terça-feira, março 14, 2006

Marketing ou Censura?...

Daniel Estulin, um jornalista espanhol, escreveu um livro intitulado “Clube Bilderberg – Os Senhores do Mundo”. O que é curioso é ter vindo agora denunciar que o mesmo está a ser banido em Portugal.
Segundo ele, «alguém ligado à Temas e Debates, a editora que tinha planeado editar o livro, afirmou que o governo português está a pressionar para que este não seja colocado à venda».

«“The government and my publisher in Portugal are trying to suffocate this book because they are afraid it will create a groundswell that could turn into a populist movement in Portugal as it already has in Venezuela, Colombia and Mexico where the first edition of the book sold out in less than four hours and caused riots in front of the embassies,” Estulin said. “Due to the mainstream media blockade, you have not seen or heard [of this] on national television or in the press."»

Para ser sincero, não sei com que revelações bombásticas o digno senhor jornalista, ainda por cima espanhol, terá bordado a sua obra. A fazer fé no seu alerta, tratar-se-á duma espécie de Harry Potter da "teoria da Conspiração", capaz de gerar bichas (sim, bichas, e quero que as filas e demais brasileirismos se fodam!), engarrafamentos e tumultos. Seja como for, e mesmo que a coisa irradie de verdades cristalinas capazes de se enfiarem pelos olhos a dentro duma toupeira e causarem espasmos de indignação numa estátua, o gajo menospreza o Jardim Zoológico Zombie que aqui existe, ou melhor dizendo, a imensa e superlotada Sala-de-Chuto em que todo este país se tornou. Com seis milhões de agarrados ao Benfica, mais nove milhões de agarrados ao Crédito e os restantes agarrados às jugulares dos precedentes, não estou a ver como raio vai ele atear qualquer rastilho, ou bulir, um pintelhésimo que seja, com a fogoza catalepsia dos aborígenes.
Lavrado o meu cepticismo, aqui deixo, não obstante, a participação. Para que conste. Porque se isto é mais do que uma operação de marketing e há ponta de verdade no enredo, então...

segunda-feira, março 13, 2006

Xenofobia é que não!...(Fica mal numa puta).

Andava eu a perambular pelos arquivos desta espelunca, a recordar os tempos em que me dignava escrever por aqui, quando deparo com esta peça sempre actual:

A xenofobia é um vício muito desagradável. E não obstante, a nossa história, durante largos períodos dum passado infamante, é um cardápio completo de energúmenos afectados por essa alucinante mania. Uma vergonha! E o pior é que esses figurões, autênticos ferrabrazes trogloditas, não se ficavam pelos rosnidos, pelas bocas ao transeunte ou as cuspidelas da janela ao incauto. Não; em arruaças e batefundos que só visto, cismavam de implicar violentamente com as boas almas que nos visitavam, espancando-os não raras vezes até à morte.
Um D.Nuno Álvares Pereira, por exemplo, quereis exemplo mais gritante e escandaloso de xenofobia? Aquilo eram maneiras de receber turistas? Francamente!...E aquela padeira louca, desvairada, um estafermo boçal que em vez de servir almoçaradas e regueifas ao viandante, inventava de assestar com o utensílio de serviço nas trombas, certamente estupefactas, dos peregrinos?!...Irra, assim, com pergaminhos destes, não admira que enfileiremos na cauda das europas e do mundo. A tratar assim a putativa clientela, não há economia nem défice que resistam!
O Viriato, lembram-se dele? Nada menos que outro xenófobo exaltado... Com tão bom queijinho que podia vender aos estranjas, teimava, ao invés, de lhes despejar calhaus e pedregulhos pelos costados; de lhes largar avalanches em cima. Em vez de boas tendas e feiras, como o sensato marketing aconselhava, obcecava-se era de lhes armar emboscadas e mortificantes recepções pelos desfiladeiros. Um rústico! Ainda por cima, movendo guerra aos romanos, gente sofisticada, bem falante, evoluída, enfim: os americanos daquelas épocas. O baguinho que não se delapidou com tais peraltices. As heranças e os proveitos de vindouros que não se esbanjaram assim. Ainda hoje penamos de tanga, por causa de madraços que teimaram de não arriar a dita.
Não, a mim ninguém me convence do contrário: Estas taras nacionalistas é que têm dado cabo de nós. Estas extravagâncias dispendiosas com a independência, os valores patrióticos, a língua mãe, os ilustres antepassados... Ilustres?! Broncos, isso sim. Dissipadores! Mentalizai-vos: Celebrar essa malta arruaceira, hostil ao desenvolvimento e ao paraíso global, é comemorar o atraso, a parolice, o obscurantismo. O sacana do Estado Novo, entre outros, essa pandilha castrante, andou cinquenta anos a intoxicar-nos, a induzir-nos em tremendo erro. A enxertar-nos de ilusões malfazejas. Cretinos!...Felizmente que nos últimos anos todo um trabalho de descontaminação e lavagem tem sido levado a cabo por esta excelsa gente progressista -esta boa elite benemérita que faz o favor de nos guiar à redenção humanista e comercial. Graças à sua supervisão sempre benigna, por obra e graça duma indústria pedagógica desinfectante (verdadeira creolina do espírito, Deus os abençoe!), esses presumidos heróis que outrora nos impingiam (malditos sejam!) transparecem agora na sua verdadeira aura de traidores à pátria, retardadores maléficos do augusto mercado e do ufano nível de vida catita. Continuamos pobrezinhos mas já não somos estúpidos, já não enfardamos gato por lebre. Libertaram-nos dos antolhos, carago! Aprendemos a ter maneiras, maravilha! Assim, nem que seja a conta gotas, ao ralenti, como convém a gastrópodes, lá chegaremos!... É garantido. Pedalamos à retaguarda, mas vamos no bom caminho - e o importante, que diabo, é competir, é participar nesta fórmula 1 da ciganice.
Ardemos já não em xenofobia, essa peste, mas em xenofilia, esse enlevo. E clamamos deste rincão -a redimir-se, a saldar-se - doravante franco e sôfrego de alienígenas: Vinde, ó salvadores!, nada temeis: já não atiramos pedras nem azeite a ferver a ninguém!...Nem espetamos lanças nem piques nos excursionistas. Se dúvidas tendes, perguntai aos brasileiros, aos que nos embalam do alto das novelas e nos vistoriam por alturas de carnavais: eles atestar-vos-ão, em júbilo, o quão simpáticos e hospitabundos somos. Melhor não há. Até enjoa.
Ah, mas, graças a Deus, não tem sido em vão todo este esforço... Com que alacridade eles nos visitam e acodem de todas as bandas. E com que ainda maior alacridade, em formidável êxtase, nós, babosos, os recebemos: de sorriso alvar desfraldado nas ventas e a bisnaga de vaselina sempre pronta na mão.

domingo, março 12, 2006

Repressão e irresponsabilização

(...)a repressão só faz sentido e encontra razão de ser quando se sustenta no algo que é reprimido: se esse algo desaparecer é também a repressão que se desvanece. Até porque dizer “a repressão” como se esta existisse per si, num estado puro e separado de quaisquer relações, tipo “primeiro motor imóvel”, não faria qualquer sentido. A repressão, de facto, existe enquanto desempenho. Pressupõe, tanto quanto algo ou alguém que é reprimido, também algo ou alguém que é repressor. Ora, sendo a sua posição (dela, repressão) essencialmente parasitária, pode engrandecer-se, desmesurar-se, mas não autonomizar-se através da eliminação ou absorção total do hospedeiro. Aliás, não só isso comprovadamente não acontece, como se processa até um singular intercâmbio: na medida em que recrudesce, o parasita estimula o hospedeiro a que não esmoreça. Quer dizer, a repressão estatal fortalece-se e perpetua-se pela bestialização compulsiva e reincidente dos cidadãos. É preciso que eles sejam cada vez mais “livres”, “licenciados” e “desculpáveis” –ou seja: "selvagens" – para que, também ela, a repressão, se desenvolva, burile e engorde. Como na permuta entre a águia de Zeus e o fígado de Prometeu. O chicote do domador mede-se pela bravura da fera. Neste ponto, convenha-se, irrompe a nossa divergência frontal com Freud: a civilização ocidental, menos ainda no seu estágio actual, não progride segundo um aprofundar do sentimento de culpa, mas, ao contrário, pela desobstrução do seu sentimento de irresponsabilidade. Para isso se desembaraçou do Cosmos, da Natureza sacra, de Deus e de tudo o que lhe causasse entraves. De cada vez que se viu livre dum desses empecilhos, a aceleração no progresso foi nítida. Estivesse certa a tese freudiana, e teria sido, necessariamente, o contrário. De resto, o desavagamento principal na história da civilização tem sido precisamente o dos factores de culpa, enquanto, como já anteriormente deixámos bem exposto, factores de ligação a um fundamento exo-material. O que nos transporta a outra consideração útil: é que aquilo que se chama progresso, no Ocidente, corresponde a uma forma específica e exclusiva de progresso – o progresso material. E basta lembrarmos a civilização grega, essa idade de ouro da cultura, para constatarmos, amargamente, que esse progresso material, invariavelmente, se fez acompanhar dum retrocesso –parte incultivo, parte corrupção–, espiritual. Assim, mais que nítidos, tornam-se compreensíveis certos contornos aberrantes do nosso tempo: tecnologia de ponta nas unhas de Cro-Magnons. Um homem, por fora, epidermicamente, cada vez mais limpo, perfumado, sofisticado e equipado; mas por dentro, mentalmente, cada vez mais imundo, selvagem, embrutecido e incivilizado. Um homem que, dir-se-ia, na medida em que mais humaniza o mundo, mais se desumaniza a si próprio. Cite-se, a título de exemplo, o seguinte episódio anedótico: Quando, em pleno idílio hippie, se arvora o manifesto duma contra-cultura está apenas a levar-se uma farsa a píncaros inauditos – é que a cultura contra a qual a juventude - enfastiada e dispéptica - do flower power se erguia era já de si uma forma industrial de contra-cultura. Não tardaram a entender-se e abraçar-se. Afinal, os jovens só pediam uma aceleração no processo. E tiveram-no. Dez, vinte anos depois, são já eles, ao volante do bólide neo-liberal quem conduz a infâmia e galopa a selvajaria, com requintes e desprezos de fazer corar pais e avós.

Aforismo primaveril



«O amor é uma flor deliciosa, mas é preciso ter a coragem de a ir colher à beira dum precipício horrível. »
- Stendhal, "Do amor"

sexta-feira, março 10, 2006

A Genealogia do Matadouro -V. Assírios e paradigmas (1ªParte)

«Nada é mais estranho à mentalidade do oriente Antigo do que o amor pela paz, afirmado ruidosamente, ao longo de toda a História, desde os romanos até á época actual. Porque, para os reis de Assur e alguns outros, como os da Babilónia, do Urartu, ou os soberanos hititas ou kassistas, a guerra não é uma calamidade, mas um culto prestado aos deuses. A dignidade da guerra está no seu carácter religioso; o inimigo não só é um criminoso, como é um sacrílego e nenhum castigo será demasiado cruel. É claro que um bom despojo, em homens, em animais, em ouro ou em objectos preciosos, constitui um ganho não negligenciável, mas a economia não explica tudo. Muitas guerras, na verdade, só servem para afirmar um poder, um apetite de domínio, a vontade de hegemonia que são os móbiles determinantes das expedições que resultaram na constituição desses imensos impérios heteróclitos fundados por assírios, hititas ou babilónios.
Esta ânsia de poder traduz-se muito cruamente na condução da guerra e no tratamento dado aos países e aos povos vencidos. Não se contentam em pilhar, devastam; incendeiam as aldeias; arrasam as cidades e destroem as colheitas. Amontoam pirâmides de cabeças à entrada das cidades; degolam vivos os chefes inimigos; empalam prisioneiros e só deixam ruínas atrás de si. Adad-Nirazi II reivindica o título de aniquilador e a glória de Sargão é a de espalhar lágrimas para todo o sempre.
Os inimigos são sub-homens para os quais não pode haver piedade.»
- Guy Richard, "A História Inumana"


«Depois de tomar uma cidade, Assurbaníbal gabava-se: “Corto-lhes a cabeça. Asso-os no fogo, uma pilha de homens vivos e de cabeças contra a porta da cidade hei-se pôr. Os homens empalarei com estacas. A cidade eu destruí, devastei. Fiz dela um montão de ruínas, os jovens e donzelas na fogueira queimei”.
Esta espécie de chacina ritual é particularmente endémica na guerra de cerco, embora ocorra a seguir a acções de campanha. Claramente disrtinta do confronto táctico propriamente dito, parece mais estreitamente aparentada com experiências relativas à caça. Bastante literalmente, o vencedor põe de parte quaisquer sentimentos de vulgar humanidade e entrega-se à matança pela matança. Se era por faltarem ao homem os mecanismos inibitórios de um predador natural ou simplesmente por ajustamento cultural, é impossível dizer de momento. Mas a espécie humana, e particularmente os Assírios, pôs uma terrível capacidade ao serviço da causa da guerra e da política, uma capacidade que um dia levaria aos campos da morte de Auschwitz e à colocação de armas nucleares com populações urbanas por alvo.
Mas, como sempre, por detrás da sangueira andava o dedo calculista e o interesse egoísta. Mal parava a matança, começava o roubo e a exploração económica.»
- Robert L. O’Connell, “História da Guerra”

«Terminado o massacre dos habitantes de Ai tanto no campo como no deserto, para onde haviam saído em perseguição dos israelitas, depois de todos terem sido passados ao fio de espada, todo o Israel voltou à cidade, matando toda a população. O número dos que morreram naquele dia, entre homens e mulheres, foi de doze mil, todos da cidade de Ai. (...) Os israelitas tomaram para si os rebanhos e o espólio da cidade, conforme o Senhor havia ordenado a Josué. Josué incendiou a cidade de Ai, reduzindo-a para sempre a um montão de ruínas, como ainda hoje está.»
- Antigo Testamento, Josué, 24-27

quinta-feira, março 09, 2006

Instintos suicidas


«Norwegian Bourse Director wants oil bourse - priced in euros».
«Bourse Director Sven Arild Andersen is fed up with Norwegian oil having to be traded in London and wants to have a commodities and energy bourse in Norway.»

Decididamente, os escandinavos têm instintos suicidas!... Mais que de epidemia, aquilo está a ganhar contornos de cultura.
Não tarda nada, a Condolências Rice, com aquela x-ray vision que só os super-heróis possuem, aparece a revelar a todo um planeta estupefacto que este senhor Sven Anderson é nada mais nada menos que "Sven, o Terrível", o medonho e demoníaco inimigo do Vickie, o Pequeno Vicking e, concomitantemente, da Civilização Ocidental.

Chapéus há muitos!...(E barretes ainda mais).



«Suécia: polícias passam a poder usar turbantes e outros símbolos religiosos
Ou toucados de penas... Ou barretes de pai Natal... Ou gorros e cachecóis do Benfica... Ou bonés mais os respectivos penteados rasta... ou máscaras e carrapitos vudu... ou chapéus mormon... ou ossinhos de canibal... ou tonsuras monásticas... ou barretes de hooligan... ou capuzes do Klu-klux-klan... ou... enfim, há toda uma panóplia de modelos.
Congratulo-me. Afinal, não estamos sós. Não é só aqui, na lusa paróquia, como diz o outro, que é "carnaval todos os dias".
Falta-lhes agora legislar, presumo, sobre a roupa interior. Hoje em dia, nestes "países evoluídos", tão importante como policiar e formatar o que um gajo pensa é controlar que cuecas um gajo veste.
Mas, bem vistas as coisas, não surpreende que a Suécia, com todas as suas maravilhas sociais, seja o país da Europa com maior taxa de suicídio. Este, o dos barretes, é só mais um capítulo nessa mórbida senda. Em rigor, um sintoma evidente de que a epidemia já começa a alastrar dos cidadãos ao próprio Estado.
Ou então, que sei eu, estavam tão entediados, chateados com tanta perfeição social, que decidiram importar sarilhos. Não sei porquê, mas já imagino polícias suecos de turbante aos tiros a polícias suecos de "kippa"; e vice-versa.

Desentupir o cujo a meninos

Ao que julgo saber, depois dos históricos acordos com o governo português, a Microsoft, em Portugal, passa a ter uma denominação comercial exclusiva para o nosso país: Microlax.

quarta-feira, março 08, 2006

Grosseiro menosprezo



«Não há uma única mulher na lista publicada pela Fortune em Junho de 2005 dos 25 CEO (presidentes executivos) mais bem pagos da Europa».

Apesar de vir publicado num jornal, estou em crer que isto é verdade. E, segundo o emérito articulista, serve como prova acabada de um fenómeno deplorável que, apesar dos modernos avanços e louváveis reformas, ainda inquina a sociedade do nosso tempo: Continuam a dificultar -senão mesmo a vedar - o acesso das mulheres aos ministérios mais elevados da prostituição.
Teimam em considerá-las naturalmente adestradas para a prostituição física, mas inaptas e desajeitadas para a prostituição mental.
Um grosseiro preconceito e uma escandalosa falta de atenção, entre muitos outros palcos benditos, às colunas e redacções dos jornais, se querem a minha opinião. Subestimam, sim, menosprezam vilmente todos aqueles abnegados e ecléticos coirões.

Corcundilos e marrequinhos



«This was supposed to have been the big "gay" year at the Oscars, with "Brokeback," "Capote" and "Transamerica" all vying for major awards. »
(...)«"I think that's an absolute horror," said Brad Bruner, who is a leader in the Golden State Gay Rodeo Association. "It's an outright sign of homophobia in our country. ('Crash') won no awards before this. It makes me sick."»

Para quem acha que Hollywood não cumpre "agendas"...
Mas chamo a atenção para a hilariante "Gay Rodeo Association". Isto até me leva a suspeitar que nos States já exista também a "Gay Rambo Association". Aliás, diabos me levem se todo aquele ambiente sado-masô dos cárceres democráticos, aqueles filmes necroporno de Abu-Ghraib e outros campos de concentração que tais, não são já uma clara manifestação disso mesmo. Tremam, homofóbicos: o Pink-Empire vem aí!...

terça-feira, março 07, 2006

A Genealogia do Matadouro - IV. Arménia

«Em 1887, surgiu [na Arménia] um Partido Revolucionário Hintchakista, multiplicando as manifestações que tiveram por resposta uma terrível repressão. Além disso, tinha-se constituído na parte russa da Arménia uma federação revolucionária arménia de carácter nihilista, a Daschnakzuthiun. Guerrilhas, emboscadas, repressões, massacres tornaram-se o clima normal de uma boa parte da Arménia. O verdadeiro levantamento acabou por eclodir em 1874 e as potências enviaram delegados para verificarem os massacres de que eram vítimas os arménios refugiados nas montanhas de Sassun. A comissão internacional concluiu, após inquérito, em 28 de Julho de 1895, pela ferocidade dos turcos e dos curdos. Massacrados milhares de arménios sem distinção de idade ou de sexo, perseguidos como animais ferozes, o sultão ganhou tempo, prometendo reformas que não pensava cumprir, mas aplicou de facto o projecto que ele preparava há muito tempo: a liquidação dos arménios. (...) O massacre ia agora propagar-se de província em província. No validato de Trebizonda, a carnificina fez 600 mortos (na cidade), foram destruídas 34 aldeias em redor e 2100 arménios assassinados; em Erzerum o massacre fez mais de 1000 mortos; a lista dos validatos arménios de Bitlis, de Van, de Karput, de Diarbekir, de Sivas, de Alep, de Adana e de Angora é uma litania de massacres, de vítimas degoladas, queimadas vivas, massacres organizados, começando a horas fixas, desenrolando-se em toda aparte onde as potências exigiam reformas, e de modo algum fortuitos, porque muito bem organizados. (...) Mais de 200 000 pessoas pereceram nesses massacres, sem ter em linha de conta as conversões forçadas, as mulheres levadas para os haréns (cerca de 100 000), as 2 500 aldeias destruídas, os milhares de casas incendiadas. Junte-se a tudo isso as epidemias de peste e de cólera e o êxodo de perto de 200 000 arménios para a Transcaucásia, para a Europa e para a América.
As potências combinaram não intervir na Arménia porque, dados os seus interesses económicos no Império Otomano, já não reclamavam a execução das promessas de reformas.
(...) A Revolução dos Jovens Turcos, em 1908, levou ao poder um partido violentamente panturco que, depois de perder uma quarta parte do Império nas lutas com os cristãos dos Balcãs, de 1908 a 1914, foi levado pelo vento de demência que então soprava sobre a Turquia humilhada, e que não previa outra solução para as minorias, especialmente a arménia, que não fosse o genocídio.
Em 1909, a Cilícia foi devastada e mais de 20 000 pessoas assasssinadas. A reconquista da sua capital Adana desenrolou-se num horror sem nome (pessoas esfoladas vivas, fuziladas, esventradas, crucificadas, cortadas aos bocados...).
Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu em 1914, o laço voltou a apertar-se para os arménios (...). A tempestade foi desencadeada no mês de Abril de 1915 em três pontos diferentes: Zeitsun, Van e Constantinopla. O massacre foi geral e total, preludiando uma deportação das populações arménias para os quatro cantos do Império, onde a maioria nunca chegaria, massacrada ou morta de fome no deserto da Mesopotâmia ou da Síria. A placa giratória da deportação estava em Alep, de onde partiam as caravanas para os campos da morte. Em 1917 não restavam mais do que 45 000 deportados, os outros desapareceram nas montanhas ou nos desertos. 1 200 000 a 1 500 000 foram vítimasa do genocídio, numa população total de 1 800 000 a 2 100 000. (...(
Se o tumulto dos massacres perturbou os cônsules, mal chegou à porta das embaixadas e, de qualquer maneira, a emoção que provocou esfumou-se perante os interesses superiores dos governos. »

- Guy Richard, "A História Inumana"

Embora se tenha posteriormente naturalizado britânico, Calouste Gulbenkian era arménio de nascimento. Veio ao mundo em Istambul, em 1869, e morreu em Lisboa, no ano de 1955. Legou a Portugal a sua mais importante e meritória Fundação. Felizmente para nós, (e, sobretudo, para ele) não partilhou do destino de tantos dos seus patrícios.

segunda-feira, março 06, 2006

A Genealogia do Matadouro - III. América: O espeto e a Cruz



Relato de Hans Staden, um mercenário alemão ao serviço da coroa portuguesa, após um estágio de cativo entre uma tribo canibal (do qual, pelos vistos, escapou miraculosamente cru e não esquartejado):
«O executor volta a pegar na moca, aproxima-se do prisioneiro e diz-lhe: “Aqui estou! Venho para te matar; porque os teus mataram e devoraram um grande número dos meus.” O prisioneiro responde-lhe: “Quando eu morrer, os meus amigos vingar-me-ão.” No mesmo instante o executor vibra-lhe um golpe na cabeça, que faz saltar os miolos. As mulheres apoderam-se então do corpo, arrastam-no para o fogo, esfregam-lhe a pele para a lavar, e metem-lhe um pau no traseiro para que nada se perca. Quando a pele está bem esfregada, um homem corta os braços e as pernas acima do joelho. Quatro mulheres apoderam-se dos seus membros e começam a correr à volta das cabanas, soltando grandes gritos de alegria. A seguir abrem-no pelas costas, e dividem os bocados. As mulheres ficam com as entranhas a que chamam mingau, que dividem com as crianças; devoram também as entranhas, a carne da cabeça, os miolos e a língua; as crianças comem o resto. Assim que tudo acaba, cada um agarra no seu bocado e regressa a casa; o executor acrescenta um nome ao seu, e o chefe traça-lhe uma linha no braço com o dente de um animal selvagem. Quando a ferida sarar, a marca continuará a ver-se, e eles olham esta cicatriz como um sinal de honra...Vi todas estas cerimónias e assisti a elas.»
- J-.P. Duviols, “L'Ámerique espagnole vue et rêvée

«O canibalismo, como se vê, dá matéria para uma alegoria da América. Porque ele está em todo o lado: à medida que os conquistadores acentuam a sua penetração no continente, descobrem cada vez mais tribos antropófagas e a América, de efémero paraíso terrestre que tinha aos olhos de Colombo, torna-se, a despeito dos seus esplendores e por via da forte atracção que continua a exercer sobre os recém-chegadoas, uma espécie de inferno povoado por demónios sanguinários que só pensam em se entredevorar.
Foi esse incontestavelmente o sentimento de Cortez e dos seus companheiros quando abordaram as costas do império Azteca. Logo à sua passagem em Cozumel descobriram no alto das pirâmides maias os altares onde se praticavam os sacrifícios humanos e recolheram pouco depois, em Zempoalla, Tlaxcala, da própria boca das populações submetidas, os primeiros testemunhos sobre o terrível imposto de sangue. Ao capitão espanhol não foram oferecidos, entre os presentes que lhe mandou o imperador Moctezuma para o acolher (mas sobretudo para o pôr à prova) alguns nacos de carne humana? Não sentiu toda a tropa desagradáveis arrepios quando, fazendo a sua entrada solene em Tenochtilan no meio da multidão, viu ao longo das plataformas os alinhamentos de crânios espetados nos tzompantlis? Desde há alguns lustros, a “guerra florida” –cujo objectivo confessado era o de cobrar ao inimigo o sangue precioso destinado ao Sol – tornara-se o pilar do império Méxica. Cavaleiros-águias e cavaleiros-jaguares deviam entregar aos sacerdotes um número crescente de vítimas, porque os deuses tinham uma sede terrível. Os cronistas contam que, em 1487, aquando da inauguração do templo Mayor, houve sacrifícios ininterruptos durante quatro dias, do nascer ao pôr do sol. Teria havido, segundo Torquemada, 72 344 vítimas, mais de 80 000 segundo as estimativas de Durán e de Ixtilxochitil, só 20 000 para Acosta; número enorme, em qualquer caso, mas que dá uma fraca ideia das exigências reais de um ritual constantemente renovado, em nome do qual se sacrificava de verdade, sem fazer contas.
Desculpam-se tanto mais facilmente o medo dos espanhóis quando alguns deles, feitos prisioneiros, foram executados diante dos olhos dos seus companheiros de armas durante o cerco a México. Um medo sem paralelo com o terror que reinava entre as populações submetidas, porque os aztecas tinham elevado a morte-espectáculo à condição de sistema de governo.»
- Bernard Fouques, “História Inumana”

Por um lado, estes “bons selvagens” deixam a fantasia de Rousseau um tanto ou quanto maltratada. E é pena, porque não deixa de ser uma tese enternecedora que ainda hoje em dia comove muitas almas sensíveis da paróquia. Mas, mesmo para estômagos tão tolerantes e indulgentes quanto os nossos, uma antropofagocracia é um bocado intragável. Por outro, a sua selvajaria - sobretudo glutona- não deixava de ser providencial, especialmente para os galhardos espanhóis que, bons crentes no amor ao próximo, ardorosos paladinos da verdadeira fé, trataram de desembaraçar-se o quanto antes de quaisquer escrúpulos ou humanitarismos, e desataram numa selvajaria ainda maior. É uma lei antiga e recorrente: para acabar com um Terror só um Super-terror. Las Casas, um pregador escandalizado com tão generosas violências dos seus compatriotas, deixou-nos um relatório famoso. «Preocupado em apresentar um catálogo completo, não hesita em repetir incansavelmente os mesmos abusos cometidos de uma expedição a outra: mulheres esventradas, recém-nascidos arrancados às suas mães, precipitados dos rochedos, afogados nos rios, homens espetados em grupos de treze e queimados vivos, em honra de Cristo e dos seus apóstolos, vítimas atrozmente mutiladas como exemplo, todas as cenas ilustradas por De Bry (...) Por vezes, parecendo aliviar o seu cerco, ele dedica-se a descrever o repouso do guerreiro: um, regressado de uma caçada de mãos a abanar, não encontra outro exutório senão saciar o apetite dos seus cães com a carne de uma criança que cortou aos bocados para o efeito; outro dedica-se a engravidar as índias que possui para obter um melhor preço no mercado de escravos. Presente em todas as páginas, o horror deixa subitamente de ser gratuito. Ele serve para denunciar a “tirania” dos espanhóis, ou seja os abusos de poder cometidos por eles contra toda a justiça, assim como a sua insaciável cupidez: dois vícios muito graves na época.»
- Bernard Fouques, idem
Para os apreciadores de números, no fim da "Conquista", estima-se entre 30 e 70 milhões o número de vítimas índias da mesma. Tratando-se de vítimas de segunda, senão terceira, categoria, o número, como é usual em assuntos históricos, está aberto a discussão e investigação.
Para a história fica o engenho e a arte com que nuestros hermanos praticamente varreram Aztecas, Incas e Maias da superfície do planeta.
Escusado será dizer que o relatório de Las Casas, em pouco amenizou as penas dos indígenas. Uma vez publicado, apenas serviu como munição e pretexto aos inimigos de Espanha, na época (Franceses, Ingleses, Holandeses et al) para, por seu turno, justificarem as suas pressurosas atrocidades contra os súbditos de Suas Católicas Majestades, bem como a bondade na urgência das mesmas. No seu lado negro, a civilização nunca deixou de ser uma corrida. Só que, nesse caso, à desumanização.

Blogoscopia com Todos

Até aqui, dizia-se (e eu confirmo), sempre que Pacheco Pereira espirrava, a blogosfera constipava-se. Pois bem, louvemos ao Alto, parece que, finalmente, surgiu uma alternativa - ou reforço na dose, para os menos optimistas. É isso mesmo que estão a pensar: Agora, de cada vez que Vasco Pulido Valente, numa das suas inexoráveis e frenéticas patrulhas púbicas, descobre um chato (Phtirus pubis), a blogosfera coça-se.
A moral desta pequena fábula parece evidente: mesmo a elite dos papagaios precisa de um mote. Ou duma audiência, vai dar ao mesmo.
Isto, acrescido a um fenómeno muito simples e sobejamente diagnosticado: não é o país que é pequeno; as inteligências é que são minúsculas. Já que pelas colunas vertebrais não adianta perguntar: são desprezíveis. Em termos de atrito, entenda-se.

United States of Amnesia



Não sendo escritor com cujas obras eu alguma vez tenha perdido o meu tempo, Gore Vidal lançou, todavia, um novo livro. É o título que eu acho uma delícia. Ora oiçam:
"Imperial America: The United States of Amnesia."

"United States of Amnesia"... Se o resto do livro estiver à altura do título, é desta que o homem ganha a imortalidade.

domingo, março 05, 2006

A Genealogia do Matadouro - II. Irlanda

«Por volta de 1155, o papa Adriano IV teria concedido um direito de suserania sobre a Irlanda ao rei de Inglaterra, Henrique II. Os ingleses começaram, assim, a conquista da ilha, mas o seu domínio limitou-se durante longo tempo ao Pale, a costa oriental dos arredores de Dublin. Foi necessário esperar os Tudor para que os ingleses empreendessem a submissão de toda a ilha. Mas o ódio dos irlandeses, provocado pelo monopólio das terras, encontrou um novo alimento quando Henrique III tentou impôr o protestantismo. As lutas contra as novas confiscações de terras e a instalação dos colonos escoceses agravaram-se e tomaram o aspecto de uma verdadeira guerra religiosa.
EM 1641, novas ameaças de confiscações provocaram uma grande rebelião que durou mais de 10 anos e foi esmagada por Cromwell. Em 1649, este massacrou as guarnições irlandesas de Drogheda e de Wexford e empreendeu o extermínio total da população. Ao fim de 11 anos de lutas insurrecionais e de repressão, numa população inicial de 1 466 000 pessoas, 616 000 tinham sido mortas e as suas terras confiscadas tinham sido distribuídas pelos soldados de Cromwell ou por “empresários” que as obtiveram por adjudicação. O trabalho dos chacinadores foi prolongado pela instituição de tribunais especiais a que foi dado o nome de “tribunais de matança”. Entre 30 000 e 40 000 irlandeses emigraram para a Europa ou para a América. Por seu lado, os Ingleses venderam como escravos à Jamaica e aos Barbados 60 000 crianças, mulheres e raparigas. Os irlandeses sobreviventes foram acantonados numa única província do Oeste, o Connaught, para onde os ingleses os empurraram aos gritos de: “into Hell, into Connaught!” A restauração manteve este sistema e o Establishment Act de 1660 sancionou oficialmente as mudanças de propriedade.
Em 1704, Guilherme III promulgou leis penais terríveis, que proibiam aos irlandeses a compra de terras e decidiam igualmente sobre a partilha das que eles possuíam quando da sua morte: os mesmos textos fechavam aos irlandeses toda a hipótese de acesso a uma função pública.
Em 1800 a dominação inglesa agravou-se com o Acto de União que retirou toda a autonomia à Irlanda, não lhe deixando mais do que o direito de ter deputados na Câmara dos Comuns. Esta dominação apoiava-se igualmente na Igreja Anglicana, a única oficial, a quem os Irlandeses, católicos, deviam pagar a dízima, e na estrutura agrária resultante da conquista: a maior parte da terra pertencia a grandes proprietários ingleses, que tinham o direito de despedir como lhes aprouvesse os seus rendeiros irlandeses.
O ódio contra a Inglaterra ia aumentar durante a terrível fome de 1846-1848, que provocou a morte de 500 000 irlandeses e a emigração para a América de outros dois milhões. O liberal Gladstone tentou resolver o problema: fez votar o desestablishment da Igreja Anglicana (1869) e as leis agrárias de 1870 e 1881; mas foi derrotado em 1886 no seu próprio partido quando propôs o Home Rule que fez finalmente aprovar em 1912, 1913 e 1914, apesar da oposição de lordes, de conservadores e dos ulsterianos protestantes. De resto, o Home Rule já estava ultrapassado, em 1914, pelos independistas do Sinn Fein que, após o fracasso da insurreição da Páscoa de 1916, chegaram ao poder em 1918. Em 1921, a Inglaterra reconheceu a independência de uma Irlanda amputada do Ulster, onde os irredutíveis do IRA se refugiaram no terrorismo activo.»

- Guy Richard, “A História Inumana, massacres e genocídios das origens aos nossos dias”


Registem-se algumas tipificações do processo: etnocídio ou purga étnica; extermínio planeado e executado ao longo de séculos; motivação essencialmente espoliadora; pretexto religioso. Julgo que os ingleses -os diligentes funcionários dos "tribunais de matança", por exemplo-, durante todo esse tempo, não padeceram de grandes interrogações morais ou angústias metafísicas acerca da justeza dos seus propósitos, bem como das proezas e preceitos inerentes. Aliás, nesse departamento, convém que nos vamos desde já habituando a uma espécie de paradigma: questionar essa boa gente sobre tão extravagantes escrúpulos faria o mesmo sentido (e obteria certamente a mesma resposta) que colocar equivalente problema aos zelosos funcionários dos nossos matadouros municipais.

A Genealogia do Matadouro - I. Introdução



«Somos virgens no horror como na volúpia. (...)
Era então uma criança e fazia-me medo, a prisão. É que não conhecia ainda os homens. Agora nunca mais acreditarei no que eles dizem, no que eles pensam. É dos homens e só dos homens que devemos ter medo.
E quanto tempo será preciso durar a sua loucura para que parem finalmente esgotados, esses monstros?»
- Céline, "Viagem ao Fim da Noite"


O massacre –o extermínio em massa -, não é património exclusivo de nenhuma época, civilização, povo, nação, regime, seita, classe ou ideologia. Varia nos métodos, nos motivos, nas ferramentas, nas razias, nas peripécias, nos saldos contabilísticos e até nos léxicos, mas porfia na constância com que acompanha, em lúgubre comitiva, as evoluções invariavelmente sanguinárias da espécie humana. Recanto sinistro, cruel e desapiedado do homem, a carnificina, como a história universal atesta à exaustão, não o larga para onde quer que ele vá (e, desde Caim, ele tem ido a muitos sítios e cirandado por todo o lado). É mesmo, dir-se-ia, o seu mastim de serviço, o seu mais fiel cão de fila, o sabujo predilecto, sempre fogozo e disponível, nas suas depredações e caçadas. Isto, à primeira vista, para quem, sensível ou enauseado, guarde uma certa distância. Mera ilusão! Um olhar mais atento e perscrutante não tarda a dissipar tal conceito. Na verdade, o mais íntimo companheiro da alma humana não é um cão: é uma hiena.
A viagem pelos abismos que ora se inaugura é uma digressão fria e desapaixonada à hiena que habita as entranhas de todos nós, seja qual for a indumentária ou maquilhagem em que esse abençoado “todos” –nunca duvidem - se reveste. Ou melhor, se mascara.

sexta-feira, março 03, 2006

Chigalevices

«Chigalev continuou então o seu discurso:
- Tendo consagrado toda a minha energia ao estudo da organização da sociedade futura, que virá substituir o estado de coisas actual, cheguei à conclusão de que todos os autores de sistemas sociais, começando pelos antigos até ao nosso ano de graça de 187..., não passam de uns fantasistas, de uns tolos que se contradizem e não compreendem nada de ciências nem deste animal estranho que se chama homem. Platão, Rousseau, Fourier, tudo isso é bom para os pardais e não para uma sociedade humana. Como, porém, é necessário definir esta nova forma de sociedade neste momento em que nos preparamos para entrar em acção, proponho o meu sistema de reorganizar o Mundo. Aqui está -disse, batendo com o punho sobre o caderno. - Gostaria de espor o resumo do seu conteúdo perante esta assembleia, mas sei que teria de acrescentar várias explicações verbais; a exposição não poderia ser feita em apenas dez noites, conforme o número de capítulos. (Ouvem-se risos.) Quero, além disso, declarar já que a minha obra ainda não está concluída. (Novas risadas.) Embaracei-me com os elementos colhidos e as conclusões estão em oposição com a ideia inicial: comecei pela liberdade absoluta e cheguei a um absoluto despotismo. Acrescentarei, todavia, que fora da minha solução a sociedade não pode achar outra fórmula.
Os risos aumentavam cada vez mais, principalmente da parte dos jovens. O rosto da senhora Virguinski, o de Liputine, o do coxo reflectiam uma espécie de despeito.
- Se o senhor não conseguiu elaborar o seu sistema, se chegou a uma decepção, que quer que a gente faça? - observou prudentemente um dos oficiais.
- Tem razão - respondeu Chigalev, em tom categórico. - Em especial quanto ao emprego da palavra "decepção". Sim, cheguei a ela e contudo o que exponho no meu livro é justo. Não há outra saída, ninguém será capaz de a inventar! É por isso que me apresso a convidar a sociedade a escutar o meu trabalho durante dez noites consecutivas e a exprimir em seguida a sua opinião. Se não querem ouvir, separamo-nos já. Os homens voltarão aos seus negócios, as mulheres aos seus afazeres domésticos, pois que, rejeitando o meu livro, repito que não há outra saída. Ne-nhu-ma! E se se perde o tempo, prejudica-se a causa comum, porque se voltará inevitavelmente ao mesmo sistema!
A reacção foi diversa. Houve quem perguntasse com os seus botões: «O homem estará doido?»
- Em resumo, tudo se reduz à decepção experimentada por Chigalev - concluiu Liamchine. - A questão primordial é de saber se sim ou não ficamos decepcionados.
- A decepção de Chigalev é assunto pessoal - declarou o aluno do liceu.
- Proponho que se vote para saber a que ponto a decepção de Chigalev está relacionada com a causa comum e ao mesmo tempo escutar ou não - lembrou o oficial, irónico.
- Não é isso - interveio o coxo. Costumava acompanhar as palavras com um riso escarninho, de modo que era difícil concluir se falava a sério ou se estava a brincar. - Não é isso. O senhor Chigalev mostra muita devoção pela sua obra e também muita modéstia. Conheço o livro dele. propõe como solução final dividir a sociedade em duas partes desiguais. Um décimo dela gozará da liberdade pessoal e terá o direito de domínio absoluto sobre os nove décimos restantes. Estes devem perder a sua individualidade para se transformarem numa espécie de rebanho. A obediência cega conduzi-los-á de transformação em transformação até à inocência primitiva, no género de paraíso terrestre, se bem que fiquem obrigados a trabalhar. Os meios que o autor nos apresenta para arrancar aos nove décimos da humanidade o seu livre arbítrio e os transformar em seguida num rebanho como processo de reeducação de gerações inteiras, são deveras notáveis. Baseados no estudo de elementos naturais, têm perfeita lógica. Pode-se não estar de acordo com certas conclusões do autor, o que não se pode é duvidar da sua inteligência e do seu saber. É pena que a cláusula das dez sessões seja incompatível com as circunstâncias; doutro modo, poderíamos ter ensejo de aprender muitas coisas interessantes.
- Isso é verdade? - perguntou a senhora Virguinski, um tanto inquieta. - Este homem, como não sabia o que fazer do povo, reduziu-o em nove décimos à escravidão. Há muito tempo que eu desconfiava disso.
- Refere-se ao seu irmão? - volveu o coxo, admirado.
- São parentes? Estão a troçar de nós?
- E além disso -acudiu a estudante - trabalhar para os aristocratas e obedecer-lhes como se fossem deuses é uma cobardia.
- O que proponho não é cobardia, mas um verdadeiro paraíso terreal. Não pode haver outro - retrucou Chigalev, com autoridade.
- Quanto a mim - disse Liamchine -, em lugar do paraíso eu teria dado cabo desses nove décimos, se não se sabe o que se há-de fazer deles; e conservaria à face da terra um grupo de pessoas instruídas, capazes de organizar a sua vida segundo os termos da ciência.
-Só um lobo é que pode falar assim - disse a estudante.
- É um lobo, mas um lobo útil! - segredou-lhe a senhora Virguinski.
- E essa seria talvez a melhor solução! - retorquiu Chigalev prontamente, voltando-se para Liamchine. - nem calcula que ideia profunda conseguiu exprimir, senhor chocarreiro! Mas como a sua ideia é pouco mais ou menos irrealizável, temos de nos contentar com o paraíso terreal, já que assim o designámos.
- Que súcia de disparates! - comentou Verkovenski, ainda ocupado a cortar as unhas e sem levantar os olhos.
- Disparates, porquê? - replicou o coxo, como se estivesse à espera desta frase para entabular discussão. - O senhor Chigalev é evidentemente um fanático da filantropia; mas lembre-se que se encontra em Fourier, em Cabet, e até em Proudhon, grande quantidade de soluções das mais despóticas e fantásticas. O senhor Chigalev propõe-nos uma solução mais prática. Depois de ler o seu livro, não se pode deixar de concordar com certas coisas que lá vêm. Talvez ele esteja mais próximo da realidade do que qualquer outro! O seu paraíso terrestre é quase igual àquele que a humanidade perdeu, se é que existiu.»

- Dostoievski, "Os Demónios"

quinta-feira, março 02, 2006

Metafísica

«Por vitalidade de uma nação não se pode entender nem a sua força militar, nem a sua prosperidade comercial, coisas secundárias e por assim dizer físicas nas nações; tem de se entender a sua exuberância de alma, isto é, a sua capacidade de criar, não já simples ciência, o que é restrito e mecânico, mas novos moldes, novas ideias gerais, para o movimento civilizacional a que pertence. É por isso que ninguém compara a grandeza ruidosa de Roma à super-grandeza da Grécia. A Grécia criou uma civilização, que Roma simplesmente espalhou, distribuiu. Temos ruínas romanas e ideias gregas. Roma é, salvo o que sobremorre nas fórmulas invitais dos códigos, uma memória de uma glória; a Grécia sobrevive-se nos nossos ideias e nos nossos sentimentos.»
- Fernando Pessoa, "A Nova Poesia Portuguesa"

Um pequeno reparo: não sou tão optimista quanto àquilo que Roma fez com a Grécia. Basta atentarmos na distância praticamente insuperável entre o circo e a tragédia. Ou entre o amor à terra e o amor às riquezas.
Não há nada mais metafísico que o amor à terra. Esse abismo donde provimos e que espera toda a vida por nós. Essa fundação primordial e derradeira...
A minha igreja são árvores. E a minha terra foi fundada por Ulisses.
A Pátria não se discute: ama-se, sente-se, padece-se. Herda-se como se herda esta carne de condenados ao patíbulo da vida. Não é um objecto da nossa faculdade mais pobre -o entendimento, mas um suspirar do nosso órgão mais profundo - o coração. Um "suspiria de profundis". Por isso mesmo, muito mais que a facilidade rasteira e peçonhenta de odiarmos outros, quaisquer outros e por quaisquer razões, é a coragem de gostarmos de nós. Sempre. E sobretudo nos piores momentos, quando tudo parece perdido, quando a derrota e o desalento alastram, quando a cobardia triunfa e a traição viceja, quando a estupidez e a inteligência se geminam e o espelho nada mais teima em devolver-nos que reflexos execráveis, relances ominosos de aleijões, prostrados, rastejabundos e malquerentes. Porque é nos precipícios da fraqueza, nos abismos da descrença, da exaustão e até do horror que o ordálio acontece. É aí que se separam as águas e se joeira a colheita. Coragem não têm aqueles que fazem do coração tripa e mendigam reboque na força alheia, hospedaria em vigores a crédito. Não, coragem têm-na aqueles que são capazes de fazer das fraquezas forças. E das próprias tripas, coração.
Tem uma pátria quem a merece. Conceitos, lógicazinha de passerelle para modelo de virtudes em desfile de modas, qualquer maltrapilho mental ou indigente moral alcança. É uma questão de indumentária, penteado, maquilhagem - cosmética, enfim. Nenhum maldizer ultrapassa o excremento se não servir de máscara -de epiderme - a um bemquerer profundo. Ciência de palha, fantasia de espantalhos se não houver um coração a bater e a amar lá dentro. Não se pensa, nem se diz, a pátria: quer-se.
É quando tudo parece perdido que um homem se encontra. Como é na descida -suja e tenebrosa - da raiz ao fundo do abismo que a árvore encontra a força que lhe permite erguer os ramos à luz e ao ar límpido dos céus.
Quanto ao corpo, esse tão sobrecantado altar dos umbigos canoros do nosso tempo, desenganem-se os acólitos do jardim das delícias: é uma mera oportunidade que o cosmos nos dá... de utilizarmos uma coluna vertebral. Chama-se, a esse prodígio, verticalidade. E, curiosamente, aprende-se com as árvores. Muito mais que com os sacerdotes de todas as doutrinas. E jamais em concursos de beatos ou fariseus.
A Pátria, esta a que eu pertenço, que não entendo e apenas pressinto, é janela para o cosmos, para lá da mundanidade, para lá dos apetites e dos cansaços, centelha de grandeza em toda esta minha quase infinita irrisão, irredutabilidade e luta perpétua do bemquerer contra as amarras tentaculares do bem-estar. À bênção de quem a esquece, hei-de sempre preferir ir ser maldito com ela.
Há, de facto, uma vontade que me ata ao leme. De algo muito maior que eu.

quarta-feira, março 01, 2006

Lost Dragon



As buscas prosseguem. Uma coisa é certa: ele dorme algures por aqui.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Sursum corda



Peço desculpa por esta interrupção. O Dragão segue dentro de momentos.

A Deus o que é de Deus, ao Dragão o que é de César.

A caverna - pois, esse tugúrio!- tem deveres.

(Quanto à estima que vos devoto, ó amigos virtuais, subentendam-na. Manifestá-la aqui por palavras arruinaria de vez a péssima reputação e o mau nome que tanto me custaram a granjear.)

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

REQUIEM

Dizem que a morte ceifa, mas o tempo ensinou-me que não. Não ceifa, escava, vai escavando. Um fosso à nossa volta. Os poetas chamam-lhe solidão. Eu, que sou um bruto, chamo-lhe desolação. Desculpem lá isto não estar a sair muito literário, mas ontem ela veio escavar mais um pouco em meu redor. Um pouco, para ela, um quase nada; mas um muito para mim.
Mais que o erro, disso não tenho dúvidas, é a estupidez que é humana. Prova eloquente dessa triste condição é que só quando as perdemos, às pessoas, é que descobrimos o quanto gostamos delas.
Estou de luto. E nos próximos tempos, que me perdoem os meus amigos virtuais, mas não terei cabeça para estas nossas tertúlias. Até porque tenho que ir fortificar e cerrar fileiras com as poucas pessoas reais que me restam.


TRÊS CANÇÕES DE DESPEDIDA

I

Porque é que tudo aqui
tem que ter um Fim?
Já gastei os meus olhos
ainda mal te vi.

Porque é que tudo aqui
tem que ter um Fim?
Já lá vem a morte
ainda mal vivi.

Porque é que tudo aqui
tem que ter um Fim?
Já me fechas os olhos
ainda mal os abri.

II

Agora a montanha perdeu o sol
agora o rio desaguou no mar,
e Deus acendeu outra estrela no céu
lá longe, onde só o coração pode chegar.

Agora o dia perdeu a luz
agora a lágrima abandonou o olhar,
e tu entregas a tua cruz
Àquele que ta ensinou a carregar.

III

Requiem

Nasce-se para morrer
Começa-se para acabar;
Quanto mais a vida te der
mais, no fim, te vai tirar.

Entra-se para sair
corre-se para parar;
Quanto mais alto subir
de mais alto se vai despenhar.

Ganha-se para perder
vive-se para tentar,
Do fundo do meu Ser
está o Abismo a reclamar.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

O Vale dos Lobos ou das Lágrimas


Nos anos trinta, Joseph Goebbels, o génio do mal por detrás do III Reich inventou a receita: O cinema como a mais poderosa arma de propaganda. Posteriormente, os Estados Unidos, através duma indústria à escala global, desenvolveram e aperfeiçoaram a técnica. Agora, do lado muçulmano -na Turquia, mais exactamente-, querem mostrar que também são capazes.
O filme chama-se "Valley of the Wolves", e está a causar furor e lotações esgotadas.
A história desenrola-se a partir de um episódio factual: o aprisionamento de forças especiais turcas no Norte do Iraque pelos americanos (peripécia que até hoje foi considerada uma humilhação nacional e, pelos vistos, está longe de estar esquecida).
Ao longo da fita, rezam as crónicas, os americanos são exibidos como autênticos ogres, "que disparam à queima roupa sobre crianças e sacam órgãos aos prisioneiros Iraquianos, que enviam depois para Israel, Estados Unidos e Inglaterra", entre outras proezas meritórias.
Depois da histeria com os cartoons e da revelação do vídeo britânico, aí está mais gasolina para a fogueira.
Por regra, não gasto o meu tempo com cinema, seja ele propaganda americana, como é habitual, seja agora outra qualquer. O que isto tem de sintomático é o estado de espírito que esta América do "New American Century" tem andado a semear pelo mundo.
Ora, se num dos aliados tradicionais dos Estados Unidos na região os pensamentos são estes, não é de acreditar que os Turcos engulam histórias como as que o director geral da CIA, Porter Goss, lhes andou a tentar impingir há umas semanas atrás:
«1- Que o Irão já possuía armas nucleares e, por conseguinte, constituía uma terrível ameaça regional;
2- Que o Irão patrocinava o PKK e ALQaeda;

3- Que o Irão tencionava exportar o seu "regime" para o Turquia.»

Acho que os Turcos não são assim tão parvos e não devem ter apreciado muito o insulto à sua inteligência. Tanto eles, como a generalidade dos países independentes deste mundo, se não sabem, seguramente desconfiam de quem é que possui armas nucleares (e outras) que constituem uma permanente chantagem global; de quem igualmente patrocina o PKK e a AL Qaeda; e de quem tenciona "exportar" o seu "regime" não só para a Turquia como para o mundo inteiro. Não quer dizer que o Irão não alimente projectos mirabolantes, só que não dispõe nem dum décimo dos meios, do alcance, da vontade expressa e assumida, nem, tão pouco, do know-how que só a múltipla e exaustiva experimentação permite.
A Turquia, há cada vez mais indícios disso, está a inclinar-se para o seu vizinho gigante do Norte. Junte-se-lhe a Síria, o Irão, a Índia e agora, para cúmulo, a China (e, off the record, até França e Alemanha), e perceba-se no que deu o caldo de geo-imbecilidades cozinhado pelo bando de noeconas que tem andado a brincar à geoestratégia com neoliberalismos asselvajados, revoluções coloridas e exportação de caos e bandalheira (a título de democracia) por mero frete aos interesses e caprichos de Israel... É isso mesmo: Os Russos estão de volta. Agora com o espírito Czarista enxertado no património genético da KGB.
Mesmo que os Americanos cometam a estupidez de atacar o Irão, imaginem para que preços o petróleo vai disparar, e imaginem quem vai ser um dos principais beneficiários disso. E já agora, se não for pedir muito, imaginem quem vai pagar...
PS: Também pode dar-se o caso de eu estar para aqui a delirar. Oxalá.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Provincianismo e coloniofilia

«O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.
O sindroma provinciano compreende, pelo menos, três sindromas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grande meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a inacapacidade de ironia. (...)
É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. (...)
O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão também pela inconsciência dela. Neste capítulo, a "relíquia", Paio Pires a falar francês, é um capítulo dolorosos. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbabilidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.
Para o provincianismo há só uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido.»
- Fernando Pessoa, "O provincianismo Português"

Testemunhasse Pessoa esta nossa actualidade asnopédica e constataria, com alguma amargura por certo, que não só não melhorámos da doença, como a síndrome degenerou num palindroma particularmente virulento: mais até que a província dum qualquer império, o lugar, a chicote da chusma que o infesta, regrediu a colónia duma qualquer metrópole. Vire-se do direito para o avesso, de cima para baixo, da direita para a esquerda, ou vice-versa para qualquer uma dessas modalidades, o resultado é exactamente o mesmo: uma horda de pato-bravos, em acto ou potência, em cirurgia plástica ou lista de espera, sociais e mentais, entusiasmadíssimos com a sua própria dependência, viciação e imbecilidade redentora. O único debate visível e particularmente assanhado prende-se com a escolha da trela, arreio, sela e cabresto que melhor lhes fica. Qual dos patronos confere melhores condições aos seus lacaios. Raça de sabujos cujo maior sonho, doravante, é ser novo-cafre das europas ou das américas, porque entretanto as rússias deixaram de aceitar inscrições e as chinas estão ainda a ultimar os critérios de matrícula.
É toda uma massa amorfa, caótica, adesiva, em efervescência ruidosa, a clamar por molde e olaria. Já não portugueses e sem resquício de vértebra, valor ou dignidade para americanos ou europeus, não excedem o saloio beberolas, atrelado a uma pança tirana ou levado de rojo por um umbigo despótico, vomitando o passado na sargeta para dar lugar à zurrapa -mixórdia de futuro canoro de eleição - que, em turismo alcoólico, bufarinhou num qualquer caixote do lixo das estranjas.
Desde o "orgulhosamente sós", conseguiram rastejar intrepidamente para um degrau mais abaixo: "Orgulhosamente totós". É daí que clamam, em mescla de fado vadio com SOS de Titanic a afundar-se, o seu novo slogan auto-estimulante: "Alguém que venha tomar conta de nós!"
Serem uma província de Espanha já não lhes basta, nem preenche as fantasias. Agora só mesmo uma colónia. Se possível, de férias.

sábado, fevereiro 11, 2006

Babilónia

«Ó Zaratustra, esta é a Grande Cidade; aqui nada tens a buscar, mas tudo a perder.
Porque virias chafurdar nesta lama? tem piedade dos teus pés. Mais vale que cuspas na porta da cidade, e sigas o teu caminho.
Aqui é o inferno para os pensamentos dos solitários; aqui os grandes pensamentos são fervidos em vida e reduzidos a caldo.
Aqui apodrecem todos os grandes sentimentos; aqui apenas se autoriza o leve tinir de sentimentos menores, inteiramente descarnados.
Não sentes, já daqui, o cheiro dos matadouros e das espeluncas do espírito? Não exala esta cidade um aroma de espírito massacrado?
Não vês as almas como trapos moles e sujos? E desses trapos ainda fazem jornais!
Não ouves que o espírito não passa aqui de um jogo verbal? Aqui, ele vomita uma repugnante zurrapa de palavras. E desse vómito ainda fazem jornais!
Perseguem-se mutuamente sem saberem para onde vão. Excitam-se uns contra os outros sem saberem porquê. Fazem tinir as suas latas, tilintar os seu oiro.
(...) Cospe sobre esta cidade das almas aviltadas e dos peitos estreitos, dos olhos penetrantes, dos dedos gordurosos - sobre esta cidade dos importunos, dos impudentes, dos escribas e dos vociferadores, dos ardentes ambiciosos - onde fermenta, numa mesma purulência, tudo o que é cariado, desacreditado, lascivo, turvo, sorvado, purulento clandestino - cospe sobre esta Grande Cidade e segue o teu caminho!»

- Nietsche, "Assim falava Zaratustra"

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

A montanha que pariu o Rato



Nem Maomé veio à montanha (e foi pena), nem a Montanha compareceu ao Maomé ( e foi azar). Limitou-se a parir um rato. Um rato, não obstante, capaz de parir montanhas. De excremento intelectual e sabujice transatlântica. E ontem lá estava, na crista da micro-manifestação, o Rato, que é Vasco e também papagaio, a exibir-se às câmaras da RTP em toda a sua magnificiência de polichinelo. Um mister, este Rato! Da estupidenza doméstica, benza-o Deus...enquanto o Diabo não o carrega.

Ritalina news



Mais curiosidades acerca da Ritalina...

Como já aqui foi exposto, a subministração de Ritalina em crianças -a partir de idades tão tenras quanto 4 anos -, encontra justificação "científica" no "Attention Deficit Hyperactivity Disorder" (ADHD) .
Existem sérias dúvidas que esta proclamada "síndrome" sequer exista. Críticos do programa, como o Dr. Fred Baughman, afirmam tratar-se duma pura invenção da American Psychiatric Association (APA).

Quer dizer, a "pseudo-doença" tornou-se uma fonte de receita orçamental para as escolas. Quantos mais casos, mais fundos federais.
Suponho que é o Mercado a funcionar. Business as usual.

Slogans para futuras manifestações islamo-libertárias . I



Para que não restem dúvidas da nossa supremania, digo supremacia, civilizadoira.

ABAIXO A BURKA! VIVA O BOTOX!!

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Feira do Relógio



Olha o ML, olha o ML! Olha a banha da cobra e o canivete suiço das ideias! À dúzia é mais barato! É comprar, é comprar! E ainda leva um cobertor, um faqueiro e um jogo completo de cama. Mais um despertador e três alguidares de plástico! E ainda: seis pares de ceroulas e um saca-rolhas!
Os Marxistas-Leninistas de ontem são os Mercantilistas-Liberais de hoje. E vice-versa.

O Perpétuo PREC (Processo regurgitador em Curso)



Cada vez mais, fica a impressão que andamos há trinta anos a regurgitar o PREC . É sempre a mesma pasta avinagrada e escumosa, só o que muda são os slogans e as palavras de ordem - os gatilhos do espasmo. Até os gargarejadores são os mesmos. Eles e a filharada, porque entretanto reproduziram-se.
Enfim, é toda uma revolução das tripas que nunca mais acaba. Nem temos tempo para pensar... Ainda estamos a salvar as baleias e já nos convocam larilas em apuros; ainda mal apoiamos as abortadeiras e já há uns pretinhos a morrer de fome em Darfur (pena não ser nas Caraíbas, que aproveitávamos e de caminho bronzeávamos o coiro). Agora, para cúmulo, são os muçulmanos, esses fassistas, que nos querem vir dar cabo das amplas liberdades.
Mas será que esta luta nunca mais acaba?...

Todos ao Rossio! A Luta continua.

Hoje, às 15 horas, uma manada de zombies saiu à rua numa manifestação em prol da Liberdade de Expressão.

Em defesa dos vossos valores



Em resumo, abaixo os muçulmanos, bombardeiem-nos urgentemente, porque ameaçam o que de mais sagrado tem o vosso mundo "ocidental": as feministas, os gays e os judeus. Mais sagrado ou mais ruidoso, o que, nestes fascinantes tempos, é a mesmíssima coisa.
Esse vosso nazismozinho ao contrário...de patas para o ar.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Os Palra-caro e os fala-baratos



Todavia, não deixa de ser curioso que entre nós –e presumo que no resto do Ocidente não variará muito -, aqueles que mais se insurgem em defesa da putativa e sagrada Liberdade de Expressão são os papagaios.
Mas, havemos de reconhecer, não se tratam, ao menos, de papagaios fala-barato. Não, são papagaios palra-caro. Nunca palram grátis... Tomam a coisa de empreitada. São profissionais devidamente sindicalizados. Os principais, bem entendido.
Porque depois há todo um exército de araras impressionáveis, tucanos irascíveis e periquitos belicosos que agem por manifesta simpatia e emulação. São os grulha-barato. A quem os palra-caro proporcionam o rastilho. Aceso este, dado o mote, ei-los que explodem prontamente, os grulha-barato, numa algazarra infernal, numa chinfrineira ensurdecedora que só visto. Já que escutado não tem graça.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

Contra Ventos e Maraus

Voltarei muito brevemente a este assunto. Para já, deixo apenas um singelo mas edificante reparo:
A Liberdade de Expressão, nos mass-media ocidentais, é uma lenda, um mito urbano. Uma teoria da inspiração (liberal) e da transpiração (maquinativa). A realidade chama-se "Critérios editoriais". Ninguém escreve ou reporta o que lhe dá na real gana, muito menos uma perspectiva imparcial, mas o que lhe concedem ou encomendam. Na informação, e até nas artes, tudo tende cada vez mais para o "produto publicitário". Aliás, só um optimismo delirante poderia celebrar a "liberdade de expressão" num ambiente onde a "autonomia de pensamento" tem, cada vez mais, a cabeça a prémio. Em matéria de medo, o desemprego já supera a morte. Por aqui, dá para avaliar o nível mental a que decorrem as operações.
Quanto ao resto, tanto os mass-media ditos "ocidentais" como os "outros" são unânimes na sua vocação, objecto e finalidade: desinformar. Isto é: manipular as massas; servir de instrumento ao seu pastoreio. Os nossos apenas desinformam melhor que os outros, porque criam uma superior ilusão de informação. Daí a mistificação soberana: é tanto mais livre aquele que tanto melhor mente. E, por osmose, aquele que tanto mais acredita. Crença, acima de tudo. Porque a liberdade dos nossos dias não é matéria de reflexão, mas artigo de fé. Dogma incontestável. Não se questiona, ou tão pouco avalia: assume-se, como dádiva divina numa civilização de eleitos. E, o que é pior e raia o totalitarismo mais hirsuto, como prova de supremacia planetária e carta de livre-corso passada directamente pela Providência, a meias com a Natureza.
Acreditamos na liberdade com o mesmo hooliganismo ululante com que os outros veneram Alá e o seu profeta belicoso. Matamos, bombardeamos e massacramos pelo Mercado, em nome do nosso "modo de vida" (ou seja, das orgias da alta finança a cavalo num puré humano), com a mesma sanha e o mesmo brio com que os outros - caso tivessem uma panóplia à altura, norteados por tão sublimes e memoráveis exemplos, legitimados em tão monumentais precedentes -, bombardeariam e chacinariam em devoção militante à Fé deles. Andamos, feitos acólitos da Igreja Universal do Reino da Democracia, a covertê-los a tiro e escandalizamo-nos todos com o despautério deles ao fazerem explodir-se em nome do Islão; obrigamo-los, à força de mísseis e blindados, a ajoelhar e rezar em Shopings, e indignamo-nos, todos púdicos, quando eles nos querem vir, à bomba, obrigar a ajoelhar e rezar em mesquitas; a nossa fantasia de transformar o mundo numa disneylândia (ou barbie-world) é benigna, mas a deles, de fazerem do mundo um califado, é demoníaca; cismamos de convertê-los ao paraíso na Terra, mas não admitimos que eles nos convertam ao Paraíso no Além. Queremos, por força, a felicidade deles e não compreendemos a ingratidão com que nos mandam para a puta que nos pariu. É que nós, sem excepção, os eleitos, os ocidentais (subitamente, já não somos globais, voltamos ao útero matriz, em fila ordeira para retroceder pela ejaculação paterna acima, até às bolsas seminais), somos todos uns meninos de coro e eles, sem a menor dúvida, são "monstros do Corão". E, no entanto, ambos os fundamentalismos se equivalem e prometem locomotivar, pelo sua efervescência vanguardeira, as massas facilmente adesivas .
Olhando friamente tamanhos prodígios civilizacionais encandeia-nos mesmo um efeito de espelho. Comparando a selvajaria que agora somos com as civilizações que já fomos, tal qual a selvajaria que eles agora são com a civilização que já foram, dir-se-ia que a regressão corre geminada e a bom ritmo. A moda é retro e o espectáculo de maior sucesso é o da reposição da tribo canibal em vésperas de surtida, cada bando mais pintalgado e guinchante de volta do seu super-tótem, ou meta-tótem, para ser mais exacto, já que o mamarracho, engalanado de fiapos angélicos, eructa e gosma à transcendência. Em que é que tudo isto excede um concurso de ganadarias, um certame de bestas ou um circo de aberrações?
Em que é que os nossos mullahs são inferiores aos deles? Em que é que a histeria deles é mais estapafúrdia e orquestrada que a nossa?
Superior, num certo sentido e não sem mordaz ironia, só mesmo a "liberdade de expressão" das manadas deles: apesar de tudo, ainda se podem manifestar à pedrada, a fogo posto e a tumulto desconchavante e festivo. As nossas, coitadas, só lhes restam duas alternativas: balir -quase sempre-, ou ladrar - à voz do dono.
Mas o pior ainda não é isso. O pior é que -como sobejam indícios nos dois últimos séculos-, quem semeia ventos, afinal, não colhe tempestades: ordenha-as.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Information Operations Roadmap



«US plans to 'fight the net' revealed »
«A newly declassified document gives a fascinating glimpse into the US military's plans for "information operations" - from psychological operations, to attacks on hostile computer networks.

Bloggers beware. »


Quem tiver interesse e paciência para ler o documento original, do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, pode consultá-lo aqui. Já agora, tentem adivinhar as partes ocultadas.

« Quando descreve os planos para a guerra electrónica, ou EW, o documento adquire uma tonalidade extraordinária. Parece encarar a Internet como sendo equivalente a um sistema de armas inimigo.»

domingo, fevereiro 05, 2006

As Minhas Taras, ou Para arruinar de vez com as audiências

A propósito de mais uma daquelas estúpidas "correntes" que algumas almas ociosas vão desencantar a não sei que baús foleiros da imaginação, A Zazie e o BOS , desafiam-me a expor aos olhos de basbaques e curiosos cinco das minhas manias.
Em primeiro lugar, começo por dizer o seguinte: Quero que a corrente se foda e, se bem que vá responder por consideração estrita aos requerentes, não tenciono chatear ninguém com uma frescura destas.
Em segundo lugar, cumpre-me frisar que eu, como é universalmente consabido, possuo o mais afável, regrado e benigno dos carácteres, pelo que procurar em mim manias é o mesmo que garimpar agulha em palheiro. É verdade: nenhuma mania me atormenta. Apenas algumas taras violentíssimas. Algumas, será talvez um exagero da minha parte. Inúmeras, seria mais adequado. Pedem-me cinco, mas eu podia ficar aqui a relatar cinco mil. Cada qual mais extravagante que a anterior.
Porém, sem mais delongas, vamos às cinco:

1- Odeio –com um um ódio visceral, fervoroso e inoxidável!-, a) O major Alvega; b) o rato Mickey; c) o Bip-Bip; d) o D.Pedro I; e) os Romanos; e) várias outras porcarias de idêntico jaez e pública notoriedade. O major Alvega, aproveito para referir, constitui mesmo um caso à parte, merecedor de um postal só para si. E dos grandes. Mas não perdem pela demora. Eu morra já aqui fulminado por um raio, se não elucubrar brevemente sobre tão grandessíssimo bandalho.
2- Em contrapartida, é mais forte que eu: não consigo disfarçar uma certa e feroz empatia com todos os mega-ferrabrases da História, excepção feita aos romanos e a todos os seus derivados serôdios (leia-se os anglo-saxónicos e os comunistóides – abomino subterfúgios e hipócritas; e os mouros, nunca esquecendo, puta que os pariu!). Tento combater este minha lúgubre tara, com todas as minhas forças, acreditem. Ingiro calmantes, extenuo-me com exercício físico, até dou comigo ensarilhado em posturas de Ioga para ver se me purgo destes maus vapores, mas debalde. Não consigo deixar de me entusiasmar com as proezas dum Alexandre, dum Átila, dum Genghis Khan, dum Vlad, o Empalador (meu antepassado ilustre), dum Napoleão e até, em pequena escala, nazismo à parte, dum Adolfo Hitler (o último momento épico do ocidente ousou-o ele, quando se atirou com todas as ganas ao vespeiro Stalinista!...). Basta debruçar, nem que seja ao de leve, o espírito sobre as suculentas crónicas destes foras-de-série, e eis-me transtornado, pronto a sabe Deus que razias higiénicas e paradigmáticas. Eu não devia dizer isto, (imagino o escândalo da beataria militante e esbirraria congénere; a horda de santarrões vigilantes e escuteiros filisteus aos guinchos descabelados, enfim, toda uma peixaria apopléctica e zurrante, mas se é de taras que me interrogam, é de taras que eu falo. Nada de paninhos quentes e sonsices. Não me recomendo a ninguém, dispenso discípulos e amiguinhos, e a maior pena que eu tenho é não dispor de um exército de brutos e tomba-lobos, em tudo semelhante aos daqueles meus heróis, que havíeis de ver as habilidades de que eu era capaz! Com que exemplar e merecida diplomacia eu trataria toda uma vasta horda de filhos da puta que conspurcam o solo deste planeta e já ameaçam as estrelas. E não me venham com esquisitices, procrastinações e preciosismos. Um dragão em estando com as mãos –aliás, patas, providas de belas garras – nas massas, não deve ser distraído, interrompido e, muito menos, criticado. As massas existem para isso mesmo.
3- Desenvolvi a seguinte antropologia: Qualquer gajo que, para seu transporte, conduza qualquer outro tipo de viatura ligeira que não um Land-Rover Defender é maricas. Se não em acto, seguramente em potência. Esta é uma tese fundamental de que não abdico.
4- Desprezo solenemente toda e qualquer moda e faço questão de contrariá-la com todas as minhas forças. Execro rebanhos, manadas e matilhas. Bem como turistas. O meu antiamericanismo decorre disso mesmo e só encontra paralelo no meu anti-sovietismo de há trinta anos atrás. Os americanólatras, anticomunas encartados da hora presente, não me lembro muito bem deles naquela época, até porque grande parte ainda se fazia transportar nos tomates paternos e, estes, por aqueles conturbados tempos, primavam pela transparência (ou ausência, se quisermos ser rigorosos). Parte deles cavou heroicamente para o exílio. Devotos da mama, muito mais que da pátria.
5- Não cultivo qualquer complexo de culpa pelo facto dos meus antepassados terem oprimido - com alguma benevolência, não me canso de lamentar -, bumbos e monhés. Se tivesse sido ao contrário é que me traumatizava deveras. Antes andar, todo pimpão, a colonizar cafres e orientais, que ser colónia de ingleses ou americanos, ou, cúmulo dos horrores, quintal de espanhóis, mil caralhos os fodam! Nasci no sítio certo à hora errada. É a minha tragédia. Desconfio que a transmigração das almas existe e eu ando a penar, neste avatar desarmado, refém de estúpidos escrúpulos e polícias, as diabruras que concebi, refinei e tripudiei através de séculos e continentes. Como Empedocles, que se atirou num vulcão, também eu sonho em mergulhar de cabeça numa qualquer catástrofe. Nisso e num harém. Alternadamente.

Há perguntas que não se fazem. Mas já que as fizeram, fiquem-se com as respostas que não se dão.

sábado, fevereiro 04, 2006

Quanto mais falso, mais perigoso

«Bomba» falsa mata 88 pessoas»

Ali atrás era um nabo a ser vil e cobardemente atacado. Aqui é uma bomba falsa que limpa o sebo a uma capicua deles. Além de esquizofrénico, este é um mundo cada vez mais perigoso. As bombas falsas já são mais mortíferas que as verdadeiras. É como as Armas de Destruição Maciça. Quantos mortos é que as falsas Armas de Destruição Maciça Saddam Hussein já causaram?... E os falsos terroristas? Um dia destes são as bombas nucleares falsas do Irão que começam a desencadear uma razia. Entretanto, as bombas atómicas verdadeiras da Coreia do Norte estão lá muito sossegadas e ainda não mataram ninguém. Alguém consegue entender um manicómio destes?...

Nabos


«Nabo gigante comove o Japão»
«Um nabo gigante começou a nascer o ano passado numa rua da cidade japonesa de Aoi e rapidamente conquistou a simpatia de quem passava. O caso insólito foi sendo seguido pelos media, mas o mais recente episódio está a entristecer a sociedade: o nabo foi atacado.»

Sinceramente, este planeta já me ultrapassa. Ele há com cada filho da puta!... Como é que houve um cabrão facínora capaz de fazer mal a uma indefesa e viçosa hortaliça daquelas?!...
Todavia, não julguem os Nipões que são recordistas: Nós também temos um Nabo de proporções descomunais. O Nabo deles chama-se Dokonjo Daikon; é manso e amistoso. O nosso chama-se Murteira. E, ao contrário do deles, é hostil e feroz.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

O Regime democraticida

A democracia, em tese, não deixa de ter os seus atractivos. Chega até a ser fascinante, credora de entusiasmos. Ao contrário da sua aplicação prática, que, regra geral, redunda na mais extremosa das bandalheiras e fomenta a mais autofágica das mediocridades.
Por seu turno, a ditadura, autoritária e musculada, em tese, é absolutamente medonha, senão mesmo repugnante. Já definir-lhe, com justiça, as realizações torna-se mais problemático. É que depois duns anitos a aturar as “práticas democráticas”, mais os beatos e filisteus todos da confraria, até um santo começa a vislumbrar na prática ditatorial uma série de virtudes beneméritas e um ror de méritos até aí insuspeitos, mas doravante não apenas óbvios, como, pasme-se, urgentes.
Não há grande moral a extrair desta fábula. Infelizmente, e falando com franqueza, a democracia, de todos os inimigos, só tem um que a arruína, de tão descomunal, sempreviçoso e inflexível: os “democratas”. Principalmente, quando resumem a política a um requinte intrincado de proxenetismo. Ou seja: quase sempre.

Biópsia ao Ralenti dum conto de Fadas

Para lá das aparências –quer dizer, dos contornos tenebrosos da alegoria -, o legado de Sade não é muito complicado de entender: O poder e o dinheiro corrompem. Invariavelmente. Os excessos e desregramentos que permitem nem sequer conduzem à felicidade, mas apenas à exasperação (à descoberta que “não há felicidade”). Até porque o corpo é ele próprio masmorra, sujeição: tanto dos outros como de si próprio. O Libertino, turista dos abismos, protagoniza tudo isso.
Estamos, por conseguinte, nos antípodas dos nossos multiliberais peregrinos: para eles o poder e, sobretudo, o dinheiro, não corrompem. Pelo contrário, santificam. Redimem de todas as pretéritas humilhações, decepções e infâmias.
Que a História Universal corrobore Sade à exaustão, para essa boa gente, é despiciendo. São pesadelos que apenas assombram espíritos pouco hábeis, sujeitos rígidos e empastelados. Não eles. Eles, por concessão vitalícia duma fada madrinha leviana, dispõem dum filtro mágico, uma ferramenta prodigiosa que lhes outorga uma clarividência superlativa e, sem a mínima falha, lhes faculta a mais providencial e soberana das noções: a de que a corrupção, afinal, existe em duas formas distintas (à semelhança dos cancros, aliás): Dum lado, uma corrupção benigna, sublime, caridosa –a nossa; do outro, uma corrupção maligna, execrável, destrutiva – a dos outros. A “nossa”, entenda-se, a “deles e dos seus amigos”, eleitos exclusivos e dilectos dos favores das fadas.
A nós, aos deserdados desses seres diáfanos e fabulosos, resta-nos, para amarga compensação, o espanto e, por arrastamento, como Sócrates em tempos reservou aos cônjuges das megeras, a filosofia. O que nos transporta, sem mais atalhos, àquela interrogação óbvia que, ciclicamente, nos flagela: “como distinguir, assim, à vista desarmada, a corrupção boa da corrupção má?” – Por incrível que pareça, até é estupidamente simples: A benigna fala inglês.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Oligarquia, Plutocracia e Monarquia

«Na política há a democracia, que é a política de captação, e a ditadura, que é a política de subjugação. É democrático todo o sistema que vive de agradar e de captar -seja a captação oligárquica ou plutocrática da democracia moderna, que, no fundo, não capta senão certas minorias, que incluem ou excluem a maioria autêntica; seja a captação mística e representativa da monarquia medieval, único sistema portanto verdadeiramente democrático, pois só a monarquia, pelo seu carácter essencialmente místico, pode captar as maiorias e os conjuntos, organicamente místicos na sua profunda vida mental.»

- Álvaro de Campos, in "Apontamentos para uma Estética Não-Aristotélica"

Nada de sovinices!


Breve sinopse para leitores não anglófonos: Num total de 286.5 biliões de dólares para o fundo de auto-estradas e transportes federais americanos, 24 biliões foram para suborno, neste caso uma espécie de "endo-suborno ou auto-indulgência" de membros do Congresso.
Quem o afirma é Michael Reagan, filho mais velho do antigo presidente Ronald Reagan:

«In July 2005 Congress passed a massive $286.5 billion transportation bill to fund our nation's highways and federal transportation needs for the next six years. The bill included more than $24 billion in special earmark projects for members of Congress. On of the most influential figures in Washington spelled it out for me recently. And what he described in talking about the passage of that bill loaded with billions upon billions of taxpayer's dollars bordered on the criminal. When the transportation bill was being marked up, the bill's supporters in the leadership promised to every member of Congress that they would each be allotted $14 million in free earmarks if they would vote for the legislation. Members of the leadership were promised something in the neighborhood of $40 million. Added to projects already in the bill, and even with some members not taking the deal, the bill came to a total of 6,300 earmarked projects costing the taxpayers $24 billion. This is a clear case of bribery. The people being bribed were members of Congress.
The people making the bribes were members of Congress.

A grandeza dum país mede-se também pela capacidade dos seus representantes eleitos pilharem, em grande estilo, o otário.
Aliás, quem parte e reparte e não fica com uma boa parte, ou é burro ou não tem arte.
Nada de pelintrices, como as dos nossos burocratas e autarcas, esses saloios. Se um tipo é eleito, tem que comportar-se como tal. Checks and balances. Mas, sobretudo, cheques.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Prognósticos made in Davos

«(...)A queda da Casa de Saud parece ser o mais remoto dos seis cenários, e seria o único que faria disparar o preço do petróleo para os $262/barril.
Mais realista - e, por conseguinte, mais assustador – será o cenário em que o Irão declara um embargo de petróleo semelhante ao da OPEC, em 1973; isto, segundo Browder, poderá fazer aumentar o preço do petróleo para o dobro, à volta dos $131/barril. Outros cenários hipotéticos incluem um embargo declarado pelo presidente da Venezuela, Hugo Chavez ($111/barril); guerra civil na Nigéria ($98/barril); agitação e violência na Argélia ($79/barril); e importantes ataques às infraestruturas no Iraque, pelos insurrectos ($88/barril).»

Um artigo interessante. De futurologia. Quanto mais não seja, para a estimada elite que se passeia pelos blogues exercitar um pouco as meninges, meditando, por exemplo, nos efeitos para a pujante economia portuguesa duma hipotética subida dos combustíveis para o dobro do preço.
Realmente, é uma pena que os motores dos sagrados automóveis não se novam a força de ideologia, retórica e estupidez. Ainda mais, porque deste terceiro produto já dispomos de refinarias de ponta e gaseodutos omnipresentes, bem como poços e reservas inextinguíveis. Só falta mesmo um professor Pardal, uma alma industriosa e benemérita que, num rasgo de engenho, ou puro desenrascanço tão típico do indígena, invente um adaptador, queimador ou carburador para tão abundante cristal.
Ficávamos todos ricos. Isso sim, isso é que era um choque tecnológico!

Torpezas inadmissíveis



Quem me manda a mim ter esta grande penca fumegante que cismo de meter onde não sou chamado?!...
A verdade é que, desinquietado por este lixo que o maradona apregoava lá no court dele, fui dar ao aterro sanitário dum tal Macguffa , onde, para mal dos meus pecados, cintilava esta pérola do Pulido Valente.
Do Pulido Valente, diz o tal MacGuffa, que eu não acredito. Isso é Luís Delgado, caro senhor. Cuspido e escarrado. Aliás, mais escarrado até que cuspido. E bem verdinho e pastoso, por sinal. O seu a seu dono.
Se eu fosse ao Dr. Vasco, Pulido e também Valente, processava este tal MacGuffa por difamação. Há coisas que não se fazem.

E tu, Zazie, andas a dormir? Deixas passar em claro uma aleivosia destas?... Tenho que ser eu, um tratante reconhecido e famigerado, a ter que sair em defesa do bom nome do professor?!...

Dragão, Odisseia no Espaço

O raio da senhora Dragão, com aquela lucidez que Deus lhe deu, acha que eu estou a perder o contacto com a realidade. Presumo que devo estar a descolar, a elevar-me nos ares, à conquista da galáxia. Convocam-me mistérios e constelações ignotas. Aqui há dias, os cientistas, com aquela arte mágica que se lhes reconhece, descobriram um planeta igual à Terra num recanto qualquer do Universo - a milhões de anos luz daqui, imagine-se (fascina-me como eles medem estas distâncias descomunais ao pintelhimetro). Pois bem, já decidi: pelo sim, pelo não, vou na direcção contrária.
Já sei, já sei: no regresso, passo pelo “Pingo Doce” e trago o pão.