mesmo. Aos poucos, vai-se esvaziando de gente e de memória. E tal qual a antiga metrópole dum império devém necrópole de sonhos e ideias, também a sua emblemática capital, de sala de visitas, descamba em sala de embarque zombie. A noite, sobretudo, é esclarecedora: espectros e pré-fantasmas aguardam despejo, apodrecem diante de televisões ou jazem embrulhados em papelão e farrapos, sob abrigo de túneis ou arcadas. Está cada vez mais lúgubre a minha terra. Num tempo em que as pessoas vão petrificando por dentro, resta às pedras que assistem, cá fora, impotentes, chorar.
Há pois uma questão que se torna incontornável: em que consiste realmente essa tal "modernização que canta"? Bem, tudo indica que consiste, fisicamente, em acantonar a população num imenso subúrbio (excepto, naturalmente, a nomenklatura jet-seita reinante, mais a sua insaciável corte de serviçais e bobos de serviço); e, psicologicamente, em terraplenar toda a cultura, justiça ou tradição (ou mera hipótese de qualquer uma delas) a uma pardacenta - e sórdida - mentalidade suburbana.
Para aqueles que tanto gostam de contrapor, triunfalmente, a modernidade ao feudalismo, a "idade das luzes" à "idade das trevas", a ciência à religião, e ufanarem-se da evolução e libertação que foi, fica todo um trajecto épico, toda uma saga maravilhosa que, caso usufruissem dessa faculdade mental, convinha que reflectissem: a da indústria salsicheira celestial que recauchutou os servos da gleba em servos da banca.

Fábulas - A cigarra e a formiga

Instalada num confortável sofá, defronte da lareira, a formiga gozava dos confortos da sua casa nova e dos mantimentos açambarcados durante a boa estação. Lia balancetes e planeava mapas de recolha prá primavera... Ao mesmo tempo, protegida, refastelada, comprazia-se com a neve que ia caindo lá fora e o vento gelado que atormentava os campos. A certa altura, bateram à porta. A formiga já o esperava e sorriu triunfante, ufana...
"Lá vem ela", pensou. "Por esta altura do ano, é sempre a mesma coisa... Mandriou o verão todo e agora vem pedir batatinhas!... Eu já lhe digo das boas!..." E dirigiu-se para a porta da rua, toda satisfeita consigo própria; pronta para mais um sermão vingativo. Abriu...
Não era a cigarra, era o Dragão. Ia pra dizer qualquer coisa, o visitante, quando, instigado certamente pelo clima inóspito, foi acometido dum espirro. Ainda tentou sustê-lo, mas em vão. Espirrou inapelavelmente. Em cima da formiga e da casa da formiga. Depois, desolado, foi-se embora.
Mais tarde, quando a cigarra chegou, para vir pedir batatinhas, encontrou a porta aberta e aquilo tudo com ar de holocausto. Perplexa, não viu a formiga, mas viu as batatas, amontoadas na despensa. Radiante, não se conteve de bradar:
"Olha que gentileza: batatinhas fritas!..."

segunda-feira, maio 28, 2007

Anatomia dum Telecídio



Sobre esta coisa do Chavez encerrar o tal canal de TV venezuelano, também tenho alguns pareceres super-bestiais que passo a emitir.
1. Estará o Chavez a maltratar a democracia? Espero bem que sim. E estou à vontade para dizer isto: não simpatizo com um nem deposito grandes esperanças na outra. Melhor dizendo, se na Escandinávia a democracia funciona às mil maravilhas, exceptuando a taxa de suicídio mais elevada da Europa (não sei se do mundo), já na Venezuela não acredito que tenha grande futuro. Aliás, nem futuro, nem, por falar nisso, presente ou passado.
2. A nossa esquerda Ruca está amargurada e experimenta angústias com este novo desarrincanço Chaviano? Bem, então o Chavez sobe na minha consideração - não muito, é certo, mas o bastante para ascender de mero truão a truão engraçado. Tudo o que contribua para arrepelar os fornicoques à nossa esquerda Ruca, a mim, prontamente, encanta-me. Fico feliz da vida.
3. Encerrou uma televisão privada que servia de megafone à oposição, o tiraneto? Lembro-me daquelas telenovelas venezuelanas que por aí passaram. Suponho que foram produzidas por essa televisão. E lá volta o Chavez a descer na minha consideração. Por duas razões muito simples: não os fechou há mais tempo; e não os encerrou como se impunha e mandava a mais elementar decência: à bordoada. Ou à mangueirada, no mínimo. Por mim, empalava-os, mas não quero que digam que lá está o Dragão com as suas hipérboles. Se bem que empalados até nem era exagero nenhum, a eles e a quem por cá lhes comprou -e transmitiu! - essas tele-estricninas.
4. É verdade que eu podia ficar aqui uma noite inteira a despejar uns belos impropérios (todos eles justos!) em cima do Chavez. Modéstia à parte, não sou mau de todo nesse departamento. E o figurão até é rico em motivos folclóricos - quase tanto como em detalhes caricatos. O difícil seria escolher. Poderia pois zurzir-lhe de toda a maneira e feitio. Ainda o hei-de fazer um dia destes, ficai seguros. Mas não hoje. E nunca jamais por ter encerrado uma televisão comercial, sobretudo na Venezuela. Não, aí, que Deus o abençoe! Aí, que nunca o coração lhe doa nem a mão lhe trema! Melhor mesmo, só se de caminho, e já que estava com ela na massa, fechasse a nossa TVI. Não, nesse caso, ó milagre!, ó prodígio!, além de aplauso e volta à arena, merecia canonização e santuário. Ainda fazia de mim um devoto.
5. Tenho por inexpugnável o seguinte axioma : Capitalismo ou televisão. Os safardanas que optem. Os dois juntos é que não.
6. Quanto ao socialismo a petróleo do Hugo, aquilo, como é regra fatal das comédias do género, vai acabar em tragédia. Nos cá estamos, e aguardamos, de camarote, para assistir. Só que agora, temos que reconhecê-lo, com a grande vantagem de já não termos que gramar com os cabrões dos anúncios e os intervalos a toda a hora para a puta da publicidade.
7. E falta rigor quando se diz que Hugo Chavez fechou uma boca incómoda. Deveria dizer-se que fechou uma boca de esgoto incómoda.
8. Em suma, para mim não constitui qualquer problema ou motivo especial de aflição o facto do governo venezuelano não renovar a licença duma televisão venezuelana. Para ser franco, o meu grande problema, e motivo para alarme, é perceber, isso sim, porque raio o "governo" "português" renovou a licença à TVI. Só não é uma boca de esgoto e só não é incómoda porque, de facto, é uma autêntica e descomunal "Ribeira dos Milagres". O canal a céu aberto da suinicultura nacional.
9. Donde se alcança o corolário final de toda esta anedota que decorre em sessões contínuas nesta cine-piolheira à beira-mar esparramada: a ideologia dominante, infestante e bastante, a única que resta e é avassaladora e convulsivamente praticada por todos estes epígonos de coisa nenhuma, não é esquerdista nem direitista, não é liberal nem conservadora, não é democratismo nem aristocracismo... É, pura e simplesmente, turismo. Não pensam. Andam em viagem.

domingo, maio 27, 2007

A Obra maldita - II

«Em boa fé, parece-me que todos os que regressam da Rússia falam sobretudo para não ficarem calados... Voltam cheios de pormenores objectivos e inofensivos, mas evitam o essencial, nunca falam do judeu. O judeu é tabu em todos os livros que nos apresentam. Gide, Citrine, Dorgelès Serge, etc, não dizem nem uma palavra... portanto chalram... Têm o ar de quem enfia a viola no saco, confunde a baixela; não lhe fazem qualquer mossa. Garatujam, aldrabam, rodeiam o essencial: o judeu. Ficam-se pela superfície da verdade: o judeu. São refinadas embusteirices, é a coragem do dândi; está ali um laço, pode-se cair, não se fractura nada; talvez se arranje uma entorse... sai-se com aplausos... rufar de tambores! Perdoar-vos-ão, ficai certos!...
No momento actual, a única coisa verdadeiramente grave para um grande homem, escritor sábio, cineasta, administrador de finanças, industrial, político (então aqui, a coisa é gravíssima!) é estar de más relações com os judeus. Os judeus são os nossos patrões... aqui, além, na Rússia, em Inglaterra, na América, por todo o lado! Fazei de bobo, de insurrecto, de intrépido, de anti-burguês, de enraivecido cavaleiro andante... que o judeu se está cagando! Galhofices... Tagarelices! Mas não ouseis tocar na questão judaica, se não quiserdes que vos lixem o coiro... »
- Céline, "Bagatelas para um Massacre" (trad. livre)

A obra maldita

«A miséria russa que tão bem observei é inimaginável, asiática, dostoievskiana; um inferno bolorento, arenques fumados, pepinos e bufaria... O russo é um carcereiro de nascença, um chinês falhado, torcionário; o judeu enquadra-se-lhe na perfeição. Escória da Ásia, escória de África... foram feitos para casar... é o mais belo casamento que alguma vez terá saído dos infernos... não me aflige nada dizê-lo... depois de uma semana de passeios tenho as minhas opiniões bem formadas... Natalie tentou, era o seu dever, fazer com que eu mudasse de opinião, doutrinar-me amavelmente... depois, enfureceu-se... quando verificou a resistência... Não conseguiu mudar nada... repeti-o a todos, a Leninegrado, à minha volta, a todos os russos que me falavam, a todos os turistas; que era um país atroz, que até para os porcos seria penoso viver em semelhante chiqueiro... e, depois, como a minha Natalie se me opunha, me tentava convencer... bom, decidi então escrevê-lo para todos, em cartões-postais, para que vissem bem nos correios, já que são tão curiosos, os russos, com que linhas me coso... porque eu não tenho nada para renegar!... não uso falinhas mansas... penso como quero, como posso... em voz alta...»

- Céline, "Bagatelas para um Massacre" (Tradução livre)

Hoje é dia de Céline

«Chegámos ao barco com grande antecedência... Ficámos nos lugarzinhos piores, mesmo por cima da roda da proa... Viamos todo o horizonte admiravelmente... Eu é que ia ser o primeiro a avistar a costa estrangeira... O tempo não estava mau, mas mesmo assim mal nos afastámos um pouco, mal perdemos os faróis de vista, ei-la que começou a excitação... Começa o balancé, a navegação a valer... A minha mãe foi-se logo encafuar no reduto dos cintos de salvação. Foi ela a primeira a vomitar pelo convés fora e na terceira classe.... Ficou tudo vazio num instante...
«Toma conta do menino, Auguste!» teve ela ainda tempo de ganir... Não havia coisa que mais o irritasse...
E vai daí então outras pessoas começaram a fazer esforços inauditos... por sobre a borda, sobre a amurada... Acompanhando o balanço, ou em contra-mão, vomitava-se de qualquer maneira, ao calhas... Havia uma única retrete, ao canto da coxia... Já estava pejada de quatro vomíticos, derreados, dobrados em dois... O mar ia engrossando cada vez mais... A cada vaga que se formava, toma lá mais um bónus... E quando ela se desfazia, doze, pelo menos, bem mais opulentos, bem mais compactos... O véu dela, da minha mãe, foi uma rajada que lho arrancou, todo encharcado... foi chapar-se na boca de outra senhora que estava na ponta... a refrear o estômago... Foi-se-lhe a penitência! Doces... salada... marengo... café com leite... toda a paparoca... tudo pela boca fora... para a linha do horizonte!
De joelhos, nas tábuas do chão, a minha mãe esforça-se e sorri, sublime, a baba a escorrer...
- Estás a ver - nota ela, em contra-balanço... horrível... - Estás a ver também a ti Ferdinand também a ti te ficou no estômago o atum!... - Repetimos o esforço juntos. Buah!... e outra vez Buah!... Enganou-se! São os crepes!... Acho que seria capaz de dar com as batatas fritas... com um bocado mais de afinco... Dando volta à tripalhada, extirpando-a, aqui no convés... Tento... debato-me... ganho forças... Uma cerração tramada investe contra a balustrada de proa, bate, esguicha, torna a cair, varre a entreponte... A espuma arrasta, molha, agita, remexe toda a porcaria pelo meio da gente... Toca a lavar... Mais outra vez... A cada mergulho lá se vai a alma... recobramo-la à vinda, num refluxo de mucos e cheiros... Ainda nos escorrem pelo nariz, salgados. É demais!... Um passageiro implora perdão... Berra aos quatro ventos que está vazio!... teima!... Mesmo assim ainda lhe vem à boca uma framboesa!... Encara-a com terror... Até entorta os olhos... Não tem realmente mais nadinha lá dentro!... bem gostaria de vomitar os dois olhos... faz esforços nesse sentido... Escora-se na mastreação... Tenta fazê-los sair dos buracos... A mamã essa deixa-se cair sobre a balustrada... Revomita à tripa-forra... Veio-lhe uma cenoura... um naco de gordura... e o rabo inteiro de um salmonete...
Lá em cima, ao pé do capitão, a gente da primeira, e da segunda, cascateava tudo em cima de nós... Cada onda que varre os duches são refeições inteiras que se apanha... é-se fustigado pelos detritos, pelas carnes em fiapos... Que vão até lá acima às rajadas... a guarnecer o cordame... O mar à volta muge, é a batalha das espumas... O papá com o seu boné de orelhas apadrinha os nossos desfalecimentos... embandeira em arco. A sorte dele! tem um estômago de marinheiro!... Dá-nos bons conselhos, quer-nos ver ainda mais prostrados... a arrastarmo-nos ainda mais... Uma passageira vem de escantilhão... esparrama-se em cima da mamã... usa-a como calço para melhor lançar... Também um cãozito se manifesta, de tão doente que está mete-se cheio de cagaço pelas saias dentro... rebola-se, mostra-nos a barriga... Dos cagatórios vem uma gritaria horrível... São as quatro pessoas que lá estão fechadas dentro que já não conseguem vomitar mais, ne,m mijar... nem cagar sequer... Esforçam-se sobre o buraco da retrete... Imploram que as assassinem... Mas o traste do barco vá de se empinar ainda mais sempre teso, torna a mergulhar... a enfiar-se no abismo... no verde escuro... Todo ele baloiça outra vez... Chocalha-nos, o infecto, o nosso bandulho vazio...»

Céline, "Morte a crédito"

Hoje é 27 de Maio. E a todos os 27 de Maio, neste batel danado, celebra-se Céline. Céline inteiro, completo, sem mutilações. Mais logo volto. Com as "Bagatelas". Esperem só...

sábado, maio 26, 2007

Um deserto, pois claro.

É mais que evidente que o ministro Mariolino está coberto de razão -e pertinência - quando afirma que a margem sul é um deserto. Todos os dias a ponte se enche de camelos que persistem em pagar portagem. Camelos, dromedários e outros caravanas que acreditam estar em trânsito para um oásis perpetuamente adiado.

A Consulta



- Doutor, é o meu eucalipto. De novo...
- Não me diga que voltaram, os macacos...
- Não, Doutor. Agora desenvolveu papagaios. Milhares de papagaios. Primeiro foram bicos, mas a seguir, em menos de nada, já eram papagaios completos, de todas as cores, tagarelas até mais não!...
- Humm... Papagaios, diz você. Tem a certeza?
- Absoluta. Autênticos papagaios. Ainda reconheço um papagaio quando o vejo. Só que neste caso, infelizmente, não é apenas um: são muitos.
- Diabo, isso é uma síndrome rara. O vulgar é desenvolverem piriquitos. Chega a ser pandémico. Mas papagaios é o primeiro caso que me apresentam.
- Suspeito que foi na escola que ele os apanhou, doutor. A minha mulher argumenta que é efeito secundário das vacinas, mas eu tenho quase a certeza que foi na escola.
- Na escola? ...
- Sim, já concluiu o infantário. Agora já anda na escola. Aliás, ao fim da primeira semana de aulas foi quando começaram a desenvolver-se os papagaios. Agora está infestado. Um horror! Não se calam. Não me deixam dormir. Por este andar, dou em doido!...
- Notou-lhe mais alguns sintomas - febre, borbulhas, palidez nas folhas?
- Não, doutor. Apenas papagaios. A minha mulher ainda experimentou dar-lhe banho, cataplasmar-lhe o coruto, polvilhá-lo com talco nas vrilhas, mas a papagaeira não esmoreceu. Pelo contrário, alastrou ainda mais. A todas as horas... não fecham a matraca. É um palramento desenfreado!...
- O seu eucalipto costuma brincar na rua com outros eucaliptos da idade dele?
- É raro, doutor. Só o deixamos brincar no jardim, com a acácia do vizinho. Mas é raro. Por questões de segurança, bem vê. Hoje em dia todo o cuidado é pouco. Uma araucária duma aldeia próxima desapareceu enquanto andava de bicicleta. Até hoje nunca mais foi vista. A polícia nada pode contra os obscuros poderes detrás das redes pedossilvófilas!...
- E em casa, o seu eucalipto, vê muita televisão? Já tem computador?...
- Ah, ainda andava de vaso quando lhe comprámos o computador. Teve que ser. Senão éramos apontados na vizinhança, na família, na sociedade... Todos os outros já tinham, o nosso também tinha que ter. A inspecção social não brinca. Ainda nos retiravam o eucalipto, por crueldade e maus tratos. Agora, como todos os outros, passa o dia debruçado naquilo. O dia e a noite. Até aqui o único problema era masturbar-se muito com as páginas pornográficas. A mãe, conforme aprendeu nos manuais, estimulou-o muito, para que não se inibisse nem desenvolvesse complexos de culpabilidade. Bem, culpabilidade não estava a desenvolver nenhuma, é um facto. Aquilo era largar pólen a todas as horas. Mas agora desatou a desenvolver papagaios, já não entendo nada disto. Acha que foi do computador, doutor?... Agora que penso nisso...
- Duvido muito. Nesse caso, o normal seria desenvolver vermes. Resolvia-se facilmente com um herbicida de largo espectro: dava cabo da bicharada num instante.
- E não tem um remédio que dê cabo dos papagaios, doutor? Suspeito que começam até a desenvolver-se araras, tucanos e catatuas!... E se aparecem coalas?
- São estirpes, todas essas, mais que resistentes, protegidas por lei. Caía-me a Quercos e a Greenpeace em cima. E a imprensa, as televisões... Os papagaios cultivam um feroz espírito coorporativo. Cassavam-me a licença fitoclínica num abrir e fechar de olhos.
- E um silenciador, doutor, não existe um qualquer silenciador -neste caso, um poli-silenciador - que lhe lhes pudesse aplicar? Nem que fosse só durante a noite... Aquilo é uma algazarra ininterrupta. Parece que tenho o eucalipto possesso duma selva australiana!...
- Já experimentou uns tampões nos ouvidos ou insonorizar o quarto do eucalipto?
- Doutor, até já em sonhos os ouço! São papagaios que ultrapassam todas as barreiras. É um pandemónio inconfinável!... Grulham que nem deputados. E tenho quase a certeza que o meu eucalipto já não se contenta com a pornografia normal: agora também lê blogues de referência!.... (em tom confidencial) Deus me perdoe, doutor, mas até começo a desconfiar que ele os escreve!...Todas aquelas vozes em permanente chinfrim não são nada tranquilizadoras.
- Bem, isso claramente transcende o meu foro. Vou receitar-lhe, em vez de medicamentos, endereços para casos paranormais como o seu. Um é de um colega meu, silvopsicanalista. É perito em assombrações do subconsciente colectivo. Leve lá o eucalipto. Se não resultar, só vejo uma última hipótese... mas é confidencial. Não vai dizer a ninguém que eu lhe disse isto. Tem que mo prometer!...
- Ah, prometo, doutor. Juro por tudo o que há de mais sagrado! Desde que me livre dos papagaios, estou por tudo!... É que, além do berreiro ensurdecedor, conspurcam tudo. Transbordam por toda a parte. Tenho guano pela casa toda.
- Pois, é que não é suposto eu dar-lhe este tipo de conselho técnico... Enfim, trata-se de medicina tradicional...
- Ah, um curandeiro, um exorcista, uma bruxa?...Quiçá um ferrador?!
- Melhor: um podador. Pelo que me conta, o seu filho está para lá de qualquer terapia médica: precisa, isso sim, é duma boa poda camarária. Que se saiba, até hoje, a única forma expedita e comprovadamente eficaz de alguém se livrar de papagaios é extirpando-lhes o poleiro. Desmate-o!

sexta-feira, maio 25, 2007

Da Lusiputânia

Um leitor -que visivelmente me conhece - deixou aí, mais abaixo, um opíparo comentário. Por isso mesmo, leva honras de primeira página. Diz ele:

«Caro Vlad Drakul,

Chama aos jornalistas açougueiros mentais das massas, mas não seria simpático se de facto o fossem? Porque isso significaria duas coisas: que as massas têm mente, coisa que duvido, e que elas existem, coisa que também duvido.
Eu acho que esses tais de açougueiros ceifam em matéria morta, em vinha granizada, em cestos velhos e além disso, de resto, as massas, se é que existem, para lá dos cérebros soviéticos, merecem os jornalistas que têm.
Se quiser eu não vejo remédio social para as coisas que são sociais, porque a própria sociedade é coisa absurda, doentia, erguida contra o destino, o kairos, de quem o tem. No entanto, gostava de estar enganado, se bem que terão que mo provar com muita claridade, pois não gosto da inexactidão.
Eu desde há muitos anos estou contra a massa e contra as massas, que mesmo não tendo vitalidade têm um peso morto de inércia incalculável. Gostava de poder viver, mas verifico que só estou a sobreviver, o que já não é mau, convenhamos, em tempos de pior do que demência, de amência televiseira generalizada.
Quanto às terapias a aplicar a este país cheguei à conclusão que não só não as há, como se as houvesse, não as aplicaria. Se em algo tivemos alguma grandeza (periodo das Descobertas, por exemplo) foi apenas devido a rasgos individuais, com apoio minimo, ou com contradição feroz erguida contra eles desde o primeiro instante.
Depois das descobertas só descobrimos que não tínhamos descoberto mais nada, nem sequer a nossa inépcia.
Por isso chamem-me pessimista ou pirandelliano mas já levo aqui umas boas décadas na Lusiputânia, como lhe chama o Drummond de Castro, e não vejo redenção para a Autarquia Inóspita e Piranheira em que este país se transformou.
As coisas, como sabe, não só vêm deste governo, que já veio escarrado do anterior, que por seu turno...
Talvez Thot e Thor me tenham posto aqui nesta falência colectiva e cognitiva para servir de Pólo de pessimismo Tónico e completo. Que se resume assim: desde a Cruz Vermelha às Filhas de Maria, desde o Futebol ao Procurador geral da República, desde a Comuna soviética ao Sebastianismo, desde a queca fraca colectiva ao solipsismo monástico, não acredito em nada disto. Por isso, vivo só com uma centena de garrafas de rum à frente, cada uma delas emoldurada com pele de almirante. Belos tempos, outrora! Talvez ainda voltem, pelo menos tonifico a energia que me resta para isso.

À sua saúde,

Pelo Sul no centro de tudo!

Vidor Viking»


Cumpre-me dizer o seguinte (e é uma coisa muito smples): começo a ficar lixado com os meus leitores. Suplantam-me constantemente!
E afinal a nacinha já tinha nome: Lusiputânia. Ergam uma estátua ao Drummond de Castro.

quinta-feira, maio 24, 2007

A Roda da Fortuna

Francamente, estou-me perfeitamente nas tintas para esse grande atentado contra a liberdade de expressão na DREN não sei das quantas. Se a senhora directora de não sei quê - nem me interessa, nem sei para o que serve, se é que serve para alguma coisa - que tem cartão rosa encetou uma perseguição política ao senhor professor requisitado que tem cartão laranja, acho muito bem. Direi mais: considero justíssimo. Enquanto o povinho avulso não acorda da letargia e desata numa perseguição política -de preferência à bordoada - aos possuidores todos -e são muitos - de tão coloridos cartões, o mínimo que se pode e deve categoricamente exigir é que tais parasitas vorazes se azucrinem e persigam uns aos outros. Todos os dias da semana e todas as semanas do mês. Sob o pretexto a, b ou c, é indiferente - para uma prioridade desta natureza qualquer pretexto é bom. Sim, ao menos que o voto sirva para alguma coisa. Que de tanto e persistente mal resulte algum bem. Que mamem, mas não mamem em paz. Que chupem, mas com desassossego, em sobressalto, com incerteza pelo dia de amanhã. Que contraiam não só tacho, úbere farto, mas depressão alternada, stress permanente. Que experimentem ciclicamente aquela roda da sorte a que os antigos romanos chamavam da Fortuna. Que se digladiem compenetradamente como lhes compete e fica apropriado, ou seja, à maneira das famílias de ratazanas tão bem estudadas por Lorenz. Assim sim, assim é que é democrático e o povo agradece. E já que tem que sustentá-los, lautamente, aos palhaços, ao menos que colha a parca retribuição de se rir deles.
Por isso, da próxima vez, senhora directora rosa, faça-lhe chegar a nota de suspensão acompanhada duma espalhafatosa tarte nas trombas. Ou duma cadeirada nos lombos. Tanta faz. A malta agradece. E cá fica a aguardar, em voluptuosa expectativa, pelo seu turno de ser também, hilariantemente, corrida a balde ou à mangueirada. Que diabo, o regime não há-de ter só defeitos!...


PS: E lembrou-ma agora outra enormíssima vantagem para estas perseguições políticas entre parasitas instalados: enquanto se ocupam em perseguições, emboscadas e minagens entre eles, não andam a subverter, a estupidificar e a poluir, com reformas peregrinas, a instrução dos filhos de todos nós.

PS2 : Mas, entretanto, tanta lágrima de crocodilo vertida só porque uma hiena mordeu num chacal.

segunda-feira, maio 21, 2007

Manual do Alibi para Misogamos

Vem isto a propósito do título duma notícia:
«Matou a mulher com tiro na cabeça».
Logo à partida, há qualquer coisa de estapafúrdio e redundante neste título. É evidente: se ministrou um tiro na cabeça da coitada, a morte seria a consequência mais óbvia e natural. Espantoso seria se a tivesse assassinado com um tiro no pé. Ou no braço. E o espantoso é que seria sobremaneira apelativo para a horda gulosa de desgraça alheia. Ora, não será com banalização e trivialidade que se atraem basbaques, pelo que já nem as regras elementares do chamariz aberrante se cumprem. Ao não deixar nada à imaginação do leitor, o próprio pasquineiro retira o recheio atraente à notícia. Mutila-a do "junk-appeal". Porém, não é esse frenesim chacal e patético dos açougueiros mentais das massas -vulgo "jornalistas" -, o que para agora nos interessa. Fica apenas a nota, que serve simultaneamente de preâmbulo ao que se segue. E o que se segue pertence a outro reino. Abandonemos pois a realidadezinha sórdida e saltemos para outra dimensão mais interessante: a da arte. Da ficção tanto quanto do humor negro.
Um redactor com um peculiar e refinado sentido de humor, escreveria então: "divorciou-se abruptamente". Ou "enviuvou por sua livre e espontânea vontade."
Da mesma forma, entre atenuantes, justificações ou desculpas para o acto, pela voz do perpetrante, também nos ocorrem alguns alibis angélicos - ou teses imaculadas - que passo a enumerar:

1. "Nunca parava quieta. Apontei-lhe ao pé direito, mas ela meteu a cabeça à frente."

2. "Na verdade, eu queria era suicidar-me, mas ela, no último momento, interpôs-se."

3. "A culpa foi dela e mais a sua maldita mania das limpezas. Por mim, nunca teria ido limpar a porcaria da arma."

4. "Eu estava a atirar ao calhas. Para ver se me passava a dor de dentes. É assim que eu faço. Logo por azar, ela ia a passar."

5. "Só puxei o gatilho. Não tenho culpa que atrás viesse o cão, a agulha do percutor e a sacana da munição mandada pela puta da culatra. E a seguir a vizinhança, as sirenes da polícia, os telejornais... Confesso que não esperava tanto barulho por causa dum pinchavelho tão pequeno."

6."Não acredito que esteja morta. Aposto que está a fingir. É tudo um truque para não ter que fazer o jantar."

7."Arranjou esta tramóia toda só para me prejudicar. Um raio me parta se a mãe não está por detrás disto. Conheço bem a minha sogra."

8. "Eu só atirei, não tenho culpa de que ela tenha morrido. Se querem incriminar alguém, culpem Deus, que nos criou efémeros e mortais."

9. "Eu estava fora de mim, há testemunhas. Não posso ser incriminado por algo cometido por quem estava lá dentro."

10. " Sou inimputável. E tenho como comprová-lo: eis o cartão de sócio do SL. Benfica."

11. "Fui compelido pelas circunstâncias. Era uma engrenagem fatal. Qualquer outro teria feito o mesmo."


12. "Ela era uma santa e excelente pessoa. Um anjo em forma de gente. Por isso mesmo, despachei-a em boa velocidade para o Céu. Por um glorioso instante, superei todo aquele meu nojento egoísmo. Não entendo como podem chamar crime a um gesto tão nobre!..."


13. " A intenção não era matá-la, mas apenas colocar um ponto final na discussão. Terapia, essa, que foi plenamente eficaz. Vamos culpar o médico pelo efeito secundário do medicamento?..."


14. "Não está morta. Apenas não se mexe nem respira. Ninguém consegue explicar cabalmente o que é a vida ou o que é a morte. Ainda menos o que é o Homem, donde vem, para onde vai, ou sequer se Deus existe. A Metafísica Ocidental anda há milénios de volta disso e continua tão ignorante quanto no início. Por conseguinte, não posso ser condenado por algo que ninguém até hoje conseguiu explicar ou definir indubitavelmente. Não sou inocente, nem sou culpado: sou uma incógnita. Uma aporia. Aliás, nem o verbo Ser sabem o que seja!..."


15. "Mesmo que tenha morrido, como é que podemos ter a certeza de que não vai ressuscitar?... Terei eu culpa da miserável falta de fé que campeia nestes ignóbeis tempos?..."


16. "Ela não morreu em consequência do tiro, mas do ferimento. Sou apenas responsável pelo tiro. Até porque se vamos pôr-nos com rigores desses, então ela também é culpada de negligência grosseira: andava pela casa sem capacete."


17. "Apresentou-me o seguinte projecto para apreciação: pretendia fazer um aborto. Chumbei-o liminarmente. "


18. "Não podem acusar-me de lhe ter rebentado com os miolos. Não, isso não aceito. Não podia rebentar-lhe com algo que ela, de todo, não tinha. Por isso mesmo lhe apontei à cabeça - como até lhe podia ter apontado ao coração: de modo a não atingi-la em nenhum órgão vital. Para ser franco, só queria assustá-la."


19. "Ultimamente, andava a ouvir mal. Confundia tudo o que eu lhe dizia. Era mais que evidente que tinha os ouvidos entupidos com rolhões de cera monumentais. Convenci-me de que lhos conseguia limpar com um único tiro bem apontado. Era só questão de escolher a trajectória adequada, de modo a fazer com que o projéctil entrasse pelo direito e saísse rectilineamente pelo esquerdo. Afinal, não sou tão bom atirador quanto julgava. Ou então a munição vinha defeituosa de fábrica, vá-se lá saber... O certo é que em vez da cera, limpei-lhe o sebo. Um pequeno desvio na higiene será assim tão grave?»


20. "Na altura pareceu-me importante - indispensável mesmo - dar-lhe um tiro. Mas agora já não me lembra bem porquê. Tenho uma vaga ideia da defunta. Acertei-lhe, foi?... "


21. "Acabei-lhe com a tosse. Que isso lhe tenha custado a vida foi o preço que, assim de repente, me ocorreu cobrar-lhe. Homicídio voluntário? Ah, não exageremos! Quando muito exagerei nos honorários. Mas a saúde não tem preço, sempre ouvi dizer."


22. "Foi contra minha vontade que lhe dei um tiro. De facto, só usei a espingarda porque a moto-serra avariou inesperadamente. A mim, quando muito, deviam constituir-me testemunha de acusação. Arguir, vão arguir o Acaso!."


23. "Sim, dei-lhe um tiro e não compreendo tamanho escândalo. Daqui, da cadeira de rodas, queriam que a liquidasse como - à paulada? Sou deficiente motor, não sou deficiente mental."


24."Era ela ou eu. Ou dava um tiro na cabeça dela ou dava um tiro nos meus miolos, ou até nas pessoas todas que encontrasse no supermercado. Assim, na medida em que cometi um mal para evitar um mal muito maior, cometi um bem. Em vez de me julgarem em tribunal, deviam era de homenagear-me no parlamento. Sempre achei o meu nome predestinado a uma rua, praça ou jardim."


25. "Foi a eutanásia possível. Ela padecia duma timidez incrível, mórbida. Era só por isso que não me pedia. Não queria causar-me transtornos nem maçadas. Mas eu, que sou deveras sensível ao sofrimento alheio, lia-lhe a súplica no olhar. Aquele sangue todo? A culpa é do Estado que não nos disponibiliza os equipamentos adequados. Eu também tinha preferido não sujar a carpete, nem alarmar os vizinhos com estampidos desnecessários. "


26. "Acabo de perder a minha mulher, caro senhor. Acha que é altura para responder a inquéritos?... É da polícia? E eu tenho porventura culpa de vossência não ter arranjado um emprego melhor?..."


27. "Falta de amor, falta de dinheiro, falta de pachorra. Acusava-me de ser um falhado, um nada-na-vida, só porque não a enchia de ouro. À falta de ouro, enchi-a de chumbo. Na Alquimia, dizem que resulta. Com ela não resultou. Querem agora fazer de mim o bode expiatório para estes mistérios e caprichos esotéricos? Tenham paciência."

28. "Confundi-a com a mãe dela."

29. "Confundiu-me com o amante dela. Qual deles? Foi precisamente essa questão que a matou. Eu fui só o instrumento dessa incerteza assassina. Eu e a espingarda, bem entendido."

30. "À velocidade a que ela corria, foi um verdadeiro milagre acertar-lhe na cabeça. Ora, se fiz um milagre, sou um santo. Jamais um criminoso!..."

31. "Sai mais barato um advogado de homicídio do que um advogado de divórcio. Com a dupla vantagem do homicídio resolver instantaneamente o divórcio."

33. "Do pescoço para baixo era um hipopótamo, do pescoço para cima uma galinha; da língua para fora uma autêntica víbora. Agora acusam-me de ter morto uma mulher. Sei do que falo: exterminei uma quimera, isso sim. Livrei o mundo dum monstro. Pena maior? Eu merecia era um Sófocles que me imortalizasse numa tragédia."

32. "Aqueceu-me tanto a cabeça, que, por lei da compensação cósmica, tive que lhe arrefecer a dela. A Física Quântica justifica-me plenamente."

33. "Foi um péssima ideia ter disparado. Mas criminosa mesmo foi a triste ideia de casar com ela. Portanto, se agora me acusam de homicídio, o padre é meu cúmplice. E mentor."

34. "Crime passional uma ova! Eu nunca gramei a gaja!..."

35. "Não foi de propósito: foi de emboscada. Não tive intenção: só tive pontaria."

36. "Para variar, fui dormir a casa. Estava esfalfado, precisava mesmo de descansar. O problema é que sou sonâmbulo e tenho o vício da caça."

37. "Ela ficou possessa. Eu fiquei nervoso. O exorcismo não correu lá muito bem. Mas era o diabo ou eu!..."

Morte-Vida II

Mas, ao contrário do vampiro, o burguês não se horroriza diante do espelho: deleita-se nele.

A Morte-Vida



Se me pedissem um termo que condensasse tudo aquilo de que não gosto, eu não hesitaria: Burguês.
E quando digo "burguês" nada importo das patranhas marxistas e seus derivados mais ou menos fétidos. Para mim, "burguês" significa um estado mental, muito mais do que um estado material.
O burguês está por toda a parte, das esquerdas às direitas, do norte a sul. Ameaça substituir a espécie humana, que, a passos largos, e à força de enxurradas de propaganda ininterrupta, anoitece cada vez mais convertida na "espécie burguesa".
Enquanto paradigma, pois é dum paradigma que se trata quando o menciono, o burguês contrapõe-se na perfeição a Jesus ou a qualquer outro herói trágico. Cristo sacrificou-se pelos outros todos; o Burguês considera que todos os outros se devem sacrificar por ele.
Todos esses apocalípticos e alucinados que aguardam, com sofreguidão, pelo Anticristo, escusam de se angustiar e descabelar mais: já aí o têm. O problema da Besta, como do Conde vampiro, é que não se vislumbra defronte do espelho. Este, todavia, reflecte com exactidão aquilo que tem diante: o Nada. O vazio. A morte-vida.

sábado, maio 19, 2007

Da Utilidade pública

Diz o nosso Primeiro-Ministro: «António Costa é mais útil ao País na Câmara Municipal de Lisboa».
E diz uma grande verdade. Está mesmo a ser duma franqueza a todos os títulos notável. De facto, se há ocupação onde qualquer ministro da nacinha, nos últimos trinta anos, pode ser útil ao País é, precisamente, fora do governo. Todos concordamos nisso.
Por isso mesmo, só tenho pena que, além do Município de Lisboa, não surja uma providencial constelação de outras frondosas autarquias, clubes de futebol, grupos recreativos ou confrarias excursionistas onde os restantes ministros e secretários de estado, logo que transferidos, pudessem ser de alguma utilidade ao país. Onde, enfim, lograssem servir para alguma coisa, despendendo das suas genuínas competências e exercendo judidiosamente os lavores para que estão, quiçá desde o berço, tão perfeita e cristalinamente talhados.
Se bem que, verdade seja dita, se procurássemos o local e a função ideais onde a plenitude das suas pujantes faculdades se veria realizada, para glória do Estado e superlativo lucro de todos nós, outros não seriam que, devidamente enfileirados, à frente dum arado, a cultivar os campos negligenciados desta pobre e moribunda nação. Aí, sim, aí é que eram duma autêntica utilidade pública.

sexta-feira, maio 18, 2007

Necrofilia

A Ministra da Cultura recusou a «abertura do túmulo de D. Afonso Henriques».

Sem meias tintas: louve-se a ministra. Abençoada seja!
A antropóloga Eugénia Cunha, porém, não desiste. Ela, génia, é que sabe. E quer, reclama, exige à viva força fuçar na sepultura. As suas fantasias com o esqueleto do Rei Fundador têm que realizar-se.
A Ciência está a tornar-se, cada vez mais, um mero subterfúgio para psicóticos perversos. Um necrófilo mascarado de antropólogo sente-se inexpugnável.

quinta-feira, maio 17, 2007

Ao sprint

Enquanto no Irão se projectam bicicletas com burka, em Portugal, a bem da modernização e do progresso - esses imperativos categóricos do Ocidoso, digo Ocidente, uma tasca-force capitaneada por este vosso escriba, está a pensar, seriamente, em desenvolver um novo modelo de velocípede sofisticado: a bicla com selim dildopédico. Nem mais. Sim, porque não basta que denunciemos a repressão anacrónica com que aqueles arcaicos obsoletos oprimem as tadinhas das fêmeas deles; temos também que envidar infatigáveis esforços para mimar as gajas nossas. Especialmente as ateístas, liberabundas e demais emancipadas frenéticas. O trabalho -e a carreira - já todos sabemos, libertam. Mas a liberdade sem, pelo menos, cinco ou seis auto-orgasmos/dia não faz qualquer sentido. Tornam-se birrentas e ranzinzas. Para obviar a esse nefasto stress, nada como os nossos futuros modelos dinâmicos -para estrada e campo -, ou estáticos - para sala, varanda ou garagem. Em todos eles, o selim ortofálico é garantia de trepidantes viagens, fogosos percursos e arfantes serões.
Os velocípedes em tandem - duplo, triplo e quadrúplo tandem -, também estão nos nossos horizontes empresariais. Tal qual não gosta de ir sozinha à casa de banho, a gaja prefere, com idêntica predilecção, pedalar em grupo. E então sprintar, nem se fala. De resto, adivinhava-se: depois do Big-bang e do gang-bang, era fatal que surgisse o Gang-Bike!
Mas isto é só para gajas. Os panascas ainda vão ter que esperar.
Ah, e como se vai chamar este novo modelo arrasador de mercados? - É mais que evidente: se a dos outros é uma "bicicleta islâmica", a nossa é um "bicicleta Laica", rigorosamente laica.
Laica G1, nome técnico deste formidável protótipo.
A seguir, eventualmente, e com sucesso que se adivinha garantido, lançaremos a não menos bombástica Laica K1 - ou seja, a Laica Kosher. Produzida integralmente sob a supervisão de rabis e com selim ergonómico revestido a látex esterilizado auto-lubrificante.

À boca das urnas



Uma candidata -ainda por cima jovem e nada monstruosa - em campanha para o Senado Belga, promete felatios aos eleitores.
Quando traduzi ao Caguinchas a palavra felatio, o tipo saiu desalvorado porta fora. Direito à Bélgica, pareceu-me. Julgo que, finalmente, encontrou a candidata dos seus sonhos.
Podia ficar aqui a mofar da ingenuidade do energúmeno, mas, a bem da verdade, cumpre-me confessar que mesmo um urnofóbico inveterado como eu, diante dum marketing eleitoral destes, vacila. Chego mesmo a questionar-me, com certa inquietação, se caso a Joana Amaral Dias desatasse em idênticas promoções, à frente do Caguinchas, não estaria a esta hora a correr o velho César Augusto?!...

terça-feira, maio 15, 2007

A auto-gestinha da gentona

A importância que estes políticos de alterne dão ao governo do país é quase tão minúscula quanto aquela que dão ao país e respectivos habitantes. Sinal disso mesmo é a prontidão para a debandada sôfrega, mal qualquer poleiro na estranja ou numa apetitosa autarquia se lhes proporcione. Dir-se-ia que em vez de projectos para nos governarem melhor, buscam, com denodada ansiedade, valhacoutos onde se governarem melhor.
Não surpreende pois que a outrora nação, e agora nacinha, arfe entre a hetero-gestão e a auto-gestinha.

segunda-feira, maio 14, 2007

Doutras eras




A Vós, Senhora, para que não passeis totalmente por fantasiosa.

Quixote

Vaguearei sempre, ostracizado, entre desertos e ilhas,
na mais desolada, erma e estéril peregrinação?
Ou nada mais serei que o cego escravo desse cão
chamado Destino e perito em abismos e armadilhas?...

Pior que o Judeu Errante, num suplício cruel, alucinante
diante do qual o próprio Sísifo treme e pasma,
Vou, espectro danado, ao leme dum navio fantasma
que é a minha vida fadada de Quixote ambulante.

Será meu o fado, minha a culpa desta acerba punição?
Que tremendo horror, que abominável pecado
terei eu perpretado, nesta ou noutra encarnação?...

Porque o único crime que se me afigura ajustado
e sem hipótese de absolvição, foi o ter-te loucamente amado,
mulher, mais do que permitia o mundo e autorizava a razão!

Quand même?...

O Carlos encomenda-me um "meme". Elucida-me que o tal coiso «é um ” gene cultural” que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma”.»
Quem sou eu para dizer o contrário? Faça-se o meme. Mas é mesmo por ser para ti, (e viva o FCP!), que eu, como muito bem sabes, não sou de cadeias. Pelo contrário, sou um evadido nato.
Estás preparado? Então aponta aí:

« És tu próprio o assassino que procuras.»
- Sófocles, "Rei Édipo"

Olha, de bónus, até te dou outra do mesmo autor, da mesma obra e de memória:
«Porque investigas o que mais valia ignorares?»

E para que a infâmia fique completa e porque quando me atolo, atolo-me mesmo, passo este disparate à Zazie, ao FSantos, ao Kzar, ao João, ao FMS e ao Corcunda.

Agora vituperem-me para aí à vontade.