terça-feira, julho 18, 2006

Leviatã e o Paraíso

O que Israel está a fazer no Líbano é terrorismo. Terrorismo de Estado, mas terrorismo. Em forma de contra-terrorismo, mas terrorismo. Não é o fim do mundo nem é uma originalidade especial. O que os americanos e os ingleses estão a fazer no Iraque e no Afeganistão é terrorismo da mesma qualidade, só que a uma escala consideravelmente superior, de espaço e tempo. E, consequentemente, de hipocrisia, de infâmia, de carnificina.
Mas não se pense que esta maravilha do "terrorismo de Estado" é uma exclusividade deste cluster imperial hodierno. Os Assírios, se não me falha a memória, foram os primeiros peritos em "terrorismo de Estado": Não só conquistavam as cidades, como, por doutrina de vida, faziam empalar prisioneiros, chacinar mulheres, crianças e animais domésticos. Um serviço completo, pois claro. Porque idolatravam deuses cruéis e sanguinários? Porque eram uns selvagens idólatras e impiedosos? Leiam o Livro de Josué (logo a seguir ao Deuterónimo, na Biblia Sagrada) e constatareis que os Hebreus fizeram exactamente o mesmo, em nome de Ihavé (futuro Deus-Pai), aquando da primeira constituição de Israel.
O "terrorismo de Estado" conheceu posteriormente dias gloriosos sob as flâmulas e estandartes do Império Romano. De tal ordem que este viria a tornar-se uma espécie de paradigma para todos os exercícios ulteriores - de ambos: império e terror. O Império Britânico, cujo gestação começa na república puritana de Cromwell, usou e abusou do Terror de Estado. Desde a Irlanda à Guerra do Ópio, passando pelas quatro bandas do planeta, nunca se poupou a esforços nem expedientes. O Império Americano nada mais pretende ser que um seu digno sucessor. Basta recordar a forma como, ainda bebézinho, esbulhou, brutalizou e exterminou os autóctones da América do Norte, para orçarmos a que ponto estava vocacionado para os mais altos voos. Pelo caminho, a República Francesa, as duas tentativas de Império Alemão, sobretudo a segunda, a patética tentativa de Império Italiano (por Mussolini), o Império Russo, dos Czares e dos Sovietes, o Império Japonês, o Império Espanhol, só para citar os mais emblemáticos, nalguns casos com a gana própria dos novo-ricos, entregaram-se a sangrias e hecatombes deveras notáveis e apenas um pouco menos engenhosas tão somente por força duma menor durabilidade.
Todos eles se sentiram animados das mais inadiáveis lógicas, creditados das mais humanas (e transcendentes) procurações, armados dos mais angélicos arsenais. Resistir-lhes, a tais portentos de luz e progresso, francamente, só por pura e acintosa maldade. Os demónios, todos sabemos, opõem-se ao progresso e expiam invariavelmente a derrota. Já a vitória santifica e consagra, peremptoriamente, os deuses. Glorifica as suas panóplias e devastações.
O Imperialismo Alemão do III Reich foi julgado por inúmeros crimes de guerra em Nuremberga, apenas por via da derrota militar dos seus mentores. Caso tivessem vencido, os virtuosos seriam eles e os criminosos demoníacos seriam os outros. A propaganda cantá-lo-ia em hinos celestiais, os historiadores alfaiatariam os factos à medida das conveniências e a bem da carreirinha, os castrados e eunucos mentais de todas as épocas, masturbadores activos das "glórias do momento a ferver", peregrinariam e venerariam sem descanso a sua memória.
Portanto, o que Israel está a fazer, à sua pequenina escala, infelizmente, não nos exibe nada de novo, nem, tão pouco, de subitamente ignóbil. Bem pode Israel abrir a gabardine à vontade, que não nos escandaliza. Não é menos desculpável, mas também não é especialmente condenável, por causa disso. De facto, em toda esta sua peripécia mais recente outro não faz que participar em toda uma tradição que reflecte uma lei muito antiga - uma que já as fábulas comemoravam: a lei do mais forte. Que ao longo dos tempos, de resto, e a começar em Caim, se confunde com a "lei do mais bem armado". Nesta perspectiva atávica - fria e tecnocêntrica mas sinistramente eficaz e, raios a partam, real -, o mal e o bem, o melhor e o pior derivam predominantemente da qualidade do sistema bélico, da capacidade agressiva e predadora de cada agremiação excursionista galvanizada de projectos imperiais ou meramente campeoníssimos (pode ir desde os benfiquistas aos americanos, passando por evangelistas, muçulmanos, comunistas, sionistas, arianistas, globalistas ou o diabo que os carregue!). O "pior" acaba por redundar sempre no que tem as piores armas, entenda-se: aquelas que falham clamorosamente em certificar no terreno a superioridade das suas ideias, a justeza dos seus desígnios, manias, ideiais, caprichos ou fulgurantes apetites. Ao contrário da água apaziguadora das mitologias, as auto-proclamadas civilizações baptizam a ferro e fogo e têm na arma o fundamento e o garante do seu "sistema de valores". Quando não os próprios pilares ontológicos.
Assim, no cumprimento de tão insigne tradição, é na sua superioridade bélica que Israel fundamenta e sustenta o seu direito inalienável, tanto quanto a sua sobranceria moral; e é ela, essa mesma superioridade bélica (de arsenal próprio e de apoio) que a transforma num Estado dotado de prerrogativas unilaterais, bem como credor das maiores compreensões e beneplácitos internacionais. Não é por ser especialmente maléfica que brutaliza exemplarmente, embrulhado em papel de punição, as populações do Líbano. Aí estamos apenas ao nível da propaganda e contra-propaganda. Israel apenas mata mais que os seus inimigos porque dispõe de meios que o permitem e potenciam. Em termos estritos de vontade e maldade, provavelmente, os lados equivalem-se: os Hezzbollahs e Hammas seguramente desejariam matar mais e os Israelitas, obsidiados, encantados e seduzidos pela sua formidável panóplia sempre crescente, quase de cetrteza que não resistirão a dar-lhe excitante uso e, necessariamente, fatalmente, tenderão a ocasionar, de futuro, superiores morticínios. Desçamos pois à realidade: mais que moral, a questão é técnológica. Não são apenas os fins que justificam os meios; são previamente os meios que determinam e insuflam os fins. Desde há uns tempos a esta parte (posso escrever-vos um tratado sobre isto), mais que o homem utilizar a arma, dir-se-ia que é a arma que arrasta o homem. Eu, pelo menos, estou capaz de dizê-lo, alto e bom som. Por conseguinte, Israel faz o que faz não por singular perfídia, mas, principalmente, repito, porque tem armamento para o efeito. Quer dizer, tem ferramentas para a tarefa, meios para a empresa. Ou, pelo menos, acredita que os tem. Além de oportunidade, pretexto, cobertura e, em larga medida, impunidade, bem entendido. Os riscos de comparecer num tribunal Internacional, ao estilo de Nuremberga, são, convenhamos, no panorama actual, praticamente negligenciáveis. Antes deles, sentar-se-iam os americanos e os ingleses, em catadupa.
Entretanto, há quem diga que os métodos em curso em nada se distinguem dos utilizados pelos alemães -nem sequer da Wermacht, mas das SS -, sobre as diversas resistências dos países ocupados durante a 2ª Guerra Mundial. Recordo: por cada soldado alemão morto, ou acto terrorista de sabotagem (os Nazis também consideravam terroristas os resistentes e socorriam-se da lei internacional para o efeito), fuzilavam (torturavam, etc) um determinado número de civis avulsos. Em nome da acção psicológica, funcionava como punição que se pretendia operasse como dissuasão para futuros actos hostis. Pois bem, tecnicamente, a acção dos Israelitas em nada está a distinguir-se deste modelo pouco edificante. Como aliás não se distingue dos bombardeamentos estratégicos aliados, nessa mesma guerra, perdoem se vos relembro mas metódica e preferencialmente sobre alvos e infraestruturas civis; ou do terror stalinista sobre classes e grupos étnicos considerados reaccionários ou colaboracionistas; ou da repressão turca sobre os Arménios; ou da repressão dos terroristas Sioux, Cheyennes ou Apaches pela brava e heróica - toda ela investida e mandatada pela Civilização Ocidental - cavalaria americana; ou da razia dos romanos, no reinado de Tito, sobre os zelotas judeus; ou, só para terminar com dois casos gémeos mais recentes, os bombardeamentos da Sérvia e do Iraque (este reforçado com toda uma democratização a tiro que ainda prossegue). Portanto, tanto se pode chamar nazi à proeza israelita do momento, como democrata liberal, só para citar a dicotomia mais popular dos nossos arraiais e opinadouros. Além da algazarra típica da claque, como é bom de ver, tal gargarejo acaba por não definir nada.
Abreviando. Que quero então eu significar com tudo isto? Uma coisa muito óbvia e elementar, pelo menos para pessoas de boa fé e cultura média: a brutalidade, a desumanização (própria -para semi-deus- e alheia -para insecto), a carnificina desarvorada não têm sido património exclusivo de nenhuma época, povo, império, política, ideologia, religião, etc. É uma pena, mas é assim. Os episódios divergem no folclore da indumentária, mas repetem a rotina catastrófica do drama. A civilização, vista em profundidade, mais não tem sido que o verniz com que a barbárie pinta as unhas, o perfume delicodoce com que disfarça o suor da matança e o hálito asqueroso do festim necrófago. O império - o único que tem prevalecido e animado, em forma de instinto visceral, todos os outros - é o império da bestialidade, da treva, da ganância e da vaidade balofa, histriónica e psicopata do macaco de Deus.
Há um determinismo do mal? Estamos condenados a uma pocilga eterna, ao açougue perpétuo a boiar no espaço?
Que sei eu? Não ando também para aqui a tropeçar nas tripas, nos sonhos e nos testículos, perseguido por medos, fantasmas e preconceitos? Do que sei, ou julgo saber, é que, entre outras, há uma força da gravidade que nos puxa para réptil, que nos prende ao chão e um pensamento que nos empurra para cima, nos convoca ao céu. O problema é que, quase sempre em nome de fazer do homem um anjo - o tal progresso canonizador de todas as matanças e latrocínios, mais não têm obrado que enxertar asas no réptil. Ainda não voa, é certo, mas consegue cuspir o veneno cada vez mais longe.
Disso, ao menos, eu sei e posso quase falar de cátedra. Ainda reconheço falsos dragões quando os vejo.

E se insistirem num fecho moral para tão vil fábula, sempre ouso adiantar o seguinte, em jeito de enigma (algo anedótico, reconheço, mas é o que se pode arranjar):
As ferramentas, depois de se tornarem senhoras, ameaçam tornar-se tiranas. A caminho de escravos, nós já pouco mais somos que meros utensílios - armas ao serviço de mãos invisíveis. E, consequentemente, somos todos alvos.
Ninguém anda a massacrar civis, acreditem. Nem hoje, nem nunca. O que não se cansam de massacrar, desde os princípios dos tempos, é qualquer hipótese de verdadeira civilização. Sendo que o pior massacre de quantos existem decorre dentro da nossa própria alma e todos oficiamos nele.
Não duvido que o inferno esteja atulhado de boas intenções. Sobretudo quando, numa vida inteira, vou descobrindo que neste mundo reinam as piores. Por imperativo lógico, vejo-me assim forçado a dar razão a todos os filhos da puta desta terra: vivemos certamente no Paraíso. E quanto piores forem, as intenções, melhor ele fica.

segunda-feira, julho 17, 2006

Armagedão ou Rilhafoles?



Pergunta: Quem é NORIO HAYAKAWA

Resposta: Consultem o Google. Posso adiantar que é capaz de ser divertido.

Em Fevereiro de 2005, o Norio (não confundir com o Noddy) concedeu uma série de depoimentos solenes intitulados "MY THOUGHTS ON "UFOs" AND MY PERSONAL RELIGIOUS BELIEF", onde, a determinada altura confidencia (em resposta à inefável pergunta: Do you believe in the coming Rapture and in the coming Millenial Reign of Christ?) :

- "Yes, I believe in the coming Rapture, although the word itself is not in the Bible. I believe that born-again believers will be translated instantaneously (i.e.,"taken up", or "transferred" from one side to the other side, i.e., from the earthly plane to the heavenly dimension) and will meet the Lord in mid-air. In other words, in the "twinkling of an eye", our physical bodies will go through a mysterious, sudden transmogrification (a favorite word used by John A. Keel) and will be lifted up and will meet the Lord in mid-air. Our entire physical bodies, the tissues, the cells will go through a sudden, inexplicable atomic fission-like transformation. It almost sounds like a science fiction, but that is my personal belief as well as the personal beliefs of millions of believers on this planet. Thus I believe that we will be "evacuated" en masse to escape the Tribulation Period on earth. This obviously has not happened yet in history, but I believe that this incident could be the next main event in God's prophetic calendar or timeline. When we (the bride) meet the Lord (the Groom) in mid-air, there will be a 7-day "wedding celebrations" (equivalent of 7 earthly years), immediately after which the believers, with the host of heaven led by Christ, will descend on Israel at the Battle of Armaggedon, immediately after which there will be a 1000 year reign of Christ from Israel."


Por amor de Deus, não subestimem a lógica científica, religiosa, poética, ou o quer que seja, dum tal arrazoado. Não caiam de asneira de pensar que estamos diante dum simples maluquinho. Muito provavelmente, o actual presidente da maior potência militar ao cimo do planeta, um tal de George W. Bush, tem convicções e fantasias em tudo convergentes com este senhor.
Mas, além de peregrino do Armagedão, Norio, no cumprimento de louvável coerência, é igualmente um "surfer do Apocalipse". Do alto da sua prancha bendita, após leituras e augúrios decifrados nos puzzles celestes, expõe a diplomacia americana para o próximo quadriénio:
E logo de seguida, não é de modas:


Estes anseios são naturais em alguém que se imagina predestinado à salvação e à recompensa eterna, garantida e peremptória por via duma catástrofe planetária. Não podemos levar-lhe a mal, nem ser muito severos com ele. Uma tal esquizofrenia também pouco mais é que inócua ao nível dos israelatras alucinados cá da paróquia. Eventualmente, nos intervalos da vigília compenetrada dos meteoros, padecerão de idênticas visões elitistas e redentoras.
Para ser sincero, acho que apenas nos devemos preocupar um bocadinho no caso de sida mental desta, além destes pobres diabos, também já infectar a manada ao nível do cockpit. Aí, confesso: com todos aqueles arsenais e malucos associados à mistura, ainda é de temer alguma desgraceira das grandes. E se pensarmos que nos últimos anos outra coisa não têm feito que semear, cultivar e catalisar doidos semelhantes do lado oposto, alguns a soldo, outros nem tanto, é caso para repetir a frase mais recorrente aos sábios desde a noite dos tempos:
Pobre humanidade! Pobre planeta!...


Afinal, no jogo do ódio e da violência são essenciais duas partes. Ambas em furiosa competição para ver qual delas é mais estúpida, fundamentalista e obcecada. Por outras palavras: mais desvairada e perversa diante do espelho.

domingo, julho 16, 2006

Aforismo do dia

«O barulho não prova nada: muitas vezes, uma galinha que simplesmente pôs um ovo cacareja como se tivesse posto um asteróide.»

- Mark Twain

Bankruptcy is for assholes

«US 'could be going bankrupt'»

«A ballooning budget deficit and a pensions and welfare timebomb could send the economic superpower into insolvency, according to research by Professor Laurence Kotlikoff for the Federal Reserve Bank of St Louis, a leading constituent of the US Federal Reserve.»

sábado, julho 15, 2006

Tragédias colaterais

«On October 6, 1973, Egypt and Syria invaded Israel, igniting what became known as the Yom Kippur War. Contrary to popular impression, the 'yom Kippur' War was not the simple result of miscalculation, blunder or an Arab decition to launch a military strike against the state of Israel. The entire constellation of events surrounding the outbreak of the October War was secretly orchestrated by Washington and London, using the powerful secret diplomatic channels developed by Nixon's national security adviser, henry Kissinger. Kissinger effectively controlled the Israeli policy response through his intimate relation with Israel's Washington ambassador, Sincha Dinitz. In addition, Kissinger cultivated channels to the Egyptian and Syrian side. His method was simply to misrepresent to each party the critical elements of the other, ensuring the war and the subsequent Arab oil embargo.
US Intelligence reports, including intercepted communications from Arab officials confirming the buildup for war, were firmly supressed by Kissinger, who was by then Nixon's intelligence 'czar'. The war and its aftermath, Kissinger infamous "shutle diplomacy", were scripted in Washington along the precise lines of the Bilderberg deliberations in Saltsjöbaden the previous May, come six months before the outbreak of the war. Arab oil-producing nations were to be the scape-goats for the coming rage of the world, while the Anglo-American interests responsible stood quietly in the background.
(...) One enormous consequence of the ensuing 400 per cent rise in OPEC oil prices was that investments of hundreds of millions of dollars by British Petroleum, Royal Dutch Shell and other Anglo-American petroleum concerns in the risky North Sea could produce oil at a profit. It is a curious fact of the time that the profitability of these new North Sea oilfields was not at all secure until after the OPEC price rises. Of course, this might only have been a fortuitous coincidence.
By October 16, the Organization of Petroleum Exporting Countries, following a meeting on oil prices in Vienna, had raised their price by a staggering 70 per cent, $3.01 to $5.11 per barrel. (...)
Significantly, the oil crisis hit full force in late 1973, just as the president of the United States was becoming personally embroled in what come to be called the "watergate affair", leaving Henry Kissinger as de facto president, running U.S. policy during the crisis.(...)
The U.S. Treasury, under Jack Bennett, the man who had helped steer Nixon's fateful August 1971 dollar policy, had established a secret accord with the Saudi Arabian Monetary Agency, SAMA, finalized in a February 1975 memo from U.S. Assistant Treasury Secretary Jack F. Bennett to Secretary os State Kissinger. Under the terms of the agreement, a sizeable part of the huge new Saudi oil revenue windfall was to be invested in financing the U.S. Government deficits. A young Wall Street investment banker with the leading London-based Eurobond firm of White Weld & Co., David Mulford, was sent to Saudi Arabia to become the principal "investment adviser" to SAMA; he was to guide the Saudi petrodollar investments to the correct banks, naturally in London and New York. The Bilderberg scheme was operating just as planned.
Kissinger, as Nixon all-powerful national security adviser already firmly on control of all U.S. intelligence estimates, secured control of U.S. foreign policy as well, persuading Nixon to name him Secretary of State in the weeks just prior to the outbreak of the October Yom Kippur War. Indicative of his central role in events, Kissinger retained both titles, as head of the White House National Security Council and as Secretary of State, something no other individual has ever done, before or since. No other single person during the last months of the Nixon Presidency wielded as much power as did henry Kissinger. To add insult to injury, Kissinger was given the 1973 Nobel Peace Prize.
Following a meeting in Teheran on january 1, 1974, a second price of more than 100 per cent brought OPEC benchmark oil prices to §11.65. This was done on the surprising demand of the Shah of Iran, who had been secretly put up to it by Henry Kissinger. Only months earlier, the Shah had opposed the OPEC increase to $3.01 for fear that this would force Western exporters to charge more for the industrial equiupment the Shah sought to import for Irabn's ambitious industrialization.
From 1949 until the end of 1970, Midle East crude oil prices had averaged aproximately $1.90 per barrel. They had risen top $3.01 in early 1973, at the time of the fateful Saltsjöbaden meeting of the Bilderberg group, whitch discussed an imminent 400 per cent future rise in OPOC's price. By January 1974, that 400 per cent increase was a fait accompli.
(...)
The socialimpact of the oil embargo on the United States in late 1973 coul be described as panic. (...)
In Wester Europe, the shock of the oil price rise and the embargo of suplies was equally dramatic. From Britain to the Continent, country after country felt the effects of the worst economic crisis since the 1930's. Bankruptcies and unemployment across Europe rose to alarming levels.(...)
But for the less developed economies of the world, the impact of an overnight price increase of 400 per cent in their primary energy source was staggering. The vast majority of the world's less developed economies, without significant domestic oil resources, were suddenly confronted with an unexpected and unpayable 400 per cent increase in the cost of energy imports, to say nothing of the cost of chemicals and fertilizers derived from petroleum. (...)
India in 1973 had a positive balance of trade, a healthy situation for a developing economy. But by 1974, India had total foreign exchange reserves of $629 milions with which to pay -in dollars - an annual oil import bill of almost double that, or $1.241 million. (...)
But while Kissinger 1973 oil shock had a devastating impact on world industrial growth, it had an enormous benefit for certain established interests - the major new York and London banks, and the Seven Sisters oil multinationals of the United States and Britain. By 1974, Exxon had overtaken General Motors as the larges American corporation in gross revenues. Her sisters, including Mobil, Texaco, Chevron and Gulf, were not far behind.

The bulk of the OPEC dollar revenues, Kissinger's "recycled petrodollars", was deposited with the leading bank of London and New York, the banks which dealt in dollars as well as international oil trade.»

- William Engdahl, "A Century of War"


Em Abril de 1974, catalisado pelo choque petrolífero em epígrafe (que eu próprio testemunhei, não estou a falar de cor), Portugal engrenou numa estranha negociata: para comprar uma rifa da democracia de pacotilha, penhorou, senão entregou mesmo numa bandeja, a independência nacional.
E o resto é conversa para boi dormir. Agarrado à chucha da ideologia (e não estou apenas a falar da garotada de esquerda).

Entretanto, nos gloriosos tempos que correm, contabilizem o preço do petróleo em 2002, antes da invasão do Iraque e o preço em que ele flana agora, após a "invasão do Líbano" e o que mais virá. Quanto às fantasias, florilégios e hooliganismos psicopolíticos, poupem-me. Já sei que a vossa matilha é a melhor do mundo e a vossa claque a campeã vitalícia.

sexta-feira, julho 14, 2006

A cabeçada

A cabeçada de Zidane foi um gesto inqualificável. Dissesse o outro calhorda mafioso o que dissesse, não se admite. Não tem desculpa. Que péssimo exemplo para as crianças! Especialmente aquelas que, por esse mundo fora, ainda não têm play-station ou TV cabo.
É preciso não esquecer que Zidane é de estirpe argelina, ou seja, um derivado muçulmano altamente suspeito, um portador sabe-se lá de que ínvio determinismo. Portanto, tem mais é que penitenciar-se, ser humilde, compreensivo, tolerante e bebedor compulsivo de coca-cola.
Se fosse de parentesco hebraico, se participasse dessa herança excepcional, desse pedigree inefável, ah bom, aí seria não só completamente diferente como plenamente razoável, angeliníssimo, pulquérrimo. Não uma cabeçada - que seria uma retaliação indigna, escassa, exígua para tamanhos pergaminhos -, mas um tiro, uma granada de mão, uma saraivada de facadas, no mínimo. E nunca negligenciando, claro está, toda aquela vingançazinha suplementar - mas indispensável, protocolar -, sobre a família, a raça e a nação do ofensor: demolição da domicílio da mãezinha com buldózeres justiceiros; assassínio selectivo e aleatório de vários compatrícios, pela Mossad bendita; e bombardeamento do aeroporto de Palermo, uma hidroelétrica, duas praias e várias pontes, com mísseis e bombas geniais (inteligentes são os americanos e os ingleses; os israelitas, como é público e notório, são todos, sem excepção, geniais – o que se transmite, por pregnância mística, às suas próprias ferramentas e utensílios).
E nem era preciso, notem bem, que o safardana lhe depreciasse a mãe, a irmã ou a esposa. Sequer que insinuasse coisas ramificadas sobre o pai, o avô ou os primos da província. Nada disso; bastava que lhe rosnasse, por exemplo, e ainda que entredentes,“pencudo!”.
E que espectáculo edificante não seria, então, para todas as crianças do mundo!...

quinta-feira, julho 13, 2006

Por um Sorteio Universal (rep.)

(Como ninguém me pediu, eu, que sou acima de tudo um espírito de contradição, tenho o maior gosto em repor este postal de Janeiro. ).

Digo isto com toda a sinceridade: não entendo porque é que em Portugal, para efeito de eleição do presidente da República (e até de deputados ou autarcas) não se adopta, duma vez por todas, um sistema de lotaria. Andava à roda. Tiravam-se rifas. Em vez de urnas, centenas delas e respectivas guarnições, bastava uma única tômbola gigante. Então não era muito mais consentâneo com o nível recorrente dos candidatos e respectivos eleitores? Verdadeira democracia era assim: Todos os cidadãos que cumprissem determinados requisitos (maiores de 35 anos, sem problemas com a justiça, alfabetizados, de nacionalidade portuguesa, etc,) recebiam um número. Depois, a Santa Casa, que já está habituada a estas quermesses, sorteava o presidente, os deputados, ou os autarcas.
Aforrava-se um bom dinheiro, poupavam-se as peixeiradas do costume, evitavam-se palanfrórios e zaragatas, não se perdia tempo com gambosinices, falsas promessas e contos do vigário, e o resultado, com um bocado de sorte, até era melhor. Pior, pelo menos, seria quase impossível. Sejamos lúcidos: depois de um Gorge Sampaio ser presidente da república, não tenho qualquer dúvida que um qualquer taxista anódino, cabeleireira avulsa ou vendedor ambulante, no mínimo, não só estariam habilitados para a função, como, de certeza, alcançariam bem mais pitorescos desempenhos. E que dizer dum Santana Lopes primeiro-ministro? Ou até dum Durão Barroso, dum Guterres, dum Soares, etc? E os deputados? E os autarcas? Já repararam bem?Face à monotonia confrangedora das performances destes esplêndidos e sufragados “dirigentes”, cada português tira as suas ilações. A mais usual –e lógica- é reconhecer-se, o luso-aborígene, plenamente capacitado, vocacionado e predestinado, desde a barriga da mãe, para os mais elevados cargos do Estado e da Governação. Isto se, como entretanto -e cada vez com maior frequência - acontece, não descobrir a resfolegar dentro de si um ditador clarividente e pronto para, às três pancadas mas com carácter de urgência, assumir a mundícia e a redenção da pátria. Nem mais. E quase tudo nos indica, e taxativamente garante, que pior figura que os actuais –que, de resto, são também os recentes e anteriores, pois são os mesmos vai para mais de trinta anos -, não faria. Limpinho; e até mesmo se optasse por uma letargia absoluta, ou se se mantivesse oculto e ausente durante todo o mandato, ninguém notaria grande diferença.
Não raras vezes, dou comigo a viajar de táxi só para escutar os projectos mirabolantes do respectivo piloto. Mesmo os ultra-descabelados, inçados de medidas radicais e purgas enérgicas, conseguem ser mais interessantes que o chorrilho de idiotices e baboseiras dos presentes candidatos oficiais a qualquer coisa, mas sobretudo à poltrona de bibelot-mor da república. Ao menos, caso fosse sorteado, o furioso taxista conduziria o país como se fosse um táxi, desflorando vielas e peregrinando atalhos, o que, havemos de convir, sempre conferiria alguma emoção ao percurso. E sempre era preferível que vê-lo, diaria e convulsivamente, a ser conduzi-lo feito casa de alterne, que como sabemos não prima pela aerodinâmica, para além de lhe faltarem motorização e rodas adequadas.
Provavelmente, é excentricidade minha, mas desgosta-me que o país se confunda com uma casa de alterne, que os políticos não se distingam das alternadeiras, que os administradores da Coisa Pública se assemelhem a banais alcaiotes. A sério, deprime-me. Confesso que desde pequenino, talvez cativado por devaneios e romances absurdos, acalentava outras esperanças.
Todavia, se assim é, se assim está condenado a ser pela eternidade, se não se distinguem os eméritos candidatos dos mais básicos e vulgares eleitores, então, ao menos, que todos os eleitores usufruam do pleno direito a ser candidatos. Era assim na Grécia Antiga, quando inventaram a democracia. Todos os cidadãos de pleno direito eram efectivamente iguais, sem castas. Hoje critica-se e menoscaba-se muito esse regime primordial porque só permitia que uma minoria votasse (nem mulheres, nem escravos, nem estrangeiros participavam); e no entanto, nesta hora que passa, não se vislumbra grande evolução, a não ser talvez para pior: a percentagem dos eleitores aumentou, todos votam, mas apenas uma invariável e hermética minoria pode candidatar-se aos cargos superiores públicos. Uma elite? Não, uma mera chusma dissimulada, oligárquica e feudal. Tipos que à viva imagem de qualquer fulano avulso não fazem a menor destrinça entre o próprio interesse e o interesse geral; pior: que não reconhecem sequer a existência de qualquer interesse para lá das fronteiras do seu próprio interesse, diga-se, já agora, pela única e exclusiva razão de que o seu interesse próprio não tem limites e só conhece rival na sua ganância. Mas, repito, se é assim, se quem exerce o poder não se distingue de qualquer um, então que um qualquer possa ser qualquer coisa, sobretudo qualquer “Coisa Pública”. Vale mais confiar na Sorte que na Insídia, no Conluio, no Sofisma. Já fede esta fantochada retórica do “povo escolhe”, “o povo elege”, o “povo é soberano”. Balelas!, o povo não escolhe coisa nenhuma, muito menos “Coisas públicas”, e soberana só será certamente a sua impotência, bem como lendária a sua estupidez. A escolha é prévia, a confecção é sempre anterior e decorre na penumbra dos bastidores, até os mongolóides mais toscos já desconfiam disso. O povo apenas ratifica, homologa, assina de cruz. Prefere a embalagem da papa, a marca e o brinde; mas, na substância, não tem direito nem opção a outro prato que não aquela mistela liofilizada e rançosa que lhe deitam na manjedoura. De quatro em quatro anos, perguntam-lhe, quando muito, se quer mudar de marca ou de cozinheiro. Fodido com a papa, enjoado com o mingau, o cabrãozito muda, quer dizer, por instantes ilude-se que muda, que melhora, que rompe. Apenas para descobrir que o sabor é o mesmo e igualzinha a disenteria resultante.
Porém, garantem-lhe, se não é assim, é o caos, o Fim-do-Mundo.
Pois eu acho que, para ser assim, então vale mais a lotaria, o totoloto, o Luso-milhões! Puta que pariu o sufrágio universal, fraude ignóbil, e viva o Sorteio Universal! Ao menos, sempre ocasiona alguma expectativa acerca do resultado da extracção; por um inescrutável capricho da sorte até pode calhar alguém com nível, com inteligência – coisa que no sufrágio actual é impossível: já todos sabemos –já estamos mesmo calejados de saber - que, saia o que sair, não sai da cepa torta. Não altera nem contende com a substância.
Actualmente, o povo vai –aquele que vai, cada vez menos -, para o sufrágio com a resignação e o ricto próprios dum funeral: desconfia mesmo que não é por acaso que chamam urna ao vasadouro da sua murcha e irrisória soberania. Dir-se-ia que em vez de ir rezar missa pela ressurreição dos seus sonhos, vai antes depor na sepultura mais um quadriénio de esperanças. Suspeita que tão irrelevante e inócuo como o seu voto só há uma coisa: o resultado dele. Ora, adoptasse-se a modalidade de Sorteio e era ver a alegria, a animação e o entusiasmo que não precederiam a extracção!... Uma festa generalizada, meus amigos! Quais sondagens, contagens, lavagens, fraudes e todas esses mistifórios inerentes a processos eleitorais; em coisa de minutos resolvia-se o assunto e com uma isenção e limpeza imaculados. Já não falando nas probabilidades, à partida, rigorosamente iguais para todos os concorrentes, sem batotas nem falcatruas - no caso do Primeiro magistrado da nação, mesmo sem matilhas, bandos, récuas nem nenhumas dessas revoadas tão aviltantes do acto.
Agora, imaginando que na rifa saía um traste, um grandessíssimo traste. Obstar-me-ão: Não será isso, dada a elevada percentagem dos ditos cujos na população, um risco demasiado alto que, bem vistas as coisas, desaconselha o método?
É um facto que, em termos de densidade de filhos da puta por metro quadrado, o nosso país compete com as grandes potências do sector. Nessa contingência, a lei das probabilidades não perdoa e aponta, naturalmente, em caso de sorteio puro, para uma maior possibilidade de ocorrência dessas prendas.
Não obstante, um risco, por mais elevado que seja, nunca é tão mau e desolador quanto uma certeza absoluta, uma rotina que já bebe das leis inexoráveis da mecânica celeste. Através do sorteio, ainda haveriam algumas hipóteses, se bem que remotas, de nos sair na rifa alguém de jeito. Enquanto, por intermédio de sufrágio, como a experimentação exaustiva já nos ensinou, não restam nenhumas.
Sempre é preferível uma escolha aleatória, que uma escolha alienada. E, francamente, antes apostar na extracção da lotaria, que em políticos de baixa extracção.

quarta-feira, julho 12, 2006

Da Neo-Pornografia, ou a Neo-Gina para neoconinhas e outros atlanticonas cá do burgo



Um tanque israelita supervisiona, atentamente, a travessia da rua por uma perigosa (e sabe-se lá capaz de que actos tresloucados de terrorismo, genocídio bárbaro e voodu islamofassista) velhinha palestiniana. É assim mesmo, rapazes: há que trazê-las sempre debaixo de olho! Quer dizer, de mira.

Big-noose is watching us! And her, by the way.

E não se vê, o que é pena, mas atrás dela segue já o buldózer para lhe vasculhar o domicílio.

Não foi em vão que «Lamec disse às suas mulheres: "Ada e Cila, escutai a minha voz; mulheres de Lamec, ouvi a minha palavra: Matei um homem porque me feriu, e um rapaz porque me pisou. Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec sê-lo-á setenta vezes sete."» (Genesis 4, 23-24)

Imaginem agora os mirianetos do Lamec!...
É uma gente violenta, mega-rancorosa, desapiedada, esta, a dos descendentes de Caim.

domingo, julho 09, 2006

Apologia e difamação - Breve anatomia comparativa

Vivemos numa Nave de Loucos, num "Mundo às Avessas". E a blogosfera não escapa à regra. Se bem que muito nenufarmente, também participa da atmosfera. Pois bem, de modo a obviar a certos mal entendidos sempre desaconselháveis aos nossos leitores, bem como outros berbicachos contraproducentes, aqui fica um esclarecimento totalmente gratuito:

Isto, caros senhores, é difamação (difamação com todas as letras!):
« Dragoscópio é pura e simplesmente o melhor blogue português.»
«O Dragão é genial!»
«Quando disse que o Dragoscópio era o melhor blogue português não o fiz por questão de "amizade virtual".»
«O dragão é (a par do desfazedor de rebanhos) o melhor blogue português».


E isto é apologia (apologia da mais purinha!):
«Para o Vasco Graça Moura ainda há memória, mas para si Dragão, nunca haverá. Aquilo que escreve é tão mau, tão redutor, tão imbecil e vulgar, que acho espantoso como é tem espaço GLQL. Com a Eremitocracia, você pratica a Estúpidocracia, com ares de Grande Educador de não sei o quê. Já esperimentou lavar a cara? Um bom banho ajuda muito.»
«A Zazie á uns tempos atrás recomendou-me a leitura de um post do Dragão, no "Dragoscópio", e eu com fui ver o blog, ler o post e óbviamente avaliar o blogger. Fiquei horrorizado.»
«Para terminar e como é óbvio,respeito a 100% a sua opinião, mas francamente e para além de tudo o que escrevi sobre o Dragão, ele até na componente estética é um desastre absoluto.»


Agora, o leitor - algo confuso, admitamos-, perguntar-mo-á: "Gaita, Dragão, mas como é que sabemos, de ciência certa, num mundo tão destrambelhado como este, que se trata de apologia ou de difamação?

E eu, sempre prestável, como é meu timbre e apanágio da minha família desde Vlad, o Empalador, responderei:
- É simples, caro leitor amigo (ou inimigo, tanto faz): o que define a coisa, já diagnosticava Aristóteles, é, entre outros mistérios que seria agora fastidioso elencar (e aumentaria consideravelmente o número de saloios hostis), a origem da mesma. Transposto para o vertente caso, resulta no seguinte: quando pessoas inteligentes, racionais, minimamente lidas e viajadas, se bem que dadas à fantasia, aos cogumelos alucinogéneos e à auto-mistificação, como são a minha cara Zazie e o estimado Timshel, desatam nestas categorizações, não tenhamos dúvidas - é de todo evidente o intuito menoscabante, depreciador, liliputosfórico. Afirmar que eu sou o "melhor blogue português" -ou mesmo, por absurdo, jurar a pés juntos que eu sou o "melhor blogue do planeta" - quando sabem perfeitamente, os sacanas, que eu sou "o melhor blogue da galáxia e arredores", é, no mínimo, achincalhante. De resto (e eles sabem-no bem) por uma questão de princípio, tradição e coerência, o facto de ser, de facto e sem espinhas, "o melhor blogue do Universo" obriga necessariamente a que seja o "pior blogue de Portugal". Por conseguinte, estou a pensar seriamente em processá-los e argui-los por danos irreparáveis -e contumazes! - à minha péssima reputação (apesar de, em absoluto, e passada a fronteira e as camadas mais baixas da estratosfera, ela ser sublime).
Já quando um auto-denominado Sniper -a quem, por caridade e gratidão, poupo adjectivos, mas que presumo tratar-se dum frango-atirador furtivo-, desembesta a ungir-me de injúrias, pedradas virtuais e outras ventosidades estrepitosas, cada qual mais perfunctória que a anterior, isso só pode ser, com toda a certeza, o maior panegírico, o mais gratificante encómio e o mais glorioso lustro de que há memória, pelo menos no último mês (o que, convenhamos, para um roedor de notícias, blogues e jornais destes, deve equivaler a uma verdadeira eternidade).
Dispenso-me de explicar aqui, com superabundância e consequente desperdício de detalhes, porque é que se trata, ao contrário do que parece, de magniloquente apologia. Mas decerto os estimados leitores -pessoas argutas, quando não verdadeiros poços de sapiência e cultura - já perceberam.
Concluo, de resto, com uma parábola: se um ceguinho vem vilipendiar a pintura, decerto não estais à espera que eu bata no ceguinho.
Por princípio e voto de cavalaria, aliás, não bato nem em mulheres, nem em aleijadinhos. Ora, o ceguinho é só uma espécie de aleijadinho oftálmico. Se bem que neste caso, e para me inibir ainda mais, acumule com uma visível corcunda mental.
Mas, porra, ao menos para efeitos cosmopolitas, sempre se podiam disfarçar um pouco melhor, estes fulanos!...

quinta-feira, julho 06, 2006

Os Avatares do Escritor

Vasco Graça Moura, o escritor - não confundir com o político (são e não são -neste caso, não - a mesma pessoa)-, escreve um certo número de verdades eloquentes no DN de ontem. São evidências mais que óbvias, que resplandecem, que bradam aos céus, que se têm vindo paulatinamente a acumular e a fermentar numa espécie de monturo regimental, mas que, todavia, não parecem perturbar seriamente ninguém. Mesmo o escritor Graça Moura, do alto da sua condolência retórica, é só às quartas-feiras que padece destas inquietações. No remanescente calendário, sobretudo quando o partido de que é luminária excelentíssima pasta no erário público, o escritor Graça Moura cede diligentemente o púlpito ao deputado Graça Moura, ao Comendador Graça Moura, ao Comissário Político Graça Moura, em suma: a toda uma vasta catrefa de avatares vorazes, todos eles demasiado catrafilados aos úberes do Orçamento para terem tempo a esbanjar com tão improfícuas lana-caprinices. Na verdade, mal a maré muda, o vate pio desce exausto do púlpito e adeja a refocilar, com volúpia, no bordel. Ora, a maré, abençoadinha, Deus lha guarde por muitos e bons anos, tem mudado sistematicamente, com regularidade providencial e cadência de alterne. Não espanta pois que, em perfeita sincronia, logo que a ressaca cede lugar à cornucópia, o campeão das virtudes se outorgue indulgências sabáticas e corra a retemperar-se, jubiloso, entre as rameiras.
Mas como agora estamos num daqueles interstícios severos por onde o fariseu, ocasionalmente, espreita e salmodia, não duvidemos: é o escritor. Quiçá mortificado ou descompensado por alguma síndrome de privação, dá gosto vê-lo a verberar contra o petisco, a denegrir no refogado, a escarnecer do pitéu. Quando não está ocupada com a mama, foge-lhe a boca para a verdade. Não obstante, nos trinta anos em que andaram a confeccioná-la, à monumental mixórdia, a maior parte do tempo, ele, o mija-versos, o besunta-formas, passou-o nas cozinhas. Desde o PREC que lá anda: ora de roda do Chef, a acolitar ao forno, ora de faxina ao lava-loiça, a resmungar e a branquear os tachos.
De secretário de Estado no lendário Gonçalvismo do IV Governo Provisório a Comissário Político no não menos épico Cavaquistão, foi vê-lo sempre a aviar-se, numa azáfama de videirinho a reboque duma pança insaciável de comensal.
Responsabilidades? Vão pedi-las ao Camões!... Porque neste país, responsabilidade, vergonha, memória, tal qual como o reconhecimento, são geralmente a título póstumo.

domingo, julho 02, 2006

Favores, Factores e Feudalismos (part. II)

Gostaria de escrever mais amiúde neste blogue, mas a gleba não mo tem permitido. Aproveitando uma nesga na labuta, retorno à vaca fria, no ponto exacto onde a deixei, e que, por falar nisso, já não me lembro muito bem qual era.
Bem, que se lixe! Imaginem, então, Vosselências, que vivíamos numa monarquia. Cruzes, credo, compadres! Por uma vez, sem exemplo, abençoada seja a república. Mesmo de bananas, louve-se! Não fosse ela, e em vez de “adjunta do Ministro”, tínhamos que tratar a lambisgóia “despachada” por “princesa” – a princesa Vera Ritta.
Assim, ao menos, na sua mordomodiceia acidentada, de “filha do presidente” já resvalou para “adjunta do Ministro da presidência”. Com um bocado de sorte, a este ritmo apesar de tudo animador, daqui a oito ou nove gerações, pode ser que a medonha descendência já participe em concursos públicos, nem que seja por mera fachada.
Quanto ao critério inefável do Ministro Silva Pereira, permitam-me alguns alvitres - apesar de, à primeira vista, um só se avantajar bastante: pediu uma lista de candidatos sorteados aleatoriamente nas páginas amarelas e ao ver uma Ritta com dois “tês” – portanto uma Rita TT ou T2, ainda por cima recheada de um “de”*, não hesitou, requisitou tão cintilante inteligência para adjuntar à sua.
Ou então reparou argutamente que, além de TT, era BdS, ou seja, Branco de Sampaio e, como é típico dos crânios sofisticados, com desembaraço fulminante, vislumbrou uma série de potencialidades e mais valias que –a nós, vulgares mortais e servos - nem nos passam pela cabeça.
Claro que nisto, como em tudo, há sempre a questão da raça, do pedigree, da eugenia, enfim, da fidalguia. O ministro com certeza que, em precisando dum cão, não vai resgatar um rafeiro ao canil municipal, por mais habilidoso e diplomado em artes circenses ou marciais que lho apregoem ou ajuramentem. Da mesma forma, se precisar dum automóvel, dum telemóvel ou duma amante – e decerto precisa, como de pão para a boca -, não vai apetrechar-se dum chaço em segunda mão, duma raquete que nem fotografias tira, ou, Deus o livre e guarde, duma Katia qualquer alternadeira cuja mãe vendia peixe na praça e cujo pai permanece incógnito, quando não se sorteia, pelas más línguas do bairro, entre um proxeneta, um polícia, um taxista e um limpa-chaminés marrequinho. Ninguém lhe perdoaria, sabemo-lo bem. A começar nos eleitores das classes mais baixas, devoradoras de telenovela e revistas cor-de-rosa, que, nestas tranquibérnias, são de um snobismo feroz e prefeririam mil vezes partir uma perna em vários sítios a ver os pergaminhos alheios ao nível das próprias patas – excepção feita e ressalvada a uma Katia com dois “tês” (uma T2, portanto) cujo progenitor, após grandes peripécias e dramas, se viesse a revelar, nem mais nem menos, como sendo o Conde do Cadaval, o padre Melícias ou o primo legítimo do Pacheco Pereira. Ora, se para escolher cão, veículo ou concubina já é este sarilho todo, todas estas burocracias e protocolos, fará agora uma “adjunta de gabinete”.
Naturalmente, há que respeitar padrões, que burilar paradigmas. Um Ministro, como acabo de demonstrar, não vai decerto adjuntar-se com uma qualquer. É um representante do povo e o povo, se puder, também deita a fateixa e despeja a espermatália numa baronesa, numa viscondessa ou, superlativo enlevo, numa princesa boiarda. Maior gulodice não se lhe reconhece. Vai daí, em nada nos pode surpreender que o “ministro” se tenha adjuntado com a “filha de um ex-presidente da República”. Não é grande coisa, todos sabemos, (principalmente se levarmos em conta o ex-presidente em questão) mas sempre é melhor que nada. Aliás, pela ordem actual das coisas, segundo a hierarquia de importâncias, acreditamos que tenha tentado a “filha de um ex-presidente da Federação Nacional de Futebol”, mas, pelos vistos, não havia nenhuma disponível. Já se se tratasse do primeiro Ministro, o mínimo aceitável – aquele que o protocolo reclamaria - seria a “filha de um ex-presidente de um clube de futebol” (dos três grandes, logicamente). E no caso do próprio presidente da República sentir vontade duma “adjunta”, não vejo outro nível adequado senão a “filha de um presidente do Benfica”. Afinal, sempre estamos a falar do mais alto magistério da nação.

*Nota : Eu, sem querer estar a gabar-me (até porque cago nisso de mui elevado altor), também tenho um “De”. No meu caso sou um “de Aragão e Tal”. Mas como verdadeiro e antigo aristocrata, que já o meu enesimavô cavalgava com D.Afonso Henriques, não sou dado a peneiras nem Pacheco-pereirices. Por conseguinte, e por facilidade de trato, a malta –capitaneada pelo Caguinchas, esse amotinado profissional - começou a tratar-me por D’aragão e, finalmente, por força da elisão do “a” (que claramente lhes ofendia o palato e complicava com as dentuças), resultou no D’ragão por que todos me tratam e, a maior parte das vezes, destratam, a pretexto do meu anti-benfiquismo vociferante.
Dissipado este inefável mistério, desejo-vos um bom resto de fim-de semana (luxo a que não tenho direito, por via desta gleba que, vitalícia e ininterruptamente, me reclama e atormenta).

sexta-feira, junho 30, 2006

Senhora Dragão dixit

A minha distinta esposa proferiu-me o seguinte:
«Tu bates à esquerda e à direita, esmurras a torto e a direito! Mentaliza-te: não és simpático. Admira-me sinceramente como é que ainda alguém te lê!...
Digo-te mais: como queres que te entendam? Eu que sou uma mísera “dona-de-casa”, esse cúmulo da ignomínia do nosso tempo, tenho mais cultura que a maior parte dessa gente. E, pior que isso, havias de constatar se fosses à Europa: o nível cultural ainda é mais baixo! Eu, que andei por França, o melhor que lá encontrei foi uma alemã que me notificou do seguinte: “quem escolhe pensar tem um caminho solitário pela frente. Às vezes dói. Aguenta Maria!...”
A tua sociedade, as tuas conversas são com gajos que já morreram. O presente é a única dimensão do tempo que não conseguimos usufruir. É um emaranhado de instantes de que ninguém se dá conta sequer que existe. As nossas amélias sociais são cretinos que não entendem nada, fora a flatulência instantânea e efervescente dos jornais. Comentam e opinam sobre factos desgarrados de cujo sentido nem suspeitam. Que interessa o Pacheco Pereira assoberbado com dois ou três computadores a desovar, em directo e em frenesim, patranhas sobre tudo e um traque celeste. Interessante, mesmo, de facto, é saber porque raio existem Pachecos Pereiras, actuais, potenciais e virtuais. Não são agentes, são produtos, esses servos do momento.
Ao contrário de tudo isso, um pensador está à margem, como alguém que olha para um rio a passar »

Foi exactamente isto que ela me disse. Juro. O toque literário é meu, mas as ideias são exactamente as dela. Além de bonita, é inteligente. Há tipos com sorte. Na verdade, como profetizaram os antigos, “a dita protege os audazes”.
Ora, como a mim audácia não me falta...

quarta-feira, junho 28, 2006

Favores, factores e feudalismos (part I)

Segundo o Despacho Nº 13 299/2006 (2ª Série) do Diário da República, (acabo de saber pelo caro José da Grande Loja, que soube, afirma ele, pelo "Público"), a licenciada Vera Ritta Branco de Sampaio foi nomeada para o esotérico cargo de "adjunta do Gabinete Dele", do Ministro da Presidência, um tal de Manuel Pedro Cunha da Silva Pereira.
Poderá haver quem se interrogue sobre os critérios para uma tal escolha, selecção, nomeação, compadrio, ou lá o que seja. Esse, aproveito desde já para esclarecer, não é o meu caso. Ainda me chamavam invejoso, populista ou anti-semita. Não senhor, para mim não tem espinhas: o gabinete é dele e ele, o tal Silva Pereira da Cunha, mete lá quem muito bem entende, lhe apraz, ou lhe mandam. Se o Gabinete fosse meu, eu fazia o mesmo: metia lá quem muito bem me apetecesse. O critério dele não sei qual foi (posso tentar adivinhar mais daqui a nada); já o meu seria límpido e cristalino. Quem me conhece sabe que não sou de arranjinhos, culinárias e, ainda menos, seitas, partidos ou capelinhas. Consigo até antecipar, para o efeito, o teor do meu preclaro, douto e, sobretudo, independente despacho em Diário da República: "Nos termos do blá-blá-blá frito-e-cozido, nomeio para exercer as funções de adjunta para o Fellatio e Massagens no Meu Gabinete, a Sónia Vanessa e a prima dela, que não me recorda agora o nome, mas tem um par de mamas deveras inspirador, amigo do ambiente e é boa rapariga."
Era um critério sexista e imoral, o meu critério? E vós sois uns sonsos beatolas do caralho, uns elitistas da merda! (Nada, enfim, que me espante, mas que a vós, ó escumalha perita em armar ao pingarelho, sempre vos devia envergonhar). A Sónia Vanessa e a prima dela, excelente moçoila, achariam um critério excelente. Os respectivos familiares e amigos, idem aspas. E eu, escusado será reforçar, considerá-lo-ia um critério soberano, inatacável, transparente. As pessoas na rua -o tal povo que é suposto ser o soberano desta república, lembram-se?- ao vê-la passar, à Sónia Vanessa, com aquele corpinho donairoso que Deus lhe deu, murmurariam, entre maravilhadas e divertidas: "Lá vai a Sónia Vanessa, a adjunta do Ministro Dragão!..."
-"E faz o quê, a adjunta?" -inquiriria, por certo e apenas algum estrangeiro ou inopinado nefelibata.
-"Faz broches e massagens ao ministro, ora essa!" - Rir-se-iam todos com a candura do alienígena.
Episódio mais edificante que este não me ocorre de momento e duvido que exista. Já a Vera Ritta faz exactamente o quê? O povo, o tal que em tese é putativamente soberano mas na prática não passa de bobo vitalício, suspeita seriamente que nada, além de abichar os tais 2.800 euros ilíquidos, fora as mordomias, subsídios e ajudas de custo. Podem comê-lo por tanso, mas não é completamente tapado. Aliás, esse mesmo povo, no qual me incluo, nem sabe que raio de figura tem a bendita licenciada. Se herdou a inteligência do papá e a beleza da mamã, uma coisa posso já garantir: no Meu Gabinete não punha ela os pés, nem em mim as mãos ou sequer a boquinha. Desconfio dum coirão absolutamente áspero, deprimente e imprestável, mais digno de estar a espantalhar a passarada numa seara (ou a triturar papel numa repartição) que a combater o natural stress e o profissional tédio dum competente ministro. Posso estar enganado e que Deus me perdoe se assim é. Mas há aí alguém disposto a pôr as mãos no fogo pela estética da menina?
O Diário da República que passe a fazer acompanhar as nomeações de fotografia de corpo inteiro, em vestido de noite e bikini -como, aliás, seria da mais elementar curialidade - e eu já não me ponho com estas conjecturas e grungrunlóquios. Todos eles absolutamente legítimos e pertinentes, diga-se de passagem.

Agora vou ali armar uns canteiros, pôr canas nuns feijões, regar batatas e, mais lá para o fim da tarde, se estiver para aí virado, voltarei a este assunto. Assim Deus e a gleba o permitam.

sexta-feira, junho 23, 2006

Bilderberg 2006

A reunião dos Bilderbergues deste ano decorreu em Otava. Não estou a dar novidade nenhuma, penso eu.
Novidades, não sei até que ponto fantasiosas, sobre o decurso de tão misteriosos trabalhos, encontramo-las aqui, na Americanfreepress.
Muito interessante também, segundo a mesma fonte, a lista de vampiros participantes no Sabath deste ano.
Se vos derdes à chateza de conferir o extenso rol, constatareis que, em representação dos chupa-cabras nacionais, compareceram o já tradicional Pinto Balsemão - uma espécie de figurante vitalício, que desde os tempos da sucessão "pacífica" ao então assassinado primeiro-ministro Sá Carneiro, tem direito a rebuçado honorário; e um surpreendente José Pedro Aguiar-Branco. Lembram-se dele? Esse mesmo: O grande amigalhaço e ministro da Justiça de Santana Lopes que, subitamente, se me é permitido recapitular, teve um acesso bizarro, esfaqueou pelas costas o menino-guerreiro e deu com o governo de pantanas. O que na época, deveras madura e propícia, permitiu a ascensão do actual José Sócrates ao leme dos negócios da nação, montado numa providencial maioria absoluta. Sócrates, também ele, um "bilderberguer" (2004), é preciso não esquecer.
Vós, meus caros leitores, se bem vos conheço, a esta hora já estais decerto a fazer uso das vossas portentosas faculdades lógico-dedutivas e a alcançar, ao volante delas, numa velocidade vertiginosa, conclusões mais que óbvias.
Afinal, bem vistas as coisas, não é nada surpreendente, pois não?...

Termino com um palpite mascarado de questão: este rapaz Aguiar-Branco vai ser o sucessor do Ganda Nóia e, por inerência, um presumível futuro-primeiro-ministro de Portugal?...
Muita atenção aos próximos episódios.

quinta-feira, junho 22, 2006

Timoratices e timoralidades

A crise de Timor, na perspectiva de John Pilger, um australiano com obrigação de perceber alguma coisa do assunto:
«John Howard is said to be pleased with his title of George W Bush's "deputy sheriff" in the South Pacific. He recently sent troops to a rebellion in the Solomon Islands, and imperial opportunities beckon in Papua New Guinea, Vanuatu, and other small island nations. The sheriff will approve.»

Continuo a não entender porque é que nosso colonialismo era péssimo e o neo-colonialismo é óptimo. Quer dizer, se forem portugueses a roubar, que são poucos, negligentes, e, por isso mesmo, não sacam muito, é hediondo, uma blasfémia contra os "ventos da História". Já se forem os anglófonos, que são mais que as mães e espoliam obsessiva e compulsivamente, até ao tutano, é perfeitamente natural, altamente lógico, extraordinariamente compreensível, completamente liberal, imaculadamente democrático e abençoado por Deus, Iahvé, senão mesmo pelo professor Karamba em pessoa.
Grande mistério!...
Moral da história:
Há quem não foda nem saia de cima. Não é o caso dos portugueses progressistas e beneméritos que o torrão pátrio viu vicejar nestes últimos trinta anos: amavelmente, sairam de cima para os outros montarem.

segunda-feira, junho 19, 2006

A América em 1873, pelos olhos de Eça de Queirós



«V.poderia querer que eu lhe falasse de Nova iorque e dos Americanos. Mas esta carta vai longa e quem sabe o que o correio francês -esse pirata - lhe fará pagar por ela!
De Nova Iorque, dir-lhe-ei que é realmente a Nova Iorque da tradição europeia: - a grande, a extraordinária, a estrondosa Nova Iorque. Na América não se tem contudo esse amor de Nova Iorque, porque há na União cidades rivais. Filadélfia é Nova Iorque sem o deboche. Filadélfia é uma cidade muito moral - dizem aqui os Quakers. Os outros dizem que é simplesmente um alcouce. St. Louis, é outra cidade que não difere de Nova Iorque senão em ser mais bela na paisagem. Chicago, é a todos os respeitos melhor que Nova Iorque - e é sem dúvida a mais extraordinária cidade do Mundo: na carta que lhe escrevi - e que V. não recebeu - eu dava-lhe pormenores curiosos sobre Chicago, que é a cidade-resumo do génio evolutivo das populações do Oeste. Nova Iorque tem, mais do que as outras, o elemento europeu, manifestado por estes factos - lorettes, restaurantes, crevês, escândalos, agiotagem -: é o que a faz superior. De resto é uma cidade que em parte amo e em parte detesto. Amo-a, porque... porque sim - e detesto-a, porque deve ser detestada. O que isto é, V. não imagina: a violenta confusão desta cidade, o extraordinário deboche, o horror dos crimes, a desordem moral, a confusão das religiões, o luxo desordenado, a agiotagem febril, a demência dos negócios, os refinamentos do conforto material, os roubos, as ruínas, as paixões, os egoísmos - tudo isto está aqui chauffé ao rouge. Isto não pode durar, todo o mundo o diz.
É uma cidade que tem cem anos e que está podre: está detraquée. Viveu muito, muito depressa - e chegou sem educação. Porque a verdade é esta: Nova Iorque não tem civilização. A civilização não é ter uma máquina para tudo - e um milhão para cada coisa: a civilização é um sentimento, não é uma construção. Há mais civilização num beco de Paris, do que em toda a vasta Nova Iorque. Aqui não há gosto, nem espírito, nem distinção, nem crítica, nem classificação - nada; uma sociedade podre de rica, afogada em luxo, exagerando as modas, inventando muitas - e querendo enriquecer mais e ter mais luxo ainda. Você deve ter lido o que se tem passado aqui com o Crédit Mobilier e com outras poderosas associações bancárias ligadas ao sistema de administração: tem-se apenas descoberto - que os homens públicos, de alto a baixo, são um rolo de ladrões. Ladrões por toda a parte, eis a crítica da administração. Ladrões por toda a parte, eis a crítica do comércio. Ladrões por toda a parte, eis a crítica das ruas. Ladrões! Nova Iorque transborda de ladrões: veste-os, exporta-os, vende-os - e quantos mais enforca, mais lhe nascem. Se Você sai do seu hotel e encara alguma das grandes ruas de Nova Iorque, fica aterrado: aquela agitação, estrondo, ruído, febre, rostos consumidos e secos, toilettes únicas, carruagens nos passeios, ónibus aos lados, caminhos de ferro por cavalos no centro da rua, caminhos de ferro à máquina por cima das ruas, junto aos tectos das casas, o aparato imenso da polícia, a excentricidade dos anúncios, o rumor apressado de todo omundo... Compreende logo que está entre um povo bárbaro, que aprendeu a civilização de cor. Mas bárbaro como é - que força, que originalidade inventiva, que perseverança, que firmeza! - É estranho! E ao mesmo tempo que grossaria de maneiras: revólver, praga e empurrão, algumas palavras de inglês e muita saliva - eis o que é a língua americana. Como eu detesto esta canalha! Como a mais pequena aldeia de França é superior, imensamente superior pela sua civilização a esta orgulhosa Nova Iorque, que se chama a si mesma, como Roma - A Cidade. Estúpida Nova Iorque - que fez ela jamais para se chamar A Cidade? Paris fez a Revolução, Londres deu Shakespeare, Viena deu Mozart, Berlim deu Kant, Lisboa... deu-nos a nós - que diabo! Mas esta estúpida Nova Iorque, o que tem dado? Nem mesmo as grandes invenções da América são dela. Aqui quem inventa, quem inventa por todos, quem inventa sempre, é Chicago. Chicago, sim, tem dotado o Mundo com as três quartas partes das máquinas que ele possui. Mas Nova Iorque? Nunca siu nada de Nova Iorque - nem um homem, nem uma ideia, nem um livro, nem uma máquina, nem uma vitória, nem um quadro, nem um dito. Nova Iorque é um tour-de-force da brutalidade - nada mais. E no entanto, meu amigo, que diabo! - é necessário amá-la. Com as suas grandes avenidas, tão cobertas de árvores e de sombras como um bosque, com a beleza extrema das suas mulheres, com as suas grandes praças onde a relva é por si só um espectáculo, com as suas igrejas góticas, todas cobertas de trepadeiras e mal aparecendo por detrás da folhagem das árvores (jóias de arquitectura contemporânea), Nova Iorque, com o seu sumptuoso ruído, com o romantismo dos seus crimes por amor, com os seus parques extraordinários que encerram arbustos e tanques - com a sua originalidade, com a sua caridade aparatosa com as suas ecolas simplesmente inimitáveis, os seus costumes, os seus teatros (aos quatro em cada rua), é uma tão vasta nota no ruído que a humanidade faz sobre o globo - que fica para sempre no ouvido! Eu estou aqui a escrever-lhe - e está-me a lembrar com saudade o rolar dos tramways nas ruas. - Querida Nova Iorque! - Não, odiada Nova Iorque!»

Monreal, 20 de Julho de 1873

- Eça de Queirós - Carta a Ramalho Ortigão - in "Correspondência, 1ºVolume"

Reconheçam: Há coisas que só mesmo no Dragoscópio.

domingo, junho 18, 2006

The horror...

«Bush garante a iraquianos que não os abandonará.»

Ouvir uma tal garantia da boca do carrasco, convenhamos, é tudo menos animador para as vítimas.

sexta-feira, junho 16, 2006

Em breve um Novo Eixo, num cinema perto de si...

Mais um artigo a não perder de William Engdahl, um especialista em geopolítica "energética", no meu modesto entender, dos mais bem informados.

«US outflanked in Eurasia energy politics».

Aperitivos:

«Late last month Russia and Algeria, the two largest gas suppliers to Europe, agreed to increase energy cooperation. Algeria has given Russian companies exclusive access to Algerian oil and gas fields, and Gazprom and Sonatrach will cooperate in delivery to France. Putin has canceled Algeria's US$4.7 billion debt to Russia and, for its part, Algeria will buy $7.5 billion worth of Russian advanced jet fighters, air defense systems and other weapons. »

«On May 26 Russian Defense Minister Sergei Ivanov also announced that his country would definitely supply Iran with sophisticated Tor-M1 anti-aircraft missiles, reportedly as a prelude to supplying even more sophisticated weapons. »

«Then, in one of the more fascinating examples of geopolitical chutzpah, the Kremlin-controlled Gazprom gas monopoly entered quiet negotiations with Israeli Prime Minister Ehud Olmert through his billionaire friend, Benny Steinmetz, to secure Russian natural-gas supplies to Israel via an undersea pipeline from Turkey to Israel. »

Entretanto, registem-se as fascinantes declarações de um dos mais proeminentes e influentes neo-conas das américas:
«Kagan declared, in reference to Russia and China, "Until now the liberal West's strategy has been to try to integrate these two powers into the international liberal order, to tame them and make them safe for liberalism. If, instead, China and Russia are going to be sturdy pillars of autocracy over the coming decades, enduring and perhaps even prospering, then they cannot be expected to embrace the West's vision of humanity's inexorable evolution toward democracy and the end of autocratic rule." Kagan charged that China and Russia have emerged as the protectors of "an informal league of dictators" that, according to Kagan, currently includes the leaders of Belarus, Uzbekistan, Myanmar, Zimbabwe, Sudan, Venezuela, Iran and Angola, among others around the world, who, like the leaders of Russia and China themselves, resist any efforts by the West to interfere in their domestic affairs, either through sanctions or other means. "The question is what the United States and Europe decide to do in response," wrote Kagan. »

Ou eu me engano muito, ou a Al-Qaeda está a passar de moda. Andaram a brincar ao "vem aí o lobo" e agora, depois de tantos falsos alarmes, vem lobo, vem urso, vem um bestiário completo. Aliás, minto: vem o urso e as outras bestas, porque o lobo já cá estava. É precisamente aquele que se entretem a acagaçar-nos com o "vem aí lobo"!...

quinta-feira, junho 15, 2006

Como "Eles" treinaram a Al-Qaeda

«If Western intervention in Afghanistan created the Mujahideen, Western intervention in Bosnia appears to have globalised it.»

Fazem a festa, deitam os foguetes e depois, na menos sinistra das hipóteses, andam à rasca, numa lufa-lufa, a tentar apagar os incêndios que as canas causam quando caem mais à frente.
Além de corrermos o risco de estarmos entregues à maior corja de filhos da puta que a humanidade já viu, ameaça-nos o perigo acrescentado de serem também os mais trapalhões, cepos e acéfalos.

Quando o essencial coincide com o sublime, ou The Great Clown Show on Earth

O US Government Accountability Office (GAO), espécie de Tribunal de Contas lá do sítio, sendo que o sítio é o mais recente paraíso terreal da Toinolândia, verificou - sem grande perplexidade, presumo -, que mais de 1.000 milhões de dólares (793,5 milhões de euros) de ajudas federais às vítimas dos furacões Katrina e Rita no sul dos Estados Unidos (2005), foram fraudulentamente desviados para outros fins. Só para fazermos uma pequena ideia, fins, esses, tão nobres e essenciais como «bilhetes da liga de futebol norte-americana, férias nos trópicos, vídeos pornográficos, champanhe, noitadas em clubes de stripe-tease», massagens ($400) , tatuagens ($450), anéis de noivado ($1.100) , além de outros mimos monásticos como estadias em condóminos junto à praia, em Panama City(a $375/dia) ou apartamentos em New York (a $438/dia).

Sinceramente, não entendo o aparente escândalo de tudo isto. Então os fundos não eram destinadas a necessidades essenciais das pessoas, pessoas essas, ainda por cima, em grandes apuros e sobressaltos? Num país do terceiro mundo, de pretos, monhés, hispânicos ou coisas assim, está bem que as necessidades essenciais sejam comida, bebida, abrigo e vestuário. Mas no Paraíso terreal, no paradigma da organização e da democracia ao cimo do planeta, no farol galáctico de todas as liberdades mais uma, nada mais legítimo, lógico e justo que o emergency-service inclua férias nos trópicos, vídeos pornográficos, strip-tease, massagens, tatuagens e anéis de noivado, tudo isto, claro está, de preferência, servido em quartos luxuosos com acesso directo à praia. Afinal, as pessoas precisam de convalescer do horror porque passaram, ou acabaram de presenciar na televisão. Não raramente, quem assiste de longe, sem poder fazer nada, ainda sofre mais. Além disso, convém nunca esquecer, estamos a falar do país mais rico, poderoso, sofisticado e organizado do mundo. Mesmo numa república de bananas como Portugal, ninguém admitiria ser evacuado de qualquer calamidade se o kit de ajuda básico não incluísse telemóvel, TV cabo e playstation para as crianças. Fará agora naquela Perfeitopólis superlativa!...

O relatório completo do GAO pode ser lido aqui. Não percam. É de rir até às lágrimas.

Termino, fazendo completamente minhas as palavras sempre sábias, experientes e lapidares de H.L.Mencken:
«Na minha perspectiva, Os Estados Unidos são, incomparavelemente, o maior espectáculo do mundo. Um espectáculo que exclui todo o tipo de palhaçadas que rapidamente me entediam - o cerimonial monárquico, o malabarismo fastidioso da haute politique ou a atitude séria perante a política, por exemplo -, pondo antes o ênfase no tipo de situações que me divertem incessantemente: as discussões brejeiras dos demagogos, as deliciosas e engenhosas manigâncias dos mestres da pulhice, a perseguição a bruxas e hereges, as tentativas desesperadas dos homens inferiores para treparem até ao Céu. Temos entre nós, em constante actividade, bobos que se destacam dos de qualquer outro grande país, do mesmo modo que Jack Dempsey se destaca de um paralítico; não apenas vinte ou trinta, mas verdadeiras manadas deles. Aquilo que noutro país cristão qualquer está irremediavelmente votado a um tédio incurável - coisas que, pela sua natureza, parecem desprovidas de toda a piada -, é aqui elevado a um patamar de bufonaria que nos faz rir a bandeiras despregadas.»

quarta-feira, junho 14, 2006

Tiranossócius Rex?...



U.S. Financial Aid To Israel: Figures, Facts, and Impact

«Benefits to Israel of U.S. AidSince 1949 (As of November 1, 1997):

Foreign Aid Grants and Loans - $74,157,600,000
Other U.S. Aid (12.2% of Foreign Aid) - $9,047,227,200
Interest to Israel from Advanced Payments - $1,650,000,000
Grand Total$ - 84,854,827,200
Total Benefits per Israeli - $14,630

Cost to U.S. Taxpayers of U.S.Aid to Israel:

Grand Total - $84,854,827,200
Interest Costs Borne by U.S. - $49,936,680,000
Total Cost to U.S. Taxpayers - $134,791,507,200
Total Taxpayer Cost per Israeli - $23,240 »



Provavelmente, a América vê em Israel o seu cão de fila. E Israel vê na América o seu Golem. Amor com amor se paga.

terça-feira, junho 13, 2006

Uma motorização revolucionária made in Europe?...



MDI, the air car. Um automóvel a ar-comprimido. Se funciona com as armas, porque não heveria de funcionar com os carros?

Vale a pena visitar as FAQ...
O principal - o preço: MiniCAT custará à volta de 6 .860 Euros
CityCat " " " " 9 .460 Euros (sem Iva)

Faço votos dos melhores auspícios para tal maquineta. Sobretudo, espero que chateie e incomode o mais possível esse cancro planetário que são as Petrolíferas.

O Turismo ideológico (rep. com adenda)

Digo e repito:
Entendamo-nos. Eu não tenho nada contra a democracia liberal. Em Inglaterra.
Eu não tenho nada contra o Comunismo. Em Cuba.
Eu não tenho nada contra a Social Democracia. Na Escandinávia.
Eu não tenho nada contra o Neo-Liberalismo ou mesmo o Neo-Conismo. Nos Estados Unidos.
Eu não tenho nada contra a cleptocracia. Em Angola.
Eu não tenho nada contra a Teocracia. No Irão.
Eu não tenho nada contra a Tecnocracia. No Japão.
Aliás, nem contra, nem a favor.
Que fabriquem, que produzam, que se esfalfem, que exportem, que roubem, que massacrem, que procriem, que se comam uns aos outros ou às outras, pouco me interessa! Que o Diabo os leve ou Deus os transporte, quero lá saber!
Eu respeito os outros, respeito toda a gente. Eles é que vivem lá, eles que se entendam. Se descobriram naquela a maneira assaz peculiar de se organizarem (ou desorganizarem, tanto faz), pois que sejam felizes, ou infelizes, mas, em todo o caso, que lhes faça bom proveito. Não me custa crer que é assim que se sentem bem. Longe de mim querer impor-lhes os meus modelos ou conceitos. As minhas taras ou fantasias. Não tenho especial fascínio por turismo, muito menos ideológico.
O que não suporto é que eles, quaisquer que eles sejam - ou enviados, eunucos, lacaios, procuradores, clones e delegados deles – me queiram vir impingir a mim o que só lhes diz respeito a eles. Me queiram afogar na felicidade ou infelicidade deles. Me queiram converter às manias ou fobias deles. Me queiram, enfim, encurralar nos currais ou manjedouras deles. Porque não se mudam eles – esses heldéres ao domicílio – para lá, já que aquilo tanto os fascina e obceca? Porque não se transplantam eles para esses paraísos terreais, em vez de quererem, à viva força, de martelo ou compressor, com laivos de paranóia e fervor de birra, importar esses territórios inteiros para cá? Acham que num espaço tão pequeno, tão exíguo, cabem essas traquitanas, essas feéricas babilónias todas?
Eu sou português, caralho! Nasci e hei-de morrer nesse estado, que poderá ser deplorável a muitos títulos, a mil e mais um, mas é o meu. Se Deus me mandou ser português, se ordenou ao destino que aqui me plantasse, que não venha cabrão nenhum apregoar-me o contrário. E tudo o que não seja isso, essa raiz que mergulha aos abismos e essa fronte que se levanta aos céus, é o contrário, é a negação, é o aniquilamento disso.
Mas isto sou eu. Cago-me em ecos e séquitos, passo bem sem companhias.
Os outros, esses que se arrepelam e amarguram com a pequenez e a pobreza do seu próprio país (o que apenas reflecte a pobreza e a pequenez da ideia que fazem dele e de tudo), esses todos, se querem ser americanos, porque não vão ser americanos?
Se querem ser ingleses, porque não vão ser ingleses?
Se querem ser espanhóis, porque não vão ser espanhóis?
Se querem ser escandinavos, porque não vão ser escandinavos?
Se querem ser chineses, russos, suíços, austríacos, alemães, judeus, vaticoisos, albaneses, esquimós, marcianos, porque não vão sê-lo duma vez por todas e desatravancam a passagem?!
Por gentileza, não me dou ao requinte de mandá-los de volta para a c*** -digo, vagina- da santíssima mãe deles. Mas, francamente, fico sem perceber porque raio se deram ao trabalho de sair de lá.

Adenda: De resto, o mesmo poderei e deverei dizer acerca de regimes tão genuinamente portugueses como o nacional-socialismo, o fascismo, o falangismo e outras banhas da cobra congéneres. Sobretodos patético, carnavalesco - e verdadeira anedota para gáudio dos cínicos - é este "nacional-internacionalismo" que congrega as hostes.

Liberais? Social-Democratas? Comunistas? Fascistas? Nacionalistas? - Não me façam rir. Turistas!!

Travel junkies aos suspiros por uma disneylândia qualquer.

domingo, junho 11, 2006

No Lumiar da realidade


« Escola EB1 S. Gonçalo, no Lumiar, estará encerrada segunda-feira, por decisão dos professores, depois de uma professora ter sido agredida sexta-feira por um casal familiar de um aluno do estabelecimento».

Congratulemo-nos: começou a avaliação dos professores pelos pais dos alunos. Neste caso, a avaliação do kung-fu dos professores. Os resultados do exame-surpresa, porém, não podiam ser mais deploráveis. Pelos vistos, andam perros e destreinados, os docentes das nossas escolas. E é pena. O público sai defraudado. É suposto assistirmos a um combate, não a um massacre.

sexta-feira, junho 09, 2006

O Super Cowboy metido em comboios?...



Só nos faltava mais esta. Agora é um tal Leola McConnell, candidato Democrata Liberal ao cargo de Governador do Nevada, que acusa o nosso estimado George W. Bush do seguinte:
«In 1984 I watched George W. Bush enthusiastically and expertly perform a homosexual act on another man, one Victor Ashe.»

Longe de mim por-me para aqui com considerações morais acerca da vida íntima do presidente W. Tão pouco faço a mínima ideia se isto é verdade ou mera chicana política, tão ao gosto da palhaçada eleitoral americana.
Apenas registo e acho piada ao teor da descrição: a putativa performance gay do Global CowBoy - ao melhor estilo Brokeback Mountain-, desenrolava-se, segundo a presumível testemunha, com "entusiasmo" e "perícia". George entregava-se fogosamente ao passatempo. E com desemparaço eloquente.
O Leola, entretanto, não especifica mais detalhes: não esmiuça que modalidade congregava o entusiasmo e a perícia do W. Bush. Oral? Anal? Manual?
Apenas refere, logo de seguida, que «Other homo-erotic acts were also performed by then-private citizen George W. Bush. I know this because I performed one of them on him myself.»

A coisa, meus amigos, se isto é verdade, foi complexa. O cardápio, vasto. A ménage, pelo menos, a três. (Chamo a atenção para os dois anacolutos seguidos, de rajada; não é para todos...)
O cowboy, em resumo, deve ter andado em comboios!...

Doravante, quem disser mal do presidente W. Bush corre o sério risco de ser acusado de homofobia.
Por mim, tenciono não perder mais tempo com tão sofisticado personagem. De hoje em diante, prometo concentrar-me nas gémeas Bush. Asceticamente, bem entendido.

quinta-feira, junho 08, 2006

Mediatações

Ao lermos os jornais cá da terrinha, a impressão que fica é que são escritos por publicitários frustrados. São notáveis os esforços para nos impingirem qualquer coisa.

quarta-feira, junho 07, 2006

Meditações

Há duas coisas indignas do Homem: o Ódio e a Idolatria. Infelizmente, olhando à nossa volta, é só o que vemos. Sobretudo ódio a quem não partilha da nossa idolatria.

Freak-show

A política não é uma coisa séria. Em primeiro lugar porque não é uma actividade honesta. Em segundo lugar, porque não é autónoma e ainda menos soberana. Em terceiro lugar, porque nem sequer é, a maior parte das vezes, consequente. E quando o é, depressa se chega à conclusão que mais valia que não fosse.
Aliás, a política não passa dum ramo sórdido, menor e particularmente aberrante da literatura. Logo abaixo da História.
Uma mescla de teatro do absurdo e freak-show.

segunda-feira, junho 05, 2006

Perguntas Popularuchas de Papa



“Onde estava Deus, nesses dias? Porque ficou silencioso?”
- terá perguntado o Papa Bento Não-sei-quantos, de visita ao principal resort do turismo macabro.
Olhe, caro senhor, porque o Altíssimo tem certamente mais que fazer, respondo-lhe eu: Deus está onde sempre esteve e onde espírito tão rasteiro, venal e frívolo como o nosso não alcança. Mais até que Aristóteles, Jesus ou mesmo Nietzsche, as árvores, os céus, o sol, os mares, as estrelas, enfim, o cosmos inteiro fala-nos dele. Mas nós não escutamos, nem queremos escutar e temos raiva a quem escuta. Porque estamos muito ocupados com o nosso descomunal umbigo, cada vez mais absortos nesse pináculo absoluto do mundo, razão de ser e medida de todas as coisas. Isso e galopar a nossa opiniãozinha de merda, tocar pívias ao nosso intelecto de pulga ou congeminar revoluções que esvaziem de putativos demónios as paróquias e nos encham de vil metal os bolsos. Ou, pela outra banda, a reforçar barreiras contra esses demónios da paróquia que nos querem saquear os cofres e tesouros.
Então Deus não nos deu a liberdade, ó senhor Papa Cura? Nunca leu Santo Agostinho e toda a santa tradição subsequente? Que responsabilidade tem Deus nas nossas canalhices, da nossa permanente lua de mel com os infernos? Do nosso gozo mórbido em nos pisarmos e massacrarmos uns aos outros? Da nossa mania que somos deuses impiedosos, cada qual mais especial e eleito que o outro? Deus é polícia? É agente de seguros? É psiquiatra? É esgoto moral? Deus, enfim, é Papa?
A pergunta, por conseguinte, tudo o indica, não é “onde estava Deus, nesses dias? Porque ficou silencioso?” A pergunta é, outrossim: “Onde estava o Homem, nesses dias? Nesses e nestes e nos últimos vinte séculos! Porque está ele cada vez mais cego e surdo?"...
Não nos limpemos a Deus. Fazer dele nossa fralda, ainda por cima descartável, só aprofunda o estágio esterquilínio onde nos atascamos e teimamos em chafurdar. Não sei se Deus, que em absoluto me transcende, me criou “à Sua imagem e semelhança”. A mim, certamente que não, Exm.º Sr. Papa, não tenho essa vaidade, nem nunca me atreveria a apregoá-la diante Daquele que me deu a Vida. Mas a si, por deferência para com o seu rebanho, admito que sim. Que até lhe terá passado procuração, alvará, senão mesmo franchising. Mas se Ele, em todo o seu Misterioso Desígnio, teve para consigo essa caridade - de o criar à imagem Dele, não vá agora Vossa Benta Santidade, pagar-lhe com rasteira ingratidão, amesquinhando-O à sua. Que é o mesmo que dizer "à nossa".

sexta-feira, junho 02, 2006

Acefalus Universitarius



Quando chega a canícula, aqui no meu eremitério, tenho por hábito assar sardinhas. Chegam-me geralmente, esses saborosos peixes, trazidos por mão benemérita - desse povo simples que ainda venera os anacoretas - e embrulhados em folhas de jornais diários (que finalidade mais louvável e apropriada não se lhes reconhece).
Enquanto decorre o assado, para entreter a espera, calha, por vezes, deitar uma vista de olhos às letras impressas no papel que escapou ao atear do braseiro e aguarda expedição garantida para o caixote do lixo.
Ora, a embrulhar o pitéu de hoje, dei com o seguinte naco de prosa de ontem:
«Não vale a pena repudiar o futebol em nome de valores mais importantes, nem compará-lo com o que não é comparável. O futebol é um entretenimento e um dos poucos redutos onde ainda podemos cultivar instintos básicos sem consequências: apoiar "os nossos", detestar "os outros", apoiar "os fraquinhos" (normalmente, equipas africanas), insultar "os fortes" (normalmente, a Alemanha ou a Inglaterra), dizer umas asneirolas de cerveja numa mão e a piza encomendada na outra. É um programa um bocadinho primitivo? Pois é, mas já agora deixem-me também socorrer-me da minha cauçãozinha intelectual. Serve-me Chesterton, que dizia que a visão intelectualóide do mundo "nos fez pensar que o nosso grande inimigo (…) seria a nossa 'natureza inferior', ou seja, os nossos prazeres e apetites, que na verdade são coisas inteiramente inocentes em si mesmas. (…) Lembra Tennyson, (…) que falava do melhoramento moral como o processo (…) de 'ultrapassar o primitivo' em nós. (…) Mas porque haveríamos de querer ultrapassar o primitivo em nós?"
Que naco bestial!, congratulei-me para com as minhas escamas.
Falta dizer que sempre que deparo com tão estimulantes perorações, não me contenho dum passatempo privado, assaz desopilante, que consiste em ir anotando as passagens mais maravilhosas.
Coisa que, com paciência e bonomia de santo, fiz, mais uma vez e da seguinte feição:
«Não vale a pena repudiar o futebol em nome de valores mais importantes, nem compará-lo com o que não é comparável.»
- Sim, sem dúvida... O futebol e o haxixe, a televisão, a masturbação, a bebedeira, os best-sellers e até as drogas pesadas... Abençoado argumentário!
«O futebol é um entretenimento e um dos poucos redutos onde ainda podemos cultivar instintos básicos sem consequências: apoiar os “nossos”, detestar os “outros”...»
- Outro desses redutos nenucos, verdadeira creche para adultos, depreende-se, é escrever colunas de opinião no DN. Finalmente, torna-se compreensível o que vácuos exibicionistas do gabarito deste fulano, mais a Côncio, a Lopes, o Beato das Neves, o Bacoco Resendes, o Casse-tête Ruben, o João Miguel, o Pedregulho Lomba, o Comissário Político Graça Moura, o Vicente à Rasca, o Estrabo-Medeiros, o Micro-Vitorino, a filha do Amaral Dias e o necas-plus-ultra Luís Delgado por lá fazem: entretêm-se. Ululam. Brandem as mocas. Atiram pedradas às nuvens. Ou seja, “cultivam instintos básicos sem consequências", com realce para aquela modalidade que consiste em, com invariável chinfrim, apoiar os “deles” e detestar os “dos outros”. Espero que o jornal lhes cobre generosamente o recreio, o desporto radical, porque se a administração do diário - que de referência já não tem nada, mas de indigência tem quase tudo-, então a administração ainda é mais patega que os colunistas e mais lorpa que ela só mesmo os infelizes que desembolsam dinheiro por um tal desperdício de papel. Está bem que a maior parte das pessoas apenas o compra por causa dos anúncios, mas mesmo assim...
«Dizer umas asneirolas de cerveja numa mão e a piza encomendada na outra...»
-Já todos tínhamos percebido que este bestunto, à falta duma merecida sachola, mantinha invariavelmente as mãos ocupadas com outras coisas e escrevia os seus artigos com os pés. Os detalhes sórdidos do malabarismo, não obstante, eram, de todo, desnecessários. São certamente habilidades dignas de um circo Chen qualquer, mas nada abonatórias de um pretenso escriba-a-dias. Além de que fomenta a nossa percepção, tanto ou mais do que a nossa suspeita, de estarmos diante dum quadrúpede eventualmente amestrado, ou, o que ainda é mais inquietante, dum molusco octópode cuja proveniência extraterrena é de ponderar. Eles escrevem... Este, pelo menos, tenta.
«É um programa um bocadinho primitivo?»
- De modo nenhum. Os primitivos, nossos venerandos ancestrais –nossos, note bem, não seus -, dispensam olimpicamente os seus menoscabos. Não fossem eles e não estaríamos nós aqui hoje. Além de que não consta, está mesmo fora de hipótese, que os primitivos jogassem à bola e, ainda menos, que se babassem, em delírio pacóvio, defronte de tão repetitivo espectáculo. O futebol, rezam as crónicas, foi inventado em Inglaterra, não haverá mais de dois séculos. Por conseguinte, a futebolosa mania - a grunha compulsão para espreitar marmanjões em calções aos chutos num pedaço de ar forrado a cauchu e couro -, não tem nada de primitiva. Pelo contrário, é fenómeno típico dos tempos modernos, das eras industriais. O que até a lógica atestaria, caso um Zé Chimpo destes (e as manadas congéneres que infestam o território) toscasse minimamente o que é a lógica: Um desporto de massas só é possível a partir do momento em que existam as massas. Os primitivos, mesmo os trogloditas lendários, tinham coisas mais sérias e essenciais com que gastar o seu tempo. Manterem-se vivos era uma delas. Conseguir fêmea em tempo útil, de modo a reproduzirem-se, era outra. Aliás, como meta principal das suas ocupações figurava o tentarem esforçadamente distinguir-se dos chimpanzés e não, como o hooliganesco articulista recomenda, o regredirem neles com gana permanente, denodo sempre-viçoso e uma veemência a raiar o frenesim.
« Pois é, mas já agora deixem-me também socorrer-me da minha cauçãozinha intelectual...»
- Isso, caro símio vagamente alfabetizado, temo bem, já exorbita as competências de qualquer instância. Tamanho e tão crónico desvio, já não vai lá com cauçãozinha ou, sequer, com cauçãozona. No melhor e mais piedoso dos casos, justificaria uma daquelas pulseiras de localização e a apresentação regular às autoridades. Ou neurolépticos dos fortes, em doses maciças, pela goela abaixo, com internamento compulsivo durante as crises mais agudas. Sem nunca esquecer, é claro, um açaime e trela reforçada sempre que trotasse na via pública. Decerto não me enganarei muito se presumir que, nos intervalos de emborcar cervejolas e assolar pizzas de anchova, o caro aspirante a cro-magnon desça aos povoados, soltando urros e arrotos, disposto a sabe Deus que vandalismos e implicâncias.
« Mas porque haveríamos de querer ultrapassar o primitivo em nós?»
- Realmente, caro Pan-Zé. Tomara a vosselência alcançá-lo, ao primitivo - quanto mais não fosse na postura erecta! Ora, se não o alcança como poderia ultrapassá-lo? É, portanto, um risco que jamais corre e uma experiência que, creio bem, lhe permaneça interdita pela vida fora. Há todo um processo evolutivo que, dado o estágio recém-reptiliano onde ainda se encontra, se adivinha lento, penoso e complicado. Passar-se-ão ainda alguns séculos, por certo; os seus descendentes terão ainda que desenvolver, com base nessa sua gelatina mental embrionária, um cérebro. Autêntico trabalho de Hércules, o que os espera, coitados, mas tenhamos fé.
« Vem aí a bola? Sejamos primitivos.»
- Isso, para si, naturalmente, deve ser muito excitante. Compreende-se. Mas para nós (impossível fazer-lhe entender), não. É que (caso o equipasse a faculdade de entendimento decerto avaliaria sem dificuldade de monta) o que para si constituiria uma promoção, para nós, lastimavelmente, mais não estadearia que um vergonhoso retrocesso.


Porém, agora reparo, o mais fascinante é o título com que este primata antropóide condecora, em rodapé pomposo, a fronha nitidamente patibular que serve de espanta-pardais ao asneário: “professor universitário”...
Dá para fazer uma pequena ideia do que penarão os desgraçados alunos dum tal gorila maguila.
Eu, com franqueza, já estou por tudo. Aos professores universitários, e outros, já nem peço competência, sequer sabedoria; contentar-me-ia -corrijo: prostrar-me-ia deslumbrado, louvando a Deus - com um resquício de pudor.

PS: Questões gramaticais do primor de um "mas já agora deixem-me também socorrer-me" escapam à minha órbita. Estão mais ao nível do mestre-escola. É algo que, espero bem, o sempre atento Hommo-prontuarius não deixe passar impune.


(E agora vamos ao pitéu, que já cheira. É deveras pacata, mas salutar, a vida de um eremita.)

quinta-feira, junho 01, 2006

De Nietzsche, sobre os blogues

Basta substituir onde se lê "crítico" por "comentador", e "crítica" por "comentário". Onde aparece "história" também se pode substituir por "currículo" ou "notoriedade". E onde diz "historiador", naturalmente, "entendam "comentador". Vão ver que faz todo o sentido e é de uma grande actualidade.

«Aconteça o que acontecer no campo da acção, o filisteu ilustrado, esvaziado interiormente pela cultura, despreza a obra e informa-se sobre a história do autor. Se já produziu algo anteriormente, é imperioso explicarem-lhe imediatamente os antecedentes e o futuro provável da sua evolução. Comparam-no com outros, dissecam-no, interrogam-no sobre a escolha do tema, sobre o modo de o tratar, desarticulam-no para o reconstruir sabiamente, censuram-no, corrigem-no. Por mais surpreendente que o acontecimento seja, aparece logo um bando de historiadores (ou comentadores) para considerarem o autor segundo uma perspectiva longínqua. Há ecos imediatos também sob a forma de "crítica", quando pouco tempo antes a crítica não tinha sequer sonhado tal possibilidade. Não resulta daí qualquer efeito, mas sempre uma nova crítica, e esta crítica, por sua vez, também não produz efeito, mas constitui o objecto de uma outra crítica. Todos concordam em considerar que ter muitas críticas é um sucesso e que ter poucas ou não ter críticas é um fracasso. Mas, no fundo, mesmo quanto ao efeito produzido, nada mudou: glosa-se por momentos uma novidade, depois outra, e tudo continua como dantes. A crítica histórica não permite que uma obra possa ter acção, no sentido próprio da palavra, isto é, agir sobre a vida e a acção. Sobre a tinta mais negra aplicam imediatamente o seu mata-borrão. Borram com grossas pinceladas o mais gracioso dos desenhos, fazendo-as passar por correcções. E tudo fica por aí. A sua pena crítica nunca desarma, porque já não são senhores dela, é ela que os conduz. Este excesso de efusões críticas, esta falta de autodomínio, aquilo a que os romanos chamavam a impotentia, tudo isso exprime a debilidade da pessoa moderna.»

-Nietzsche, "Da Utilidade e dos Incomnvenientes da História para a Vida"

Que conclusão podemos retirar disto?
- De que os blogues são sítios mal frequentados? Sim, de facto, salta à vista. Mas não mais do que a História. Assim, por exemplo, quando certos açougueiros do conceito assinam "historiador", entendam como um eufemismo de "bloguista". Ou seja, como dizer "amigo do alheio" em vez de "larápio". Nem mais.