terça-feira, abril 26, 2005

Consultório Íntimo do Dragão -I (No princípio, era o fórum)

Com patrocínio da Rádio Vulva FM, da revista "Maria", da editora Oficina de Tretas e da Tasca típica (aliás, ciber-tasca) Cova-Funda, aqui vai a emissão inaugural para o blogocosmos (essa região acima da blogosfera) do Consultório Íntimo do Dragão.
Esta primeira emissão consiste numa reposição de consultas dadas, num tempo primordial, aqui há vários meses atrás, quando este vosso -nada- humilde criado assombrava um fórum de lampiões badamecos. Tem a curiosidade acrescida, especialmente para os arqueólogos destas coisas, de ter sido durante estas sessões terapêuticas que me ocorreu a ideia de constituir "blog". Se não sabiam, ficam a saber. De resto, se o gastrópode Machado Vaz se transferiu para os blogues, porque não me hei-de eu, animal mitológico inefabilíssimo, trasladar para a "astrologia genital"?...
Com licença, arreda, deixem passar...

«Pois é...Tenho recebido várias mensagens e emails de leitores sensibilizados onde, desde incentivantes "Força Dragão, põe essa lampionagem na ordem!", até indignados "Ó réptil voador, vai mas é pó c******!!", nada falta. Inclusivé alguns bilhetes bem curiosos, onde me são colocadas (os gajos devem julgar que eu sou algum guru) verdadeiras "Questões essenciais da vida". De tal modo essenciais que decidi partilhá-las com o fórum, bem como às respostas que me merecem. Vou começar por um muito sugestivo que me chegou enviado por Cândido C. Abrevio a história da sua vida, alguns percalços maiores e menores, e sigo directo para o corolário pungente da sua missiva. Termina ele:
P: "...abri a porta do meu quarto, com cuidado, para não acordar a minha mulher e dei com ela a dormir com o meu amigo Inácio. Será que isso faz de mim um corno?..."
R: Não necessáriamente, caro Cândido C., não necessariamente. Há várias opções: Cabrão, galhudo, boi, cornudo, entre outras. É só escolher a que mais lhe agrade. Escreva sempre.
Entretanto, do Birimbau, em tom perplexo, eis a pergunta:
P: "Dragão, após vários episódios frustrantes, cheguei à conclusão que não sou bom no cunnilingus. Será porque tenho os beiços demasiado finos? Será dos músculos bocais, será imperícia na língua? Deverei deixar crescer um bigode mais farfalhudo..."
R: Birimbau, amigo, o cunnilingus é um instrumento que requer muito trabalho de palheta (ainda mais que o saxofone). Se não se entende bem com o cunnilingus, porque não experimenta a tuba, o fagote ou o oboé? Mas se a sua atracção pelo cunnilingus é insubstituível, tente o método de treino Silvester: arranje uma daquelas ratoeiras de aço galvanizado (aquelas vulgares e mais baratas) arme-as com um pedacito de queijo de cabra fresco e depois tente retirar o queijo com a língua sem levar com o apetrecho nas ventas. No dia em que conseguir está apto pró Cunnilingus. Até lá...Bom treino, eh-eh!...

Para concluir a nossa sessão de hoje, olhem só as brutas questões que o "Afonso de Albuquerque" me envia...
P: " Dragão, tu que transpiras uma sabedoria que não há nenhum desodorizante que dissipe, vê lá se consegues resolver estes dois enigmas da história contemporânea:
1. Porque é que somos o país mais atrasado da Europa civilizada?
2. Como é que Portugal, o primeiro país do mundo a abolir a pena de morte é agora o último da Europa em qualidade de vida?..."
R: Com essas é que tu me lixaste, ó Afonso de Albuquerque! Não fosse eu ser um gajo desenrascado, e agora mesmo, ficava aqui às aranhas! Se não és a esfinge, deves ser primo dela, um raio te parta! Mas não julgues que te ficas a rir...É só emborcar aqui um trotil ou dois e vais ver como as ideias se me desentorpecem...Pronto, aqui vai, segura-te... Sobre a primeira questão, é daquelas que se respondem com outras questões, a saber:
a) Há mais algum país na Europa com seis milhões de benfiquistas, pr'aí uns dois milhões de lagartáceos e uma meia dúzia de loureiros?
b) Há mais algum país na europa onde o futebol seja a religião nacional, e o árbitro o jogador principal e vedeta preferida dos adeptos?
c) Há mais algum país cujo regime político seja uma tão degradante tirania dos "media" (jornais e televisões), isto é, uma "mediocracia"? E onde tudo se fabrica, não em fábricas ou indústrias como nos outros países, mas nos jornais e televisões?
E então, já percebeste, ó Afonso de Albuquerque, porque é que somos o país mais atrasado da europa? Se não percebeste, és burro, porque melhor explicado que isto não encontras em parte nenhuma.
Quanto à segunda questão, só vem exemplificar e atestar da ancestral inconsequência, desorganização e bacoquismo das nossas iniciativas e legislações: aboliram a pena de morte, mas esqueceram-se de avisar o carrasco (a própria, a Negra Ceifeira, eh-eh)...Já passaram mais de cem anos e continua a executar-nos que nem tordos! Não escapa ninguém! Foda-se, e somos condenados à morte logo à nascença, sem processo judicial, culpa formada nem quaisquer quesitos de prova! Ainda mal piamos e já estamos fodidos, ai não! Processo mais ultra-sumaríssimo não conheço. Nem na Liga. Eu bem disse pra te segurares, ó Albuquerque!...»
E pronto, caros visitantes, por hoje é tudo. Escusam de implorar; amanhã há mais. A piedade nunca foi o meu forte.

Digam, injuriem, perguntem!... Aqui fica o Email.


A pedido de várias famílias (é mentira, mas não faz mal), passa a estar disponível nesta espelunca o mail da casa(dragolabaredas@hotmail.com). Recomenda-se, especialmente, a todos os que desejem injuriar-me em privado. Se for para encómios, ou apologias, poupem-se ao trabalho. Prefiro andar à porrada, que beber chá.
Acresce que, como vou reabrir aqui neste blog o "Consultório Sentimental" que, aqui há quase dois anos atrás, mantinha num fórum estranhíssimo, serve também -o tal mail- para todos/as interessados/as me enviarem as suas questões e problemas existenciais, ou quaisquer outras que os/as atormentem. Não ficarão sem correctivo, digo: resposta.

E não se esqueçam (parafraseando outras épocas):

O Vinho é que induca, o Dragão é que instrói!...

Ah, e já me esquecia: Doravante, este blog passa a estar em parceria com a revista "Maria". Quem é amigo, quem é?!...

Felizardos!...

A Verdade sobre as ADMs (em três actos)


«CIA dá por terminada busca sem êxito de armas no Iraque
O inspector de armas da CIA, Charles Duelfer, deu por encerrada na segunda-feira, e sem êxito, a busca das armas de destruição em massa no
Iraque.»


Estes gajos, claramente, andam na balda. Já nem os blogues americanofobos, como este, lêem. Senão teriam sabido, há mais de um ano, onde o Saddam, o verdadeiro, esconde as Armas de Destruição Maciça. Em Janeiro de 2004, já este blogue expunha toda a trama...

I
"É evidente que o Saddam Hussein estava carregado de ADMs (Armas de Destruição Maciça). Nem é preciso ir perguntar ao Luís Delgado: é uma coisa que ressalta à vista a olho nu. Só que as escondeu muito bem escondidas, é óbvio. É óbvio e é tipico destes tiranos doidos, megalómanos, lunáticos. E onde é que um tirano lunático esconderia esses tesouros adorados? Está bem de ver: se os piratas das Caraíbas corriam a enterrar as preciosas arcas em ilhas ignotas, o Saddam que é um megavilão, com meios formidáveis ao seu dispôr, socorreu-se da mais inacessível de todas as ilhas: a Lua, pois claro! Macacos me mordam, se ele, como super-lunático que é, não enterrou as ADMs no solo lunar!... Direi mais: quase que apostava que a própra AL Qaeda, a esta hora, já se transferiu também, de armas e bagagens, do Afeganistão para lá.
Porque é que vocês acham que os Norte-Bushianos, subitamente, desataram com aquele interesse pelo sítio, ãh?!... Não me lixem: O Bush não brinca em serviço. Chamem-lhe parvo!...Deliro? Mango c'o pagode? Então recapitulai comigo: Esses calhaus que todas as noites riscam a atmosfera, em queda lá dos éteres, chamais-lhes meteoritos? Isso é o que vos impingem os media e os cardápios das escolas: conversa pra adormecer papalvo. Racioinai, ó criaturas: Aquilo, é mais que evidente, são mas é os gajos, os terroristas e o Saddam original, com as catapultas balísticas de cruzeiro, as fisgas monumentais de longo alcance, à pedrada à nossa civilização!...Pedrada, meu amigos...pedrada da grossa!... Quereis maior prova de que há árabes por detrás?

II
Um leitor mais renitente aos portentos da razão e aos requintes da lógica, poderá obstar-me com a seguinte alarvidade:
-"Pois, pois, ó Dragão...Mas não nos queres dizer como é que eles, o Saddam Original e os terroristas AlQaidianos, faziam para chegarem à Lua? Não consta que disponham de naves espaciais para o efeito, ora essa!..."
E eu começaria por comentar para com os meus botões:
-"Foda-se, é com cada anjinho que um gajo atura nesta vida!..."
E depois, num salto ágil, de pantera filosófica, esmagá-lo-ia com a contundência afiada dos seguintes argumentos:
a) "Ouve lá, nunca leste ou ouviste as poesias do Luís Delgado, o inefável tradutor português do WC Bush, Rumsfeld, Powell e todos esses sábios do nosso tempo? (foda-se, deves ter lido, porque ele escreve e declama por tudo quanto é canto!...) Pois, se leste, ouviste, etc, certamente te arrepiaste com os prodígios (todos eles horríveis) de que esse Saddam e associados são capazes!...Quem desenvolve ADMs tão medonhas, que dificuldade terá em confeccionar, alugar, comprar ou meramente roubar Naves Espaciais sofisticadas? Ãh, não me dizes?!...Atrás das ADMs vêm fatalmente as NEs (Naves Espaciais Sofisticadas), toda a gente sabe. Muitas vezes, até em conjunto com os SEs (Satélites Espiões) e as SAs (Sociedades Anónimas)...
b) As alianças e parcerias estratégicas entre Saddam, Bin Ladden, Satanás, o Anti-Cristo e o Mancha negra já não oferecem dúvidas - a não ser que comecemos a duvidar da palavra de pessoas acima de qualquer suspeita como o Capitão América ou o Rato Mickey (o que, convenhamos, nunca nos passaria sequer pela cabeça!)
c) Assim sendo, qualquer um deles, o Saddam Original ou o AlQaidianos, poderia entrar na posse de técnicas tenebrosas aprendidas com o Conde Drácula, como transformar-se em morcego, neblina ou lobisomen, sendo que na forma de neblina poderiam viajar de ida e volta à Lua em menos de nada!...
d) Todavia, ( e aqui entra em acção a lógica transcendental e a jurisprudência macrobiótica), não terá sido nem de Nave Espacial, nem por neblinobolia que chegaram à Lua...Havia um método bem mais simples e familiar: Escavaram um túnel!...Aliás, escavaram oito túneis: o que já vinha profetizado na Bíblia, há mais de 2000 anos. Só um deles é verdadeiro e conduz à Lua. Os restantes são falsos e conduzem a nenhures, sendo guarnecidos pelos sete sósias do Saddam Original. Quem é que tu achas que os americanos apanharam, aqui há uns dias atrás?..."

III
Posto que, finalmente, já sabemos onde estão as ADMs, bem como o Saddam Original e o Bin Ladden, resta agora avaliar que planos maquiavélicos são os deles.
Mas antes da grande revelação, alguns pormenores significativos pra criar suspense:
1. Sabe-se que têm armazenado grandes paióis de ADMs e TNT avulso na face escura da Lua. Naturalmente, porque é a face que nunca se vê, estando portanto ao abrigo dos olhares indiscretos do telescópio Huble, dos satélites espiões e do Nuno Rogeiro; e, sobretudo, porque os americanos são de tal modo estúpidos e imprevidentes que se esqueceram de instalar faróis nos Vaivéns, sondas e módulos de alunagem.
2. Vários arrependidos da AL Qaeda são unânimes em denunciar aquela que é a série televisiva de culto de Bin Ladden e do médico louco com quem costuma jogar xadrez e planear demolições: "Espaço 1999". Ao que parece, passam tardes a visionar os dois primeiros episódios.
3. Furiosa com a ineficácia do Telescópio Huble para ver a face escura da Lua, a administração Bush já mandou cortar as verbas para a respectiva manutenção.
Por conseguinte...Somados estes dados, sopesados estes indícios, não é preciso ser-se um Einstein para orçar que caldinho tenebroso Saddam, o Original, mais os mega-terroristas, andam a cozinhar. Pois, é evidente:
Vão aplicar uma mega-explosão na Lua, de modo a retro-propulsioná-la para fora da sua órbitra natural, feita cometa louco, e lançá-la em voo picado, arrasante, sobre os Estados Unidos. Um verdadeiro meteoro terrorista e suicida!
E se dois aviõezitos já causaram aquele estardalhaço todo, nem quero pensar no que vai ser quando levarem com a Lua toda, inteira, em cima!...»

Caros Américas, façam como o Clark: quando não souberem, perguntem.

segunda-feira, abril 25, 2005

Hoje é Primeiro de Abril (o verdadeiro)


Vamos celebrar o quê?
Trinta anos depois, cansados de banha da cobra, bezuntados até à medula, lá vamos descobrindo suavemente, frouxamente, como convém, que tudo isto serviu para termos dois "primeiros de Abril" no mesmo mês. Só que o segundo com honras de estado e feriado nacional. Na verdade, ao contrário do anterior, que é mundial, este, o segundo, é só nosso. Gastámos trinta anos, um país, todas as vértebras, para conseguirmos um "Primeiro de Abril" só para nós.
Ali, na sala ao lado, a senhora Dragão, zangada com qualquer pintelhice, escuta o Nick Cave, que canta, semi-possesso: "Alleluia!..."
Juntemo-nos ao coro: "Alleluia! Oh, Lord...Oh sweet Lord!..."
A sério, querem saber o que eu penso da política portuguesa dos últimos trinta anos e do regime libertadeiro da denominada "Terceira República"?
É simples: Não fodem nem saem de cima!

sábado, abril 23, 2005

Antologia Caguinchiana


I
Ultimamente, aqui, na tasca -aliás, Ciber-tasca-, andam a contecer coisas estranhas; fenómenos deveras bizarros. O mais recente fez-se transportar na pessoa do Caguinchas, que, todo apessoado e decidido a uma pernoita excitante, me abordou com a seguinte trignometria:
-"Ó Dragão, estou aqui um bocado hesitante...Preciso da tua opinião!... Confesso que já não percebo nada destes anúncios!..."
Os anúncios em questão referiam-se àquelas páginas eróticas, onde hordas de gente voluntariosa se disponibiliza a todo o género de serviços corporais e prazeres de aluguer.
-"Pois, pá - continuou ele-, antigamente um gajo não tinha que tirar um curso superior pra perceber o que uma puta dizia, mas agora...foda-se!, é com cada equação do terceiro degrau!..."
Abreviando; em que consistia o problema do Caguinchas? Debatia-se, nada mais nada menos, que com uma série de termos esotéricos que lhe torpedeavam a avaliação das candidatas. Dizia uma:
"Sozinha...Trintona! Oral explosivo!! Rapadinha..."
E o Caguinchas interrogava-se, perplexo: "ouve lá, isto do oral explosivo quer dizer que a gaja é árabe, ou quê?! E a raspadinha, quer dizer que no fim temos direito a um cartão da lotaria popular?!..."
Como podem ver, no fundo o que Caguinchas requeria era um tradutor de putaguês para português. Como domino o idioma, não vi inconveniente em fazer de intérprete.
-"Nada disso, ó Caguinchas. - Acalmei-o. - Eu traduzo: "oral explosivo", quer dizer que a gaja é especialista em broches; e (rapadinha) que não tem pintelhos na cona!..."
-"Não tem pintelhos na cona?!! - Alarmou-se o Caguinchas. -"então tem-nos aonde: Debaixo dos sovacos?!...
-"Não pá. -esclareci-o. -Significa que rapou a pintelheira! Enfim, americanices!..."
-"Rapou a pintelheira?!! - Continuou a alarmar-se o Caguinchas. - Mas também há barbearias de conas?!...E agora, como é qu'um gajo distingue o buraco da cona do buraco do cu?..."
Enigma transcendental, de facto. O Caguinchas achava tudo aquilo muito suspeito. O caso não era para menos. Chumbou a candidata e passámos à seguinte, que arauteava desta maneira:
"Promoção Inverno. Lisboa...marisa...Loiraça, insaciável...Corpinho violão...beijinhos...natural...BotaozinhoRosa...Bumbum furacão...Oral natural...Alucinante!! Sem borrachinha...3ª oportunidade! Até rebentar!!"
O Caguinchas, pasmado, estava convertido num autêntico boi a olhar pra um palácio; e até eu, putanheiro moderno e encartado, com pós-graduações várias e cursos de actualização permanentes, dei comigo às aranhas para interpretar tal palimpsesto. Entretanto, enquanto eu relia o aforismo abstruso, o Caguinchas, como é seu estilo, disparava comentários a torto e a direito, cada qual mais brilhante que o anterior:
-"Loiraça insaciável?, isso quer dizer que a gaja deve ser uma alarve! mas se julga que eu lhe pago o jantar..."
-"Não, ó Caguinchas. - Meteu-se na conversa, o Dinossauro - Isso quer dizer é que a gaja te come todo!..."
-"Foda-se! - Trovejou o Caguinchas, visivelmente indignado. - Mas que merda vem a ser esta? Atão um gajo é que paga e a puta é que come?...Mas que putas vêm a ser estas?...Eu quero comer uma puta, caralho!... Um puta normal, com cona e pintelhos à volta da cona!...Como, limpo a piça, e pago! É assim. Foi assim que o meu pai me ensinou!...Isso de putas insaciáveis devem ser mas é putas canibais!..."
Mas o pior ainda estava pra vir. Uma aragem de sacanice começou a insinuar-se pela sala e tanto eu como o Dinossauro trocámos olhares furtivos de conluio avacalhador.
-"Pois, -intervi eu, disposto a conduzir o Caguinchas a novos abismos de desespero -, e não sei se estás a ver o que é isto do "BotaozinhoRosa"..."
-"Rosas?! - exclamou, o Caguinchas. - Não me digas que agora também temos que oferecer flores às putas, ou então que a gaja é socialista!...Foda-se, eu só quero mudar o óleo, não lhe quero pedir namoro, nem discutir política!..."
-"Nada disso. - Volvi, munido de toda a sacanice de que era capaz e antegozando já o efeito do que se seguiria. - Isto significa que a gaja te lambe o olho do cu e te enraba com a língua e tudo!..."
A cara que o Caguinchas fez, só vista. Parecia que os olhos lhe iam saltar pelo nariz abaixo, como nos bonecos de desenhos animados.
"Como?!!! Foda-se!, mas isso é puta pra homens ou pra panascas?!! - Bramou, escandalizado e ofendido.
-"Mas pensa nas contrapartidas... -Manobrou, o Dinossauro, pela outra banda. - "Bumbum furacão, oral natural, alucinante, sem borrachinha, ãh, um luxo!..."
- "Sim, -reforcei eu, - não te esqueças que se trata duma promoção de inverno!..."
Mas o Caguinchas estava-se pouco marimbando prás promoções, saldos ou rebaixas todas que houvessem. Aquilo cheirava-lhe mas era, a léguas, a uma liquidação geral: a dele.
-"Bumbum furacão"? - Arrepiou-se todo, antevendo já horrores atrás de horrores. - Isso, quase que aposto que quer dizer que a gaja dá peidos ciclónicos, não?!..."
-"Não. -Tranquilizei-o. - Isso apenas quer dizer que lhe podes papar a bilha. E mais: até te faz broches sem camisa!..."
-"Mas vocês julgam que eu sou maluco e analfabeto, ou quê?! - Atroou, qual Krakatoa, num arremedo altivo, de macho brioso. - Ainda sei ler, cum caralho!... Insaciável, furacão, alucinante, oral natural, até rebentar...foda-se, 'tá bem de ver que a gaja é mas é uma puta antropófaga, devoradora de otários!... e qual camisa qual carapuça!...Foda-se, eu, é que nem dentro duma armadura lhe confiava a piça!...E sabem que mais? É diante de putas destas, que um gajo proclama: "abençoada a punheta!"...
E não disse mais nada. Bazou porta fora, furibundo, à procura duma revista pornográfica, presumimos.
Ficámos, eu e o Dinossauro, a olhar um pró outro, meditabundos. Em tudo aquilo, havia um detalhe que nos intrigava: "3ª oportunidade!!" Que raio significaria aquilo?
Um verdadeiro mistério...Mistério que até à data não conseguimos decifrar.

II
O Caguinchas, com esta erudição toda das putas, mais as americanices adstritas, anda a ficar inconsolável. O alívio manual, decididamente, já não o satisfaz. Mas, por outro lado, a verdadeira fobia que desenvolveu em relação às novas modalidades de putaria, continua aguda. Como há vícios que só se podem combater com outros vícios ainda piores, refugiou-se no jogo. Não há tugúrio de batota clandestina que não peregrine, nem casino manhoso que não frequente. O problema é que está a ficar sem crédito em quase todos eles. "Sem crédito", é forma de dizer: na verdade, parece que tem mesmo é a cabeça a prémio.
Enfim, deve ter sido por causa dessas complicações todas que ontem chegou ao pé de mim, cheio de ares furtivos e solertes, reclamando paternidade para o seguinte projecto:
-"Olha-me só esta mina, ó Dragão!..."
Em simultâneo, ia-me mostrando a página de anúncios dum matutino nacional, onde rezava: "Mãe de santo brasileira, joga-se cartas e búzios...telef:...."
E ainda mal eu tinha acabado de ler e avaliar a tal mina, já ele rematava:
-" Pá, búzios deve ser assim uma espécie de dados... Tratas tu deles, que eu trato das cartas!...Depenamos aqueles patos, que é um ver se te avias! E no fim, com um bocado de sorte, juntamos o útil ao agradável e ainda papamos a brasileira!...Ãh?! que é que me dizes: ideia do carulho, não?!..."
E como eu tardasse a sair da estupefacção em que a sua arquitectura temerária me mergulhara, o Caguinchas, todo pintas, reforçou a dose:
-"Oh pá, o filho é santo, quer dizer que deve ser um g'anda anjinjo que até nos agradece por lhe comermos a mãe!... A não ser que não gostes delas maduras!?..."
-"Não, ó Caguinchas: gosto, gosto." - Reagi, finalmente.
E é verdade. Por isso lá fomos os dois, depenar os patos e comer a mãe ao santo. Sempre me ensinaram que nunca se deve contradizer um doido.

III
Acabámos por não comer a mãe ao santo. Isto, porque o Caguinchas, um raios o partam, pelo caminho, teve um momento de hesitação, expresso na seguinte dúvida existencial:
-"Ó Dragão, mas a brasileira mãe do santo não é daquelas que barbeia a cona, pois não?!..."
Aí, eu, diabos me levem, não resisti. E proclamei-lhe o seguinte:
-"Não, ó Caguinchas, fica tranquilo: não é dessas. Até porque, sendo mãe de santidade, para ela a cona é sagrada, portal beatificado! Só se lhe pode ir ao cu!...
"O Caguinchas começou logo a ficar desconfiado. Mesmo assim ousou uma segunda tentativa:
-"Mas fazem mamada, ou não?!..."
-"Sim, sim... - Acudi-lhe, pressuroso. - Fazem broches celestiais. Mas convém ficares-lhe atento aos olhos..."
-"Aos olhos?!!...- Espantou-se, o Caguinchas.
-"Mas porquê: hipnotiza-me?!..."
-"Não. - Retorqui, com o ar mais angélico deste mundo. - É para topares quando ela os começa a revirar..."
-"Chiça, não me digas que ela se vem a chupar!..." - Precipitou-se, incrédulo, o Caguinhas.
-"Nada disso. -Corrigi-o. - Quando os olhos começam a revirar-se não significa que está a ter um orgasmo: significa é que está a ter um ataque epiléptico!..."
-"Foda-se!!..." - Arrepiou-se todo, o Caguinchas. Que até os tomates (jurou ele no dia seguinte, quando lhe voltei a pôr a vista em cima) se lhe encarquilharam.
Por causa disso, claro está, já não fomos. Que querem, a sacanice é mais forte do que eu.

sexta-feira, abril 22, 2005

Melomania III

O que é que eu penso da "música pimba"? O mesmo que penso da "literatura light"; e exactamente o mesmo que me ocorre sobre "futebol entre tetraplégicos": apesar de tudo, sempre era preferível a natação.

Minhas senhoras, curvo-me...


Eu não devia dizer isto. Mas como amo mais a verdade que as conveniências, digo-o. Mesmo sabendo que no futuro poderá ser usado contra mim. Basicamente, é o seguinte: Eu, Dragão, porco machista, marialva dos quatro costados, último dos ferrabrazes, tenho levado uma bela ensinadela das senhoras mulheres aqui na blogosfera. Tenho mesmo descoberto nelas (com mágua o reconheço, pelo meu próprio género) mais coluna e valentia que em grande parte dos homens aqui do "blogbairro", uns verdadeiros nenúfares.

A começar na Zazie, por uma amizade bem temperada, e com destino especial à Laurindinha e à Margarida, pela amabilidade sempre imerecida que tiveram comigo, eu, num rasgo excepcional de humanidade, dedico-lhes o que se segue (tem 15 anos e foi escrito, algures, nas savanas de África):

GENESIS

Quando tudo era triste, negro, e a Terra poeira incerta
Olhos sonhadores nas trevas forjaram vida acesa;
Do caos informe, com a Palavra, arrancaram beleza
e, assim, criando, Deus se fez poeta.

Não será tudo realmente um poema -a Terra e os Céus?
E nós próprios, em vez de escravos, bons ou maus
não seremos antes misturas de Treva e Caos
com a desesperada poesia de Deus?...

Foi por a fealdade à sua volta se afigurar tão insuportável
a solidão tão amarga e o silêncio tão profundo
Que Deus teve essa necessidade desculpável

de tudo mascarar co'a beleza de versos seus.
E ainda hoje, amargamente, solitário, moribundo
o poeta sofre, recria o mundo e, assim, sem fantasia, se faz Deus.



PS: Não digam a ninguém que eu postei isto. Ainda me arruina a reputação.

Notícia preocupante

Juntas médicas avaliam 1119 professores

Suspeito que, em bom rigor, não seja apropriado. Uma parte significativa de professores, e a grande parte dos alunos e respectivos encarregados de deseducação reclamam, urgentemente, isso sim, é por uma boa "Junta veterinária".
No mínimo, com um especialista em solípedes.

Excelente Notícia

"Parlamento espanhol aprova casamentos entre homossexuais".

Agora, depois de legais, já só falta declará-los obrigatórios. Tenhamos fé.
É sempre reconfortante ver os espanhóis a encaminharem-se, com boa desenvoltura, para a extinção.

E se eu fosse Nacional-Socialista?...


1. Seria estúpido.
Ser Nacional-Socialista não sendo alemão é tão anedótico como ser sebastianista não sendo português. Ou mesmo ser "Neoconas" não sendo americano.

2. Seria aberrante.
Mas não mais aberrante que ser BE, neoliberal ou anarco-capitalista. Ou marxista-leninista, maoista ou espanhol.

3. Seria obsceno.
Mas não tão obsceno quanto ser do Benfica.

Estamos entendidos, ó Caguinchas?...

quinta-feira, abril 21, 2005

Breve história moral

Dantes, ao princípio, queria viver muito feliz. Mas ainda era novo, inexperiente, ingénuo. Tinha desculpa.
Depois, começou a compreender melhor as coisas e já não queria viver feliz. Deixara-se de exageros, estava melhor... Ainda um pouco renitente, é certo, mas quase a perceber as regras do jogo.
Por fim, aclarou as ideias, refinou a personalidade, e o que queria mesmo era viver infeliz. Estava maduro, sem dúvida. Aprendera, nitidamente. Progredira, muito. Deixaram-no até votar.
Hoje em dia, sabe tudo, desembaraçou-se de quaisquer dúvidas. E corre aflito dum lado para o outro, implorando, suplicante: Se ao menos o deixassem viver...

quarta-feira, abril 20, 2005

Vão chamar Papa a outro!...


Eu não sou católico. Não sou, pronto, e a culpa é de Deus. O Deus dos católicos, quer dizer. É demasiado judeu e romano para o meu gosto. Há Jesus a menos e Paulo de Tarso a mais. Isso e umas duas ou três incapacidades minhas, estruturais, congénitas, para o decálogo – aqueles 6º, 7º e 10º mandamentos, convenhamos!...Especialmente o 6º... Quanto mais não fosse, a existência de espanhóis, entre outras, impedir-me-ia de ser católico.
Mas isto de não ser católico é problema meu. É entre mim e o Criador: no fim acertamos as contas. Eu e Ele. Dispenso intermediários, mediadores, alcaiotes das alminhas.
Em contrapartida, assim como as minhas telhas são problema meu, já o papa é problema deles, dos católicos. Deles e de mais ninguém.
A mim, se elegem fulano ou sicrano, se o espírito santo decreta este ou aquele, é-me rigorosamente igual. Se é preto ou branco, brazuca ou ariano, conservador ou liberal, eles que o aturem. Até pode ser chinês, que os abalos são os mesmos. Meto-me na nomeação dos ayatholas? Intrometo-me na vida do Dalai Lama? Mando palpites ao patriarca ortodoxo? Então, porque carga de água, havia de estar para aqui a rosnar ao conclave, a ladrar à chaminé ou a dar urros e a descabelar-me à varanda?!
É forçoso que ser de esquerda (ou liberal, que é a "esquerda-light", descafeínada e sem álcool) seja sinónimo de ser um badameco dum incontinente mental e, sobretudo, verbal, que, a toda a hora, faça chuva faça sol, tem que estar a cagar postas sobre tudo e mais alguma coisa?
Quer dizer, assim como os papa-hóstias, de todas as capelas, se arrogam em detentores exclusivos da procuração divina, estes putativos "não-papa-hóstias" armam em procuradores auto-arvorados da humanidade, em baluartes honorários da filantropia e do progresso. Sabem o que vos diz esta porção de humanidade? Certamente adivinham e prende-se com o orifício materno.
Mas, entretanto, aqui d’el rei, que os católicos elegeram um papa católico. Havia de ser o quê? Protestante? Muçulmano? Socialista? Devia ser democraticamente eleito, pela chusma que faz da opinião uma espécie de cagar aos cantos ou mijar nos muros? Para ser correcto, está-se mesmo a ver, na opinião destes campeões de muceque, o conclave devia ser televisionado, estilo "capela das celebridades", com a Júlia Pinheiro a fazer as honras, em directo na TVI, e à mercê dos caprichos e votações da choldraboldra, a expulsar cardeais até que só restasse uma espécie de bicha Castelo Branco, de anel e mitra.
Ainda bem que o papa é católico, puro e duro, sem meias-tintas. Para metrossexuais do pensamento já nos basta toda esta turba, sem credo nem vértebra, sem coluna nem fé, sem princípio nem fim, nada, excepto um cabrão dum ego inflacionado, a ameaçar as estrelas e a eclipsar o sol. Com tanta metrossexualidade política, dispensamos bem, ainda mais, a metrossexualidade religiosa.
Talvez Jesus, lá onde está, se envergonhe de muita da proclamada "direita" que por aí grassa, e de católico, como diria Pessoa, e dizem alguns filósofos, tenha muito pouco. Mas, mesmo ele, na sua infinita humanidade e misericórdia, mandou dar a outra face, não mandou dar o cu.
Assistindo ao histerismo peixeirante de toda esta escumalha das ideias, a toda esta vaselina de plantão ao pensamento, a mim, até me dá vontade de ir ser católico. Sempre é preferível a hóstia, via oral, que o mesmo remédio, só que mais concentrado, sobredosado, esterilizante, e em forma de supositório expresso, pelo fundilho da coluna.
Vergonha dos homens, vergonha da esperança num mundo melhor, é toda uma "esquerda" pidesca, bufa, cretina, a espernear e a espumar epilepticamente. Com uns argumentos e poses de tal modo estimulantes, que, um dia destes, não resisto e corro à feira da ladra a enfarpelar-me numa farda das SS (vi lá uma das Tottenkampf, ainda não há muito tempo, toda catita). Vai ser uma carga de trabalhos para me fazerem despi-la. Acho que até vou dormir com ela.

Melomania II



Apregoam-me os primores da ópera. Não consigo deixar de me arrepiar com as manias: o histerismo guinchador delas, a guturalidade ululante deles. Sugerem-me que vá de fraque; que, no fundo, aquilo serve apenas de pretexto para desfilar toilettes. Bem, irei. Mas só se for de buldózer.

E agora para algo completamente diferente...


Enquanto o descalabro não se instala (a piorar o caos), eu aproveito para cumprir o prometido. A pedido desta estimada senhora e deste insigne cavalheiro, eu, Dragão, uma vez sem exemplo, vou responder a uma praga chamada "chain letter". Como geralmente sou do contra, e porque se trata duma coisa muito pouco séria, eu, para vosso espanto, vou responder com integral seriedade. Aproveitem. É um fenómeno muito raro.


1 - Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?

R.- O "Prometeu Agrilhoado", de Ésquilo

2 - Já alguma vez ficaste apanhado por um personagem de ficção?

R. - Convertamos o "apanhado" em "influenciado". Eis a lista:
- Ulisses (de Homero, o original; não confundir com a merda do Joyce)
- Toby Shandy e o Cabo Trim (de Sterne)
- D. Quixote (de Cervantes)
- Panúrgio (de Rabelais)
- Capitão Cap (de Alphonse Allais)
- Sapo-no-Buraco, ( de Quincey)
- Senhor Ubu ( de Jarry)
- O Major (de Boris Vian)
- Eu próprio (sou um personagem de ficção, ou ainda não tinham reparado?...)

3 - Qual foi o último livro que compraste?

R.- Sou um bibliomano desenfreado. Quer dizer que nunca compro apenas um livro. No último Natal, por exemplo, saí com o dinheiro para comprar prendas para toda a família e amigos, sob instruções rigorosas da senhora Dragão e, depois, gastei alegremente o dia a vasculhar alfarrabistas e a torrar a bela maquia em livralhada. Refugiei-me, entretanto, numa pensão providencial que há ali para os lados da Graça. Quanto à questão, se bem me lembro, a última catrefada que angariei (se vos dissesse onde, não acreditariéis), incluia:
* "Cozinha Arqueológica", do Eça de Queiroz
* "Novos Cadernos do Major Thompson", do Pierre Daninos
* "Barba-Azul", do Kurt Vonnegut (e não vos maço mais)

4 - Qual o último que leste?

R.- "Zazie no metro" (ou "Zazie dans le metro", para não ferir susceptibilidades), de Queneau (comprei-o na feira da ladra, por 1€) .

5 - Que livros estás a ler?

1. "Os assassinos, uma seita islâmica radical", de Bernard Lewis (estou a acabar); "Novos Cátaros para Montségur", de Saint Loup (vou no princípio).

6 - Que 5 livros levarias para uma ilha deserta?

R: 1. "Odisseia", de Homero
2. "As Viagens de Guliver", de Swift
3. "De Profundis", de Thomas de Quincey
4. "Assim Falava Zaratustra", de Nietzshe (um homem experiente no assunto, pois, como sabemos, viveu toda a sua vida numa ilha quase deserta)
5. Um bom livro de culinária, especializado em grelhados (ou então qualquer manual de economia neoliberal, caso tivesso que me entregar ao canibalismo)
PS: Levaria mais livros. Uma ilha deserta, como este mundo, são insuportáveis sem uma boa biblioteca.

7 - A que 3 pessoas vais passar este testemunho?

R: Só para os chatear e porque não gosto de ser parvo sozinho: ao Dodo, ao R e ao BOS (são tipos com fino sentido de humor que, ao contrário de mim, serão capazes de dar umas respostas com piada. E também por curiosidade minha). A título particular, também à minha amiga Zazie, que fará o favor de responder na caixa de comentários, senão vou lá a casa e escaqueiro-lhe a máquina de lavar e o secador de cabelo (esta, com as mulheres, é infalível...)

terça-feira, abril 19, 2005

Fujam!...

Estimados -e certamente incautos - visitantes,
Ponde-vos ao fresco, enquanto podeis. Se este já não era um sítio recomendável, agora ainda vai ficar, certamente, pior. Não é possível, direis vós. É, é; garanto-vos que é. Basta dizer-vos que aqueles facínoras da Rádio Vulva FM e eu chegámos a um acordo para que voltem a ciber-emitir aqui. Pelo menos enquanto mantiverem refém o gato Doc e o secador de cabelo da senhora Dragão. Filhos da...!
Vão-me dar cabo da meia dúzia de freguezes... Estou desgraçado. Aqueles javardos não respeitam nada!...

Melomania


Uma coisa é não gostar de Jazz. Outra, bem diferente, é achar que os músicos de jazz deviam ser abatidos a tiro. Eu, confesso, hesito entre ambas.

Dragão e Cavalheiro - Parte II.


Fiquei a saber, com indignação justiceira, que a minha amiga Pérola tem uma putativa rival na blogosfera.
Minha cara Margarida, sem qualquer desprimor ou irreverência para com o senhor seu marido, que estou certo ser um astro radioso coroado de virtudes incomparáveis, quero dizer-lhe que aqui para este velho e belicoso Dragão, famigerada criatura dos abismos, monstro cumulado de defeitos, pérola só há uma. E por muito prendada que seja a sua rival, e por certo é, a meus chispantes mas cristalinos olhos, jamais lhe chegará aos calcanhares. Serei bruto, mas não sou cego.
Que Deus a guarde!
Porque se Ele não guardar, guardo-a eu. Entre nós, dragões, é tradição ancestral guardar tesouros.


PS: No grego "Margarithes" significa "pérola" (Como "margaros" é o "coral donde se extraem as pérolas").

Fúnebres perspectivas

«Funerárias ameaçam entrar em greve
As associações que representam 85% das agências funerárias do País estão a ponderar a possibilidade de fazer uma greve, devido à publicação de uma nova lei que regulamenta o sector aprovada pelo Governo de Santana Lopes.
De acordo com a edição desta terça-feira do Correio da Manhã, esta lei poderá levar ainda a «uma invasão de Lisboa por carros funerários» ou ao «bloqueio das entradas do cemitério», anunciaram as associações.
Em causas estão as mudanças impostas na nova lei, sobretudo a que permite a diminuição do número mínimo de funcionários das funerárias que de quatro passam a ser obrigadas a ter um.
Com esta lei, além dos cerca de três mil funcionários que vão para o desemprego, fica aberta a porta à clandestinidade, afirmou o presidente da Associação de Agentes Funerários de Portugal (AAFP), João Moura.
Este responsável acrescenta ainda que com este novo regulamento «um dos maiores prejudicados é o consumidor que passará a ser mal servido ao cair nas mãos de agências clandestinas».
»

Notem, meus amigos, para além do surreal-macabro da notícia, o sublinhado a vermelho. A pergunta que logicamente nos ocorre é: como é que um gajo sozinho transporta o caixão (ou o féretro, se preferirem)? Leva-o de rojo? Tem que ser um brutamontes, um hércules capaz de carregar com a cangalha às costas? Recorre ao uso dum monta-cargas, como aqueles moços de bata azul nos hipermercados? Pede à família que dê uma ajudinha? Subcontrata pretos ou ucranianos, à tarefa? Faz como?

E a família do "consumidor", ao ver o seu ex-ente querido a ser levado em qualquer dessas formas pouco ortodoxas, o que pensará? E o João Miranda?

Meditemos.

Em todas estas questões pertinentes, enquanto Lisboa não é invadida por carros funerários e as entradas dos cemitérios não são barradas por exaltados abutres aos buzinões.

É o que a Democracia tem de mais genuíno: a ubiquidade da anedota. O grotesco ao virar da esquina.

segunda-feira, abril 18, 2005

Dragoscopia

Deus existe. A minha filha, Mozart, J.S. Bach e Homero são prova eloquente disso.

domingo, abril 17, 2005

O Grande Mistério dos Blogues (2)

Sou um ígnaro destas novas tecnologias, um pedregulho completo! Vejam lá bem que eu estava convencido -convencidíssimo, temo reconhecê-lo-, que aqueles contadores com números -da Bravenet, Sitemeter e outros que tais-, que emolduram -e dignificam com aquele ar de cockpit de rally- os blogues, contabilizavam o número de visitas. E apenas isso. Pois, nada mais falso, dignos basbaques que me espiais desse lado do écran. Grosseiro equívoco da minha parte. Burrice digna de estátua, fiquei hoje a saber. Felizmente, ainda há gente caridosa. Gente solidária, gente que quando assiste ao seu semelhante a espalhar-se ao comprido, num estampanço monumental, ainda lhe estende a mão, ainda se compadece, em vez de desatar às gargalhadas alarves ou em soslaios malévolos de "é bem feita!".
Valeu-me uma alma dessas, anjo disfarçado de criatura, por certo. Senão, lá morreria eu nesta ignorância contundente e embarcaria para o outro mundo embalado na mais deprimente paspalhice. Revelou-me esse santo (pessoa experiente e vivida), que afinal, e ao contrário do que eu estupidamente supunha (nunca é demais sublinhá-lo), os tais contadores, severos e objectivos mostruários, não computam o número de visitas mas sim, isso sim, (como é que eu nunca tinha reparado?!) o coeficiente intelectual dos bloguistas!
É claro que esta verdade elementar e óbvia, para vocês não é novidade nenhuma. Mas para mim, simplório militante, confesso que me deixou um tanto ou quanto perplexo. O meu interlocutor, porém, exterminador implacável, acabou com todas e quaisquer dúvidas que ainda me infestassem o espírito.
Eis como o prodígio funciona: parece que os blogues, afinal, não são meras ciber-montras das telhas de cada um. Não; os blogues, em boa verdade, funcionam como uma espécie de dinamonóias -quer dizer, acumuladores de inteligência. Nem mais. Através dum complicado processo de osmose simpática -que ele me explicou muito bem, mas do qual, confesso, não entendi patavina-, o bloguista - o demiurgo blogopédico, melhor dizendo-, absorve parte da inteligência dos visitantes. Resumindo: os visitantes são essencialmente depositantes. Ao abrirem a página, estão a contribuir para o enriquecimento intelectual do mentor. O que me leva a crer que os visitantes são igualmente contribuintes. (Desconfio até que, no fundo, se trata dum fenómeno qualquer paranormal, psicovampirismo ciberfórico ou coisa que o valha, mas isso deixo ao vosso critério). O que é certo e seguro, estudos comprovam-no (a Universidade J. Hopkins não dorme), é que quanto mais visitas tem, mais inchado e arrotante o visitado se torna. E também mais guloso e ávido. Aquilo, nitidamente, transtorna-lhe o juízo -quer dizer, hipertrofia-lho, expande-lho a uma velocidade superior à do universo pós-BigBang. A hipótese do buraco negro intelectual, espécie de anti-matéria psíquica que absorve tudo quanto dele se aproxima (ocorreu-me agora a talhe de foice) também não é de menosprezar.
Mas este Big-Bang, Ping-pong ou Gang-bang espiritual, acarreta outras consequências não menos bizarras. A eclusão de castas é uma delas. Com os dados objectivos sobre a inteligência de cada qual que o intelectómetro, com rigor científico e precisão suiça, proporciona, era forçoso que tal acontecesse. Não sei qual a denominação correcta para esse tipo de conjuntos homonoéticos que funcionam à maneira das castas. Se fossem ovelhas, seriam rebanhos; se fossem vacas, seriam manadas, se fossem peixes, enfim, seriam cardumes. Mas assim, francamente, não sei como chamar a uma resma de génios ou de mentecaptos, conforme a circunstância. Como o fenómeno funciona um pouco à semelhança da "Hierarquia Celeste", do Pseudo-Dionísio, opto por denominá-los de "ordens" ou "hordas" (ordens, acima das 50.000 visitocalorias; "hordas, abaixo). Do que me puderam explicar, existem cinco ordens e outras tantas hordas. Cada ordem reune espécimes com um grau de iluminação semelhante. À medida que ascendem, vão cintilando cada vez mais e adquirindo o chamado "toque de Midas": tudo aquilo que escrevem transforma-se em ouro, ou, no mínimo, em pérola ou pedra preciosa. Da mesma forma, no plano inverso, cada horda parte dum abismo tenebroso e caótico, feito de alarvidades abomináveis e arrazoados ininteligíveis. Começam por sarrabiscar lixo, entulho heteróclito, e, aos poucos, imbuídos do poder do mata borrão a princípio, ou do psico-evax pantabsorvente à medida que o débito se avoluma, lá se vão penosamente elevando até ao grau zero da ciência (os almejados 50.000 visitocalorias, pois). Só então se descartam do "toque de Merda" e podem começar a aspirar ao "toque de Midas".
As hordas e as ordens têm títulos. Comecemos pelas hordas: até 5000 vc (visitocalorias)- répteis ante-diluvianos; entre 5000 vc e 10.000 vc: mamíferos vertebrados; dos 10.000 aos 20.000: trogloditas; entre os 20.000 e os 30.000: cro-magnons; dos 30.000 aos 50.000: neanderthais perplexus. Quanto às ordens: dos 50.000 aos 100.000: pensadores balbuciantes; entre os 100.000 e os 200.000: semi-portentos; dos 200.000 aos 300.000: portentos geniais; entre os 300.000 e os 400.000: génios consumados; acima dos 400.000: semi-deuses ou serafins eruditos.
Como a clarividência enciclopédica escorre, em cascatas de luz, lá do alto até cá abaixo, ao rés-do-chão - e, daí, clama em fulgores distantes às sombras e trevas das profundezas-, é de deixar qualquer um banzado. Um espectáculo deslumbrante, segundo me contaram.
Claro está que estas regras transcendentes, como tudo na vida, têm as suas excepções. A pátria tem obrigações hereditárias que não podem descurar-se. Nessa tradição, cumprem-se aqui etiquetas e protocolos inerentes a todo o processo civilizado; essas mesmas que o vulgo incréu tem por hábito menoscabar sob as depreciativas categorias de, "compadrio", "comadrio", "amiguismo" e quejandas manteiguices congéneres, louvadas sejam! Assim, por especial graça dum serafim erudito ou semi-deus encartado, directamente investido por Iáhvé Todo Poderoso e seu procurador na blogosfera, um réptil ante-diluviano pode ser rapidamente promovido a pensador-balbuciante. No mínimo. Basta a bênção do padrinho.
Entretanto, qualquer recurso a terminologia malévola e cínica, como "tiragem do blogue", "tabela de vendas da banha", "disco de ouro ou de platina", não são bem-vindas e só reflectem a cavernicolidade do autor. Ao contrário da cena musical, aqui, na blogosfera radiante, o fenómeno pimba não impera. Aqui, por obra e graça de Deus, e dos seus representantes ao mais alto nível, quantidade é qualidade. Nada de Emanuéis, nem Ágatas, nem Dinos, nem Paulos Marcos. Só nata, só fina flor, só einsteines ao despique. Aleluia!...
Tudo isto me foi explicado, e eu, não fosse encontrar-me no miserável e destituído nível em que me encontro, teria compreendido na perfeição. Assim, mergulhado em trevas, às voltas no entulho, este meu cérebro minúsculo, de tudo o que ouviu, não deve ter retirado proveito nenhum e só deve ter armado balbúrdias e confusões, um raio me parta! Se alguém tiver dúvida disso, basta conferir no meu intelectómetro. Uma vergonha!...



Pois, meus amigos, foi este um postal publicado nesta casa há quase um ano atrás. Serve esta reposição para comprovar que quem não anda a reboque de efemeridades e diários não os acompanha pelo ralo da conjuntura. Quer dizer, não perde actualidade. E serve igualmente como prelúdio a um postal que pretendo emitir brevemente, sobre temática similar, intitulado "Os Sacerdotes da Gleba".

Entretanto, se as contas me não falham, um ano e quase meio depois, já cheguei a "neanderthal perplexus". Bela merda!...

Um Tempo de Abortus


Às vezes, dá-me para a erudição. Uma erudição, naturalmente, alucinada. Pois bem, hoje deu-me. Vou explicar-vos a etimologia "shelltox-dragoniana" da palavra "aborto". As pessoas, sobretudo nos blogues (ou blogs), passam a vida a gargarejar substantivos que desconhecem.

Abra-se um qualquer dicionário e lá está: Aborto - do lat. abortu.
Desçamos ao latim.
Abortu é uma palavra formada a partir do prefixo ab mais a base ortus. Ora, ab, na qualidade de prefixo, indica privação, ausência. Ortu, por seu lado, designa "nascimento", "origem". Designa também o "nascer dos astros", sendo assim o contrário de occasus (o nosso ocaso).
Assim, tudo conjugado, ab-ortus traduz-se por sem-nascimento, que não nasce. Ou crepuscular.
Mas aprofundemos. Mergulhemos ainda mais fundo.
Ortus devém da raíz orior, o verbo latino que designa levantar-se, elevar-se, nascer (homens, plantas ou animais), provir.
Curiosamente, também no grego, a língua mãe da Europa e da nossa civilização, orthos (pena que aqui não dê para grafar no alfabeto original) também significa levantado, recto, justo.
Entretanto, orion (de oros) designa limite, fronteira; e também -(oros)- colina, altura, líquido seminal, meta, termo, regra, definição.
Notem bem: não vim -aqui e agora - tomar qualquer posição sobre um tema que tanto parece excitar uns e outros. Limito-me a seguir o rasto das palavras. Prefiro acreditar nelas e no sulco que deixam, que nos saltimbancos e charlatões que as garganteiam. Na consciência de cada qual não me meto. Do que sei, decifro-o nas palavras. Dizem-me que este nosso tempo é um tempo de abortos. Tal qual a palavra revela: um tempo de astros sem altura, sem meta, sem regra nem definição. E sem testículos. Em que a génese é cada vez mais mero acto de regurgitamento e cada vez menos fruto de criação.
Um tempo de ocaso. Um tempo de morte. Bem às portas, agora sim, da treva.

sexta-feira, abril 15, 2005

Doxocracia e Doxofilia

O regime opinioso, mais que intempestivo, é mesmo de diluviana intempérie: de todos os pontos e quadrantes chovem grossas bátegas opinativas, abatem-se conjecturas e palpites. Opinar tornou-se, inclusivé, profissão importantíssima, sucedâneo dos sábios do antanho.
Escrita, falada, tele ou radiodifundida, ao telefone ou pintalgada em cartazes, nas paredes como nos urinóis, a opinião governa o mundo. Uma doxocracia avassaladora! E mais que preocupações com uma ortodoxia ou heterodoxia dominantes, vigora uma demodoxia, ou seja, o circus maximus da Opinião Pública. Onde mesmo os mega-poderosos se submetem aos caprichos da turba. Porque, ao contrário do monismo da Verdade ou da profundidade da Sabedoria, a opinião é volúvel, volátil, saltitante, aérea, consequência imprevisível do cruzamento fortuito entre o colibri e a rameira. Acompanha e promove a agitação febril que tanto apraz e convém à humanidade blobglob. É o coroamento das correrias através da efervescência. As mentes fermentam e fer-mentem. Qual sacudir canino após o banho, salpicam em todas as direcções. Encharcam. Turba, já desde o latim, tanto quanto agitação, quer dizer ruído, algazarra, gritaria. Ora, é precisamente isso que mede, doravante, a eficácia da opinião: a quantidade e o volume da algazarra, do chinfrim que produz ou promove. A doxocracia é também turbacracia: turbilhão de microegoísmos, nanoideias e miniconceitos, amplificados, guinchados electricamente até ao ensurdecimento. Transmitidos e vulgatizados até ao enjoo.
A idade da turba é igualmente a idade do turbo: a opinião é veloz, fugaz, instantânea. Nada semelhante à verdade ou à sabedoria, tartarugas lentas e anquilosadas que nunca saem do mesmo sítio. A opinião é a lebre que nunca dorme; é a esperteza a rir da inteligência; é a máquina formidável que passa célere e deixa o peão petrificado, enlameado e ultrapassado na esquina da civilização.
Pletórica de vantagens inauditas, a opinião não afirma, sugere; não nega, desvaloriza; não analisa, conversa; não reflecte, atropela. À semelhança do seu portador, não tem tempo para mais que esfregar-se felinamente nos assuntos.
Etimologicamente poderá não o ser, mas de facto a opinião é o ob-pino, quer dizer: o estar em cima, estar por cima, estar no alto, no topo, no cume. O opinador está por cima de tudo, em cima de todo e qualquer acontecimento ou assunto. A realidade passa desenfreada, feita cavalgadura brava a espinotear em rodeo, mas ele é jockey magnífico, carraça excelente e não a larga, aninha-se aracnídeo nos seus solavancos e escoicinhaduras. Não só a monta: cheira-a, respira-a, desfila colado nela. O facto retumbante de estar por cima de tudo, permite-lhe debruçar-se sobre tudo. Limites ou barreiras não o afectam. Vergonha ou pudor são requintes que não só desconhece, como também despreza. Na verdade, à sua medida canina e mesquinha, copia e macaqueia Deus. Replica o Verbo através da ventosidade oradora - mais que iluminante - iluminada. Só que, ao contrário da criação divina, que partia de uma ordem e se constituía numa ordenação, o verbo opinante não ordena, comenta. Ou ilustra, legenda, actualiza. As coisas do mundo não o afectam, nunca são suas. São como autocarros sujos que não frequenta. Não entra para dentro deles. Pois o seu comentário nunca é de dentro, mas de cima. Sobrevoa supersónico. Quando se digna poisar, fá-lo com a distância própria das precipitações celestes: a leveza do floco de neve que desce desde o alto, vagaroso, numa catalepsia purificadora, até cobrir toda a superfície sob um manto de alvura imaculada.
No Doxa-World, dos media em permanente revolução no chiqueiro noticioso, o comentário refaz o mundo: do espanto, da inquietação, da tragédia, da perplexidade. Presta-lhe os primeiros socorros, coloca-o na posição lateral de segurança, pronto a ser evacuado. É uma respiração boca a boca com o momento ou com a notícia. Nesse mundo clinicamente refeito, a expedita demiurgia opinadora configura-se como retórica transcendente, inefável, ou melhor dizendo, estrepitante pirotecnia celeste. Não faz, recupera. E, no entretanto, distrai, convence (nomeadamente o paciente, de que tudo não passa de imaginação sua). É uma cura psicológica - mais que multiusos - panta-utilizações. Uma espécie de banha-da-cobra espiritual. Através dela, o opinorreico comentarista, ilustre ruminante, fenomenal mastigador, sujeita o mundo à reciclagem permanente: Após uma breve passagem pelo seu filtro mágico, o velho devém novo, o obscuro torna-se claro, o espantoso ingressa na banalidade quotidiana. Nessa medida, ele, o comentarista, é uma espécie de explicador universal, implacável exterminador de dúvidas e triturador de incertezas. Talvez Deus tenha criado o mundo, mas o opinador agora comenta-o -quer dizer, acompanha-o clinicamente.
No fundo, bem no fundo, é a prova viva de que, se calhar, Deus, no momento inaugural, não disse "fiat lux"... Disse:" foda-se! "
Um mundo com coisas destas não pode ser fruto da refulgente Palavra; só pode ser extracto de um bem mais cavernoso Palavrão!...

quarta-feira, abril 13, 2005

Do Homo-Gastador ao Homo-Tampax

Isto, por aqui, meus amigos, vai endurecer. Depois do desmantelamento ao domicílio, passamos ao bombardeamento pesado. Munições que fui coleccionando ao longo dos anos...


O Gastador espelha-se nas coisas, remira-se coquetemente nelas, cobre-se e descobre-se com elas, esconde-se e exibe-se; a limite: promove-se, vende-se. Transita num permanente mercado, apregoa-se, oferece-se. Esta vaidade inesgotável, mais o cortejo de lambisgóias anexas - a basófia, a jactância, a ostentação, a imodéstia, o espalhafato e a parlapatice -, revelam, por um lado, a concretização da profecia nietzschiana da "feminilização" do Homem e, por outro, a vacuidade intrínseca que o ocupa. É um homem vão e em vão, que não se realiza nem concretiza: apenas se dispersa e desagrega, repasto de incontinência avassaladora. Um homem fragmentado, esquizótico, psicopatético, que não pode perder tempo, precisamente porque está perdido no tempo. À deriva de apetites primários, alarves, venais, patinando na eterna selvajaria mascarada e em balelas frenéticas de pseudo-progresso e evolução. Atascado até à medula na sua bestialidade não resolvida ou sequer atenuada. Embrutecido até à insensibilidade por séculos e séculos de onanismo mental desgovernado. Uma alimária pedante, sem limites, nem fronteiras, nem contornos visíveis duma qualquer identidade ou lugar coerente no Universo. Uma cacopatia inexplicável do Cosmos. Um absurdo e autofágico predador, molusco vagante, empedernido e obsidiado, das cavernuras dos infernos.
Este Adão Furioso entrega-se agora abertamente ao ajuste de contas: a sua Perfectofobia edenoclasta vai, enfim, resolver-se. Deus, a Alma, o Destino, a Utopia, a Perfeição, foram apenas momentos simbólicos desse Velho Tempo que compete arrasar, até que não reste poeira de significância. Por isso, aquilo que o Consumidor/gastador - na sua epilepsia recorrente, espumante e renovadora-, verdadeiramente anseia e perpreta é a morte do Passado; a erradicação das raízes, o parricídio das Origens. A sua, é uma fúria novo-rica, presunçosa, arrogante. O Passado é o supremo lixo que importa varrer para debaixo do tapete; os antepassados são porcaria inútil que convém despejar da janela, à noite, sem que ninguém veja; as tradições não passam de abcessos chagosos que convém extirpar ou espremer... O Gastador-Consumidor nutre um misto de vergonha e ódio pelo Passado. Reinventa-se e redescobre-se a cada instante, fruto de geração espontânea, moderna, mágica. Concebe-se auto-engendrado em laboratório, na proveta da sua imaginação e por inseminação umbilical científica.
Só o presente lhe interessa. O Tempo eterno presente, perpétua oferta. O exibicionismo da existência é, essencialmente, apresentação, espectáculo, feira. Os dias são uma sucessão de feiras. O que não se exibe não existe; aquilo que não participa do espectáculo do presente, do fogo de artifício da notícia, não acontece. A Memória, amázia do Passado, foi banida. O que não participa do carrocel do imediato é atirado para a lixeira do esquecimento. Se não rebola na explosão do momento, não interessa. O Mundo inteiro chocalha, vibra, deflagra e assobia, num interminável Big-Bang. O Velho Deus preguiçoso, que trabalhava seis dias e descansava a eternidade, é, assim, vantajosamente substituído por um Big-Bang que nunca descansa, nunca duvida, nunca se arrepende. O universo é sempre novo, e a chusma humana -por simpatia e, à boleia, a cavalo nele - também; porque nunca acaba de nascer, de brotar, de se expandir e espumar miraculosamente a partir da cloaca negra e desconforme da incógnita sideral. E se o Mundo é um Big-Bang, o homem, gastador-consumidor encartado, tem que ser também um big-bang, um ping-pong, um zig-zag. Ribomba e silva em inesgotável expansão; jorra de si próprio e para si próprio; gira, balanceia, oscila, zune, revoluciona e arfa, qual Último Motor Imóvel rectificado e turbo-descomprimido. Porque, na verdade, e desde sempre, o Homem não parece ter sido muito mais que o macaco de imitação ao espelho: O espelho da sua própria imaginação.

Entretanto, as mulheres, ocupando o vazio limítrofe, masculinizam-se. Cada vez mais inexoráveis e calculistas, entregam-se, com volúpia, ao auto-erotismo do sucesso e da carreira; descobrem cada vez mais o deleite de falos sucedâneos, filões inesgotáveis, semper-erectus, e de coitos psicológicos. Conquista fundamental dos novos tempos, a mulher livre, emancipada, executiva, super-activa e ocupada não hesita e funciona movida a rancores e vinganças. Também aqui impera a imitação, a fotografia ao negativo: A Mulher macaco do Homem (ou mais exactamente, duma determinada ficção de Homem).
Por seu lado, os "homens", em crescente descompensação maternal, oscilam entre o bebé-chorão retardado, o prestador de serviços no lar ou e efeminado comodista e desterritorializado.
Não espanta, pois, que as relações amorosas, de parte a parte, se resumam a um mero usar e deitar fora. O outro, cada vez mais indiferenciado, é uma espécie de preservativo que, utilizado uma vez, utilizado para sempre. Lixo com ele! Esquecimento!... Temos assim, dada a sua postura intransigente, liderante e castigadora, a Mulher-Durex; como do outro lado, pelo seu papel serviçal, higiénico e asséptico, amigo e suavizador dos desportos e aventuras, o Homem-Tampax.
Mas desenganem-se os optimistas: a relação macho/fémea apresenta muitas mais peculiaridades modernas. Cito apenas uma, para terminar...
Em vez da tirania, passou-se à democracia popular. A família devém socialismo científico com bizarrias unilaterais. Divisão rigorosa de tarefas e comunidade de esforços. Não faz mais sentido, sequer, falar em família: agora é o "casal", ou "trio", ou "grupo". As decisões são conjuntas, em plenário. Mesmo a gravidez é conjunta: ambos correm a parir, um para se exibir, o outro para mirar.
Enfim, é toda uma puta duma gente que, sinceramente: já mete nojo.

terça-feira, abril 12, 2005

Os sacanas dos "Anónimos"

O João Miranda, um rapaz turbo-sapiente que escreve ali para as bandas dos meus arqui-inimigos "Blasfemos", entretinha-se em mais um daqueles guisados retóricos que se lhe reconhecem e de cuja arte culinária parece deter o segredo e o tempero. A páginas tantas do refugado, eis senão quando ele, com aleives de Dartanhão, saca dum pujante legume, que, após devastar de cutiladas solertes, envia sem dó nem piedade ao borborejante tacho e à não menos fumegante mistela. A infausta hortaliça, repolho inequivocamente argumentário, frigiu de dor e, em desespero, abraçou a salsa. O seu derradeiro e heróico frémito foi algo como isto:
« Portanto, um liberal que vive do estado não está em contradição com a teoria liberal
Ao escutar tão musical fervura, não pude deixar de sorrir para com os meus botões: "ora aqui está uma caldeirada digna dum Panoramix!... Se isto não é a poção mágica..."

Mas o melhor, verdadeira iguaria, estava ainda para vir. Era fatal, aliás, que viesse. E veio. Na caixa de comentários, pela voz e pena dum "anónimo". Lá por volta das 12.46...
Perguntou ele, barrado de pertinência, ao nosso emérito "chef": «Que exemplos práticos de liberalismo conhece, para além do tráfico de droga, de armas e da prostituição

É caso para dizer, ó João: depois de Vocelência nos ter criado água na boca, veio o sacana do "anónimo" e tirou-nos as palavras dela.

Ele andam para aí gajos...E pensam, os filhos da mãe. É uma chatice!...

E já agora, ó Janeca, luminária excelentíssima, porque é que você não faz o mesmo? E começa a pensar mais e a bolsar menos.

Aforimos exemplares

"Proust explica demasiado para meu gosto: trezentas páginas para me exlicar que Tutur enraba Tatave, é demasiado."

- Louis-Ferdinand Céline

sábado, abril 02, 2005

O Passado recente

Torna-se cada vez mais patente a alternativa diabólica do antigo regime: Era termos colónias ou tornar-mo-nos uma.

Com respeito a isto, nestes nossos dias, há toda uma estupidez e ignorância que beatificam.

domingo, março 27, 2005

O MFB (Manifesto do Fundamentalismo Benfiquista)

Aproveito para recordar um panfleto miserável, com que duas grandessíssimas bestas -o Caguinchas e o seu caquético mentor, o Dinossauro - tiveram o desplante de me brindar. Afixaram-no à entrada da tasca, aliás, ciber-tasca. Rezava o seguinte (pausa para vomitar)...

MANIFESTO DO FUNDAMENTALISMO BENFIQUISTA

Informam-se todos os genuínos Benfiquistas, que a Lista de apoio a Eusébio para a presidência do nosso Glorioso, está em marcha! As nossas promessas, que tencionamos cumprir, são:

1. Terraplanagem do novo estádio e reconstrução do antigo, o verdadeiro, o Glorioso, o infernal, o maior da Europa!
2. Utilização de todos estes jovens palradores, que se dizem muito Benfiquistas, mas apenas são anti-Porto, nas obras de contrução: como serventes, trolhas e quejandos, à boa maneira antiga, do primeiro estádio (das Amoreiras, se bem me lembro, mas também a minha memória já não é o que era...) Poderemos assim testar o seu "amor ao clube"...Um estádio para Benfiquistas erigido por Benfiquistas!...
3. Construção da Estátua do nosso Pantera Negra, dez vezes maior, em duplicado, mas agora dentro do estádio, detrás de cada baliza, para apavorar as equipas visitantes!...
4. Extinção da SAD. Conversão do clube também em partido político, com assento na Assembleia da República. Conquistaremos a Maioria Absoluta e lançaremos novas leis, totalmente democráticas, passando o nosso interesse clubista a identificar-se com o "interesse nacional".
5. Despedimento dos actuais jogadores (salve 2 ou três excepções) bem como da equipa técnica vergonhosamente entregue a um italiano! Por decreto, requisitaremos os melhores jogadores a jogar em Portugal, (ou no estrangeiro, desde que cidadãos nacionais), passando a equipa do Benfica a ser também a Selecção Nacional!
6. Por decreto e revisão constitucional, o Benfica passará a ser igualmente considerado Campeão Honorário, podendo todas as outras equipas, dentro dos moldes convenientes, competir para o segundo lugar!
7. Proibição rigorosa de jogadores e treinadores estrangeiros na nossa equipa! (Muito menos castelhanos!!!) Aliás, a nossa equipa dispensará treinador, pois será uma máquina letal perfeitamente oleada.
8. Adjudicação de receitas do Orcamento de Estado para o engrandecimento e manutenção grandiosa do nosso clube! As percentagens dos Negócios Estrangeiros, da Defesa e da Educação serão suficientes...Senão, recorra-se também às da saúde! Porque a Defesa, a representação externa, a educação e a sanidade do nosso povo dependem das vitórias e da saúde do nosso Glorioso!
9. Mobilização das massas para um apoio esmagador, em qualquer parte do globo, de Lisboa à Antártida, da nossa equipa!
10. Inscrição compulsiva (se necessário) de todos os cidadãos como sócios da nossa colectividade! Cartão de sócio passa a servir também como Bilhete de Identidade Nacional e Passaporte. Registo obrigatório à nascença!
11. Inerentemente, tanto a bandeira como o hino também deverão ser alterados: a bandeira passará a ser vermelha e branca; e o hino nacional será o Hino do Benfica!...
12. As inscrições obrigatórias no nosso clube serão retroactivas, abrangendo até ao Rei Fundador e respectiva mãe.

13. Igualmente, a Igreja Católica deve abjurar do seu arreigado erro: a Santíssima Trindade não é Una em Deus, mas sim no Benfica, sublime colectividade de que tanto o Pai como o Filho como o Espírito Santo (já não falando na Nossa Senhora e nos santos todos) são fervorosos adeptos.
14. Encontrada a verdadeira Fé, deverão todos os desempregados e ociosos reembarcar em caravelas de modo a ir expandi-la pelo mundo. Também podem ir de autocarro, se enjoarem em alto-mar, ou mesmo nos cacilheiros.
15. Todos os jogadores do nosso clube, terminada a sua gloriosa carreira futebolística, serão beatificados; e canonizados, à hora da morte. Sua Eminência, o Santo Padre declarará o nosso estádio como primeiro Santuário da Cristandade.
16. O árbitro que apitar uma grande-penalidade contra o nosso clube, será acusado de heresia grosseira, conspiração demoníaca, e lapidado na praça pública.
17. Para qualquer jogo do Benfica, nas categorias de infantis, iniciados e seniores, haverá tolerância de ponto; sempre que jogar a equipa principal será declarado feriado nacional.
18. O 10 de Junho passará a ser Dia do Benfica e dos benfiquistas, que é o mesmo que dizer "Dia de Portugal", só que com mais rigor.
19. No dia 25 de Dezembro celebrar-se-á a inscrição, por S. José, do Menino Jesus no Benfica. O pai Natal, esse, dispensa comentários.

Benfiquista verdadeiro, contamos contigo!! Já basta de galinhas e galinhices: Queremos a nossa águia, autêntica, de volta!!!
PARTICIPA!!!...

Dinossauro & Caguinhas

PS: Numa próxima oportunidade, quando melhorar da náusea e terminar os vómitos, tenciono responder a estes cabrões!...

quinta-feira, março 24, 2005

O Retrato duma Possessão

Quando falamos em possessão referimos um determinado espírito que se apropria dum determinado invólucro, que toma de assalto e manipula uma embalagem que não era, inicial e naturalmente, a sua.
Ora bem, nem é preciso estar muito atento, ou dispor duma inteligência fulgurante, para perceber que o capitalismo absorveu e incorporou o invólucro do comunismo. Fanou-lhe o veículo e faz-se transportar nele com o maior dos descaramentos e petulâncias.
Assim, em vez da globalização da Revolução, pormenor essencial da receita marxista, temos a Globalização do Mercado. A Internacional Socialista perdeu claramente para a Internacional Capitalista -ou melhor dizendo, foi absorvida, digerida à maneira da aranha-lobo (injectada, liquefeita e sugada até à medula).
Prova eloquente disso é a novel e peregrina libertação dos "povos oprimidos" por esse mundo fora. É uma tarefa benemérita, inadiável, doravante a cargo da Internacional Capitalista. Como, de resto, pode constatar-se no Iraque resgatado às garras da tirania feroz.
Também o hábito da propaganda insidiosa e das quintas colunas infiltradas, -apologistas a soldo, formiguinhas de sapa que minam e sabotam em prol da nobre causa-, não foi descurado. O campo de recrutamento manteve-se: jardins-escola universitários ou pré-universitários, plasticina cerebral em estado fértil e pronta para ser moldada. Desta puericultura ideológica acelerada resulta uma tropa de choque semi-imberbe, em permanente e sobre-excitado débito de asneira, compensando o gritante e gigante absurdo desta com o fervor imarcescível da convicção fanatizada e o frenesim do clamor ininterrupto. Mescla de pornochachada e trovoada angélica, a mensagem reverbera e afunila. Ou se está com eles, ou contra eles; ou se reconhece a via aberta para o Céu, ou se é despenhado sem apelo pelo alçapão dos infernos. Tal qual os catequistas das Rússias, Chinas e Albânias de anteontem.
De igual modo, se os comunistas acreditavam ser os destinatários da História, estes, agora, apregoam que são o Fim. O encerrar da História, em ambos os casos, equivale apenas ao acabar da discussão. É assim e não se discute. Com a História, encerram-se alternativas e opções. É comer e calar. Ou ser calado. A única variante doravante aceitável reside na velocidade da metamorfose: o encasulamento pode ser mais rápido ou mais lento. Não pode é deixar de ser.
Finalmente, é a própria retórica da esquerda revolucionária que não escapa e é, também ela, absorvida. A vanguarda capitalista tonou a seu cargo a defesa dos pobres e desfavorecidos contra os aventureirismos utópicos. Impinge, com cinismo de aspersão, que criar ricos é criar riqueza. É, de facto. É como melhorar o sangue através da amamentação de vampiros e sanguessugas.

Do Calvário, da Vida e dos Homens

Cada vez me convenço mais que a Vida de Cristo constitui o paradigma profético da nossa própria vida, de homens...
Num dia, fazemos milagres, caminhamos sobre as águas, convidam-nos para almoços e jantares, acorrem basbaques de todos os lados para nos verem e mararavilhar-se. No outro, tudo se altera e distorce: como num caleidoscópio infernal, damos connosco de madeiro às costas, arquejando ao fundo duma encosta íngreme, ninguém nos conhece, todos nos cospem, e flagelam-nos por ali acima, até ao cume sangrento onde, por vil embirração, cismam de nos crucificar.
Meio estarrecidos, perplexos, perscrutamos o chão que parece agora fugir-nos e conspirar contra nós. Afinal, o mel foi só para afinar o paladar para o sabor do fel?!...
Meio atordoados, interrogamos, com desespero, o céu: "Vou ter que beber este cálice?..."
E o céu, dum azul imenso, misterioso, profundo, responde:
-"Vais!..."
E é nesta altura, para lá do terror e da esperança, que o homem, se tem um dragão dentro dele, contém as lágrimas, esquece as feridas, fita com desprezo a maralha e clama:
"Então brindemos: À Nossa!..."
À nossa: à indiferença do Céu e à dor na Terra.

quarta-feira, março 23, 2005

Deixem lá as patas (a esquerda e a direita); falemos antes do que tem dentro da cornadura!...

Como há muito tempo não disparo em "Celinada", aí vai. Refastelem-se!...
Fica, quanto mais não seja, a propósito de "modernices".

«...A máquina é o que há de mais infecto! Derrota suprema! Descaramento! Balela! Nunca a máquina mais pintada libertou ninguém! Embrutece mais cruelmente o homem e nada mais!... Eu fui médico na Ford, sei do que falo. Os Fords são todos parecidos, soviéticos ou não!... Descansar sobre a máquina é mais uma desculpa para continuar nas velhacarias. É fugir ao verdadeiro problema, o único, o íntimo, o supremo, o que está no fundo de todo o homenzinho, na carninha, na cachimónia dele e não noutro sítio qualquer!... O verdadeiro desconhecido de todas as sociedades possíveis ou impossíveis...Disto é que ninguém fala, não é "político"!... É o tabu colossal!... A questão "última" proibida! Mas, em pé, de gatas, deitado, do avesso, o Homem nunca teve, no ar ou na terra, senão um só tirano: ele próprio!... Nunca terá outros... Se calhar é uma pena aliás... Talvez se domesticasse, tornando-se enfim social.
Há séculos que lhe dão graxa, que lhe escondem o verdadeiro problema a ver se logo de seguida o põem a votar... Desde que morreram as religiões, passou ele a ser incensado, empanturrado a todo o instante de pachochadas! É ele a única Igreja! Deixou forçosamente de ver claro! É patego! Acredita em tudo o que lhe impingem! Então, duas raças tão distintas? Os patrões? Os operários? Cem por cento artificial! Uma questão de sorte e de heranças! Tratem de as abolir! Verão que eram tais e quais... Digo tais e quais e só isso... Hão-de ver que são...
A política corrompeu ainda mais profundamente o Homem nestes últimos três séculos do que durante toda a Pré-história. Estávamos na Idade Média mais perto de nos unir do que hoje... estava a tomar forma um espírito comum. A intrujice estava mais bem "montada em poesia", mais íntima. Já se acabou. »

- Céline, "Mea Culpa"

terça-feira, março 22, 2005

Força, Júlio!...

Soube agora pelo Dodo, no meio dum delirante panegírico em que este passava do exagero à desmesura e dissertava a meu respeito o que Maomé não disse do toucinho. Mas não passem cartão às pilhérias daquele tratante e concentrem-se no essencial: parece que o Júlio –o Machado Vaz-, tem um blogue. Parece não, tem mesmo. E chama-se "Morcon". Pelo andar dos comentários, aposto que vai destronar o outro morcão, o "Abrupto" e fazer enverdinhar e arfar de raiva despeitada, aquel’outros betinhos do "Barbabé". É uma bomba na blogosfera, meus amigos, uma pirotecnia inaudita. Nasceu uma estrela, um novo sol. As pessoas, entre estupefactas e maravilhadas, interrogam-se: "Será possível?"
Julgo que sim. Agora que o Tiago Monteiro alcançou a Fórmula Um, era inevitável que o Júlio Machado amarinhasse aos blogues.
Constou-me mesmo que amarinhou nestes depois de ter amarinhado às paredes. Nem mais, acreditem: Abriu o blogue (ou blog; ou divã; ou maple) por pura vingança. Contra quê? Garantiram-mo, de fonte limpa: Por não o terem convidado para a "Quinta das Celebridades II".
Que injustiça! Que inominável filha da putice! Júlio, bom homem, fique sabendo: tem toda a minha solidariedade. Não se deixe abater. Acredite. Nós, nós todos, acreditamos em si. Sabemos perfeitamente que o seu lugar de direito, o pedestal –qual pedestal, o trono! - que lhe compete, é lá. Lá, no prime-time, no top das audiências, primus inter pares... No meio da constelação.
O Pavaroti, aquele asno iletrado, é um usurpador!... A César o que é de César, e ao Júlio o que é de Júlio!...

PS: E tu, ó Dodo, vê lá se queres levar com uma cadeira nos...frontespícios?! Apregoas-me como o melhor do mundo para te auto-promoveres, ou julgas que sou parvo?!... Como escreves melhor que eu, se eu sou o maior cá de baixo, tu és quem? - Deus?...

Antes que me esqueça...

No Atmosfera, um blogue decente e equilibrado, recomendam este estabelecimento. Na categoria de "o mais desconcertante e alucinado".
É, estou em crer, o juízo mais justo que já teceram a meu respeito.

segunda-feira, março 21, 2005

A Imaculada Concepção

Andam para aí a dizer que a "direita" precisa de ser refundada. Ou fundada. Ou afundada. Ou o diabo que os carregue!...Acho graça. Até porque algumas dessas vozes sabidas, de imaculados apóstolos peregrinos, de novas sibilas recauchutadas, pertencem a escroquezinhos de trazer por casa, que não se têm dado nada mal com o (des)governo das esquerdas, dos centro-esquerdas, das... aliás, o desgoverno seja de quem for, que é preciso é estar de mancebia com quem, de momento, controla a torneira do erário. Pelo menos um, toda a gente sabe, verdadeiro chulo da pátria, vive de biscates e expedientes (a que com imensa piada chama lobbys), à boleia do orçamento, dos amigalhaços e de subsídios para banha da cobra, ou sejam, projectos imaginários além-mar. Estranhamente, o Além-Mar desta gentinha coincide, a 99%, com o Aquém-Bolso.
Há um outro, riamo-nos, (não por acaso) acólito do primeiro que, em boa orquestração, também bota discurso. Diz ele, trocando por miúdos: "ser de direita, na verdade, é ser "Bem". Ouve lá, ó boa alminha, então eu que sou mau, ruim dos quatro costados, que ardo em desejos de tiranizar e imperalizar –espatifando e vandalizando pelo meio, que é o que dá mais gozo -, não posso ser de direita? Expulsas-me? Despejas-me? Atiras-me novamente para fora do paraíso? Empurras-me pró stalinismo, ó sapiência?! Eu, só porque não sou junkie do cifrão, nem me babo porcinamente diante do dinheiro, já não caibo na confraria?... É forçoso que seja um coninhas, um queque, um papa-hóstias, um betinho de juba tratada e gravatinha a condizer, uma lombrigazinha afectada convencida que recebeu a graça divina por ejaculação paterna, desde espermatozoidinho, para ter direito a ingresso?!... Com essa é que tu me lixaste, ó caro amigo! Afinal, estamos a falar dum campo ideológico –axiológico, no melhor dos casos- ou dum cocktail de embaixada? Deve ser por isso que, em teu sabão entender, a direita não existe. Deves, aliás, ter toda a razão: com porteiros desse vosso calibre, só pode mesmo ser discoteca ou clube de strip do jet-coiso. Isso, na aparência. Porque na essência, a fazer fé no perfume dos guarda-portões e na qualidade das artistas, não excede em nada a casa de passe. E rasca.

Agora, para completar o ramalhete –isto é, o inefável leque de opiniões destes portentosos think tanks da direita lights, TT (Todo o Terreno ou Tó-Tó, como preferirem), ou ainda TB (Toda-Bem, prós amigos; Tati-Bitate, prós outros) -, só falta escutar, do alto da sua ubíqua transcendência, a santa padroeira do bando. Sim, só falta mesmo ouvir o que pensa a arguta Cinha Jardim. Estamos todos curiosos das tendências, penteados e fatiotas para a próxima estação. Afinal, não sendo uma forma de pensar, querendo nós acreditar que é algo mais que uma técnica sofisticada de deitar a unha, essa tal "direita" de Loja de Conveniência, há-de ser, pelo menos uma forma de vestir, calçar, desfilar o presunto e domar a madeixa, não?...

Entretanto, se, apesar de tudo, ainda querem a minha opinião (o que eu duvido muito), até vos diria que a direita não precisa de ser refundada coisa nenhuma. Necessita, isso sim, e urgentemente, é de ser desparasitada, desinfectada, desratizada. No mínimo, lavada de alto a baixo, à mangueirada, e de alta pressão. Aliás, a direita, a esquerda e o país inteiro. Mas como, por cá, higiene é sinónimo de utopia, não se fala mais nisso.

domingo, março 20, 2005

My Fair Lady


Hoje é dia de faxina aqui no blogue. Quer isto dizer que me dedico ao assédio sexual sobre a criada. Mas não digam nada à senhora Dragão.
Entretanto, nada de se porem para aí com malícias a imaginarem cenários alucinados, perseguições tresloucadas - ela a cavalo no aspirador e eu à desfilada no carrinho-bar - como nos filmes americanos. Ou ela ainda, acrescente-se, já encurralada, desfraldada, suplicante; e eu, quase a babar-me, de mastro em riste, com bigode à Roflin, num esgar feroz de pirata disposto às piores sevícias (sendo que, neste particular caso, as piores coincidem com as melhores). Não; isso foi antes.
Agora já vamos naquela fase em que eu, com a distinta erudição que todo o mundo me reconhece, lhe dou aulas –primeiro teóricas e depois práticas ( como, de resto, recomenda a boa pedagogia) -, de Iniciação ao Latim. Exactamente: latim. Começando pela palavra "felatio"...
E com que facilidade esta boa alma e melhor nalguedo aprende!...É a alegria de qualquer professor que se preze. Um enlevo! Direi mais: o desempeno e o timbre mavioso com que na sua boca trina o verbo defunto, a vivacidade com que ela o palataliza e ressuscita, quase nos transporta à crença pia na predestinação. Quem fala no Latim como uma língua morta não sabe o que diz, nem, seguramente, experimentou a língua hábil desta voluntariosa rapariga. A língua e, naturalmente, os lábios, as amígdalas, o forro aveludado das bochechas, enfim: todo o aparelho aurifalante.
Já agora, enquanto ela, mocetona gulosa e desembaraçada, se exercita e refastela, aproveito para ir actualizando a coluna dos "linkes".
(Vou ter que ser é rápido: pela forma sôfrega e endemoninhada como esta mariola aspira as vogais e haure, quais rebuçados suculentos, as consoantes, não sei por quanto mais tempo poderei responder pelos meus actos. Um dragão, apesar de pau feito –e como essa mesma propriedade sugere-, não é de ferro.)

-"Atenção aos dentes, sua bandida!...Não mutiles a sílaba tónica!..."

sexta-feira, março 18, 2005

O Neo-Coperniquismo Somali


Os deputados somalis que, iluminados por alguma revelação fulgurante, certamente inadiável e a todos os títulos meritória, desataram, furiosamente, à cadeirada uns nos outros, deram uma grande lição ao mundo: Mostraram, sem margem para quaisquer dúvidas, a fundamental e edificante utilidade dum assento parlamentar. Por uma vez, havemos de concordar, agiram, aqueles eleitos, em digna –direi mais: digníssima!- representação dos eleitores.
De facto, dar com a democratabilíssima cadeira nos cornos do respectivo deputado é um desejo comum à generalidade dos cidadãos minimamente esclarecidos. Não me ocorre mesmo –e a vós, estou seguro, certamente também não- destino mais honroso (e urgente) para tão insigne peça de mobiliário.
Pena que por cá, nesta república à beira mar plantada, avessa contumaz ao progresso e aos bons exemplos, as manobráveis cadeiras se vejam substituídas por mastodônticas bancadas, gigantescos paus com cabeleiras em cima. Concordaremos: Levantar um colosso daqueles para, com ele e em democrática virtude, raquetar a cornupetólio dum qualquer daqueles mandatados da nação, mais que a inteligência dum somali, requereria a força dum Hércules.
Não obstante, não me calarei: Agora que os abençoados somalis descobriram, finalmente, para o que é que serve um lugar de deputado na assembleia, exijo que o deputado que se arvora em meu representante me represente. Ou seja, arreie num vizinho qualquer como lhe compete. E não me venha com desculpas que lhe falta o guindaste. Se Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé. Quer dizer, se não consegue levantar a bancada para dar com ela nos cornos do outro, pegue nos cornos do outro e dê com eles na bancada.
Nós, portugueses, somos um povo desenrascado. Portanto, eles –eles todos, o meu representante e os vossos – que se desenrasquem. A democracia é que não pode ficar eternamente adiada. Agora –Deus te abençoe, Somália!- não podem mais argumentar que não sabem o que raio ali estão a fazer, nem para que bodega serve o ror de dinheiro que o erário público delapida com eles.
Foda-se: representem-nos!!...

PS: Até porque dadas as trunfas –as choupanas, as medas de palha, melhor dizendo -, com que alguns ornamentam o cocoruto, é de temer que nem a raquetada sintam, ou a bastonada os sensibilize, tal o airbag cabeludo com que se couraçam. A esses, pressinto-o bem, talvez conviesse passar-lhes a máquina zero antes. E sim, escusam de me perguntar, que eu também não sei: Desconheço de que Parnaso jorrante me afluem estas ideias resplandecentes.

terça-feira, março 15, 2005

A Patranha

Uma das aldrabices com imensa piada que para aí se impingem avulso, é aquela patranha onde reza assim:
“Viver dependente dos pais é a suprema vergonha, o vexame marechal; em contrapartida, viver dependente do banco, além de volúpia incomparável, constitui-se como glorificação em vida."
Esta deslumbrante lógica tem sido bombeada sem dó pelas tenras mioleiras dos jovens em idade núbil.
O resultado são hordas espavoridas de pré-adultos em debandada a qualquer preço do espaço familiar e em demanda de ninhos autónomos, que uma corja de usurários mancomunados com uma seita de trolhas desinsofridos, muito conveniente e providencialmente, lhes disponibiliza.
Nesta marcha forçada para a responsabilidade e a autonomia, não só à revelia mas contra o espaço familiar tradicional – sobressai um pormenor curioso: regra geral, são os pais que pagam a emancipação dos filhos.

domingo, março 13, 2005

A Apologia da Humilde Puta

Não pude deixar de reparar numa declaração peremptória que o Clark 59 lavra no seu estaminé. Proclama ele, apoditicamente:
"Gosto de mulheres. Não gosto de putas."

Bem, ó Clark, gostos não se discutem. Portanto, não vamos discutir.
Mas não haverá contradição na afirmação? Será que as putas não são mulheres?
Há mesmo um amigo meu que, sobre tão candente assunto, já chegou ao requinte de me expor o seguinte prognóstico:
-"Não tenhas dúvidas, Dragão... Homem para ser homem tem que saber explorar a puta que há na mulher e descobrir a mulher que há na puta."
Não preciso de especificar qual foi a besta autora de tão grandessíssimo aforismo, pois não?...

Em todo o caso, esta é uma questão de capital importância, capaz de originar os mais descabelados cismas. E também digna, no mínimo, duma reedição melhorada e alargada da "Crítica da Vazão Pura".

Ah, e tem ainda mais uma coisa...
A fazer fé na qualidade dos filhos, as piores putas até nem são aquelas que - usual, árdua e honestamente - passam por tal.

sexta-feira, março 11, 2005

O Horror e o Terror (II)

"O que se passou no dia 11 de Março em Madrid foi um acto horrível, uma inominável atrocidade. Mesmo para aqueles que a cometeram, não devem haver muitas dúvidas sobre isso. Provavelmente, também acreditam nessa velha e bela tese do "mal necessário", ou melhor, do "horror necessário". Justificar-se-ão que é uma resposta a outros "horrores", uma retaliação a outras "atrocidades". Ora, em se tratando de "horror necessário", quanto mais horrível, melhor. O que, convenhamos, numa época em que o lema reinante é "quanto pior, melhor", acaba por assentar que nem uma luva.
Mas imaginemos que, por hipótese meramente académica, esse acontecimento, a todos os títulos horrivel e atroz, não devinha super-notícia, orgia mediática por muitos e largos dias...Certamente, não se teria tornado "terrível", "aterrador".
Basta ver que, todos os dias, por toda a Europa e Estados Unidos, só em acidentes de trabalho e viacção, morrem e ficam feridos o equivalente às vítimas do horror de Madrid, senão mais. Esfacelados, mutilados, comatosos também não faltam. No entanto, ninguém no seu perfeito juízo se lembra de acusar de terrorismo os construtores de automóveis ou as empresas exploradoras das auto-estradas. Ou o ritmo de vida cada vez mais frenético e desvairado que é imposto aos cidadãos. Esses mortos e feridos também são horríveis, mas, contudo, não se tornam "aterradores", nem as suas causas são apelidadas de terroristas.
Por conseguinte, o horror só devém terror, quando amplificado e propagado. Os tipos que puseram as bombas nos comboios de Madrid, horrorofactores "hard", assumidos, sabem-no e contam com isso. Eles só cometem a atrocidade, o horror. Dão o mote, o leitmotif. Do terror propriamente dito, da sinfonia macabra, tratam outros: os jornais e as televisões. Em delírio. E os políticos. Em manobra.
Há toda uma indústria necrofágica ansiosa por colaborar. Por transmitir a má nova a todo o mundo. Por transformar o choque em histeria colectiva, em estampido de manadas.A existir esse tal indivíduo Bin Laden, nem é preciso ser muito inteligente ou maquiavélico: basta-lhe um oportunismo qb. Ele já percebeu que o ocidente histérico, gorduroso, mercantilista, fariseu, entrou na fase autofágica, isto é, do absurdo e da auto-destruição. Basta acrescentar-lhe um bom catalizador.
Este terrorismo sem resquício de quaisquer escrúpulo, ética ou respeito, que transformou o massacre e a carnificina no supremo dos espectáculos, reflecte, por isso, uma tripla infâmia: a daqueles que o semeiam; daqueles que o propagam e amplificam; e da sociedade mórbida, cada vez mais embrutecida e viciada no seu consumo."
Adivinhem lá quem escreveu isto?...
Entretanto, já que falamos em terrorismo, aproveito para deixar uma pequena questão:
Em 1961, 15 de Março curiosamente, quando a UPA, no norte de Angola, iniciou os seus belos massacres, à catanada, de cerca de 3.000 portugueses e para cima de 30.000 Bailundos, isso foi o quê? Terrorismo benigno, cheio de escrúpulos? ...

segunda-feira, março 07, 2005

A Odisseia anual Caguinchiana


De vez em quando –em rigor, uma vez em cada ano – o Caguinchas vai de visita a casa. A mulher espera-o, de emboscada, com contas sempre antigas e facturas acumuladas por receber. Vitupera-o, discutem, andam à porrada, partem coisas, dão gritos, e depois, seja porque aquilo os excita, seja porque ela cai exausta, com a combinação em desalinho e as pernas à mostra, ele –indecentemente- aproveita, e, com ganas de seiscentos diabos, faz-lhe mais um filho. Ela, nesse entretanto, por via de electrocussão súbita ou de compressão dalgum botão mais sensível, de exausta transfere-se a possessa: arranha-o, morde-o, estrangula-o, enrosca-se feita cobra constrictora, e fá-lo, desconfiamo-lo bem, passar um bom bocado. Finalmente, por alturas do clímax com que a natureza brinda as suas favoritas, ela grita de novo, uiva aos quatro ventos e respectivas brisas, num estertor ribombante de plantar benzedura em todas as beatas das redondezas e atrair à cusca todos os putos do bairro, enquanto ele, ou por mania inveterada de sincronismos, ou por simpatia fornicabunda, em nada se coíbe de acompanhá-la aos urros, aos brados de incitamento dignos duma tauromaquia descabelada e pornofazeja. Diz, quem o escutou, e sou testemunha que se propaga a grandes distâncias, que é um espectáculo digno de se ouvir. A coisa chega a ter contornos de rapsódia animal. Até que -contam os mitos da vizinhança- por imutável desenlace, um suspiro profundo, um arquejo cavernoso, derradeiro, encerra as hostilidades amorosas e ela, num fulminante êxtase, cai para o lado, desfalecida e saciada para mais 365 dias e outras tantas noites. Facto providencial, esse, pausa deveras oportuna, que ele, manquejante, mordido, escoriado, em perfeito desalinho, ainda meio a pingar e a sacudir-se, aproveita para se pôr ao fresco, dar de frosques, tal qual, aliás, faz e recomenda, entre outros, o pequeno macho da tarântula, por hora de idênticos apertos e desapertos. Eu, no lugar de ambos, o Caguinchas e o "tarântulo", se calhar fazia o mesmo.
Resta acrescentar que no fim da retirada –convenhamos, estratégica –, fica invariavelmente a tasca, aliás ciber-tasca. Ano após ano, é aí, nessa praia de abrigo, que um Caguinchas invariavelmente esfarrapado, náufrago urbano e maltratado da ilha dos amores, vem desembarcar ulissianamente. Feito num Cristo - mas um Cristo ufano e refastelado, triunfador dum Calvário de delícias -, ofusca-nos, então, a todos com o brilho de sóis ignotos que traz no olhar. Um explorador amazónico acabado de regressar do Eldorado, após excursão alucinante por selvas e pantanais, evadido à tangente de feras bravias e tribos antropófagas, não se apresentaria mais condecorado.
Nessas alturas peregrinas, de raro esplendor homérico, uma vez sem exemplo, confesso: temos inveja... Todos! Mordemos a beiça e cobiçamos-lhe as botas. Ao filho da puta do Caguinchas, imagine-se! Que, nesse dia, não há como negá-lo, é o maior. Logo que entre, arrastando-se glorioso, lacerado, a tasca cala-se, estatui-se, em respeitosa veneração. Um silêncio sepulcral, reverente, em jeito de grinalda, é lançado aos pés do arqui-herói que regressa, que desfila, que ostenta, com empáfia, com pompa e circunstância –como manda a ordem, as marcas da sua bravura.
E o sacana sabe disso, o grandessíssimo cabrão, salvo seja!... Oportunista miserável, desfrutador do momento, aproveita a ocasião e responde às trombas em continência, desembainhando ao alto alardes do estilo:
"Estão a ver, ó pichas moles? Macho é assim!..."
A malta engole e cala. O homem, macho de facto incontestável, vem coberto de golpes, mordido e ensanguentado, lá das bandas do Eldorado, e a coroar cada ferida –sendo elas, ainda por cima, mil e muitas – traz reverberações de ouro, fulgores de rubi, irradiações de diamante. Até nos poderia escarrar em cima, que a pandilha acharia justo. Guardaríamos a lostra num frasco, a que prestaríamos culto pagão, devoções de relíquia, tal qual aqueles objectos preciosos, camisolas ou pedaços de muro, que certos maduros coleccionam a título do "eu estive lá". A custo, devo dizê-lo, contemo-nos de não cair de joelhos, prostrados, em adoração.
Entretanto, exagerando nos combalimentos, o Caguinchas senta-se. Como um leão ferido –ou melhor, como um domador de leões após um motim raivoso destes –, põe-se a lamber as feridas, dá-se ares de heróico estoicismo. Munido de aguardente velha –que toda a malta faz questão de lhe oferecer -, entrega-se aos curativos. Ora entorna pela goela (para anestesiar as terríveis dores, conforme explica), ora entorna pelas chagas rubras, a banhar os sulcos épicos que lhe dignificam, a cumes olímpicos, a carne. Rasgou a camisa e ensaia garrotes, pensos ad-hoc. Uma dentada mais sincera, que lhe devasta o ombro direito, deslumbra grande parte de plateia. Os restantes embasbacam, num pasmo idólatra, com os rasgões unguliformes que lhe exaltam as costas.
A certa altura, tomado dos humores caprichosos próprios dos seres predestinados, berra:
-"Tragam-me álcool puro, foda-se! Isto com a aguardente não se aguenta -ainda me gangrenam os tomates! Esse cabrão do Armindo deve tê-la baptizado, diluído, o filho da puta!..."
O citado Armindo, dono da taberna, baixa os olhos e esconde-se atrás da máquina de café, aterrado, temendo o linchamento pelos fiéis; enquanto a mulher, de emergência, larga os tachos e corre a satisfazer o decreto do super-herói. O Caguinchas, sem mais delongas, reforça a anestesia, entornando o álcool puro pela goela e a aguardente velha sobre as feridas.
-"Ah, assim está melhor! – exclama.- As piores hemorragias são as internas!...Já me estava a esvair!..."
É nesta altura que, aos olhos extasiados da maralha, ascende de superhomem a deus.
Ao mesmo tempo, como se tamanhos prodígios não bastassem, dá-se ainda, o finório, ao requinte de ir polvilhando de desabafos sublimes o pudim já de si excelso da situação. Fá-lo como quem conciliabula com os próprios botões, mas até porque estes primam em larga medida pela ausência, fruto da refrega épica, murmura alto o suficiente para que todo o auditório oiça:
-"Irra, esta mulher lembra-me os tempos de África. Quando se vem, um raio me parta se não é a minha velha G3 em figura de gente: nada de tiro-a-tiro, sempre em posição de rajada!..."
Mas a pérola-mor eclode quando porventura alguém, eu por exemplo, cai na asneira de lhe perguntar pela saúde da ferocíssima consorte...
-"Então, Caguinchas, lá vens da visita anual...E que tal está a Anabela?..."
-"Anabela?!! –ruge ele. – Baptizaram-na Anabela, as bestas dos padrinhos. Mas mais valia terem-na baptizado Anaconda!..."

Pois é, meus caros: Há heróis assim. A nós, vulgares mortais, cumpre-nos velá-los, admirá-los enquanto vivem. Até porque, sabemo-lo bem, um dia não regressarão.

domingo, março 06, 2005

A Alta traição aos "Valores"...

Freitas do Amaral diz que a hora é de "dar a cara". Paulo Portas, claro está, tem razões para se sentir ofendido, para se arrepelar traído e despeitado. Todos sabemos como sempre preferiu "dar o cu".

sexta-feira, março 04, 2005

O "Crédito Sénior"

É o último grito: o "Crédito Sénior". Ou melhor, o último grunhido, a chiadela peregrina e derradeira desses cabrões usurários que fazem vida de parasitar e vampirizar incautos, toinos e pacóvios.
-"É um nicho que estava por explorar", proclama uma das grandessíssimas bestas, com ares empertigados, de quem acaba de descobrir a pólvora. Agora nem os velhinhos escapam. Já nem os cabelos brancos respeitam. Toca de sugar até os caquéticos e as velhas carcaças. Tipos com Parkinson ou Alzheimaer? Venham eles! Desgraçados à beira da cova, estropiados ou paralíticos, em coma, ligados à máquina, pouco importa: basta que os filhos, netos ou sobrinhos fiquem de penhor, ofereçam as jugulares, sirvam de reféns.
Este conceito maravilhoso de nicho pimpão é um mimo. Uma beleza! Por artes de tão fulgurante lógica, expediente e ciganice, doravante, a chulagem banqueira até pode emprestar dinheiro a mortos e defuntos, a monglóides e alienígenas, a duendes e fantasmas, que ninguém se espanta. Basta que um fiador, um cristo voluntário se apresente ao suplício, entregue os costados ao martírio. Basta que um qualquer masoquista inveterado se ofereça em holocausto, se cubra de mel e exponha ao formigueiro, à marabunta.
A seguir, não se admirem, vão-se atirar aos sidosos –vai ser o "Crédito Sida". E depois aos tetraplégicos, aos que sofrem dos pézinhos, aos que sucumbem a diarreias crónicas inexoráveis – vai ser o "Crédito Merdinha"!
Finalmente, depois de vos crivarem todos de dívidas, de vos penhorarem desde o primeiro cabelo do cocuruto até ao derradeiro pintelho do cu, hão-de querer emprestar dinheiro ao vosso cão, ao vosso gato, ao piriquito e à galinha! Ao espantalho da vossa horta! Aos gambosinos todos da paróquia! Aos arincus da noite escura!
Hão-de emprestar até aos vermes que vos hão-de comer e às moscas que, na hora da despedida, as almas vêm escoltar. E tudo isso só porque na hora em que nasceram ninguém teve a caridade de fornecer um penico, uma algália, um caixote do lixo –enfim, um adequado nicho – à grandessíssima puta que os pariu!...
Tenho dito.