segunda-feira, outubro 31, 2005

Só pra dar um recado...

Passei só para dizer, ó Dragão, que continuo ocupado com aquele livro que me emprestaste. Aquele, o calhamaço. Continuo sem entender patavina daqueles gatafunhos, mas, por isso mesmo, decidi fazer como os intelectuais e outra rataria que tal: passei a corrigi-lo. Já corrigi o título... Agora chama-se “Crítica da Razão Puta”.
A seguir vou dar uns retoques no nome do autor. Imanuel é um bocado foleiro, pimba, não achas?...
O Armindo manda dizer que a Teresa esteve lá na tasca e perguntou por ti. Ele achou-a nervosa, rosada e com a barriga alterada.
Agora tenho que ir. ‘Tou a começar a gramar filosofia!...
Dá aí cumprimentos ao clã!...

Nano-Micro-Pintelho Causa: Uma Barbie portuguesa


Decorre no Porto, segundo escutei nas tele-notícias (e podeis confirmar aqui), uma exposição comemorativa da boneca Barbie.
Num ápice, fulminado por um ímpeto clarividente, ocorreram-me uma catrefa de nano-micro-pintelho-causas sublimes, cada qual mais urgente que a anterior...
Em primeiro lugar, na minha qualidade de secretério-geral da LDCPN (Liga para a Defesa e Conservação da Pintelheira Nacional), vou escrever desde já, em chocada reclamação, aos autores/mentores/e fabricantes da boneca, ou seja, à Mattel, contra o facto da dita cuja vir desprovida de pelos púbicos, vulgo pintelhos, o que induz em erro e gera um péssimo paradigma na tenra mioleira das crianças. Com tais exemplos nefastos, não admira que mais tarde se escalvem e descabelem onde menos devem. Esta, como devem calcular, é uma questão transcendente, de importância capital. Daquelas que pode gerar uma indignação capaz de culminar em atentados bombistas. Fiquem atentos: Um abaixo signatado circulará em breve. Escusam de lê-lo (até porque o vosso entendimento da palavra escrita é muito precário); basta assinarem e vociferarem nas ruas, quando for superiormente determinado (entenda-se: quando eu disser).
Em segundo lugar, passo a expor a catrefa de nano-micro-pintelho causas propriamente ditas.
Todas elas, registem desde já, orbitam à volta dum conceito fulcral: a adequação da Barbie ao nosso eco-sistema, ou dito por outras palavras, uma Barbie para os portugueses. Uma Barbie que nos espelhe, e não uma que nos aculture e colonize. Vá comer Mcdonnald’s para a puta que a pariu!
Note-se que quando eu digo portugueses refiro-me, como devem calcular, àqueles múltiplos infelizes sem meios de fortuna ou prebendas de tribo ou seita, que lhes permitam ser outra coisa qualquer. Aqueles que, proscritos das gordurosas elites e respectiva macacada satélite, se encontram destituídos da possibilidades de adopção, por mimetismo, de outra nacionalidade ou cultura e flanar ao alto em conformidade, pilotando ora múltiplos tachos, ora fantásticos jobs, ora resmas de sabujos acólitos e plateias de acéfalos babosos. Para estes está muito bem a Barbie com Ferrari, a Barbie Bond-Girl e outras opulências que tais. Mas para aquel’outros que refiro, os tais portugueses sem escapatória, que estão mesmo condenados a ser portugueses, 24 horas por dia, trinta dias por mês e 12 meses por ano, repito, sem fantasias, sem carnavais, sem devaneios nem partido, não existe puta de Barbie nenhuma e isso, além de trágico, é inadmissível. Num tempo em que hordas de coca-bichinhos exaltados espiolham a eito à cata de discriminações hediondas, eis aqui uma colossal, daquelas dignas de registo e merecedoras, senão dum Laiv Aid 9, pelo menos duma marcha decidida a pôr cerco ao parlamento. Nem quero imaginar quando os U2 souberem disto.
Porque, embora não pareça e a sua transparência proverbial dificulte as coisas, esta gente também é gente. Os portugueses, por incrível que pareça, existem carnalmente; não são apenas dígitos estatísticos. Cada vez menos, é certo, também têm filhos e estas crianças precisam de crescer com modelos que os preparem e instruam no seu futuro; carecem, como de pão para a boca, de moldes-guias para a sua imaginação, cenários que, ao mesmo tempo, as predisponham e conformem com os seus horizontes existenciais. Há cuidados paliativos mínimos a ter com certas doenças crónicas, dolorosas e incuráveis... São crianças que nascem já de pernas partidas, ou atrofiadas, e que, durante toda a sua vida vão ser atropeladas e violadas por profissão e princípio. Num mundo inóspito, cínico e grotesco, que se entretém a decorar com elas cadeiras de rodas mentais, um resquício de caridade, pelo menos durante os breves anos da infância, não fica mal a ninguém. Um pequeno simulacro que seja, que diabo!... A forma como estes tetraplégicos sociais reptam desde o berço até à sepultura, apanhando traulitada e escarro gorduroso pelo meio, devia merecer-nos alguma atenção, para além daquela que geralmente usamos e que consiste em, sempre que possível, acertarmo-lhes a cabeça.
Há crueldades e requintes de malvadez que são absolutamente desnecessários. Pior mesmo do que aquilo para que os reservamos na idade adulta e pela vida fora, é o deboche de infestá-los de ilusões e fantasias parvas nos verdes anos. A sucessão de choques e desilusões, de abismos e desesperos para que isso os prepara e adestra não tem classificação e só releva dum sadismo nojento, volutábrico, digno de hienas canibais.
Por isso, enquanto os portugueses não deixam de procriar de vez, poupando assim a sua descendência a agruras e tribulações horripilantes, o mínimo de atenção que o Mercado lhes deve, já que mais ninguém se preocupa, é disponibilizar-lhes brinquedos para os filhos que ajudem a conformá-los e não a deformá-los mais do que aquilo que já nascem. Que, em vez de os iludirem com asas que nunca terão e jamais lhes germinarão miraculosamente dos costados, os mentalizem para a paulada inexorável nos mesmos, bem como para as muletas e cadeiras de rodas que o futuro lhes reserva com generosidade imarcescível.
Em resumo: Queremos uma Barbie para as crianças portuguesas. Uma Barbie que respeite a sua cultura, as suas idiossincrasias e, sobretudo, que as conforme com o seu futuro, servindo como lenitivo antecipado à sua vida adulta (omito qui, por caridade, o adjectivo “desgraçada”). Lenitivo, aperitivo e incentivo, claro está.
Esta é a nano-micro-pintelho-causa para que vos convoco e cujo manifesto seguirá de imediato para a Mattel.
Resumir-se-á a exigir, sem mais delongas nem turpilóquios, o fabrico e distribuição no nosso país dos seguintes modelos da lendária boneca:
1. A Barbie Desempregada
2. A Barbie Operadora de telemarketing
3. A Barbie Acompanhante
4. A Barbie Massagista
5. A Barbie Sem-Abrigo
6. A Barbie toxicodependente
7. A Barbie Figurante

As Barbies e os respectivos Kens, bem entendido. Ah, e com pintelhos, nunca esquecendo. A Barbie! O Ken, esse, pode continuar a vir capado. É um pormenor de grande realismo e uma lição indispensável ao futuro dos nossos pequenotes.

Tenho dito.

domingo, outubro 30, 2005

Consolação dos aflitos

Legenda: O candidato-em-Si
**
«Felizes os que lacrimijam, porque serão enfraldados".
- Anónimo
***
A Tuna-Coro evangélico-dos-Neoliberais-neoconinhas-e-barnabus-dos-Últimos-Dias confessa-se órfã e desgostosa com o cenário anunciado das próximas eleições presidenciais. A fazer fé nas declarações preliminares, parece que só existem candidatos confessos do modelo social. Uma lástima! Não há nenhum sociopata que se candidate.
Carpem, pois, os nosso pequenos barnabus, a sua triste sina de abandonados e liquefazem-se numa dacriúria insulapada.
Então?..., ânimo, rapazes! Uma pausa na puerilidade compulsiva, por instantes. Tentai, ao menos, um breve relance para lá dos muros do orfanato. Que diabo, lembrai-vos que o que os candidatos das eleições juram antes corresponde invariavelmente ao contrário que vão fazer depois. É uma lei da coirofísica nacional, tão exacta como os axiomas mais inexpugnáveis da matemática e da geometria. Portanto, este prelúdio tenebroso só garante o amanhã canoro que se aproxima. Na verdade -alegrai-vos!- estamos perante cinco sociopatas da melhor lavra; cinco sénior-killers anelantes de desgraçar ainda mais os desgraçadinhos e mimar ainda mais os mimosos; uma mancheia de ogres antropofóbicos decidos a fazer mal às pessoas, sobretudo às detentoras de passaporte português que, por alturas de 2006, ainda não tenham emigrado.
E tranquilizai-vos duplamente, pobres crianças: não só os mostrengos celerados tratarão com ferina e exemplar crueza a sociedade, como, detalhe crucial, em nada melindrarão do essencial do seu primo e nosso Estado leviatã, pelo que os vossos sagrados empregos e derivadas mordomias jamais periclitarão ou ficarão minimamente em risco. Todos eles.
-"Eia! Viva! Oba! O dragão salvou-nos o dia!...", podeis gritar à vontade. Desoprimir o espírito faz bem à saúde. Mas nada de agradecimentos supérfluos: as más acções não carecem agradecimento. Menos ainda com os vossos valiosíssimos links (a punheta de audiências nunca me preencheu as fantasias). Quando muito, aceitarei uma medalha de liberdadeiro-mirim honorário. Dessas com que condecorais os amiguinhos.
Cumprimentos ao papá!...
O candidato poeta
O candidato Loução
O candidato Jerónimo
O candidato Soares
O candidato Silva

Pandemias



Dizem que vem para aí uma pandemia para nos afligir. Como se já não bastasse esta pandemocracia que nos consome...

sexta-feira, outubro 28, 2005

A Ectosofia



A explicação cínica e retórica de que é assim porque sempre foi assim, pode parecer imbuída de mundana sapiência e comprovada experimentação, mas não convence. O "não pensar mais nisso" é só mais um capítulo, deveras prestigiado, do "não-pensar". Este, por seu turno, constitui-se como departamento proeminente do "Não Querer Saber", o qual, por sua vez, agrega e combina o "não querer eu saber" e o "não querer que se saiba", e decorre duma certa conveniência superlativamente mundana, mas completamente acósmica. Quanto à melhor forma do "eu não saber", ou pelo menos a mais praticada, reside na convicção e conversão permanente ao "não existir" do que não se quer saber, nem que se saiba –não estar presente, não ter conhecimento –, ou, mesmo que remotamente exista, "não ser do nosso conhecimento". Parece uma charada, mas não é. Basta acender-se a televisão, e ei-lo que jorra, profuso, recorrente, entre debates e telejornais.
Aliás, é tanto menos charada quanto o próprio percurso Ocidental pós-Helénico se pode efectivamente traduzir como uma fuga à pergunta e, consequentemente, à demanda em que consiste a "sabedoria". Se atentarmos no conceito de "filósofo" grego e no conceito de "sábio" actual, a diferença é, por si só, amplamente esclarecedora. Dum lado o "amor a"; do outro a "posse de": O filósofo antigo é aquele que ama, que acompanha, que aspira e busca a sabedoria; o sábio actual – Globtrotter, erudito, expert, doutorado, premiado, carreirista, capelão, autoritário, burguês –, ao contrário, é aquele que domina, que possui, que debita. Debitar, refira-se, no preciso sentido em que, a cada instante, lavra o nosso débito e aumenta o seu crédito, enfim, trafica e transacciona o seu saber (o seu produto ou mercadoria). Cremos piamente nele –creditamo-lo; e ele debita-nos o seu saber –cobra-nos, quer dizer, salda e põe cobro a todas e quaisquer dúvidas, angústias ou reminiscências. Em suma: um turbo-sofista ou dinociente. A coisa não anda longe da banha ou unguento milagrosos, lendárias panaceias à mão de semear. Tudo o que há para saber, que é possível e conveniente saber em dado momento, ele sabe, explica. Não para que se compreenda, estime ou contribua para qualquer melhoria significativa do nosso espírito, mas para que não se pense mais nisso, ou mais exactamente, para que se continue a não pensar nisso. Pertence também ao corpo de massagistas da Opinião Pública. Anseia e esforça-se por um tempo de antena ou espaço na notícia. Congrega, como qualquer estupefaciente moderno, uma mescla explosiva de propriedades anestésicas e aceleradoras. Um narco-paroxíntico, em suma. Caso, por algum azar enigmático, ainda não nos encontremos debaixo dos seus efeitos, depara-se-nos, então, um mundo de pródiga bizarria onde o pensamento, no seu simulacro autorizado, se treina em ginásios especializados na musculação de espíritos. O quadro é de tal ordem – os ditos espíritos, suados para a alta competição, tão indistintos das pernas –, que, depois de o vermos, sobrevem a náusea fatal daquele que preferia nunca ter visto. A quadrupedia, substancialmente vantajosa em se tratando de correria, está pois na moda, sendo agora mental. O treino e perseverante adestramento não descansa mesmo enquanto as sublimes performances e recordes que as promissoras desmultiplicações dos octópedes e miriápodes não forem alcançadas. Esta dromopedia mental, levada a cabo por cérebros herculíneos à desfilada por pistas olímpicas, reflecte na íntegra essa "ectosofia" que redunda, sem dó nem piedade, na "paranóia". Simultaneamente, é o pensamento-força, obra de músculo que se impõe ao pensamento-ideia, acto de espírito. É o triunfo do pensamento latejante, culturista, anabolizado; e o descrédito em toda a linha desse anacronismo simbolizante, famélico, descarnado, quixotesco. Concluindo: a fuga à pergunta, o exílio da sabedoria descambam fatalmente num pensamento prótese, catalizador, turbo-compressor, só que, na verdade, um pensamento fora de si, desiquilibrado – não do homem para o Homem, mas do mundo para o mundo –e, a limite, do mundo contra o ser do Homem. De resto, a crise actual já nem configura a adaptação do Cosmos ao homem, mas antes deste ao seu próprio mundo. Criado o monstro Frankenstein, este, animado do espírito do criador, ainda desponta e já descobre, lamenta e se propõe corrigir a monstruosidade daquele que o criou. A besta artificial fará, assim, ao homem, o que o homem fez ao cosmos. Lembra a "athé" grega, a lei implacável da retribuição cósmica: o mal que alguém desencadeia é o mal que lhe há-de caber em sorte; o excesso autocorrige-se. O mal é sempre o mal de si próprio.

quinta-feira, outubro 27, 2005

Epistemologias e antipistemologias

Lá está, caro PedroMS, todas as formas de saber têm os seus méritos: é preciso é delimitar com rigor os seus campos de aplicação. A ciência aos vírus, a filosofia aos grandes enigmas metafísicos e a prosápia dos comentaristas... bem, essa é tão bacorejante, tão lorpa, que só se vislumbra mesmo um destino possível: as pessoas.
Muitas vezes esquece-se que, mais que com ciências e filosofias, a humanidade, por estes nossos dias, atarefa-se, moureja e desunha-se com o aperfeiçoamento duma Teoria do Desconhecimento. A Antipistemologia, permita-me o neologismo. Não me espantarei até se a Ignorância devier forma de religião Global. Há indícios alarmantes, tendências avassaladoras, de que a liberalização dos mercados corresponde, nas mentes, à liberalização da asneira. Não é por acaso que o asno sempre foi o companheiro inseparável do almocreve.

Fetichismos ou Dois Pingos de (falta de) vergonha

Ao contrário de ti, meu caro Timshel, o único cartaz do BE (Bosta de Esquerda) que me distraíria momentaneamente da náusea geral que aquilo, todo aquele folclore hipócrita de esquerda Beta, me causa, seria um, de preferência mega-outdoor luminoso, com a Joana Amaral Dias em cinto-de-ligas, ou cat-woman, ou, o que ainda seria melhor, toda nuinha e apenas com um mini-avental. Mas nada de palavras a acompanhar, sobretudo nada de palavras!... Aí, nessas rigorosas circunstâncias, confesso, por instantes era capaz de mergulhar em idílios.
Estou certo que os pobres reformados, que tanto te preocupam, concordam comigo. A escolherem, entre mentiras, aldrabices e contos do vigário para engazupar otários, dum lado, e uma gaja boa bem embrulhada, do outro, nem hesitavam. E já que a barriga está condenada à fominha, hoje e sempre, ao menos que se aproveite a vista para tirar a barriga de misérias.
Sobre essa velha diálise rico mau/pobrezinho bom, deixa ainda que te diga: é uma falsa questão. Na verdade, só existem ricos (ou pobres, se preferires): uns em acto e outros em potência. Se reparares bem, os potencialmente ricos (a que chamas pobres) lutam por actualizar-se. Já os potencialmente pobres (a que chamas ricos), pelo contrário, batem-se denodadamente para obsolescerem o mais possível. Por conseguinte, eu não iria por aí. A não ser que tivesse uma galochas muto altas, tipo pescador.
Enfim, serve tudo isto para rematar que para esse peditório já dei. Os ricos, actuais e potenciais, quero que se fodam! Bem como os pobres.
Já o mesmo não posso dizer em relação à bela Joana. Aí, reconheço, até nem me importava de ser eu a poupar-lhe essa trabalheira. É o que dá em ser um Dragão, além da Triste-Figura, também Pinga-Amor.
JJJQYYYYYY
PS: Podes argumentar que as reformadas não concordariam comigo e que eu sou um porco machista, sexista e filho da puta. Além de camionista TIR, claro está. Tens razão. Mas, que queres, é mais forte do que eu.
Em todo o caso, enquanto houver telenovelas, as pobres reformadas não se queixam. Quer dizer, queixam-se, mas mesmo que fossem ricas queixar-se-iam sempre.

quarta-feira, outubro 26, 2005

Tempo de Antena - II. Confraria Hermética dos Gambosinos

INÍCIO DO ANO LECTIVO

Solidária com as grandiosas festividades que, mais uma vez, assinalam o regresso às aulas, aos comas alcoólicos e aos bocejos por todas as egrégias universidades da nossa república, a Confraria Hermética dos Gambosinos, desde já, alerta a população estudantil e mentecaptos em geral para os gloriosos empreendimentos que se propõe levar a cabo:
Assim, depois da tão celebrada descoberta do caminho Marítimo para a Índia, da conquista de Lisboa aos Mouros e do não menos empolgante massacre de Custer em Litle Big Horn, onde nos divertimos a valer, a nossa Confraria, sempre filantrópica e benfazeja, tomada de brios, propõe-se, este ano, nada menos que organizar a recepção ao caloiro, para o que conseguiu de antemão -e em exclusivo! - a participação gratuita duma comissão docente extremamente sincera e folgazã.
Ao contrário dos usados e vezados bailes de máscaras, esta temporada -alegrai-vos, ó doutores do amanhã! -, muito por via do inexcedível brio evidenciado pelo pelotão docente, há que confessá-lo, tudo se processará no maior dos desvelos e harmonias.
O presidente da ilustre Academia de Rilhafoles - e respectivas concubinas- presidirá ao primeiro dia das festividades.


Recepção ao caloiro. Ensaio geral.

Da injustiça


«As pessoas cometem injustiça quando pensam que a acção se pode cometer e ser cometida por elas; ou porque entendem que o seu acto não será descoberto ou, se o for, que ficará impune; ou então porque se este for punido, a punição será menor que o lucro que esperam para si mesmos ou para aqueles de quem cuidam.(...) Quem sobretudo pensa que pode cometer injustiça impunemente são os dotados de eloquência, os homens de acção, os que têm grande experiência de processos, se tiverem muitos amigos e forem ricos. É sobretudo quando se encontram nas condições referidas que eles pensam poder cometer a injustiça; ou então, quando têm amigos, servos ou cúmplices que satisfazem essas condições; pois graças a esses meios eles podem agir sem ser descobertos nem punidos. »

- Aristóteles, "Retórica"

Bem a propósito, até pela efeméride peregrina que hoje se inaugura, acodem duas ou três questões insignificantes: dispomos de um sistema de administração da justiça, ou de uma rede esquemática de gestão da injustiça?
Se, em tese, a justiça devia ser cega, entre nós ela, a um certo nível, varia entre ser vesga ou zarolha?
A justiça vai nua?

Perguntas de Algibeira -II

«Porque é que são blogues colectivos, a emular autênticos coros de seita evangélica miscigenada de bancada par(a)lamentar, os que mais clamam pela santíssima "individualidade"?

Perguntas de Algibeira - I



Porque é que são blogues colectivos, verdadeiras neo-UCPês*, os que mais peroram contra o colectivismo e se indignam contra a colecta?

*UCP- Unidade Colectiva de Produção (as famigeradas cooperativas agrícolas do alentejo, durante a reforma Agarr..., perdão, Agrária).

terça-feira, outubro 25, 2005

E lá se vai a vida exemplar, o mérito e o livre arbítrio para as urtigas...

«Quem, por outro lado, tão impiamente delirará, que diga que Deus não pode converter ao bem as más vontades dos homens que quiser, quando quiser e onde quiser? (...)
Somente a graça separa os eleitos dos condenados, aos quais uma mesma causa, o pecado original, havia confundido numa só massa de perdição. (...)
Deus executou o seu desígnio por meio da própria vontade da criatura através da qual fez o que a ele não lhe agradou; usando bem mesmo dos males, como sumamente bom, para condenação daqueles que predestinou justamente ao castigo e para salvação dos que bondosamente predestinou à graça.»

- Santo Agostinho, "Enquiridion" (98,25-100,26)

Bizarrias de um santo? Doutrina da igreja? Uma bota para oTimshel descalçar? Sacanice do Dragão?... Todas elas?
O ciber-ouvinte escolha a resposta certa e envie, em envelope fechado, para onde muito bem entender, que ninguém lhe vai oferecer nada por causa disso.

O grande mistério

«Portugal pede ajuda para cumprir plano» (de combate à gripe das aves)

Quando os dois guarda-redes do aviário adoeceram, deviam ter logo percebido que se tratava dum surto particularmente agressivo e perigoso de gripe das aves. Agora, e fazendo fé nas medidas anunciadas, como as autoridades vão conseguir sequestrar e abater os seis milhões de putativos galináceos infecciosos permanece envolto em grande mistério.
Se tiverem falta de ideias, eu posso apresentar algumas sugestões.

segunda-feira, outubro 24, 2005

Transilvice



«Manifesto de Soares: recusa do «situacionismo» é ideia chave.»

A confirmar-se, não deixa de ser uma excelente notícia. Já podemos descontrair e dormir sossegados: o Conde Drácula vai combater os zombis e os vampiros.

E até tem o seu quê de empolgante: quando pensávamos que ele, finalmente, ia recolher ao esquife, ei-lo prestes a sair para mais uma tournée.

domingo, outubro 23, 2005

A Pluto-anóia, ou o Carácter dos Ricos


«Os caracteres que decorrem da riqueza estão à vista de todos. Os que os possuem são soberbos e orgulhosos, porque de certa maneira estão afectados pela posse das riquezas (estão na mesma disposição daqueles que possuem todos os bens; a riqueza, com efeito, funciona como uma medida de valor das outras coisas, porque tudo parece poder comprar-se com dinheiro). São também efeminados e petulantes; efeminados, porque vivem no luxo e fazem ostentação da sua felicidade; petulantes e até grosseiros porque estão habituados a que toda a gente se ocupe dos seus desejos e os admirem, e também porque crêem que os outros desejam o que eles têm. (...)
Também se acham dignos de governar, porque julgam possuir tudo aquilo por que vale a pena governar. Em suma, o carácter de um rico é o de um idiota* felizardo.
Os caracteres dos novos-ricos diferem dos antigos no seguinte: os novos-ricos além de terem todos os vícios dos outros, ainda os têm em maior grau e com maiores defeitos (é que no novo-rico há como que uma ausência de educação no tocante à riqueza).»

Aristóteles, "Retórica"

* Aristóteles usa, no original grego, a expressão: "Anohéton eudaimonos". "Anohetón", traduz a negação ou privação de "noesis", ou seja, "a-noesis". Ora, se noesis" significa "inteligência", tal qual "nous" significa "espírito", este "a-nohéton" pode traduzir-se por "sem inteligência", ou "sem espírito", donde que existem várias opções ao "idiota" por mim empregue. Cito algumas: "doido", "débil mental", "imbecil", mentecapto", "demente", etc, etc. O leitor use aquela que mais lhe agradar. Todas elas preservam fidelidade ao texto e àquilo que o autor nos quis legar.

sexta-feira, outubro 21, 2005

Tempo de Antena - I. - A LDCPN (Liga para a Defesa e Conservação da Pintelheira Nacional)


Leitores angustiados escreveram-me epístolas lancinantes. A enormíssima preocupação que os dilacera e mergulha num stress inaudito resume-se ao seguinte: estará este blogue asselvajado, ferrabrás e iconoclasta em risco de se transformar em mais uma sala (ou salão) de chat?
De maneira nenhuma, meus amigos! Essa dúvida até me ofende. Só por cima do meu cadáver, ou nem por cima dele, porque mesmo falecido este invólucro atlético onde pontificam músculos de aço inoxidável e miolos turbilhonantes, e vice-versa, perdurará, ainda e sempre, o meu fantasma; e esse, podeis confiar, não o permitiria nunca. Armaria poltergeists de todo o tamanho, assombrações e tumultos de tal ordem, que até o furacão –aliás, furacona – Wilma (não sei se Flinstone) havia de parecer um redemoinhozito soprador de palhas. É como vos digo, boa gente: as caixas de comentários deste tugúrio, que são lendárias pela sua brancura, higiene e privacidade, e fazem público alarde disso, voltam já de seguida a esse recato tumular, vasto e silencioso, verdadeira nave de catedral, a que os ilustres e raros peregrinos deste apocalipse se habituaram e onde se recolhem, não raras vezes, em profunda e devota meditação. Ora, para que não restem dúvidas quanto a isso, estamos de volta às grandes questões da humanidade, àquelas causas beneméritas, inebriantes, por que vale a pena lutar, dirimir e perder o sono.
Desta vez, é mesmo aquela que - pela sua acção devastadora e esfoliante no bem mais precioso da pátria-, me atormenta especialmente não só a mim, mas, sobretudo, ao meu amigo e confrade neste blogue, Sua Abécula Lampiónica, o Caguinchas. Refiro-me à Alopecia púbica feminina.
Vou apenas sorver um gole de trotil para aclarar os fagotes e prossigo já de seguida, com a pertinácia e clarividência que me caracterizam...
Leitores, muito se tem verberado a mutilação genital ou excisão, mas, lamentavelmente –direi mais: criminosamente! -, esquece-se a mutilação (ou extermínio) capilar, variante suavizada mas igualmente hórrida de vulvo-escalpe; ou, dito eruditamente, alopecia púbica. É deplorável. Sobretudo porque enquanto aquela, a excisão, decorre entre populações longínquas, alienígenas, regidas por costumes arcaicos, pré-cognitivos, cafrealinos, esta, a alopecia púbica, processa-se e alastra como verdadeira praga mesmo debaixo do nosso naríz, escalvando sem dó nem piedade –e a um ritmo alucinante, Príapo nos valha-, as donzelas casadoiras da nossa própria sociedade. Não restem dúvidas: De todas as americanices que molestam o mundo, esta é talvez a pior.
E se no meu entender a situação é da maior gravidade, no entender do Caguinchas ela é calamitosa, senão mesmo um presságio óbvio de que o fim do mundo está próximo. Em aceitando os seus pressupostos – a saber: mulher que barbeia a cona não é fiável; se um cabeça rapada é neonazi, uma cona rapada é neoquê? -, corremos o risco de mergulhar em idêntico estado de aflição convulsa (isto se, avassalados de justa ira, assanhados e envespecidos, não corrermos de pronto às avenidas, em marchas de protesto e motins tonitruantes, cravejando de pedradas as montras e os polícias de serviço).
As desgraças, porém, possuem faculdades multiplicativas. Esta não foge à regra. Assim, como se já não bastasse a escanhoadela completa a que submetem o entrepernas, as fulanas, seduzidas e mentecaptizadas por propagandas cavilosas e modas malfazejas, ainda se dão aos trabalhos e requintes de enfeitá-lo com todo o sortido de ferragens, bijuterias, tatuagens e, quiçá, semáforos luminosos. Nunca os vi, mas já não me surpreende que existam. E se me vierem dizer que durante a época natalícia há flausinas que imitam as ruas da baixa, nem duvido. Pois é, antigamente - e chamavam-lhes desumanos, tenebrosos, medievais, ogres de barba azul por causa disso-, revestiam as donzelas com cintos de castidade fechados a cadeado; agora, se preciso for, são as próprias que desfilam com aloquetes dependurados do martirizado grelo e é o cúmulo da modernice. Bué da fixe. Se o progresso é isto, eu vou ali e já venho. O Caguinchas, esse, menos dado a estoicismos, solta impropérios e abalroa com a cabeça as inocentes paredes. Calma, Caguinchas, não sejas bota de elástico!...
Hão-de, não obstante, Vosselências, convir que o caso não é para menos. Agrava o caso singular do meu amigo a tragédia de já por duas vezes se ter esfolado em não sei que símbolos góticos, além de ter desenvolvido uma afta renitente na língua à conta dum apetrecho geralmente à venda nas lojas de ferragens, mas que a galdéria ostentava perigosamente num socalco inoportuno, plantado algures entre os grandes e os pequenos lábios da sua armadíssima coisa. Daí que ele pergunte, e com toda a razão, que raio de mundo é este? Eu, que também já senti na pele sensível dos testículos as sevícias intempestivas desses adereços de masmorra ou ganadaria, junto-me, dolorido, à interrogação – que cabrão de mundo é este?! Se alguém souber a resposta, é favor escrever para o email em anexo e partilhar connosco a solução de tão descomunal enigma.
Com efeito, como se já não fosse suficientemente desolador o quadro duma vagina escalvada, - o que, assim de repente, pode degenerar em erros grosseiros de paralaxe e angústias subsequentes do estilo "mas estou a entrar pela porta da rua ou da garagem ?"-, a macabra paisagem é ainda piorada e complicada por um conjunto de ratoeiras arrepiantes claramente predispostas ao estropiamento e escoriação do piston em trânsito. É caso para perguntar: se as gajas teimam em armadilhar a cona, não recomenda a prudência que nós, machos viris, tratemos de couraçar o caralho?... Por outro lado, se a ideia era assustarem-nos, congratulem-se, ó megeras: estais a consegui-lo. A perspectiva de lacerar, agrafar ou lapidar o garboso membro (de encontro a sabe Deus que joalharias ou retrosarias de emboscada ao paraíso) não constitui especial idílio para qualquer garanhão em seu perfeito juízo, ainda que faminto de dois dias. Mal por mal, antes o querubim, ou serafim, ou joaquim armado com a espada ardente, de porteiro ao Eden e às cóleras de Jeová! Vê-se à distância e um gajo não perde tempo nem gasta devaneios.
Dantes, meus amigos, era a gonorreia, vulgo escantamento. Escorria-se pus e ia-se à zaragatoa. Depois apareceu a Sida, esse flagelo. Agora, para cúmulo, além dessas duas, é também o tétano. Progressos, se existem, só se for nos riscos que um cavaleiro corre: Outrora, os pregos ferrugentos armavam-nos ciladas aos pés e respectivas solas; doravante, ascenderam na vida, treparam pelas pernas acima e já nos ameaçam a cabeça da pichota. Se isto é que é progresso, mais valia voltarmos para as árvores!...
Por este andar, não me restam muitas dúvidas: em vez da camisa-de-vénus, temos que passar a usar uma armadura medieval no nosso próprio aríete. Quer dizer, em vez de camisa, o melhor mesmo é vestirmos samarra – samarra-de-marte, por assim dizer, já que a tarefa amorosa, em cada dia que passa, se aproxima mais do exercício mavórtico. Não tarda, um tipo para ir para a cama com uma gaja tem que equipar-se e aparelhar-se feito sapador da Grande Guerra, pronto a abrir caminho por entre o arame farpado. É justo: Quem com ferro fode, com ferro tem que ser fodido. Com portões, fossos e levadiças tais não se brinca.
Entretanto, eu –e o Caguinchas, a meu conselho-, já tomámos medidas preventivas: vamos passar a andar sempre munidos do detector de metais e de perucas-pintelheira. Como é que o esquema funciona? É simples: primeiro, com a maior descrição, sondamos a gaja com o detector. Se apitar, nada feito, está minada; se não apitar, avançamos para a segunda fase. Uma vez nesta, à medida que a boazona se despe, procedemos à sondagem manual do entrepernas, logo seguida de confirmação por reconhecimento visual. Caso se constate, sem sombra de pintelho, que padece de alopecia púbica, usamos da fórmula Caguinchiana (nestas coisas sempre um ás) e ordenamos-lhe, em tom imperioso: "Ouve, querida, quando acabares de despir a roupa, fazes favor, pega lá o adereço e vai vestir a cona!" Sim, porque a gaja quer-se pelada, mas a cona da gaja não. E dispensem-se de me vir dizer que é uma violência fassista, porque com tanta mama, lábio e rabo postiço que por aí anda, um chinó púbico não escandaliza nem diminui ninguém.
Posto isto, partindo do princípio que não estou a falar para as paredes e vós não sois apenas uns cabrões duns tijolos ou calhaus incrustados em argamassa, penso que está dito o suficiente para vos despertar dessa alienação e lobotomia em que, geral e alegremente, flanais. Políticas, futebóis, paneleiragens, economices, religiões, enfim, todas essas telenovelas com que vos injectam, só servem para vos distrair do que realmente interessa, daquilo que faz mover e perpetuar o mundo. Largai a droga! A pandemia já está entre nós!
Escutai, ó alienados:
Chega de discutir pintelhices. Defendamos a pintelheira nacional!


A Liga para a Defesa e Conservação da Pintelheira Nacional (LDCPN) está em marcha.
Donativos e mensagens de solidariedade ou adesão através do email em anexo (em cima, lado direito).

Também já à venda o kit Draguinchas "Foder em Segurança" (composto de samarra-de-Marte em cota metálica de titânio com escamas autolubrificadas, detector de metais Garrett e chinó púbico em várias cores, espessuras e penteados – loiro, moreno, ruivo, carapinha, frondoso, arrelvado, matagal, floresta virgem, etc).

Lembre-se: Se conduzir, não beba; e se foder, não arrisque! O álcool mata. A droga também. Mas a cona calva e armadilhada, essa, valha-nos Deus, estropia.

Dragão & Caguinchas


PS: Quem tiver quaisquer dúvidas acerca da superioridade e excelência da nossa causa, é favor atentar na mostra cabal e sublime que passamos a expor. Dizem que uma imagem vale mais que mil palavras. Depende da imagem. Esta julgamos que vale mesmo mais que dez mil...

quinta-feira, outubro 20, 2005

Mais Crimes exemplares

«Sou um professor de instrução primária. Há dez anos que sou professor na Escola Primária de Tenancingo, Zac. Inúmeras crianças passaram pelas carteiras da minha aula. Creio ser um bom mestre. Pensava-o até chegar esse tal Pancho Contreras. Não me ligava nenhuma e não aprendia nada, porque não queria. Os castigos, morais ou corporais, não surtiam o mínimo efeito. Olhava para mim com insolência. Eu suplicava. Punha-o fora da aula. Nada feito. Os outros míudos começaram a fazer pouco de mim. Perdi toda a autoridade e o sono e o apetite, até ao dia em que, não aguentando mais, o enforquei na árvore do pátio, para servir de exemplo.»

«Ficha 342
Nome do doente: Agrasot, Luíza
Idade: 24 anos
Nascida em Veracruz, Ver.
Diagnóstico: Erupção cutânea, provavelmente de origem polibacilar.
Tratamento: 2.000.000 unidades de penicilina
Resultado: Nulo.
Observações: Caso único. Recalcitrante. Sem precedentes.
A partir do décimo-quinto dia senti-me vencido. O diagnóstico era perfeitamente claro. Impossível ter a menor dúvida. Perante o fracasso da penicilina, tentei em vão toda a espécie de medicamentos, não sabia o que fazer. Dei voltas ao miolo dia e noite, durante semanas e semanas, até que lhe administrei uma dose de cianeto de potássio. A paciência –mesmo com os pacientes – tem limites.»

«Tentar convencê-lo para quê? Era um sectário da pior espécie, como se se julgasse Deus-Pai. Tinha o cérebro entupido. Abri-o de um só golpe, para lhe ensinar a discutir. Quem não sabe que se cale.»

«Matei-a para não a apoquentar.»

- Max Aub, "Crimes exemplares"

quarta-feira, outubro 19, 2005

Subsídio para uma velha questão...

Os homens amam a guerra. As mulheres amam os guerreiros.

Haja respeito pelo povo!...


Ó Dragão, pára lá de discutir o sexo dos anjos e ‘bora mas é discutir o sexo que interessa: o das gajas!
‘Da-se, até já me dói a cabeça com tanto palavrão de cinco mérreis!...

A conversa de gigantes



«Galileu acreditou que as teorias matemáticas de onde deduzia as observações representavam a realidade permanente, a substância subjacente dos fenómenos. A natureza era matemática. Esta ideia devia-a, em parte, ao platonismo que havia estado em voga em Itália, sobretudo em Florência, desde o século XV. »
A.C.Crombie, "História da Ciência – De Stº Agostinho a Galileu"


Para Aristóteles, a Fysis (correspondente grego à "natureza" latina e medieval) era de ordem orgânica, ou seja, manifestava um cosmos entendido como "zoon", ser vivo.

Com a Ciência moderna, o organismo degenerou em esquema. Nem sequer sistema, mas multiplicidade, aglomerado de esquemas. Cada ciência tem o seu, sendo certo que a Ciência se pulverizou numa miríade de ciênciazinhas, cada qual às voltas com o seu pequeno osso. A sabedoria antiga, que demandava a plenitude, deu lugar ao saber às fatias, galeria-labirinto de guichés e chafaricas. Uma burrocracia de anõezinhos, moços de frete e malabaristas do conceito. Um circo de barraca armada no Largo da Contingência, para os operários do Bairro da Indústria e para as rameiras do Beco do Progresso. Um rilhafoles completo onde os internados se babam e deslumbram, fixados alhures nas virtualidades mágicas e incomunicáveis da sua monomania.

Entretanto, sobra-nos uma pergunta, talvez mesmo um enigma:
O cerne do pensamento Ocidental residirá nessa discussão entre Platão e Aristóteles que, por entre ruídos, burburinhos e notas de rodapé, atravessa os séculos?