quinta-feira, junho 09, 2005

Dilatação nacional

«Portugal vai crescer 0,8% em 2005, diz Campos e Cunha»

Devemos presumir que vai ter uma erecção?... (Com oitocentos e tal anos de idade, havemos de convir que é obra.)

quarta-feira, junho 08, 2005

"Dragoscópio" vai passar a livro



Está em marcha todo um amplo e espontâneo movimento popular que tem por desiderato cimeiro levar o "Dragoscópio" a livro. A livro, para já; o DVD e o CD-ROM vêm depois. Sim, uma campanha entusiasta, como não há memória, percorre o país, de norte a sul. E apesar dos esforços desesperados dos bombeiros e autoridades competentes, nada nem ninguém parece já com força de fazê-la extinguir ou sequer abrandar no seu furor justiceiro. Por toda a parte se erguem labaredas em protesto - e vigília nacional - pelo "Labaredas-Mor" do reino, que os caciques de plantão à cultura porfiam de amordaçar e obstruir na sua legítima apoteose, no trânsito para a glória triunfal.

Ora, tendo já sido o "Dragoscópio" convidado por uma editora (cujo presidente do conselho de administração é meu primo e casado com uma pessoa amiga -do sexo feminino, realço), para se converter em lixo, digo livro, e tendo eu, na altura, com a modéstia que me caracteriza, recusado, eis que me vejo confrontado, agora sim, com inaudito dilema. Com efeito, face a esta nova evolução dos acontecimentos, confrontado com toda esta vaga popular de estima e afecto, que se adivinha de norte a sul e ilhas adjacentes, será que estou no direito de, com nova recusa, partir o coração a toda esta boa gente, se bem que desta vez, por especial atenção, não acompanhada do "bardamerda!" anterior?
É sabido que, embora alado, o dragão é da família dos répteis, logo, portanto, uma criatura de sangue frio. E coração de pedra.
Mas mesmo um coração de pedra, de rocha insensível, como o meu, conseguirá ele ficar indiferante a tamanho clamor, a tão lacrimejante súplica?
Agora que o país, como de costume, arde e eu tiro a barriga de miséria (ops, acho que não devia ter escrito isto...), enfim, agora que a depressão se cava e alastra, agora que o bom povo, sem a dose semanal de bola, vai ressacar à torreira, a besuntar o coiro nos brasis , caraíbas e algarves, será que mais um não da minha parte não mergulhará o país, já de si tão martirizado, numa aniquiliadora catástrofe? Num armagedão ou ragnarok piores que em 1755?
Não, mesmo para a misantropia e o genocídio deve haver limites! Se o país desaparece, se a população se extingue, depois, rio-me de quem? Está bem, sempre existem os espanhóis, os americanos, os chineses, os angolanos, etc, etc...mas, que diabo, não chegam nem à unha do pé dos alentejanos. E os algarvios? E os madeirenses? Tudo isto é património da Humanidade. Seria uma perda irreparável.

Por isso, serenai, ó gente do meu país (como canta a outra)! Tranquilizai-vos. Não permitirei que o mundo acabe. Haja televisão.
Em conformidade, tomei uma decisão, que passo a comunicar-vos:
(Que se lixe!) o "Dragocópio" vai passar a livro.
Pronto, não chorem mais. Acabo de falar com o meu primo e ele já deu ordens à editora. Só falta escolher a capa [vou falar com a Fátima Lopes, que me deve uns favores e dá o cu e oito cêntimos por estas coisas (calma, tenciono perdoar-lhe os oito cêntimos)]. Enxugai, pois, as lágrimas e desconvocai a manifestação com que, após encher de novo a Alameda, vos propunheis cercar as principais editoras e mantê-las a pão e água até que a 1ªedição do "Dragoscópio" ocupasse o 1ºlugar dos Tops Bertrand e Fnac. Lançai lá os foguetes à vontade (de qualquer modo, o país já está todo a arder). Com tamanha alegria, o melhor, se calhar, é irdes celebrar para o Estádio da Luz, penso que o Benfica não se importa. No Porto, enchei o "homónimo que erigiram em minha honra", a ponte de D.Luís e a Avenida dos Aliados, num verdadeiro S. João antecipado.
Mas o melhor ainda não vos disse...
É que o "Dragoscópio", ao contrário dos outros blogs negligentes, àsperos, nada preocupados com o conforto do leitor, vai ser o primeiro a ser editado em papel apropriado, ou seja, higiénico. De folha dupla, cobertura especial -simultaneamente absorvente e massajante, e encadernação de folhas com picotado (tal qual como os livros de cheques ou facturas). E - maravilha acrescida e totalmente gratuita! - será também personalizado: o "Dragoscópio" para cavalheiros surgirá em tons de azul; para senhoras, em tons rosa; para gays, em tons arco-íris; e para metrossexuais, em tons pastel. Haverá ainda uma edição infantil, com tratamento a talco, de modo a precaver assaduras, e folha-fralda rigorosamente descartável; e também uma edição especial para séniores (como agora se diz), em folha mata-borrão tripla, devidamente testada e garantida contra a incontinência.
As senhoras que certos dias do mês atormentam, não desesperem: em breve, ficará disponível o "Dragoscópio" em folhas-penso. Basta dirigirem-se à livraria mais próxima e pedirem o "Dragoscópio-evax" (também à venda nas farmácias, bombas de gasolina e lojas de conveniência).
Por fim, fica desde já a promessa: não descuraremos o "Dragoscópio" em folha-guardanapo, ou folha-lenço de papel, para leitores mais excêntricos ou ecléticos.
Claro está que, por cada exemplar do "Dragoscópio", o comprador receberá, de brinde, uma T-Shirt do Dragão (este vosso criado) e um porta-chaves com a mesma criatura.
Providencial lembrança, esta, hão-de Vªs Excªs convir. Pois de todas as vezes que a aflição da leitura vos surpreenda sem o "livro" à mão, sempre podeis limpar o cu à T-shirt.

Ah, e última -mas não menos refinada - das surpresas: Todos os exemplares serão autografados pelo autor! Adivinhem como...

Match 1, um dia destes...

«Os Ingleses (e os Americanos) estão há muito convencidos de que o automóvel anda menos do que o avião. Os Franceses (e a maior parte dos Latinos) parecem ainda dispostos a provar-nos o contrário.»

- Pierre Daninos, "Os Cadernos do Major Thompson"

É uma grande verdade. Eu diria mesmo que nós, Portugueses, fizemos disso um desígnio nacional. Aliás, enquanto não batemos a barreira do som, vamos batendo nas outras barreiras todas. E em quem se intrometer pelo meio.

Mais um estúpido lapsus linguae

Tem, mais uma vez, toda a razão, caro Dodo.

A sua graça não é Dodot, como eu estúpida e inadvertidamente teimei, mas sim Dodo. Tal qual a minha não é Drago, mas Dragão.

Penso que é o anglicismo que me contunde. Se estivesse escrito na língua de Camões, ou seja, "Dodó" (s.m., grande ave palmípede das ilhas Maurícias, hoje extinta), eu talvez não dislexasse tão facilmente. Assim, penso que a minha proverbial anglofobia prega-me (e a si também, coitado, por tabela) destas partidas.

Isto não serve de desculpa. Até porque não a tem. Sou só eu a tentar perceber o fenómeno.

Seguem, como indemnização, duas caixas de cerveja.

segunda-feira, junho 06, 2005

Nacionalizaram o Dragão

Meu caro Dodo,

A única bandeira que este blogue ostenta está bem hasteada, à vista de todos, no mastro grande. Asseguro que não está ali por mero capricho decorativo. "Dragão" é o nome do batel. A viagem é pelo abismo e pela danação. Por conseguinte, não me considero um modelo de virtudes nem exemplo para ninguém. Mal sei estrelar um ovo, quanto mais burilar um refugado de sociedades; e ainda menos confeccionar um puré de utopias.

Diz-me o meu amigo, e eu confirmei, que o Portal Nacionalista me "nacionalizou".
Naturalmente, não pediram o meu parecer para o efeito. Tivessem-no feito e eu ter-lhes-ia sugerido, com alguma veemência, que mantivessem a categoria inicial, ou seja: "blogue irreverente". Até porque devoto às políticas, todas elas, um inoxidável desprezo.
Todavia, esta remoçada distinção que, por um lado, eu de bom grado dispensava, por outro, dá-me um certo gozo. Quando penso nas fronhas remelosas dos "democratas bem pensantes" da paróquia (de que a blogosfera é só mais uma montra), quando me lembro dos beatos antifassistas de guarda ao serralho, quando me ocorre toda esta metrossexualidade mental soberana, só me apetece é bradar: "força, rapazes! É assim mesmo! Só peca por escasso: em vez de blogue nacional, afixai mesmo é "blogue do Führer!"

Pois é, ó Dodo, se aqueles são os párias do Reino Universal dos Blogs, que se foda!...A única vaga certeza que isso me suscita é simples: nenhum deles é pior do que eu. Ora, se a minha presença, de velho pirata impenitente, não os ofende, porque carga de água havia a sua companhia de me escandalizar a mim?
Jesus, que era incomensuravelmente melhor que nós todos, também acompanhou com o rebotalho do mundo e só perdeu as estribeiras diante de vendilhões e fariseus. Por isso, se, como Ele, me crucificarem entre párias e isso, a si, o perturba ou arrepia, não hesite: faça como o outro - diga que não me conhece, que nunca me leu. Pelo menos três vezes. Antes do galo cantar. Vai ver que ainda fazem de si santo.


PS: O que me preocupa é o que eu escrevo e onde eu estou. O que os outros escrevem sobre mim, bem como onde me colocam, estou-me bem pouco lixando para isso! Quer me achem o maior, o menor, o melhor, o pior, o mais sublime, o mais reles, quer, pura e simplesmente, finjam que não existo. Quem verdadeiramente tem poder para me julgar fá-lo-á um dia destes, quando à Moira aprouver. O único com moral para me pedir contas da vida e do que fiz dela é Aquele que ma deu. A Esse, e unicamente a Esse, responderei, quando a hora chegar, do fundo da minha insignificância, da treva e da lama, mas de pé. Às poeirinhas cósmicas minhas semelhantes, sobretudo àquelas que levam já não o Rei mas o próprio Deus na barriga, a essas, especialmente, não respondo, nada tenho a dizer e apenas deixo uma recomendação: Distância!

O terceiro olho e respectiva educação



Estou seguro que é da mais elementar conveniência que os blogues sejam editados em forma de livro. Qualquer um repara, sem necessidade de grandes estudos ou ensaios científicos, como é de todo impraticável limpar o cu ao monitor.

E sendo o homem dotado de três olhos, não se compreende que o posterior seja invariavelmente condenado à excreção e ao obscurantismo. É importante que se cultive, que, no mínimo, se alfabetize, sob pena de, ocioso, estulto, analfabeto, se entregar a sabe-se lá que preâmbulos e introduções.
Por outro lado, existe toda uma plêiade de intrépidos escritores claramente especializados na erudição do –chamemos-lhe assim – "terceiro olho". Equívoco não raro, mas deplorável, é o leitor entregar aos dois primeiros, ou frontespiciais, letras que, claramente, se destinam e foram vertidas com o exclusivo e meritório intuito de ilustrar o último, ou traseiro. Há obras próprias para a pestana e há obras dignas do pintelho. Só lembraria ao Diabo, ou aos filhos dele, confundir verdade tão elementar. As mesmas pálpebras que exultam e se descerram, em festa, diante dum Dostoievski, dum Cervantes, dum Sófocles ou dum Céline, pura e simplesmente recusarão a abrir-se, ou permanecer um segundo sequer entreabertas, diante dum Joyce, dum Hemingway ou dum Sartre. Apresentem-se-lhes uma Agustina, um Lobo Antunes ou um Saramago e, pior ainda, romperão num choro convulsivo, derramando, em cascata lancinante, lágrimas de horror. Resumindo: a literatura que faz as delícias da parte de trás não deve, em modo e tempo algum, ser exposta à parte da frente, e vice-versa. Isso, pelo menos, é o que as escolas deveriam ensinar às pessoas. Infelizmente, não é o que se passa e o lugar que o país ocupa na cauda da Europa é prova horripilante dessa desgraça. Libertassem-se os cidadãos destas tremendas confusões e, num instante, assumiríamos a liderança do Ocidente, para nunca mais a largar.
Mas é a urgente educação do terceiro olho o que, para já, nos ocupa. Não nos extraviemos.
Ora, o terceiro olho é também conhecido, e com razão, como o "olho cego". O seu método de leitura, consequentemente, é de todo diverso do utilizado pelos seus colegas superiores: se estes recorrem à visão, que um complexo sistema de focagem lhes permite, aquele, como é característico dos invisuais, imune à luz, apela ao tacto. Quer dizer, se os primeiros miram as letras, o terceiro, com pundonor, esfrega-se nelas.
Talvez por isso mesmo, derivado ao esforço suplementar que lhe cobra a inércia, o nosso amigo fatiga-se da leitura muito facilmente. A escatogogia, neste aspecto, é peremptória: convém entremear as grandes obras –os palanfrórios maçudos, mas essenciais, dum Joyce, dum Sartre e até duma Agustina -, com os páginas lights de futilidades e baboseiras duma qualquer Margarida Rebelo Pinto, das várias que enxameiam o hemisfério, ou bloguista equivalente, voraz aspirante a merceeiro (ou meretriz) de letras.
Neste departamento, tão indispensável à nossa ilustração traseira, existem mesmo editoras especializadas. A Oficina do Livro, graças a Deus, é uma delas. O seu contributo nesta área fundamental do saber tem sido inestimável. Por mim, aguardo com ávida expectativa, entre outros, a publicação em papel maleável - de leitura garantidamente absorvente – do "Jaquinzinhos".

Entretanto, depois do "Barnabé" e do "Acidental", dois almanaques indispensáveis na retro-ilustração de qualquer bibliófilo que se preze, mas que de tão usados já pouco acrescentam à nossa bagagem cultural, exultemos com o lançamento duma tal "Rititi". A fogosa debutante promete. E mesmo que não prometesse, o que é facto é que enquanto a Doutora Lili Caneças não se dignar constituir blogue, temos que nos ir contentando com estes petizes fait-divers. Uma espécie de tremoços na sala-de-espera da lagosta.

Enfim, não há blogue de referência que não o justifique. Deviam convertê-los todos em fascículo portátil o quanto antes!
Exceptuando talvez o "murcon". Porque esse, além de clara redundância do autor, com tão belos compêndios já editados, nem sequer concorre na área pedagógica, mas farmacológica. Ou seja, na categoria dos psicolaxantes; ultra-potentes, se quisermos ser exactos.

sábado, junho 04, 2005

Senhoras e senhores: A Poesia. Como eu a entendo...



A poesia, no meu entender (bem como a genuína literatura em geral, estava capaz de asseverar), se mais utilidade não tem, pelo menos uma especifidade possui em que é, em que deve ser, inexcedível: escandalizar a cabeleireira e o burguês, passe o pleonasmo. Essa é, de resto, sobretodas, a sua "marca d'água".
Para tira-teimas do que acabo de afirmar, basta ler o que passo a declamar-vos:


Maelstrom

A memória range-me num encravar de mecanismo
a minha cabeça rodopia no maelström...
As ideias embrulham-se nas ondas e eu cismo
que todo o meu mundo se despenha no abismo
e a bordo da minha vida, atordoado, oiço o som.

Ainda um dia iço o estandarte pirata
no alto da gávea, no mastro grande!
Vou doido p'los mares armar zaragata
pilhando por gozo jóias, ouro e prata
cevando-me em crueldade e sangue!

Devasto tudo, a torto e a direito:
Yates, paquetes, chatas e cargueiros.
Aos passageiros estripo-os a preceito
enforco nas vergas choros a eito
que eu cá sou ímpio, não faço prisioneiros!

Transfiguro-me em caretas ávidas
a tudo ansiando presidir.
Desde jacarés tragando bruxas grávidas
defronte dos maridos, de almas pávidas,
que faço despenhar logo a seguir.

Ah, só de imaginar as cabeças degoladas
que minha espada fez rolar p'lo convés...
caramba, apetece-me desatar às gargalhadas
como se depois de violentadas
as grã-finas ainda fossem calcadas a pés!

Irra, uivo babando-me ante a carnagem!
Banho-me deleitado no sangue do morticínio.
E, em renovados gritos de abordagem,
rejuvenesço na eterna pilhagem
e em holocaustos de selvático extermínio!

E não há nada que arrefeça ou aplaque
a minha bárbara fúria homicida!
exulto de pôr todos a saque;
mas o que me agrada mais (e à minha claque!)
é de roubar-lhes a própria vida!

Por fim, escreverei odes a cantar tais feitos
que tanto me enalteciam e sublimavam.
As velhas que catapultei dos parapeitos
directas às fauces de esqualos satisfeitos
que, com goela cruel, risonha, as tragavam!

Ah, ponho a pontapés fora de mim
todo este remorso que me sufoca!
Sublevo-me comigo num motim
não dou p'la minh'alma meio xelim
-faço-me refém duma qualquer troca!

Lincham-me o coração, os amotinados,
esquartejam a razão e vendem-na a peso
p'ra talhos, restaurantes e mercados;
até que, por fim, chegam os soldados,
abafam a revolta e levam-me preso.

Algemado e sob escolta, sigo p'lo cais a marchar.
Altivo de soberba, lanço olhares de desprezo
à populaça avulsa, de roda, a ladrar,
sôfrega de me ver pendurado, a estrebuchar,
não acontecesse que, perante meu olhar surpreso,

os soldados que me escoltavam,
abrindo caminho co'as baionetas,
aqui e ali anavalhavam
cretinos que logo se afastavam
ganindo uns, outros manetas!

Ah, estou entre os da minha laia!
Estes soldados falam a minha linguagem.
-Isso: pontapeai, desancai essa estúpida raia
míuda! Para que se cále, desapareça, saia
da minha vista e não empeste mais a aragem!

Entro por fim numa cidade do Far-West
(sempre tive a mania dos caubóis)
onde, por acaso, até grassa a peste
e, recentemente chegada de Budapeste,
sorri-me uma bela ruiva de cabelo aos caracóis.

Acompanhado pelo seu estojo
o médico socorre a multidão.
É declarado o Estado de Nojo,
vários cadáveres são levados de rojo
até ao deserto, onde abutres os comerão.

E também a minha escolta cai, vitimada.
Só eu continuo de pé, pérfido porque imune.
Livre, encaminho-me para a balustrada
donde a ruiva me fita, e os seus olhos de esmeralda
ao poisarem nos meus parecem lume.

Tais cabelos de fogo recordam-me alguém...
Beijo-a e surge-me, desfocada pela Distância,
a imagem de brincadeiras em casa de minha mãe
com uma menina que eu raptava e fazia refém
no Far-West da minha Infância.

Passaram-se anos e eu sofri em excesso
através de estranhos mares, luas e sóis.
Atingi o limite - nada mais peço,
pois eis que finalmente regresso
à minha menina dos caracóis.


Dir-me-eis: "Foda-se, Dragão, este é o poema mais escabroso que alguma vez li!"
Dir-vos-ei: "Lestes, então, bem pouca e fraca coisa, ó coisinhas insossas!...".
Mas se o conteúdo é escabroso, concedo-o com alguma vaidade, já a língua em que está escrito de escabrosa não tem nada e é, direi mesmo -e, juro, rebento as fuças a quem me rosnar o contrário! - a mais bela do mundo. Nós, portugueses, somos o povo mais rico ao cimo da terra:
Temos a maior auto-estrada para o Espírito. Só é pena não termos mapa, nem bússula, nem, o que é bem pior, espírito.
Suponho que faz parte do leque das supremas ironias transcendentais: dar nozes a quem não tem dentes; ou uma língua destas a uma horda de Chim Panzés. E PanZés, ainda por cima, Marias.

quarta-feira, junho 01, 2005

Ficção e explicação

Bem, hoje, para não variar, cito-me a mim próprio...

«Nunca poderemos saber verdadeiramente o que se passou na Terra há vinte mil anos atrás. Pois se nem o que se passa verdadeiramente hoje conseguimos apurar com exactidão... A História do passado como o jornalismo do presente enfermam de estrabismos idênticos e crónicos. Em grande medida resumem-se a produtos de confeitaria, fonofacção superficial, artificialidade conveniente, quer dizer: esquema, encomenda, culinária. Contemplemos alguns eminentes historiadores da nossa praça: inscrevem-se em seitas, saldam-se nas montras, frequentam capelinhas. Aliás, a dispensa do trabalho braçal e extenuante nunca foi gratuita. Todo o poleiro tem o seu preço. Para cantarem melhor, certas aves cegam-se.
Assim, encarado duma forma séria e autêntica, que é senão ficção o nosso imaginário cientificante, que galopa a cavalo na mais solene verosimilhança? De facto, e sem exagero, em pouco difere da "tragédia grega", segundo as regras da poética aristotélica. Cada tese, cada fábula. Válida enquanto acreditarmos nela, como em Deus. Ou mais exactamente, somos levados a acreditar. Inválida quando deixamos de acreditar, quando já não convém, quando já não reboca, estorva. Passamos, aliás, como no teatro grego, grande parte do tempo convictos duma coisa, reis Édipos seguros e sagazes, até que a catástrofe eclode e reconhecemos horrorizados, mais que a verdade, a mentira em que piamente sempre vivemos e acreditámos. Até aqui, o chamado pensamento científico e as suas verdades metamorfas tecnoeficientes tem percorrido os episódios e sobrevivido às peripécias. Peripécias como Hiroshima, por exemplo. Aguarda-se, com mórbida expectativa, como reagirá à catástrofe.
Falar no Big-Bang ou em Deus, a limite, é a mesma coisa: No fim reduz-se tudo à Fé. A limite também, radica igualmente tudo nesse abismo misterioso que habita a alma humana: essa necessidade duma explicação. Ora, em termos gerais, tanto a Ciência como a Religião pretendem ser explicações totalitárias, campos de concentração da Verdade, fornos crematórios de quaisquer dúvidas. Diferem, não obstante, nos métodos: A Religião simplifica; a Ciência complica. Ambas imaginam. »

terça-feira, maio 31, 2005

Tricofobia para todos


O que é a tricofobia?
Aposto que, ocupados com as fobias da moda, aquelas nefandas que os mixordeiros da propaganda narconazi vos insuflam, a martelo, pela pinha abaixo –a homofobia, a xenofobia, a teofobia, a semitofobia, a melanofobia, etc -, nem tendes tempo para reparar nesta fobia toda catita que por aí anda. Aliás, grassa. Está claro, como pertence à ordem das "fobias bem" não merece reparo. Pelo contrário, merece festejo, romaria, banho de multidão, guarda de honra e fanfarra. Sim, porque também há fobias boas, lindinhas, essenciais ao showbiz e ao autoclismo mental. Não se discute. Só trogloditas ousariam pô-la em causa. Tecer-lhe menoscabo ou desconsideração; nem pensar!...
Mas, do alto desta nossa erudição ribombante, passemos à explicação do que é a "tricofobia"...
Estais preparados? Já tendes o caderninho de apontamentos a jeito? Então registai (mas com cuidado, não se vos parta alguma dessas unhas tão bem tratadas):
Pois significa, nem mais nem menos, "terror dos pêlos". Insere-se no processo de desvirilização em curso e traduz-se, nos homens, pela corrida às depilações, às manicures, aos peidicures e paneleirices congéneres. O ilustríssimo R, com a subtileza elegante que o caracteriza, alertou para a maleita. E eu, com a ferrabraveza militante que me distingue, acorro com a artilharia pesada, em prece ao desmantelamento e ao massacre.
Ocorre-me, para começar, aquele poema do António Botto, esse príncipe dos panascas líricos, que declamava, emocionado, do seguinte jaez:
"Um rapazinho
lavadinho
todo nu
sem pelinhos no cu,
Confesso: até gosto
."
(Da maneira que isto vai, surpreende-me como é que ainda não foram deitar o Botto, nos Jerónimos, ao lado do Pessoa e a fazer olhinhos ao Camões...)
Pois estes gajos modernos, estas florzinhas com pendurezas redundantes, cientes deste capricho dalgumas elites endinheiradas, não se poupam a esforços para cair no goto dum tal mecenas: dos sovacos às orelhas, do nariz à pilinha, dos cascos à peitaça, não dão quartel ao cabelame. Pêlos, cabelos, pintelhos, fora o toutiço, não escapa nenhum: é uma razia, um tricocídio, um massacre! O único local anatómico onde são tolerados é lá no alto, a culminar a mariquice, em forma de trunfa luxuriante, em jeito de popa choupana ou meda de palha. Mesmo as sobrancelhas e as pestanas não escapam incólumes. E se não desatarem a estofar o nalguedo com silicone ou numa devoção pegada à arquitectura de mamas com o mesmo material, já vamos com sorte.
Naturalmente, com os putativos machos a atirarem, assim, com a testosterona borda fora, não surpreende que certa qualidade de fêmeas aproveite e comece a desenvolver músculo, garimpa e voz grossa. Se não montas tu, então monto eu. Ora, para esta nova qualidade de "galos" em ascensão, as opções são óbvias: ou estão ainda em transição mental e, nesse caso, interessam-se por galarós agalinhados; ou convencem-se mesmo que já são galos perfeitos, de crista completa, e avançam sobre galinhas confusas. Da mesma maneira, os galarós agalinhados, consoante o estágio de agalinhamento que tenham alcançado, inclinam-se para galinhas másculas ou galos com tendências. É estranho? Nem por isso: num mundo onde se celebra, com foguetório e algodão doce, a artificialização triunfante, porque não havia de ser artificializado o sexo? De resto, onde se lê "artificialização" pode também ler-se "humanização", isto é, "sofisticação".
Mas não foi o intuito moralista, seja ele qual for, o que aqui me trouxe. Quero que se fodam todos, uns aos outros, se isso os apazigua com a existência! Direi mais: Que fodam muito e se reproduzam cada vez menos, porque, se assim for, é todo um planeta que lucra!...Que abortem, que rebentem, que expludam, é-me indiferente!
Não, a minha jornada é bem menos elevada e bastante mais prosaica. O que vislumbro no meio deste sarrabulho estapafúrdio é, apenas e somente, uma bela oportunidade de negócio. Ainda para mais para um dragão como eu, a quem a natureza - de braço dado com a mitologia- dotou de equipamento a preceito. E se existe procura, tratemos da oferta. Não é esta a lei fundamental da física que rege o mundo actual?
Por conseguinte, estou a pensar abrir um "pelário". Se este galinhedo corre aos solários para se bronzear, e aos ginásios para se encher à bomba ou derreter as banhas, também há-de comparecer no meu "pelário", para eu lhes tratar da penugem. E eu, claro está, trato. Vou lá estar até, pessoalmente, para isso. E a um preço e velocidade imbatíveis, de antemão anuncio. Já estou, inclusivamente, a registar a patente da "fast-depilation". Quanto ao método, não imaginem lasers nem cremes revolucionários. Nada de tratamentos dispendiosos: Vai ser mesmo a maçarico; com labareda firme e constante. Pois não é assim que, ancestralmente, se trata o toucinho?
Com o bónus acrescido e - numa primeira fase promocional - gratuito de, para os mais impacientes, também poderem queimar banhas. Em tempo record. E com a garantia de ficarem pretinhos a rigor. Escarumbas não só por dentro, mas também por fora...já viram que conquista?!
Até podem ir já treinando o vosso hip-hop. Yo!...

segunda-feira, maio 30, 2005

Impressões da Belogosfera

*
Em tempos, eu, sempre disponível para canduras, ainda acreditei que aquilo do "blasfémia" era um blog. Depois, quando aquele turbo-pensador do João Miranda entrou a bordo, convenci-me que não: com efeito, era um fórum, e o pitoniso Miranda, investido de dotes oraculares, o seu pujante moderador.
Afinal, enganei-me de ambas as vezes. Na verdade, é uma barraca daquelas da feira popular, com um funâmbulo metido numa canga, a cuja cara a malta atira tartes, bolos cremosos e outras porcarias. A função do funâmbulo é irritar o passante, largando-lhe invectivas e bojardas. Quanto mais estapafúrdias e irritantes forem, melhor. Mais o transeunte se agarra às munições e desata no sôfrego bombardeamento. É uma estratégia de mercado, dizem. Exerce uma poderosa atracção sobre a potencial clientela. E resulta. Confesso que um tipo tem de apelar aos mais sagrados deveres para se arrancar dali. Eu próprio tive de recorrer a firme austeridade e vontade hercúlea para o efeito. Aquilo vicia.
**
Entretanto, até a minha visão do apocalipse sofreu um abalo profundo e alterou-se drasticamente. Agora, já não estou na espectativa, como profetizado, de um confronto final entre a Luz e as Trevas. Não, palpita-me que é mais uma diálise entre o João Miranda e o Julio Machado Vaz.
Qual vai de trombeta e qual leva na mão a taça de ouro a transbordar, eles que decidam.
***
PS: Também já me disseram que o excelso bloguista extrai os argumentos a partir duma tômbola. Numa hibridação perfeita, ancorada algures entre a lógica totoloto e a poesia Dada (de dadaísmo, entenda-se).
Concedo que, se assim é, não deixa de ser um método fascinante.

domingo, maio 29, 2005

Esperança de vida...ou de morte?

Os dilectos masturbadores de números e amantes extremosos das estatística não têm dúvidas: o Progresso é uma coisa maravilhosa. A ciência e a indústria, -sem nunca esquecer o comércio (ah, o comércio, o comércio...) -, não se cansam de bater recordes e parir milagres. Assistimos, deslumbrados, a uma verdadeira empreitada de prodígios e avanços mirabolantes.
Só para citar um dos exemplos mais imperiais, a esperança de vida (dum modo geral da espécie humana, mas sobretudo nos países mais industrializados) aumentou extraordinariamente. As estatísticas revelam-no. É um argumento contundente. Prostra qualquer um, desarma o mais céptico dos filósofos.
Isto, claro está, se camuflarmos um pequenino detalhe, uma insignificante bagatela:
É que a esperança de vida do planeta também tem diminuído ainda mais extraordinariamente. Numa proporção diametralmente oposta, senão mesmo uniformemente acelerada.
Já não falando, claro está, naqueles engraçadíssimos anexos que têm vindo a reboque da tão proclamada esperança de vida:
- A esperança de contrair cancro
- A esperança de contrair SIDA
- A esperança de ter filhos impotentes (onanistas ou gays)
- A esperança de corrupção
- A esperança de ser obeso
- A esperança de morrer estupidamente na estrada
- A esperança de desemprego
- A esperança de explodir à bomba
- A esperança de depressão
- A esperança de inaugurar uma síndrome de nome esquisitíssimo
- A esperança de ser cada vez mais estúpido
- A esperança de ser uma mix (mais um termo moderno, directamente importado dos disc-jockey, os verdadeiros filósofos da Nova ordem) de robot e formiguinha
- A esperança de abortar
- A esperança de desesperar
- A esperança de ser toxicodepente (álcool, tabaco, drogas, fármacos, televisão, enfim, o leque de escolha é variado)
- A esperança de não ter água potável
- A esperança de respirar dióxido de carbono
Etc, etc, etc

Realmente, a esperança de vida tem aumentado. Convinha é que, em arrepiante paralelo, a qualidade de vida não diminuísse.
Ou dito de outra maneira: quanto mais longe chega o caminho, mais minas e armadilhas disseminam nele.

Afinal, sem as máscaras da propaganda triunfante, o que é que tem mesmo aumentado: a esperança de vida?...Ou a esperança de morte?
Que é feito das máquinas que nos iam libertar? E da ciência que nos daria o Céu?

Tópicos para uso do pessoal doméstico

I

- Porquê o "Sim"?
- Porque sim.
- Porquê o "Não"?
- Porque não.

II

- Porque não a Europa?
- Porque sim a América.
- Porque não a América?
- Porque sim a Europa.

III

- Porquê a Direita?
- Porque odeio a Esquerda!
- Porquê a Esquerda?
- Porque odeio a Direita!

Como vêem, é simples.

sábado, maio 28, 2005

A sangue frio

Filhos da campa-berço
a caminho da masmorra ginásio
Olhos virados do avesso
sistema de rega por naufrágio;
Bar-restaurante de venenos
a dentadura-bisturi
O feto-camisa de Vénus
máquinas de suplício ao Ralenti...

Um açougue-infantário
um antropófago com ténia,
A máquina da Felicidade ao contrário
academia de carrascos em vénia;
Agrilhoado à morgue-escola
um cadáver repetente,
Um oceano de coca-cola
um esgoto presidente...

Três caixões ortopédicos
um suicídio por contrato,
mil conselhos médicos
sobre a autópsia-parto;
Uma retrete-manjedoura
um esqueleto de bikini,
burocratas em salmoura
vermes com pedigree...

Um trono-patíbulo
um cancro benigno,
capelas de prostíbulo
um genocídio por signo;
Um cemitério climatizado
universidades da putrefacção,
um eunuco apaixonado
chatos de elite e estimação...

Uma hóstia-supositório
mumias com nervos em franja,
Férias pagas no purgatório
arsénico com sabor a laranja;
O homem autónomo perfeito
parafusos, cabos e canos
uma bomba eléctrica no peito
a boca fundida ao ânus.

Répteis de sangue quente
A puta que Deus não pariu...
Um deserto de gente
A realidade a sangue frio.

sexta-feira, maio 27, 2005

O último avatar de Homero



«Se fosse cá podia divertir-se, o Proletvich! Ainda por cá temos umas distracçõezitas, umas malandrices clandestinas, uns prazeres, vá lá! Nem o próprio explorado a 600 por 100 dispensa as suas rambóias!... Como ele gosta de se raspar do emprego e com um smoking novo (de aluguer) brincar aos milionários whisky! deliciar-se com um cinema! É burguês até à medula! tem o gosto dos falsos valores. É macaco. É corrupto... É mandrião até à alma... Só gosta do que for caro! ou então o que tiver esse ar! Venera a força! Despreza o fraco! É petulante, é vaidoso! está sempre ao lado da "batota"! Visual acima de tudo, o que interessa é dar nas vistas! Voa para o néon como a mosca. Não resiste. É todo pechisbeque. Pára automaticamente quando chega ao pé do que poderia torná-lo feliz, afável. Sofre, mutila-se, sangra, rebenta e não aprende nada. Falta-lhe o sentido orgânico. Foge-lhe, teme-o, torna a vida cada vez mais amarga. Precipita-se para a morte sob os açoites da matéria, nunca suficientes... O mais maroto, o mais cruel, o que leva a melhor neste jogo consegue quando muito apoderar-se de mais armas para matar ainda mais e se matar. Assim, sem limite, sem fim, estão os dados lançados! O jogo está decidido! está ganho!...(...)
Deixa-se de ser tratante sob a acção de uma catástrofe. Quando tudo torna ao normal, a natureza retorna logo ao que era.»
- Céline, "Mea Culpa"
A 27 de Maio de 1894, nascia aquele que viria a escrever a "Odisseia" do século XX -"Viagem ao Fim da Noite", de seu título: Luis Ferdinand-August Destouches (aliás, Céline).
Escarro potente e bem temperado da Arte no rosto da academia e nos impotentes, rasteiros e eunucos de todas as épocas, é daquelas obras, como o "Quixote", "Os Demónios" ou "Guliver", que valem por uma literatura.
É daqueles momentos em que percebemos que, afinal, e apesar de toda a porcaria em que porfiam de encobri-la, sempre existe no Homem, profundamente impressa, a marca de Deus.

Os otários que paguem a crise. É para isso que eles existem.


Estou de acordo: "Os ricos não devem pagar a crise".
Em primeiro lugar, porque os ricos são o esteio da sociedade e do mundo. Se acabássemos com os ricos, para que farol guia olhariam os pobres, bem como os remediados e os quase nababos? Ficariam às escuras, pois claro, sem saberem para onde se dirigir nem que paradigma imitar. Naufragariam irremediavelmente de encontro aos escolhos, traiçoeiros e pontiagudos, da existência.
Nenhuma sociedade funciona sem um regime, e nenhum regime se aguenta sem paradigmas orientadores. Depois de inúmeras peripécias que seria fastidioso enumerar, o mundo ocidental arfa sob os primores duma plutocracia vigorosa. Não adianta fazer grandes ginásticas mentais à procura de mundos alternativos; é assim. A História, à boa maneira hegeliana, porta-voz do "Espírito", determinou-o.
Por conseguinte, sendo uma plutocracia, tem nos ricos o vértice da pirâmide – tal qual como se fosse uma monarquia, teria no rei; ou, uma teocracia, encontraria em Deus. Ora, se retirarmos o rei à monarquia, ou o Deus à teocracia, lá ruem ambas, a monarquia e a teocracia, sem apelo nem agravo. O mesmo acontece se retirarmos os ricos à plutocracia. Resulta no caos, na anarquia, desatam-se todos a comer uns aos outros. Descamba o carrossel numa depredação intraespecífica sem regras, bestialmente destrutiva e causadora dos piores atropelos e sevícias à ordem pública e não só.
Assim, tal qual vamos, há uma ordem: os ricos comem todos os outros; os pobres são comidos por todos os outros; entre os ricos e os pobres existem uns terceiros que comem e são comidos. Se não é o melhor dos mundos, anda lá próximo. É como na selva: há um equilíbrio natural, racional, que visa a perpetuação do sistema ecológico. Têm que existir poucos ricos e muitos pobres, da mesma forma que devem existir poucos lobos para muitas ovelhas. Se existissem muitos lobos para poucas ovelhas, os lobos exterminariam as ovelhas e, depois, definhariam até à inanição por falta de alimento. A não ser, claro está, que os lobos mais fortes despromovessem os mais fracos a ovelhas e desatassem a pitar neles. Em todo o caso, isso não passaria duma solução de emergência e apenas adiaria o colapso inevitável do sistema.
Portanto, sendo os ricos o que de mais precioso tem o regime, convém preservá-los e protegê-los de todos e quaisquer percalços. Ora, um rico não é rico porque paga crises ou o que quer que seja. Pelo contrário, é rico porque lhe pagam inúmeras coisas: é rico porque recebe. Viaja isento, à borliu.
Também, ao contrário do que se pensa, o rico não é rico porque investe o que quer que seja: é rico porque acumula. Se o rico gastasse o seu precioso dinheiro –a sua essência, e substância inefável do sistema -, em negócios e fabriquetas, corria o risco de ficar pobre. Ora, esse é um risco que nenhum rico que se preze pode correr.
É claro que o pobre, e especialmente o pobre de espírito, cisma que assim é. Isso, porém, não nos deve surpreender: É conveniente ao sistema e ao rico que ele assim pense. Tratam até, ambos, de mimar-lhe essa imbecil convicção, de mantê-lo nessa ilusão mentecapta. Mas, na verdade, o rico apenas se dedica a multiplicar o seu dinheiro, velando, desse modo, pela própria saúde do regime e pelo equilíbrio do ecossistema.
Quer dizer, o rico nunca investe o "seu" dinheiro. Investe, isso sim, o dinheiro que o banco lhe confia para investir. O "seu" dinheiro significa apenas"crédito" junto da banca, funciona como uma espécie de brevet para "piloto de capitais". Porque o rico é essencialmente isso, um piloto de capitais, que se faz pagar a peso de ouro pela crematonáutica que exerce. O "seu" dinheiro é apenas aquilo que antes da operação a garante e que, terminada a mesma, resultará ampliado. A função do rico é tornar-se cada vez mais rico. O ser rico, bem mais que um estatuto, é uma dinâmica: cega, obsessiva, inexorável.
Então, com que dinheiro investe o rico? – Com o dinheiro dos outros, é evidente; precisamente aquele que a banca extrai à grande maioria.
E o que é uma "crise"? – É uma época de desequilíbrio financeiro, em que, por um lado o Estado através de impostos e taxas, e por outro a banca e seus associados, através de "empréstimos" (que mais não são que formas encapotadas de cobrar "taxas" e "impostos" muito acima dos do próprio Estado), deixaram ou ameaçam deixar a grande parte da população na penúria, senão mesmo à beira do colapso enquanto sociedade.
Se o dinheiro deixa de circular com a quantidade necessária a manter um fluxo de oxigenação saudável do sistema, isso só pode significar hemorragia algures.
Quando, em plena crise, a banca apresenta lucros fabulosos, isso significa que esse dinheiro foi sacado à população e entregue nas mãos dos tais "pilotos". O que estes fizeram, obedecendo à sua lógica intrínseca, foi ir investi-lo noutras paragens mais rentáveis. O objectivo do investimento não é criar postos de trabalho: esse é o simples meio. A finalidade é multiplicar o capital inicial. O resto é supérfluo e, em bom rigor, descartável, logo que a finalidade esteja alcançada.
Entretanto, o país de regresso à sua penúria tradicional, do ponto de vista dos ricos e seus acólitos, é positivo: quer dizer que o país, de volta ao terceiro mundo e à realidade, está a transformar-se num país mais competitivo, com mão de obra mais barata e menos esquisita. Para os pobres, os verdadeiros, também não faz grande diferença: abaixo de pobres não passam, e já estão habituados. Concentram-se no futebol, na pinga e lá vão. Os únicos que, de facto, têm motivos para se preocupar seriamente são aquela classe heteróclita e intermediária – daqueles que vivem digladiados entre a angústia de regredirem a pobres e a ilusão de, num golpe de asa, ou por qualquer súbita lotaria do destino, ascenderem a ricos. Esses, temo-o bem, vão ter que sacrificar-se, mais uma vez, pela competitividade do país. É, aliás, urgente que desçam do seu pedestal provisório e se compenetrem dos seus deveres atávicos. São para isso, de resto, que, ciclica e vaporosamente, são criados.
E dado que os pobres não pagam porque não têm com quê, e os ricos também não, por inerência de função e prerrogativa sistémica, resta-lhes a eles, os tais intermédios (ou otários, se preferirem), como lhes compete, chegarem-se à frente. Está na hora de devolverem a sua "riqueza emprestada", o seu "estatuto a prazo"; de se apearem do troleibus da ficção e retomarem o seu lugarzinho na horda chã, em fila de espera para o próximo transporte até à crise seguinte.
Não sei se campeia a justiça neste mundo. Duvido. Mas que reina uma certa ironia, disso não restam dúvidas.

quinta-feira, maio 26, 2005

Debaixo duma pedra há um...



Lá fui, alegremente, contemplar a tal petição que a Lolita, em serviço público, referiu.
Ao chegar à segunda página, já uma bela ideia me começava a titilar os neurónios... Nada mais nada menos que virar-me para a senhora Dragão e comunicar-lhe: "Olha, concorre!, em quantidade de nomes já ganhaste; e com dois "de" na graça, não deve haver quem te bata!..."
Mas depois, a páginas tantas, dei com uma tal Graça Maria do Monte-Pegado de Sa Coutinho de Sousa Pinto, puta que a pariu, e desisti.

É um cabrão dum país, este, atolado em "pergaminhos higiénicos". De folha dupla. Extra suaves. E absorventes.

quarta-feira, maio 25, 2005

Altermanias

Vivemos um tempo de ataque cerrado à auto-estima das pessoas. Se por um lado se lhes insufla o ego de vento, num simulacro de rã em ascensão a boi, por outro, é um gaz deletério e corrosivo que só as emprenha de angústias, dúvidas e hipocondrias existenciais. A máquina da extracção da auto-estima, opera, ao mesmo tempo, na injecção de dependência, de vassalagem cega e desmedida à hetero-estima. As pessoas -categoria cada vez mais obsoleta-, são manipuladas (ou melhor dizendo, pedopuladas) como uva em lagar de mixordeiros, de marteleiros desenfreados. O resultado é uma vasta cadeia de montagem de imbecis, de gentinha débil-emocional, que se arrasta e repta num constante: "por favor gostem de nós". Mimadas até ao vómito, são desossadas de toda e qualquer autonomia, depiladas de genuíno critério ou gosto, esterilizadas e lobotomizadas metodicamente até uma espécie de tetraplegia mental.
Mais que um qualquer modo de afirmação, o seu exibicionismo obsceno - outras vezes simulado, protocolar, mas sempre emulador dum alterpadrão público -, resume-se a uma sórdida súplica, um enerve requerimento de adesão a uma qualquer manada preponderante.
É toda uma imensidão de hiper-egos pardoxalmente junkies dos outros, do número, da manada. É uma espécie de massa levedante, que quanto mais exorbita mais se agrega e empastela. Pastam e, ao mesmo tempo, vigiam-se, controlam-se, perseguem-se. Levantam a cabeça apenas o suficiente para espreitar o grosso da manada, para avaliar do fluxo dominante, das áreas de maior aglomeração. Se é superlotado é bom; se está enxameado de peregrinos, então é por aí certamente o caminho. O lema estrutural resume-se a "sou o que os outros acham", "sou por sufrágio universal", "candidato-me, propagandeio-me, sufrago-me em cada instante", "aconchego-me". No fundo, vão na enxurrada humana, não tanto para onde escolhem, mas para onde a multidão irracional, a chicote de um qualquer inefável piloto, os empurra. E atrai.
Entretanto, esse irresistível vórtice magnético que são os outros tem doravante um nome, um nome que impera sobre todos: Opinião Pública. É a estrela guia e o astro radioso que ilumina.
É a suposta "opinião de todos", a "opinião universal", no mínimo, a "opinião dos outros".
E quem são esses que os teleguiam?
São os mesmos que estipulam aquilo que é gostável e desgostável, aquilo que é estimável ou execrável. Curiosamente, os mesmos que lhes amputam a alma e lhes implantam, em forma de prótese indispensável, género cadeira de rodas espiritual, uma sórdida maquinazinha defecante, palradora, onanogâmica e hetero-dependente.
Convertidas a um quase vegetal merdificante e palrador, incontinente e mirrado, absolutamente submisso ao cuidado e à vigilância alheia, ambulam, quais espantalhos grotescos, à mercê de estímulos e próteses que os transportam e que, providencialmente, sempre providencialmente, como soro através de tubo, ou realidade através de écran, lhes fornecem.

segunda-feira, maio 23, 2005

A Balada da Plebe

É claro que eu não podia deixar de me juntar ao clima festivo que agita a nação Papoila. Ainda para mais sendo dois dos meus melhores amigos -o Caguinchas e o Dinossauro-, Benfiquistas de gema, talibãs luminosos, acólitos da "Catedral".
Dedicado a todas as "papoilas Saltitantes" e a esses meus amigalhaços em particular, aqui fica:

Balada da Plebe

Batem latas, toinamente
Armam basqueiro e chinfrim
Será fauna, será gente
Gente não é certamente
Tem cascos quem zurra assim.

É talvez a chungaria;
Mas ainda há pouco, há poucochinho
Nem um cabrão destes bulia
Na quieta monotonia
De chocar ovos no ninho.

Quem zurra assim, alarvemente
Num tal destempero da glote?
Que mal se ouve, mal se sente
Instaura uma vontade na gente
De regar chusma a zagalote!

Fui ver. Era Vitória, a Prostituta.
E Milhares delas, Deus meu!
Papoilas saltitantes em catadupa,
Não sobrou artéria enxuta
Choveram dum menstruado céu!

Olho-as através da vidraça
Que plantas vis, que focinhos!
Autorizou Deus esta desgraça
Encheu-se de lixo a praça
A gloriar onze aleijadinhos!

Fico olhando esses vegetais
uma palha toda aos pinotes;
Filhos de incógnitos pais
e da Vitória são mais que mais,
entre anões vesgos e alcagotes.

E ceguinhos, de negro vestidos,
Chilreiam ao longe rouxinóis
do apito, pobres vendidos.
E juízes da liga, fiéis amigos
Com bandeirinhas e cachecóis.

Quem já é perdedor
Que sofra tormentos, enfim!
Mas estas papoilas, Senhor...
Porque deferes tamanho horror?
Vão cagar cães neste jardim!

Em terra de tretas, não foi surpresa.
Resta, profunda, a convicção...
Para o ano vai ser uma beleza:
Para as Paraolimpíadas, com certeza,
Já temos o Paracampeão.


Agora digam lá que eu não sou um bom desportista?!...

PS: E com esta, ó Caguinchas, ficamos quites.

domingo, maio 22, 2005

O Sítio do "Foda-se!"


Emocionado com o surto de patriotismo abrupto que grassa na paróquia, dei comigo incendiado de projectos e ideias, cada qual mais deslumbrante que a anterior.
Em primeiro lugar, e assim de chofre, ocorreu-me, vejam lá bem, organizar o "Sítio do Bardamerda!": Bardamerda, o sim! Bardamerda os nãos do BE e do PCP! E bardamerda também o "Não alternativo" (ou será "alternadeiro") do Pacheco arrependido. Bardamerda ainda a Europa, os Estados Unidos, a China e o Burkina Fasso! Bardamerda igualmente as Ilhas Fidgi. Puta que as pariu!...
Mas como as pessoas iriam dizer :"Lá está o ferrabrás do Dragão a incinerar a torto e a direiro, raios o partam!", e como eu me preocupo muito com o que as pessoas pensam, e com o que as pessoas dizem, e com o que as pessoas comentam, decidi, a bem da nação, não organizar um sítio desses. Cruzes credo, valha-nos Deus! Benzamo-nos. Nosso Senhor vos abençoe, Ilhas Fidji!...Que Santa Quitéria te proteja, Burkina Fasso!...
Ultrapassado este inicial e destrambelhado ímpeto, preparei-me para a segunda vaga. Para grande regalo meu, esta não tardou: em menos de nada, dei comigo a congeminar e rusgar patrocínio para o "Sítio do Foda-se!" Rica ideia, pensei: O "Sítio do Foda-se!" deve dar um jeitão do carulho. O "Sítio do Foda-se!"- que consolo para o indígena!- se não é o paraíso, anda lá perto. A malta, com um sítio destes, até vai reconsiderar na mania de torrar divisas na estranja: atraca-se nele, no "Sítio do Foda-se"(abençoadinho!), como numa daquelas roulotes de beira de estrada, e nunca mais de lá sai.
Inebriado com tamanho desarrincanço, entreguei-me ao requinte de imaginar até uma frota de varinas, com giga cor de bandeira à cabeça, a apregoarem, à boa moda antiga, por toda a cidade (Alfama, Graça e Mouraria, entenda-se; que o resto é paisagem):« "Olha o "sítio do Foda-se!" Olha, a fava rica! Olha, o rajá fresquinho! Olha o "Sítio do Foda-se!"»
E as matronas, a mascar tremoço, das janelas, debruçando as abundantes tetas, inquiriam:
-"É fresco, o "Sítio do Foda-se!"?...
-"Se é fresco, freguesa?! – esganiçavam-se as peixeiras. – Mais fresquinho não há, ó santa! Foi acabadinho de pescar ali no Trancão!"
Flanava eu neste admirável idílio e quem é que me entra pela cabeça adentro, vindo lá dos esconsos da memória, a dar de pé-coxinho na trotinete da mesma: o cidadão português, nem mais. O próprio, esse cabrão mesmo. Retinto e escarrado, como não há outro. E em que propósitos bizarramente adicionais se me exibia o tratante? Passo a enumerar:
1.Embasbacado diante do telejornal e da bocarra descomunal da Moura Guedes (a chamada abertura pluribroche), que brama ele? - "Foda-se!", nem mais.
2.Diante do quiosque da jornais, mirando as parangonas, em despique com a pornografia (passe a redundância), que proclamação emite? – "Foda-se!", de novo.
3.Escutanto as habilidades do governo recém-eleito, seja ele qual for, que sumo deita? –"Foda-se!", outra vez.
4.Defronte do filho adolescente, trespassado de ferragens, enfiado num saco de batatas a fazer de calças, curtindo um ruído desfolhante qualquer, que comentário lhe ocorre? – "Foda-se!", ainda e sempre.
Pois é, onde quer que pare, que interrompa momentaneamente o estado de mineral obtuso em que cristaliza, e se entregue, por breve lapso, à contemplação do rilhafoles em que rabia, a sua linguagem, três mil anos de civilização, sintetizam-se, embrulham-se, escoam-se pelo ralo dessa imprecação reflexiva: "Foda-se!" Ou quando muito: "Foda-se e refoda-se!", ou seja, reflexiva e reforçada.
"Foda-se!, não me contive também eu, locupletado de frenesim tribal e brio patriótico, de exclamar. "Este meu "Sítio do Foda-se!" seria uma puta duma redundância! Portugal, diabos o levem, já é um sítio do foda-se de pleno direito e feição. Direi mais: Existisse uma Organização das Nações Unidas do "Foda-se!" e Portugal teria assento permanente no Conselho de Segurança, com prerrogativa exclusiva de veto e presidência vitalícia. Ou por outras palavras: No planeta "Foda-se!", Portugal é a super-potência hegemónica. Somos uma espécie de Estados Unidos do "Foda-se!". E dedicamo-nos, com devoção única, à cruzada benfeitora de, à bomba se necessário for, instaurar o regime do "Foda-se!" em toda a parte. Quer dizer, torna-se cada vez mais patente: consagramo-nos agora à Expansão do "foda-se!", como noutros eras não menos épicas nos devotávamos, segundo dizem, à Expansão da Fé. Penso que temos fé no "Foda-se!". Pois. Mas, entretanto, percebi que não fazia qualquer sentido criar um sítio que já existe.
Com grande pesar meu, derreteu-se-me a cera onírica das asas e despenhei-me vertiginosamente na realidade. De facto, meus irmãos, o "Foda-se!" está por todo o lado e só não se escuta -com a contundente acrimónia que a sua cavernura exige -, nos locais em que, precisamente, infatigavelmente, se trabalha no burilar de motivos para a sua erupção. Isto é: No âmago de todos aqueles que, delicados, não o proferem, porque, na verdade, estão intensamente compenetrados a criar e multiplicar ensejos para a sua proliferação desenfreada.
Diante de tão elementar constatação, lá tive que me dedicar à pesca de outros empreendimentos. O que vale é que me estruge na cachimónia um mar fértil, rico em plâncton e livre de arrastões espanhóis. Num ápice, com um puxão vigoroso, já eu retirava das águas generosas um belo e luzidio exemplar, um projecto todo garboso não menos digno de sponsorização (que bela palavra moderna!): nada mais nada menos que o "Sítio do Sinão". O "sítio do Sinão" é que é. Viva o Sítio do Sinão! Quer dizer, o sítio do Sim e do Não, conforme nos convenha. Ou seja:
Quando é para meter ao bolso, para receber subsídios, para fartar vilanagem, para andar no laró e na galhofa, no bota-abaixo, não tem nada que saber: dizemos sim. Quando é para trabalhar, para assumir responsabilidades, para prestar contas, para cumprir o prometido, não tem nada que enganar: dizemos não.
Eu já sabia, e o povo também, que existiam os pobres e mal agradecidos. Que, afinal, o provérbio também se aplica às putas, estamos todos a descobri-lo agora.

Aproveito para esclarecer que eu era pelo não aquando da adesão. Pobres mas honrados, sempre pensei e continuo a pensar. Portanto, sobre este assunto a minha moral é a de sempre e continua intacta.
Mas agora, aqueles que vestiram a pátria de mini-saia, que a puserem a mascar pastilha à esquina da viela, que rejubilaram com a clientela ricalhaça em romaria, que celebraram a ascensão ao hotel finaço, que embolsaram as notas do pagamento com volúpia, que se congratularam quando ela se despiu e deitou a jeito, agora, pasme-se, quando só falta o corolário e chegou a hora de, enfim, abrir as pernas, desatam com reclamações e esquisitices!...Pior: argumentam que não querem que a puta case. Sorte da rameira ou azar deles? Dá-lhes cabo do negócio?...
Sim, imagine-se, os chulos da pátria tomaram ares de empresários do pudor! Disfarçam-se de cidadãos moralistas, sentinelas do exército da dignidade e bons costumes!...Agora, que a quenga está gasta e a clientela até dá sinais de começar a perder o interesse...
Ai ele é isso? Então, caros leitores, retiro o que disse: Não é ao "Sítio do Sinão" que vou aderir. É mesmo ao do "foda-se!"
Foda-se!!
Pode não ser o cúmulo da originalidade, pode até ser redundante. Mas alivia.

sábado, maio 21, 2005

Aforismo piedoso

Espectáculo deplorável: o de um homem castrado pelas suas próprias e grandiloquentes certezas.