sexta-feira, agosto 19, 2005

A Vontade do Povo


Figurar - ou melhor dizendo: fantasiar – no voto a realização de uma qualquer vontade popular, não abona muito em prol da qualidade da democracia. Muito menos do teor. Ou sequer do aroma... A imagem do deputado como emissário ou recipiente da vontade popular, quanto a mim, não é feliz. A vontade é, quer queiramos quer não, ainda mais em se tratando do "povo", um conceito que nos remete para determinadas urgências, premências ou necessidades.
Dir-se-ia, assim, que, ao ir às urnas, o povo, com toda a soberania inerente, está a ir à casa de banho. Não fica muito claro se vota ou se se alivia, se elege ou meramente despeja, se sufraga ou, pura e simplesmente, descarrega. Tão pouco esclarece ou ilustra se, no decurso de tamanhas tribulações, a mesma e peregrina entidade está à tabela ou simplesmente à rasca.
É certo que, dados os resultados de grande parte dos sufrágios (sejamos por um breve instante benevolentes) , esta visão escatofântica do acto até acaba por nem causar grande espanto. Mas, que diabo, no mínimo há que ter respeito por uma instituição tão antiga e animada de tão boas intenções.

quarta-feira, agosto 17, 2005

A calamidade

«Na sua visita à Pampilhosa da Serra, região que há cinco dias está a ser fustigada pelos incêndios, o ministro da Administração Interna, António Costa, insistiu em afirmar que não há razões para decretar estado de calamidade pública nas zonas afectadas pelos incêndios. »

O ministro está coberto de razão. É uma mera região, uma pequena parcela do território nacional, e só está a ser fustigada há cinco dias. Se pensarmos que o território completo, mais as ilhas adjacentes, já não falando nas ex-colónias (que, como se sabe, ainda eram maiores) estão a ser fustigados, vai para mais de trinta anos, por agremiações de pujantes e vorazes democratas como aquela em que é filiado o sr. ministro, e nem o Estado de emergência se declara...
Além do mais, a Pampilhosa da Serra, bem como a generalidade das áreas ardidas, em bom rigor, nem fazem parte do país: só fazem parte da paisagem. Ora, o fogo, por muito escalpante e calcinante que seja, nem de perto nem de longe constitui a pior catástrofe que lhe pode acontecer, à paisagem. Ao pé dos empreiteiros e autarcas associados, ninguém tenha dúvidas: as labaredas quase passam despercebidas. Entre o betão e o carvão, o diabo, chamado a escolher, até por hábitos de churrasco, prefere o segundo. E nós, que somos claramente filhos dele, também.
Falta apenas acrescentar que há uma última razão, esta muito simples e óbvia, para o ministro não se pôr com declarações extemporâneas de calamidade: porque dado o estado a que isto chegou, senão mesmo o estado usual em que isto -nos últimos quatro séculos - (des)anda, declarar a "calamidade pública" acabaria por ser, mais que injustificado, perfeitamente redundante.
Declarar, entre nós, a calamidade não remete para o extraordinário, mas para o trivial, para o quotidiano. Em vez duma urgência qualquer, limita-se a referir o nosso modo de vida, a revelá-lo abertamente, a expô-lo sem maquilhagens . A calamidade, bem vistas a coisas, é o nosso negócio, o nossa ganha marisco. Há muito que desistimos de combater catástrofes...Viciámo-nos nelas. Somos vítimas profissionais, desgraçados cósmicos. Coleccionamos escombros e ruínas, chagas e deformações, enfim: tudo o que sirva para engodar e mistificar a esmola alheia, e, sobretudo, para canonizar a nossa própria inércia, para garrir a nossa desvalida e rastejante prostração.
E se no verão deitamos fogo às matas, no resto do ano deitamos fogo aos neurónios. Ou entretemo-nos a quebrar as pernas uns aos outros.

terça-feira, agosto 16, 2005

A Caixa de Pandora II

domingo, agosto 14, 2005

Coração das trevas


Há em nós, portugueses, uma qualquer costela calcorreadora de mundos. Há, direi mesmo, uma força misteriosa, mas irresistível, que nos pulveriza em todas as direcções. Quem nunca partiu e voltou, dessa viagem a casa do diabo mais velho, é como se ainda não tivesse nascido. Debate-se em trabalhos de parto. Extrai-se a ferros. Ou põe-se a ferros, caso cisme de não partir, posto que se obstine em não nascer.
Mas não se pense que zarpamos à procura de não sei que Eldorados ou fontes maravilhosas. Experimentem a viagem e depois digam-me... Não é nada disso. Vamos só à procura do caminho de regresso – é para o encontrar que nos perdemos, que nos empurramos para lá de todas a fronteiras, rotas e mapas conhecidos. Porque a mesma força que nos expulsa, que nos expande, é aquela que, depois, nunca mais deixa de nos atrair. Aquela que nos derrama, que nos perde, é também aquela que vai sempre atrás de nós, à nossa procura. É como um coração de terra, magnético, a palpitar – um coração de que nós somos o sangue.
E é como se fugíssemos de casa só para irmos contemplá-la de fora, da distância, de longe, de nenhures.
No fim, lá nos limites do assombro, à beira do sorvedouro, nos confins da odisseia, vencidos monstros e abismos, não são terras ignotas e exóticas aquilo que descobrimos –ou melhor, não são quaisquer terras ignotas e exóticas, mas uma em especial... Uma que nunca imagináramos que existisse: a nossa própria terra. Essa que nos viu nascer e que nos espera à hora da morte. Descobrimo-la nesse dia, lá longe, quando descobrimos que afinal a viagem não foi no mundo, mas no nosso próprio coração. Quando descobrimos que o maior monstro e o maior abismo somos nós próprios. Quando, enfim, descobrimos que a nossa única e verdadeira descoberta foi descobrir que a amamos.
Foi por isso que eu voltei, terra minha, porque te amo!
É contigo que me quero deitar para a eternidade.

sábado, agosto 13, 2005

sexta-feira, agosto 12, 2005

Ixion, ou Nefelibatas e Viscosos



A história de Ixion - que, segundo a mitologia grega, pena pela eternidade atado a uma roda ardente -, convida-nos à meditação. Lições proveitosas podem deparar-se-nos.
Convidado por Zeus para a sua mesa, Ixion retribuiu com singular despropósito e grosseria exemplar: meteu na ideia copular com Hera, esposa do anfitrião. Mas não só meteu na ideia como se compenetrou de ser aquela uma ocasião excelente para meter na deusa. E se mal o pensou, pior o entendeu perpetrar.
Naturalmente, Zeus, dotado daqueles superpoderes que só os Deuses maiores possuem, adivinhou-lhe as nebulosas intenções e favoreceu-lhe a perdição. Em conformidade, ordenou a uma nuvem que tomasse, aos olhos toldados do infame fornicador, a forma de Hera e propiciou-lhe o enlace. Ixion, a arder em desejos, não hesitou: atirou-se à nuvem como gato ao bofe e descarregou nela ímpetos e fluidos.
A nuvem, pseudo-deusa, logro exemplar, recebeu por nome Nefele. Em resultado da cópula ímpia e temerária que com ela teve, Ixion recebeu duas pagas exemplares: Nefele deu-lhe por filhos monstros –centauros: meio homens, meio bestas cavalgaduras, execrados por deuses e homens; e Zeus outorgou-lhe castigo eterno, sem piedade nem remissão.

Em que é que isto, para nós, portugueses, é edificante? Se pensarmos que de Nefele descendem todos os nefelibatas, logo o enigma profundo da nossa origem mítica se desvanece. Tal qual Roma busca a sua paternidade em Eneias, de quem, segundo Virgílio, descenderiam os gémeos da Loba, não vejo ninguém melhor que Ixion para demandarmos a nossa.
A idiossincrasia, o atavismo, não enganam. Ninguém como nós adora emprenhar nuvens. Passámos séculos nisso. Só ultimamente é que desistimos de amarinhar lá para cima. Apesar das nuvens estarem cada vez mais baixas e negras, contentamo-nos de ficar a olhá-las, masturbando-nos, cá de baixo. Tentamos emprenhá-las à distância...Uma espécie de tele-cópula. Adolescemos, enfim, pela eternidade.

Falta apenas acrescentar que Ixion, etimologicamente, significa "Visco". Portanto, somos nefelibatas - da parte da mãe, e viscosos - da parte do pai.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Ó tu que fumas!












Delgado, o Oitavo Anão.



Aquele que fuma brocas gigantes.

O Papa-tachos




É um pássaro? É uma avião? Não, é o Moita Flores!...




O polícia, o detective, o criminologista, o expert, o comentarista, o colunista, o guionista, o novelista, o escritor, o dramaturgo, e agora também: o super-autarca.

Títulos no "Correio da Manhã":
Moita Flores apresenta lista
Moita Flores dá mega festa
Moita Flores quer dinamizar Santarém

Uma vez eu profetizei que este bestunto ainda chegava a ministro. Corrijo: ainda hei-de vê-lo Presidente da República!
Até porque se o Gorge Sampaio consegue, qualquer um consegue.

terça-feira, agosto 09, 2005

A primeira fila é minha!...

O caro R mudou de toca e acaba de desvirgar a novel moradia em grande estilo: Nada mais nada menos que Zaratustra, e numa passagem bem a propósito para os tempos que há muito deixaram de correr porque, entretanto, apenas estagnam e apodentram, a engordar vermes, avantesmas e insectos rastejantes.
Penitenciando-me de antemão por lhe espantar a clientela mais selecta, temo que seja mais forte do que eu, pelo que não resisto a comunicar-lhe: na primeira fila da plateia desse seu remoçado estabelecimento, largando labaredas incinerantes a telemóveis, pigarreios e tosses de blogoteatro, lá estará este dragão iconoclasta, ferrabrás e pirotécnico. Os outros que se instalem nos camarotes, nas frisas, nos balcões, porque a plateia, em toda a primeira fila, já é minha!...
E o ruminante cabrão que eu apanhar a rilhar pipocas, escavaco-o logo ali!...

O Holocausto bom, Chapter II



Três dias depois de Hiroshima, uma nova experiência...Mais um teste nuclear em áreas urbanas habitadas.

É claro que não foi crime de guerra, é claro que não foi crime contra a humanidade, é claro que não foi genocídio. Não; eu é que sou nazi. E, portanto, também devia ser abatido. A bem da democracia e da hegemonia americanóide (passe a redundância). Como em Hiroshima. E em Nagasaki.

Entretanto, alguns testemunhos da época:

(Da parte dos anjos beneméritos que atiraram)
«Frederick L. Ashworth, 93 anos - Atirador do ‘Bockscar’“: Vimos um clarão e a nuvem-cogumelo. Foi espectacular, como que uma massa turva de fumo e fogo. As cores variavam entre o salmão e cor-de-rosa, além da chama amarela.” »

(Da parte dos demónios e monstros que padeceram)
Atsumu Kubo, (75 anos; Distância do epicentro: 1,7 km; Consequências: perna deficiente):
“Quando os americanos chegaram instalaram hospitais de campanha, mas depressa descobrimos que não tinham vindo para nos tratar as feridas mas sim para as estudar. Queriam saber quais os efeitos da sua bomba e converteram-nos em cobaias.”

segunda-feira, agosto 08, 2005

A Caixa de Pandora
















A Caixa de Pandora (perspectiva externa e interna)

Hiroshima, ou o Holocausto bom



Brincar aos deuses... Ou o Paraíso, segundo os empreiteiros portugueses.

A Besta, essa, persevera nos seus assombrosos números de magia. Continua a extrair morte e caos. Só que não é da cartola: é de uma caixa antiquíssima. Que Zeus, outrora, ofereceu a Pandora.

quinta-feira, agosto 04, 2005

O terrorismo Arco-Íris


A máxima da avó Judite, segundo a respectiva neta e minha insigne esposa:
«Vale mais ter um filho ladrão que um filho maricas."

Tempos complicados, estes, em que eles não contentes de serem maricas, são também, sempre que possível (ou, se calhar, por isso mesmo) cleptomaníacos desarvorados.
A antepassada apostava na disjunção: Ou deitar a unha ou dar o cu. Mas a coisa agora virou conjunção implicativa: dar o cu, porque isso, está mais que visto, facilita e catalisa muito o deitar-a-unha, o agenciar pecúlio.
Eu, no entanto, não concordo com a avó Judite. Tive que confessá-lo, com mágoa, à respectiva neta. Acho que é preferível um filho morto, ou filho nenhum, a uma aberração inerte e desossada dessas.
Não se trata de homofobia. Trata-se de que eu gosto dos meus filhos. Se nasceram homens, estimo que o sejam. Se nasceram mulheres, a mesma coisa. Quanto aos filhos dos outros, o fenómeno não me aflige especialmente. Menos concorrência, tento explicar aos meus. Excepto , claro está, nas carreiras artísticas, políticas, jornalísticas, diplomáticas e outras mordomofolias que tais. Mas como eu procuro, na medida do possível, educá-los de modo a que alcancem, no mínimo, o estatuto de humanos e vertebrados, confio em que não se sintam atraídos por pocilgas, monturos ou cloacas. É, aliás, uma regra de ouro que lhes lego e sempre pratiquei: Ninguém sobe a um monte de trampa para se fazer coroar lá no vértice; ao contrário, atasca-se irremediavelmente, é tragado sem apelo nem agravo quem assim pensa.
Se não imperasse uma badalhoquice mental parola e macacóide mascarada de modernismo catita, esta era uma coisa óbvia que não seria preciso manifestar. Mas como impera, é imprescindível não calar! É fundamental não temer a peixeirice albardada de último grito! É imperativo afrontar a tirania, ainda mais quando no-la tentam inculcar sob os ouropéis da bandalheira delicodoce. Ainda mais quando a tirania vem com falinhas melífluas e lengalengas anestésicas. O terrorismo árabe & associados rebenta-nos com o coiro numa esquina qualquer do melhor dos mundos, mas não é único. Há outros terrorismos mais cavilosos e menos esporádicos. Estilhaçam-nos o espírito (ou o que resta dele), trituram-nos a vontade e os ossos, infestam-nos de fobias e fantasmas. E fazem-no todos os dias, à hora da telenovela, à hora do telejornal, em maratonas ininterruptas de opinorreia pelos pasquins, na publicidade de empreitada, em compêndios sado-científicos e grandes reportagens funambulares, atulhadas de números acrobáticos. O terrorismo arco-íris não é menos fundamentalista que o chanframento islâmico. A diferença é que não mata instantaneamente: vai envenenando, intoxicando, desmoralizando. Vai, transformando, ao ralenti, em lume brando e banho maria, a própria condição humana numa sórdida anedota, num freak-show. É o regresso, em grande força, da mulher barbuda e do homem engolidor de todo o tipo de merdas.
E esta, desenganem-se, nem é uma questão de esquerda ou de direita. É uma questão de bom senso. E de higiene mental também....

PS: Nada disto tem a ver com a homossexualidade. A homossexualidade existe há milénios e nunca precisou de toda esta mariquice peganhenta para coisa nenhuma. Não estou a ver, em mais de dois mil anos, homossexuais a terem como superlativo objectivo de vida casar e ter filhos - homossexuais, no fundo, a quererem ser macaqueações bacocas e burgessas de casais normalíssimos. Não, este paneleiro/a mimético/a, híbrido entre a puta carreirista e a fada do lar, é artefacto recente. Toda esta campanha global serve-se da homossexualidade apenas como pretexto e subterfúgio. Em suma: como máscara. A sua verdadeira motivação deverá procurar-se mais nas usinas e forjas olímpicas da "impotência" e da "psico-esterilização". O seu intuito, secreto, velado, mas cada vez mais óbvio, é apenas um: Tornar-nos a todos impotentes, neutros, amorfos, estéreis, uniformes. O Mercado, entre outros, agradece. Um homem a sério é fraco consumidor.

quarta-feira, agosto 03, 2005

O Caos, as Ideias e os Sistemas



É um diagnóstico que prescrevi há precisamente um ano atrás e que mantenho. Na íntegra.

Convencemo-nos que são os sistemas políticos, os regimes, que são maléficos, desviantes, insidiosos. Que são eles que corrompem as mentes e os anjos humanos que deles se servem. Que são eles o demoníacos, os vampiros, os monstros abomináveis. Construímos com eles galerias de horrores, expositórios de crueldade e carnificina, sobretudo intra-específica. Cada qual mais horripilante que a anterior, cada qual mais sórdida e inexplicável. Inexpiável também. E, todavia, invariavelmente, concursivas, espécie de olimpíadas da canalhice. É o inferno na Terra ao despique. A cada episódio ou estação no percurso atribuímos títulos míticos e sugestivos: “comunismo”, “fascismo”, “absolutismo”, “despotismo”, “nazismo”, etc. Um panteão de infâmia, enfim, diante do qual nos vamos persignar e ladrar esconjuros.
Como se esse inventário e essa peregrinação bastassem para nos pôr a salvo dessas infecções, nos vacinassem e imunizassem contra toda a monstruosidade deste mundo. Logro infantil, em muitos casos; hipócrita, nos restantes.
Não é que os sistemas políticos e ideologias arregimentadoras - como, por regra, toda a produção humana-, não sejam uma bela e grandessíssima merda. São, e quanto a isso estamos conversados. Por via das dúvidas, até se indica um critério infalível de taxonomia: quanto mais celebradas forem, mais merdosas são e mais infectas, certamente, se tornarão. É fatal. É o toque de Merda ou da Multidão: não doura, como o de Midas; apenas merdifica.
Ora, a multidão, até o bom Jesus o reconheceu, alimenta-se de porcarias, de lixo e do que não presta. O seu omnivorismo bulímico é, quase exclusivamente, coprofágico. Caga e come; come e caga. Qualquer porcaria lhe serve, poque toda a porcaria é sua. Nesse sentido, é auto-suficiente, funciona em circuito-fechado. Segue, canina, o rasto da sua própria bosta. Maior que a sua produção, só o seu apetite. Mas tanto quanto as porcarias que ingere, com que se refastela alarvemente, fedem as porcarias que promove e arrasta. O cortejo de prostitutas, alcoviteiros e masturbadores activos que a parasitam, que a mimoseiam e lustram. A corte histriónica que a segue por toda a parte, sovando latas e pandeiros, bufando apitos e buzinas.
Pois bem, toda e qualquer tentativa de governo, de regime, é um esforço –entusiasta, a princípio; desesperado, a breve trecho; e condenado ao fracasso, por fim -, contra esta amálgama caótica e ruidosa. É, ainda e sempre, o proto-empreendimento cósmico de levar uma ordem ao caos, de impôr uma luz às trevas, um sentido ao absurdo.
Se esquecermos a proveniência, todos os sistemas políticos são excelentes, todos congregam as melhores das intenções e a nata dos virtuosismos teóricos. Enquanto maquetes, cadernos de encargos, projectos arquitectónicos, chegam a ser deslumbrantes. Anunciam destinos risonhos e Porvires que cantam. O pior vem a seguir. Quando chega a hora da execução. Quando se iniciam os cavoucos e se amontoam os andares; quando se apontam pilares e estendem as vigas. Há sempre um detalhe nada insignificante que fica esquecido; há sempre uma questão essencial que passa por irrelevante. Há mesmo teses sobre essa lacuna estrutural: Os mais pessimistas argumentam que tais edifícios não foram projectados para homens, mas sim para semideuses, super-heróis, anjos; ou que o selvagem de bom não tem nada, portanto, não é de contar com ele para qualquer coisa que exceda em muito o canibalismo primordial ou a selva matriz. Os menos pessimistas, por seu turno, queixam-se dos poderes instalados, da classe empoleirada no topo da pilha de bosta, a esbracejar, erudita, com ares de maestro.
A mim, quer-me parecer que a falha é outra. Nem o projecto é absolutamente sobrehumano, nem os maestros excrementofónicos servem de bastante desculpa. É verdade, não me restam grandes dúvidas que os sistemas, sejam eles quais forem, estão ao alcance de pessoas, tão humanas quanto eu ou a Madre Teresa de Calcutá. Os projectistas não deliravam tão forte e agudamente quanto se pensa. As casas talvez não sejam palácios de Sintra, mas também não são casebres assim tão vergonhosos. Não está em causa a sua habitabilidade. O buzílis, o ponto onde a porca torce o rabo, reside, outrossim, não num delírio, mas num esquecimento - desastroso, por sinal. De facto, todos esses arquitectos peregrinos, pais de soluções sublimes, assoberbados de boas intenções e miragens salvíficas, não esqueceram os homens, as pessoas, até os cidadãos. Quanto a isso é má fé acusá-los (pelo menos, aos principais). Não; esqueceram-se foi dos pulhas, dos sacanas, dos FDPês todos que andam à solta por este mundo, desde o princípio dos tempos. Não há sistema que lhes resista, não há regime que os arrume, nem ácido sulfúrico bastante que os dissolva. Matéria inorgânica pura, plástico amorfo e pegajoso, não reciclável, velam de prevenção, guardiães do marasmo e da balbúrdia rastejabunda.
Seja em que tempo ou região for, são sempre os primeiros a aderir ao sistema, a hospedar-se nele para o instaurar como lhes convém. Ou seja, apenas para o minarem, subverterem e arruinarem por dentro. No fim, invariavelmente, o resultado é desolador. De sistema de governo duma determinada população, descamba em mero sistema de reprodução duma determinada classe. Pois, a dos pulhas, sacanas e filhos da puta. Os únicos mamíferos não-vivíparos que se conhece.
Por conseguinte meus amigos, sistemas de governação já temos que chegue. Agora, o que nos fazia mesmo falta era um sistema de saneamento básico. Um que funcionasse. Pela raíz.

Hackers, Caguinchas, Hackers!...



Ó Caguinchas, parece-me que estás a confundir "ácaros" com "hackers". Mas deixa lá, não é grave. Grave mesmo é confundires um tal de SLB com um clube de futebol.

terça-feira, agosto 02, 2005

Morte aos Ácaros!

Eh pá, estou aqui preocupado... vem no "Diário Digital":
«Ácaros obrigam a transferir bebés do Hospital S. Bernardo»

Mas, ó Dragão, os ácaros não eram aqueles que atacavam os computadores? Agora deram em atacar também as criancinhas? Serão ácaros pedófilos ou infanticidas?!... 'Da-se, que mundo é este?...

A Religião e o Estado ou o Estado a que chegou certa religião


Fazendo fé nas homilias ininterruptas e gralhantes com que blogosfericamente somos aspergidos pela Igreja de Hayek e os Tontos dos Últimos Dias, são-nos, até agora, passíveis de extracção as seguintes ilações:
Numa república perfeita, santuário mercantil (de que os Estados Unidos da América constituirão o exemplo mais aproximado), os presos de delito comum (a saber, tráfico de estupefacientes, contrabando, lenocínio, pedofilia -sobretudo na variante familiar em que os pais subalugam os próprios filhos, ou no caso singular dos infantis que concedem favores a troco de rebuçados -, comércio de órgãos, fraude, enfim, quase todos excepto homicídio desqualificado –praticado por não-licenciado- e pilhagem de galináceos), pois toda essa boa gente, amiga do ambiente de negócios, deve ser inscrita na categoria de presos políticos – mártires da Santa Causa da Oferta/Procura, vítimas da abusadora e autoritária ingerência do Estado no domínio da liberdade individual e, pior que isso, na esfera das bentas transacções que só à Transcendência Divina dizem respeito. Compenetremo-nos: Uma sociedade onde grassam tamanhas prepotências, onde reinam tais opressões desmedidas, só pode configurar um regime obsoleto, anquilosado, socializante, destituído de noções e quesitos básicos como seja a separação entre a Religião e o Estado. Trata-se que o Estado, raios o partam, quer meter o bedelho na religião, cisma de arvorar em Guardião da Fé, obstina-se em contrariar o livre culto dos indivíduos.
Segundo o neo-Credo liberalóide, realizar lucros é orar a Deus; é mesmo, sem exagero de qualquer espécie, tomar a hóstia consagrada.
Aliás, já Calvino estipulava a riqueza como prova inequívoca da Graça Divina.

domingo, julho 31, 2005

Visto à lupa

O Pacheco Pereira é o Moita Flores dos blogues e o Moita Flores é o Pacheco Pereira das telenovelas. E estou em crer que isto esgota o assunto.


Pacheco Pereira cérebro empastado



Pacheco Pereira com dry-look

sábado, julho 30, 2005

Sénior Racing

Não resisto a transcrever uma notícia publicada num dos grandes jornais de referência cá do burgo. Pois, esse mesmo: o "Metro". Ora leiam:

«Um idoso de 80 anos foi ontem apanhado pela polícia alemã quando se deslocava, de cadeira de rodas, numa auto-estrada. A denúncia foi feita por vários condutores que estranharam a presença. Segundo a polícia, o indivíduo seguia a 10 quilómetros por hora, velocidade máxima da cadeira, no percurso que liga as cidades de Dresden e Bautzen. O objectivo era ir à cidade fazer compras. Foi entregue ao asilo de onde fugiu...»

Em meu entender, acaba de ser inventado um novo desporto radical. Excepto em Portugal... Entre nós resultará, é quase certo, numa nova variante de tunning. E, provavelmente, também em apostas sobre raides alucinantes, em contra-mão, na auto-estrada.

quinta-feira, julho 28, 2005

O Prognoplágio

A chalaça era simplória, duma previsibilidade óbvia, senão mesmo rafeira. Por isso mesmo, ao nível do clube em questão e óptima para chatear o Caguinchas, esse talibã lampião (ele, sim, o genuíno, e não o pobre Altino, como eu –em pretérita data – vilmente injuriei. Aliás, ao pé do Caguinchas, o Altino, em bom rigor, é do Salgueiros; confunde é um pouco as camisolas).
De qualquer modo, lá afixei o postalzito manhoso, assaz pindérico, sem imaginar as prodigiosas revelações que o mesmo, no futuro, me reservava. Mas, oito dias depois, elas fizeram questão de se me apresentar...
Blogozapava eu, com certo tédio, quando, na conspícua montra da Grande Loja, se me deparou o original que eu uma semana antes – claramente por artes de solércia inaudita e aruspiciência ao nível, no mínimo, dum Luís Delgado – antecipara. Banzei e, em simultâneo, lancei toda a minha inteligência –que sendo modesta e raquítica não impede, todavia, que pedale, veloz e obstinada, levada de seiscentos diabos -, no encalço duma explicação. Dessa saga extraordinária poupo-vos a crónica. Sintetizo apenas que, após um contra-relógio empolgante, para além de épico, desembarquei no conceito que dá título a este postal. Sim, só havia uma explicação possível: eu acabava de inventar o prognoplágio.
Em que consiste? Resume-se a um portento bem simples: se até aqui todos plagiavam à posteriori, servindo-se dum modelo prévio, eu, sempre dado a peregrinações, consumei uma revolução no sector: plagio por antecipação. Se fosse pintor, seria capaz de pintar monos ainda antes de eles terem nascido.

Como é que estas prodigalidades me emboscam a toda a hora é um enigma deveras denso, um hermetismo levado da breca! Sei que me irrompem da vereda, a cada passo. Da vereda e da cachimónia, bem entendido. Prodigalizo como respiro. Pergunto-me mesmo se não me deveriam mandar abater. A bem da humanidade e da democracia. Ah!, e, claro está, dos direitos de autor.

Agora, porém, queiram desculpar, mas vou concentrar-me. A ver se, ao menos, prognoplagio alguma coisa de jeito. Ora deixa cá ligar o progno-radar, a Tola de Cristal...

No Abismo (há um ano atrás)

Há um ano atrás, atravessava eu uma tempestade. Da grossa. Neste preciso mês. Para compensação, a musa, julgo eu, visitou-me. O que só prova que isto é quando ela quer, não é quando eu quero.
Se têm dúvidas, comparem...

No Abismo

Eu sei que não devia falar destas coisas. Parece mal. Cobre-me de infâmia, sujeita-me aos remoques azedos, ofendidos, dos filhos do trolha com a mulher a dias; ou do sacristão com a costureira; ou da peixeira com o merceeiro da esquina (enfim, são muitos, e patrulham sem descanso). Sou o primeiro a reconhecê-lo: É uma impertinência inqualificável da minha parte, um despautério de todo o tamanho, uma falta de respeito descarada pela brutidão reinante, pela alarvidade campeã. Eu sei que devia ser trolha, eu sei. Mas, que querem, não consigo. Já vou na terceira lobotomia, tomo comprimidos, faço terapia, leio os jornais, banqueteio-me na televisão, vejo filmes, tenho um blogue, mas é mais forte do que eu. Atormenta-me, obsidia-me. São os livros. É esse lixo todo do passado que resiste à lavagem, ao dentífrico, ao shampô! Quando penso que já estou curado, imaculadamente limpo e desinfectado, ei-los que voltam, que regerminam, ad-nihil, como as ervas daninhas. Os piores são os de filosofia. Conspiram contra mim, contra a minha felicidade e o meu bem estar. Urdem a minha penúria e a fome dos meus filhos. Os psiquiatras são unânimes: uma vez lidos, já não há nada a fazer. Nenhum tratamento surtirá efeito. Os anestésicos mais poderosos, coletes de forças, electrochoques, apenas retardarão o inevitável. É uma contaminação vitalícia, letal. Uma vez lidos, a vítima gastará o resto da vida a tentar compreendê-los. A rebolar-se com eles na poeira, em zaragatas absurdas, descabeladas, dignas da mais inoportuna epilepsia. A enfrentá-los como Édipo enfrentou o Destino: num duelo titânico condenado ao fracasso humano e ao triunfo inexorável do Além, seja lá quem for que lá reine (e suspeito que não me grama). Não adianta fugir. Nenhum fim do mundo será longínquo o suficiente, nenhum cu de Judas resultará embrutecedor o bastante. Eu já tentei tudo, acreditem-me. Nem vos passa pela cabeça as paisagens onde já acordei. Dos gelos aos trópicos, especialmente os trópicos, busquei refúgio por toda a parte. Consultei astros, matusaléns antiquíssimos, sábios exóticos, bruxas inenarráveis, mas debalde. Olharam pra mim, comiserados, e deram-me a resposta que o Sileno deu a Midas: "porque nos perguntas aquilo que mais valia não saberes? Se era a ignorância exímia, a pura brutidão redentora que buscavas, essa, agora, já não podes almejá-la: era não teres lido, não teres espreitado detrás do véu que esconde o mundo! E, sobretudo, ó artolas, não fazer perguntas!..." Bla-bla-bla, e outros mimos que tais. Eu que me lixasse. Fiquei na mesma. Desejei que um raio os partisse.
Por isso, desencantei-me. Não perco tempo com ilusões. Anda para aqui uma puta duma lucidez a tentar dar cabo de mim e de todos os meus dignos projectos de carreira. E vai consegui-lo.
No entretanto, como diz um certo Manuel que não é burro nenhum (coitado dele), afundo-me neste abismo. Neste e em todos os que houver neste mundo! É a minha maldição. Sísifo e Tântalo são meus camaradas. E como os condenados eternos, à semelhança dos bêbados, não gostam de penar sozinhos, tomem lá Nietzsche e vinde-vos quilhar também!...
«Vejo e tenho visto, horrores piores, uns de que preferia não falar, e outros que nem sequer consigo calar; vi homens a quem tudo falta à excepção de um único membro hipertrofiado, homens que apenas são um grande olho ou uma grande goela ou uma grande pança ou qualquer outra deformidade, a esses chamo enfermos às avessas.Quando abandonei a minha solidão e, pela primeira vez, atravessei esta ponte, nem podia crer no que os meus olhos viam. Olhava de um lado, olhava de outro, e acabei por dizer: "Isto é uma orelha! Uma orelha tão grande como um homem!" Porém, olhando de mais perto, vi que sob a orelha se agitava outra coisa lastimosamente pequena, miserável e débil. E, em verdade, a enorme orelha estava poisada sobre um caule fininho e curto, e esse caule era um homem! Com o auxílio de uma lente, podia-se mesmo distinguir um pequeno rosto invejoso e uma pequena alma empolada que pendiam da extremidade do caule. Contudo, o povo assegurou-me que aquela orelha não era só um homem, mas até um grande homem, um génio. Mas eu nunca acreditei no que o povo diz acerca dos grandes homens, e continuei a crer que se tratava de um enfermo às avessas, com muito pouco de tudo, e demasiado de uma coisa só.»
- Nietzsche, "Assim Falava Zaratustra" [Da Redenção]

quarta-feira, julho 27, 2005

Lavoisier corrigido

Em Portugal, nada se perde, nada se ganha, nada se transforma. Tudo apodrece.

segunda-feira, julho 25, 2005

Poemas eróticos (acerca) do Caguinchas - II. O arrastão


(Diz a acusação)

O réu, facínora, ignóbil meliante
Dizem, unânimes, as testemunhas
Arrastou a vítima, loira, suplicante,
Para detrás duma sebe verdejante
Onde lhe arruinou o verniz das unhas!

O monstro, coincidem depoimentos e provas
Acrescentou ao rol de torpes aleivosias,
Devassa de úberes e quejandas manobras
Próprias dum vândalo, dum trolha d'obras
Transportado nas mais uivantes fantasias.

Cevou-se, o ogre - fedendo a cavalo e suor-,
Na lingerie "Victoria’s", no perfume Chanel;
Na demanda alucinada dum qualquer record
Atirou-se ao penteado Galeano, à saia Dior,
Com requintes de Sade e Maquiavel!

E para cúmulo e espanto dos vindouros
Ainda no mesmo e agreste arrastão,
O sevandija, o biltre, o mata-mouros
Serviu-se dos belos cabelos louros
Como guardanapo para a vil refeição!

(Diz o arguido)

Protesto, meritíssimo, com veemência!
Tudo isto são mentiras, boatos, calúnias!
Não eram louros, os cabelos, mas mera aparência!
Eram oxigenados, falsos - juro!- vácuos de essência,
Merecedores, eles sim, de podas escalfúrnias!...

Em suma: é gente invejosa, soez, que me quer mal!
Canalhas que nunca desarmam e sempre insistem!
Malsinar que arrastei é o mais evidente sinal
Da calúnia; pois todos sabem que tal qual
pilhões (e já agora colhões), em Portugal,
também arrastões são quimeras que não existem.

sábado, julho 23, 2005

Poemas eróticos do Caguinchas - I. O apalpão



Primeiro apalpão:
Deste-me uma bofetada. Fui olhado de soslaio.
Segundo apalpão:
Acertaste-me co'a mala e armaste espalhafato.
Ofereceram-se de imediato voluntários para me espancarem.
Terceiro apalpão:
Foste buscar um polícia.
Quarto apalpão:
O polícia estava à espreita, emboscado e apanhou-me em flagrante delito.

Fui preso.
Só te vi um ano depois. Casada.
Com o polícia.
Não te apalpei mais.

quinta-feira, julho 21, 2005

Traduções do populês



O assessor que afinal não era assessor - ou não bufarinhava, de momento, nessa qualidade - apresentou-se aos trabalhadores em risco –pior: em ressaca consumista – eivado de maviosas motivações e cadernos de encargos autárquicos.
O povo, porém, apercebeu-se rapidamente do logro e, justamente indignado com a desfaçatez estanhada do político, à falta de melhores audácias, zurziu-lhe as auricolas. O ilustre peregrino saiu de lá com elas a arder. Uma boa sova teria sido mais adequada e pedagógica, mas, enfim, sempre foi melhor que coisa nenhuma.
A tradução do que o povo, na sua linguagem cifrada, vociferou, é o que passo a transcrever:

Trabalhadora 1 – Como?! Então não vem apresentar aqui uma solução milagrosa?! nem um fundo de emergência, sequer?! Tenho prestações para pagar, gaita! Com certeza não quer que o meu filho vá para a universidade de transportes públicos, pois não?! Não é menos que os outros, filhos dos doutores e engenheiros, ora essa. Voltámos ao fáxismo, ou quê?!...

Trabalhadora 2 – Filho duma grande p***! Já tive que entregar a mota d’água e a caravana! Será que não há limites para a desavergonha?! A seguir é o quê? As aulas de ballet da minha Vanessa? O andar do meu Francisco Bernardo Eugénio? A piscina, o barbecue?!...Mas ninguém quer saber de nós?!...

Trabalhador 1 (tonitruante) – Então eu, já com hotel marcado em Varadero, adio o embarque para vir aturar um paspalho destes, ainda por cima em campanha?!... Apetece-me é dar-lhe já com este Nokia 3G nas trombas!...Mais uma gracinha destas e não leva com o Nokia, mas, no mínimo, atiro-lhe com o Samsung às ventas!...

Trabalhadora 3 – Isto quer dizer que vou ter que adiar mais uma vez a plástica às mamas?!...É inadmissível! País pindérico!

Trabalhador 2 (escandalizado) – É preciso descaramento! Com que cara digo agora à minha Tânia Cláudia Ursula que já não pode ir este verão no cruzeiro pelo Mediterrâneo?!...Tem que se contentar com um weekend nas Maldivas!... Cabrões!...gatunos!

Trabalhador 3 (ao telemóvel) – O quê, filha? Está anunciado um furacão aí em Cuba para os próximos dias?... Cancelas?!...Qual cancelas, qual carapuça! Reserva-me mas é já uma suite no melhor hotel! Estou aí depois de amanhã! É só o tempo de arranjar um empréstimo desses telefónicos e largar os cães na auto-estrada!... pena que não seja um tsunami!...Como é que se chama?...(Desliga e desata a correr).

Entretanto, não pude acompanhar os restantes depoimentos. Interpuseram-se imagens renitentes de um país a arder. Pareceu-me o meu, mas já não tenho bem a certeza.

quarta-feira, julho 20, 2005

O horror, a tragédia...

Ainda não tinha reparado, até porque é privada que não frequento, mas o Dodo (acaba de mo confessar ele próprio, em lágrimas, de rastos), está na lista de links do "Aviz".
Neste caso eu não tenho dúvidas: solidarizo-me com a sua lancinante dor e envio-lhe daqui as minhas condolências.
Pobre Dodo!... Pior que isso só mesmo o "abruto", se tivesse links; ou a "Bosta intiligente", que os tem e não digo mais nada.

É diante de tragédias destas, de cancros a céu aberto desta envergadura, que um indivíduo com um pequeno furúnculo, como é o meu providencial "Portal Nacionalista", ergue os braços aos céus e agradece a sorte com que a fadas o ungiram, provavelmente à nascença.

Abençoados nacionalistas, que me protegem de sarnas e lepras destas!...

Ornitorrinco luso-americanus


Há uma expressão catita com a qual tropeço ocasionalmente na "blogosfera": "Direita liberal". Tem imensa piada. Acho-lhe imensa graça! Penso até que é uma conjugação felizarda, coquete, digna do cruzamento de duas alimariazinhas dos antípodas ( por exemplo, o ornitorrinco e o rafeiro alentejano; ou a hiena malhada da Namíbia e a foca do Alaska). Figurasse o portento num qualquer cardápio, como prato de culinária, e teríamos certamente um suculento pitéu do estilo "costeleta de bacalhau"; ou "filetes de novilho".
Dir-me-ão, os acólitos, amantes do rigor, que é de fast-food mental que se trata. Que, sendo hamburguer, pode ser de qualquer coisa: cães atropelados, minhocas ou restos avulsos garimpados num qualquer açougue ou lixeira. Ai sim? Pronto, então já cá não está quem falou.

A propósito, aqui fica a definição de "ornitorrinco", no dicionário da Porto Editora (desculpem lá não ser o Houiss):
s.m, Zoologia designação de uma mamífero monotrémato, ovíparo, com bico de pato e um só orifício urogenital - uma forma de transição entre os répteis e os mamíferos -, que vive nas margens dos cursos de água da Tasmânia e Austrália.


Um animal metrossexual, portanto. O único mamífero que põe ovos.

Se eu fosse mauzinho, o que não sou, diria que a variante luso-americana consegue prodígios ainda maiores: usa o mesmo orifício não apenas para defecar e reproduzir-se, como, igualmente, para raciocinar.
Mas isso, não sendo um exagero, seria, claramente, uma indelicadeza.

Estéticas

Não levo a mal coisíssima nenhuma. Por quem é!... Diz muito bem. Partindo do princípio que considera uma obra de arte aquele quisto urbano que fica, sensivelmente, ali por detrás da Churrasqueira do Campo Grande, não só não levo a mal como vou mesmo mais longe: louvo-lhe a coerência.

terça-feira, julho 19, 2005

Coca cola é que é!...



À atenção especial do Caguinchas, com patrocínio do Besugo e o beneplácito da Lolita, algumas sugestões para o futuro nome do –em breve- ex-estádio da Luz:

1. Estádio Coca-Cola ou Coca-Cola Stadium (excelente, porque nem têm que mudar a cor).
2. Estádio Mcdonnalds ( idem, basta acrescentar uns tons de amarelo)
3. Shell Arena ( o vermelho, em parte, ainda se aproveita, mas implica uma preponderância do amarelo e talvez a mudança dos calções para esta cor).
4. Estádio El Corte Inglês (sem comentários).

Já agora, aproveitem a embalagem e vendam (ou aluguem, ou lá o que é) também o nome. S.L.BP até que ficava catita. Se bem que Sort Lisboa e Coca-cola (ou Sport Coca-Cola e Benfica, que, quanto a mim, atestaria ainda melhor o tão apregoado carácter não bairrista mas global da agremiação) seria o máximo! Devia render umas massas do caraças, dava para comprar um monte de coxos - os árbitros todos pelo menos -, e ainda sobrava um pé de meia para o presidente fazer uma plástica aos abanos auricolares.

E a águia, essa ave emblemática, com uma garrafa de Coca-cola nas garras ou um Big Mac no bico, confesso, e duvido que alguém consiga negar: ficaria delumbrante.


-fotografia tirada pela nossa repórter Zazie, em viagem pelo futuro

segunda-feira, julho 18, 2005

O Homo-Clismo


Se na antiguidade grega se estimava sobretudo o teatro, na actualidade ama-se cegamente o cinema, espécie de sucedâneo ultra-massificado (na versão industrial) do circo romano.
O Novo Mundo do Consumo deixou de ser uma tragédia: foi promovido a filme. Em vez de palavras estagnadas, de cenas cósmicas estáticas, temos agora um corrupio de imagens, um carrocel flamejante de fantasias. O cinema não exorcisa nem purifica pela catarse: celebra, incita, promove, instrui, institui, induz. Não reproduz ou representa a profundidade abissal da existência humana: na Nova Vida-Filme importam menos as palavras e mais os cenários, as poses, os esgares, os ângulos e perspectivas; os camarotes do divino ocupam-nos agora as super-stars, os ídolos. Os paradigmas deixaram de habitar e presidir a partir do passado: passaram a estrelas-guias no presente -lideres de imagem, de mercado, de opinião -, vedetas da frivolidade histriónica que urge macaquear. Na Vida-Filme tudo se sobrepõe esfuziantemente; cada momento varre o anterior, cada imagem vampiriza a precedente. Não há sequer tempo para reagir ou apontar, tão pouco refectir ou conversar: o Gastador-consumidor é um espectador pasmado na cadeia, deslumbrado e estarrecido por cenas cada vez mais violentas, explosivas e espectaculares. Está completa e fisicamente preso, dependente, agarrado ao ecrã. Os seus instintos mais radicais -de matar e copular, principalmente -, propagam-se e infectam todas as coisas, agentes e protagonistas do filme. Tudo, agora, se metamorfoseia em potencial assassino ou violador: as casas jorram sangue, os ramos das árvores tornam-se braços estranguladores, cometas despenham-se em genocídio sobre as cidades, os animais organizam-se e marcham ao morticínio humano, os automóveis resolvem rancores antigos, os electrodomésticos revoltam-se, as máquinas conspiram, anjos psicopatizam e viram serial-killers, amigos de infância compram machados afiados, pais extremosos planeiam chacinas domésticas, donas de casa anódinas preparam macabros banquetes, a possessão, a licantropia, o vampirismo, o infanticídio, o canibalismo alastram em avalanches multicolores e apoteóticas; o estupro, o tráfico, o lenocínio, o sado-masoquismo lavram de enxurrada. O único fito permanente e obsessivo que parece palpitar em todas as coisas, seres e imaginários -presentes ou futuros -, é o de exterminar, estropiar ou, no mínimo, copular analmente as pessoas após preliminares escabrosos.
Se o Cosmos antigo era um palco da necessidade (ananke), a Nova Aldeia Global -de bimbos e saloios globais -, quer-se ecrã da possibilidade (dynamis). Ultra-dinâmico, o filme, por exemplo, instaura a possibilidade, dinamiza. Daí à realidade é um passo. Mais exactamente: a possibilidade -a dinâmica-, é já o hall de entrada da realidade. Depois, trata-se mais uma vez de mera inversão ou perversão dos processos antigos: faz-se da possibilidade uma necessidade. A diferença é que a necessidade contemporânea -ao contrário da antiga, que era cósmica e emanescente -, é mundana, particular, egonóica ou mero adorno de elites. E é também transcendente: não se compreende nem justifica - assiste-se. Veja-se a figura popular e emblemática do serial-killer, atracção de multidões e sucesso garantido de bilheteiras: Vê-se compelido por uma necessidade intrínseca e transcendente de chacinar engenhosamente pessoas. Secretamente, no seu íntimo, o espectador mastiga, compreende e absolve. Instala-se até uma certa empatia nostálgica (por um momento, mentalmente, divaga-se: regressa-se ao tempo em que os animais já nao falavam, mas ainda nos podíamos comer e chacinar carnalmente uns aos outros, sem subterfúgios).
O cinema, liturgia refinada da mudança, altar sumptuoso da metabolia, ditadura perpétua da agitação, debita -insinuante e cavilosamente - que tudo muda, tudo corre, tudo se transforma; nada permanece - a não ser aquilo que move o próprio cinema: as taras, fobias e traumas do saloio global, naturais e artificiais; bem como, claro está, os lucros da Indústria. Ora, como já foi dito aqui atrás, perfectófobo e edenoclasta, o Novo Homem Gastador-consumidor, bimbo da Aldeia-inferno Global suporta cada vez menos palcos idílicos ou finais felizes. Apressa-se, desde cedo, em explicar às crinças que não existe Pai Natal, nem fadas, nem cegonha transportadora, nem menino Jesus, nem nada para além do salário do papá e/ou mamã, da vida selva/competição muito difícil, heróica e exigente, da economia de mercado, e dos espermatozóides à conquista dos ovários na epopeia da foda-queca. Para ele, o mundo em si, na sua complexidade externa e hostil, é uma coisa suja, ameaçadora, cabalística. Donde nada de bom pode advir ou ser esperada. Só o trabalho salva: seja na forma palerma, naif, de assalariamento, seja no esquema fast, espertalhão, de nepote, familiar ou mafia, seja no parasitismo big de pseudo-administrações o governos a soldo da Indústria. O trabalho representa, assim, a esterilização do mundo, uma espécie de abstergência global ritualizada e neurótica-obsessiva. Ao contrário do espectador antigo defronte da tragédia, o consumidor-gastador não está minimamente preocupado com uma qualquer purificação interna; obceca-se, outossim, com a lavagem e ornamentação externas - da sua pele, dos seus dentes, do seu cabelo, das suas unhas, enfim: da sua imagem, do seu aspecto, daquilo que se vê, como também do seu automóvel, da sua casa, da sua rua e cidade. Persegue e almeja um mundo limpo, desinfectado, asséptico. Mas limpeza não no sentido profundo, da sua sanidade ou da do seu mundo -que os gregos chamariam higiénico -, mas numa acepção superficial, lavatórica, derivação do klysmos helénico: um Homo-clismo, simultaneamente heteroclismo e autoclismo.

Harry da Puta que a pariu!



«Horas depois do lançamento do sexto livro de Harry Potter - «Harry Potter e o Príncipe Mestiço» - apareceram na Internet algumas críticas, assinadas por jovens leitores, a maior parte delas favoráveis e destacando o lado negro da obra.»

Resta saber se o tal "lado negro" é da parte da mãe ou do pai. Do príncipe, claro está.

Outra questão que talvez fose oportuno debater, com relativa seriedade, é se uma "civilização" que bombardeia e liquefaz as mioleiras dos seus juvenis (que vão dos 8 aos 80, como todos sabemos) com lixo deste calibre, em operações de psico-envenenamento à escala global, merece ou não, por sua vez, ser bombardeada?...

Esta civilização não é a minha. Não tenho rigorosamente nada a ver com isto. Nem quero ter.

Chamam "civilização ocidental" à ausência da mesma; como do outro lado chamam o equivalente a igual vazio. Vão vender peixe podre a outro. Não há nenhum confronto de civilizações: o que há é um concurso pela destruição delas. A ver quem faz pior e mais depressa. De parte a parte são macacos terroristas ao despique. E o Bin Laden (se é que trabalha por conta própria) , para ficar ao nível, ainda vai ter muito que pedalar. É o artesanato contra a indústria.

domingo, julho 17, 2005

Subtilezas

Não sei se isto já ocorreu a alguém antes, mas, em bom rigor,a palavra "assim", por prefixação (a-sim), também pode significar não, como "anão" (a-não) pode significar sim.
São estas sutilezas que, geralmente, escapam ao vulgo.

sexta-feira, julho 15, 2005

patacoadas e gambosinos


Ó Caguinchas, lampião desgraçado, toma lá mais um:
«O terrorismo transnacional tem como inspiração central uma batalha de cariz ideológico contra os regimes democráticos e os seus valores. Nada mais.»

Aproveito para acrescentar o seguinte: o Caguinchas, como todos sabem (e se não sabem, deviam saber) é benfiquista e, portanto, por definição, inimputável. Pode, em consequência ( e por falta da mesma) dar-se aos desfrutes que muito bem lhe estimulem a veneta.
Das enormidades que, em resultado, aqui publica, eu, se bem que - como é visivel no último postal -, acautele minimamente o estilo, em nada me responsabilizo pelo conteúdo (se é que algum tem).

Não subscrevendo eu, de todo, as asneiras que, por regra, emite, não posso, todavia, deixar de reparar em patacoadas congéneres, largadas por presumidas pessoas sérias, como aquelas, a pessoa e as bacoradas, em epígrafe.

Regimes quê?! Uma batalha de quantos?! Quais valores?!

Então agora a principal ocupação duns gajos que ninguém sabe muito bem quem são é dar cabo de coisas que não existem? E o mamífero opinioso ( partindo dum pressuposto optimista), vai ao desplante assertivo e peremptório de garantir que esse não só é o fito principal como, pasme-se, o exclusivo.
Caralho, estamos a ser atacados por gambosinos?

Do ponto de vista do mexilhão


Pus-me a imaginar que um familiar meu (o diabo seja surdo), daqueles que eu gosto, ia a bordo dum cacilheiro que explodia por obra e graça desses filhos da puta dos terroristas arábicos, desses que ninguém conhece mas todos sabem que vestem lençóis. E ainda por cima têm haréns, os cabrões! Senão agora, pelo menos prometidos no Além...
Mas lá me estilhaçavam o familiar, todo em pedaços, pelo Tejo abaixo, que era uma dor de alma assim todo estilhaçado, meu rico mano...
O que é que um gajo faz numa situação destas? Ãh?!...Foda-se, rebentam-nos com a família, sem pré-aviso nem nada, à surrelfa, sem dizer água vai, nem explicar porque carga de água tem que ser um pobre diabo e coitado a arcar com os pecados do mundo. E nem sequer era comuna o meu desgraçado familiar, vejam lá bem. Se ainda fosse, ou do FêCêPê, ainda vá que não vá. Mas nem isso: Nem comuna, nem fascista, nem morcão, nem treta nenhuma dessas, coitado: Não se metia em políticas; era futebol e telenovela, trabalho/casa, casa/trabalho e o relato do Glorioso aos domingos para lavar a alma. Volto a perguntar-vos: que diabo se faz por alturas duma desgraceira tal?
Bem, ou somos uma sociedade com regras, ou não. O mínimo que um gajo enlutado, desvairado de dor pode fazer é clamar por justiça, razões para o absurdo, pedir indemnizações, sei lá!...Toda a gente sabe que eu não gramo a bófia, mas neste caso, excepcionalmente, até para chateá-los, dirigia-me à esquadra e apresentava queixa.
"Era uma pessoa bem constituída, saudável, na plena posse das faculdades. Contribuinte, pai de filhos menores, meus sobrinhos, chavalitos traquinas mas bons benfiquistas, e agora, em menos de nada, fizeram-no em fanicos e andamos à procura dele por todo o estuário, os ossos pelo menos, porque a carninha, ainda por cima bem assada, já devem estar a pitá-la os caranguejos. Quero justiça! Está na constituição! É o elementar, caralho! Exijo saber quem fez isto e porque razões andam malucos destes à solta, aparentemente sem controlo nem freio de qualquer espécie! E se, pelos vistos, os deixam andar à vontade antes, ao menos que não os condecorem depois!...Por conseguinte, pergunto-vos: o que é que pensam fazer? A minha cunhada está em choque, os fihos estão em minha casa e não me deixam ver a bola descansado!..."
Imaginem vocêses o estado de cabeça perdida em que eu não estaria por esta altura, diante das instituições, como diante dum qualquer deus que me desamparara. Mas, pior um pouco, imaginem que um badameco qualquer dum anão mija-postas do regime, um caga-tacos de meia tijela armado em doutor, me saía ao caminho, em plena televisão, com a seguinte explicação:
"Eles cometem estas horríveis atrocidades por uma razão muito simples: querem acabar com a nossa democracia!"
O que é que se diz a um calhorda destes?
Pois o que eu iria, em grandes berros, se não pudesse estrangulá-lo logo ali, ou pontapeá-lo na peida badocha até à exaustão, era simples:
"Olha, ó meu grande monte de merda, vai contar histórias da carochincha à grande vaca que te pariu!...Democracia? estou-me cagando prá democracia, estamos aliás todos, como estava o meu pobre familiar doravante pulverizado e a sair pela barra neste momento, e como decerto estão os turras também! O que eles querem, esses merdosos, é o que estão a fazer: a rebentar com desgraçados e otários como eu e o infeliz do meu irmão. Porque para acabar com a democracia, já lá estás tu, ó filho da puta, e os teus amigalhaços da corda todos! Aliás, não têm feito outra coisa desde que para lá treparam e se lhe alaparam às tetas, sanguessugas do caralho! Nisso os turras de merda nem vos chegariam aos calcanhares, para quê gastarem tempo, explosivos e energias? Ou, pelo menos, teriam que ir para a bicha, o que não me parece que lhes quadre muito ao feitiozinho cagamerdoso.
Democracia? Uma boa democracia estavas tu a precisar pela peida acima! Sabes o que parece, ó batráquiozito? Eu digo-te: é que vocês e eles estão associados, feitos, maucomunados, isso sim, para darem cabo de nós! Qual faz de mar, qual faz de rocha, são pintelhices. Do ponto de vista do mexilhão.

quarta-feira, julho 13, 2005

Dragão dixit

Em tempos idos, eu primava por iniciar umas certas prelecções sobre "Ética" com a seguinte e provocante máxima: "Um homem não é uma puta".

Naturalmente, encontrava-me então, como ainda hoje, nos antípodas do "liberalismo".
Afinal de contas, a prostituição, justamente, é a mais antiga das profissões, o métier liberal por excelência. E paradigma.

Para quem tenha dúvidas, a título de anedota, faça a fineza de ler isto.

Como poderão reparar, a tese é antiga, quase tão antiga como a profissão: os fretes a que sujeitamos o coiro não nos conspurcam nem constrangem a psique. Em variante moderna: o que nos ocupa o cu não nos tolhe a língua. Ou ainda, traduzindo para um lema mais popular e ao nível: "olhai para o que eu digo; não repareis no que eu faço." Padre Inácio, suponho, dixit.

Por mim, não digo que as putas não tenham direito ao mercado. Respeito muito as putas, o Caguinchas é minha testemunha.
Mas há putas e putas. O critério de diferenciação, quanto a mim, sustenta-se num conceito chave: Pudor. Por incrível que pareça, há (ou pelo menos havia) aquelas que o têm. E aquelas que não.
Devo estar a ficar ultrapassado, obsoleto mesmo. Continuo a achar que, numa puta, tanto quanto um cinto de ligas, fica bem um certo recato, uma razoável sobriedade profissional. Uma certa auréola de penumbra e mistério cativa o devaneio nomadizante. Já o vir aos gritos para a rua, a vangloriar-se que a montam, à canzana e conforme calha, por valados e vãos de escada, como marketing para trolhas e camionistas poderá ser revolucionário, não discuto, mas enquanto chamariz para cavalheiros com sistemas mentais multiceluares é, no mínimo, confrangedor. E catastrófico.
É mais certo que a internem do que a fodam.
Dragão dixit.

terça-feira, julho 12, 2005

O plebeismo-mor da paróquia

«Depois, além dum plebeismo, a celebridade é uma contradição. Parecendo que dá valor e força às criaturas, apenas as desvaloriza e as enfraquece. Um homem de génio desconhecido pode gozar a volúpia suave do contraste entre a sua obscuridade e o seu génio; e pode, pensando que seria célebre se quisesse, medir o seu valor com a sua melhor medida, que é ele próprio. Mas, uma vez conhecido, não está mais na sua mão reverter à obscuridade. A celebridade é irreparável. Dela como do tempo, ninguém torna atrás ou se desdiz.
E é por isto que a celebridade é uma fraqueza também. Todo o homem que merece ser célebre sabe que não vale a pena sê-lo. Deixar-se ser célebre é uma fraqueza, uma concessão ao baixo-instinto, feminino ou selvagem, de querer dar nas vistas e nos ouvidos. »

- Fernando Pessoa, "Crónica"; 1915.

Serve - o pedaço de génio em epígrafe - de preâmbulo a uma consideração breve e muito simpes: Nesta Idade das Trevas que vivemos, o anonimato é um dos derradeiros redutos da verdadeira aristocracia. Fora isso, regra geral, é o buliçio chocalheiro, feirante, saloio, das pegas intelectuais que, à laia de pretexto caniche para o ataque, vêm perambular no jardim público os respectivos nomes pela trela.

A Direita Colibri


A Direita Colibri, ou Direita Beija-Flor, anda em permanente flirt com a Esquerda Arco-Íris. Lembram aquela menina atotozada em peregrinação do feiticeiro do Oz, na companhia de figuras tão épicas quanto um espantalho com miolos de palha, uma lata ambulante sem coração e um leão pusilânime proto-gay. É comovente. Estão condenadas ao final feliz.

segunda-feira, julho 11, 2005

Ora bolas!...

Entretanto, lembrei-me que tenho um Dicionário para acabar...

sexta-feira, julho 08, 2005

Trespassa-se



TRESPASSA-SE


LEILOA-SE

ou, em último caso,

DÁ-SE, a quem prometer estimá-lo

Blogue irreverente, iconoclasta, com clientela fidelizada, incluindo um esquizofrénico ou esquizofrénica (tem dias), de dupla (senão mesmo múltipla) personalidade bem vincada, que mui feericamente ornamenta os balcões de comentários.
Boa carteira de inimigos, todos eles embolados. Mugem e resfolegam, mas não marram.

Motivo para o trespasse:
Tédio.

quinta-feira, julho 07, 2005

A Educação do Povo (reposição)



Como não há uma sem duas... Leia-se no corolário do postal anterior.

As revoluções, mesmo quando antecedidas do prefixo “pseudo” (quase todas, portanto), fazem-se invariavelmente acompanhar dum cardápio de ideias peregrinas. Todas elas urgentes, todas elas magníficas, todas elas prioritárias. Uma dessas, aquando da primavera Abrileira cá do burgo, era: “temos que educar o povo!”
Uma série de romeiros iluminados, regressados dos exílios dourados na estranja ou dos piqueniques selvagens nas colónias, acolitados por chusmas de marxistas-leninistas instantâneos, em patrocínio da Farinha Amparo, tomaram-se de brios e entusiasmos, e propuseram-se ir educar o povo, a massa ígnara, bruta e analfabeta.
Como sempre, nestas aventuras, tomaram por princípios e axiomas meros preconceitos. A saber, 1. Que o povo era educável; 2. Que o povo queria ser educado; 3. Que eles reuniam e congregavam sob o substracto córneo das suas sapientes trunfas o know-how bastante para educar o povo.
Havia também um eufemismo muito usual por altura destas balbúrdias: confundia-se “educação” com “lavagem ao cérebro”. Ou melhor, dizia-se “educar”, mas, no fundo, queria dizer-se “lavar”. Eles, abençoados pela História, tinham que desencardir o povo, que escorria merda e surro de quase cinquenta anos.
Ora, sempre que uma caterva de luminárias se decide a educar quem quer que seja, e sobretudo o “povo”, a primeira coisa que faz é arranjar um modelo (de preferência de importação, são sempre os melhores). Em se tratando daquela região europeia situada a oeste de Espanha, pior um pouco. A discussão, de séculos, nunca é “quem somos ou quem devemos ser”, mas sim “quem copiamos ou quem devemos copiar”. Se na aparência poderão passar por homens ao observador menos atento, na essência não enganam: são verdadeiros macacos de imitação. Encontrareis excepções a esta regra, mas, certamente, não nas elites –políticas, culturais, sociais, industriais –, lá do sítio. Aí, a macaquice, jurada e jactante, é condição de acesso. Vivem à coca da casa do vizinho e do que o vizinho lá mete. O país inteiro, por osmose, como os seus átomos constituintes, espia o resto do bairro/mundo e roi-se de inveja das Franças, das Escandinávias, das Inglaterras ou das Américas. Que povos educados, a transbordar civismo e boas maneiras! Que maravilha de pessoas! Que inteligências amestradas, atestadas de higiene e sentido do dever fiscal! Que trabalhadores ordeiros e laboriosos!
A unanimidade quanto à superioridade do que é estrangeiro não podia ser maior. As divergências, essas, animadoras de polémicas virulentas e vociferações descabeladas, germinam desse dogma básico e encarniçam-se à volta da tal questão fulcral e de importância transcendente, ou seja: Sendo certo que só existimos se copiarmos, quem vamos então imitar. Isto predetermina tudo. Por alturas da grande convulsão primaveril, a diferença é que o leque de escolha era ainda maior do que é hoje. Não só os belos povos ocidentais podiam servir de paradigma, como também uma série de outros, da Albânia à Cochinchina, despertavam a cobiça e os ímpetos emuladores dos fogosos endoutrinadores da plebe. O difícil era a escolha. Quase todos os povos eram melhores que o nosso, mais limpos e imaculados. Bastava ir ao Atlas geográfico. Ao nosso, repito, emporcalhava-o, inquinava-o até aos ossos – e à medula dentro dos ossos – a longa noite fascista. Era fascista como podia ser outra coisa qualquer. A palavra caíu-lhes no goto; dignificava e canonizava a sedição, beatificava o tumulto, justificava toda a parafrenália de medidas drásticas e emergências médicas.
Também o povo, há que reconhecê-lo, era pólvora seca, anelante, à espera de faísca. Aliás, essa, é sempre a sua postura predilecta: barril a clamar rastilho. Ainda para mais, xenómano a ressacar desde há mais de quarenta anos sem o chuto de estrangeirina no dígníssimo cu, agradeceu, merejado em êxtase, mal experimentou o valente coice dos novos mestres. Foi vê-lo a levantar voo, retropropulsionado, como se foguetões o catapultassem. Foi à lua e veio. De caminho deu uma espreitadela à União Soviética e descuidou-se todo pelas calças abaixo. Ainda hoje tresanda ao susto, ainda hoje expia o trauma.
A ideia de copiar a União Soviética, claro está, era a mais peregrina de todas. Por isso mesmo, à época, triunfou no concurso e surgiu, resplandecente, meteórica, como a mais fascinante e sublime. O povo soviético, na perspectiva de então, emergia nimbado de fulgores e virtudes, açambarcava medalhas olímpicas e exportava bailarinos. Era, pois, de todo conveniente imitá-lo o quanto antes.O que sucedeu depois já todos sabem. Para vermos até que ponto era brilhante essa tese, basta dar, hoje, uma volta pelo paraíso de trolhas em que se tornou a nação: os ex-virtuosos e fulgurantes licenciados soviéticos, suprassumo da educação, cartam agora baldes de massa e formiguejam pelos andaimes acima e, de quando em vez, dos andaimes abaixo. Triste fim para um império tão luminoso.
Mas uma ideia peregrina nunca anda só. Abortada a fotocópia soviética, enveredou-se pela imitação da gleba europeia e, ultimamente, lançam-se olhares de maravilha e cobiça à gleba americana.
Entretanto, as funções elementares da escola –coisas como ensinar a ler, a escrever e a contar-, desvaneceram-se sob uma catadupa de novas pedagogias, avançadas psicofolias e mirabolantes reestruturações ou paixonetas, cada qual mais mentecapta e mentecaptizante que a anterior. Os níveis de analfabetismo da pátria não esmoreceram por aí além – continuamos os menos alfabetizados de todos. Em contrapartida, os de analfabrutismo dispararam, em todas as direcções, e colocam o país, senão no comando destacado do Primeiro Mundo, certamente muito próximo disso. Uma miríade de especialistas debruçam-se sobre coisa nenhuma e montam comissões de volta de cada palha. O resultado? É manifesto: Aos poucos, em fornadas anuais e sucessivas, os licenciados da pátria, cobaias de sucessivas Sextas Divisões de dinamização cultural, vão fazer companhia aos ex-soviéticos, a cartar massa pelos andaimes acima e, ocasionalmente, em voo picado, dos andaimes abaixo.
Não se trata duma injustiça: é, de facto, o nível da sua licenciatura, o alcance da sua educação. Num país que passa o tempo, numa compulsão obsessiva, a alcatroar terras, a erigir caixotes de betão e a terraplenar tudo o resto, outro destino não seria de esperar. Depois, é preciso não esquecer que desde que trolhas atávicos, por via do sortilégio de licenciatura à pressão, em patrocínio, repito, da farinha Amparo, tiveram acesso às cadeiras docentes e, nos últimos trinta anos, se refastelaram nelas a seu bel-prazer, produzir algo mais que trolhas, suas réplicas e decalque, seria impensável. A não ser por obra e graça do divino Espírito Santo.
Moral da história: Os políticos não educaram o povo, porque o povo não se auto-educa. E o Espírito Santo, de facto, obra, mas cobra juros.

quarta-feira, julho 06, 2005

A Maré negra (um ano depois)


Andei a recapitular os arquivos e descobri lá algo que convém ir repetindo, até à exaustão. Hoje, eu não diria melhor. Se bem que, um ano depois, há que dizê-lo de novo...

O que é preocupante, mesmo preocupante, na cultura deste país -sendo que desta deriva tudo, das artes às políticas, passando pelas ciências-, não são os analfabetos numerosíssimos, nem os semi-analfabetos ainda mais pululantes. Esses, todos esses, regra geral, lá se desenrascam, fazem das tripas coração, transcendem-se conforme podem. São conhecidos até casos meritórios, quase miraculosos. Não, a minoria sabichona, doutora, vanguarda da classe analfabeta, essa, em números galopantes, é que impressiona, alucina. Estudaram, aprenderam as letras, meia dúzia de números; infestaram, em regime de manada, universidades, faculdades e politécnicos. Mestraram-se e doutoraram-se, alguns, os piores (regra geral os pajens sabujos, as cortesãs, os acólitos). De aprendizes do servilismo, da papagaeira, da mimese ao pior nível da tropa macaca, tornaram-se mestres, campeões. A praxe virou escola e, por fim, a toque de rasgos inteligentes dignos de sargentada marteleira, de açougueiros alfarrabistas, a escola virou academia, antro, seita exotérica. E o problema -do país, da cultura, deles próprios-, foi precisamente esse. Mais valia que tivessem porfiado pela via honesta, agarrados à enxada ou à herança; fazendo algo de útil à comunidade ou pagando honestamente pelos próprios vícios, pelas putas. Sempre ginasticavam o corpo, a musculatura, o esqueleto, ou a gaita. Sempre poupavam o ralo da História e os cofres do Estado. Exercitavam o que tinham, desenvolviam as faculdades intrínsecas que os preenchem. E não, ao invés, de través e revés, aquilo que não têm, nem querem ter e só lhes serve de móbil para cultivar a raiva a quem tem; e o despeito, a inveja, o temor de ser descoberto, desmascarado, apeado do trono usurpado. Valia mais, mil vezes mais, serem dignos analfabetos do que infames analfabrutos. Gentalha que se serviu dum privilégio, do suor e (quantas vezes!) do sacrifício de pais e avós, do investimento público e nacional, enfim, não para burilar virtudes ou qualidades, mas apenas para aguçar egos, refinar vilezas, aprimorar defeitos ou destilar vaidades bacocas. Antes pobres de instrução, que indigentes de espírito! Assim, nem eles se cultivaram nem as batatas e os campos, que era o que lhes convinha cultivar, pois é a cultura máxima que alcançam e a pátria deles requeria. Pior: agora, é a cultura do país que lhes está entregue a eles (e elas), como o país está entregue à erva daninha, ao mato agreste e aos silvados. Resultado: grassa uma dupla desertificação: a do interior do país e a do interior das cabeças de quem era suposto dirigi-lo. Quer dizer: o deserto de ideias propagou-se aos campos do país. E aos mares. E aos céus. É o vazio em toda a parte. Nem sonhos, nem esperanças, nem vergonha, nem tino, nem ponta por onde se pegue.
Não contente de tocar rabecão, o sapateiro cismou de ser o maestro; não satisfeito com a missa, o merceeiro subornou o padre e trepou ao altar; e o marialva, não lhe bastando ir às putas quis também ir à nação: capacitou-se que se metia a gaita também podia meter a cabeça. Ou seja, meteu na cabeça a gaita, com todas as suas infinitas pintelhices, para gáudio e recreio das suas atávicas e cristalizadas faculdades - a bicefalia invertida e congénita, nem mais-: fornicar com a de cima e raciocinar com a de baixo. Entretanto, a labreguice, que distribuída pelos campos chega a ser pitoresca, amontoada nas cidades, atravancando e emporcalhando academias, salas de espectáculo e ministérios, redunda em mera poluição humana. Coalho pastoso, superficial, flutuante e nauseabundo. Faz as vezes da nata, pois faz. Mas uma nata negra, espessa, mortífera, como a dos grandes derrames. A ocidental praia, convertida em sepulcro de pescadores e marinheiros, está coberta por um manto fúnebre desses.
O badameco veio ser doutor, o borra-botas agora caga-postas. A macaquear os cavaleiros de outrora, também transita por aí armado, empertigado e fátuo. Não com a espada, mas com o grandessíssimo pingarelho. E onde quer que meta o pensamento, com a tramela no encalce, não demora o eco da caverna retumbante que lhe faz oca a rocha craniana. Na ausência de ideias próprias, vale-se do bedelho que mete por toda a parte.
E é esta a tropa fandanga que está aos comandos do regimento... Depois, venham-me cá dizer que o que faz falta é formação, ainda por cima unversitária... Quando o que existe é um sistema instalado de deformação, de torção, de selecção de moluscos e imbecis! Quando a puta da máquina está sabotada, transviada, invertida: não produz homens -quanto mais sábios, pioneiros, espécimes elevados-, só vomita chouriços. Cadáveres adiados que já mal procriam. Porque primeiro há que tratar da carreira, do ego, do cabrão do coiro e respectivas manias -essa novel agremiação de moléculas, joint-venture de células prometida aos vermes, e que os vermes vão já devastando por antecipação! Isso e, mal brotam da cloaca doutorante, porem-se logo a fungar a brisa, a escutar o murmúrio, à cata do prostíbulo onde melhor se possam vender.
Formação? Este país, a nível de mentalidades, está a precisar é dum valente clister!
Essa sim, essa é que é uma prioridade absoluta. Ou, no mínimo, uma dose maciça de anti-helmínticos.
...
PS: E, caso não tenham percebido, não é uma questão de berço nem escola. A massa é igual em toda a parte. Só a embalagem é que muda. O espírito não se adquire nem se herda. Nasce-se com ele, como se nasce com braços e pernas, cabeça e testículos (ou ovários). Ou nasce-se sem ele. Mistérios de Deus e da Natureza. Ide perguntar-lhes porquê. Interrogar é já um claro sintoma de inteligência; tal qual debitar ininterruptamente opiniões e anedotas alarvajadas o é da ausência dela. Sobretudo, quando se mascaram as anedotas de leis, discursos, pareceres técnicos ou tratados eruditos.
Não é nenhum drama não possuir inteligência. Drama mesmo, tragédia absoluta, é promover esse vácuo a espírito. Não é por se multiplicar múltiplas vezes o zero que se alcançam números formidáveis. A incontinência ainda não é uma forma de génio. Por muito que a vendam a peso de ouro.

Mau input, pior output. Chama-se a isto lógica.


«O jornal ‘Libération’ revelou que o presidente francês, Jacques Chirac, ofendeu a cozinha britânica durante um encontro em Moscovo com o presidente russo e o chanceler alemão: “Não se pode confiar em pessoas cuja cozinha é tão má”, terá dito Chirac.»

Tem toda a razão, sr. Chirac: uma gastronomia abaixo de cão.
Mas pior que tão ordinária confecção (ou ausência dela) só mesmo os efeitos devastadores sobre os comensais. Quer dizer, se a cozinha é bera, que dizer da filosofia? De facto, só mesmo uma ingestão metodica e ancestral de tais mistelas pode justificar a emissão ininterrupta de tamanhas bostas, logorreias e flatulências.
Entretanto, que uma seita de mosquinhas mortas cá da paróquia as achem uma delícia só abona das idiossincrasias da espécie. E da excelência do dejecto.

Cosmic-Cowboys Incorporated


Começaram com os índios, entediaram-se com os árabes e agora já andam aos tiros aos cometas. Em tudo o que mexa, eles atiram.
Além disso, sabendo que Deus matou os dinossauros à pedrada, não querem correr o mesmo risco. Petulâncias, enfim.

Facto indiscutível é que um novo e revolucionário passo acaba de ser dado: uma cultura de calhaus que se dedicava ao homicídio industrial experimentou pela primeira vez o fratricídio. E parece que gostaram. Tenhamos esperança.

terça-feira, julho 05, 2005

Anatomia da notícia (ou o Dragão a aquecer para o combate de logo à noite)


Durante muito tempo, a sucessão pressupunha encadeamento: os sucessos, os eventos, os factos, decorriam de outros que os precediam, causavam ou pré-determinavam; os acontecimentos inseriam-se num fluxo cósmico, histórico ou meramente mecânico. Parte manifesta dum Todo finito e orgânico -e, por conseguinte, compreensível, abarcável-, podiam ser explicados e compreendidos. Mais que quantificados, esses eventos, eram, então, qualificados, ou seja, definidos pelas suas propriedades e relações. Esse era um tempo de mitos, filosofias, poesias, histórias, religiões. Entretanto, tudo se alterou; tornando-se infinito, incomensurável, o universo tornou-se também inexplicável e, por consequência, incompreensível. Hipercomplexo, não pode ser mais contido numa história simples ou num qualquer paradigma ou fábula heróica. Labiríntico para lá do imaginável, nenhum fio lhe resiste. A ligação e o encadeamento esboroaram-se e perderam-se, quiçá, irremediavelmente; a sucessão dos acontecimentos deixou de ter qualquer nexo ou harmonia hereditária. Mais que suceder, cada novo evento depõe, usurpa e apaga o anterior; compete com milhões de outros simultâneos, rivais; emerge, destrona, disputa e dissipa-se. Num ápice, tão rápido quanto irrompe, é varrido, despenha. Tudo se resume a uma espécie de pirotecnia artificial nocturna: uma sucessão espectacular de assobios e explosões, concentrando basbaques e vigílias, obnubilando o céu e as estrelas. São milhares de foguetes não a anunciarem qualquer festa, mas a anunciarem outros foguetes, foguetes atrás de foguetes, anúncio do próprio anúncio, prelúdio perpétuo de coisa nenhuma. E o que falta em espanto, sobra em deslumbramento e estupefacção. A multidão, essa, pasma e embrutece. Diante de fervilhar tão intenso, de balbúrdia tão cintilante, apercebe-se do absoluto que irrompe fulminante em cada novo evento e do vácuo mais retumbante em que se precipita no instante seguinte. Vazio, esse, que, consequentemente, tem que ser preenchido por novos eventos e eclosões. Atesta como os acontecimentos, longe de meramente se encadearem -como alvitravam mentes pretéritas e obsoletas -, apenas se multiplicam. Percebe como, imune à explicação, o mundo é agora unicamente sensível ao cômputo, ao cálculo, ao balanço parcial. Cada evento, mais que a propriedade e a relação, importa, doravante, segundo o valor que apresenta. Este, pasme-se, confere-o a notícia. Acontece, de facto, o que é notícia. Isso é, na verdade, o que sucede, ou seja, o que emerge, ascende, irrompe. O resto, que borbulha e fervilha sob essa nata privilegiada, culminante, aspira por suceder, por ascender à superfície, por explodir no firmamento incendiado e flamejante. O Homo-blobglob, aliás, sabe que existe, que acontece, que ainda está vivo, pelas notícias. Na medida da importância em que o noticiário o reflecte e situa, assim se revê. A imagem que tem de si próprio, a sua auto-estima, os parâmetros do seu pensamento, dependem intimamente das notícias. Flutua com as bolsas e as cotações, angustia-se com as estatísticas e orçamentos; desespera com vaticínios e augúrios para a conjuntura internacional. Ainda por cima, cada nova notícia/evento, apesar de fugaz é sempre retumbante, apocalíptica, definitiva, única. E é também por tudo isso que ele, o indivíduo Blobglob, na maior parte dos casos, se reconhece na massa, donde não se demarca nem diferencia, onde chafurda e se resolve, onde fervilha e fermenta à espreita de uma oportunidade, de emboscada entre a fortuna e o acaso; aguardando, com avidez, um impulso, um jacto, um géiser que o projecte à superfície, à crista dos acontecimentos. Nesse limbo exasperante onde vermibula reside grande porção do pântano do seu descontentamento crónico. Atascado nele, mais que sonhar, planeia, conspira, anseia engrandecer-se, granjear notoriedade, dar brado e notícia, tornar-se motivo de novidade e interesse. Para o efeito, pratica uma nova e furiosa ascese: depura-se, liberta-se, emancipa-se de todos e quaisquer escrúpulos, princípios ou ideais. Redime-se de todas as ingenuidades e canduras. Reduz-se a mera máquina volitiva, aspiradora, haurifegante. Tenta vencer o pântano pela absorção.

Biblioplectria I


Para o título mundial de Chinesises abstrusas, super-pesados, esta noite, o combate do século (que ainda é uma criança)! Pela enésima vez, senhoras e senhores:
No canto esquerdo, de calções brancos, o campeão: Manel Kant, o relógio puritano de Konigsberg; no canto oposto, de calções pretos flamejantes, o desafiante: Ulisses Dragão, o iconoclasta virtual, ferrabrás do teclado.
O combate terá 15 assaltos. Do ponto de vista do campeão. Porque na perspectiva do candidato serão abordagens.
A apoiar o titular, respectivamente como treinador e aguadeiro, estarão David "Escocês" Hume e o cão Atma; nas mesmas funções, em socorro do desafiante, esforçar-se-ão Dino "Tarrafal" Sauro e o Caguinchas.
Como árbitro teremos o homem-dinamite em efígie: Fred Nietzsche, ele próprio; e na qualidade de júri alternarão as finalistas do último concurso Miss Universo.

"Vou massacrá-lo", prometeu já o belicoso Dragão, exibindo um kung-fu demolidor.

"O conceito transcendental à priori vai permitir-me desmontar-lhe as categorias do entendimento e reconduzi-lo a uma aporia espaço-temporal crítica, donde nunca deveria ter saído!" , garantiu o temível filósofo idealista.

Para já, a vida não parece fácil para o tresloucado candidato. Mas, mais logo, veremos.

Não perca! Sabata contra Sartana, aliás, Kant contra o Dragão, esta noite, nos bombeiros de Bloga-a-Bela!...

segunda-feira, julho 04, 2005

Por falar em música

O que ando a re-ouvir neste momento, e devo dizer que me sabe que nem ginjas, são estes rapazes:


Passem os ouvidos, pelo menos, pelas seguintes três faixas:
* Cross-eyed Mary
* Thick as a Brick
* Locomotive Breath

E depois digam-me se estes gajos não são uns autênticos flibusteiros sonoros, dignos de tocar à abordagem num qualquer bergantim de danados.
O tal de Ian Anderson usa mesmo o raio da flauta como se levasse um sabre nos dentes. Animais, é o que eles são!...

E agora vou regalar-me mais um bocado!...

Um cão especial

O cão Toby, um animal surpreendente, está naquela fase complicada das gulas inverosímeis. Presumo que o farejou primeiro, ao meu telemóvel. Depois, achando-o apetitoso, comeu-o.
Num ímpeto irresistível, não me contive. Condecorei-o.
O crachá das "Operações especiais" até nem lhe fica nada mal.

Se ele conseguir manducar a televisão, estabeleço-lhe uma Comenda.

Concurso "A Mão Invisível"



As incríveis potencialidades da "Mão Invisível" são:
a) Tocar inefáveis pívias ao mercado
b) Gamar carteiras com mais eficácia
c) Segurar a bengala do "Homem Invisível"
d) Não deixar impressões digitais no local do crime
e) Apertar firmemente a "mão-de-obra".

Escolha uma das respostas, responda em envelope lacrado para o Apartado 666, e habilite-se a uma viagem ao paraíso terreal: a China. Conheça o país do comunismo benigno, amigo da Banca e da Indústria. Veja como as nomenclaturas se tornam boas, desde que partilhem os lucros da escravização das massas com quem de direito. Relembre os tempos épicos da Revolução Industrial, agora em versão 2.0 Yellow, com especificações ISO9002.
Concorra já! A viagem ao "melhor dos mundos" pode ser sua.

domingo, julho 03, 2005

Interlúdio Musical


O Live Aid Não-sei-quantos foi um acontecimento musical. E nada mais que isso. Da choldra que por lá passou, não perco tempo com comentários.Basta dizer que considero os U2 uma grandessíssima merda. Calculem agora o resto da popezinha fast-sound que para aí se inocula aos mentecaptos e adolescentes do planeta, passe o pleonasmo.
Quanto a mim, o evento, musicalmente falando, valeu por dois momentos, não por acaso finais: ver os Floyd todos juntos de novo a tocar, empenhadamente, "Confortably Numb" e, surpresa maior ainda, assistir ao melhor músico vivo a dar o melhor show da noite. Quem sabe, sabe. E ele sabe. Eu julgava-o num asilo, mas, felizmente, o cavalheiro fez questão de me desmentir. Pois, o senhor Paul McCartney não só arrasou com uma garra, elegância e energia absolutamente incríveis para a idade, como se deu ao luxo de tocar ao vivo "Helker Skelter", a música maldita do White Album, aquela que Manson escreveu a sangue nas paredes do massacre de Sharon Tate. McCartney, todavia, possesso dum Lennon que o deve ter iluminado lá do Além, acompanhado por uns catraios nada coxos, tocou-a. Aos primeiro acordes, eu, estupefacto, disse para a Senhora Dragão: "Não é possível! Este gajo está doido...Com sessenta e tal anos não se vai atrever a berrar isto ao vivo!..."
Mas ele atreveu-se e berrou-a, meus amigos! Lá dos abismos! Exemplarmente! A um nível capaz de fazer corar os Zeppelin no seu apogeu. O cabrão do preto gordo na bateria não ficou a dever nada ao Bonham dos melhores dias.
Olha, Paul, vinte valores! Deus te abençoe.
E, de vez em quando, para variar, dá gozo ver alguém podre de rico que o mereça.

sábado, julho 02, 2005

Entretanto, o país...



Tenhamos fé. Depois da tempestade, virá a bonança.

O castelo





O castelo onde eu moro.

sexta-feira, julho 01, 2005

Culinária Neoliberal - I. Cogumelos

Quem nunca provou um "Wittgenstein au champignons", umas "ameijoas à Bulhão-Popper", ou uns "miolos panados Hayek à la minute", não sabe até que ponto a cozinha neoliberal está locupletada de suculentas iguarias, requintados pitéus e sublimes manjares. O seu domínio pleno dos cogumelos, então, alcança requintes inauditos. Nenhuma outra gastronomia se lhe compara. O gourmet ávido destes carnudos e nutritivos fungos pode regalar-se e saciar todas as suas fantasias degustativas com estes petiscos inolvidáveis.
Nesta nossa primeira abordagem à principal guloseima neoliberal, começamos por uma breve catalogação dos mais saborosos míscaros, dignos da mesa de deuses, ou, no mínimo, dum piquenique de super-heróis.
Qualquer um destes tortulhos, sublinhe-se, só encontrará talvez paralelo nos célebres néctar e ambrósia que a digníssima Hebe, deusa da Juventude, servia nos festins do Olimpo.




Amanita Muscaria
Excelente para guisados, souflés, saladas.














Amanita phaloides
Magnífico em bifes, escalopes, lombinhos.



















Amanita pantherina
Delicioso com almôndegas e empadas.






















Lactarius torminosus
Inigualável em gratinados e pizzas.
















Gyromitra esculenta
Divino em molhos e recheios. De comer e chorar por mais!...

Mham!Mham!...

Comunicado da Sociedade Protectora do Dragão

Estimados compatriotas, gente de Deus, pessoas de Bem,

Informamos Vªs. Excªs, que já existe desde o pretérito ano a SPD, Sociedade Protectora do Dragão. Tem como nobre finalidade, esta preclara e piedosa instituição de Utilidade Púdica, velar para que tão distinto animal não desapareça, se extinga ou, pura e simplesmente, morra de fome.
Escutai: Agora que ides de férias não o abandoneis ao seu blogue. Pensai que um pequeno donativo vosso, uns meros dois ou três coquetéis a menos nas Caraíbas, Maldivas, ou quaisquer desses retiros exóticos onde ides carpir a crise, poderá fazer toda a diferença.
Lembrai-vos que tendo nascido masculino, heterossexual, de tez clara (essa monstruosidade hereditária), a norte do rio Tejo, com pleno uso das faculdades físicas e mentais, pouco inclinado à reptação e à bajulação, nada populista nem popular, de família honesta, o nosso pobre Dragão experimenta as maiores dificuldades nesse desiderato elementar da sobrevivência. Ostracizado e vilipendiado por todas as partes, ei-lo refugiado, desterrado e sem subsídios ou avenças de qualquer espécie. Uma dor de alma! Todas as portas se lhe fecham na tromba e não há corredores ou bastidores que o favoreçam. Nem lobbis, pobre infeliz! Mais desgraçadinho, é difícil!
Mesmo o Live Aid II que agora uns beneméritos guedelhudos se propõem realizar, nem num momento pensou nesta vítima da História e da Humanidade, completamente destituída de meios e amparos. Um drama capaz de fazer lacrimejar pedras, senão mesmo de pôr a cantar o fado penedos e pedregulhos.
Por conseguinte, ó boas almas que nos escutais, enviai os vossos donativos, jóias de família, títulos ao portador ou relógios Rolex em ouro de 24 quilates, para a morada em rodapé. Deus Vosso Senhor vos recompensará vantajosamente no Além. Disso poderais ficar certos.
...
O Presidente Honorário
___________________
(assinatura irreconhecível)
...
Entretanto, sempre briosos da transparência dos nossos métodos, especialmente no que concerne aos donativos recebidos (aquando do primeiro peditório, há um ano atrás), e desejosos de tornarmos público o bom uso que deles fazemos, aqui deixamos bem patente e à vista de todos (especialmente, dos nossos infames detractores), a foto da nossa última aquisição: uma soberba viatura, prenda deslumbrante com que tornaremos inesquecível o aniversário do nosso animal protegido, que, desafortunadamente, espatifou as três anteriores, de idêntica cilindrada, devido a excesso de álcool no sangue e no decurso de atribuladas fugas à Brigada de Trânsito da GNR.
A todos aqueles que, santa e abnegadamente, contribuíram para esta meritória obra de caridade, possibilitando a realização deste sonho antigo, o nosso muitíssimo obrigado! Que Deus lhes pague!


Nota importante: as candidatas a um lugar nesta soberba viatura, com direito a pernoita, devem enviar os seus curriculae, fotos abundantes e medidas para a mesma morada, até ao próximo dia 31 de Julho.



Morada: Rilhafoles-o-Novo, Apartado 814. Via Larápia

Aventuras Amorosas do Fundador

«Houvera sempre galanteios da parte dos reis para com as mulheres dos vassalos, mas não eram tão funestos para o povo os seus efeitos. Assim, a história conta que D. Afonso Henriques, também dado a loucuras amorosas, nos seus raros ócios de conquistador de terras, fora um dia hospedar-se em Unhão, em casa de um homem bom do lugar de nome Gonçalo de Sousa.
Recebeu o fidalgo com extremos hospitaleiros o valente rei e, para melhor lhe provar o afecto, foi ele próprio, segundo a pitoresca expressão do cronista, adubar-lhe o comer. Ora, enquanto o fidalgo assim se esmerava em obséquios devidos ao monarca, este, que era amigo de bons bocados, foi ver-lhe a mulher.
Viu-a e tanto se deleitou com a vista que lhe rendeu galanteios. Dona Sancha Álvares era o nome da dama e, ao que parece, era formosíssima. Pelo menos tal a julgou o rei, porque começou com ela a usar o mesmo processo com que abria brechas nos muros dos baluartes sarracenos. E ela, complacente, deixava-se... esbrechar.
Dom Gonçalo de Sousa -diz a crónica- entrou pela porta e viu assim ser e pesou-lhe de ahi muito e disse-lhe: "Senhor, levantae-vos caadubado o tendes!"
O rei, um tanto desassossegado pelo feito, foi sentar-se, comeu e partiu.»

- Alfredo Amorim Pessoa, "História da Prostituição em Portugal"

Apreciei a forma decidida como Sua Majestade assaltou a dama.