quarta-feira, novembro 30, 2005

...



«A morte berrada do Grande Pirata a cantar
Até meter pavor plas espinhas dos seus homens abaixo.
Lá da ré a morrer, e a berrar, a cantar:

Fifteen men on the Dead Man's Chest.
Yo-ho-ho and a bottle of rum!

E depois a gritar, numa voz já irreal, a estoirar no ar:

Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw!
Darby M'Graw-aw-aw-aw-aw-aw-aw-aw!
Fetch a-a-aft the ru-u-u-u-u-u-u-um, Darby!

Eia que vida essa! essa era a vida, eia!
(...)

Ah! a selvajaria desta selvajaria! Merda
Pra toda a vida como a nossa, que não é nada disto!
Eu pr'áqui engenheiro, prático à força, sensível a tudo,
Pr'áqui parado, em relação a vós, mesmo quando ando;
mesmo quando ajo, inerte; mesmo quando me imponho, débil;
Estático, quebrado, dissidente cobarde da vossa Glória,
Da vossa grande dinâmica estridente, quente e sangrenta!

Arre! por não poder agir d'acordo com o meu delírio!
Arre! por andar sempre agarrado às saias da civilização!
Por andar com a douceur des moeurs às costas, como um fardo de rendas!
Moços de esquina -todos nós o somos - do humanitarismo moderno!
Estupores de tísicos, de neurasténicos, de linfáticos,
Sem coragem para ser gente com violência e audácia,
Com alma como uma galinha presa por uma perna!»

- Álvaro de Campos, "Ode Marítima"

A Missão

Havia uma tribo de canibais irredutíveis, imunes a toda e qualquer tentativa de civilização, que reinavam, tenebrosos e vorazes, lá nos esconsos da selva.
Um dia um jovem presbítero, ao saber desses lendários seres, sentiu-se inundado de ardores missionários e, avassalado por irresistível ímpeto, arrombou matas afora, decidido a resgatar às trevas hediondas tão pobres e tresmalhadas almas.
Andarilhou esgazeado noites e dias, palmilhou pauis e montanhas, escapou miraculosamente a mil perigos e paludismos. Gastou anos, mas, com uma certeza, perseverança e azimute que só a mão imperscrutável de Deus pode explicar, lá deu, numa bela manhã, com a aldeia dos ferozes devoradores de carne humana.
Antes de iniciar tão épica aventura, garantira aos seus superiores que, com a graça de Deus, havia de convertê-los à Verdadeira Fé e ao vegetarianismo. Pois era isso mesmo que, uma vez ali chegado, ia encetar. Com todas as suas forças e sem trégua nem descanso.
Os canibais eram gente curiosa, bem nutrida, descontraída e luzidia. Tinham a despensa abastecida duma depredação recente pelas redondezas e, entre piqueniques e folguedos,, condescenderam em escutá-lo. Como não lhe entendiam a língua, faziam por tresler na mímica.
Ele, com a paciência própria dos justos, perorou-lhes durante trinta dias ininterruptos. De manhã, tentando industriá-los com as luzes do alfabeto e do evangelho; à tarde, procurando adestrá-los nos prazeres e virtudes do herbívorismo. Começou até por plantar umas alfaces e uns tomateiros, em canteiros geométricos, os quais, por via do clima húmido e quente da região, não tardaram a resplandecer de viço e verdura. Estavam mesmo um mimo de se ver, um bálsamo para a vista. Ante tal maravilha, o extravagante missionário exultou. Em triunfo, coadjuvado do sal e vinagre que trouxera consigo, dispôs-se a confeccionar um prato que, tal qual o evangelho em relação à alma, havia de redimir-lhes duma vez por todas o estômago.
Os canibais, enquanto lhes durara a despensa, haviam estado sossegados. Ao longo dos dias, ou mesmo à noite, de roda da fogueira, haviam-no observado e escutado com uma certa displicência. Mais até as mulheres, palradoras e coscuvilheiras por natureza, porque os homens, como é hábito, preferiam invariavelmente a sorna, e as crianças, como de costume, ensaiavam brincadeiras com a comida. Mas à medida que esta se sumia, todos eles começaram a manifestar um crescente nervosismo. O homem de Deus vira-os até murmurar claramente a seu respeito e congratulara-se: aquilo decerto significava que, por via da porfiada catequese, começavam a questionar-se, a macerar na crosta selvaginosa. Nem duvidava: Era a semente da Palavra, tal qual a das alfaces, a germinar e a formar repolhuda planta.
E, com efeito, esgotados os trinta dias e esgotadas as vitualhas da última safra, também os homens e as crianças, de olhar iluminado por um súbito e generalizado interesse, convergiram em redor do apóstolo. Foi, pois, com grande júbilo, ufano de tal congregação, que este preparou as alfaces e os tomates, temperou como convém e, por fim, com desculpável enlevo de “chef”, proclamou, numa mescla de alfabeto e mímica indubitável: “Vinde, provai! Comei e vede se não é uma delícia!...”
Os antropófagos entenderam-no na perfeição, o gesto sobretudo, e avançaram ao repasto, cheios de apetite. Expedições posteriores confirmaram-no: É duvidoso que, nesse bendito dia, tenham descoberto a Verdadeira Fé; mas, em contrapartida, descobriram a salada. Foi, pelo menos, acompanhado dela que o comeram.
E cagaram, acho eu.

terça-feira, novembro 29, 2005

Bananas para Darwin

As concepções do Homem têm variado muito ao longo dos tempos...
Aristóteles, por exemplo, fiel ao seu realismo, em termos lógicos achou por bem considerá-lo (ao homem, claro está) um “bípede sem penas”. Ao que Diógenes, o Cínico, um tipo com raro sentido de humor, depois de se dar ao trabalho de depenar integralmente um frango, foi atirá-lo ao liceu de Aristóteles, em plena classe reunida, acompanhado do seguinte sarcasmo: “Toma, aí tens o teu homem!”
Do Estagirita ficaram-nos ainda outras duas definições marcantes para a posteridade: “O homem é um animal social” e o “homem é um animal racional”. Quanto à primeira, como é óbvio, não parece reunir grande eficácia e provavelmente, à época, Diógenes não terá sabido dela; senão é mais que certo que teria corrido a levar formigas ou, o que seria pior e bem mais traumático, abelhas ou vespas ao mestre de Alexandre. Sobre a segunda, convém um simples reparo: racional, para Aristóteles (e para qualquer filósofo que se preze), não é sinónimo de inteligente. Racional significa apenas capacidade de falar, fazer contas e silogismos não muito complexos.
Veio, entretanto, o Cristianismo, e uma nova concepção de Homem emergiu: A Igreja gastou mil e quinhentos anos em trabalhosas cirurgias plásticas, a tentar fazer dele o filho predilecto de Deus, um anjo (ou demónio, que também é anjo) em potência. Depois, chegou a “Ciência” e, em menos de quatrocentos anos, transformou-o num idiota que anda a chamar pai a um macaco.
Sobre isto, Lichtenberg tem um aforismo digno de Diógenes que, se a memória não me falha, reza assim: “Um livro é como um espelho: se um macaco nele se debruça não pode estar à espera de ver um anjo”. O Cosmos também é uma espécie de livro.
Falta apenas falar da Política. Por regra, anda de braço dado com a “ciência”. É o casal burguês em apoteose. Pela primeira vez, não obstante, aborda e resolve um mistério de séculos: a linhagem materna. Dos pais já tudo sabíamos e fôramos, definitiva e peremptoriamente, esclarecidos; mas faltava a mãe. Nisto, providencialmente, Deus a abençoe, a Política resgatou-nos da ignorância, tanto quanto da angústia inerente a tão penalizante orfandade... O milagre, o prodígio aconteceu por alturas dum episódio indubitável: o macaco foi às putas. E não usou preservativo.
Era ainda uma época pré-científica.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Grave, mesmo muito grave...

Mas grave, mesmo muito grave, crime de lesa-sei-lá-o-quê, é o maior símbolo da república, do povo e do regime estar contaminado com uma cruz. Removam dali aquela inqualificável afronta à Cadela Laica!...

Bizarrias nos súbditos de Sua Majestade



«Fuzileiros filmados a combater nus».

Por esta ordem de bizarrias, será exagero nosso se presumirmos que aqueles valentes só se vestem para tomar banho ou copular?...

Um Regime Coerente

«(...)José Maria Duarte Júnior, natural da Guia, foi condenado por corrupção activa em 1996 e, em Setembro 2003, foi agraciado pelo Estado com as insígnias do grau de comendador da Ordem de Mérito Civil. »

Onde se lê "Estado", subentenda-se, naturalmente, o presidente da vossa viçosa républica, o inefável Gorge Sampaio.
Vá lá que não o nomeou Primeiro-Ministro.

"If You can't brutalize, privatize!..."

domingo, novembro 27, 2005

Crucifixofobia, ou A Seita dos Adoradores da Cadela Laica

«Ministério retira crucifixos da escola».

E faz muito bem. Dada a qualidade do ensino que hoje se pratica naqueles estabelecimentos, o crucifixo constituía um obstáculo significativo à concentração dos jovens aprendizes de vampiro, bruxo, metaleiro satanista, feiticeiro hiphoper e demais mestrados em "Harry Potter". Com um objecto daqueles em exposição, não admira que todo o esforço docente saísse torpedeado e o nosso aproveitamento escolar andasse pela cauda da Europa. Agora, certamente, passará para os cornos (não só da Europa, mas do próprio Mundo).

Entretanto, a tal Associação República e Laicidade (ou Seita dos Adoradores da cadela Laica, sua denominação esotérica), prepara-se para novos e inauditos cometimentos, bem como proezas viçosamente mirabolantes. Segundo foi comunicado pelo seu presidente -o conhecido professor Alexandrino -, aquela digníssima Seita vai, já de seguida, exigir a retirada imediata de todos os crucifixos dos campanários das igrejas, capelas, mosteiros e, sobretudo, das campas e jazigos dos cemitérios, de modo a não prejudicarem os petizes durante as aulas práticas, ou de campo (aliás, campa). Também o Vice-presidente daquela Associação laica, o não menos lendário Sô Zé, aproveitou para verberar contra o estado vergonhoso das nossas igrejas, todas elas exibindo, pública e despudoradamente, as suas cruzes nuas e descompostas. No que uma voz cavernosa -que, subitamente, se apoderou da Secretária Mística, uma tal de Linda Reis-, irrompeu, em tom acagaçante e imperioso: "E depois não se esqueçam de passar aqui e levar o meu esquife, que já me doem os joanetes!"
Pelo bizarro lembrete, tanto quanto pela forma zombificada como de imediato todos se prostraram, bramindo: "Sim, Mestre! Sim, Poderoso Mestre!...", atrevemo-nos a deduzir que se tratava, no mínimo, do Conde Drácula e diligenciámos por-nos ao fresco o quanto antes.
Ao mesmo tempo, no Ministério, era nomeada uma Comissão para Saneamento, Prospecção e Estudo dum símbolo alternativo, sucedâneo na cabeceira das salas para o crucifixo ora despejado. Constituída, entre outros mongolóides clarividentes, pelo Sexólogo Murcão, pelo opinion maker J. Castelo-Branco, pela jornalisca sibilante F, pelo quiropolitólogo prof. Karamba e pelo emérito macaco Adriano Darwin Esperança, a dita cuja lançou-se avidamente sobre a tarefa e não demorou a apresentar o seu Relatório e Sugestões. De entre estas, segundo fonte bem informada, há três insígnias heráldicas que parecem congregar, desde já, as maiores chances de virem a ser eleitas (aguarda-se apenas o despacho final da Ministra): um preservativo, uma ferradura e um chuncalho. De resto, duma tal brainstorm, prodígio menor não seria de esperar...

- Senhora Doutora Ministra, Excelência, não perca mais tempo! Trata-se duma prioridade transcendental. Adopte não um, mas os três em coro, em bloco, em altar! Congregação emblemática mais feliz não seria possível: o preservativo para lhes forrar o espírito; o chuncalho para anunciar à devida distância o gafo mental que aí vem; e a ferradura para lhes calçar a substância que mais garantidamente desenvolvem ao longo da frequência de tão estrebariada academia: Cascos, Sr Drª Ministra, nem mais.

E lá por Jesus ter nascido num estábulo, não vamos agora exigir-lhe que passe o resto da eternidade encafuado noutros. Já lhe basta a cruz e os pregos com que o lá espetaram. Poupemos-lhe, ao menos, o fedor perpétuo da bicharada.

Deus vos abençoe a todos, ó Adoradores da Cadela Laica! E que também ela, a cadela, esteja sempre convosco!...

Um feliz natal para todos. Que façam muitas compras e recebam muitas prendas.

sábado, novembro 26, 2005

Diálogo antiplatónico

- “A Verdade?!...Livra-te de trazer para aqui uma desgraça dessas! Quero que a verdade vá morrer longe, ouviste?!!...”
- “Então não queres saber?...”
- “Saber o quê?! Que, além de cornudo, sou também impotente?... e que quando calha –ou seja, quase sempre- os gajos que me comem a mulher ainda, por desporto, me enrabam a mim e, para sobremesa, me sugam as carótidas - e tudo isso para seu bel-prazer?!!...Olha que didáctico e educativo!..."
-“Preferes fazer, portanto, como o avestruz...
-“Nem duvides. O que a alma não vê, o corpo não sofre. O horror suporta-se desde que não se pense nele. O inferno é um artefacto da Imaginação. Por isso, nada de pensamentos...sobretudo, nada de pensamentos! Fazemos como as galinhas: debicamos na bosta e vamos engordando. Quando o cutelo nos apanhar, ao menos, que nos apanhe de surpresa!...”
-“É a Alegoria da Capoeira, o sucedâneo da Caverna”...
-“ Capoeira, aviário, chama-lhe o que quiseres. Com essas alegorias posso eu bem. Com a Verdade é que não. A Verdade é um cabrão dum masoquismo redundante. É acrescentar à masmorra vitalícia a auto-tortura permanente. Chiça!...”
-“Refugias-te, então, na ignorância; barricas-te na cegueira e na surdez.”
-“ Ora, nem mais. É isso mesmo. Para que me interessa ouvir-te se o que pretendes é vir falar-me na minha telecastração, ou audiocastração, ou quimiocastração, ou o diabo que te carregue?... Em casos improfícuos desses, não duvides, faço orelhas de mercador. Não oiço. Se não os tenho, se mos extirparam ou vão extirpar de certeza absoluta, que falta me faz saber dos requintes com que o burilam, das máquinas inexoráveis e complicadas que andaram séculos a refinar para o efeito, hein?! Não me dizes?!...Isso é que devias dizer-me, ó sapiência. Em contrapartida, digo-to eu e compenetra-te: se não os tenho e vivo bem sem eles é porque não me fazem falta.”
-“Vives ou vegetas?...”
- “Esquisitices! Respiro, como, cago, masturbo-me. Há mais alguma coisa?...”
-“Há a Verdade, pelo menos.”
-“Dispenso, caralho, já te disse!... Isso lembra o padre nas execuções, consolando sobre o patíbulo. Ora, a consolação do espírito equivale à desanestesia do corpo. E no corpo é que os algozes trabalham, que as tenazes e torniquetes apertam, que os solípedes - a chicote - despedaçam. Andam nisso desde que se lembram. Imaginar que a vida não termina e se consuma absolutamente aqui corresponde a presumir que a dor, a crueldade e a tortura se prolongam para lá da morte - pelo infinito, pela eternidade. Que os homens foram só o aquecimento para Deus... Antes ser uma couve. É a minha religião.”
-“As couves não cagam.”
-“Na terra, como os homens, talvez não. Nem no céu, como os doutores da mula russa. Mas há um certo sítio onde não hesitam e cagam decididamente...”
-“Onde?...”
-“Na Verdade.”
-“Então falemos de metáforas.”

sexta-feira, novembro 25, 2005

Para lá do ruído...

«The American Century, stripped of the rhetoric of freedom, peace anda democracy, was based on clear US hegemony among nations. It rested on two pillars. The one pillar was the uncontested role of US military power, a dominance which no combination of powers had been able to challenge since the end of the Second World War in 1945. The Soviet Union ultimately collapsed amid ruin in the effort to challenge that hegemony. In 1979 China decided to cooperate with that hegemony and realized, perhaps too late, that it had been a double-edged sword. The second pillar of American Power was the uncontested role of the dollar as world reserve currency. The United States created the Bretton Woods System in 1944, in order to establish this unique role. The dollar served as reserve currency long after it had not one ounce of gold to back it.
The combined power of its military dominance and monetary dominance allowed the United States the enviable luxury of printing endless paper certificates, its dollars, and giving them to the rest of the world in exchange for well-engineered cars, machinery, textiles and every imaginable product. It was the greatest confidence game the world had ever seen. Americans bought the imports with more dollar debt, creating an edifice of dollar debt on which the entire world was dependent. This special hegemony also allowed the United States to become the world's largest debtor, to run endless trade imbalances, to inflate its currency beyond imagination, to create a buildup of private and public debt unprecedented in world history. So long as other nations depende on American markets for their trade, and on American military protection for their national security, the game appeared endless. Japan's role as "lender of last resort" to the U.S. was supplemented at the turn of the century by China. Hundreds of billions of dollars in Japanese, Chinese and other foreign purchases of U.S. treasury debt, U.S. real estate debt, and other assets, propped up the American economy long after it made any economic sense.
The power of the dollar and the power of the U.S. military had been uniquely interwined with one commodity, the basis of the world economic growth engine, since before the First World War. That commodity was petroleum, and in its service British, American, German, French, Italian, and other nations called their soldiers to war. As Henry Kissinger once expressed this importance: "control energy and you control the nations". Oil defined American foreign policy in much of the world during the cold war. And oil defines American military actions since the end of the cold war as never before.»

- F. William Engdahl, "A Century of War"

quarta-feira, novembro 23, 2005

O Império do Costume

Quem é James Pinkerton?

Conforme pode ler-se aqui: "James Pinkerton, a graduate of Stanford University and a contributor to the Fox News Channel, worked in the White House under presidents Ronald Reagan and George H.W. Bush, and also in the 1980, 1984, 1988, and 1992 Republican presidential campaigns. He has been a columnist for Newsday since 1993. He is the author of What Comes Next: The End of Big Government--And the New Paradigm Ahead. His pro change remarks (http://www.usatoday.com/news/opinion/editorials/2005-10-09-oppose_x.htm) in a USA Today editorial on the Posse Comitatus Act appear contradictory to the title of his book. "

Posto o perfil sumário do personagem, o que advoga ele - precisamente num artigo da Newsday?
Nada mais nada menos que o velho e tradicional massacre, o urgente genocídio. Com todas as letras.
Transcrevo algumas passagens sugestivas, mas não percam a leitura integral dum pérola que, quem sabe, não anuncia a "Solução final" do Iraque...

«When will the anti-American violence in Iraq end?
It will end when we unleash the Shia Arab Muslims and the Kurds to finish the job, all the way to the bloody extreme. We're not ready for such unleashing just yet, but we're getting close
(...)
«Yet, in the history of warfare, it's massacring that works. Gary Brecher, who writes the online column "War Nerd," observes, "The only effective counterinsurgency techniques are torture, reprisal and, ultimately, genocide." Some might say that Brecher is overstating the situation - although the Israelis, of course, after 40 years of failing to pacify Muslims in the West Bank and Gaza, would no doubt agree that half-measures don't do the trick.

As the politics of Iraq continue to shift in Washington, it's likely that one day the Americans will quit Iraq, and the Shia and the Kurds will be unleashed on their foes. Slaughter is not the solution Americans were led to expect in 2003, but it's the solution that's coming, finally.»

Quanto ao título da brilhante peça, só por si, não podia ser mais elucidativo:
«Slaughter of Sunni foes is inevitable»
Dito em bom português: "O Massacre dos inimigos sunitas é inevitável".

Pelos vistos, é. Os arautos começam a tocar as trombetas que auguram a carnagem.
Mas não me malinterpretem: Não se trata aqui de reflexões de índole moral, ou lamúrias hipócritas. O mundo é como é; e o pior de tudo é que não parece variar muito ao longo dos séculos. Pelo menos no que respeita aos impérios. Para estes, o massacre, o genocídio, a chacina épica, constituem ferramenta trivial. Dos Assírios, a Genghis-Khan, de Roma Imperial aos Turcos Otomanos, de Carlos Magno à Rússia, a força bruta precede e justifica a lei, predetermina a ética. Ora, esta, na dimensão mundana, como na fábula do cordeiro e do lobo, coincide invariavelmente com os interesses -leia-se: voracidade-, do predador.
Acima da lei -nacional ou internacional-, estão os superiores interesses ou desígnios do Império. Ao contrário do que as suas quintas colunas, premeditadas ou apenas toinas, apregoam, o Império Americano não se distingue, na essência, dos seus predecessores -do Soviético, sobretudo. Nem quanto aos princípios, nem quanto aos fins que o animam. As diferenças, que sempre existem, restringem-se, para além da fachada feérica, ao âmbito dos meios: nunca antes nenhum reuniu tal arsenal tecnológico para cumprimento da sórdida tarefa. É isso que o torna mais perigoso que qualquer outro: porque é o presente, o detentor do Poder e da Força; e, detalhe sinistro sobretodos, porque, sendo lobo, não é um mero lobo, mas um lobo disfarçado de cordeiro. A pele não corresponde à carne. O predador faz-se passar, invariavelmente, por vítima.

terça-feira, novembro 22, 2005

África Deles - I. Sem anestesia

«O músico irlandês Bob Geldof, hoje galardoado com o Prémio Norte-Sul 2005 do Conselho da Europa, considerou que Portugal "definitivamente" deve fazer mais para ajudar no combate à pobreza em África, fazendo valer a sua responsabilidade histórica. »

Então, depois da História, essa figura de estilo, ter obrigado Portugal a abandonar as suas responsabilidades históricas em África, agora vem este músico irlandês clamar pelo contrário?... Mas porque é que este bestunto não vai ter destes desabafos empolgantes com o José Eduardo dos Santos e todos os “Mobutus” que exercem, com soberania supimpa, a “autodeterminação dos povos africanos”?
Esse assunto é com eles, pázinho! Vai lá explicar-lhes essas teorias caritativas e humanitárias, àqueles gorduchos de merda cuja fortuna é geminadamente proporcional à miséria e fominha dos respectivos povos. Vai lá sensibilizá-las, Sir Bob, àquelas nomenklaturas e tribos comilonas – compenetra-os que bastavam aí uns 10% daquilo que gamam, aforram e armazenam por essa banca-esponja do mundo inteiro, para que os desgraçados lá da terra deles, que são muitos, quase todos, pudessem viver com o mínimo de dignidade. Era lá que devias perorar, ó lordezinho, não duvides! Era lá que devias largar essas homilias de plástico a tresandar a peixe e a engodo para palonços adoradores de écran. Sim, nesse penico do mundo é que devias ir absterger a conscienciazinha pop à cata de protagonismo mediático; aí, meu caro, é que convinha e fazia todo o sentido que ginasticasses esse teu vedetismo serôdio, de turista benemérito em digressão pimpona de período pós-ganza. A bela peregrinação que não seria! E o pitoresco que era!...
Em vez dum mero chulo da desgraça alheia, quem sabe, talvez até te fizesses um homenzinho, talvez descobrisses mesmo o que era compaixão genuína, e que pior, bem pior, mil vezes pior que toda a miséria material que assombra as Áfricas, é a indigência espiritual soterrada em gordura néscia e tóxica que te assola a ti e ao cabrão de Mundo Ocidental, a cair de velho, de podre, de impotente, que, para prova da cloaca onde chafurda, te pariu e aos Bonos todos da paróquia (leia-se: toda a bosta chilreante dos Tops).
Mas tu gostas é de salões, de palcos ovacionantes, de púlpitos climatizados, não é? Tu babas-te é de palrar aos engravatados da civilização e aos consumidores lobotomizados da Grande Loja. Pregador sim, mas com ar-condicionado e room service. De que te servia ires gastar saliva com os pretitos e os pretões: eles não te compram os discos, estão a leste do Paraíso e do Mercado. Uns irrelevantes! Ainda te martirizavam, olha a grande chatice. Mais depressa que estes papalvos da banda de cá, topavam-te, à légua, ó santo de pau carunchoso, com a dentuça farisaica a espreitar detrás da retórica bacoca. Ninguém gosta de servir de mero pretexto. E ainda menos de cobaia no laboratório de tecno-escroques da História.
Vens então pregar moral porque os roubámos, escravizámos, explorámos ou defenestrámos no passado. Achas tu, ó iluminado; e apontas para gravuras elucidativas. Mas esqueces de todo aqueles que os roubam, escravizam, vampirizam e matam à fome agora. Todos os dias. Sem dó nem piedade, bem pior que o mais ignóbil e desarvorado dos colonos. Sobre este, todo este belo presente, passas o quê, uma esponja? Um atestado de inimputabilidade? Uma certidão geral de vítimas?
Então agora não são independentes? Não são livres? Não são responsáveis? Não são seres humanos de pleno direito? Não são países soberanos, com assento até na ONU e embaixadas opíparas distribuídas por esse mundo fora?
Temos que ajudá-los especialmente a eles porquê? Porque são pretos? Não podemos ajudar antes os esquimós, ou os peles-vermelhas norte americanos, ou os índios da Amazónia, ou os aborígenes da Austrália, ou aqueles maltrapilhos do Bangla-Desh? Também andámos a foder esses gajos todos, que diabo!... Aliás, parte deles continuam a ser fodidos à bruta e nem direito a assento na ONU têm. Não só os colonizaram como os exterminaram o mais possível. E os Tibetanos, não te agradam? Não engraças com eles? Ou aqueles tipos da Sibéria que se suicidam em série, porque as empresas petrolíferas lhes deram cabo do habitat – não são suficientemente desgraçadinhos? E aquelas criancinhas agarradas aos teares e linhas de montagem, desde bebézinhos, não te assustam? Não te incomodas que atirem para o desemprego aqui milhares dos meus patrícios, coitados, hipotecados à banca e deslocalizados à canzana? Ah, estão a ganhar dinheirinho, os petizes, para dentro em breve poderem andar de jeans, comer hamburgueres e comprar CDs pop, hip-hop e tecno-chic... Olha, que interessante! Que bem pensado.
A ressaca deu-te para aí. Não te chegavam os sem-abrigo lá da tua rua, os desempregados e famintos lá da paróquia. Tinhas que dar uma de Neo-grande explorador, agora não já da geografia, mas da miséria, da galga. África é pois o destino preferencial do jet-set vouyeur da penúria. Eis-te - em nova versão superproduzida, sobremonitorizada-, Tele-Livingtone pela África afora, desinsofrido, patético, à procura das nascentes do Nulo. O Nulo que, pelos vistos, é invariavelmente o estuário seco desse grande rio de ajuda humanitária aos supostos necessitados. O Nulo, que é igualmente, o fontanário mental donde jorra tão filantrópica torrente. Em suma, o Nulo, o Zero, o nano-rato que essa montanha de show-off geral e fatalmente pare. Tirando, claro está, uns certos e nada insignificantes lucros colaterais e outros derivados oportunos ao longo do processo. Não há milagres: O circo tem as suas despesas. O folclore, à escala global, tem custos.
E no meio desse forrobodó nem o Portugalzito, já quase reduzido à mendicidade europeia, escapa. É também mobilizado, pelo Sir Lord Ganzas, para ir, em penitência, combater a miséria nas Áfricas. Tira o cavalinho da chuva, ó Coiso!... Em primeiro lugar, porque, após debandada unilateral, já entregámos aquilo ao repasto das potências; em segundo, e mais importante ainda, porque Portugal já nem a sua própria miséria consegue derrotar, conter ou sequer aliviar. Nós somos bons é a importar coisas. De desgraças, então, somos campeões. E em auto-aviltamentos uns ases. Com tais pergaminhos é mais que óbvio que nem essa desgraça africana nos escapa. Chamamos-lhe um figo. Depois de processada e coada pela nossa indigência mental instituída, já começou até a dar os seus frutos: já retomámos a exportação de famintos worldwide.
Resumindo: Isto já é África, ó Lord Ginjas. Vê lá mas é se nos toca algum!...

domingo, novembro 20, 2005

Um "Green" à Beira-Mar plantado

Consta-se que a nossa juventude, submetida a um regime intensivo e ininterrupto de play-stations, telenovelas, discotecas, drogas várias, shots rigorosos, gangs diversos, progenitores imbecilizados, políticos e pedagogos frankensteins, etc, etc, vem experimentando paulatinas e renitentes dificuldades na absorção de matérias básicas, quais sejam, por exemplo, o português e a matemática. Ao mesmo tempo, a capacidade de conceptualização dos querubins, uma vez chegados à universidade, e em fermentação lógica de uma tão fulgurante engorda espiritual, parece que em nada ultrapassa a dos símios mais corpulentos - chimpanzés, entenda-se.
Pois bem, diante duma tal calamidade, o actual governo, ainda em fase eleitoral, propunha-se implementar o ensino do inglês na instrução primária. Isso, como é óbvio, resolvia, duma penada, o problema do português. Quer dizer, se as crianças não querem sopa, dá-se-lhes iogurte; se não conseguem aprender o português, ensina-se-lhes o inglês. Podemos, pois, tranquilizar-nos: em breve, os pequenos chavalos, ante o deleite saloio e baboso das cavalgaduras paternas, embora não consigam ler três sílabas seguidas na língua de Camões e muito menos escrever uma frase inteira sem mutilarem, possessos de fúria gramaticida canibalesca, todos os vocábulos que lhes aparecerem à frente, saberão, com toda certeza e não menos completa proficiência, pastar e ruminar, sem tradução intermédia, todos os “Harry Potter’s" e "Códigos Da Vinci" que lhes deitarem na manjedoura.
Quanto ao português, eis portanto o prodígio. Banzemo-nos, irmãos!...
Todavia, faltava a desgraçada da matemática. Faltava, mas já não falta. Porque, desde hoje, o inefável presidente unicelular desta república dos macacos, num dos acessos de incontinência oral abstrusa que o caracterizam, descobriu a pólvora e, com ela, a fórmula ansiada de mandar com o problema pelos ares. Nem mais nem menos que “levar o golfe às escolas”. Ora aí está. É o ovo do Sampaio. Tão simples e, não obstante, tão eficaz.
Aprendendo o inglês e o golfe - bem mais fáceis e úteis que português e matemática, convenhamos-, a miudagem, finalmente, adquire duas ferramentas essenciais ao seu futuro, optimizando-se e aparelhando-se desde logo ao mercado de trabalho que os aguarda. Sim, porque não tenhamos dúvidas: O jardim, um dia destes, vai virar “green”. Ora, segundo dizem os entendidos, um bom caddie, além de um rabinho receptivo e depilado, distingue-se pelo esmerado domínio da língua inglesa, bem como das regras, percursos e estojos do golfe.
A mão de obra menos qualificada vai servi-los à mesa. Mas os doutores, -ah, os doutores!- esses, proficientes, hão-de auferir do privilégio ufano de lhes guiar os carrinhos e alombar com os tacos às costas.
Quarenta e oito anos de faxismo, para levarmos logo de seguida com trinta anos de uma merda destas!...

sexta-feira, novembro 18, 2005

Nomes mais adequados para a revista "Atlântico":

1. "Banheira"
2. "Jacuzzi"
3. "Albufeira"

(E se só lá escrevesse a Helena Matos):

4. "Bidé"

Rejúbilo e consternação



O artigo dele já está on-line. Infelizmente, o Borda d'Água e a Revista Maria ainda não.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Canções -II. Homem



E as estrelas no céu,
e a lua sobranceira,
o mar que ao longe avisto
- saberão que eu existo?

E a nuvem passageira
o vento sem eira nem beira,
o raio, a chuva, o corisco
- saberão que eu existo?

E a turba interesseira,
o formigueiro sinistro,
A Deusa e a rameira
- saberão que eu existo?

E a Causa Primeira
e a Terra toda inteira,
a mim, poeira, cisco
- saberão que eu existo?

E a Fortuna milagreira,
a Santa Padroeira
e o Pai de Jesus Cristo
- saberão que eu existo?...

Só a Negra Ceifeira
o Erro, o Tempo, o Imprevisto
velam fiéis à cabeceira
e nunca esquecem que eu existo.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Kit do Dragão para Bloguistas incontinentes e outros boçais convulsivos

Estimulador electroconvulsivo























Fardamento adequado



Medicação generosa



PROMOÇÃO ESPECIAL DE LANÇAMENTO:
As primeiras vinte encomendas ganham de prémio
esta bela e extremamente útil peça de equipamento

Arrastadeira-de-Bidé


EM PURO INOX!!

Não perca esta oportunidade única! Encomende já!!

Auto-plágio

Eu tenho mau feitio. Quando se mora numa caverna e se cospe fogo pelas narinas, a cada quarto de hora, é difícil não ter mau feitio. As cavernas são escuras e húmidas, inçadas de estalactites filhas da puta que nos contendem com a cornadura e estalagmites irmãs das outras que nos intimidam os tomates. Um gajo tem que andar na própria casa com mil cuidados, como se habitasse um campo de minas.
Não admira que receba cada vez menos visitas. Mas não é só por isso que tenho mau feitio. Mentiria se o dissesse. O resto do problema - se calhar a parte mais irritante-, é que o país, o mundo, a fábula aí fora estão cada vez mais infestados de cabrões, de coninhas, de beija-cus e cheira-rabos. De paneleiros e lambisgóias, então, é melhor nem falar. Louros, todos eles. Até os bumbos. Alastram por toda a parte: políticos, jornalistas e outros artistas é raro o que escape. São ruas, estradas, avenidas, repartições, televisões, jornais, ministérios, vilas, cinemas, discotecas, espeluncas, estádios -é isso tudo, sim senhor!- a abarrotar deles. Uma farturinha, que nem no século passado era assim tão luxuriante. Reproduzem-se, proliferam, enxameiam na forma de marabunta (des)humana. Agora, por sinal, até é chique terem muitos filhos, lógicamente tão cabrões, coninhas, beija-cus e cheira-rabos quanto os pais (ou melhor dizendo, quanto as mães, já que os pais, segundo consta, oscilam quase sempre entre o dúbio e o incerto). O mundo é deles e eu estou-me nas tintas. Se é deles, é porque não é grande merda. Não acho bem nem mal. Nem tenho que achar. Era eu a largar-lhes opiniões e eles a limparem o cu a elas. E faziam bem: é pró que a doxa serve! Não; eu preferia mesmo era corrê-los a pontapé, zurzir-lhes o coiro com estas minhas patorras desempenadas. Isso sim, isso é que me convinha ao espírito e à oxigenação mental. Andar aí pelos passeios, pelos corredores, pelas galerias -por toda a parte, enfim- e assestar-lhes com brutalidade, sem qualquer cerimónia nem clemência, patadas convictas, coices excelentes, abençoados, bem capazes de lhes enegrecer aquelas peidas balofas e fazê-los despegar, ainda que por breves decímetros, da terra que conspurcam. E fazê-los planar, ainda que por parcos instantes, num limbo de justiça. Não julguem que não disponho de músculos adequados - quadríceps treinados, gémeos desenvoltos- e ossatura conveniente. Garanto-vos: Não só estou bem equipado com essas faculdades utilíssimas, como domino, do kung-fu, inumeráveis técnicas, variadíssimos estilos, adestradíssimos modos. Haviam de ser umas biqueiradas de antologia! Haviam de merecer cobertura televisiva permanente, no que eu aproveitaria para desancar também os merdosos dos jornalistas, classe de insectos rastejantes por quem nutro especial gula. Mas dizem-me que é ilegal, crime codificado, ofensa corporal. Ameaçam largar-me mastins e polícias, passe a redundância. Podem ofender-me o espírito, mas não lhes posso eu ofender o coiro... Balelas! Sinceramente, é o que acho que são. Enchem-me a paciência, mas não lhes devo encher o cabaz. Esquisitisse burocrática, é o que é! Como não evacuo destas necessidades, como não desentorpeço estes justíssimos ímpetos, dou comigo de mau humor, esganado de parcimónias, estrangulado em inibições, a remoer antipatias. Deve ser por isso, também, que tenho mau feitio. Péssimo, direi mesmo. Dói-me mais esta inactividade forçada das pernas, que uma nevralgia, com buraco a céu aberto e abcesso, dos dentes.
Não admira que ninguém me visite. Não os critico. E mesmo os amigos, outrora numerosos, desapareceram todos para parte incerta, mas longínqua. Corri-os a pontapé, a bem dizer. E de quem é a culpa? Do cabrão dos mundo e das suas parvas regras, nem mais! Como não deixam um gajo correr sob esse fino trato os inimigos, tem o dito cujo que se aliviar de qualquer maneira e, de preferência, em alguém. Ora, como manda a aflição, vai quem está mais a jeito, isto é, vão os amigos. A pontapé, pois claro. É preciso é deitar aquele fel todo cá pra fora. É mais forte que nós. E os amigos, não se cansam eles de dizer, são para as ocasiões. Sejam. Ou melhor: foram. Mas é um falso alívio, que só nos deixa cada vez mais enfurecidos. Ou melhor: foi. O pior é que, com todo este infame desvio do justo alvo, nem o mundo melhora, nem nós.
Humm... Tu aí, ó coninhas!, chega aqui que tenho uma coisa para te dizer!...

segunda-feira, novembro 14, 2005

A minha maldição



Na última dezena de postais, exceptuando o do Caguinchas, o Dragoscópio atingiu níveis literários inauditos e requintes estético-filosóficos jamais sequer imaginados. O sucesso da iniciativa, esse, se não foi retumbante, andou lá próximo. O contador de “credibilidade” e inteligência disparou. A caixa de emails foi inundada de felicitações e brados rejubilantes das mais diversas proveniências. Vários blogues celebraram mesmo, como se de uma efeméride apoteótica se tratasse. Só foi pena este momento de glória ter sido estragado por uma comentadora anónima que, infelizmente, mas com perspicácia sherlockiana de verdadeira Agatacrista, descobriu que eu, um réptil manhoso, tinha plagiado todo este monumento dos “arquivos” do 001.blogspot.com.” Bem que eu desconfiava, carpi para com as minhas escamas: um prodígio destes não poderia jamais ser obra do meu exclusivo e nanofónico talento.
Que vergonha, exclamareis vocês, um dragão desse tamanho a plagiar blogues incautos. E estais cobertos de razão. Uma vergonha, um despautério, de facto! Mas é mais forte que eu, é compulsivo: levanto-me a meio da noite, num transe ambulatório de perfeito zombie, ligo o computador e desato a plagiar blogues. Insaciavelmente! A minha mulher, em desespero, coitada, farta de ver o marido fugir-lhe da cama nestes ignóbeis propósitos, já tentou agrilhoar-me, feito Prometeu, de corrente grossa e cadeado, aos pés do tálamo, mas em vão. Por artes houdiniescas que só o Diabo saberá explicar, evado-me com uma perna às costas - perfeito mestre iogi, portanto – e, ao pé coxinho, lá vou premir teclas e fitar o écran, com um esgar obsessivo que não destoaria nas melhores alas psiquiátricas. Transformado num sedento nosferatu dos blogues, atravesso, assim, sinistro e torpe, a noite funesta. O médico, para onde a Senhora Dragão me transumou sob ameaça de divórcio, teve a amabilidade de me explicar que se trata, sem sombra de dúvida, de um noctambulismo plagiopata, maleita tão rara quão diabólica, que à inconveniência de compulsiva adiciona as desgraças de ser incurável e hereditária. O que, de resto, a minha mãe confirma: parece que também já o meu pai lhe fugia da cama a desoras para ir plagiar o “Almanaque Borda d’Água”. E a minha avó, em passagens amarguradas do seu diário, atribui ao meu avô idênticas evasões, de índole crónica, durante as quais esse meu antepassado, qual hiena faminta, se locupletava sofregamente com páginas inteiras do “Século Ilustrado” e da revista “Orpheu”. Ou seja, como se já não bastasse ser incurável e hereditária, a puta da doença é também degenerativa. Em cada nova geração, decai. Se eu já plagio blogues, imagino que os meus filhos acabarão a plagiar mensagens SMS de teenagers assexuados, e os meus netos, provavelmente, outdoors publicitários ou grafittis de casa de banho. Quanto aos bisnetos, nem quero pensar: apenas por obra santa dum qualquer milagre inopinado, escaparão aos romances das descendentes obesas da nossa Margarida Rebelo Pinto.
Comprenderão, portanto, Vosselências, a minha angústia. Não se trata apenas de ser um monstro: trata-se, ai de mim, de pertencer a uma dinastia aberrante. Das muitas catástrofes que um tipo pode coleccionar na vida, convireis que esta não é das insignificantes. Foi um choque, quando recebi tal diagnóstico. Rangendo no mais profundo dos alicerces, num acesso desvairado, lancinante, apelei à compreensão e à piedade do bom galeno: “Doutor, mas não há qualquer fármaco, terapia ou intervenção cirúrgica que, ao menos, atenuasse este horror obsidiante? Escute, que me impedisse, ao menos, de plagiar o “Abrupto”, a “Bomba Inteligente”, o “minisciente”, o “Casmurro” e merdas inomináveis dessas?!...Diga-me que há, doutor, suplico-lhe!...Um bloqueante parcial para esta minha voracidade maesltrónica, por amor de Deus!...”
O clínico fitou-me, visivelmente comiserado, mas, pragmático como todos os homens de ciência, começou por tentar uma abordagem pedagógica, esforçando-se por aclimatizar-me à realidade:
“Caro senhor, bem que eu gostava, mas, bem vê, são demasiadas merdas, o que me pede é um milagre. Ora, eu sou apenas médico, não sou santo, e muito menos Jesus. E, repare bem, além desses mixordeiros encartados, existem outros da mesma estirpe - em embrião, em incubação, alguns até em aparente confronto mas no fundo merdas iguais, com fornicoques de antena, com gravidezes histéricas-, que nunca mais acabam... é que são quase infinitos! Mesmo que a ciência desenvolvesse um filtro eficaz, inteligente, tornar-se-ia praticamente impossível programá-lo. E se for a ver bem, plagiar fulano ou plagiar sicrano, não faz grande diferença. É tudo um imenso parlamento, ou palramento se preferir, ou balde de minhocas, se cismar de estar com rigores. Uns dão mais nas vistas, outros dão menos, uns estão mais acima, outros mais abaixo, mas são quase todos, dum modo geral, plenamente intercambiáveis. Vamos, sossegue, compenetre-se, tente conviver o melhor possível com a sua doença. Olhe, procure ver o lado positivo, há sempre um lado positivo... Envaideça-se, por exemplo, de ser um caso praticamente único no mundo, por ser portador duma doença raríssima, capaz de deslumbrar anfiteatros apinhados de cientistas, suficiente para levar ao tumulto congressos de investigadores babosos. Sim, pense bem, quantas mais pessoas neste mundo se podem gabar de sofrer de noctambulismo plagiopata dragonaris? Já viu bem? Nenhuma! Essa é que é essa!...Até do prisma religioso tem o seu fascínio: Deus, por um qualquer imperscrutável e transcendente desígnio, elegeu-o, ungiu-o, destacou-o, caro paciente!...”
Ele bem me tentava animar, mas eu, em pensando no “Abrupto” e seus pares, despencava por falésias de desespero abaixo, abanava a cabeça e rilhava os dentes. Ao ocorrer-me o “Causa Nossa”, o “Renas e Veados” e o “Rua da Judiaria”, então, não me contive mais: a espumar da boca, soltei um uivo desumano e fiz menção de me atirar da janela o quanto antes, como naquela cena final do “exorcista” em que o padre, levado literalmente do Diabo, rebola pelas escadas. Realço que estávamos num sexto andar, mas isso era o menos, o problema foi que a janela estava fechada e o vidro, sendo blindado ou coisa que o valha, motivou que eu ricocheteasse caprichosamente, perfazendo em seguida, por via dum bilhar verdadeiramente infernal, uma série de estragos e desarrumações no consultório. O esculápio só então compreendeu da genuína gravidade do caso. Notoriamente preocupado com o mobiliário, mudou de estratégia. Até porque o meu olhar alucinado, farolinando por entre urros medonhos, não augurava felizes desenlaces. Finalmente sensibilizado, achou por bem lembrar-se que afinal sempre havia um remédio experimental, ainda em fase de testes, que eu, sob minha inteira responsabilidade e juramento de sigilo absoluto, podia ingerir.
Deu-me então um tubo de pílulas coloridas...Sabiam a smarties.
Tenho-me empanzinado neles, mas os almejados efeitos tardam. O mais que consegui até agora foi uma diarreia outonal. Também rezo. Rezo muito, eu e toda a família. Fizeram-se promessas, rastejarei até Fátima se a Nossa Senhora se dignar interceder por este pobre desventurado lá nos Céus. À cautela, consultaram-se bruxas e áugures (todos, penso, menos o Luís Delgado –aliás, ao pensar nele e na colega dele, a rata Ferreira Alves, adensa-se o regime de terror em que vivo: e se esta minha moléstia piora e desato, além de blogues, a plagiá-los também a eles? Não serão os blogues já um prenúncio alarmante disso mesmo, uma antecâmara? Suo em bica e quase me borro pelas pernas abaixo só de pensar nisso...)
Mas, dizia eu, não há terapêutica e profilaxia que não se tenha ensaiado. Mandei que me trancafiassem num quarto sem janelas, de paredes reforçadas e porta de segredo; mas dado que, mal o sol se põe, me consigo transformar em neblina ou gás mostarda, não resultou. Escapei pelas frinchas e fui plagiar ainda mais selvaticamente do que antes. Nessa noite, nem blogues de gajas escaparam (não confundir gajas com senhoras, há todo um mundo de diferenças que a seu tempo explicarei).
Em seguida, retiraram-se todos os computadores de casa –o meu, o da Srª Dragão, os dos filhos, o da criada, o do fantasma do trisavô Raimundo que vive no sotão e o do cão Toby Shandy que também é gente, mas foram dar comigo de colmilhos espetados no terminal ADSL, a sugar os arquivos dum blogue intimista e os anúncios de novos espectáculos do “Gato fedorento”. Descobriu-se então, com horror indescritível, que possuo dentadura modem. À força de crucifixos e água benta, lá me conseguiram disciplinar o resto da noite, encurralado na dispensa. Mas os uivos e rugidos lúgubres foram tais que a vizinhança, que vive para lá do arvoredo, do outro lado do rio, telefonou à GNR, alarmada, supondo a quinta tomada de assalto por monstros alienígenas raivosos (ou jovens parisienses, passe o pleonasmo).
Por fim, retiraram-se todas as cablagens da casa - eléctricas, telefónicas, etc, bem como a antena de televisão (não me desse para vampirizar a “revolta dos Pastéis de Nata”, uma merda inconcebível a que, por isso mesmo, eu chamaria um petisco), e mandou-se vir um cubo de vidro hermético e inquebrável onde me encerraram cinco minutos antes do crepúsculo, cercado de crucifixos, grinaldas de alho e fotografias do Padre Borga, do Manuel Luís Gouxa e do Dr. Jorge Sampaio. Montaram vigília armada, supervisionados via telemóvel por um holandês descendente do Dr. Van Helsing. É um facto que o meu corpo permaneceu imóvel e sereno toda a santa noite, feito um autêntico feio adormecido. Parecia que, desta vez, a terapêutica resultara. Os júbilos e regozijos do dia seguinte, no entanto, só duraram até ao meio-dia, quando, num cibercafé das redondezas, ao abrirem o “dragoscópio”, descobriram, com assombro desorbitado, que eu também plagiava telepaticamente. Plagiava e, claro está, blogava. Os despojos esventrados e ainda quentes de vários blogs liberais em forma de post atestavam disso mesmo. Confirmavam-se as piores suspeitas: sou um vampiro iogi.
Não sei o que vai ser de mim. Ninguém sabe. À luz do dia sofro angústias indizíveis, padeço a treva que se aproxima e o triste fado que um qualquer Deus cruel e impiedoso me aspergiu por sina. Estremeço e quase lacrimijo ao matutar no meu futuro. Hesito entre o suicídio e a eutanásia. Sonho com estacas afiadas e balas de prata que me libertem desta canga... Com o Conde Drácula partilho a maldição, se bem que inversa: ao cair da noite, enquanto ele se erguia da sepultura, para se empanturrar nos vivos, eu mergulho nelas, nas sepulturas, para me banquetear nos mortos. E nos mortos-vivos. E nos cadáveres adiados que já mal procriam.
Uma coisa, infelizmente, é certa: Nada nem nenhum processo conhecido me conseguem deter. A noctambulia plagiopata dragonaris é imarcescível, irresistível, implacável. Transporta-nos a horrores infinitos e inimagináveis ao comum dos mortais.
Resta-me pedir perdão ao desgraçado de quem plagiei este postal.
E agora desculpem-me, gostei muito do convívio, mas tenho que ir ali afiar os colmilhos. Há tanta porcaria à minha espera...

sábado, novembro 12, 2005

Do Not Disturb



Por causa da merda do blogue, o Dragão tem descurado os estudos. Neste momento, entrega-se a profundas investigações, cogitaduras e análises. As iditoras perseguem-no; o mundo sustém a respiração e aguarda. Há Tops para tomar de assalto. Está ali dentro, o desgraçado, a digerir compêndios e tratados, a pôr a escrita em dia e a compor minimamente o CV...
Vós, se quereis saber, enquanto decorre este seu retiro monástico, passai em silêncio, babai-vos de inveja, ou então ide pastar!...