segunda-feira, julho 31, 2006

Rabinices eloquentes




«Só das cidades destes povos, que o Senhor, teu Deus, te há-de dar por herança, é que não deixarás nelas alma viva. Votarás à destruição, o hitita, o amorreu, o cananeu...»
- Deuterónimo, 20, 16-17


«All of the discussions on Christian morality are weakening the spirit of the army and the nation and are costing us in the blood of our soldiers and civilians.»

«O ilustre Conselho de Rabinos apelou às IDF para que ignorassem padrões de moralidade cristã e "exterminassem o inimigo a norte e a sul".»


O Bin-Laden, ou qualquer outro psicopata dessa estirpe, não diria melhor. De resto, professam exactamente a mesma "moral": Vale tudo.

domingo, julho 30, 2006

Homero revisitado


É por isso, para evitar que os Hezzbollas introduzam "civis nas zonas de combate", que Israel não tem feito outra coisa senão introduzir as zonas de combate nos civis.

Curiosamente, os paraquedistas e unidades de elite israelitas não parecem concordar com esta retórica do "terrorista que se esconde atrás de criancinhas nos intervalos de lhes sugar as jugulares". No regresso daquilo que já chamam o "inferno de Bint Jbeil", depois de combaterem com a dignidade que Homero há muito estipulou, isto é, guerreiro contra guerreiro (e não indústria contra homem), transmitiram uma ideia abissalmente diferente:

Entretanto, de passagem, vale a pena visitar Bint Jbeil e passear os olhos pelo que outrora havia debaixo dos escombros.

A guerra é uma espécie de ordálio. Não sei se me engano muito se disser que é nela que o homem resgata a sua humanidade.

sábado, julho 29, 2006

Ficções

«Chevron atinge lucros record na sua história de 127 anos».
«It marks the largest three-month profit in Chevron's 127-year history, eclipsing earnings of $4.14 billion registered in last year's final quarter after energy prices spiked in the aftermath of hurricanes Katrina and Rita.»

«Exxon Mobil makes more than $10 billion.»

«BP profits hit record on high oil.»

As petrolíferas sempre tiveram lucros fabulosos. Segundo nos explicam certos entendidos nestas coisas esotéricas do mercado - entre eles, o professor Karamba, a médium Linda Reis e o mago Julião -, como os custos de produção e distribuição aumentam, têm implicitamente que aumentar os preços ao consumidor, de modo a que as petrolíferas mantenham os seus lucros sagrados.
A realidade, porém, é que as petrolíferas não mantêm os seus lucros fabulosos: multiplicam-nos. Galopam já à conquista da estratosfera. O leigo destas coisas, por mais que a sua lorpice congénita o atordoe, não consegue livrar-se da questão:
- Mas, na realidade, delírios à parte, porque é que os preços da gasolina sobem?

E, pior que a comichosa pergunta, instala-se-lhe no espírito uma séria suspeição: a treta do Mercado - mais as suas leis fatais e mãos invisíveis que tocam pívias inodoras- tresanda a ficção para embarrilar pacóvios.

Como sempre, aliás, a realidade esmera-se, olimpicamente, a defecar em cima da tese.

sexta-feira, julho 28, 2006

Uma questão de método

Em 21 de Julho, um posto de observação da ONU, em território Israelita, foi atingido durante combates entre as IDF e o Hezzbolla. O exército Israelita, como lhe competia, culpou o Hezzbolla. Um oficial da ONU atribuiu a responsabilidade do incidente à artilharia israelita. Apesar das instalações terem ficado destruídas, não se registaram baixas entre os militares Ganeses que lá se encontravam.

Em 25 de Julho, uma bomba israelita volatilizou um posto de Observação da ONU, no sul do Líbano. Resultou na morte de quatro observadores. O Secretário Geral da ONU considerou o ataque como tendo sido deliberado. O Conselho de Segurança não condenou Israel, apenas porque os Estados Unidos, como sempre fazem, vetaram a resolução.

A ONU viu-se compelida a compensar o criminoso, optando por retirar todos os observadores da região fronteiriça Israelo-Libanesa.

O Ministro da Justiça Israelita, Hamin Ramon, já proclamou que as IDF estão credenciadas para matar todos as pessoas que se encontrarem no Sul do Líbano pois "são todos terroristas que, de alguma forma, estão ligados ao Hezzbolla". Efectivamente, não é difícil de calcular que alguns sejam primos, outros, tios, outros ainda filhos, mulheres e até avós.
Mas o que o sr. Ramon, de facto, subentende - e a sucessão de eventos anuncia -, é que as IDF têm que ensaiar uma "solução final" no Sul do Líbano e a última coisa que lá precisam são testemunhas.

Uma República de Bananas ao serviço duma Oligarquia de Macacos



«Pensão de luxo para deputados».
«364 políticos com pensões vitalícias».
«Alegre com reforma milionária».

«Corrida às pensões»

Entretanto, em 2006, segundo o Correio da Manhã, só houve dois pedidos de "apoio vitalício":
Anacoreta Correia e José Pacheco Pereira.

Aproveito para comunicar que isto não só não me escandaliza minimamente como acho da mais elementar justiça. O marisco está caríssimo; um bom resort nas Maldivas custa os olhos da cara; já não se compra um Porsche por menos de, sei lá, 100.000 euros ?; duas ou três cortesãs high-tech não fazem uma orgia por menos de 5.000 USD, isso é garantido; o custo anual dum/a amante disparou para níveis astronómicos - só em joalharia, jantares, viagens, miminhos, vai-se uma fortuna; e um Picasso, alguém sabe ao preço a que está um Picasso?!!...

Otários de todo o mundo, colectai-vos!...

Além do mais, se, como agora é moda dizer-se, os países se orientam segundo os respectivos e estritos interesses, deveremos espantar-nos se os indivíduos que os dirigem se orientam também exclusivamente pelos seus?...

quinta-feira, julho 27, 2006

The cartoon strikes again?...



«Israel's ambassador to Norway has complained to press regulators about a cartoon showing Israeli PM Ehud Olmert as a Nazi concentration camp commander. »

Convenhamos,é mais grave que o ataque a um profeta: é um ataque a um semideus.

Aliás, eu já aqui expliquei pedagogicamente, por mais de uma vez, que o termo anti-semita, para definir uma qualquer crítica aos judeus, é incorrecto. Os árabes são tão semitas como os judeus, se bem que infinitamente menos valiosos, dignos e geniais.
Para evitar futuras confusões, sugeriria até que o termo "semi-ta" fosse deixado aos árabes, enquantos os judeus passavam a ser designados por "semi-deus".
Assim, qualquer pessoa que esboçasse sequer um pensamento de desaprovação a qualquer acto da autoria de qualquer judeu -ou mesmo judeu-novo, como o nosso Chico Viegas, o Hemingway do Pocinho -, seria de imediato vituperado (sempre em tom furioso e energuménico, nunca esquecer!)- como "anti-semideus".

Fora isto, temos o quê? Mais um debate acerca da "Liberdade de Expressão"?

quarta-feira, julho 26, 2006

A Guerra Prometida

Ontem podia ler-se no Correio da Manhã: "Olmert promete combater Hezzbolla".
Sim, não duvidemos; mas primeiro, como é evidente, tem que combater os civis Libaneses, de modo a que os Hezzbollas não tenham onde se esconder; depois, tem de punir os civis sírios que estão por detrás do governo Sírio que apoia o Hezzbolla; a seguir, tem que massacrar os civis iranianos que tiverem o desplante de se colocar à frente daquele Almadi-não-sei-quantos (candidato recorrente ao "Levanta-te e ri") que fornece armas aos Sírios e aos Hezzbollas; de caminho, tem ainda que causar umas mortandades exemplares e variadíssimos escombros fumegantes entre os chineses e russos –civis, preferencialmente -, que vendem armas ao Irão e à Síria, e, pior que tudo, incitam o Almadi-coiso-e-tal a teimar numa carreira na stand-up comedy (onde, como é público e notório, a concessão exclusiva hebraica, recebida directamente de Deus, é sagrada). Finalmente, com o auxílio sempre solícito dos americanos, através da NASA, tem de escaqueirar o terceiro planeta de Andrómeda – o terceiro, a contar da esquerda, bem entendido (ou sexto, se for da direita)-, que é donde provêm os alienígenas sarapintados e tremeluzentes que estão por detrás de toda esta imensa e nefanda conspiração anti-judaica mundial, digo, universal.
Então, quando o Hezzbolla estiver completamente isolado, desamparado e o petróleo a 200 dólares o barril, então sim, Olmert vai acabar duma vez por todas com o Hezzbolla..
Em privado, a fanáticos íntimos, Olmert - desde petiz, um admirador do bravo general Custer -, terá mesmo entreaberto o núcleo da sua engenhosa -se bem que voltivaga - estratégia: "Antes de exterminar os índios, primeiro há que evitar que eles se reproduzam. Temos que ir à fonte. Estancá-los na origem. Senão, somos nós a matá-los dum lado e as mulheres a fabricá-los em série do outro. Um trabalho de Sísifo, meus amigos!..."

terça-feira, julho 25, 2006

Curiosidades


- Base Naval de Coronado, San Diego, USA - vista aérea.
Uma clara ofensa à Comunidade judaica. Aqui deixo o alerta a quem de direito.

Rebenta-bunkers, uma operação humanitária

Paul Gigot, Editorial Page Director for the Wall Street Journal - o que traduzido para português arcaico dá qualquer coisa como "refinado filho da puta"; e para português actual é geralmente traduzido por "um brilhante pensador moderno" -, demonstra, através de argumentação cristalina e contundente, que o fornecimento urgente de sofisticadas armas americanas a Israel constitui uma genuína acção humanitária.
Segundo ele,

Darfur, agora, vai ter que esperar. O Humanitarismo ocidental tem outras prioridades. E que ninguém sequer sorrise (do verbo sorrisar - esboçar sorriso - se o Mia Couto pode, porque é que eu não posso?...): é que a fome de armas e munições pode ser bem mais dramática que a fome de pão (que a de putas e marisco não, chiça, não exageremos).

Eu, que me pélo por um bom naco de humor negro (logo a seguir a um bom naco de mulher está no top + das minhas preferências), fiquei esclarecido e encantado.
De tal ordem, que até estou mesmo a pensar em mudar o nome deste blogue para "Rebenta-Bunkers".


PS: A da foto é a rebenta-bunkers, não é exactamente aquilo que eu considero "um bom naco de mulher". Na verdade, é mais um excessivo conglomerado de banha.

segunda-feira, julho 24, 2006

Queiram desculpar-me a maçada

Para quem quiser uma "Súmula patalógica" de toda a hilariante cartilha dos nossos israelatras efervescentes, aconselho vivamente uma visita a MASADA 2000. É que se os zelotas clones em enxundioso e estereotipado chinfrim, mais que atenção, reclamam urgente camisa-de-forças, pelo contrário, este site, dum sionismo inviolável e gongórico, justifica a maior das atenções. É, diria mesmo, além de extremamente divertido, superlativamente pedagógico. Em primeiro lugar, porque toda a bateria energumentativa já nossa conhecida (sobretudo através de arremedos rústicos e mal atamancados, mais próprios de bufarinheiros, almocreves e azemeis sem a mínima preparação que de arautos devidamente credenciados) além de brotar cristalina na fonte, mana devidamente organizada, documentada e rebicada a verdadeiras pérolas de versúcia. Asseguro-vos: versúcia desta até dá gosto.
Em segundo lugar, porque nos demonstra como Israel, além duma democracia prendadíssima, constitui também um conglomerado de gente tolerante, equilibrada e absolutamente alérgica a fundamentalismos, Deus seja louvado!...
E em terceiro -e aqui não percam, pela vossa rica saúde -, porque nos disponibiliza on-line, abençoada tecnologia que nos alumia, um autêntico Index - eles chamam-lhe Shit-List - de (imaginem!) "Judeus de merda" ou "merdosos". Daí, aliás, a sigla "SHIT", quer dizer "Self-Hating and/or Israel-Threatning . Portanto, segundo estes oráculos inexpugnáveis, um "judeu merdoso" é um "judeu que se odeia a si próprio e/ou ameaça Israel".
A lista desde abomináveis seres está organizada por ordem alfabética e comporta para cima de milhar. Os nossos israelatras fervorosos e demais zelotas em patrulha vão, pois, ter um choque: afinal nem todos os judeus são puros, santos, génios e credores da humanidade para os própximos dois milénios, pelo menos. Não, afinal há judeus impuros. Pior: há "judeus de merda". São os próprios judeus puros e santos, comprovadamente perfeitos, quem o certifica.
Nada como ler a lista, com todos os seus comentários didácticos e ilustrativos sobre os traidores miseráveis. Que elevação! Que donaire! Todavia, para ir adiantando serviço e aguçando o apetite, sempre vos deixo aqui algumas das figuras mais conhecidas em exposição pelourinhesca:
* Woody Allen
*Yal Dayan (filha de Moshe Dayan)
* Richard Dreyfuss
* Norman Finkelstein
*Bobby Fischer (Um dos maiores xadrezistas de sempre - para mim, o maior)
*Richard Gere
*Henry Kissinger
*Edgar Morin (quem o mandou perder o paradigma?)
*George Steiner
*Aliza Olmert (esposa do actual Primeiro ministro - por ser de esquerda)
*Dana Olmert ( filha do actual primeiro ministro - por ser lésbica anti-guerra)
*Shimon Peres
*Harold Pinder (o último prémio nobel da Literatura)
* George Soros (o especulador internacional)
Nota Importante: O actual primeiro-ministro israelita, até há uma semana atrás, também era considerado um "judeu de merda"- por se deixar influenciar pela mulher, o que fazia dele um frouxo. Mas, ultimamente, parece que se resgatou. Sorte a dele.

Quanto aos delitos que podem transportar a este anátema, o mais frequente -e, presumo, "ameaçador para Israel"-, é o delito de opinião: expressar qualquer desacordo com a política mais radical sionista ou, como foi o caso de Rabin e outros, tentar morigerá-la. Rabin já não está na lista, porque, entretanto, se bem se lembram, foi abatido a tiro. Por um israelita casto.
No que respeita às acusações que pendem sobre os "maus judeus", por bizarro que pareça, abundam as de "anti-semita"e "nazi" (George Steiner, por exemplo, é nazi). Para além duma constante depreciação de outras minorias "vítimas" como os gays ou as feministas; ou outros credos, como "cristão". Para quem é suposto estar nos antípodas do Irão...
Mas não acreditem no que eu digo: confirmem exaustivamente, sff.

Para concluir: é isto o baluarte da vossa civilização? Há um bando de avestruzes a jurar que sim.
Então, se assim é, só me ocorre recomendar-vos uma máxima da infantaria:
"Deus nos proteja da nossa artilharia, que da do inimigo protegemo-nos nós!"

domingo, julho 23, 2006

Tortura defensiva

Será que os militares israelitas, maravilhados com a espantosa eficácia e os êxitos retumbantes dos americanos no Iraque, decidiram imitar-lhes entusiasticamente os passos?
Depois duma primeira fase de verdadeiro "Shock and Awe" ( a velha Blitzkrieg com outro nome), não é que se preparam já para, com todo o afã, erigir o seu Abu-Ghraib...


Curiosamente, parece que este hábito remonta a outras peregrinações. Pelo menos é o que afirma a Human Rights Watch:
«Israel Responsible for Abuses in Khiam Prison».
E especifica: "Since the facility opened in 1985, hundreds of Lebanese have been arbitrarily detained in Khiam without charge for indefinite periods of time. Many of the detainees, including women, have been tortured during interrogation and subjected to abysmal conditions of confinement."
Naturalmente, as democracias, quando em guerra, vêem-se constrangidas a torturar pessoas para detectar quais delas são infames terroristas. Bem como a instaurar Censura na informação, de modo a contrariar os espiões subversivos. Nada disto nos deve espantar. Fascinante mesmo, na notícia, é aquela parte em que o Exército, a pretexto da urgência da infraestrutura, teve que pedir uma autorização especial ao -registem bem - Chief Military Rabbinate (para que este, dizem eles, permitisse o trabalho ao sábado).
Chief Military Rabbinate? Mas que raio vem a ser isto? Então o exército tem que pedir autorização ao Capelão-Mor?! Mas que diabo de Forças Armadas são aquelas? Então o Capelão tem poderes de Ayatolla?... Já não percebo nada.
E outra dúvida estapafúrdia, mas que doravante não me larga: será que eles para bombardearem e metralharem, ao sábado, também têm que ter uma autorização especial do tal Rabbinate?
Ou matar e estropiar não é considerado trabalho?...

sábado, julho 22, 2006

A Masturbaratona, ou Onan, os Bárbies




«Maratona de masturbação colectiva».

Não, mesmo antes de lerem, posso desde já adiantar: não se trata da assembleia evangélica dos nossos telebelicosos quéques, fremendo e arrolhando diante de bombardeamentos filantrópicos e altamente civilizados em contínuo auto-replay num ecrã gigante. É verdade que podia ser, mas não é.
De facto, é apenas mais uma daquelas manifestações espectaculares de superioridade e excelência do "Modo de vida deles". O "Deles" que aldrabam ser também o "Nosso". O mesmo que os terroristas malvados,vejam lá bem, querem destruir.
Aqueloutro que, em nome da capoeira de aves loucas, declamou emocionado pela supremacia consagrada -e paradigmática - de putas e panascas, esqueceu-se, afinal, do ritual mais emblemático da seita: a punheta colectiva.

A American Way e a SMSS



«U.S. Speeds Up Bomb Delivery for the Israelis»

A maneira americana, a fast-way, a Hamburguer-war, em suma, a maneira mais estúpida: matar moscas à martelada. Ter os americanos à solta a combater o "terrorismo" é o mesmo que ter um pirómano a combater um incêndio. Não fodem, não saem de cima e dizer que até os colhões lhes estorvam peca por suave: como andam armados até aos dentes, gastam os dias a acertar neles. O que vale é que são descartáveis.
Pois, se ao menos os "terroristas" se espavorissem com os gritinhos histéricos e as algazarras excitadas que fazem os nossos metrossexuais on line, Portugal ainda teria uma palavra a dizer. Que bom que seria. Quem sabe não recuperávamos até os faustos de outras épocas. Enviava-se para lá, para o Médio Oriente, todo este contingente de totózinhos belicosos que marcham para baixo e para cima na blogosfera, estas Cripto-SAs (Sturm-Amélias) aos molhos, que os Hezzbollas nem sabiam de que terra eram. Iam Hezzbollas, iam Hammas, iam Al-Caedas, iam todos a eito!
Bem, agora que penso nisto, acho que não se perdia nada em tentar. Quem sabe não resultava e resgatava-se, duma vez por todas, a civilização. O pior é que, suspeito bem, mal recebessem a convocatória para a épica cruzada - a Segunda Cruzada das Criancinhas, podia já crismar-se -, ficavam -aposto 100 contra 1 - subitamente afónicos. Febris, disentéricos, lacrimejantes, vertiginados, menstruados até alguns, requeriam dispensa da Campanha ao Santo Sepulcro por deploravelmente os incapacitar, repentina, paralisante e consumptiva, uma SMSS - a Síndrome do Mais Sepulcral Silêncio.
-"E não podemos antes bombardeá-los com SMSs?..." - Ainda perguntavam, com o último resquício de coragem.
Guerreiros de caca, de fralda, com as suas paint-ball minds. Carregadas a smarties.

quinta-feira, julho 20, 2006

O Exército da Salvação



«Third of Lebanon casualties are children, says UN.»

Et voilá! Se mais provas precisas fossem, isto atesta duma vez por todas da bondade exemplar das acções da "defesa" Israelita sobre o Líbano. O cálculo é simples: dado que um terço da população Libanesa, mais coisa menos coisa, são crianças, fica assim inequivocamente demonstrado como, ao contrário dos velhacos e capciosos terroristas, a intenção dos Israelitas não é atingir especialmente as crianças, mas, ao invés, alvejar indiscriminadamente - sim, com a maior das isenções! - toda a população. Se isto não é rectidão e filantropia, um raio me parta já aqui!...
Em vez de IDF, proponho até que passe a chamar-se Exército da Salvação.
É que se não fosse ele, já há quem diga, e quem sou eu para recalcitrar, estaríamos todos perdidos.

Explicação dos Possessos



«Evangelical Christians plead for Israel.»

O pastor John Hagee, um visionário poderoso, proclama ao cosmos e arredores as seguintes profecias moralizadoras e candidatas, pelo menos, ao óscar dos Melhores Efeitos Especiais (já nossas conhecidas, aliás):
«Que exércitos Russos e Árabes invadirão Israel e serão destruídos por Deus;
Que esse incidente desencadeará a confrontrontação por Israel entre a China e o Ocidente -este liderado pelo anti-Cristo, desempenhado, imagine-se (e persignemo-nos), pelo cabecilha em chefe da União Europeia (força Durão Barroso!);
Que esta crudelíssima e derradeira batalha entre o Leste e o Oeste - em Armageddon, um sítio na actual Israel -, precipitará a Segunda vinda de Cristo.»

Aleluia!

Como validação inexorável da sua exuberante e benemérita escatologia, o pastor Hagee, Deus o proteja, assevera ainda que quarenta milhões de crentes, todos eles excitados e rechinantes, apoiam estas suas alucinações particularmente atrozes e sanguinorreicas. Serei a última pessoa a pô-lo em causa. Só em Portugal - de olhos raiados, a espumar da boca, vociferantes e a espojarem-se em blogues, pasquins e telejornais-, já contabilizei para cima de centena.

Into the Abyss...

Uma entrevista bastante elucidativa de Ferry Biedermann ao Prof. Martin van Creveld, em Jerusalém. Janeiro de 2003.

Interviewer: Your specialty is war. Is what's going on here war at all?

Creveld: Certainly, although the Palestinians have no government, no army, and no [nationality]. Everything is in chaos. That's why we won't win the war, either. If we could identify and eliminate every terrorist, we'd win this struggle within forty-eight hours. The Palestinian administration has the same difficulties. Even in Arafat decided to comply with our conditions and surrender tomorrow, it's virtually certain that the Intifada would continue.

Interviewer: Are there any similarities on the Israeli side?

Creveld: If the dispute lasts much longer, the Israeli government will lose control of its people. For people will say: "If government can't protect us, what on earth can they do for us? If the government can't guarantee that we'll be alive tomorrow, what good are they? We'll defend ourselves."

Interviewer: So Israel is beaten in advance?

Creveld: On that I'll quote Henry Kissinger: "In campaigns like this the antiterror forces lose, because they don't win, and the rebels win by not losing." That certainly applies here. I regard a total Israeli defeat as unavoidable. That will mean the collapse of the Israeli state and society. We'll destroy ourselves.

Interviewer: Is there any point to the recent Israeli military offensive?

Creveld: This offensive is totally useless; it's only further enraging the Palestinians. Perhaps there will be a short-lived calm, but in the end there will even more suicide attackers.

Interviewer: Is there any hope?

Creveld: If I were Arafat, I wouldn't stop either. I'd only cease in exchange for a very far-reaching political accord. And it seems as if we have a government [under Sharon-tr.] that won't make Arafat such an offer. If elections were held today, the Left would be thoroughly beaten.

Interviewer: Some maintain that it is Israel's foreign enemies that keep the country unified.

Creveld: That's right. I only wish that there were foreign enemies, but that isn't the case. We've fought our external enemies for so many years. Each time there was a war, we took a mighty hammer to our foes, and after being defeated a few times, they left us alone. The problem with the Palestinian revolt is that it doesn't come from without, but rather from within. Therefore we can't avail ourselves of the hammer.

Interviewer: Is the solution, then, to keep the Palestinians outside the borders?

Creveld: Exactly, and right now there's nearly unanimous agreement on that. We ought to build a wall "so high, that not even a bird can fly over it." The only problem is: where to put the border? Since we can't decide whether the territories conquered in 1967 should be included, for the time being we improvise a little. We're building a series of little walls, which are much more difficult to defend. From a military standpoint this is very stupid. Every supermarket has gradually acquired its own living wall of security guards. Half the Israeli population is guarding the other half-unbelievable. Aside from the fantastic waste, it's almost totally useless.

Interviewer: Does that mean that the Palestinians stay within the borders?

Creveld: No, it means that they all get deported. The people who strive for this are waiting only for the right man and the right time. Two years ago only 7 or 8 percent of Israelis were of the opinion that this would be the best solution, two months ago it was 33 percent and now, according to a Gallup poll, the figure is 44 percent.

Interviewer: Will that ever be possible?

Creveld: Sure, since desperate times give rise to desperate measures. Today there's a fifty-fifty split on where the border should run. Two years ago 90 percent wanted the wall built along the old border. That has completely changed now, and if things continue, if the terror doesn't stop, in another two years perhaps 90 percent will want to build the wall along the Jordan. The Palestinians talk of "summutt," meaning hang tough, cling to the ground and the soil. I have enormous respect for the Palestinians. They fight heroically. But if we in fact want to strike across the Jordan, we would need only a few brigades. If the Syrians or the Egyptians were to try to stop us, we'd wipe them out. Ariel Sharon is leader. He never improvises: he always has a plan.

Interviewer: A plan to deport the Palestinians?

Creveld: I think it's quite possible that he wants to do that. He wants to escalate the conflict. He knows that nothing else we do will succeed.

Interviewer: Do you think that the world will allow that kind of ethnic cleansing?

Creveld: That depends on who does it and how quickly it happens. We possess several hundred atomic warheads and rockets and can launch them at targets in all directions, perhaps even at Rome. Most European capitals are targets for our air force.

Interviewer: Wouldn't Israel then become a rogue state?

Creveld: Let me quote General Moshe Dayan: "Israel must be like a mad dog, too dangerous to bother." I consider it all hopeless at this point. We shall have to try to prevent things from coming to that, if at all possible. Our armed forces, however, are not the thirtieth strongest in the world, but rather the second or third. We have the capability to take the world down with us. And I can assure you that that will happen, before Israel goes under.

Interviewer
: This isn't your own position, is it?

Creveld: Of course not. You asked me what might happen and I've laid it out. The only question is whether it is already too late for the other solution, which I support, and whether Israeli public opinion can still be convinced. I think it's too late. With each passing day the expulsion of the Palestinians grows more probable. The alternative would be the total annihilation and disintegration of Israel. What do you expect from us?

Entrevista traduzida daqui por intermédio deste.

quarta-feira, julho 19, 2006

Ciganice é só ciganice - ainda não tem bónus.

Vª Excª terá lido com a ”tenção”, não contesto, mas pela qualidade da dispepsia mental decorrente, eu, com toda a honestidade, recomendar-lhe-ia que, para a próxima, além da “tenção”, usasse um bom par de óculos. Porque, das duas uma, ou Vª.Excª está a precisar urgentemente de um vigoroso oftalmologista ou de um explicador intrépido e perseverante.
Quanto ao resto, a ciganice abunda mas não compensa. Os ciganos, é certo, também padeceram no holocausto, mas ainda não têm direito a indemnização. Concordo que é uma injustiça, mas, olhe, tenha paciência e desforre-se nas feiras. Aliás, se tiver por aí umas Levy’s das baratas, mande-mas à cobrança. Terei o maior gosto em prestar esse singelo -mas sincero - tributo pessoal à memória da sua martirizada tribo.

Cordiais saudações ao seu rei e respeitosos cumprimentos à priminha. De Vª Excª, não de Sua Majestade, naturalmente.

D'ragão e Tal

And justice for all...

«Turkey Signals It's Prepared to Enter Iraq.»

Naturalmente, segundo a lógica fulgurante do momento, a Turquia também tem todo o direito a defender-se, ou não?
15 soldados e polícias turcos mortos pelos terroristas curdos é de fazer perder a paciência a um santo. Menos que isso fez Israel desvairar-se e Israel é, como todos sabemos, super-santa.
E o que é pior é que os Turcos podem acusar os Estados Unidos de estarem por trás dos curdos. O que, numa qualquer reunião importante, pode levar o presidente Bush, interpelado pelo seu fiel escudeiro, ao seguinte desabafo:
-"Alguém devia dizer à CIA para parar com aquela merda!..."

Bem, mas neste caso, tudo o indica, os terroristas afinal são guerrilheiros. E mesmo que a Turquia, por justo e soberano "direito à defesa", quisesse escavacar o Iraque, depararia com uma gritante falta de infraestruturas . Operação mais frustrante seria difícil de conceber.

terça-feira, julho 18, 2006

Leviatã e o Paraíso

O que Israel está a fazer no Líbano é terrorismo. Terrorismo de Estado, mas terrorismo. Em forma de contra-terrorismo, mas terrorismo. Não é o fim do mundo nem é uma originalidade especial. O que os americanos e os ingleses estão a fazer no Iraque e no Afeganistão é terrorismo da mesma qualidade, só que a uma escala consideravelmente superior, de espaço e tempo. E, consequentemente, de hipocrisia, de infâmia, de carnificina.
Mas não se pense que esta maravilha do "terrorismo de Estado" é uma exclusividade deste cluster imperial hodierno. Os Assírios, se não me falha a memória, foram os primeiros peritos em "terrorismo de Estado": Não só conquistavam as cidades, como, por doutrina de vida, faziam empalar prisioneiros, chacinar mulheres, crianças e animais domésticos. Um serviço completo, pois claro. Porque idolatravam deuses cruéis e sanguinários? Porque eram uns selvagens idólatras e impiedosos? Leiam o Livro de Josué (logo a seguir ao Deuterónimo, na Biblia Sagrada) e constatareis que os Hebreus fizeram exactamente o mesmo, em nome de Ihavé (futuro Deus-Pai), aquando da primeira constituição de Israel.
O "terrorismo de Estado" conheceu posteriormente dias gloriosos sob as flâmulas e estandartes do Império Romano. De tal ordem que este viria a tornar-se uma espécie de paradigma para todos os exercícios ulteriores - de ambos: império e terror. O Império Britânico, cujo gestação começa na república puritana de Cromwell, usou e abusou do Terror de Estado. Desde a Irlanda à Guerra do Ópio, passando pelas quatro bandas do planeta, nunca se poupou a esforços nem expedientes. O Império Americano nada mais pretende ser que um seu digno sucessor. Basta recordar a forma como, ainda bebézinho, esbulhou, brutalizou e exterminou os autóctones da América do Norte, para orçarmos a que ponto estava vocacionado para os mais altos voos. Pelo caminho, a República Francesa, as duas tentativas de Império Alemão, sobretudo a segunda, a patética tentativa de Império Italiano (por Mussolini), o Império Russo, dos Czares e dos Sovietes, o Império Japonês, o Império Espanhol, só para citar os mais emblemáticos, nalguns casos com a gana própria dos novo-ricos, entregaram-se a sangrias e hecatombes deveras notáveis e apenas um pouco menos engenhosas tão somente por força duma menor durabilidade.
Todos eles se sentiram animados das mais inadiáveis lógicas, creditados das mais humanas (e transcendentes) procurações, armados dos mais angélicos arsenais. Resistir-lhes, a tais portentos de luz e progresso, francamente, só por pura e acintosa maldade. Os demónios, todos sabemos, opõem-se ao progresso e expiam invariavelmente a derrota. Já a vitória santifica e consagra, peremptoriamente, os deuses. Glorifica as suas panóplias e devastações.
O Imperialismo Alemão do III Reich foi julgado por inúmeros crimes de guerra em Nuremberga, apenas por via da derrota militar dos seus mentores. Caso tivessem vencido, os virtuosos seriam eles e os criminosos demoníacos seriam os outros. A propaganda cantá-lo-ia em hinos celestiais, os historiadores alfaiatariam os factos à medida das conveniências e a bem da carreirinha, os castrados e eunucos mentais de todas as épocas, masturbadores activos das "glórias do momento a ferver", peregrinariam e venerariam sem descanso a sua memória.
Portanto, o que Israel está a fazer, à sua pequenina escala, infelizmente, não nos exibe nada de novo, nem, tão pouco, de subitamente ignóbil. Bem pode Israel abrir a gabardine à vontade, que não nos escandaliza. Não é menos desculpável, mas também não é especialmente condenável, por causa disso. De facto, em toda esta sua peripécia mais recente outro não faz que participar em toda uma tradição que reflecte uma lei muito antiga - uma que já as fábulas comemoravam: a lei do mais forte. Que ao longo dos tempos, de resto, e a começar em Caim, se confunde com a "lei do mais bem armado". Nesta perspectiva atávica - fria e tecnocêntrica mas sinistramente eficaz e, raios a partam, real -, o mal e o bem, o melhor e o pior derivam predominantemente da qualidade do sistema bélico, da capacidade agressiva e predadora de cada agremiação excursionista galvanizada de projectos imperiais ou meramente campeoníssimos (pode ir desde os benfiquistas aos americanos, passando por evangelistas, muçulmanos, comunistas, sionistas, arianistas, globalistas ou o diabo que os carregue!). O "pior" acaba por redundar sempre no que tem as piores armas, entenda-se: aquelas que falham clamorosamente em certificar no terreno a superioridade das suas ideias, a justeza dos seus desígnios, manias, ideiais, caprichos ou fulgurantes apetites. Ao contrário da água apaziguadora das mitologias, as auto-proclamadas civilizações baptizam a ferro e fogo e têm na arma o fundamento e o garante do seu "sistema de valores". Quando não os próprios pilares ontológicos.
Assim, no cumprimento de tão insigne tradição, é na sua superioridade bélica que Israel fundamenta e sustenta o seu direito inalienável, tanto quanto a sua sobranceria moral; e é ela, essa mesma superioridade bélica (de arsenal próprio e de apoio) que a transforma num Estado dotado de prerrogativas unilaterais, bem como credor das maiores compreensões e beneplácitos internacionais. Não é por ser especialmente maléfica que brutaliza exemplarmente, embrulhado em papel de punição, as populações do Líbano. Aí estamos apenas ao nível da propaganda e contra-propaganda. Israel apenas mata mais que os seus inimigos porque dispõe de meios que o permitem e potenciam. Em termos estritos de vontade e maldade, provavelmente, os lados equivalem-se: os Hezzbollahs e Hammas seguramente desejariam matar mais e os Israelitas, obsidiados, encantados e seduzidos pela sua formidável panóplia sempre crescente, quase de cetrteza que não resistirão a dar-lhe excitante uso e, necessariamente, fatalmente, tenderão a ocasionar, de futuro, superiores morticínios. Desçamos pois à realidade: mais que moral, a questão é técnológica. Não são apenas os fins que justificam os meios; são previamente os meios que determinam e insuflam os fins. Desde há uns tempos a esta parte (posso escrever-vos um tratado sobre isto), mais que o homem utilizar a arma, dir-se-ia que é a arma que arrasta o homem. Eu, pelo menos, estou capaz de dizê-lo, alto e bom som. Por conseguinte, Israel faz o que faz não por singular perfídia, mas, principalmente, repito, porque tem armamento para o efeito. Quer dizer, tem ferramentas para a tarefa, meios para a empresa. Ou, pelo menos, acredita que os tem. Além de oportunidade, pretexto, cobertura e, em larga medida, impunidade, bem entendido. Os riscos de comparecer num tribunal Internacional, ao estilo de Nuremberga, são, convenhamos, no panorama actual, praticamente negligenciáveis. Antes deles, sentar-se-iam os americanos e os ingleses, em catadupa.
Entretanto, há quem diga que os métodos em curso em nada se distinguem dos utilizados pelos alemães -nem sequer da Wermacht, mas das SS -, sobre as diversas resistências dos países ocupados durante a 2ª Guerra Mundial. Recordo: por cada soldado alemão morto, ou acto terrorista de sabotagem (os Nazis também consideravam terroristas os resistentes e socorriam-se da lei internacional para o efeito), fuzilavam (torturavam, etc) um determinado número de civis avulsos. Em nome da acção psicológica, funcionava como punição que se pretendia operasse como dissuasão para futuros actos hostis. Pois bem, tecnicamente, a acção dos Israelitas em nada está a distinguir-se deste modelo pouco edificante. Como aliás não se distingue dos bombardeamentos estratégicos aliados, nessa mesma guerra, perdoem se vos relembro mas metódica e preferencialmente sobre alvos e infraestruturas civis; ou do terror stalinista sobre classes e grupos étnicos considerados reaccionários ou colaboracionistas; ou da repressão turca sobre os Arménios; ou da repressão dos terroristas Sioux, Cheyennes ou Apaches pela brava e heróica - toda ela investida e mandatada pela Civilização Ocidental - cavalaria americana; ou da razia dos romanos, no reinado de Tito, sobre os zelotas judeus; ou, só para terminar com dois casos gémeos mais recentes, os bombardeamentos da Sérvia e do Iraque (este reforçado com toda uma democratização a tiro que ainda prossegue). Portanto, tanto se pode chamar nazi à proeza israelita do momento, como democrata liberal, só para citar a dicotomia mais popular dos nossos arraiais e opinadouros. Além da algazarra típica da claque, como é bom de ver, tal gargarejo acaba por não definir nada.
Abreviando. Que quero então eu significar com tudo isto? Uma coisa muito óbvia e elementar, pelo menos para pessoas de boa fé e cultura média: a brutalidade, a desumanização (própria -para semi-deus- e alheia -para insecto), a carnificina desarvorada não têm sido património exclusivo de nenhuma época, povo, império, política, ideologia, religião, etc. É uma pena, mas é assim. Os episódios divergem no folclore da indumentária, mas repetem a rotina catastrófica do drama. A civilização, vista em profundidade, mais não tem sido que o verniz com que a barbárie pinta as unhas, o perfume delicodoce com que disfarça o suor da matança e o hálito asqueroso do festim necrófago. O império - o único que tem prevalecido e animado, em forma de instinto visceral, todos os outros - é o império da bestialidade, da treva, da ganância e da vaidade balofa, histriónica e psicopata do macaco de Deus.
Há um determinismo do mal? Estamos condenados a uma pocilga eterna, ao açougue perpétuo a boiar no espaço?
Que sei eu? Não ando também para aqui a tropeçar nas tripas, nos sonhos e nos testículos, perseguido por medos, fantasmas e preconceitos? Do que sei, ou julgo saber, é que, entre outras, há uma força da gravidade que nos puxa para réptil, que nos prende ao chão e um pensamento que nos empurra para cima, nos convoca ao céu. O problema é que, quase sempre em nome de fazer do homem um anjo - o tal progresso canonizador de todas as matanças e latrocínios, mais não têm obrado que enxertar asas no réptil. Ainda não voa, é certo, mas consegue cuspir o veneno cada vez mais longe.
Disso, ao menos, eu sei e posso quase falar de cátedra. Ainda reconheço falsos dragões quando os vejo.

E se insistirem num fecho moral para tão vil fábula, sempre ouso adiantar o seguinte, em jeito de enigma (algo anedótico, reconheço, mas é o que se pode arranjar):
As ferramentas, depois de se tornarem senhoras, ameaçam tornar-se tiranas. A caminho de escravos, nós já pouco mais somos que meros utensílios - armas ao serviço de mãos invisíveis. E, consequentemente, somos todos alvos.
Ninguém anda a massacrar civis, acreditem. Nem hoje, nem nunca. O que não se cansam de massacrar, desde os princípios dos tempos, é qualquer hipótese de verdadeira civilização. Sendo que o pior massacre de quantos existem decorre dentro da nossa própria alma e todos oficiamos nele.
Não duvido que o inferno esteja atulhado de boas intenções. Sobretudo quando, numa vida inteira, vou descobrindo que neste mundo reinam as piores. Por imperativo lógico, vejo-me assim forçado a dar razão a todos os filhos da puta desta terra: vivemos certamente no Paraíso. E quanto piores forem, as intenções, melhor ele fica.

segunda-feira, julho 17, 2006

Armagedão ou Rilhafoles?



Pergunta: Quem é NORIO HAYAKAWA

Resposta: Consultem o Google. Posso adiantar que é capaz de ser divertido.

Em Fevereiro de 2005, o Norio (não confundir com o Noddy) concedeu uma série de depoimentos solenes intitulados "MY THOUGHTS ON "UFOs" AND MY PERSONAL RELIGIOUS BELIEF", onde, a determinada altura confidencia (em resposta à inefável pergunta: Do you believe in the coming Rapture and in the coming Millenial Reign of Christ?) :

- "Yes, I believe in the coming Rapture, although the word itself is not in the Bible. I believe that born-again believers will be translated instantaneously (i.e.,"taken up", or "transferred" from one side to the other side, i.e., from the earthly plane to the heavenly dimension) and will meet the Lord in mid-air. In other words, in the "twinkling of an eye", our physical bodies will go through a mysterious, sudden transmogrification (a favorite word used by John A. Keel) and will be lifted up and will meet the Lord in mid-air. Our entire physical bodies, the tissues, the cells will go through a sudden, inexplicable atomic fission-like transformation. It almost sounds like a science fiction, but that is my personal belief as well as the personal beliefs of millions of believers on this planet. Thus I believe that we will be "evacuated" en masse to escape the Tribulation Period on earth. This obviously has not happened yet in history, but I believe that this incident could be the next main event in God's prophetic calendar or timeline. When we (the bride) meet the Lord (the Groom) in mid-air, there will be a 7-day "wedding celebrations" (equivalent of 7 earthly years), immediately after which the believers, with the host of heaven led by Christ, will descend on Israel at the Battle of Armaggedon, immediately after which there will be a 1000 year reign of Christ from Israel."


Por amor de Deus, não subestimem a lógica científica, religiosa, poética, ou o quer que seja, dum tal arrazoado. Não caiam de asneira de pensar que estamos diante dum simples maluquinho. Muito provavelmente, o actual presidente da maior potência militar ao cimo do planeta, um tal de George W. Bush, tem convicções e fantasias em tudo convergentes com este senhor.
Mas, além de peregrino do Armagedão, Norio, no cumprimento de louvável coerência, é igualmente um "surfer do Apocalipse". Do alto da sua prancha bendita, após leituras e augúrios decifrados nos puzzles celestes, expõe a diplomacia americana para o próximo quadriénio:
E logo de seguida, não é de modas:


Estes anseios são naturais em alguém que se imagina predestinado à salvação e à recompensa eterna, garantida e peremptória por via duma catástrofe planetária. Não podemos levar-lhe a mal, nem ser muito severos com ele. Uma tal esquizofrenia também pouco mais é que inócua ao nível dos israelatras alucinados cá da paróquia. Eventualmente, nos intervalos da vigília compenetrada dos meteoros, padecerão de idênticas visões elitistas e redentoras.
Para ser sincero, acho que apenas nos devemos preocupar um bocadinho no caso de sida mental desta, além destes pobres diabos, também já infectar a manada ao nível do cockpit. Aí, confesso: com todos aqueles arsenais e malucos associados à mistura, ainda é de temer alguma desgraceira das grandes. E se pensarmos que nos últimos anos outra coisa não têm feito que semear, cultivar e catalisar doidos semelhantes do lado oposto, alguns a soldo, outros nem tanto, é caso para repetir a frase mais recorrente aos sábios desde a noite dos tempos:
Pobre humanidade! Pobre planeta!...


Afinal, no jogo do ódio e da violência são essenciais duas partes. Ambas em furiosa competição para ver qual delas é mais estúpida, fundamentalista e obcecada. Por outras palavras: mais desvairada e perversa diante do espelho.