segunda-feira, setembro 18, 2006

O C.A.F.T.E.N. - Primeira audiência.

O C.A.F.T.E.N (Comité de Análise dos Factos, Técnicas e Empresários da Notícia) reuniu-se. Em acta - para memória, educação e deslumbramento de gerações futuras - foram registadas as presenças de mim próprio, presidente, reitor e Tira-Teimas; o Caguinchas, vogal e consoante lhe dá na telha, mais consoante portanto que vogal; o Dinossauro, chefe do estado maior a que esta bandalheira chegou; o Alfredo Bisnau, secretário técnico e asssessor de imagem; e duas brasileiras sem direito a voto. A ucraniana ao meu colo, não contou, pois, segundo os regulamentos, faz parte do estojo pessoal e honorífico do presidente: entre a nossa confraria, anotem bem, o presidente é aquele que tem a ucraniana ao colo. Caso contrário, ninguém quereria ser o presidente, pois a irresponsabilidade é o único imperativo categórico entre nós reconhecido e consagrado. Já o Armindo Taberneiro pode-se considerar (não digo pode considerar-se, por respeito para com os súbditos, digo, associados) que participou, mas unicamente à distância, na qualidade de observador e despachante de imperiais. A mulher dele, Dona Inzulinda Quitéria, no seu perpétuo avental contra-maçónico, tratou do catering e acudiu, sempre que necessário, como de resto manda a verdadeira receita liberal, com o trotil às ventas parlapiantes, glossofágicas e sequiabundas dos reunidos.
Tive a palavra eu, por auto-concessão soberana, e, lubrificando a goela para extermínio de quaisquer pigarreios superfluos, proclamei - sem mais delongas nem flausinices - o seguinte:
-“Foda-se, pouco barulho!! Calados, caralho!! Mas vou ter que me chatear?!...”.
Ao mesmo tempo, como determina o protocolo, esmurrei a mesa de um modo brutal e osculei lubricamente a ucraniana. Eu disse lubricamente? Ó diabo, é melhor corrigir: queria dizer paternalmente.
A ribaldaria amainou e as brasileiras chegaram mesmo a cacarejar: “Minha nossa!”
Concatenada assim, sobre a minha distinta e ilustre pessoa, a atenção dos demais (uma bela corja de safardanas todos eles, diga-se em abono da verdade) passei à ordem do dia.
-“Assunto!...” . Trovejei, emulando Zeus. – Uma tal Fernanda Câncio, costureira de trivialidades por encomenda, aqui no DN, afirma, chiba e delata o seguinte: que o Primeiro Ministro, durante uma cerimónia pública, vejam lá bem, benzeu-se. Digo mais, não só afirma, chiba e delata, como articuleia e colunoscreve! E não só se benzeu: persignou-se!..."
A assembleia recebeu a notificação com os murmúrios, restolhares e grungunlóquios da praxe. Algum escândalo também; com vários meneios desaprovadores à mistura.
Protocolarmente, como vem consignado nos estatutos, determinei uma pausa para deliberação e análise. Cada comissário socorreu-se do respectivo kit democrático- uma imperial e um pires de caracóis -, e largaram num concurso de brejeirices de encontro às brasucas, as quais ditas fulanas, sendo apenas duas, implicavam uma oferta menor que a procura, fenómeno esse que, segundo os liberais, resulta num encarecimento do produto. Alheio ao mercado, nos seus infinitos embrulhos e desembrulhos, eu, na minha qualidade de presidente, e no exercício dos meus deveres de zelo para com o material que me está distribuído, procedi a uma meticulosa inspecção da ucraniana contígua, certificando-me que tinha - a mocetona - tudo no seu devido lugar. Foi uma alacridade que me deu: não só tinha, como pude regozijar-me com o facto de se apresentar limpa de ferragens esfoliantes e não escalpada onde muito convém. Nestes meandros e cuidados sensíveis, vasodilatei-me a tal ponto que temi pela segurança e longevidade da assembleia. Tratei pois de abreviá-la, não fosse o diabo, pelos dedinhos de fada da ucraniana, tecê-las.
Sob protesto pela irregularidade regimental, e após séria deliberação e análise, começou por depor o Dinossauro.
- “Estamos num estado maior da bandalheira, mas, que diabo, é um Estado laico, ora essa, com mil raios e vejam lá bem!... – preambulou ele.
No que foi logo coarctado pelo secretário técnico Bisnau:
- “Protesto, senhor presidente! Se estamos num estado maior da bandalheira laico, o orador precedente não pode referir-se ao diabo!... É uma entidade metafísica."
Tive que lhe dar razão e ralhar asperamente ao outro. Que, após acto de contrição e dois goles de imperial, prosseguiu:
- “Portanto, como dizia, se este é um estado laico, o primeiro ministro deste interessante estado não deve benzer-se durante cerimónias públicas. Muito menos com a mão direita, como, suspeito, foi o caso. Isso é que não! Com a direita, nunca. Se lhe derem os fornicoques nervosos, deve optar por coçar e escarafunchar compenetradamente as narinas. Mas sempre com a esquerda, friso; retirando o búzio, descendo até ao nível da cintura, tranferindo-o para a direita e depois, com o indicador e o polegar armados desta, catapultando-o na direcção do sapato dum qualquer secretário de estado avulso. Assim é que é. Denota proficiência, organização. Como compete a um dirigente daqueles. Tenho dito."
Aproveitando que o Caguinchas estava distraído com as brasileiras, encristou-se e despulpitou de lá o secretário Alfredo Bisnau. Nos termos que se seguem:
-“Sou de parecer que se o Estado é laico, o primeiro-ministro deve dar o exemplo e abster-se de beatices. Caso a seca seja de meia noite e a comichão mais que muita, recomendo que passe a mão direita pela cabeça, no sentido testa-nuca e depois, com doutorice, enfie o dedo mindinho no orelhame, no bom desimpedimento do canal. Tenho dito.”
Embora contrafeito, temendo o pior e airbagando com as mais diversas ameaças, lá tive que dar a palavra ao Caguinchas. Ganancioso de exibir-se nas suas lendárias galarozices e marialvuras às brasileiras, e no mais que óbvio intuito desonesto de açambarcá-las, disparatou do seguinte jaez:
- “Se o Estado é esse cachorro que vocês p'r’aí dizem, então o primeiro-ministro que se deixe de benzeduras e delicadezas. Para benzeduras existem os padres, que representam Deus. O primeiro-ministro representa o povo, representa-nos a nós –e se nos representa a nós, também me representa a mim..."
Aqui desembestado na lógica, ainda tentei atenuar o descalabro que se anunciava. Dele e meu, que o raio da eslava saía-me uma habilidosa da melhor espécie. Tonitruei, pois, como se impunha:
-"O orador que abrevie a retórica. Há imperiais para beber!...Para além de congressos mais urgentes a que ainda tenho que presidir hoje!..."
- "Já estou a chegar à parte bravia, fique descansado, ó Presidente do Cuspo! -Rosnou ele, incomodado. - Como ia dizendo, se me representa a mim, o Loteia-tachos, trate de agir em conformidade: nas cerimónias solenes, ocupe mas é as mãos a coçar a tomatada como deve ser, ou a apalpar a peida à garina jornalista ou doutora que esteja mais à mão e mais ao pé! Ele que monte mais nas gajas e menos no povo, que é ver todo um país a medrar!... Ah, e quanto ao cabrão do cachorro, o tal laico, que lhe ponha um açaime que é para ver se o filho da puta nos deslarga das canelas!...”
Consumada a catástrofe, aproveitei para dar por encerrada a audiência (até porque um outro imperativo - sobremaneira categórico – me convocava). E escafedi-me de roldão, com o estojo, para as emergências.
As brasileiras? Ora, levou-as o diabo, na figura do Caguinchas, deixando os outros dois, mais que treinados na coisa, a chuchar não no dedo, tranquilizai-vos, mas numa canecas bem frescas e numas patas de santola a crédito, com que o Mefistófeles da Graça, em perfeita sincronia, os indemnizou e sobornou pelo direito exclusivo à dose dupla de pitéu exótico com que, imagino, se refastelou nessa mesma noite.

domingo, setembro 17, 2006

É um dos dons dos génios: a Profecia



«À medida que a democracia é aperfeiçoada, o cargo de Presidente representa, cada vez mais, a alma íntima do povo. Num grande e glorioso dia destes, os vulgares tipos desta terra alcançarão finalmente o seu mais profundo anseio e a Casa Branca será então adornada com um completo retardado mental.»

- H.L. Mencken

Epístola a Neo-Pangloss

Preclaro MCB,
Ilustríssimo,

Suponho que esse Deus da Decência que Vª. Excª nos anuncia seja o providencial (e até aqui inescrutável) demiurgo do Melhor dos Mundos. Uma tal revelação –creia-o solenemente – deixa-me avassalado e pronto a sabe Deus que peregrinações devotas e macerantes.
Se não fosse temer que tal possa constituir um abuso da sua prodigalidade benemérita, até lhe suplicaria a caridade de me informar do endereço de tão pulcra deidade, bem como o horário de recepção ao público, para que eu, e outros crentes inveterados da minha laia, corramos a prostrar-nos e espojar-nos (sobretudo mentalmente) a seus pés. A seus, Dela, sublime deidade, entenda-se, mas também a seus, seus, Mestre MCB, iluminado e prefulgente profeta da Mesma, além de Mais Feliz dos Homens e dos Sábios. Por conseguinte, “a seus” ao quadrado: seus seus e seus Dela. Ou será ao cubo?...
Seja como for, a suspeita devém certeza: Vossa Eminência sobrevoa-nos a uma grande altura. Um nível incomparavelmente acima da blogosfera, da estratosfera, da noosfera, enfim, numa deriva orbital decente apenas ao alcance de predestinados: a castelobrancosfera!
Enquanto aguardo, em excruciante expectativa, que Vossa Santidade aterre elegantemente desse Sinai, com a redacção completa e acabada das Novas Tábuas debaixo do braço, roo-me e atormento-me, cativo de uma mortificante dúvida: que toilette deverei levar à peregrinação inaugural?!... (Perdir-Vos uma sugestão, nem me atrevo. Porque isso, mais que abuso, estadearia indecente desfaçatez).

Sinta-se louvado, Meu Salvador!
Retiro-me, rastejando e arando - encomiasmático - com a penca os solos. Deixando-lhe, para terminar, e em tributo, imagens do melhor dos Mundos...




- Abnegados caixeiros viajantes do Melhor dos Mundos, em merecida pausa nos árduos trabalhos da evangelização ao domicílio, relaxando na Green Zone, em Bagdad.

....

sábado, setembro 16, 2006

Crise ecuménica

Sobre esta crise última, papalo-muçulmanesca, que tanto parece excitar certas alminhas, tenho a depor, sucintamente, o seguinte:
O Santo Padre, claramente, está com o rebanho trocado. Levam mais a sério e dão mais importância ao que ele diz os muçulmanos do que os católicos.

Cartas de Estalinegrado - II



"Nossa Senhora das Lágrimas que estás
sentado lá no Topo do Mundo,
e olhas as coisas, boas e más
cá dentro dos homens, bem no fundo.

Nossa Senhora das Lágrimas que és
a verdadeira Soberana deste Reino,
com a dor das almas toda a teus pés
e o desespero humano deitado no teu seio...

Nossa Senhora das Lágrimas que vês
os fios deste nosso Destino atroz,
e em silêncio escutas inúteis porquês
Nossa Senhora das Lágrimas, reza por nós!..."

XXXV

«Tenho chorado tanto nas últimas noites que eu próprio não sei como resisto. Já vi um camarada meu chorar, mas por outro motivo. Chorava por ter perdido o carro blindado que era todo o seu orgulho. E por mais inconcebível que pareça, eu compreendo que se possa chorar a perda de material de guerra. Para ele, era uma coisa que tinha vida. O facto é que dois homens choram. Sempre me comovi facilmente: um acontecimento chocante, uma acção nobre, faziam-me chorar. O mesmo me acontecia no cinema e até ao ler certos livros ou ao ver um animal sofrer. Nessas alturas esqueço o mundo que me rodeia e vivo intensamente aquilo que vejo e sinto. Pelo contrário, sou insensível à perda do material de guerra e era incapaz de chorar por um carro blindado que ficou na estepe feito em pó pela artilharia... Desta vez choro por ter visto um homem irrepreensível, um soldado corajoso, duro e inflexível chorar como uma criança.
Na terça-feira, com o meu tanque, pus fora de combate dois T-34 que se tinham infiltrado nas nossas linhas. Foi um combate magnífico e impressionante. Momentos depois aproximei-me dos despojos fumegantes. Pendurado para fora da torre um ser humano tinha a cabeça pendida e as pernas juntas e queimadas até ao joelho.
Ainda estava vivo e gemia. Devia ter dores horríveis e não havia possibilidades de o salvar. Mesmo que eu lhe quisesse poupar a vida, ele viria a morrer depois dumas horas de sofrimento pavoroso. Liquidei-o com as lágrimas a correrem-me pelas faces, e há três noites que choro por este Russo que matei. As cruzes que se erguem em Gumrak assinalando as sepulturas dos meus companheiros mortos, arrasam-me os nervos. Tenho medo de nunca mais poder dormir sossegado quando voltar para junto de vós. A minha vida é um contra-senso pavoroso.
Agora durante o dia combato com canhões. Sempre que fazemos fogo há um tanque que fica em chamas. Já fizemos isto a oito e deveríamos chegar à dúzia, mas só nos restam três projécteis. Atirar a tanques é diferente de jogar ao bilhar, e de noite choro como uma criança. Que mais nos espera ainda?»

XXVIII

«Custa-me escrever-te esta carta, tanto quanto te há-de custar a lê-la! Infelizmente não leva boas notícias. Antes de tas vir dar deixei passar dez dias, mas isto não as melhorou. A nossa situação agravou-se de tal maneira que - como eu bem receava - em breve estaremos completamente isolados do mundo. Soubemos há pouco que este é o último correio que daqui sai. Se eu soubesse que ainda havia outro, teria esperado, não dava ainda estas notícias, mas assim, sempre as dou. Para mim a guerra terminou.
Estou no Hospital de Gumrak e espero ser evacuado de avião. Espero com tanta ansiedade esse momento, que me parece que o vejo cada vez mais longe. É para mim uma grande alegria voltar para casa, e para ti também, minha querida mulher. Mas, o estado em que volto é que não te pode dar alegria. E fico totalmente desesperado quando penso em te aparecer inválido - tens de o saber - amputaram-me as pernas.
Vou contar tudo, lealmente. A perna direita ficou completamente esfacelada e foi amputada por cima do joelho: a esquerda por cima da coxa. O médico assegura que com aparelhos poderei andar como qualquer pessoa. É um bom homem, cheio de boas intenções. Queira Deus que diga a verdade! Já sabes tudo. Querida Elise, queria saber o que tu pensas. Não tenho nada que me distraia e passo o tempo todo a pensar nisto. Penso muito em ti, tenho também desejado morrer - é um grande pecado - nem devia dizê-lo.
Nesta tenda, somos mais de oitenta, mas o número dos que estão estendidos lá fora nem tem conta. Através das paredes da tenda ouvem-se os gritos e os gemidos, e ninguém lhes pode valer. Ao meu lado está um tenente de Bromberg com uma terrível ferida no ventre. O médico disse-lhe que em breve voltaria para casa, mas o enfermeiro disse: "Não passa desta noite...nem se lhe toca." Este médico é boa pessoa, apesar de tudo! Do outro lado, entre mim e a parede, está um soldado de Breslau que não tem um braço nem nariz; disse-me que já não precisava de lenços de assoar. Quando lhe perguntei como se arranjava quando chorasse, respondeu-me que aqui já ninguém chora. Que são outros que brevemente chorarão por nós.»

Do Kyrgizstão, com humor...

O Kyrgystão fica algures, na Ásia, entalado entre o Kazaquistão e a China. Fez parte, como devem calcular, da União Soviética. No tempo de Staline e da 2ª Grande Guerra - depois de Estalinegrado, calculo - recebeu alguns prisioneiros de guerra alemães. Certamente, uma meia dúzia de felizardos que tiveram a boa estrela de escapar à lendária Sibéria e às marchas da morte que a peregrinaram.
Pois parece que um destes prisioneiros de guerra tinha um peculiar sentido de humor. Posto a plantar árvores de castigo, decidiu pregar uma partida aos carcereiros. Uma partida que havia de perdurar, duma forma assaz viçosa, por muitos e bons anos. Aliás, ainda hoje, quem por lá passe, pode testemunhá-la...
Na forma duma gigantesca cruz suástica, uma suástica de folha perene e maliciosamente plantada, em formatura aprumada de abetos, a condecorar a severa -e outrora revolucionária - montanha.

sexta-feira, setembro 15, 2006

The Frankenstein Way(ne) ou O Apocalipse nato

A gloriosa "democratização" do Afeganistão descrita por quem lá está, de arma na mão e credo na boca:

É impressão minha, ou está a ficar parecido com um Vietnam montanhoso e frio?...

Isto lembra até um episódio decorrido não há muito tempo. Em 1998, falando ao Nouvel Observateur, Zbigniew Brzezinski, assessor do Presidente Americano, Jimmy Carter, gabava-se, muito ufano:

A que "Operação secreta" se referia ele?
Há dias atrás, num discurso à Comissão de negócios Estrangeiros do Parlamento Europeu, o presidente do Paquistão e grande aliado do Ocidente (entenda-se, Estados Unidos) na área, foi esclarecedor:

Portanto, e recapitulando, o monstro frankenstein que anda actualmente à solta no Afeganistão - e, segundo teses americanas, pelo mundo em geral -, a Besta negra que ameaça os sagrados fundamentos da Civilização Ocidental foi engendrada, nutrida e largada no mundo pelos próprios americanos e ocidentais (leia-se, neste caso, Ingleses), através do prestável Paquistão, que, muito gentilmente, disponibilizou as instalações e terrenos para o sinistro laboratório.
Quer dizer, mais que aos caprichos duma corja de doidos, isto avança aos solavancos alucinados e frívolos duma súcia de aprendizes de feiticeiro: ora criando monstruosidades cujo controlo invariavelmente lhes escapa, ora bufando, ó tio ó tio, atrás do rasto de destruição dos seus frankensteinezinhos desembestados. Agora estão na segunda fase. E não é nada divertida, a dita cuja. Porque divertida é a primeira, a de criar monstrinhos. Por isso mesmo, sempre que dão consigo na segunda, os nossos troca-tintas inveterados reconvertem rapidamente à primeira. Isto é, desatam a engendrar e adestrar um novo monstro para dar cabo do monstro antigo, doravante rebelde e endemoinhado. O problema é que cada novo frankenstein é pior que o anterior, mais instável, raivoso e destrambelhado, pelo que a resolução duma ameaça redunda logo noutro perigo ainda maior.
Compilemos os últimos episódios da extravagante saga: depois de subsidiarem a besta nazi contra o alastramento do monstro soviético, aliaram-se ao monstro soviético para darem cabo do besta nazi; a seguir, fabricaram o monstro do fundamentalismo islâmico para arruinarem o horror comunista; agora apostam na besta imperial de mão dada com a aberração sionista, qual Tirésias bêbado guiado por um fedelho autista, e confiam piamente numa tal aliança dinâmica para desactivar a monstruosidade islâmica.
Com tamanha - tão permanente, desarvorada e frenética - teratomaquia (combate de monstros), há uma pergunta que forçosamente se impõe: Mas afinal moramos onde - na Civilização Ocidental ou no "Apocalipse segundo S. João"?...

Noutras palavras: a aeronave Ocidental foi sequestrada por um piloto suicida? Vamos a reboque duma locomotiva que descarrilou?...

Cartas de Estalinegrado



«"Todo aquele que vive da verdade escuta a minha voz."
Pilatos replicou-lhe: "Que é a verdade?"»
- João 18, 37-38


Não sendo eu, de todo, aquilo que vulgarmente se chama uma pessoa sensível, confesso que o que vou postar a seguir, sobretudo a segunda carta, constitui um dos pedaços de literatura viva mais dilacerantes e sublimes que já alguma vez li. Vale mais que as obras completas de não sei quantos prémios nóbeis cuja nomeação vos poupo.

XVII
«Em Estalinegrado, pensar em Deus é deixar de acreditar n’Ele. Acho que devo dizer-te isto, querido pai, e custa-me muito fazê-lo. Foste tu que me criaste, porque me faltou a mãe e sempre me quiseste gravar na alma o nome de Deus.
E lamento duplamente as minhas palavras, porque são as últimas e porque depois delas não posso escrever mais nenhumas, que atenuem ou apaguem o efeito destas.
És um salvador de almas, pai, e sabes bem que na última carta só se diz o que é verdade ou o que se julga ser verdade. Tenho procurado Deus no troar dos canhões, em todas as casas destruídas, em todos os cantos, junto de todos os camaradas, quando estou acocorado nos esconderijos, até O procurei no céu... E Deus não respondeu quando o meu coração gritou por Ele. As casas estavam destruídas, os meus camaradas eram tão corajosos ou tão cobardes como eu, na terra havia fome e assassínios, no céu havia bombas e havia fogo, só não havia Deus.
Não, pai, Deus não existe! Repito-o, e sei que é horrível não mudar de ideias. E supondo que existia um Deus, só existiria junto de vós, junto dos livros dos cânticos e de orações, dos versículos pios dos padres e dos pastores, junto do som dos sinos e do cheiro do incenso, mas nunca em Estalinegrado.»


III
«Tens de tirar essa ideia do pensamento, Margarida, e tens de o fazer depressa. Quero até aconselhar-te que o faças radicalmente, para a decepção ser mínima. Sinto nas tuas cartas o desejo de me veres em breve. Não me admira que o desejes. Também espero ansiosamente esse momento. Não é deste facto que me vem a inquietação mas sim de pensar que tu não estás só à espera daquele que amas –o homem – mas também à espera do que ele é como pianista. Sinto-o nitidamente.
Chega a ser cómica esta inversão de sentimentos – pensar que eu, que devia estar afundado no maior desespero, me resigno ao meu destino, enquanto a mulher que devia estar reconhecida ao destino por eu ainda estar vivo, se revolta contra ele.
Tenho muitas vezes a suspeita de que me diriges uma censura muda, como se eu tivesse culpa de não mais poder tocar. Queres ter a certeza, e é por isso que insistes tanto nas tuas cartas num ponto que eu teria preferido esclarecer quando estivéssemos juntos. Talvez seja o destino a querer que a nossa situação tenha chegado a um ponto em que desaparecem os subterfúgios e as reticências. Não sei se volto a falar contigo, no entanto acho que esta carta te deve preparar para o caso de eu um dia te aparecer.
Desde o princípio de Dezembro tenho as mãos aleijadas. Na esquerda falta o dedo mínimo, mas ainda o pior é que na direita os três dedos do meio estão gelados. Seguro o copo com o mínimo e o polegar. Sinto-me desamparado. Só quando perdemos os dedos é que notamos a falta que nos fazem nas coisas mais insignificantes. Mas, pelo menos, ainda posso disparar a minha arma com o dedo mínimo. No entanto, não posso levar a vida a disparar, com o pretexto de não ser capaz de fazer mais nada. Poderei talvez ser guarda-florestal? Isto é o que se pode chamar humor trágico... é para acalmar que rio!
Kurt Hahnke –parece-me que o conheces do colégio – tocou há dias, numa ruazita perto da Praça Vermelha, a Apassionata. Foi um espectáculo extraordinário! O piano estava mesmo na rua. A casa tinha sido dinamitada, mas o piano ficara intacto e os nossos trouxeram-no para a rua. Cada soldado que por ali passava martelava as teclas. Só pergunto: onde é que já se viu um piano numa rua? Como já te disse, Kurt tocou maravilhosamente no dia 4 de Janeiro. Pouco tempo faltará para o vermos na guarda avançada dos pianistas. Era “no múmero dos grandes pianistas” que eu queria dizer, mas já é tal a influência da guerra que saiu esta expressão “guarda-avançada”. Se este rapaz voltar à pátria, vai dar que falar. Nunca esquecerei aqueles momentos. Pelo menos aquele estranho auditório. Tenho pena de não ser artista para descrever aquele quadro: cem desgraçados enrolados em capotes, de cobertores à cabeça; o tiroteio zunia de todos os lados, mas ninguém lhe dava ouvidos – ouvia-se Beethoven em Estalinegrado, mesmo sem se perceber nada de música.
Para que te contei eu toda a verdade?»


Suponho que Kurt Hahnke nunca voltou. Mas mesmo que tenha voltado, uma coisa é certa: jamais voltou a tocar tão sublimemente. Porque naquele dia, em Estalinegrado, homens diante da morte, condenados ao desespero, subitamente, maravilharam-se diante de algo que os transcendia: escutaram Deus, pelos dedos dum homem, pelas cordas dum piano, pela pauta dum génio, e, por instantes, a porta do Céu entreabriu-se... no meio do inferno.


Nota: Cartas últimas de soldados alemães nas vésperas do desfecho da Batalha de Estalinegrado.

quinta-feira, setembro 14, 2006

Ironias do destino


John O'Neill era o maior especialista do FBI sobre a Al-Qaeda.
A partir de Julho de 2000, após um incidente com uma pasta de documentos, começou a ter "problemas" no interior da Agência.
Em Julho de 2001 retira-se do FBI... E assume, como novo emprego, as funções de chefe de segurança do World Trade Center.
O'Neill estava no seu escritório, no 34º andar da Torre Norte, quando o voo 11 da American Airlines colidiu com ela. O'Neill não sofreu quaisquer lesões em consequência da colisão. Minutos depois esteve no Centro de Comando entretanto montado para lidar com a emergência.
De seguida, voltou para dentro do complexo sinistrado. Vinte minutos depois, a torre ruíu. O corpo de O'Neill viria a ser encontrado posteriormente, sem vida, entre os escombros.
Descansa para sempre no cemitério da St. Nicholas of Tolentine Church , em Atlantic City.

Informação exaustiva sobre o caso: aqui.

O Tabu Excelentíssimo



Parece que Solzhenitsyn se atirou ao último Tabu da Revolução Soviética.
Adivinhem qual.
Apenas adianto que já está debaixo de bombardeamento intensivo. O escritor, entenda-se. Já que o tabu, no seu altar e redoma, está sempre muito bem protegido.

quarta-feira, setembro 13, 2006

O 11 de Setembro criou riqueza ou A Síndrome de Midas

Já aqui se falou que o salário médio anual dos CEOs das petrolíferas rondava, no ano transacto, os USD 37.000.000.
Expôs-se igualmente como desde 2001, ou seja, desde o 11 de Setembro, esses ganhos dispararam estratosfericamente.
Pois bem, aqui ficam outros números:

1. Números de militares americanos mortos até agora: 2.600
2. Número de civis iraquianos mortos: em redor dos 100.000

3. O diferença salarial, à altura do 11 de Setembro, entre um soldado americano e um CEO duma empresa da Indústria de Defesa era de 1 para 190 (o CEO ganhava 190 vezes mais que um soldado). O diferencial actual, cinco anos depois, é de 1 para 308 (o CEO passou a ganhar 308 vezes mais que o mete-nojo). O que significa que quanto mais aumentam os riscos e perigos dos soldados, mais aumentam os lucros pessoais dos CEOs. É assim que o bardamerdas fardado recebe uma média de USD 25.000/ano; e o príncipe admninistrador aufere uma média de USD 7.700.000/ano.

4. TOP dos CEOs que mais lucraram após o 11 de Setembro:
- 1º. United Technologies (USD.200.000.000)
- 2º. General Dynamics (USD. 65.000.000)
- 3º. Lockheed Martin (USD.50.000.000)
- 4º. Halliburton (USD.49.000.000)
Outros valentes, que esfolaram entre os 45 e os 25 milhões, foram:
- Textron,
- Engineered Support Systems,
- Computer Sciences,
- Alliant Techsystems,
- Armor Holding,
- Boeing,
- Health Net,
- ITT Industries,
- Northrop Grumman,
- Oshkosh Truck,
- URS,
- Raytheon.
Entretanto, na restante economia, o panorama acompanhou a escalada moralizadora e liberdadeira destes finíssimos campeões. Assim, na indústria petrolífera, o CEO já ganha 518 vezes mais que o trabalhador de base. (Bem feita para o cabrão do otário, permito-me acrescentar).
Enquanto na generalidade da economia, em média, o CEO cilindra o rafeiro por uns belíssimos 411 a 1.

Agora, experimentem dizer a estes felizardos que o "nosso modo de vida" não é o mais sublime modo de vida, que a guerra do Iraque não é a mais justa das guerras e que este mundo não é o melhor dos mundos... Experimentem só!... Fosse eu um deles e até vos bebia o sangue!

Antes de sair, só mais uma curiosidade...
Sabendo que 2.600 militares americanos, mais não sei quantos europeus e até um português já deram a vida na heróica luta contra o terrorismo e a conspiração islamofascista mundial, a pergunta que, para fecho de edição, ocorre é: e CEOs, quantos CEOs já entregaram o presunto para glória da Civilização Ocidental?...

Os factos e as consequências

A Teoria Oficial da Conspiração - a dos Neoconas, propalada pela Administração republicana - é, resumidamente, a seguinte: o 11 de Setembro foi perpetrado por terroristas islâmicos (Bin Laden, Al Qaeda et al) integrados numa conspiração islamofascista mundial.
Se a Administração Americana fosse consequente, no pós 11 de Setembro, teria actuado de acordo à tese (factos, respectivas causas e explicações) que apregoou. Ou seja, teria combatido consequentemente os terroristas islamofascistas; e procuraria tranquilizar a sua própria população. Todavia, na realidade, tem consumado o oposto: tem dinamizado e ajudado a promover o terrorismo "islamofascista"; e tem aterrorizado sistematicamente a sua própria população, por arte de toda a espécie de alarmismos imarcescíveis.
Emerge assim, incontornavelmente, um problema: a Administração Americana parece agir mais em coerência e conformidade com a "teoria" de Alex Jones do que com a sua. Não surpreende, portanto, que a "teoria da conspiração" de Alex Jones, por muito alucinada que seja, comece a ser mais credível que a "Teoria da Conspiração Oficial" e 60% dos polícias e bombeiros de Nova Iorque, bem como largas fatias da população em geral, desatem a preferi-la. Isto, quando há dois anos atrás a percentagem rondava pelos 20%.
E no entanto, não foram os factos do 11 de Setembro que se alteraram. Até porque, em substancial parte, permanecem ignotos ou interditos. Foram, outrossim, os factos deles decorrentes. É que as "teorias" têm consequências, desenvolvem-se. Desnovelam-se. Pode-se apagar o rasto que ficou para trás. O problema é que o trilho que se abre adiante é quase sempre tão ou mais revelador. Quando não consegue detectar a doença pelos sintomas, o médico, acabará por deslindá-la, fatalmente, pelos efeitos. Quanto mais não seja, para efeito de preenchimento da certidão de óbito.
Édipo voltará tragicamente para assombrar e punir os pais. Alguém acabará por lhe desatar os pés.

terça-feira, setembro 12, 2006

Labirintonáutica ou Teorias da Contra-Conspiração

Como eu não tenho muita paciência para essas diálises do benfica/sporting, esquerdo/direito, américa/dilúvio, nós/demónios e outras puericulturas que tais - até porque nesta idade, e dado que não me animam quaisquer apetites pedófilos (ou, ainda menos, pederásticos), entediar-me-ia mortalmente reingressar na creche ou no jardim-escola -, contorno a chinfrineira dos recreios e da fedelharia em disneylandesco rebuliço, e passo adiante.
Realizada essa higiene básica, e como aprecio mais a liberdade dum ponto de vista sujamente prático que imaculadamente teórico, é com toda a emancipação, sobretudo de preconceitos e onanismos infantis, que aproveito para sugerir uma visita a dois locais que me parecem de grande interesse:
Este, sobre as respostas do National Institute of Standards and Technology (NIST) às perguntas mais frequentes sobre a queda das Torres Gémeas;

E este, com um relatório bastante exaustivo sobre o incidente do Pentágono.

Quero com isto contribuir para uma ginástica muito simples: devemos partir de factos para teorias e não de teorias (vulgo preconceitos ou manias) para factos. E mesmo quando grande porção de factos apontam para uma determinada teoria, convirá discernir que teorias não são dogmas, mas sim sínteses dedutivas sempre abertas a novos factos. Por fim, é preciso não esquecer que, basicamente, neste caso, estamos diante de matéria do foro criminal.

Quanto ao problema de fundo, não existem teorias da conspiração nem teorias por comissão. Existem teorias verdadeiras, baseadas em factos; ou teorias falsas, ou fantasias baseadas em fábulas ou miragens. Há que primeiro distinguir os factos das fábulas. Cito alguns exemplos: Dois aviões embateram nas torres- Facto. As Torres, uma vez iniciada a derrocada, demoraram x tempo a cair - Facto. As leis da física (que, entre outras coisas, estruturam a arquitectura e a engenharia civil) - facto. 2+2=4 - facto.
Bin Laden organizou o evento - fábula. Tal qual: A Mossad e o Governo Americano organizaram as festividades -igualmente fábula. Ou os Pakistaneses e Bin Laden, por encomenda interna dos Estados Unidos, forjaram a coisa - outra fábula. Em qualquer destes casos, não existe uma assembleia indubitável de factos que sustente tal conclusão. Na verdade, em vez de se subir dos factos às conclusões, pescam-se factos a partir de conclusões premeditadas e convenientes a uma determinada estratégia. Seja esta governamental, sectária, difusa ou, como é o caso luso-liberdadeiro, um mero arraial de papagaios e pensadorzinhos de colo.
Portanto, tanto é "teoria da conspiração" qualquer enredo desses múltiplos que infestam a internet, como é "teoria da conspiração" a versão de conveniência dos poderes instituídos e seus amanuenses. À falta de uma investigação exaustiva, transparente e sérias dos acontecimentos, tudo o que existe são "teorias da conspiração". A começar na "teoria Bin Laden" e a acabar na "teoria Mossad". Não é certamente por acaso. Tal proliferação de enredos serve uma finalidade principal: fumigenação, labirintismo, em resumo: ocultação da verdade. O circo nem sequer é novo. Kennedy não foi assim há tanto tempo e Sá Carneiro também não. Quando se limpa o sebo ao presidente da nação mais poderosa do mundo, mais calmamente se limpa o sebo a três meia-dúzias de avulsos e outro tanto de anónimos. Antigamente, um homem podia dizer "o Estado sou eu". Agora existem pequenos bandos, uma "classe" que pode decretá-lo de igual modo. A partir daí há uma figura muito interessante que se chama "Razões de Estado". Que no presente caso, naturalmente, se confunde com "Razões de Classe". Sinceramente, não vejo onde reside o escândalo. O 11 de Setembro criou riqueza.
Por outro lado, a "teoria da conspiração" é utilizada como barragem de descrédito a toda e qualquer tentativa de investigação ou, melhor dizendo, de pesquisa ou apresentação de factos inconvenientes. Aí, propositadamente, confunde-se "teoria" com "facto". Quando, por exemplo, se fala nos israelitas detidos pela polícia que, segundo diversas denúncias, estavam a celebrar efusivamente as Torres em chamas, isso é, ou não é, um facto. Nunca uma teoria. E, sendo um facto, não gera per si uma conclusão imediata e necessária, mas constitui apenas mais uma peça no puzzle. Sabe-se que o dono da empresa a que esses indivíduos pertenciam liquidou rapidamente os negócios, encerrou a firma e emigrou em tempo record para Israel. É um facto. Apenas isso. Mas se o referirmos, a resposta, em jeito de descrédito e torpedeamento sumário, por parte de toda uma horda de plantão, é, ninguém duvide, "teoria da conspiração!..." Ou seja, maluquinho, pírulas, paranóico!... Este tipo de estratagema dialéctico é da mesma ordem que aquele do "fascista!", "nazi!", "anti-semita!" e seus derivados. 2+2=4 - e mesmo as regras elementares da lógica - são verdadeiros ou válidos, a não ser quando exercidos por um "fascista", "um "nazi", um "anti-semita" ou... um "teórico da conspiração". Se qualquer um destes casos sustentar 2+2=4, está, objectivamente, a mentir. Está a "conspirar". Aliás, para esta boa gente, tudo o que seja interrogar, duvidar, raciocinar é "conspirar". A Fé agora desce por decreto governamental (directamente da Casa Branca), os seus Autos são sumários e qualquer bufozito de meia tigela acumula os poderes de Supremo Inquisidor e Torcionário-em-Chefe.
De tudo isto decorre, sem grande surpresa, que muitas das "teorias da conspiração" injectadas na internet são-no por iniciativa de serviços ligados aos poderes instituídos. Da mesma forma que a grande maioria dos grupos chamados extremistas (de esquerda ou de direita) estão infiltrados -quando não são criados de raiz - pelos Serviços de Informação e policiais das mais variadas proficiências, potências e países. Isto não se trata duma novidade que me foi providencialmente revelada, há cinco minutos atrás, por um anjo benemérito que ia a passar: tem sido assim nos últimos cem anos. São essas as regras do jogo. A CIA e o KGB, por exemplo, fartaram-se de criar grupelhos maoistas por essa Europa fora. O Green Peace, tão ecológico, tão filantrópico, é controlado pelo MI6 e, a limite, é financiado pelas petrolíferas (BP) para fazer guerra à energia nuclear. Ora bolas, então, para os idílios verdejantes?! Welcome to the real world, isso sim! Não significa que a grande maioria dos militantes dessas organizações não sejam sinceros e não acreditem piamente na cartilha que abraçaram. Não; são e acreditam, com devoção profunda, ninguém duvide. Para os agentes dissimulados que manipulam e, geralmente, agitam na ponta dos canais de financiamento e orquestração, até é essencial que assim seja. Quanto mais fanatizados, mais crédulos: mais facilmente manobráveis. Mais prontamente disparáveis. Em inglês chamam-lhes "patsies", que em português corresponde a qualquer coisa como "otários", "papalvos", "marionetes". E o povo, no meio disto tudo? O povo, como o cornudo arquetípico e padroeiro, é sempre o último a saber, quando sabe (o que é raríssimo). E nessa altura tem as opções consignadas à espécie e anedoticamente expostas por Fourier, na sua "Théorie des Quatre Mouvements": ser Corno, Corneta ou Cornaças. E vale a pena recordar aqui as definições:
«1º. O corno propriamente dito é um ciumento com honorabilidade, que ignora a sua desgraça e se julga possuidor único da sua mulher. De modo que o público faz tudo para muito louvavelmente o manter na ilusão, e ninguém está interessado em o ridicularizar: será que ele se pode zangar com uma ofensa de que não tem conhecimento? Todo o ridículo cai sim sobre aquele que, subornador, lisonjeia e genuflecte frente a outro com quem conscientemente partilha a amante.
2º. O corneta é um marido que está farto dos amores conjugais e que desejando gozar suas folganças em sítio afastado fecha portanto os olhos à conduta de sua mulher e abandona-a aos amásios, com a reserva de que não perfilhará filhos dela. Um marido destes não liga a gracejos; tem, pelo contrário, todo o direito de discutir os cornos dos outros com o à vontade de quem os não tem.
3º. O cornaças é um ciumento ridículo que trata mal a esposa e que está bem informado da infidelidade dela; furioso, pretende revoltar-se contra o decreto do destino, mas a falta de jeito com que resiste torna-o objecto de risada devido às suas precauções inúteis, às suas iras e escândalos. Em matéria de cornaças, o Georges Dandin de Moliére apresenta-se como modelo acabado.»

Para adequar ao povo, como é óbvio, basta substituir a palavra "mulher" pela palavra "verdade".

Reabertura dos Comentários

Devo informar esse escol da humanidade que são os leitores do Dragoscópio (incluindo os vilipendiadores, menoscabrozos e tresloucados que tais) que as caixas de comentários reabriram. Em regime de lotaria, entenda-se. Significa isto que alguns postais, em horários aleatórios, quais úteros caprichosos, estarão férteis ao comentário. Compete, pois, ao leitor peralta andar atento e tentar a sua sorte. A facilidade não conduz a lado nenhum. Ainda um dia me ireis agradecer toda esta ginástica acérrima e emocionante.
Boa sorte!...

Medo de quê?

Ontem, eu ia para dizer qualquer coisa muito inteligente e sublime a propósito da efeméride, mas, quando finalmente alcancei o guiché (onde fornecem os impressos), deparou-se-me o letreiro “esgotado”. Pois é, a blogosfera tinha esgotado, como de costume, todo o stock de inteligências e sublimarezas. Começa a ser vagamente irritante. Há tipos gordos que, dir-se-iam, moram lá. Na bicha. Acampam e açambarcam.
Por pirraça, deveria lá voltar hoje. Mas, para falar com franqueza, o evento também não merece tanta maçada, nem, tão pouco, tanta carpideira de ocasião, à desgarrada. Nos Estados Unidos, sim, compreende-se, aquilo diz-lhes respeito. Há lágrimas verdadeiras, sentidas. Agora neste Cu da Europa, nas bordas dum Penico tamanho, que é que estes borrabotas têm que ver com uma super-potência daquelas – uns, ainda por cima, super-impotentes destes?! A tais piças-frouxas, por alminha de quem se lhes encomendou o bedelho num tal filme? O argumento deste, aliás, não é grande coisa e exaure-se em três penadas: 1) houve uns filhos da puta que estoiraram com três aviões recheados contra dois mamarrachos que existiam numa cidade chamada Nova Iorque e contra um antro de malfeitores na Virgínia; 2) houve uns filhos da puta que planearam a marosca, houve outros filhos da puta que, muito provavelmente, negligenciaram os deveres e, finalmente, 3) houve uns terceiros filhos da puta que tiraram grandessíssimo proveito da espectacular desgraça.
No meio disto tudo, lixaram-se os infelizes que iam nos aviões e grande parte dos que formiguejavam nos mamarrachos, mais uns quantos que não negligenciaram os deveres. A civilização –ou melhor, a falta dela - continua a mesma. Acreditem, ninguém a desflorou barbaramente: sustentá-lo é confundir calo com hímen. Esqueçam o estupro! Do estrito ponto de vista estético, arquitectonicamente, há quem diga, até melhorou um bocadinho. O mundo, esse outro que tal, também não está pior nem melhor, está a merda do costume. O nosso modo de vida não está especialmente ameaçado: há muito que uns rapazes beneméritos em quem periodicamente votamos - devidamente supervisionados e teleguiados, nós, é claro - se entretêm a converter o nosso modo de vida num prolongado modo de morte. Morre-se ao ralenti. Quando muito, por via deste improviso, surgiu mais uma modalidade expresso, senão mesmo, Aero-TGV. Acresce que o nosso modo de morte dificilmente é ameaçável porque, a maior parte do tempo e ao mais alto nível, consiste em andar a ameaçar os outros. E a nós próprios. Em suma: não foi o fim do mundo, nem o princípio de nada que mereça grande reparo ou memória. Morreu gente, como morre gente todos os dias: gente absolutamente descartável, irrelevante. A não ser como pretexto, claro está. Quanto mais não seja, para as estatísticas.
Os filhos da puta que planearam, fizeram e negligenciaram, não sei exactamente quem foram. Nem ninguém se dá ao trabalho de me informar. Mas sei, com rigor, a identidade de algumas das hienas, chacais e demais necrófagos de duas patas que tiraram sórdido proveito e continuam a lucrar, em cada dia que passa, com a hecatombe emblemática. Até podia aqui expor a lista, mas, sinceramente, tenho mais que fazer. E de certeza que isso não vos tiraria o sono.
Tenho medo de levar com um avião na tola? Deveria ter? Deveria instaurar-se-me nas meninges feito imperativo categórico: andar pelos dias, pelas esquinas e pelos blogues a borrar-me de pavor? Porque há fundamentalistas desvairados (e sócios ocultos) que me querem acertar com aviões, avionetes, comboios, cacilheiros, ou o que quer que seja?!...
Defeco neles com toda a elevação. Olimpicamente. Juro sobre a Odisseia. Não são mais fortes que Deus. Deus anda a tentar matar-nos, há milhares de anos, à pedrada, com meteoritos e, pelo menos em mim, ainda não acertou. Todos os dias o tenta - basta atentar no céu, nas horas nocturnas-, mas debalde. Nem em mim, nem - diga-se em abono da verdade - nuns quantos biliões de badamecos como eu – pastilha elástica da Inexorável Ceifeira. Acertou nos dinossauros porque eles, sendo imensamente maiores, eram bem mais fáceis de acertar.
Os filhos da puta metem-me nojo, não me metem medo.
Mal nasci, condenaram-me à morte. Ter medo de quê?!...


segunda-feira, setembro 11, 2006

Ao menos mudem o recheio ao supositório!

O que é que "cinco anos depois" tem de tão especial em relação a "quatro anos depois", ou "seis anos depois", ou "doze anos depois", ou "24 anos depois", e por aí fora? A sério, porquê este circo todo a uma hora destas?...
Não julguem que brinco. Estou indignado. Por todo o lado, o panorama, de tão despudorado, não deixa dúvidas: ele é "nunca mais!", ele é "um novo marco histórico inaugurador de uma nova era"; ele é "o mundo nunca mais foi o mesmo"; ele é "a vontade de extermínio" ao virar da esquina... E eu pergunto... Mais precisamente, inquiro, demando, exijo explicações: com que direito, em nome de que audácia inaudita, ousam transferir para o 11 de Setembro (ou Nine-Eleven, como labiam os camones) as sagradas prerrogativas, as idiossincrasias únicas do Holocausto?!!...
Segurem-me, que eu desgraço-me!...

PS: E enquanto o Carmo e Trindade caem, aproveitem a matiné e elucidem-me: se depois do Holocausto o mundo perdeu a inocência, a Sonsa Civilização Extremo-Ocidental, após o 11 de Setembro, perdeu o quê - a virgindade?...

Contra o Relógio

«Para o homem de hoje que significado poderá ter o deixar-se guiar pelo exemplo dos vencedores da morte, pelo exemplo dos deuses, dos heróis e dos sábios? O seguinte: o significado de participar na resistência contra o tempo, e não somente contra este tempo de agora, mas todo e qualquer tempo; um tempo cujo poder se funda no medo. Todo o medo é, na sua medula, medo da morte, ainda que se apresente numa multiplicidade de formas derivadas. Se o ser humano conseguir criar aqui um domínio, essa liberdade far-se-á valer também em todos os outros campos onde o medo reina. Então derrubará os Gigantes cuja principal arma é o terror. Também isto tem sido recorrente ao longo da história.
Nestes dias, a educação encontra-se orientada na direcção de objectivos que são exactamente o contrário do que vimos dizendo, e isso é algo que não foge à natureza das coisas. Nunca existiu nenhum outro momento em que tenham predominado no ensino da história umas noções tão estranhas como as que actualmente imperam. O propósito de todos os sistemas é colocar barreiras ao fluxo metafísico, é domesticar e amestrar as gentes no sentido do colectivo. Mesmo nos locais onde Leviatã não pode dispensar a coragem, como são os campos de batalha, tratará de fazer crer ao combatente que está ameaçado por um segundo perigo, um perigo maior que o manterá no seu lugar. Em Estados como esses a confiança deposita-se na polícia.»

- Ernst Jünger, "Tratado do rebelde" (der Waldgang)

E a medonha saga persiste. Adensa-se. Como a trama numa teia. À medida que o (mau) tempo se acumula, os símbolos invertem-se: da morte já não são os vencedores quem serve de paradigma, mas, cada vez mais, os vendedores. Os traficantes. E todo o caravançarai de retalhistas e quinquilheiros do medo associados.

domingo, setembro 10, 2006

Bem aventurados os Malditos

«Em 1950, Céline acabou por ser julgado em França e condenado, por contumácia, a um ano de prisão e 50.000 francos de multa. Foi ainda declarado em estado de indignidade nacional, e metade dos seus bens, os da altura e os futuros, sujeita a confiscação.»
(in Céline, o Cão de Deus)

«Céline aparece à janela.
- Entre, entre...
Trepo até à casa por uma subida muito íngreme.
- Ah! Sim, o caso de consciência. Venha, sente-se a esta mesa. Não, não fique aí; temos um papagaio, e faz um monte de porcarias por todo o lado.
Limpa a mesa e atira as sujidades pela janela. Depois senta-se numa poltrona, em contraluz.
- Casos de consciência? Saí da escola primária e fiz o meu bacharelato a trabalhar. Tive treze patrões antes da minha primeira parte do bacharelato, em 1913, e todos eles me puseram no olho da rua por eu pensar de mais no latim e na geometria. Na altura não tínhamos outro problema além deste: comer. Para haver casos de consciência, problemas sexuais, complexos (não lhes chamávamos assim), tem de haver ócios. Bourget, esse, levantava-os, e Gyp também; a grande literatura psicológica, pois então! Mas os pobres não tinham tempo. O meu pai era correspondente na Phénix, a companhia de seguros. Morreu, tive que ganhar os meus tostões. Eu e a minha mãe íamos a pé desde a rua de Babylone, onde morávamos, até à loja onde ela vendia rendas antigas, na rua de Provence; e se eu dissesse à mamã: “tenho um caso de consciência!”, ter-me-ia respondido: “Vai-te daqui, meu doido!” Mas olhe, mais tarde fui substituir um colega no Havre, e tratei de um canceroso. Ele delirava, com um delírio de operário de antes de 14. Levantava-se da cama a berrar: “O que é que eu estou a fazer aqui? Nada! Não tarda que a polícia apareça!” Para ele, imobilidade era o mesmo que ser calaceiro, logo, prisão. Era o seu caso de consciência. Desde há 1500 anos, a sociedade não fazia mais do que pedir às pessoas duas coisas: aos homens que não fossem cobardes, às mulheres que não fossem putas. A seguir, tudo se complicou: o tipo corajoso, descobriu-se que também era um merdas. Comparo isto à feira de Neuilly. Antes de 14 só ia desde o cais do Sena até à Rotunda da Défense; fechava-se os olhos ao que se passava: até tinha piada. Agora espalhou-se por toda a França. Somos olhados, somos perscrutados: “Meu caro, isso não se faz! Vai mas é olhar para as mamas da tua mãe!” Naquela altura dizia-se: “Ah! Meu porco! Estás a olhar para onde?” E pespegava-se com um tabefe no miúdo. O complexo desaparecia.
Sim, tive que lutar com o meu pai porque eu queria mudar de classe. Mas não se tratava de um caso de consciência. Pensava ele que eu ia meter-me em desgraças. Quanto à minha mãe, o seu ideal era ver-me subir, mas não tão alto: “Se conseguirsses ser encarregado das compras num grande armazém!” Não imagina a radical severidade que reinava nos hábitos da gente simples: “Quem rouba um cesto rouba um cento, e acaba por assassinar a mãe”, era o que eu ouvia todos os dias. Ravachol, Hervé eram vadios, o bando de Bonnot também. Pelo contrário, quando as clientes que nada faziam saíam da loja, a minha mãe dizia: “Estas senhoras têm grandes responsabilidades!” Eu ia fazer entregas até Meudon, perto daqui, e a minha mãe corria a empenhar os brincos por vinte francos. Não tenho, no entanto, queixas a fazer. Queixas de quê? O ócio e o dinheiro é que complicam tudo.
Durante a guerra fiquei inválido a 75%, fiz a segunda parte do bacharelato em 1918, e depois de acabar o meu curso casei-me com a filha do director da Escola de Medicina de Rennes. Fui médico na Sociedade das Nações, levei uma vida palaciana enquanto ia estudando epidemiologia. Mas as coisas não corriam bem. Divorciei-me, ainda sem caso de consciência. Fiz medicina popular e escrevi a Viagem para pagar um apartamento. A medicina tornou-se difícil. Pensava-se isto: “É um escritor, não acredito que se mantenha actualizado.” Comecei então a trabalhar nos dispensários de Clichy, Bezons, Sartrouville... Foi muito duro.
Eu cá fui o mais tanso dos franceses... Ficaram-me com tudo quanto eu tinha e lixaram-me os manuscritos, deitaram-nos todos pela retrete abaixo. Fui um anjinho.
De tudo isto só me resta uma sensação de desgosto. Tenho uma filha com 35 anos, e o meu genro detesta-me; tenho cinco netos e nunca os vi. Mas está tudo bem. Desgostos, isso sim, desgostos. E tudo o resto, os casos de consciência, são masturbações. Gide já tratou disso como deve ser.»

- Luis-Ferdinand Céline, “Les Écrivain ont-ils des Cas de Conscience”

O acesso ao estatuto de "indignidade nacional", decididamente, não é para todos. Entre escritores, deve equivaler a uma espécie de Olimpo. Lembra-me até um outro gigante maldito das letras francesas (e mundiais) que, com imensa graça e propriedade, dissertou acerca da "indignidade nacional". Para o efeito, colocou na boca de uma das suas mais infames personagens as seguintes palavras: «...toda a gente conhece a história do marquês de... que, ao ser-lhe anunciada a sentença de que ia ser queimado em efígie, tirou o caralho para fora das calças e bradou: "Foda-se, que era isto mesmo que eu queria; vejo-me assim coberto de opróbrio e de infâmia, deixai-me, deixai-me, pois tenho de me vir!" , vindo-se logo ali.»
Na verdade, a vil personagem aludia a um episódio verídico passado com o seu próprio autor. O tal "marquês de..." era, nem mais nem menos, "de... Sade".

Factos do 11SET -II. Breviário de coincidências



1. O Riggs Bank, de Jonathan Bush, foi condenado por lavagem de fundos ligados ao terrorismo.

2. Em Setembro de 2000, no documento/"manifesto" do Projecto para um Novo Século Americano (PNAC), intitulado "Rebuilding America Defenses", pode ler-se na página 62/63: « A transformation strategy that solely pursued capabilities for projecting force from the United States, for example, and sacrificed forward basing and presence, would be at odds with larger Americanpolicy goals and would trouble American allies. Further, the process of transformation, even if it brings revolutionary change, is likely to be a long one, absent some catastrophic and catalyzing event like a new Pearl Harbor

3. A PTECH, uma empresa de software fundada por um financeiro saudita colocado na Terrorist Watch List Americana desde Outubro de 2001, teve acesso a todo o sistema informático da FAA (Federal Aviation Administration) ao longo dos dois anos anteriores ao 11 de Setembro.

4. Em Janeiro de 2001, Frank de Martini, um arquitecto que então desempenhava as funções de Construction manager do WTC, numa entrevista para um documentário do History Channel, declarou: “I believe the building probably could sustain multiple impacts of jetliners because this structure is like the mosquito netting on your screen door, this intense grid, and the jet plane is just a pencil puncturing the screen netting. It really does nothing to the screen netting."

5. Segundo a BBC, depois de vencer as eleições, a administração Bush ordenou à CIA para abandonar as investigações sobre Bin Laden e os Sauditas.

6. Em Fevereiro de 2001, a administração Bush retirou-se da "Global Crackdown on Terrorist Funding". A anterior Administração Americana, a de Clinton, tinha criado (e financiado durante o último orçamento) o Foreign Terrorist Asset Tracking Center. Este Centro não viria a receber qualquer financiamento da Administração Bush até ao 11 de Setembro. Apenas três dias depois da tragédia esse financiamento seria retomado.

7. Em Março de 2001, um relatório bastante completo dos Serviços Russos sobre a Al-Qaeda e a ISI, foi praticamente desprezado pela Administração Americana.

8. Depois de pressionarem as Nações Unidas e a União Europeia no sentido de estas congelarem todos os fundos da Al-Qaeda (e designados terroristas) no estrangeiro, o que aqueles cumpriram de imediato, os Estados Unidos, bizarramente, só viriam, no seu âmbito, a executar essa mesmíssima sanção depois do 11 de Setembro (no que concerne, em especial, aos cinco elementos relacionados com Bin Laden).

9. O Procurador-Geral dos Estados Unidos, John Ashcroft deixou de utilizar voos comerciais (passando a voar exclusivamente em aeronaves especialmente fretadas) desde Julho de 2001, por razões de segurança, sob recomendação expressa do FBI.

10. O Chefe dos Serviços Secretos Paquistaneses (ISI), General Maahmod Ahmed, terá autorizado um pagamento de USD 100.000 à Al-Qaeda, destinados a Mohammed Atta, dias antes do 11 de Setembro.

11. Na manhã de 11 de Setembro, Porter Goss, o actual director da CIA, tomava o pequeno-almoço com o General Maahmod Ahmed, em Capitol Hill.

12. No dia 11 de Setembro, à mesma hora em que os aviões suicidas se despenhavam contra os edifícios, o Carlyle Group organizava uma conferência de alto-nível num hotel de Washington. Um dos convidados era um tal Shafig bin Laden, irmão de Osama bin Laden.

13. No dia 10 de Setembro de 2001, por razões de segurança, altas individualidades do Pentágono cancelaram os voos que tinham agendados para o dia seguinte.

14. Até hoje, nenhum dado registado na caixas-negras dos aviões despenhados no 11 de Setembro foi tornado público.

15. A gravação de 11 de Setembro, onde ficara registado o que os controladores aéreos haviam testemunhado, foi destruída por um funcionário da FAA.

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Para uma viagem mais exaustiva e "conspiracional", recomendo este monumental "post". Ou este cronograma eloquente.
A mim, deixem que vos diga, as "teorias" não me ocupam. Interessa-me, sobretudo, a colecção dos factos. "Teorias", cada qual que engendre a sua. Ou digira, sem grandes sobressaltos, aquela que lhe enfiarem pela goela abaixo.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Operação Northwoods



Segundo a ABC News:
«In the early 1960s, America's top military leaders reportedly drafted plans to kill innocent people and commit acts of terrorism in U.S. cities to create public support for a war against Cuba.
Code named Operation Northwoods, the plans reportedly included the possible assassination of Cuban émigrés, sinking boats of Cuban refugees on the high seas, hijacking planes, blowing up a U.S. ship, and even orchestrating violent terrorism in U.S. cities. »


- Documentos desclassificados do Departamento da Defesa - The Joint Chiefs of Staff , intitulados “Justification for U.S. Military Intervention in Cuba”.

Se a memória não me falha, no livro sobre Kennedy, "The Dark Side of Camelot", de Seymour Hersh, aparecem referências a este "projecto". A coisa agora reemergiu à boleia da obra sobre a NSA (em epígrafe) de James Bamford.
Porquê esta reemersão neste preciso momento talvez constitua uma boa pergunta. Requer alguns poderes de deciframento, I think.
Fiquemo-nos com uma citação da suculenta obra:
«A Agência Nacional de Segurança (NSA) tornou os Estados Unidos numa "superpotência da escuta clandestina", capaz de captar, decifrar e analisar comunicações SIGINT, emitidas em qualquer das formas existentes e oriundas de qualquer nação transmissora.»

Ocorre-me aquele diálogo distante, que reverbera lá dos confins da infância:
- Que grandes orelhas tu tens avózinha!...
- É para te ouvir melhor, minha netinha.

Big Ears has Big Brother Wolf.

Factos do 11SET - I. Silverstein, a Maior Vítima

O leasing do Complexo WTC (World Trade Center) foi adquirido por Larry Silverstein seis meses antes do fatídico ataque de 11 de Setembro. Para o efeito, o infeliz investidor despendeu a módica quantia de 124 milhões de dólares.
Uma vez proprietário, Larry Silverstein começou por substituir de imediato a empresa prestadora dos serviços de segurança ao Complexo. Contratou então a Securacom/Stratasec, onde, por mera coincidência, Marvin Bush, irmão de W. Bush, era director e Wirt Walker III, primo de Marvin, desempenhava funções de CEO. A Securacom tratava também da segurança do Dulles International Airport e da United Airlines.
Com idêntica argúcia e prudência, Silverstein não perdeu tempo e tratou, o quanto antes, de segurar (e ressegurar) o complexo imobiliário por 3.5 biliões de dólares - não esquecendo, como muito bem recomendam estes tempos perigosos, de consignar na apólice a cobertura do risco de "ataques terroristas".
Ocorrida a tragédia, ainda a América e o Mundo digeriam o choque e já o devastado Larry corria à seguradora a fim de ser ressarcido por danos e perdas. Baseado no facto de, em seu entender, ter sofrido "dois" ataques - por conseguinte, "duas ocorrências distintas" -reclamou dupla indemnização, ou seja, 7 biliões de dólares.
As seguradoras - Swiss Re, Lloyd's Syndicate, Great Lakes Re, Houston Casualty, QBE Intl, Copenhagen Re, Federal Insurance Co, Lexington Insurance, Employers Insur/Wausau et al - pagaram-lhe 4,6 biliões.
Durante negociações posteriores, entre o titular da exploração imobiliária -Silverstein -, e o proprietário dos terrenos - a Port Autorithy -, sobre a "divisão dos respectivos papeis e responsabilidades no re-desenvolvimento do local", chegou-se a um impasse porque, à ultima da hora, segundo a Empire State Development Corporation, Silverstein «trouxe para a mesa uma proposta simultaneamente inesperada e inaceitável»: propôs que a agência contribuisse com mais 1 milhão de dólares do que o que estava previamente estabelecido.
A somar a toda estas desgraças, Silverstein, como já devem ter calculado, é judeu e tem sido vítima de conspirações, teorias e insinuações neo-nazis, anti-semitas e extraterrestres. Tudo somado, faz dele, muito provavelmente, a maior vítima da tragédia do 11 de Setembro. O Haaretz explica-nos, num longa e pungente apologia do santo homem, como, em minutos de terror e espanto, viu ruir o maior sonho da sua vida. É uma leitura que, sobretodas, se recomenda...
Silverstein chora lágrimas de sangue. Apesar de reconfortado pelos seus amigos Ariel Sharon, Bibi Netanyahu e Ehud Barak et al, Larry está destroçado. Mais destroçado que as torres gémeas. A apologia conta como ele próprio, quase por milagre, escapou por uma unha negra: «Above all, four members of his staff were killed and he himself was saved only because a meeting he had scheduled that morning with officials of the Port Authority on the 88th floor of 1 World Trade Center (the south tower) was canceled at the last minute.»
Chega a ser emocionante assistir ao defile duma vida tão abnegada e trabalhadeira. A certa altura, o panegirista, no seu compreensível afã de absterger o patrício, até enumera o seguinte episódio rocambolesco:
Colmatando que, embora tão bizarro processo não tenha sido reportado pela imprensa, constrangeu muito o pobre Larry... Causando-lhe mais maçadas e prejuízos: «Information about it reached Israel. Opponents of the free-trade zone in the Negev said that Silverstein, who was involved in illicit business in New York, should not be allowed to be part of the Israeli project.»
O processo, cumpre dizer, foi mandado arquivar como "frívolo".

Ora, não se compreende como é que isto poderá ter afectado tão dramaticamente o nosso herói, quando o Lawrence Silverstein, proprietário do imóvel onde funcionava o clube Runway 69 e alvo de processo, não era a mesma pessoa que Larry Silverstein, magnata do ramo imobiliário nova-iorquino, amigo de primeiro-ministros israelitas e senadores americanos. Pelo menos, é o que diz o New York Times: «Although news accounts of the Runway 69 imbroglio referred to Larry Silverstein, the owner is Lawrence Silverstein, of Forest Hills, who has said he was unaware of the tenant's plans until the club opened. »

Excesso de zelo do encomiasta redundou em parágrafo estapafúrdio? No seu frenesim de limpar toda e qualquer sujidade, até limpou nódoas que não existiam?...

Mas, repito: como é que um processo que não foi noticiado na imprensa e tinha outra pessoa por arguida, se bem que homónima, conseguiu causar tanta maçada a Silverstein? Até porque na altura ainda não tinha ocorrido o 11 de Setembro, pelo que o bom Larry ainda não despertara o interesse dos neo-nazis, anti-semitas, extraterrestres e islamofassistas que infestam a internet.
As Torres Gémeas já todos sabemos como caíram.; agora isto, este tremendo mistério do arrastamento de uma inocente pessoa a tamanho rol de contrariedades, isto, meus amigos, isto é que nos devia preocupar.

PS: Miller v. Silverstein, 122 F.3d 1056 (table), 1997 WL 557620 (2d Cir. Sept. 9, 1997.)

quinta-feira, setembro 07, 2006

Ícones da "Direita Moderna" (Ou Transdireita?)




Aproveito para declarar solenemente que não acredito que Ann Coulter seja uma Drag Queen. Por uma razão de princípio: desde Platão, aprendi a desconfiar do Mundo das Aparências. Por conseguinte, o facto do espantalho anorético em epígrafe parecer uma Drag Queen significa, em princípio, que não 0 é.
O que não duvido é que seja descendente de suinicultores. A sua suinicultura é vastíssima.
Já o meu amigo Bush revelou inusitado sentido do humor quando, após visioná-la na pose supra-exposta, passou a alcunhá-la de "grasshopper".
A juntar às muitas virtudes da "direita moderna": uma "direita saltitona"?...

O Factor Borboleta

O Doutor William Wong (de quem eu nunca tinha ouvido falar) tem as seguintes habilitações: Texas State Naturopathic Medical Association professional member, World Sports Medicine Hall of Fame member, a Classical Naturopath, a Ph.D. Exercise Physiologist, a Certified Athletic Trainer (AATA), a Certified Sports Medicine Trainer (ASMA), and a Health/Fitness Consultant. Mike Mahler (que eu também não sei quem é) entrevista-o. A certa altura da conversa, o Dr Wong tece umas considerações técnicas que me parecem interessantes...

«MM: Testosterone is a big topic these days and low testosterone seems to be more and more prevalent in men. What are some of the common factors contributing to low Testosterone levels?

DW: The low testosterone levels we see in guys these days is due to a few overlapping factors all relating back to one thing - estrogen. Many baby boys born since 1973 have had soy formula with it's phyto estrogen mucking up their works. A boy age 6 months to 3 years has the testosterone level of an 18-year-old man! A bottle of soy formula has the equivalent by weight of 5 to 8 estrogen birth control pills in it! Multiply that by the number of bottles fed a day and the estrogen load is enormous! What happens when all the E suppresses a boys T? It is this T that tells the anterior pituitary to develops tiny part of itself and it is that part of the body that tells a boy that he's a guy! In autopsies done on over 3000 gay men who died of HIV, I believe it was Dr. Lendon Smith the famous pediatrician who reported that homosexual men did not have this portion of the anterior pituitary! Since that part develops in early childhood from the combination of testosterone, salt and calcium and since homosexual men are high in estrogen and DHT but low in testosterone and generally as a group have low serum calcium and low serum sodium we can see where the problem arises! Trans-gender support groups have discovered where their dysfunction has arisen from and now they are in the lead in warning about the dangers of soy and environmental estrogens on the development of children.

MM: Wow that is some pretty scary stuff. Where else are we being bombarded with estrogen?

DW: Next we have all the pesticides, fertilizers, soy in all food, flax etc. One form of estrogen atop another acting as endocrine disruptors we now have two generations of men since the 70's with: smaller penis size both flaccid and erect than previous generations, lower testosterone levels, higher estrogen levels, dreadfully lower sperm counts, higher incidences of sexual mental dimorphism (not being sure what sex they are), and I fear reaching andropause around 35 or 40 instead of 45 to 50 all because of the estrogen in their food and environment.
On sperm count, in the 1960's a man was considered fertile only if he had over 100,000 sperm per ml. of semen. Things have gotten so bad that now a guy is considered fertile if he can make a measly 20,000 sperm per ml! Dr. Doris Rapp MD the worlds leading environmental doc and pediatric allergist has looked at the data and predicts that by 2045 only 21% of the men on the entire planet will be fertile. In all of Africa, Europe, Japan and many other countries deaths exceed births. This will have devastating effect on world economies as pensioners will drastically out number those paying into pension plans! I call this the Zardoz effect after the old Sean Connery movie where he was the last fertile man on earth.»



Francamente, não sei que percentagem de verdade haverá nisto. Verosímil, assim à primeira vista, é. No que desde logo suplanta toda a ficção política hodierna.
Que o Ocidente anda a estrogenizar-se, parece-me mais que evidente. O problema é que não acontece apenas no plano do "bombardeamento endocrinológico". Acontece, em simultâneo, e em dose reforçada, no plano da metralha psicológica, educativa e social.

quarta-feira, setembro 06, 2006

Da Perfídia ao Death Business

De como, através de "operações cobertas de propaganda", Churchil tudo fez para arrastar uns relutantes Estados Unidos para a guerra.
A metodologia deixou escola e, desde então, tem sofrido uso exaustivo recorrente. Basicamente, consiste num cocktail de alarmismo, falsificação, insídia e, pormenor crucial, demonização absoluta e exorbitada do oponente.
Não se trata nunca dum conflito de interesses. Trata-se de promover determinados interesses (de uma das partes, ou, mais exactamente, de um clube obscuro manipulador de uma das partes) a "interesses da civilização". Nunca é um património real de razão - de nós termos mais razão que eles -, mas um património exclusivo, um açambarcamento total de razão - a razão está toda do nosso lado, nenhuma assiste ao lado deles. Graças a tão distorcida e mistificada lógica, chega-se ao "nós, absoluto Bem" contra o "eles, absoluto Mal". Recria-se assim, ad aeterno, o "combate épico, o tira-teimas entre os "filhos da Luz e os Filhos das Trevas". Que é o mesmo que dizer, o maniqueísmo -o proto-leninismo - deslavado mas sempre viçoso. Descobre-se assim que o apocalipse é cíclico, à maneira dos ioiós, e cumpre morais de conveniência e ritmos de moda.
O único problema é que combater os fogos contra a civilização vicia, cria toxicodependência. O bombeiro civilizacional, inalador profissional de fumos, proxeneta heróico da emergência, resvala rapidamente da pirotecnia para a piromania. À falta de incêndio real, arde na imaginação. Desta ao transtorno alucinado que o leva a deitar fogo ao mundo por amor de apagá-lo, é um instante.
Lógica de Poder? Sim, mas sobretudo lógica do Negócio que fornece as causas e as finalidades ao Poder. Exactamente a mesma -amoral, borderline, psicopata - que, na comédia macabra, transporta o cangalheiro da aldeia, durante a noite, ao estrangulamento da clientela para o dia seguinte. Enfim, o Mercado levado às últimas consequências. Negras, da cor da morte. É nessa parte que vamos.

terça-feira, setembro 05, 2006

Memória Perdida - II.A metástase submersa (o protestantismo revolucionário)

«Já em 1916, no Congo Belga, aparecera um agrupamento secreto que substituía o baptismo cristão por uma iniciação durante a qual os Negros se entregavam à bebida e queimavam feitiços. De facto, pela condenação do feiticismo, esperava-se eliminar o ódio tribal e conseguir a unificação dos Negros. O protestantismo, permitindo o estudo livre da Bíblia e a sua interpretação arbitrária, facilitava a criação de seitas. Os Negros e em especial os seus profetas, Simão Kimbango e Simão Toco, extraíram o seu material revolucionário do Antigo Testamento. De acordo com a sua mentalidade, os Africanos colocavam-se no lugar do povo de Israel, ao ler a história da sua opressão. A Bíblia fala igualmente de restituição de terras e da aparição do Messias. Indo mais longe, na interpretação das escrituras, os Baptistas e os Adventistas estavam talvez mais próximos da mentalidade negra quando insistiam na vinda do Espírito Santo e na ressurreição dos mortos nos quais os Negros acreditam firmemente.
Simão Kimbango, fundador da seita que tem o seu nome, nasceu, segundo parece, em 1890 perto de Thysville, no Congo Belga. Foi educado numa missão baptista inglesa, B.M.S., ou seja Baptist Mission Society. Reprovou no exame para pastor e abandonou a missão furioso, decidido a vingar-se. Começou então a pregar o ódio aos Pastores, primeiro; aos Brancos, em seguida, por ele acusados de serem maus cristãos. Dizendo-se inspirado pelo Espírito Santo, interpretava a Bíblia à sua maneira. O Kimbangismo é, no fundo, um movimento político, com bases meio-religiosas meio racistas, fundado por Simão Kimbango, num acesso de ódio contra os Brancos.
Em 1920 apareceu um novo Moisés: Simão Toco, o qual, por seu turno, pretendeu libertar a terra dos seus antepassados. Para este efeito, lançou as bases de uma organização que educava profetas negros destinados a auxiliarem-no na sua tarefa. Nascido por volta de 1920, em Quilango, na região de Maquela do Zombo, frequentou uma missão baptista em Quibocolo; em 1933, foi enviado para o liceu de Luanda. Mais tarde, transferiram-no para Bembe tendo mesmo sido nomeado monitor da Missão. Simão Toco entra em contacto com a Watch Tower, em 1946, tomando parte num Congresso protestante. O Tocoísmo, bem como as outras seitas, tinham disciplina rigorosa e o sigilo era obrigatório. No plano político, os seus membros lutam pela libertação da terra africana e pela hegemonia da raça negra.
Frequentemente misturados com os Kimbangistas, utilizavam a música e as danças para exaltar o coração dos Negros, excitá-los e electrizá-los. Esta seita também se serve do hipnotismo para simular milagres; quando o milagre não se realiza, é sempre culpa do Negro ou do doente a quem falta a fé. Esta seita ia mais longe ainda na sua prática religiosa pois pregava a hostilidade contra os Brancos, o abandono do trabalho e a sabotagem dos objectos provindos de Brancos. (...)
O culto kimbangista deu origem a três outras seitas: uma, dirigida pelos dois filhos de Kimbango, José Diangenda e Carlos Kisolokelo, a outra, por Simão Mpadi; a terceira, finalmente, chamada Grupo do Espírito Santo. O grupo Mpadi, verdadeiro exército revolucionário, agia no norte de Angola, perto de Maquela do Zombo. Este grupo, cujos membros usavam uniformes de caqui e galões, foi desmantelado pelos Portugueses em 1939.
Mpadi aprisionado, conseguiu fugir para o Congo Belga, onde morreu. Apesar da vigilância das autoridades portuguesas, o sectarismo meio-religioso meio-político, por intermédio dos Kikongos e dos Bakongos, penetrava cada vez mais profundamente em Angola.
O Lassismo tinha grande influência em Cabinda onde o seu fundador, Simão Lasso, nascera em 1908. Educado numa missão católica, foi depois marinheiro na Marinha Mercante Francesa, em seguida “boxeur” profissional. Segundo se diz, Simão Lasso, dotado de excepcional inteligência, aprendeu a ler em dez dias. Em 1947 visitou Lourdes e pretendeu, um ano mais tarde, ter visto Jesus Cristo e falado com Ele. Anos depois, converteu-se ao protestantismo e entrou para o Exército de Salvação. A sede do Lassismo era em Pointe Noire, na África Equatorial Francesa, onde, aliás, se construiu um templo. Este movimento religioso está hoje englobado no movimento de libertação do enclave de Cabinda, tendo-se assim tornado puramente político.(...)
Em resumo, todas estas seitas utilizavam a religião cristã e a interpretação livre da Bíblia para fins políticos e para criar associações clandestinas cuja propaganda, e muitas vezes a acção efectiva, era anti-europeia, anticolonial e racista. Não será talvez pura coincidência que a Watch Tower, fundada em 1872 na América, no estado da Pensylvania, seja uma seita que está principalmente nas mãos de Negros. A sua sede é hoje em Nova Iorque, em Brooklyn, donde mantém relações bastante estreitas com os movimentos nacionalistas africanos.»

- Mugur Valahu, "Angola - Chave de África" (1968)

À espera de Dodot



Por contraposição à esquerda botox – dos Blair, Lulas, Sócrates e Louçãs dos nossos dias -, seu espelho instigador (e gémeo mau), esta nova direita embrionástica -que ora balbucia, ora rabia e gatinha sem sair do mesmo sítio - devia chamar-se “direita dodot”. Porque, essencialmente, é descartável, absorvente, confortável, elástica, adaptável e, nec plus ultra, sobe-se e baixa-se mais facilmente. Em suma, alberga hermeticamente toda a substância duma "direita moderna", graças à pregnância desodorizante duma cripto-esquerda, reforçada da perimetria retentora dum psico-centro.

Que ninguém duvide: merecem o parlamento.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Doutor Estranhíssimo-Amor

É preciso que os nossos beatos vociferantes, de guarda à sacristia ocidental, não se deixem ficar para trás.
O mote, neste momento, dá-o Michael Coren, e já ultrapassa, a todo o galope, a mera devastação convencional do Irão. A nova moda não é apenas escaqueirar...
Diz ele, com elevado sentido humanitário e sem papas na língua:
«Put boldly and simply, we have to drop a nuclear bomb on Iran.»

Shock&Awe, por conseguinte, já não basta (actualizem-se, papagaios louros!). Devolvê-los à Idade da Pedra sabe a pouco: urge remetê-los o quanto antes ao Big-Bang primordial (façam o upgrade, robôs da Espanha-Oeste (ou do Hawinho, ou do Porto Pobre)!...

Com mil diabos, é reconfortante saber que existem estas pessoas morais e civilizadas, montando guarda à civilização e de febril -mas arguta! - atalaia contra fascismos, fundamentalismos e extremismos demoníacos e alucinados!...
Se o ataque preemptivo convencional não resultou, nada de pânicos: passemos de imediato ao ataque preemptivo atómico. É uma lógica fatal: em não funcionando a estupidez, avança-se para a estupidez extrema. O que, de resto, já a medicina moderna confirma e justifica à saciedade: em falhando o remédio, aumenta-se a dose.

domingo, setembro 03, 2006

Super-teoria da Super-conspiração



Não sei qual o termo mais adequado - Despesas? Investimentos?-, mas eis aqui a tabela mundial das ou dos ditos cujos em equipamento bélico e panóplia militar.

Posso ir adiantando alguns considerandos que julgo pertinentes...

a) Despesas militares mundiais (por ano): USD 950 biliões

b) Desse total, sensivelmente metade (466 biliões) é gasto pelos Estados Unidos, o Paraíso Terreal, o Destino da História, o Hoje que não só Canta como Trina a Todas as Horas. Significa que os Estados Unidos gastam tanto sozinhos como o resto do mundo todo junto. Felizmente, todo este arsenal é, em absoluto, benevolente, benigno e gerido por clones da Madre Teresa de Calcutá.

c) O segundo gastador da lista é a China, que, tendo cinco vezes mais população, gasta pouco mais que um décimo do que gastam os Estados Unidos. Isto, não obstante, tem gerado grande escândalo da parte destes, que por diversas vezes têm ralhado asperamente aos chineses por estarem a exagerar nos investimentos em armamento.


d) O Irão, essa superpotência do Mal, por seu turno, delapida a exorbitância de 9,7 biliões. Significa que gasta quase o mesmo que a Espanha; cerca de um terço do que consome o Reino Unido; um quarto do que despende a Alemanha; não muito mais do que um quinto do que esportula a França; e 48 vezes (48!!) menos do que investem os Estados Unidos. Não obstante, segundo o último grito da Alta-Costura ideológica, o Irão é uma grande e perigosíssima ameaça para o Bloco de Oeste, ultimamente convertido a Pacto de Sion e Washingtónia.
Quer dizer, como é que se consegue inventar que um país cujo "índice bélico" (chamemos-lhe assim) é 1/67 (sessenta e sete vezes menor!!! - fora os trocados) do do Ocidente, constitui uma terrível ameaça para este, um perigo iminente e apocalíptico para a civilização, o alçapão entreaberto para o inferno à solta sobre a Terra?... Como?
Mesmo dirigido por um clone raquítico de Adolf Hitler, coadjuvado pelo Imã Oculto, herdeiro das ADM's de Saddam e conjurado com Hugo Chavez, King Kong Il Segundo, o Jocker e o Mancha-Negra, a coisa fica um bocado difícil, salvo enquanto forma disparatada (e assegurada) de suicídio colectivo. Eu, pelo menos, não me vislumbro a perder o sono por causa de tão fabulosa coligação.
Mas, se calhar estou a colocar mal o problema. Na verdade, inventar uma alarvidade dessas até nem deve ser difícil: basta congregar um grupo de alarves numa "brainstorm" e o fruto germina automaticamente, em cachos rubicundos. O misterioso, de facto, é como raio é que alguém, no seu perfeito juízo, dotado de faculdades intelectivas, consegue acreditar numa alarvidade grosseira destas -uma super-teoria da super-conspiração digna de várias sessões de electroterapia no hospital Júlio de Matos?...
Resposta: não consegue.
Tal prodígio de rastejamento intelectivo, para acontecer, requer a necessária confluência de dois portentos: uma máquina de propaganda colossal e, em tandem ainda mais frenético, uma desmiolação das massas a raiar a lobotomia perfeitamente ubesca. Ora, logo por azar, esses são os dois maiores impérios que, na hora presente, subjugam este desgraçado planeta: o Império da Mentira e o Império da Estupidez.
Porque, realmente, quando a máquina da propaganda se dá, em simultâneo, ao desplante e ao desfrute de inverosimilhanças tão javardas e grosseiras é um sinal inequívoco da confiança absoluta que tem no grau de pocilga mental em que apascenta o mundo.

Memória perdida. I. O singularismo português

« O Português é sem dúvida um ser especial. Fatalista e corajoso, habituou-se ao terrorismo e vive com ele, como um doente com o seu mal. Ao visitar o Norte, fiquei estupefacto, por ver portugueses continuar com o seu comércio ou explorar as suas plantações, na própria zona onde o exército se encontra em luta com grupos rebeldes. Que dizer então daquele vendedor de lotaria, originário dos Açores, que, na sua bicicleta a motor atravessava a perigosa zona de Uige para ir vender a "sorte grande"? Confessou-me ele, com o seu sotaque inimitável, que exercia este ofício havia já alguns anos, que os terroristas também compravam a lotaria, constituindo até um bom terço da sua clientela. Não é fácil imaginarmos um Americano a fazer o mesmo no Vietnam, ou um Francês na Argélia! "O senhor não vai acreditar", acrescentou este Português, "mas acabam de capturar, armas na mão, um Negro a quem eu vendi, há três meses, a sorte grande: 200.000 escudos. Deu-me 20.000 escudos de alvíçaras; com esse dinheiro vou comprar um automóvel". O homem confessou-me também que ganhava por mês, graças a este modo de vida "especial", cerca de 200 dólares, não contando com as gorjetas generosas dos felizes contemplados.(...)
O Paternalismo português, em relação aos indígenas, permite uma assimilação real. A integração tornou-se possível, não só graças à política oficial, tendente à criação duma sociedade pluri-racial, como também porque esta distância material diminui constantemente. Torna-se sem dúvida mais fácil para o Negro não evoluído ascender a um nível superior quando o próprio Branco tem um padrão de vida extremamente modesto. (...)
Na comunidade angolana, Brancos e Negros fazem o que podem para ganhar a sua vida. Se há demasiados Brancos, criados de café, os Negros podem ter outros empregos. Na verdade, o lugar de criado de café fascina-os porque é bem remunerado e porque as suas necessidades são mínimas. Não me acreditarão se lhes disser que, ao lado do meu hotel, há um café onde todos os criados são Negros. Todos ganhavam, segundo eles, 100 dólares mensais, o que lhes permitia à noite voltarem para casa de táxi, em grupos, ou individualmente. Agradava-lhes muito mais fazera viagem de táxi do que em bicicleta. Achavam também perfeitamente normal que táxis, guiados por Brancos, os esperassem à porta até àsd uas ou três da manhã, na atitude respeitosa devida a qualquer bom cliente. Lamento aqueles pobres Brancos, motoristas de táxi, assalariados ou proprietários, que transportavam nos seus carros, amorosamente cuidados, uma dúzia de Negros, homens, mulheres e crianças, apertados como sardinha em lata e carregados de cestos. Parecia que o carro ia rebentar. Por falta de clientela, estes Portugueses transformavam os seus táxis em camiões e, ainda por cima, ajudavam o negro e a família a instalarem-se com as suas trouxas! Nunca vi em qualquer outra parte de África motoristas de táxi aceitarem passageiros negros. E não esqueçamos que isto se passou já depois do terrorismo.»


- Mugur Valahu, "Angola - Chave de África"

sábado, setembro 02, 2006

Guliver em Liliput, ou Viagem ao Cu da Noite

«A literatura, se verdadeira, descreve abismos por onde vagam monstruosidades dilaceradas: homens perdidos da esperança à procura duma alma.»
- Dragão


«Ah! Foi substituído o patrão! As suas violências, as suas larachas, as suas artimanhas, todas as suas badalhoquices publicitárias! Sabem enfeitar o pechisbeque! Não foi preciso esperar puto! Já subiram para o poleiro os novos alcovetas!... Reparem nos novos apóstolos... Barrigudos e com voz maviosa!... Grande revolta! Grande batalha! pequeno saque! Avaros contra Invejosos! Tanta algazarra para isto! Nos bastidores mudou-se de focinho... Neo-topázios, neo-Kremlin, neo-putas, neo-lenines, neo-jesus! Eram sinceros no princípio... Presentemente, todos compreenderam! (Os que não compreendem: fusilam-se.) Não são culpados, são submissos!... Não teriam sido eles mas os outros... Aproveitou-lhes a experiência... Estão de olho alerta como sempre... A alma é agora o "cartão vermelho"... Está perdida! nada mais!... Eles estão a par de todos os tiques, todos os vícios do mísero proleta... Deixá-lo engolir! Deixá-lo desfilar! Sofrer! fanfarronar!... Deixá-lo denunciar!... É da natureza dele!... Não pode nada contra!... O proletário? metido em "casa"! Lê o meu jornal! Lê a minha prosa, aquela ali, exacto, não aqueloutra! Põe-te bem na força dos meus discursos! E não vás para lá disso, ó sacana! Se não queres que te corte a cabeça! É o que ele merece, não outra coisa!... A jaula!... Quando é chamada a bófia, sabe-se o que nos espera!... E não se acaba tudo aqui! Faz-se o que se puder para não se ficar com cara de responsável! serão tapadas todas as saídas! Tornar-nos-emos «totalitários«! Com os judeus, sem os judeus! Nada disso tem importância!... O principal é que se mate!... Quantos cristãos teimosos acabaram na fogueira durante as épocas obscuras?... Na boca dos leões?... Nas galés?... Inquisicionados até ao tutano? Por mor da Conceição de Maria? ou de três versículos do Testamento? Não é possível contá-los! Motivos? Facultativos!... nem vale a pena existirem!... Nesse aspecto os tempos não mudaram muito! Não estamos mais exigentes! Todos podemos dar o berro por mor de uma coisa que nem sequer existe! Um Comunismo a fazer caretas!... Não tem importância nenhuma no ponto a que chegamos!... É o que se chama morrer por uma ideia ou então não percebo nada!... Ao fim e ao cabo somos puros sem darmos por isso!... Calculando bem, não será isso a esperança? E o futuro estético também! Guerras de que se não sabe o porquê!... Cada vez mais formidáveis!... Que nunca mais deixarão ninguém sossegado!... em que toda a gente rebentará... se tornará herói ali no local... e pó para cúmulo de tudo!... E a terra ficará livre... Pois nunca servimos para nada... A barrela pela Ideia... »

- Louis-Ferdinand Céline, "Mea Culpa"

Medir a literatura com bitola política é o mesmo que forçar Guliver a desfilar a última moda de Liliput. Do ponto de vista de anõezinhos talvez pareça, essa, uma tarefa fascinante, um empreendimento a todos os títulos razoável, quando não imperial. Mas tais palácios, ainda mais consumidos de tais fogos no rabo, ao simples humano -gigante descomunal e aberrante para tais micróbios - outra coisa não suscita que uma mijadela lá bem do alto, em chuveiro apagador. Que os minúsculos, certamente, tomarão por ofensa imperdoável, mas que o colosso despeja na melhor das boas intenções.
No que interessa, no que é essencial, Céline nunca foi nazi: foi lúcido. O resto é conversa de piolhos púbicos (e púdicos) entre florestas de pintelhices.
Aliás, no que concerne aos "grandes celinianos", os Zés-e-joões-pedros da exclusiva pívia canhota, que lêem com preservativo, ambientizador e ressalva, mal lhes oiço clamar "Celine, grande Celine!...", acode-me logo uma interjeição óbvia e automática: "Dion?"

sexta-feira, setembro 01, 2006

Quanto ganha um Semideus?

Qual é o vosso salário médio anual?

Caso fôsseis um gestor duma empresa pública portuguesa, a coisa andaria à volta dos 200.000 dólares, mais coisa menos coisa, e vós, imagino, estariéis todos ufanos e satisfeitos. O que, reconheça-se, seria perfeitamente justificado: convertido em putas, mariscos, automóveis, casinhas, viagens, daria uma rica vida. Isto, partindo do pressuposto que nenhum cancro sacana ou escarépio terrorista vos tolhia abruptamente o idílio.
Mas se o salário dum príncipe destes já nos parece digno dum cenário das Mil e Uma Noites, que emoção nos suscitará o salário dum CEO (Presidente do Conselho de Administração, ou coisa que o valha) duma das grandes empresas petrolíferas -Exxon, Shell, BP, etc?...
Estais bem sentadinhos?
Então aí vai, o salário médio anual dum destes semideuses (para a época transacta):
- USD 37.700.000 (trinta e sete milhões e setecentos mil dólares)

Dá, por mês, qualquer coisa como: USD 3.141.666 (2.444.685 Euros - ou 488.937 contos)

Ou por dia: USD 104.722

Ou por hora : USD 13.090

É preciso continuar até ao minuto?

Não admira portanto que estes hiper-barões se permitam luxos que nem nos passam pela cabeça. São privilégios doutra galáxia, regalias olímpicas. Só para dar um exemplo trivial: enquanto nós vamos às putas, eles vão aos Presidentes das Repúblicas e Primeiros-ministros.