Por súplica e rogo de várias famílias, decidi aumentar o Dicionário Sumaríssimo. Uma vez sem exemplo, ecutei o clamor das massas e apiedei-me. À falta duma bomba H, aqui vos deixo o Shelltox Concise, com uma especial dedicatória a todos os blogueres (ou bloguistas) pensantes.
ABERRAÇÃO, s.f., outrora, anormalidade anatómica, fisiológica ou psicológica; actualmente, o seu antónimo; nas sociedades modernas: vantagem decisiva; assunto prioritário na agenda política
ABORTO s.m., despejo voluntário; desembaraço; confusão entre embrião e fezes; ver também autoclismo
ABISMO s.m., precipício de que se desconhece o fundo; défice público; teleologia capitalista; dívida externa Norte-Americana; contravalor real do dólar
ACASO s.m., conjunto de factos sem causa aparente; o universo segundo a ciência; o país segundo os políticos
ACÉFALO adj., que não tem nada dentro da cabeça, fora uma substância gelatinosa, amorfa, adesiva e a fervilhar opiniões decalcadas de modelos à venda nas lojas da
Especialidade
AÇOUGUE s.m., lugar onde se vende carne; matadouro; planeta Terra
ACULTURAÇÃO s.f., adopção de nascituros ou incubações mentais alheias por indivíduos, casais, famílias ou mesmo povos estéreis
ADESÃO s.f., via ou expediente com intuito de enriquecimento ou contrapartida financeira
AGNOSTICISMO s.m., doutrina segundo a qual o espírito humano ainda se encontra impossibilitado de alcançar sobre certos fenómenos, como, por exemplo, a sua própria existência
AGNÓSTICO 1. adj., relativo ao agnosticismo; 2. s.m., indivíduo pleonástico que desconhece o Desconhecido e conhece o conhecido; ateu tímido
AGORAFOBIA s.f., receio mórbido dos largos espaços vazios (rua, praça, próprio cérebro, Via Láctea, afectividade, sentido da vida nas sociedades de consumo, etc)
ALIENÍGENA adj., pato-bravo; novo-rico; neo-escravo; humanidade do amanhã
ALFOBRE s.m., viveiro de pequenos nabos, cabeças de alho e hortaliças (todas excepto tomates) para transplante; juventude partidária
ALGOFILIA s.f., perversão instintiva que consiste na apetência da dor física
ALGÓFILO adj. e s.m., que ou o que sofre de algofilia; frequentador compulsivo de discotecas; adepto de alguns clubes de futebol
ALTERNE s.m., vida interna num partido político
ALUCINOGÉNEO adj. que provoca alucinações; Poder; cargo público no executivo ou legislativo da nação
ALUGUER s.m., contrato de locação de uma coisa móvel; matrimónio hodierno ocidental por oposição ao matrimónio antigo (de aquisição)
ALUNAR v., descer na lua; chegar (o líder político ao
comício partidário)
ALUNO s.m., cobaia; facínora; algoz; vítima; papagaio; eunuco; pulha (varia com a posição geográfica e o respectivo antónimo: professor)
AMBIDESTRO adj., onanista compulsivo e maníaco-digressivo
AMBISSINISTRO adj., desastrado de ambas as mãos; onanista frustrado; pianista de jazz ou dodecafónico
AMNÉSIA s.f., perturbação drástica da memória, sobretudo em políticos vitoriosos após sufrágio universal
AMOR s.n., palavra com quatro letras; arcaísmo; ultimamente, sentimento que nos impele para objectos valiosos ou para pessoas que se façam acompanhar desses objectos
ANALFABETO adj., que não sabe ler nem escrever
ANALFABRUTO adj., que só lê baboseiras e escreve porcarias
ANDROFOBIA s.f., aversão por tudo o que seja conotado com virilidade; doutrina predominante nas democracias liberais de inspiração anglo-saxónica; condição sine qua non para a sobrevivência da criptotirania global capitalista
ANDROPAUSA s.f., conjunto de alterações fisiológicas e psicológicos que outrora ocorriam no homem entre o 50 e os 70 anos mas que agora irrompem precocemente, e cada vez mais com maior frequência, a partir dos 10 anos
ANESTESIA s.f., supressão temporária da sensibilidade, mediante técnicas utilizadas em cirurgia, propaganda, religião, marketing, etc, para fins operatórios, exploratórios, terapêuticos, hemobdélicos, cleptomaníacos, estupefacientes e outros
ANSIOLÍTICO adj., que liberta da ansiedade; romaria compulsiva e hebdomadária a Centro Comercial
ANTICONCEPTIVO adj., meio mecânico ou químico destinado a possibilitar gruponanismos ou relações genitais efémeras e inopinadas; sodomia
ANTROPÓFAGO adj., membro duma tribo global particularmente feroz, faminta e que tem por totem sagrado uma montanha de bosta levedante que idolatram, sobre a qual sacrificam as suas vítimas e a que chamam “Mercado”
ANTROPOLATRIA s.f., adoração de um ser humano como se fosse deus; forma de idolatria frenética comum aos alienados em futebol, imprensa pink, música pop, cinema americano, arte moderna, etc
APELIDO s.m., detalhe essencial do Curriculo Vitae; garantia vitalícia de mordomia, apanágio ou sinecura
APOCATÁSTESE s.f., revolução periódica que reconduz os astros ao ponto de onde partiram; óbito e funeral das vedetas, ídolos, figuras públicas e similares
ARROTO s.m., expulsão ruidosa de gases do estômago pela boca; eructação; opinião do vulgo, que, nas academias, por arreveso, adquire ouropéis de erudição ; parecer debitado por especialista em programa de informação televisivo, radiofónico ou artigo impresso
ASININO adj., próprio de asno; voto útil
ASNÓDROMO s.m., recinto dedicado às competições, por correria, de asnos; campanha eleitoral; parlamento, assembleia municipal
ASSUADA s.f., reportagem de choque televisiva
ASTASIA s.f., dificuldade ou impossibilidade de conservar o corpo erecto ou de permanecer de pé; principal política do Estado em Portugal; propensão vertiginosa e mórbida para rastejar
ATMOSFERA s.f., camada gasosa para onde se lançam venenos e toda a espécie de poluentes; aero-lixeira
ATORDOAR v.tr., seduzir; persuadir
ATROCIDADE s.f., quando praticada por anglo-saxónicos ou israelitas: acto benemérito, filantropia, etno-pedagogia; por outros: crueldade abominável, genocídio
AUTISMO s.m., estado mental caracterizado por uma concentração mórbida do indivíduo sobre si mesmo; alheamento da realidade externa ao sujeito; gnoseologia neoliberal
AUTÓCLISE s.f., seringa de jacto permanente que serve para uma pessoa dar clisteres a si própria; controlo remoto do televisor
AUTOCLISMO s.m., descarga; interrupção voluntária da gravidez
AUTOFLAGELAÇÃO s.f., singular forma de penitência do povo potuguês; eleições; depositar o voto na urna
AUTÓMATO s.m., pessoa inconsciente que obedece à vontade de outrém; consumidor; eleitor
AUXOLOGIA s.f., estudo geral do crescimento dos seres vivaços e respectivas fortunas
AUTÓPSIA s.f., referendo; sondagem; inquérito à opinião pública
AZEMEL s.m., condutor de azémolas; almocreve; secretário-geral ou presidente de partido
Dentro em breve, a letra B.
domingo, janeiro 09, 2005
sexta-feira, janeiro 07, 2005
Dicionário Dragoniano Sumaríssimo
Aqui deixo a Primeira Edição desta ferramenta indispensável ao passageiro deste caos (cada vez mais desorganizado) em que se vai transformando o nosso mundo e, por arrasto, o nosso país.Que vos faça bom proveito!...
AMIBA s.f., protozoário livre, comensal ou parasita, constituído por uma única célula mental nua que muda de forma por emissão de pseudópodes, comum nas águas dos charcos, pântanos e da vida pública portuguesa; também paradigma para a emulação popular
ANARQUIA s.f., forma unilateral de governação; meta da democracia
ATEÍSMO s.m., estirpe particularmente virulenta da imbecilidade; doutrina que professa uma crença beata na ciência
ATEU s.m., sectário que vocifera contra aquilo que não compreende
BLENORRAGIA s.f., inflamação purulenta das membranas mucosas e, no caso mais grave e aberrante, do próprio encéfalo. Neste caso, também conhecido popularmente por escantamento mental ou, na forma erudita, neoliberalismo
BOMBARDEAR v. tr., (com bombas ou mentiras) democratizar de urgência; reduzir à mendicidade espiritual; americanizar
CLEPTOMANIA s.f., inclinação mórbida para o roubo;
CLEPTOCRACIA s.f., sistema político em que a autoridade emana de cleptómanos; regime que, sob os mais variados disfarces ou avatares, avassala a predilecção dos países modernos
DEMAGOGO s.f., antónimo de Demagago; indivíduo que excita as paixões do povo, gloriando-se como paladino dos seus interesses, mas almejando apenas a prossecução dos seus desígnios escusos; sectário
DEMOCRACIA s.f., sistema político em que a autoridade emana de demagogos e respectivas seitas mais ou menos secretas; forma suavizada de pandemónio; governo levado do diabo: forma geralmente camuflada de oclocracia
DESENVOLVIMENTO s.m., subterfúgio para roubar as pessoas e atentar contra a Natureza e a paisagem
DIREITA s.f., o mesmo que esquerda, mas do outro lado do patamar
ELEIÇÃO s.f., esquema fraudulento, em regime de alternância, de manutenção de privilégios, prebendas e mordomias; forma mais ou menos sofisticada de fraude
EMPRESA s.f., mistério profundo; sucedâneo da família; em pequenas dimensões: forma mais ou menos demorada de suicídio
EMPRESÁRIO s.m., habitante da empresa; otário; esquizofrénico
ESQUERDA s.f., O mesmo que direita, só que na porta em frente
ESTUPIDEZ s.f., estado de graça; vantagem social decisiva
EVOLUÇÃO – s.f., deterioração; sofisticamento da depredação; ruína mental
GESTÃO s.f., pretexto para falência ou delapidação; expediente ou recurso empregue por biscateiros diplomados com o intuito de defraudarem os contribuintes, as finanças públicas, os operários e a credulidade dos respectivos progenitores; forma de conspiração contra a teoria Darwiniana das espécies
GESTOR s.m., indivíduo que vive de gestão
HIENA s.f., mamífero carnívoro, feroz e devorador de carne putrefacta, que vive por todo o lado, excepto nos polos; jornalista; telespectador
HOMEM s.m., mamífero primata, bípede, sociável, que se distingue de todos os outros animais pelo dom da palavra, pelo desenvolvimento intelectual e pelo facto de ser imaginário; da família dos seres mitológicos, como unicórnios, grifos e dragões
HOMOSSEXUAL adj., infrutífero, impotente, débil; indivíduo que sente atracção por indivíduos do próprio sexo, de preferência ricos; heteromasturbador compulsivo e obsessivo
HOMOSSEXUALIDADE s.f., forma alargada ou corolário lógico do matrimónio burguês
HORÓSCOPO s.m., análise política em Portugal
ILUSÃO – s.f., qualquer erro proveniente de uma aparência falsa; erro de percepção que consiste em tomar um objecto por outro; logro
ILUMINISMO s.m., o mesmo que ilusionismo
ILUSIONISMO s.m., arte de produzir ilusões; prestidigitação; expediente para engazupar basbaques, simplórios e papalvos
LENGALENGA s.f., alocução presidencial; linguagem das lesmas
LENOCÍNIO s.m., principal método de selecção entre políticos; preliminares do parlamentarismo
LESA-MARISCO (crime de) s.m., crime contra a sagrada burrocracia ou contra qualquer membro seu ou mordomia instituída
LIBERALISMO –s.m., grave distúrbio endocrinológico caracterizado por uma ausência crónica de testosterona (sintomas: disfunção eréctil, incontinência verbal, hipertrofia esfincterial, erotomania, etc)
LUZE-CU s.m., ver Pirilampo.
MACIÇO adj., imaginário, putativo
MAFIA s.f., nos países meridionais: estirpe benigna da "Administração Pública"; nos Estados Unidos: estrutura superior do Estado
MAGAREFE s.m., confunde-se cada vez mais com o termo "médico" ou "mecânico"
MANIA s.f., síndrome mental caracterizada por uma exaltação eufórica do humor, uma excitação psíquica com hiperactividade, insónia, etc., e, às vezes, por uma agitação motora mais ou menos acentuada (dança, gesticulação, etc); adolescência
MANÍACO adj., adolescente; político em campanha
MANIQUEÍSMO s.m., religião universal predominante e extremamente contagiosa
MASCULINO adj., com a cabeça a prémio; objecto de extermínio
MATERIALISMO s.m., variante aguda de preguiça mental
MODERNIZAÇÃO s.f., muleta retórica de que se socorrem aleijados mentais para efeitos deambulatórios
NARCOTRÁFICO s.m., tráfico ou negócio de estupefacientes; mass-media; publicidade
NEFELIBATA adj., pessoa ou designativo de pessoa que anda nas nuvens; longe da realidade; membro do governo, em Portugal
NEUROPATA s. 2 gén. Indivíduo afectado de perturbações mentais discretas, habitualmente compatíveis com a vida em sociedade; cidadão da comunidade europeia
OCLOCRACIA s.f., forma suavizada de balbúrdia e babelismo político; tumulto organizado PARLAMENTARISMO, s.m., o mesmo que palramentarismo
POLÍTICA s.f., palavrão; obscenidade extremamente grosseira; foder indiscriminadamente
PIRILAMPO s.m., intelectual
PSICÓLOGO s.m., adivinho; bruxo; cartomante; áugure
PSICOPATA s. 2 gén. Que padece de psicose; cidadão norte-americano
PSICOSE s.f., doença mental que afecta gravemente a relação do sujeito com a realidade e de cujo carácter mórbido o paciente não tem consciência
PUBLICIDADE s.f., forma massificada e difusa de lobotomia, legalizada e extremamente eficaz
QUADRILHA s.f., forma mais usual de associação política
RACIONAL adj., absurdo em que se acredita, desde que traduzível em linguagem numérica
RAZÃO s.f., faculdade de cálculo; justificação para qualquer coisa, especialmente coisas que a inteligência verifica que não têm justificação
RELAPSIA s.f., regime obrigatório de eleição em Portugal
REVOLUÇÃO s.f., esquema desembaraçado de promoção social
SABUJO s.m., funcionário de carreira
SÍMIO s.m, nome com que vulgarmente se designam o mono, o macaco, o bugio e alguns empreiteiros de obras públicas
SIMULAÇÃO s.f., ocupação predilecta dos governantes putativamente eleitos pelo povo
SOCIALISMO s.m., doutrina que defende o predomínio da sociedade sobre o indivíduo e de algumas famílias sobre a sociedade; ver também ilusionismo
SOFISTICADO adj., adulterado; jactante
SÚCIA s.f., malta do jet-set
SUÍNO adj., relativo a burguês
TÓXICO adj., que tem a propriedade de envenenar; praga artística ou literária infestante; método de trabalho entre historiadores
TOXICOMANIA s.f., hábito mórbido e tirânico de utilizar produtos tóxicos de efeitos sedativos, euforizantes ou estupefacientes; regime de vida nas sociedades designadas de modernas
UNIVERSIDADE s.f., sítio mal frequentado; tugúrio; incubadora de serpentes
UNIVERSO s.m., versão única das coisas
VANILÓQUIO s.m., conversa, entrevista ou debate transmitidos pela rádio ou televisão
XENOFOBIA s.f., antipatia pelas pessoas pobres estrangeiras, mas não pelas coisas
XENOMANIA s.f., mania de desprezar o que é nacional, porque é pobre, e de gostar do que é estrangeiro porque é rico e fica nos melhores hotéis
ZOOFILIA s.f., cópula com animais irracionais; endémico na classe média
AMIBA s.f., protozoário livre, comensal ou parasita, constituído por uma única célula mental nua que muda de forma por emissão de pseudópodes, comum nas águas dos charcos, pântanos e da vida pública portuguesa; também paradigma para a emulação popular
ANARQUIA s.f., forma unilateral de governação; meta da democracia
ATEÍSMO s.m., estirpe particularmente virulenta da imbecilidade; doutrina que professa uma crença beata na ciência
ATEU s.m., sectário que vocifera contra aquilo que não compreende
BLENORRAGIA s.f., inflamação purulenta das membranas mucosas e, no caso mais grave e aberrante, do próprio encéfalo. Neste caso, também conhecido popularmente por escantamento mental ou, na forma erudita, neoliberalismo
BOMBARDEAR v. tr., (com bombas ou mentiras) democratizar de urgência; reduzir à mendicidade espiritual; americanizar
CLEPTOMANIA s.f., inclinação mórbida para o roubo;
CLEPTOCRACIA s.f., sistema político em que a autoridade emana de cleptómanos; regime que, sob os mais variados disfarces ou avatares, avassala a predilecção dos países modernos
DEMAGOGO s.f., antónimo de Demagago; indivíduo que excita as paixões do povo, gloriando-se como paladino dos seus interesses, mas almejando apenas a prossecução dos seus desígnios escusos; sectário
DEMOCRACIA s.f., sistema político em que a autoridade emana de demagogos e respectivas seitas mais ou menos secretas; forma suavizada de pandemónio; governo levado do diabo: forma geralmente camuflada de oclocracia
DESENVOLVIMENTO s.m., subterfúgio para roubar as pessoas e atentar contra a Natureza e a paisagem
DIREITA s.f., o mesmo que esquerda, mas do outro lado do patamar
ELEIÇÃO s.f., esquema fraudulento, em regime de alternância, de manutenção de privilégios, prebendas e mordomias; forma mais ou menos sofisticada de fraude
EMPRESA s.f., mistério profundo; sucedâneo da família; em pequenas dimensões: forma mais ou menos demorada de suicídio
EMPRESÁRIO s.m., habitante da empresa; otário; esquizofrénico
ESQUERDA s.f., O mesmo que direita, só que na porta em frente
ESTUPIDEZ s.f., estado de graça; vantagem social decisiva
EVOLUÇÃO – s.f., deterioração; sofisticamento da depredação; ruína mental
GESTÃO s.f., pretexto para falência ou delapidação; expediente ou recurso empregue por biscateiros diplomados com o intuito de defraudarem os contribuintes, as finanças públicas, os operários e a credulidade dos respectivos progenitores; forma de conspiração contra a teoria Darwiniana das espécies
GESTOR s.m., indivíduo que vive de gestão
HIENA s.f., mamífero carnívoro, feroz e devorador de carne putrefacta, que vive por todo o lado, excepto nos polos; jornalista; telespectador
HOMEM s.m., mamífero primata, bípede, sociável, que se distingue de todos os outros animais pelo dom da palavra, pelo desenvolvimento intelectual e pelo facto de ser imaginário; da família dos seres mitológicos, como unicórnios, grifos e dragões
HOMOSSEXUAL adj., infrutífero, impotente, débil; indivíduo que sente atracção por indivíduos do próprio sexo, de preferência ricos; heteromasturbador compulsivo e obsessivo
HOMOSSEXUALIDADE s.f., forma alargada ou corolário lógico do matrimónio burguês
HORÓSCOPO s.m., análise política em Portugal
ILUSÃO – s.f., qualquer erro proveniente de uma aparência falsa; erro de percepção que consiste em tomar um objecto por outro; logro
ILUMINISMO s.m., o mesmo que ilusionismo
ILUSIONISMO s.m., arte de produzir ilusões; prestidigitação; expediente para engazupar basbaques, simplórios e papalvos
LENGALENGA s.f., alocução presidencial; linguagem das lesmas
LENOCÍNIO s.m., principal método de selecção entre políticos; preliminares do parlamentarismo
LESA-MARISCO (crime de) s.m., crime contra a sagrada burrocracia ou contra qualquer membro seu ou mordomia instituída
LIBERALISMO –s.m., grave distúrbio endocrinológico caracterizado por uma ausência crónica de testosterona (sintomas: disfunção eréctil, incontinência verbal, hipertrofia esfincterial, erotomania, etc)
LUZE-CU s.m., ver Pirilampo.
MACIÇO adj., imaginário, putativo
MAFIA s.f., nos países meridionais: estirpe benigna da "Administração Pública"; nos Estados Unidos: estrutura superior do Estado
MAGAREFE s.m., confunde-se cada vez mais com o termo "médico" ou "mecânico"
MANIA s.f., síndrome mental caracterizada por uma exaltação eufórica do humor, uma excitação psíquica com hiperactividade, insónia, etc., e, às vezes, por uma agitação motora mais ou menos acentuada (dança, gesticulação, etc); adolescência
MANÍACO adj., adolescente; político em campanha
MANIQUEÍSMO s.m., religião universal predominante e extremamente contagiosa
MASCULINO adj., com a cabeça a prémio; objecto de extermínio
MATERIALISMO s.m., variante aguda de preguiça mental
MODERNIZAÇÃO s.f., muleta retórica de que se socorrem aleijados mentais para efeitos deambulatórios
NARCOTRÁFICO s.m., tráfico ou negócio de estupefacientes; mass-media; publicidade
NEFELIBATA adj., pessoa ou designativo de pessoa que anda nas nuvens; longe da realidade; membro do governo, em Portugal
NEUROPATA s. 2 gén. Indivíduo afectado de perturbações mentais discretas, habitualmente compatíveis com a vida em sociedade; cidadão da comunidade europeia
OCLOCRACIA s.f., forma suavizada de balbúrdia e babelismo político; tumulto organizado PARLAMENTARISMO, s.m., o mesmo que palramentarismo
POLÍTICA s.f., palavrão; obscenidade extremamente grosseira; foder indiscriminadamente
PIRILAMPO s.m., intelectual
PSICÓLOGO s.m., adivinho; bruxo; cartomante; áugure
PSICOPATA s. 2 gén. Que padece de psicose; cidadão norte-americano
PSICOSE s.f., doença mental que afecta gravemente a relação do sujeito com a realidade e de cujo carácter mórbido o paciente não tem consciência
PUBLICIDADE s.f., forma massificada e difusa de lobotomia, legalizada e extremamente eficaz
QUADRILHA s.f., forma mais usual de associação política
RACIONAL adj., absurdo em que se acredita, desde que traduzível em linguagem numérica
RAZÃO s.f., faculdade de cálculo; justificação para qualquer coisa, especialmente coisas que a inteligência verifica que não têm justificação
RELAPSIA s.f., regime obrigatório de eleição em Portugal
REVOLUÇÃO s.f., esquema desembaraçado de promoção social
SABUJO s.m., funcionário de carreira
SÍMIO s.m, nome com que vulgarmente se designam o mono, o macaco, o bugio e alguns empreiteiros de obras públicas
SIMULAÇÃO s.f., ocupação predilecta dos governantes putativamente eleitos pelo povo
SOCIALISMO s.m., doutrina que defende o predomínio da sociedade sobre o indivíduo e de algumas famílias sobre a sociedade; ver também ilusionismo
SOFISTICADO adj., adulterado; jactante
SÚCIA s.f., malta do jet-set
SUÍNO adj., relativo a burguês
TÓXICO adj., que tem a propriedade de envenenar; praga artística ou literária infestante; método de trabalho entre historiadores
TOXICOMANIA s.f., hábito mórbido e tirânico de utilizar produtos tóxicos de efeitos sedativos, euforizantes ou estupefacientes; regime de vida nas sociedades designadas de modernas
UNIVERSIDADE s.f., sítio mal frequentado; tugúrio; incubadora de serpentes
UNIVERSO s.m., versão única das coisas
VANILÓQUIO s.m., conversa, entrevista ou debate transmitidos pela rádio ou televisão
XENOFOBIA s.f., antipatia pelas pessoas pobres estrangeiras, mas não pelas coisas
XENOMANIA s.f., mania de desprezar o que é nacional, porque é pobre, e de gostar do que é estrangeiro porque é rico e fica nos melhores hotéis
ZOOFILIA s.f., cópula com animais irracionais; endémico na classe média
Publicada por
dragão
à(s)
1/07/2005 09:16:00 da tarde
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terça-feira, janeiro 04, 2005
Indiana Qualquer-Coisa
Falhou a pantera, mas acertou no leão. Abateu três elefantes e só então o rinoceronte lhe virou o Jeep. Fez meio deserto num camelo e o resto numa avestruz. Escapou miraculosamente aos tuaregues e, por pouco, não era abocanhado por um crocodilo.
Encontrou-a, por fim, deslumbrante, às margens do Nilo.
Acabando de estrangular a jibóia, encarou-a, pupilas nas pupilas, numa promessa inequívoca de orgasmos eternos. Ela estatuiu-se, hipnotizada, a babar-se. Ele, num rompante másculo e dinâmico, sacudiu a tarântula do ombro, rebentou os botões da braguilha (ou o fecho éclair, se preferirem) e lançou-se, em voo picado, qual falcão peregrino, sobre tamanho portento da natureza. Rebolaram sobre a relva, num apocalipse de carícias, pulverizando roupas e esguichando urros. Dentro dele rugia um vulcão, dardejava um aríete; do lado dela pulsava um buraco negro, fremia todo um portal de volúpia. De como se entrechocaram, resfolegaram e, feitos hecatombe cósmica, refizeram as origens do Universo, deixo à imaginação do leitor.
Aproveitando uma pausa inopinada –enquanto ele corria a pontapé duas hienas mais atrevidas e esmurrava um gorila voyeur –, num momentâneo intervalo entre assaltos, ela foi buscar duas garrafas de coca-cola bem geladas.
Voltou em menos de nada, com as bebidas e um sorriso misterioso, giocondino. Ele, acabando de pôr KO o macacão, convergiu disposto a tudo.
Agarrou na garrafa que a beldade escultural lhe estendia e, voraz, solene, descomedido, a porejar testosterona, sacudiu um escorpião do bolso e verteu o refrigerante todo, dum gole só, através da goela sequiosa e consumptora. Ouviu-se um som frigitivo, a lembrar a efervescência do ácido sobre a pedra. Só então ele arregalou muito os olhos e desabou para a frente, em espasmos, palco duma congestão fulminante. Ou corrosão, tanto faz. Partiu o pescoço na queda, num nítido estalar das vértebras cervicais.
Quedou-se, por fim, lívido, hirto, definitivamente morto. Incapaz sequer de sacudir as formigas que trotavam já, ao assalto, por ele acima.
Ela foi colocar mais duas garrafas no congelador.
Quedou-se, por fim, lívido, hirto, definitivamente morto. Incapaz sequer de sacudir as formigas que trotavam já, ao assalto, por ele acima.
Ela foi colocar mais duas garrafas no congelador.
Acima de tudo, não gostava de ser apanhada desprevenida.
Publicada por
dragão
à(s)
1/04/2005 07:09:00 da tarde
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A Salvação das Aparências
Sentiu aquele repentino peso na cabeça, uma insuportável pressão no crânio a empurrá-lo para baixo, a atrai-lo ao chão, numa vertigem opressiva, alucinante!... Tentou, num derradeiro e sobre-humano esforço, manter-se erecto, vertical, enfim: salvar as aparências (sobretudo, abominava-lhe dar espectáculo, tornar-se alvo de olhares alheios, de basbaques sardónicos, gulosos de ridículo; imaginava-se já, com horror, no centro dum grande estardalhaço...) Mas não conseguiu:
-O Boeing 747, das Linhas Aéreas Ganenses, após um descontrolo inexplicável e no desfecho duma anti-espiral desgovernada, acertara-lhe mesmo em cheio na nuca.
Publicada por
dragão
à(s)
1/04/2005 02:39:00 da tarde
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domingo, janeiro 02, 2005
A Segunda Expulsão
E sai mais um conto irrisório, para começarmos bem o ano...
Partiu um dia para longe, de barco. À procura do paraíso, confessou aos amigos.
Encontrou uma ilha simpática, deserta, sozinha, no Pacífico Sul. Era aquilo mesmo, rejubilou. Tal qual como no seu sonho, o Paraíso, sem dúvida!...
Felicíssimo, exultante, desembarcou. Tratou de se instalar.
Acabava o telhado da palhota, quando lhe explodiu a bomba atómica mesmo debaixo dos pés.
E ainda nem sequer tinha comido nada, vejam lá bem!
Publicada por
dragão
à(s)
1/02/2005 09:23:00 da tarde
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sábado, janeiro 01, 2005
O Turismo Catastrófico
Acho que as agências de viagens portuguesas ainda não se aperceberam do filão que se insinua no horizonte. Ou então já e preparam-se para entesourar lucros fabulosos. Eu, no lugar delas, chilrearia de contentamento.
Refiro-me a uma nova modalidade de turismo que promete revolucionar roteiros e aspergir o luso basbaque em todas as direcções: o "Turismo Catastrófico".
A somar aos já tradicionais furacões das Caraíbas, surgem agora os maremotos no Índico. Além das potencialidades flagrantes para o "surf" e o "bodyboard", são, sobretudo, a mortandade e a destruição que atingem níveis espectaculares. O maremoto, a levar em conta a catadupa de imagens que diariamente vêm sendo despejadas pelos tele-basbaques de serviço, reúne num mesmo pacote enxurrada, inundação, desmoronamentos, desastres rodoviários, soterramentos, alúvios, descarrilamentos, e sei lá que outros prodígios interessantes. Em suma, um tal escaqueiramento de equipamentos, populações e infraestruturas, pelo menos com tal realismo, nem as mais desabridas megaproduções hollywoodescas, atravancadas de efeitos especiais, alcançam. E se pensarmos que todo aquele primor artístico foi puramente gratuito, realizado a custo zero, sem subsídios estatais nem produtores judaicos, sem cortes nem ensaios, pensado e executado em poucas horas, é de deixar qualquer um boquiaberto e estupefacto!...
Ainda mais o português que, como é bem sabido, mais que da natureza, é um contemplador desaustinado dos desastres da natureza. Disso e de centros Comerciais, passe a redundância. Mas se puder ver desastres em centros comerciais, como por exemplo o oceano a varrer aquilo tudo, então óptimo, ainda melhor, junta o delírio à mania. Portanto, ao saber deste manancial fora de portas, é mais que certo que nunca mais o seguram por cá. Mal lhe cheire a férias, a fim-de semana prolongado, ou mesmo sem ser prolongado, hei-lo de malas feitas para paragens exóticas, para terras convulsivas, com mares à solta, onde o espectáculo promete e a hecatombe se anuncia a letras gordas. Com que prazer desatará em filmagens do alto dos terraços, com que volúpia irá borboletear à babugem dos destroços, de roda dos presuntos, a mirar que nem um danado viúvas, desalojados e órfãos!... Com que enlevo peregrinará morgues e aterros mortuários, fortificando-se em óbitos e desgraças – tirando, enfim, a barriga de miséria da miséria dos outros! E se pensarmos que, naquela balbúrdia toda, de urbes inteiras de pantanas, de estâncias e resorts feitos em fanicos, até poderá remexer em sinistrados, garimpar desaparecidos e esgravatar entulhos, arriscamo-nos mesmo a que por lá fique, emigrado e enfeitiçado, sem querer saber mais dos reles desastres de auto-estrada cá da terriola. Se tanto, volta cá, em férias das férias, durante o verão, só por causa da época de incêndios. Isto, se algum furacão nas Américas ou terramoto na Turquia não o desviar, entretanto.
Em boa verdade, é difícil de imaginar, o quanto estes países bafejados pelos favores a atenções escaqueirantes da natureza podem lucrar, o dinheiro que não podem fazer com os nossos compatriotas!... A Tailândia, por exemplo, o melhor mesmo é ir desde já traduzindo para o idioma de Camões (aliás, para o idioma de Quim Barreiros, Emanuel e Toy) os menus, catálogos e tabuletas, porque aquilo, não tarda nada, vai fervilhar de portugueses esquadrinhadores, romeiros. Agora que junta, no mesmo package-tour, a pedofilia avulsa ao cataclismo épico, para o turista português médio, a fazer fé nas crónicas hodiernas, é todo um recanto da Terra que, num ápice, passou de atraente a paradisíaco.
E até há vulcões activos, sorrateiros, à espreita, fumegantes, não muito longe dali!...
Não é brincadeira nenhuma: Mais que a um turismo compulsivo, arriscamo-nos mesmo a uma emigração em massa. Migraram do interior para o litoral. Agora, ou muito me engano, ou emigram do litoral para a Tailândia.
Só cá ficam uns quantos nostálgicos, sonhadores inveterados... De 1755.
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dragão
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1/01/2005 04:01:00 da tarde
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sexta-feira, dezembro 31, 2004
Surpresa Tropical

Nesta passagem de ano, o Dragão dedica o irrisório conto que se segue a todos os turistas na diáspora e aos hedonistas em geral.
Divirtam-se! A vida é curta e a terra insaciável. Lambona!...
Preparou mais um whisky, puro, óptimo, doze anos. Saiu com o copo para a piscina.
O sol resplandecia, quente e confortável, saturando a paisagem com o seu hálito tropical. Sentiu a relva macia sob os pés. O Rolls, parado, cintilava nos cromados. Lá ao fundo, na alameda, entre as acácias, aproximavam-se dois descapotáveis, competindo. Deviam ser elas, as garotas. Sorriu...
Deslumbrado com o momento, radiante com o destino, apeteceu-lhe um mergulho. Tinha tempo. Todo o tempo. A vida era bela.
Poisou o copo. Subiu à prancha superior disposto a um voo espectacular. Memorável. O Porsche e o Cadillac chegavam nesse instante. Balançou-se e encarpou na atmosfera, por entre os raios de sol. Dois mortais ainda a ouvir aplausos...
Tocou a água tranquila num clarão faiscante, electrocutor.
Alguém ligara a piscina à Alta tensão.
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dragão
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12/31/2004 01:05:00 da tarde
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terça-feira, dezembro 28, 2004
A Denúncia da Usura
O Que é um Banco?
-Uma instituição de malefício público que se locupleta de vender às pessoas o seu (delas) próprio tempo e o seu (delas) próprio dinheiro.
Já devem ter percebido: é da usura que vos vou falar.
Diz o Código Civil, no seu artº282 (Negócios usurários): «1. É anulável, por escusa, o negócio jurídico, quando alguém, explorando a situação de necessidade, inexperiência, ligeireza, dependência, estado mental ou fraqueza de carácter de outrém, obtiver deste, para si ou para terceiro, a promessa ou concessão de benefícios excessivos ou injustificados.»
A usura é crime. E o Código penal, no seu artº.226, estipula-o:
«1. Quem, com intenção de alcançar um benefício patrimonial, para si ou para outra pessoa, explorando situação de necessidade, anomalia psíquica, incapacidade, inépcia, inexperiência, ou fraqueza de carácter do devedor, ou relação de dependência deste, fizer com que ele se obrigue a conceder ou prometa, sob qualquer forma, a seu favor ou a favor de outra pessoa, vantagem pecuniária que for, segundo as circunstâncias do caso, manifestamente desproporcionada com a contraprestação é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 120 dias. (...)
4. – O agente é punido com pena de prisão até 5 anos ou com pena de multa até 600 dias se
Fizer da usura modo de vida;
Dissimular a vantagem pecuniária ilegítima exigindo letra ou simulando contrato; ou
Provocar conscientemente, por meio da usura, a ruína patrimonial da vítima.»
Os factos:
A. Dos bancos:
Os bancos fazem da usura modo de vida;
Simulam contratos e exigem letras;
Provocam, fria e dolosamente, a ruína patrimonial das vítimas;
B. Das Vítimas dos Bancos:
1. Padecem de situação de necessidade (em grande parte dos casos, são jovens casais que doutra forma não conseguiriam acesso à habitação –direito consignado na Constituição); além disso, são desde tenra idade endrominados com a ideia de que o supérfluo é necessário. Ou melhor: tudo o que os grandes empórios e marcas oferecem é essencial. Não possuí-lo é fonte de assolapantes angústias existenciais, as únicas, de resto, admissíveis.
2. Encontram-se de psique alterada por via do bombardeamento ininterrupto de propaganda sedutora, onde os incitam e empurram a endividar-se, a qualquer preço, de todas as maneiras possíveis e imaginárias; são constantemente assediados por uma espécie de proxenetas financeiros que lhes exibem pornografia excitante e vaporizam perfumes afrodisíacos; vendem-lhes crédito como quem lhes vende heroína ou charros ao domicílio;
3. Fruto dessa intoxicação consumista, levada a cabo com a conivência e o beneplácito mais que escandalosos das autoridades, tornam-se crédito-dependentes. Zombificam, abdicam da própria liberdade e livre arbítrio, hipotecam o futuro, e entregam-se a uma servidão rastejante da dose, ou melhor dizendo: do juro. Incapazes, por clara debilidade mental, à partida, de discernirem o que verdadeiramente está em causa, atolar-se-ão cada vez mais nas areias movediças do mistifório e da vigarice, e acabarão tragados por um labirinto de cláusulas, micro-cláusulas e alçapões legais;
4. São geralmente ígnaros e ineptos em matéria financeira, ou em qualquer outra que transcenda a vida dos futebolistas, o enredo das novelas, o casamento dos príncipes, o último grito dos telemóveis e outras do mesmo jaez. Aderem infantilmente ou por compulsão osmótica às promoções irresistíveis que, em ubíqua algazarra, arautos e almocreves de todos os quadrantes proclamam. Junkies da publicidade, padecem, em fase terminal, de onerreia –isto é, de incontinência aquisitiva;
5. São comprovadamente inexperientes. Aliás, inexperientes é pouco: ingénuos, simplórios, totós, papalvos, é mais o termo. A facilidade com que desembestam atrás de qualquer ilusão, a tendência para confundir anseio com evidência, a facilidade com que se babam de roda de qualquer fábula, coloca-os praticamente num estado de completa vulnerabilidade a todo e qualquer charlatão. Mesmo parlapatões pouco mais que unicelulares não encontrarão grandes dificuldades para lhes venderem lotes em Marte ou nuvens na Austrália. Por esta altura, já compram a própria água que bebem e, adivinha-se, não tardará que paguem pelo próprio ar que respiram.
6. Referi-los como fracos de carácter é claramente um exagero. Na verdade, em termos de carácter, a definição correcta é "ausentes", ou "acaracterísticos". O carácter, em rigor, desempenha neles a mesma função que a vértebra nos moluscos. Não admira pois que, à inexperiência, se some a irresponsabilidade e se subtraia, quase de todo, a individualidade.
Concluindo:
Como é bem patente, o crime existe. É público e notório. Atenta contra a saúde mental e moral da população e mesmo contra a existência física do país. Sendo um crime público não carece de denúncia para que o Ministério Público proceda e investigue. Mais: é-lhe obrigatório fazê-lo. Então porque é que não se investiga?...
Só me ocorre uma explicação: pela mesma razão que não se procede contra a espoliação dos papalvos por parte da Igreja Universal do Reino de Deus. Ou seja, ao abrigo do pleno –e constitucionalmente sagrado - direito à Liberdade de Religião e Culto.
Afinal, não é usura: é cobrança do dízimo.
-Uma instituição de malefício público que se locupleta de vender às pessoas o seu (delas) próprio tempo e o seu (delas) próprio dinheiro.
Já devem ter percebido: é da usura que vos vou falar.
Diz o Código Civil, no seu artº282 (Negócios usurários): «1. É anulável, por escusa, o negócio jurídico, quando alguém, explorando a situação de necessidade, inexperiência, ligeireza, dependência, estado mental ou fraqueza de carácter de outrém, obtiver deste, para si ou para terceiro, a promessa ou concessão de benefícios excessivos ou injustificados.»
A usura é crime. E o Código penal, no seu artº.226, estipula-o:
«1. Quem, com intenção de alcançar um benefício patrimonial, para si ou para outra pessoa, explorando situação de necessidade, anomalia psíquica, incapacidade, inépcia, inexperiência, ou fraqueza de carácter do devedor, ou relação de dependência deste, fizer com que ele se obrigue a conceder ou prometa, sob qualquer forma, a seu favor ou a favor de outra pessoa, vantagem pecuniária que for, segundo as circunstâncias do caso, manifestamente desproporcionada com a contraprestação é punido com pena de prisão até 2 anos ou com pena de multa até 120 dias. (...)
4. – O agente é punido com pena de prisão até 5 anos ou com pena de multa até 600 dias se
Fizer da usura modo de vida;
Dissimular a vantagem pecuniária ilegítima exigindo letra ou simulando contrato; ou
Provocar conscientemente, por meio da usura, a ruína patrimonial da vítima.»
Os factos:
A. Dos bancos:
Os bancos fazem da usura modo de vida;
Simulam contratos e exigem letras;
Provocam, fria e dolosamente, a ruína patrimonial das vítimas;
B. Das Vítimas dos Bancos:
1. Padecem de situação de necessidade (em grande parte dos casos, são jovens casais que doutra forma não conseguiriam acesso à habitação –direito consignado na Constituição); além disso, são desde tenra idade endrominados com a ideia de que o supérfluo é necessário. Ou melhor: tudo o que os grandes empórios e marcas oferecem é essencial. Não possuí-lo é fonte de assolapantes angústias existenciais, as únicas, de resto, admissíveis.
2. Encontram-se de psique alterada por via do bombardeamento ininterrupto de propaganda sedutora, onde os incitam e empurram a endividar-se, a qualquer preço, de todas as maneiras possíveis e imaginárias; são constantemente assediados por uma espécie de proxenetas financeiros que lhes exibem pornografia excitante e vaporizam perfumes afrodisíacos; vendem-lhes crédito como quem lhes vende heroína ou charros ao domicílio;
3. Fruto dessa intoxicação consumista, levada a cabo com a conivência e o beneplácito mais que escandalosos das autoridades, tornam-se crédito-dependentes. Zombificam, abdicam da própria liberdade e livre arbítrio, hipotecam o futuro, e entregam-se a uma servidão rastejante da dose, ou melhor dizendo: do juro. Incapazes, por clara debilidade mental, à partida, de discernirem o que verdadeiramente está em causa, atolar-se-ão cada vez mais nas areias movediças do mistifório e da vigarice, e acabarão tragados por um labirinto de cláusulas, micro-cláusulas e alçapões legais;
4. São geralmente ígnaros e ineptos em matéria financeira, ou em qualquer outra que transcenda a vida dos futebolistas, o enredo das novelas, o casamento dos príncipes, o último grito dos telemóveis e outras do mesmo jaez. Aderem infantilmente ou por compulsão osmótica às promoções irresistíveis que, em ubíqua algazarra, arautos e almocreves de todos os quadrantes proclamam. Junkies da publicidade, padecem, em fase terminal, de onerreia –isto é, de incontinência aquisitiva;
5. São comprovadamente inexperientes. Aliás, inexperientes é pouco: ingénuos, simplórios, totós, papalvos, é mais o termo. A facilidade com que desembestam atrás de qualquer ilusão, a tendência para confundir anseio com evidência, a facilidade com que se babam de roda de qualquer fábula, coloca-os praticamente num estado de completa vulnerabilidade a todo e qualquer charlatão. Mesmo parlapatões pouco mais que unicelulares não encontrarão grandes dificuldades para lhes venderem lotes em Marte ou nuvens na Austrália. Por esta altura, já compram a própria água que bebem e, adivinha-se, não tardará que paguem pelo próprio ar que respiram.
6. Referi-los como fracos de carácter é claramente um exagero. Na verdade, em termos de carácter, a definição correcta é "ausentes", ou "acaracterísticos". O carácter, em rigor, desempenha neles a mesma função que a vértebra nos moluscos. Não admira pois que, à inexperiência, se some a irresponsabilidade e se subtraia, quase de todo, a individualidade.
Concluindo:
Como é bem patente, o crime existe. É público e notório. Atenta contra a saúde mental e moral da população e mesmo contra a existência física do país. Sendo um crime público não carece de denúncia para que o Ministério Público proceda e investigue. Mais: é-lhe obrigatório fazê-lo. Então porque é que não se investiga?...
Só me ocorre uma explicação: pela mesma razão que não se procede contra a espoliação dos papalvos por parte da Igreja Universal do Reino de Deus. Ou seja, ao abrigo do pleno –e constitucionalmente sagrado - direito à Liberdade de Religião e Culto.
Afinal, não é usura: é cobrança do dízimo.
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dragão
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12/28/2004 05:45:00 da tarde
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segunda-feira, dezembro 27, 2004
A Zurrapa
«Depois dos vazadouros autárquicos, lixeiras, sucatas, aterros sanitários e congressos partidários, os locais com maior densidade de lixo por metro quadrado são, sem sombra de dúvida, as livrarias.»
- Dragão
À laia de introdução:
O postal que se segue serve para explicar porque é que eu deixei de entrar em livrarias e passei a peregrinar alfarrabistas. Também considero que se alguém acertasse em cheio com um míssil na Feira do Livro, não se perdia grande coisa. Seria, certamente, um míssil inteligente. O único, alías, dessa estirpe, por aquelas bandas e evento, àquela hora.
Quando se pisa a uva, em pleno lagar, não é ainda vinho aquilo que se extrai. É apenas sumo. Dum sabor um tanto ou quanto adocicado e enjoativo. Se sorvido sem mais preâmbulos, pode causar dispepsias eméticas ou mesmo, em caso de abuso flagrante, diarreias agudas.
O vinho, não restam dúvidas, requer um tempo de maturação. E também recipiente adequado – madeira ou cuba que lhe refine o sabor.
É claro que também existe o vinho a martelo, que não requer nenhuma dessas minúcias. Basta ter a fórmula química, juntar os ingredientes, misturar bem –homogeneizar, estabilizar - e eis pronta para comercialização uma zurrapa altamente lucrativa. Mascara-se, trafica-se, o público agradece e o mercado justifica.
Quem diz o vinho, diz a literatura. Só que em vez de uvas são palavras. No resto, os processos de fabrico são semelhantes. E os resultados também.
Se a zurrapa a martelo arruina a figadeira, envenena o sangue e corrói as tripas, a zurrapa literária, paga a metro, vendida a granel, trata com idêntico malefício a mioleira.
É um crime contra a saúde pública? Pois é. Mas se o público gosta, se o comprador prefere...A coisa, por via de dogma mercantil, ganha contornos de decreto divino.
Ninguém se lembra de constatar que o público gosta daquilo que lhe vendem e compra aquilo que a publicidade lhe sugere ou que a emulação compulsiva com o filisteu do lado implica. Escolhe livremente dentro duma oferta pré-determinada que alguém, entretanto, fez por ele. O público, em boa verdade, faz lembrar uma vara de suínos em regime de internato rigoroso: não é propriamente apreciador de pérolas. Prefere substâncias mais aconchegantes: baldes de lavagem, de sobras e refugos amassados em farelo. Seja na forma de livro, de disco, de filme, ou até dessa frioleira que uns cognominam de blogue e outros mutilam à inglesa, a atracção fatal é sempre a mesma: o semelhante atrai o semelhante, a mixórdia encanta a turba.
De facto, não consta que haja falta de compradores para a heroína, nem para telemóveis que fritam os neurónios, já de si depauperados e semi-liquefeitos, dos utentes. Nem, tão pouco, consta que haja, por esse mundo fora, falta de compradores para toda a espécie de bodeguices, pinchavelhos e contrafacções. Basta um relance pelos tops de todas as latitutes e mercados, para que quaisquer ilusões quanto à racionalidade –ou sequer decência – dos consumidores se dissipem.
Não falta também quem argumente que essas obras barbitúricas (dessa tal literatura-light e não só) são beneméritas pois instauram o hábito da leitura em pessoas que, doutro modo, permaneceriam imunes aos encantos e delícias da bibliofagia. É um argumento deslumbrante. Com a mesmíssima lógica contundente, poder-se-ia alvitrar que as pastilhas de ecstazy criam o saudável hábito de ingerir vitaminas ou que a frequência de discotecas constitui a iniciação básica de qualquer melómano que se preze. Parafraseando o povo: o que é que o cu tem a ver com as calças? Ou dizendo à moda dos eruditos: em que é que a lobotomia a conta-gotas favorece o pensamento?
Até o velho e sábio aforismo de Lichtenberg reclama por uma actualização. Dizia ele: «Um livro é um espelho: se um macaco nele se mira não é, evidentemente, a imagem dum apóstolo a que aparece.» Pois bem, se isso no século XVIII era, regra geral, válido, neste nosso tempo, em contrapartida, o fenómeno complicou-se, os macacos sofisticaram-se. Se outrora se remiravam nos livros, agora, com petulância inaudita, vão mais longe: escrevem-nos.
Que, por isso, em vez de chacota recebam prémios é outro sinal dos tempos e da sua perfeição. Um macaco escrever um livro não deixa de ser uma proeza considerável. Mas mais extraordinário ainda é que cada vez mais macacas também o façam. Julgo que dentro em breve até os macaquinhos...
A Agustina, confessou ela, com 14 anos já sabia que ia ser uma grande escritora. Há gente assim.
Nas leis da Sobrevivência, disciplina que em tempos leccionei, uma das regras elementares da comestibilidade dos frutos é observar os macacos: se os macacos comem é porque não é venenoso para o ser humano. Na literatura é precisamente ao contrário: se os macacos devoram é porque não presta. Mas a regra mantém-se: convém observar os macacos. Nem sequer é difícil: estão por todo o lado, verdadeiramente infestantes, sobretudo de roda de tops e tabelas de vendas ou de audiências.
Há livros e autores que, graças a esse providencial expediente, evito com o maior dos cuidados. Com a mesma precaução, aliás, com que contorno os dejectos largados pelos animaizinhos de trela no glauco empedrado dos passeios. Ao cidadão humano é-lhe tão útil ler os primeiros como pisar os segundos.
Em suma, estou de volta.
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12/27/2004 03:06:00 da tarde
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sexta-feira, dezembro 24, 2004
O Natal do Ultramar
Cenário: Algures, num pântano em África... (ou na Europa, é igual).
Fala o Alferes miliciano "CMD", Dragão Zorro, Grupo de Nomadização Especial, Angola...
Para o José, a Zazie, a Margarida, o Dodo, o Manuel Azinhal, o NTC, o BOS, o Clark59, o A, o Serendipity, a Inês, e também para o Rui Silva, o R., o Flávio, o Takitali, o Pedro Guedes, o Carlos.a.a., o Petronius, o LFV e a todos os restantes amigos (sem esquecer os Blasfemos, inimigos de estimação) aí na metrópole, votos sinceros dum Feliz Natal e dum Próspero Ano Novo.
Adeus e até ao meu regresso.
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dragão
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12/24/2004 03:02:00 da tarde
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quinta-feira, dezembro 23, 2004
20 Maravilhas do Sistema Eleitoral Americano
Uma leitora geralmente bem informada enviou-me um mail deveras interessante, que considero de interesse público aqui editar...
«20 Amazing Facts About Voting In The United States By Bob Rowe
1. 80% of all votes in America are counted by only two companies: Diebold and ES&S.
2. There is no federal agency with regulatory authority or oversight of the US voting machine industry.
3. The vice-president of Diebold and the president of ES&S are brothers.
4. The chairman and CEO of Diebold is a major Bush campaign organizer and donor who wrote in 2003 that he was "committed to helping Ohio deliver its electoral votes to the president next year."
5. 35% of ES&S is owned by Republican Senator Chuck Hagel, who became Senator based on votes counted by ES&S machines.
6. Republican Senator Chuck Hagel, a long-time friend of the Bush family, was caught lying about his ownership of ES&S by the Senate Ethics Committee.
7. Senator Chuck Hagel was on a short list of George W. Bush's vice- presidential candidates.
8. ES&S is the largest voting machine manufacturer in the US and counts almost 60% of all US votes.
9. Diebold's new touch screen voting machines have no paper trail of any votes. In other words, there is no way to verify that the data coming out of the machine is the same as what was legitimately put in by voters.
10. Diebold also makes ATMs, checkout scanners, and ticket machines, all of which log each transaction and can generate a paper trail.
11. Diebold is based in Ohio.
12. Diebold employs 5 convicted felons as developers. These are the people who write the voting machine computer code.
13. Diebold's Senior Vice-President, Jeff Dean, was convicted of 23 counts of felony theft in the first degree.
14. Diebold Senior Vice-President Jeff Dean was convicted of planting back doors in his software and using a "high degree of sophistication" to evade detection over a period of 2 years.
15. None of the international election observers were allowed in the polls in Ohio.
16. California banned the use of Diebold machines because the security was so bad. Despite Diebold's claims that the audit logs could not be hacked, a chimpanzee was able to do it! (See the movie at http://blackboxvoting.org/baxter/baxterVPR.mov.)
17. 30% of all US votes are carried out on unverifiable touch screen voting machines with no paper trail.
18. Bush's Help America Vote Act of 2002 has as its goal to replace all machines with the new electronic touch screen systems with no paper trail.
19. All -- not some -- but all the voting machine errors detected and reported went in favor of Bush or Republican candidates.
20. Major statistical voting oddities (odds on the order of 250 million to 1!) -- again always favoring Bush -- have been mathematically demonstrated by experts.
Such amazing odds, the equivalent of statistical miracles these were. Was it God? or was it Diebold...?»
http://www.coastalpost.com/04/12/02a.htm
Sem comentários. Cada qual que retire as suas próprias ilações.
«20 Amazing Facts About Voting In The United States By Bob Rowe
1. 80% of all votes in America are counted by only two companies: Diebold and ES&S.
2. There is no federal agency with regulatory authority or oversight of the US voting machine industry.
3. The vice-president of Diebold and the president of ES&S are brothers.
4. The chairman and CEO of Diebold is a major Bush campaign organizer and donor who wrote in 2003 that he was "committed to helping Ohio deliver its electoral votes to the president next year."
5. 35% of ES&S is owned by Republican Senator Chuck Hagel, who became Senator based on votes counted by ES&S machines.
6. Republican Senator Chuck Hagel, a long-time friend of the Bush family, was caught lying about his ownership of ES&S by the Senate Ethics Committee.
7. Senator Chuck Hagel was on a short list of George W. Bush's vice- presidential candidates.
8. ES&S is the largest voting machine manufacturer in the US and counts almost 60% of all US votes.
9. Diebold's new touch screen voting machines have no paper trail of any votes. In other words, there is no way to verify that the data coming out of the machine is the same as what was legitimately put in by voters.
10. Diebold also makes ATMs, checkout scanners, and ticket machines, all of which log each transaction and can generate a paper trail.
11. Diebold is based in Ohio.
12. Diebold employs 5 convicted felons as developers. These are the people who write the voting machine computer code.
13. Diebold's Senior Vice-President, Jeff Dean, was convicted of 23 counts of felony theft in the first degree.
14. Diebold Senior Vice-President Jeff Dean was convicted of planting back doors in his software and using a "high degree of sophistication" to evade detection over a period of 2 years.
15. None of the international election observers were allowed in the polls in Ohio.
16. California banned the use of Diebold machines because the security was so bad. Despite Diebold's claims that the audit logs could not be hacked, a chimpanzee was able to do it! (See the movie at http://blackboxvoting.org/baxter/baxterVPR.mov.)
17. 30% of all US votes are carried out on unverifiable touch screen voting machines with no paper trail.
18. Bush's Help America Vote Act of 2002 has as its goal to replace all machines with the new electronic touch screen systems with no paper trail.
19. All -- not some -- but all the voting machine errors detected and reported went in favor of Bush or Republican candidates.
20. Major statistical voting oddities (odds on the order of 250 million to 1!) -- again always favoring Bush -- have been mathematically demonstrated by experts.
Such amazing odds, the equivalent of statistical miracles these were. Was it God? or was it Diebold...?»
http://www.coastalpost.com/04/12/02a.htm
Sem comentários. Cada qual que retire as suas próprias ilações.
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dragão
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12/23/2004 09:15:00 da tarde
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Blogue ou Morte!...
Está em vias de se abrir mais um grande cisma na blogosfera, isto se já não se escancarou mesmo, qual goela abissal, pronta a devorar-nos a todos. Estarrecei, meus amigos: É mais uma transcendente questão que irrompe, na senda de outras que a precederam, como o morar no direito ou no esquerdo, assinar com pseudónimo que ninguém sabe quem é (excepto os amigos), ou com possidónio que ninguém conhece de lado nenhum (excepto os compadres). Mas se estas já causaram devastações retumbantes, aquela, a mais recente e peregrina, promete abrir crateras insanáveis e rasgar lenhos sangrentos na carne avulsa. Adivinham-se carnificinas épicas e fratricídios eloquentes. Quem sobreviver, que conte.
Uma jovem Pandora –que em português se diz "Papoila" –, descobriu o embrião desse vórtice aniquilador e, com a leviandade característica do género, soltou-o desaçaimado no mundo.
Tomei conhecimento desta tragédia iminente no "Touch of Evil". Mas, caro Rui, isto é bem mais que "touch", isto é mais "crush", "punch", ou "lunch", porque, ou eu me engano muito, ou vai-nos tragar a todos, sem dó nem piedade.
Mas perguntais vós, já a ficar impacientes :"Em que consiste afinal a espoleta que vai fazer deflagrar o mundo?"
Segurem-se: uns grafam blog, os anglófonos; outros grafam blogue, os lusófonos e saloios como eu. É este o busílis, o pomo da discórdia que nos vai mergulhar numa nova Tróia.
Cada qual que corra a alistar-se na facção que lhe compete. Eu, por mim, não tenho dúvidas: Sou lusófono, caralho! Nada de "dick", é caralho mesmo! "Caralho" com todas as letras! Caralho e colhões e cona da tia! Comparado com "dick", "cock", "bollocks" "pussy", nem dá para aquecer. É bater em coninhas, em aleijadinhos, em larós! Se pensarmos num "vai levar na peida!", a que nos ripostarão com um "up yours", então, até dá vontade de rir. É o mesmo que estarmos a desancá-los à paulada e eles responderem com almofadas ou ramos de salsa!
E quanto ao argumento que a palavra era inicialmente deles, que a inventaram...Ora porra, também a Índia era nossa, que a descobrimos em primeiro lugar!...
Além disso, não lhes fanámos o termo: apenas o tornámos inteligível, apenas o arrancámos às capoeiras do ruído e o aperfeiçoámos para uso da linguagem humana! É que a Língua Portuguesa sempre tem algo mais que meras onomatopeias.
Mas basta de conversa, passemos à acção...
Às armas! Saloios da blogosfera, a mim!...Glória ou morte!
Aliás, blogue ou morte!...
Uma jovem Pandora –que em português se diz "Papoila" –, descobriu o embrião desse vórtice aniquilador e, com a leviandade característica do género, soltou-o desaçaimado no mundo.
Tomei conhecimento desta tragédia iminente no "Touch of Evil". Mas, caro Rui, isto é bem mais que "touch", isto é mais "crush", "punch", ou "lunch", porque, ou eu me engano muito, ou vai-nos tragar a todos, sem dó nem piedade.
Mas perguntais vós, já a ficar impacientes :"Em que consiste afinal a espoleta que vai fazer deflagrar o mundo?"
Segurem-se: uns grafam blog, os anglófonos; outros grafam blogue, os lusófonos e saloios como eu. É este o busílis, o pomo da discórdia que nos vai mergulhar numa nova Tróia.
Cada qual que corra a alistar-se na facção que lhe compete. Eu, por mim, não tenho dúvidas: Sou lusófono, caralho! Nada de "dick", é caralho mesmo! "Caralho" com todas as letras! Caralho e colhões e cona da tia! Comparado com "dick", "cock", "bollocks" "pussy", nem dá para aquecer. É bater em coninhas, em aleijadinhos, em larós! Se pensarmos num "vai levar na peida!", a que nos ripostarão com um "up yours", então, até dá vontade de rir. É o mesmo que estarmos a desancá-los à paulada e eles responderem com almofadas ou ramos de salsa!
E quanto ao argumento que a palavra era inicialmente deles, que a inventaram...Ora porra, também a Índia era nossa, que a descobrimos em primeiro lugar!...
Além disso, não lhes fanámos o termo: apenas o tornámos inteligível, apenas o arrancámos às capoeiras do ruído e o aperfeiçoámos para uso da linguagem humana! É que a Língua Portuguesa sempre tem algo mais que meras onomatopeias.
Mas basta de conversa, passemos à acção...
Às armas! Saloios da blogosfera, a mim!...Glória ou morte!
Aliás, blogue ou morte!...
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12/23/2004 04:26:00 da tarde
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quarta-feira, dezembro 22, 2004
Democracia com Todos
Hão-de, Vocelências, desculpar-me a imodéstia, mas não conheço ninguém mais democrata do que eu: Dou bordoada à esquerda e à direita, com esplendorosa isenção e vigor imarcescível. Em matéria de carneirada, longe de mim pôr-me com desconsiderações!...
Se isto não é democracia, então não sei o que seja!...
Se isto não é democracia, então não sei o que seja!...
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12/22/2004 11:01:00 da tarde
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Abruptamente
O Clark59, nitidamente fragilizado pela suave quadra que atravessamos, entrega-se à candura. Depois duma tolerância inaudita para com uma súcia inominável, eis que volta à carga com novo acesso de benevolência cristã. Refere ele, num misto de perplexidade e –desconfio eu – nojo (ou tédio, se preferirem, os mais sensíveis) que o "Abrupto", essa farol da blogosfera, debitando uma palha de teor incaracterístico, cativa todavia que nem mel e já ultrapassou mesmo o milhão de visitas. Pressinto que através deste pasmo agoniado, o Clark abana a cabeça e interroga misticamente o Cosmos. Não vá o Cosmos estar ocupado com planos apocalípticos ou a dar à luz mais não sei quantas constelações pelo buraco do telescópio parteiro dalgum cientista anglófono, acudo eu ao meu bom amigo (antes que ele, tomado pelos arranques, se entorne sobre algum presépio).
Pois, ó Clark, o fenómeno é elementar. Não tem nada de surpreendente, nem, muito menos, constitui atestado ISO de excelência. É sabido que o bom povo português, vá de carro ou vá de cibernave, aprecia sobretudo embasbacar-se com escabrosidades e desastres. Pela-se por descarrilamentos e alúvios.
De resto, é sinal inequívoco: quanto maior o enxame em redor, maior o aparato do despiste e a monumentalidade da asneira. Dito mais simplesmente: O número de moscas atesta, única e exclusivamente, da qualidade da bosta. Da qualidade, que é como quem diz: do alcance e exuberância do fedor.
Quando não souberes, pergunta.
Pois, ó Clark, o fenómeno é elementar. Não tem nada de surpreendente, nem, muito menos, constitui atestado ISO de excelência. É sabido que o bom povo português, vá de carro ou vá de cibernave, aprecia sobretudo embasbacar-se com escabrosidades e desastres. Pela-se por descarrilamentos e alúvios.
De resto, é sinal inequívoco: quanto maior o enxame em redor, maior o aparato do despiste e a monumentalidade da asneira. Dito mais simplesmente: O número de moscas atesta, única e exclusivamente, da qualidade da bosta. Da qualidade, que é como quem diz: do alcance e exuberância do fedor.
Quando não souberes, pergunta.
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12/22/2004 09:12:00 da tarde
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segunda-feira, dezembro 20, 2004
O Clamor pela Estabilidade
Não sei –francamente, não sei mesmo – porque é que no raio dum país estagnado, não há cão nem gato que não clame por estabilidade. Mais?...
Senhores, algum pudor, que diabo! Se o cemitério ainda se move é apenas porque a Terra gira.
Senhores, algum pudor, que diabo! Se o cemitério ainda se move é apenas porque a Terra gira.
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12/20/2004 10:59:00 da tarde
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A Solução da Adivinha
A menina Zazie, essa açambarcadora, ganhou o prémio. No entanto, o júri (que sou eu) decidiu, por unanimidade, desclassificá-la, pois usufruiu de ajudas extra-regulamentares.
Foi o Saint-Just, de facto. Trata-se do "Relatório apresentado em 10 de Outubro de 1793", intitulado "Para um Governo revolucionário". Em termos concretos, este "relatório" à Convenção marca o início daquilo a que se convencionou chamar de "Terror".
Mas porque carga de água me fui eu lembrar de tão tenebroso personagem? É simples, ó leitores: é que no mesmo dia em que postei, ouvi o ilustre Miguel Cadilhe, esse angariador de clientela para o bordel nacional, queixar-se da mesmíssima coisa. Confiram nos jornais e noticiários do dia e pasmem, ó sonâmbulos! E, vai daí, espingardei para com os meus botões: Então, há progresso ou não há progresso?! Avança-se ou não se avança?! Ou estamos sempre a ouvir a mesma tecla, do mesmo piano, e ainda por cima desafinado?...hein?!...
Quanto não vale esta santa ignorância e alegre imbecilidade que grassa na terrinha!...
A propósito, não sendo de todo personagem das minhas simpatias, Saint-Just, não obstante, neste mesmo "Relatório", tem uma tirada que até eu me atrevo a considerar épica. Profere ele, preto no branco:
«Um povo não tem senão um inimigo perigoso, o seu governo; (...)»
Cá para mim, o Saint-Just era pseudónimo. O gajo era português. Só podia. Uma verdade destas não está ao alcance de qualquer um. É preciso experiência. Ou melhor: calo. Muito calo.
Foi o Saint-Just, de facto. Trata-se do "Relatório apresentado em 10 de Outubro de 1793", intitulado "Para um Governo revolucionário". Em termos concretos, este "relatório" à Convenção marca o início daquilo a que se convencionou chamar de "Terror".
Mas porque carga de água me fui eu lembrar de tão tenebroso personagem? É simples, ó leitores: é que no mesmo dia em que postei, ouvi o ilustre Miguel Cadilhe, esse angariador de clientela para o bordel nacional, queixar-se da mesmíssima coisa. Confiram nos jornais e noticiários do dia e pasmem, ó sonâmbulos! E, vai daí, espingardei para com os meus botões: Então, há progresso ou não há progresso?! Avança-se ou não se avança?! Ou estamos sempre a ouvir a mesma tecla, do mesmo piano, e ainda por cima desafinado?...hein?!...
Quanto não vale esta santa ignorância e alegre imbecilidade que grassa na terrinha!...
A propósito, não sendo de todo personagem das minhas simpatias, Saint-Just, não obstante, neste mesmo "Relatório", tem uma tirada que até eu me atrevo a considerar épica. Profere ele, preto no branco:
«Um povo não tem senão um inimigo perigoso, o seu governo; (...)»
Cá para mim, o Saint-Just era pseudónimo. O gajo era português. Só podia. Uma verdade destas não está ao alcance de qualquer um. É preciso experiência. Ou melhor: calo. Muito calo.
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12/20/2004 10:11:00 da tarde
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domingo, dezembro 19, 2004
Dragão e Cavalheiro
Caríssima Inês,
Eu, como já deve ter reparado, sou um admirador inveterado de demolições e catástrofes. Prossiga, pois, com o seu armagedão blogoclástico, arrase links e quejandos, que só subirá na minha consideração.
Permita-me, não obstante, que preserve o link que lhe devoto, doravante com redobrada estima e orgulho acrescido.
Quanto à volubilidade humana que por toda a parte grassa e que a mergulha num justificado cepticismo, duvide que o sol volte a nascer amanhã, mas não duvide da sinceridade, visceralidade e, sobretudo, eternidade da minha iconoclastia apocalíptica. É mais provável o primeiro fenómeno que o segundo.
Em relação à "outra". Não sabia que essa tal lambiscóia (acabo de inventar o termo) era tal qual a descreve. Não conheço nem sei o que faz na vida. Tão pouco avalio a qualidade e quantidade de eunucos que a frequentam. Não são questões que me ocupem. A categorização define o blogue, que a mim, quando por estúpida curiosidade lá passei, deu-me vómitos. Isto não invalida que o mesmo possa ser excelente e a sua autora uma eugénia fulgurante, ou até uma agustina bessa qualquer coisa da pata que a pôs. De maneira nenhuma; eu é que, simplesmente, saí de lá com as botas todas emporcalhadas e quando assim é não levo a coisa na desportiva. Também ninguém me manda enfiar a metediça penca fumegabunda em estábulos e cavalariças. Foi para aprender.
Não me alongo muito mais. Orça, a cara amiga, que tem quinze leitores. Pois bem, além desses fiéis a toda a prova, sugiro-lhe que inaugure uma nova secção: a dos fãs. Tem aqui um. Não tanto da sua beleza –que estou certo ser imensa, mas aí não posso competir com os príncipes encantadores em babosa fila – mas do seu mau feitio, que isso é adorno que um velho e irascível Dragão reconhece à légua e não pode deixar sem prémio. E o seu, da mesma família do meu pelo que já pude ver, era caso para eu a trancafiar numa torre ignota e velar-lhe as imprecações, pragas e vitupérios por um ou dois séculos. Ainda sei reconhecer música abissal quando a oiço.
Minha senhora, curvo-me e rendo-lhe as minhas merecidas homenagens,
Dragão
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12/19/2004 10:21:00 da tarde
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sábado, dezembro 18, 2004
À QUEIMA-ROUPA
«Benvindos ao Blog do Dragão!Era para se chamar "Lança-Chamas", título muito mais apropriado ao meu feitio, mas estas porcarias anglófonas (raios as partam!) não aceitam pacificamente o "Ç" (o cê cedilhado, pois), pelo que tive que me contentar com esta arma mais discreta, mas não menos letal, felizmente. Nos tempos que correm, um dragão não pode vir prá rua armado só com as garras que Deus e a Natureza lhe deram, sob pena de acabar maltratado por algum energúmeno ou malta brava.Por conseguinte, instalem-se, ponham-se a jeito, que eu já vos trato da saúde!...E se os lenhadores gritam "madeira!", eu, em contrapartida, grito "lume!"...Depois não digam que eu não avisei!...»
- Dragoscópio, 18 de Dezembro de 2003, 1ºPostal.
Há doze meses atrás, num dia 18 aziago para toda a blogosfera, era assim que um certo energúmeno rompia as hostilidades. Desde então, a criatura não melhorou. Pelo contrário, foi de mal a pior. Actualmente, anda péssimo. Àquilo que disse há um ano atrás, em compensação, só alteraria um pequeno detalhe: em vez de "lança-chamas", chamar-lhe-ia "à queima-roupa".
Porque, de facto, é assim que eu escrevo e é assim que este blogue se quer.
À QUEIMA-ROUPA!
- Dragoscópio, 18 de Dezembro de 2003, 1ºPostal.
Há doze meses atrás, num dia 18 aziago para toda a blogosfera, era assim que um certo energúmeno rompia as hostilidades. Desde então, a criatura não melhorou. Pelo contrário, foi de mal a pior. Actualmente, anda péssimo. Àquilo que disse há um ano atrás, em compensação, só alteraria um pequeno detalhe: em vez de "lança-chamas", chamar-lhe-ia "à queima-roupa".
Porque, de facto, é assim que eu escrevo e é assim que este blogue se quer.
À QUEIMA-ROUPA!
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12/18/2004 08:34:00 da tarde
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Amor e Guerra
«A partir de Verdun, que os alemães baptizam de Batalha do Material (Materialischlacht), o paralelismo instituído pela cavalaria entre as formas do amor e da guerra parece dissolvido.
Sem dúvida que o fim concreto da guerra foi sempre o de forçar a resistência inimiga, destruindo as suas forças armadas. (Forçar a resistência da mulher pela sedução é a paz; pela violação é a guerra). Mas não se destruía por isso a nação que se desejava subjugar: bastava reduzir as suas defesas. Batalha organizada contra um exército profissional, sítio das fortalezas, captura do chefe: um sistema de regras precisas, portanto uma arte, designava o vencedor. E este vencedor triunfava sobre algo vivo, um país ou povo ainda desejáveis. A intervenção duma técnica desumana que mobiliza todas as forças dum Estado mudou a face da guerra em Verdun.
Porque a partir do momento em que a guerra se torna "total" –
e já não apenas militar – a destruição das resistências armadas significa o aniquilamento das forças vivas do inimigo: operários mobilizados nas fábricas, mães que procriam soldados, em suma, todos os "meios de produção", coisas e pessoas equiparadas. A guerra já não é uma violação mas um assassínio do objecto cobiçado e hostil –quer dizer, um acto "total", que destrói esse objecto em vez de se apoderar dele. Verdun, de resto, não foi mais que um prólogo a essa guerra nova, pois que o processo se limitou à destruição metódica dum milhão de soldados, não de civis. Mas esse Kriegspiel permitiu o aperfeiçoamento dum instrumento que, posteriormente, se viria a achar habilitado a operar em campos bem mais vastos, como Londres e Berlim; já não apenas sobre a carne para canhões, mas sobre a carne que fabrica os canhões, o que é evidentemente mais eficaz.
A técnica da morte a grande distância não encontra o seu equilíbrio em nenhuma ética imaginável do amor. É que a guerra escapa ao homem e ao instinto; volta-se contra a própria paixão de que nasceu. E é isso, não a envergadura dos massacres, que é novo na história do mundo.»
- Denis de Rougemont, "O Amor e o Ocidente"
Esta é uma obra que recomendo vivamente. Além de muito bem escrita, na forma, palpita igualmente de relâmpagos deveras interessantes, no conteúdo. A perspectiva do autor, que vislumbra um paralelismo entre as formas do amor e da guerra ao logo da história do Ocidente (entre os séculos XII e XX), descobre no surgimento da "guerra total", ou "técnica da morte a grande distância" –a que eu chamaria "tele-guerra" (ou traduzindo: guerra telecomandada, gerida à distância)-, o princípio da "dissolução das formas instituídas pela cavalaria".
Quer dizer, a guerra, ao deixar de cumprir, transpondo, as regras de sedução e conquista inerentes ao amor cavalheiresco, desembaraça-se duma série de escrúpulos pouco rentáveis e cada vez mais obsoletos (tendo em conta dtoda uma nova concepção de mundo emergente e triunfante –a burgueso-científica).
Rougemont é, de resto, deveras ilustrativo quanto a isso:
«Cerca do fim do século XIX, o amor havia-se tornado, nas classes burguesas, uma estranha mistura de sentimentalismo à flor da pele e de histórias de rendimentos e de dotes: o que não deixou e ser ainda hoje em dia nos anúncios matrimoniais. A sexualidade pura só intervinha para "perturbar" esses pequenos cálculos e esses "belos sentimentos" de série. (...) Do mesmo modo, a guerra era um composto de excitações da opinião pública –que é a "desforra", senão um sentimentalismo nacional? – e de planos comerciais ou financeiros. O elemento propriamente guerreiro já aí não tinha lugar, a não ser como contrabando. A guerra emburguesava-se. O sangue comercializava-se. O tipo do militar surgia já como uma anomalia aos olhos dos realistas ou como uma sobrevivência lisonjeira aos olhos das mulheres e dos papalvos curiosos. (Por isso as democracias se excitam a propósito dos casamentos dos príncipes).
E julgava-se poder liquidar sem dano o formidável potencial de frenesi e de grandeza sangrenta que séculos de cultura e de paixão haviam acumulado no Ocidente.
A guerra de 1914 foi um dos resultados mais notáveis desse desconhecimento do mito.»
De realçar que Rougemont escreve em vésperas da Segunda Grande Guerra.
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12/18/2004 01:46:00 da tarde
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sexta-feira, dezembro 17, 2004
Quem quer adivinhar?...
«Todos os que o governo emprega são preguiçosos; todo o homem colocado não faz nada e utiliza funcionários secundários; o primeiro funcionário secundário tem os seus, e a República está nas garras de vinte mil idiotas que a corrompem, que a combatem, que a sangram.
Deveis diminuir por toda a parte o número dos funcionários, a fim de que os chefes trabalhem e pensem.
O ministério é um mundo de papel; não sei como Roma e o Egipto se governaram sem este recurso; pensava-se muito, escrevia-se pouco. A prolixidade da correspondência e das ordens do governo é uma prova da sua inércia, pois é impossível que se governe sem laconismo. Os representantes do povo, os generais, os administradores, estão rodeados de secretárias, como os antigos funcionários do tribunal; não se faz nada mas a despesa é enorme. As secretárias substituíram o monarquismo, o demónio de escrever faz-nos guerra e não se governa nada. »
- ??????????
Adivinhem lá, ó digníssimos leitores, qual foi o ilustre "liberal" que escreveu (e leu a uma singular Assembleia) estas teses inspiradíssimas?...
E, já agora, ponderem outro detalhe: Seria de esquerda ou de direita?...
Sugiro que comecem por tentar identificar a "área política" (esquerda/direita) e depois o nome. Assim, ao menos, talvez consigam 50% do prémio.
O prémio é surpresa.
Deveis diminuir por toda a parte o número dos funcionários, a fim de que os chefes trabalhem e pensem.
O ministério é um mundo de papel; não sei como Roma e o Egipto se governaram sem este recurso; pensava-se muito, escrevia-se pouco. A prolixidade da correspondência e das ordens do governo é uma prova da sua inércia, pois é impossível que se governe sem laconismo. Os representantes do povo, os generais, os administradores, estão rodeados de secretárias, como os antigos funcionários do tribunal; não se faz nada mas a despesa é enorme. As secretárias substituíram o monarquismo, o demónio de escrever faz-nos guerra e não se governa nada. »
- ??????????
Adivinhem lá, ó digníssimos leitores, qual foi o ilustre "liberal" que escreveu (e leu a uma singular Assembleia) estas teses inspiradíssimas?...
E, já agora, ponderem outro detalhe: Seria de esquerda ou de direita?...
Sugiro que comecem por tentar identificar a "área política" (esquerda/direita) e depois o nome. Assim, ao menos, talvez consigam 50% do prémio.
O prémio é surpresa.
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12/17/2004 07:17:00 da tarde
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quinta-feira, dezembro 16, 2004
Da Humana Estupidez
Filosoficamente falando, poderíamos dividir a História Humana -da Pré-História até à presente data- em duas épocas aparentemente distintas: a tirania dos instintos e a tirania da razão (sendo que esta constitui apenas um verniz, uma cobertura chantilizada daqueles). Ambas obstruem e têm como função e preocupação principais impedir uma coisa: o reinado da inteligência.
De quem julgue que a civilização racional é um avanço extraordinário em relação à selva, desengane-se. Não passa dum sublimado desta, duma selva complicada e aberrante. Nela abundam, à exuberância, o exultar dos predadores, a angústia dos predados e o pairar dos necrófagos.
Entretanto, do que é possível avaliar, dadas as fracas ferramentas que possuímos, o acesso à inteligência é, infelizmente, restrito – a indivíduos. Desde a Caverna de Platão que o suspeitamos.
Também, ao contrário do que hoje se propagandeia, em fumigenação ao domicílio, a inteligência não é um derivado da razão, mas sim da ética imanente ao próprio cosmos. Assim, comparativamente, o homem, tal qual o mundo o tem apresentado, não parece ser o mais inteligente, mas sim o mais estúpido dos animais. Ao contrário dos outros, enquanto espécie, não alcança um nível de aprendizagem básico: no essencial, não aprende com a experiência. Nem melhora com o decorrer do tempo. Actualmente, dá-se ao requinte psicótico, alucinado, de se barricar contra as gerações passadas e plantar minas, venenos e armadilhas como legado às vindouras.
Se a liberdade existisse, eu teria preferido nascer golfinho.
De quem julgue que a civilização racional é um avanço extraordinário em relação à selva, desengane-se. Não passa dum sublimado desta, duma selva complicada e aberrante. Nela abundam, à exuberância, o exultar dos predadores, a angústia dos predados e o pairar dos necrófagos.
Entretanto, do que é possível avaliar, dadas as fracas ferramentas que possuímos, o acesso à inteligência é, infelizmente, restrito – a indivíduos. Desde a Caverna de Platão que o suspeitamos.
Também, ao contrário do que hoje se propagandeia, em fumigenação ao domicílio, a inteligência não é um derivado da razão, mas sim da ética imanente ao próprio cosmos. Assim, comparativamente, o homem, tal qual o mundo o tem apresentado, não parece ser o mais inteligente, mas sim o mais estúpido dos animais. Ao contrário dos outros, enquanto espécie, não alcança um nível de aprendizagem básico: no essencial, não aprende com a experiência. Nem melhora com o decorrer do tempo. Actualmente, dá-se ao requinte psicótico, alucinado, de se barricar contra as gerações passadas e plantar minas, venenos e armadilhas como legado às vindouras.
Se a liberdade existisse, eu teria preferido nascer golfinho.
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12/16/2004 10:46:00 da tarde
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quarta-feira, dezembro 15, 2004
Preceitos para um Jovem Lutador
Introdução.
Tu, meu rapaz, que tens uma sólida formação moral, bons sentimentos e lês Nietzsche (confessou-mo a tua pobre mãe, preocupada), procuras na luta um campo de honra, um ordálio privado de virtudes e coragem. Isso é muito digno e atesta eloquentemente da tua qualidade masculina. Mas não te iludas: os teus futuros adversários pertencem, regra geral, a outro escol. O seu intuito é puramente calhorda, alvar, bandalhabundo. Ardem numa mera sofreguidão de se eximirem das frustrações e do mau carácter congénito. Ou então é puro exibicionismo, macaquice de filmes que lhes devastaram a mioleira. O teu dever, nunca o esqueças, é ajudá-los, conduzi-los nessa odisseia desconchavante. Não sendo do teu nível, não caias na asneira de lá desceres. Guia-os apenas. Providencia para que se espanquem a eles próprios. Empresta-lhes, quão somente, os teus punhos e patadas para tão caritativo efeito. Não te oponhas nem obstines; acompanha-os, facilita-lhes a tarefa. Permite que alcancem tão sadio desiderato. É uma aprendizagem que lhes compete exclusivamente.
Se te sacrificares, servindo de bombo, nada aprenderão. Se os sacrificares, moendo-lhes o coiro, ficar-te-ão eternamente gratos, olhar-te-ão com respeito e recordar-te-ão cheios de reverência.
Eles, bem no fundo, não o sabem; mas vão ali para aprenderem um pouco de humildade, para compensarem –duma forma brutal, é certo, mas é a única que os alcança – as falhas e tibiezas da educação moderna. Não hesites: educa-os. A sova, digo-to eu, pode ser uma das mais sublimes formas de altruísmo.
Para o efeito, aqui te deixo alguns preceitos que julgo pertinentes e de comprovada utilidade. A mim, pelo menos, ao longo duma vida que, como bem sabes, foi repleta de aventuras, combates e solavancos, ajudaram-me a manter o arcaboiço intacto e o frontispício indemne.
PRECEITOS
1. Em tese, o teu adversário é um ser humano. Em tese, repito. Porém, como o ringue não é propriamente o local adequado para prolegómenos a qualquer tipo de metafísica, o melhor mesmo é pensares nele como um réptil execrável que se propõe danificar-te o canastro e amarrotar-te o ego. Não deixes.
2. Usa a cabeça . Dá-lhe com ela. Com o osso frontal, mais precisamente; no nariz, na boca, nos malares, é tudo boa colheita.
3. Usa também a cabeça dele. De preferência com os teu pés. Mas não te arrisques em acrobacias supérfluas. Procura primeiro desequilibrá-lo, fazê-lo estatelar-se ao comprido no tapete. Uma vez aí, devidamente acondicionado, poderás pontapeá-lo com bem maior precisão e segurança.
4. Nunca tenhas pena antes de lhe bater. É um absurdo. Massacra-o. Põe-no feito num Cristo e então, então sim, quando ele estiver a ser levado de maca, pára de lhe bater e assume uma fisionomia piedosa.
5.Sê generoso. Quando lhe puderes dar três, não lhe dês apenas duas. A avareza é própria do banqueiro, não do lutador. Além do mais, em estando a distribuir fruta nunca te ponhas com mesquinhices.
6. Sempre que possível, tenta perceber onde lhe dói mais. É aí que lhe deves bater.
7. Não te desgastes inutilmente. Marimba-te no espectáculo e no rococó técnico. Não enfeites. Lembra-te: o objectivo é dares-lhe porrada, não é armares em decorador.
8. Prefere sempre a demolição metódica ao ballet. Nunca confundas um ringue de cacetada com o "Lago dos Cisnes".
9. Cuidado com o sangue dele. Caso esparrinhe, não te ponhas a bebê-lo, entoando bramidos selvagens. Não é prudente. Os antigos faziam-no como acção psicológica, de modo a estarrecer o inimigo. Mas os antigos desconheciam a Sida e a Hepatite B. Felizardos!...Podiam lutar em paz e harmonia. Lutar e ir às putas.
10. As regras são muito lógicas e bonitas para os árbitros e os juizes, porque essas criaturas não estão lá dentro a enfardar. A única lei de ouro que deves ter sempre presente é a seguinte: Entre a tua pele e a regra, sacrifica a regra. Vai por mim, que sou mais velho: é mil vezes preferível seres penalizado (ou mesmo desclassificado) que seres sovado.
11. As manhas e astúcias do ser humano são inúmeras, como a História Universal documenta. As dos répteis ainda são maiores e é a própria Bíblia Sagrada que nos coloca de sobreaviso. Fingem muito. Em caso de dúvida (nunca te esqueças que pode ser simulação), bate-lhe.
12. Em teoria, não deves recorrer a golpes baixos. Em teoria, este também é o melhor dos mundos. É fácil, portanto, constatar que as teorias são muito falíveis. Não obstante, quando lhe acertares nos tomates, usa da maior descrição. Por precaução, fá-lo sempre como que por inadvertência, não vá o árbitro reparar.
13. Nunca te emociones. Se lhe partires um braço, deixa que seja ele a gritar, a queixar-se, a chorar, enfim, a fazer todas aquelas cenas lastimáveis e indignas do varonil garbo.
14. A tua professora, caso venha a sabê-lo, dir-te-á que estes preceitos são bárbaros e anti-desportivos. É provável. Também é certo que a criatura é campeã e atleta de renome. Mas diz-lhe, da minha parte, que no dia em que eu me der ao desplante de leccionar seminários sobre as dores de parto, ela, gentil menina, virá ilustrar-me, de cátedra, sobre guerra e pancadaria. Mas até lá...
Tu, meu rapaz, que tens uma sólida formação moral, bons sentimentos e lês Nietzsche (confessou-mo a tua pobre mãe, preocupada), procuras na luta um campo de honra, um ordálio privado de virtudes e coragem. Isso é muito digno e atesta eloquentemente da tua qualidade masculina. Mas não te iludas: os teus futuros adversários pertencem, regra geral, a outro escol. O seu intuito é puramente calhorda, alvar, bandalhabundo. Ardem numa mera sofreguidão de se eximirem das frustrações e do mau carácter congénito. Ou então é puro exibicionismo, macaquice de filmes que lhes devastaram a mioleira. O teu dever, nunca o esqueças, é ajudá-los, conduzi-los nessa odisseia desconchavante. Não sendo do teu nível, não caias na asneira de lá desceres. Guia-os apenas. Providencia para que se espanquem a eles próprios. Empresta-lhes, quão somente, os teus punhos e patadas para tão caritativo efeito. Não te oponhas nem obstines; acompanha-os, facilita-lhes a tarefa. Permite que alcancem tão sadio desiderato. É uma aprendizagem que lhes compete exclusivamente.
Se te sacrificares, servindo de bombo, nada aprenderão. Se os sacrificares, moendo-lhes o coiro, ficar-te-ão eternamente gratos, olhar-te-ão com respeito e recordar-te-ão cheios de reverência.
Eles, bem no fundo, não o sabem; mas vão ali para aprenderem um pouco de humildade, para compensarem –duma forma brutal, é certo, mas é a única que os alcança – as falhas e tibiezas da educação moderna. Não hesites: educa-os. A sova, digo-to eu, pode ser uma das mais sublimes formas de altruísmo.
Para o efeito, aqui te deixo alguns preceitos que julgo pertinentes e de comprovada utilidade. A mim, pelo menos, ao longo duma vida que, como bem sabes, foi repleta de aventuras, combates e solavancos, ajudaram-me a manter o arcaboiço intacto e o frontispício indemne.
PRECEITOS
1. Em tese, o teu adversário é um ser humano. Em tese, repito. Porém, como o ringue não é propriamente o local adequado para prolegómenos a qualquer tipo de metafísica, o melhor mesmo é pensares nele como um réptil execrável que se propõe danificar-te o canastro e amarrotar-te o ego. Não deixes.
2. Usa a cabeça . Dá-lhe com ela. Com o osso frontal, mais precisamente; no nariz, na boca, nos malares, é tudo boa colheita.
3. Usa também a cabeça dele. De preferência com os teu pés. Mas não te arrisques em acrobacias supérfluas. Procura primeiro desequilibrá-lo, fazê-lo estatelar-se ao comprido no tapete. Uma vez aí, devidamente acondicionado, poderás pontapeá-lo com bem maior precisão e segurança.
4. Nunca tenhas pena antes de lhe bater. É um absurdo. Massacra-o. Põe-no feito num Cristo e então, então sim, quando ele estiver a ser levado de maca, pára de lhe bater e assume uma fisionomia piedosa.
5.Sê generoso. Quando lhe puderes dar três, não lhe dês apenas duas. A avareza é própria do banqueiro, não do lutador. Além do mais, em estando a distribuir fruta nunca te ponhas com mesquinhices.
6. Sempre que possível, tenta perceber onde lhe dói mais. É aí que lhe deves bater.
7. Não te desgastes inutilmente. Marimba-te no espectáculo e no rococó técnico. Não enfeites. Lembra-te: o objectivo é dares-lhe porrada, não é armares em decorador.
8. Prefere sempre a demolição metódica ao ballet. Nunca confundas um ringue de cacetada com o "Lago dos Cisnes".
9. Cuidado com o sangue dele. Caso esparrinhe, não te ponhas a bebê-lo, entoando bramidos selvagens. Não é prudente. Os antigos faziam-no como acção psicológica, de modo a estarrecer o inimigo. Mas os antigos desconheciam a Sida e a Hepatite B. Felizardos!...Podiam lutar em paz e harmonia. Lutar e ir às putas.
10. As regras são muito lógicas e bonitas para os árbitros e os juizes, porque essas criaturas não estão lá dentro a enfardar. A única lei de ouro que deves ter sempre presente é a seguinte: Entre a tua pele e a regra, sacrifica a regra. Vai por mim, que sou mais velho: é mil vezes preferível seres penalizado (ou mesmo desclassificado) que seres sovado.
11. As manhas e astúcias do ser humano são inúmeras, como a História Universal documenta. As dos répteis ainda são maiores e é a própria Bíblia Sagrada que nos coloca de sobreaviso. Fingem muito. Em caso de dúvida (nunca te esqueças que pode ser simulação), bate-lhe.
12. Em teoria, não deves recorrer a golpes baixos. Em teoria, este também é o melhor dos mundos. É fácil, portanto, constatar que as teorias são muito falíveis. Não obstante, quando lhe acertares nos tomates, usa da maior descrição. Por precaução, fá-lo sempre como que por inadvertência, não vá o árbitro reparar.
13. Nunca te emociones. Se lhe partires um braço, deixa que seja ele a gritar, a queixar-se, a chorar, enfim, a fazer todas aquelas cenas lastimáveis e indignas do varonil garbo.
14. A tua professora, caso venha a sabê-lo, dir-te-á que estes preceitos são bárbaros e anti-desportivos. É provável. Também é certo que a criatura é campeã e atleta de renome. Mas diz-lhe, da minha parte, que no dia em que eu me der ao desplante de leccionar seminários sobre as dores de parto, ela, gentil menina, virá ilustrar-me, de cátedra, sobre guerra e pancadaria. Mas até lá...
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12/15/2004 07:42:00 da tarde
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terça-feira, dezembro 14, 2004
Da Decadência
«(...)Eu queria-me entender com o sr. Deputado, a fim de tirarmos algum proveito deste debate; mas S.Excª, pelos modos por me ver assim minguado de afeites poéticos, acoima-me de absurdidade, e despreza-me!...Valha-me Deus! Se o sr. dr. Libório me não lançasse da sua presença com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram Atenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas e luxuosas. Havia de perguntar-lhe que artes e ciências progrediram entre os Sibaritas e Lídios, povos que a mais elevado grau de luxo subiram. Havia de perguntar-lhe por que foi que os Persas acaudilhados por Ciro, cortados de vida áspera e privada do necessário, subjugaram as nações opulentas. Havia de perguntar-lhe por que foram os Persas, logo que se deram às delícias do luxo, vencidos pelos Lacedemónios.
A suprema verdade, sr. Presidente, a verdade que os arrebiques da retórica não sofismam é que, à medida que os impérios antigos se locupletavam, o luxo ia de foz em fora, e os costumes a desbragarem-se gradualmente, e o pulso da independência a quebrantar-se, e os cimentos das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egipto, da pérsia, da Grécia e Roma. »
- Camilo Castelo Branco, "A Queda dum Anjo"
O diagnóstico é de 1866. Fá-lo Camilo pela boca do seu personagem, o debutante e "incorruptível" Calisto Elói. A obra, a muitos títulos notável, esboça um retrato desapiedado dum parlamentarismo à portuguesa, já naquela data convertido em colmeia de estrangeirados, parasitas, sanguessugas e similares.
Mandando também eu às malvas os "arrebiques da retórica", digo que o nosso Camilo, que de burro não tinha nada, não pôs o dedo na ferida porque esta geralmente até reflecte dignidade, luta ou sacrifício, mas pô-lo certamente no líquido fétido e purulento que preenche os furúnculos ou as gangrenas. Ontem como hoje.
A corrupção, aliás, desde sempre, serviu (e serve) à mesa do luxo. Naturalmente, propaga-se em forma de cascata: desde os que se empanzinam, lá no alto, de caviar até aos que rapam as migalhas, lá debaixo.
A suprema verdade, sr. Presidente, a verdade que os arrebiques da retórica não sofismam é que, à medida que os impérios antigos se locupletavam, o luxo ia de foz em fora, e os costumes a desbragarem-se gradualmente, e o pulso da independência a quebrantar-se, e os cimentos das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egipto, da pérsia, da Grécia e Roma. »
- Camilo Castelo Branco, "A Queda dum Anjo"
O diagnóstico é de 1866. Fá-lo Camilo pela boca do seu personagem, o debutante e "incorruptível" Calisto Elói. A obra, a muitos títulos notável, esboça um retrato desapiedado dum parlamentarismo à portuguesa, já naquela data convertido em colmeia de estrangeirados, parasitas, sanguessugas e similares.
Mandando também eu às malvas os "arrebiques da retórica", digo que o nosso Camilo, que de burro não tinha nada, não pôs o dedo na ferida porque esta geralmente até reflecte dignidade, luta ou sacrifício, mas pô-lo certamente no líquido fétido e purulento que preenche os furúnculos ou as gangrenas. Ontem como hoje.
A corrupção, aliás, desde sempre, serviu (e serve) à mesa do luxo. Naturalmente, propaga-se em forma de cascata: desde os que se empanzinam, lá no alto, de caviar até aos que rapam as migalhas, lá debaixo.
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12/14/2004 09:34:00 da tarde
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segunda-feira, dezembro 13, 2004
Da Prepotência
Em bom rigor, a democracia não existe. Nunca existiu. Se exceptuarmos o protótipo ateniense, com os seus escravos insolentes, o que existe –e existiu desde então, sobretudo por influência romana -, são diversos modos de tirania. Quer dizer, diferentes modalidade de exercício de prepotência. A saber, a prepotência exercida por um, ou despotismo; a prepotência exercida por vários, ou oligarquia; e a prepotência da turba, da multidão, ou oclocracia ("democracia", para o vulgo). Dito de outra maneira: a tirania pode ser, respectivamente, obtusa, difusa ou confusa. Em qualquer dos casos, um tipo decente, vertebrado, regra geral, está fodido.
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12/13/2004 10:18:00 da tarde
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domingo, dezembro 12, 2004
O Fado do Desgraçadinho
Tu sabias à partida, ó Zazie, minha flor, que, munida desse mapa, entravas em terreno minado. Mesmo assim, trouxeste para aqui, onde não são de todo chamadas, as pérolas do VPV. Lá vou ter que desmantelar, mais uma vez, a bacoquice periódica do sujeito.
Acredita que não me dá gozo especial nenhum. Mas como sugeriste (em tom de desafio, que bem te topei), eu faço-te a vontade.
Começo por citar a tua citação: « Admitamos, por exemplo, que a democracia e a "Europa" deixaram relativamente intacta a nossa cultura de pobreza, de manha, de compadrio, de corrupção, de servilismo e de um ódio universal à lei e à justiça. Uma sociedade camponesa, isolada, quase indigente e quase sempre sujeita a tiranias várias, não se transforma em 30 ou 40 anos numa sociedade individualista, inovadora, solidária e disciplinada».
Isto terá escrito o VPV.
Tu puseste a cereja no topo do bolo: « É isto, Portugal é um país pobre e atrasado ».
É isso, não é?
Extrapolemos.
Pois bem, Portugal é um país pobre. E atrasado, valha-nos Deus.
No entanto, Angola é um país rico. Um dos mais ricos do mundo. E ainda é mais atrasado que Portugal. Em que é que ficamos? Ah, pois, Angola é atrasada por culpa de Portugal, já me esquecia –porque foi colonizada por um país atrasado. Mas eu poderia referir também o ex-Zaire, ou a Nigéria; esses foram colonizados por países adiantados. E também são atrasados. Ainda mais desorganizados, corruptos e caóticos que Angola. Mistério profundo.
Mas os mistérios não ficam por aqui. Diz VPV que em Portugal grassa, simultaneamente, em alegre pandilha suponho, uma "cultura de pobreza" e de "corrupção". Ora, sendo Portugal um país pobre onde, ainda por cima, predomina uma cultura de pobreza, não se compreende muito bem onde vão, os portugueses, maltrapilhos cósmicos, buscar combustível para a corrupção. Depreende-se –a fazer fé no costume – que a corrupção pressupõe uma prática desonesta, tortuosa, de angariar e acumular riqueza. Com certeza, ninguém se dá ao trabalho de surripiar fundos ou cobrar favores para ficar mais pobre, para exercer a tal "cultura de pobreza". Donde, novo paradoxo: há cultura de pobreza ou há, afinal, cultura – capciosa, frenética, trafulha – de riqueza? Queremos todos ser pobres, honrados e honestos; ou queremos, ao invés, seja lá de que maneira for, ser todos ricos, o mais rapidamente possível e vendendo o que estiver mais à mão de leiloar? É impressão minha, ou o país, ao contrário da putativa cultura de pobreza que a fábula em epígrafe testifica, apanhou, isso sim, uma valente gonorreia mental de novo-riquismo?! O que é que Portugal fez ao ouro do Brasil? O que é que fez e ainda vai fazendo ao ouro do Botas? E o que é que fez –questão crucial e proibida – ao dinheiro dos Fundos de Coesão Europeia? Banhou-se neles e, no entanto, não se perfumou. Ao contrário: cheira mal que tresanda.
E temos também - diz o VPV, acabado de descobrir a pólvora - a "cultura do servilismo". Fica sempre bem, no bordado retórico, mencionar o servilismo. É chique. E todavia o nosso servilismo não será, nem de perto nem de longe, maior que o dos chineses, por exemplo. Ora, a China não é a economia em maior expansão e crescimento no Mundo? Devíamos enviar embaixadas para aprender com eles? Devíamos organizar visitas de estudo, romarias e pós-graduações?...
Não esqueçamos, de caminho, os efeitos perniciosos das tiranias, em contraponto aos dotes balsâmicos das democracias milagreiras. Mas pasme-se: a mesma China foi sujeita a tiranias do arco-da-velha, que, à boa moda da crueldade oriental, nem nos passam pela cabeça (continua mesmo sob os rigores duma) e, não obstante, lá vai ela, toda pimpona, vacarrona inaudita, a grande velocidade, em adiantado estado de economia. Novo prodígio: o desenfreado servilismo não os impediu a eles, mas obstrui-nos a nós. Se calhar pecamos por defeito. É, deve ser isso. Devíamos treinar mais.
E quanto ao compadrio, esse cancro? Praticá-lo-emos mais que os italianos? Todavia, eles, que até inventaram a mafia, não se nota que se amargurem e descabelem como nós, ou pelo menos como o VPV. Não é patente que grandes complexos ou traumas, nesse departamento, os atormentem ou atrofiem. De tal modo, que até fizeram dessa infâmia produto de exportação. E não foi com importações dessas que os Estados Unidos se tornaram também uns adiantados de primeira água? E não suspiramos nós, e todos os virtuosos do mundo avançado, por Ferraris, Alfa Romeos, albardas Giorgio Armani e quejandas bugigangas para parolo adiantado-mental?
Mas tem pior, mais grave ainda: Nós, portugueses, párias do mundo, odiamos a lei e a justiça. Será que as odiamos mais, a essas virgens inefáveis, que os Americanos, ou os Ingleses? Basta comparar as taxas de criminalidade violenta, toxicodependência, densidade penitenciária, etc, etc. Ou será que simplesmente não estamos tão bem organizados como eles na mistificação e manipulação da lei e da justiça? Em qualquer dos casos, isso não os atrasa a eles, mas, para alta recreação do articulista, atrasa-nos a nós. Ora bolas!
E, por fim, culminar apoteótico, eis que, num vislumbre fulgurante, a criatura entrevê o paraíso na terra à beira mal plantada. E de que forma? Abracadabra: "uma sociedade individualista e...solidária", "inovadora e...disciplinada". Quer dizer, em simultâneo, uma coisa e o seu contrário. Vamos passar de país atrasado para país esquizofrénico? Belo e besta, por turnos? A desfazer de noite o que tecemos de dia?... Que maravilha!...
Mais palavras para quê? É um artista português.
E vem um tipo, que faz uma trafulhice destas num artigo, clamar contra a putativa trafulhice nacional.
Para mim, isto, este acto típico e campeão do tartufismo infestante, apesar de tudo, tem uma grande virtude: demonstra à saciedade que não só Portugal não é um país pobre, como, pelo contrário, é riquíssimo: pelo menos, em pobreza de espírito. De facto, "uma sociedade camponesa quase indigente", como radiografa o Vasco, já há muito vem dando lugar a uma sociedade urbana – de janotas cultorículas – a destilar pedantice e a chocalhar basófia. Urbanorreia, esta, e doravante, não apenas "quase" mas completamente miserável. Não apenas do espírito, mas também de todos e quaisquer valores que não sejam a vida fácil e o dinheiro homónimo dessa vida.
PS: Desculpa lá, Zazie. Deixas-te levar pelas simpatias goliardescas e nem sempre remiras com atenção. Assim, vou ter que to dizer outra vez (e espero que seja a última): o Rei vai nu! O Vasco faz-me lembrar o Dâmaso.
Acredita que não me dá gozo especial nenhum. Mas como sugeriste (em tom de desafio, que bem te topei), eu faço-te a vontade.
Começo por citar a tua citação: « Admitamos, por exemplo, que a democracia e a "Europa" deixaram relativamente intacta a nossa cultura de pobreza, de manha, de compadrio, de corrupção, de servilismo e de um ódio universal à lei e à justiça. Uma sociedade camponesa, isolada, quase indigente e quase sempre sujeita a tiranias várias, não se transforma em 30 ou 40 anos numa sociedade individualista, inovadora, solidária e disciplinada».
Isto terá escrito o VPV.
Tu puseste a cereja no topo do bolo: « É isto, Portugal é um país pobre e atrasado ».
É isso, não é?
Extrapolemos.
Pois bem, Portugal é um país pobre. E atrasado, valha-nos Deus.
No entanto, Angola é um país rico. Um dos mais ricos do mundo. E ainda é mais atrasado que Portugal. Em que é que ficamos? Ah, pois, Angola é atrasada por culpa de Portugal, já me esquecia –porque foi colonizada por um país atrasado. Mas eu poderia referir também o ex-Zaire, ou a Nigéria; esses foram colonizados por países adiantados. E também são atrasados. Ainda mais desorganizados, corruptos e caóticos que Angola. Mistério profundo.
Mas os mistérios não ficam por aqui. Diz VPV que em Portugal grassa, simultaneamente, em alegre pandilha suponho, uma "cultura de pobreza" e de "corrupção". Ora, sendo Portugal um país pobre onde, ainda por cima, predomina uma cultura de pobreza, não se compreende muito bem onde vão, os portugueses, maltrapilhos cósmicos, buscar combustível para a corrupção. Depreende-se –a fazer fé no costume – que a corrupção pressupõe uma prática desonesta, tortuosa, de angariar e acumular riqueza. Com certeza, ninguém se dá ao trabalho de surripiar fundos ou cobrar favores para ficar mais pobre, para exercer a tal "cultura de pobreza". Donde, novo paradoxo: há cultura de pobreza ou há, afinal, cultura – capciosa, frenética, trafulha – de riqueza? Queremos todos ser pobres, honrados e honestos; ou queremos, ao invés, seja lá de que maneira for, ser todos ricos, o mais rapidamente possível e vendendo o que estiver mais à mão de leiloar? É impressão minha, ou o país, ao contrário da putativa cultura de pobreza que a fábula em epígrafe testifica, apanhou, isso sim, uma valente gonorreia mental de novo-riquismo?! O que é que Portugal fez ao ouro do Brasil? O que é que fez e ainda vai fazendo ao ouro do Botas? E o que é que fez –questão crucial e proibida – ao dinheiro dos Fundos de Coesão Europeia? Banhou-se neles e, no entanto, não se perfumou. Ao contrário: cheira mal que tresanda.
E temos também - diz o VPV, acabado de descobrir a pólvora - a "cultura do servilismo". Fica sempre bem, no bordado retórico, mencionar o servilismo. É chique. E todavia o nosso servilismo não será, nem de perto nem de longe, maior que o dos chineses, por exemplo. Ora, a China não é a economia em maior expansão e crescimento no Mundo? Devíamos enviar embaixadas para aprender com eles? Devíamos organizar visitas de estudo, romarias e pós-graduações?...
Não esqueçamos, de caminho, os efeitos perniciosos das tiranias, em contraponto aos dotes balsâmicos das democracias milagreiras. Mas pasme-se: a mesma China foi sujeita a tiranias do arco-da-velha, que, à boa moda da crueldade oriental, nem nos passam pela cabeça (continua mesmo sob os rigores duma) e, não obstante, lá vai ela, toda pimpona, vacarrona inaudita, a grande velocidade, em adiantado estado de economia. Novo prodígio: o desenfreado servilismo não os impediu a eles, mas obstrui-nos a nós. Se calhar pecamos por defeito. É, deve ser isso. Devíamos treinar mais.
E quanto ao compadrio, esse cancro? Praticá-lo-emos mais que os italianos? Todavia, eles, que até inventaram a mafia, não se nota que se amargurem e descabelem como nós, ou pelo menos como o VPV. Não é patente que grandes complexos ou traumas, nesse departamento, os atormentem ou atrofiem. De tal modo, que até fizeram dessa infâmia produto de exportação. E não foi com importações dessas que os Estados Unidos se tornaram também uns adiantados de primeira água? E não suspiramos nós, e todos os virtuosos do mundo avançado, por Ferraris, Alfa Romeos, albardas Giorgio Armani e quejandas bugigangas para parolo adiantado-mental?
Mas tem pior, mais grave ainda: Nós, portugueses, párias do mundo, odiamos a lei e a justiça. Será que as odiamos mais, a essas virgens inefáveis, que os Americanos, ou os Ingleses? Basta comparar as taxas de criminalidade violenta, toxicodependência, densidade penitenciária, etc, etc. Ou será que simplesmente não estamos tão bem organizados como eles na mistificação e manipulação da lei e da justiça? Em qualquer dos casos, isso não os atrasa a eles, mas, para alta recreação do articulista, atrasa-nos a nós. Ora bolas!
E, por fim, culminar apoteótico, eis que, num vislumbre fulgurante, a criatura entrevê o paraíso na terra à beira mal plantada. E de que forma? Abracadabra: "uma sociedade individualista e...solidária", "inovadora e...disciplinada". Quer dizer, em simultâneo, uma coisa e o seu contrário. Vamos passar de país atrasado para país esquizofrénico? Belo e besta, por turnos? A desfazer de noite o que tecemos de dia?... Que maravilha!...
Mais palavras para quê? É um artista português.
E vem um tipo, que faz uma trafulhice destas num artigo, clamar contra a putativa trafulhice nacional.
Para mim, isto, este acto típico e campeão do tartufismo infestante, apesar de tudo, tem uma grande virtude: demonstra à saciedade que não só Portugal não é um país pobre, como, pelo contrário, é riquíssimo: pelo menos, em pobreza de espírito. De facto, "uma sociedade camponesa quase indigente", como radiografa o Vasco, já há muito vem dando lugar a uma sociedade urbana – de janotas cultorículas – a destilar pedantice e a chocalhar basófia. Urbanorreia, esta, e doravante, não apenas "quase" mas completamente miserável. Não apenas do espírito, mas também de todos e quaisquer valores que não sejam a vida fácil e o dinheiro homónimo dessa vida.
PS: Desculpa lá, Zazie. Deixas-te levar pelas simpatias goliardescas e nem sempre remiras com atenção. Assim, vou ter que to dizer outra vez (e espero que seja a última): o Rei vai nu! O Vasco faz-me lembrar o Dâmaso.
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12/12/2004 11:26:00 da tarde
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quinta-feira, dezembro 09, 2004
Bodes, Bufos e Oráculos
E agora, para algo realmente iconoclasta...
Na antiga Israel, no deserto de Judá, habitava um demónio misterioso chamado Azazel. Anualmente, os Hebreus daquele tempo seleccionavam um bode, depositavam nele todos os pecados desse ano, e enviavam-no a Azazel. Realizavam assim um ritual de purificação da cidade e respectivas gentes. O animal depositário levava consigo o mal acumulado e lavava as consciências, servindo de veículo para descarga da culpa. Ficou conhecido para a posteridade como "bode expiatório" e ainda hoje, noutras roupagens e latitudes, é recurso frequente de toda a espécie de intérpretes.
Sobre a qualidade moral do povo hebreu, desde sempre, o Antigo Testamento é esclarecedor. Amante de bezerros de Ouro, velhaco, traidor e venal a quase todas as horas, esmera-se em levar Moisés à quase apoplexia e Ihavé, o seu descabelado Deus, ao genocídio exemplar. No fundo, o povo hebreu parece estabelecer o paradigma de todos os povos do futuro, pelo menos quando largados em momentos de deriva, de transição, de crise cultural ou de identidade. Chegamos assim ao Portugal actual.
O povo português da hora presente em nada desmerece do povo hebreu daqueles tempos do êxodo. De volta de bezerros de ouro e vacas de úbere fácil, como varejeiras de roda da bosta, compraz-se no escândalo, na obscenidade, no desastre. Sem pinga de honra nem esqueleto, deleita-se no próprio suplício, refastela-se na sordidez doméstica, entrega-se ao masoquismo degradante. Náufrago de sonhos, galopa qualquer estilha ou salvado de pesadelo que flutue ao alcance. Na política, na justiça, na administração pública, na economia, na cultura, vê-se ao espelho. Mira-se voluptuosamente e derriça-se num coquetismo de anoréctico. De alto a baixo, a sociedade portuguesa escorre, fede, serve de repasto a parasitas e vermes. É todo um cóio a liquefazer-se. É toda uma choldra à espera –como os outros de há milénios- do maná/subsídio/crédito/financiamento que cai dos céus; e à babugem, já não da Terra, mas seguramente do tacho prometido, da promoçãozinha a troco de favores, da recompensa pela prostituição transcendental.
No meio dum tal regime de cloaca, foragido de quaisquer cuidados de higiene moral, vacinado contra o escrúpulo, impermeabilizado contra o pudor, não admira que, já não anual mas mensalmente, experimente uma dispepsia por empanturramento de lixo mental. Como há milhares de anos, recorre-se ao rito providencial do "bode expiatório". Mas, a este, já não o mandam para o deserto: servem-no à mesa, ao domicílio, enésimas vezes ao dia, e funciona como uma mescla de hóstia e supositório, que degustam, em simultâneo, pelos olhos adentro e pelo esfíncter acima, numa comunhão híbrida de beatos tartufos, para glória duma religião de basbaques impotentes. Também, na essência, já não serve, o bicho redentor, para efeito duma qualquer ablução moral. Na verdade, protagoniza mais o clister sucio-pulhítico, a lavagem emética das entranhas à moda romana: só para restaurar o vazio que permita a ingestão de mais porcarias, logo a seguir e ad eternum. O próprio "bode" adquire, doravante, forma antropomórfica: de preferência é alguém que, por este ou aquele motivo (em si irrelevante), congregue a atenção da turba, hipnotize –pela sua notoriedade- o rudimento mental da horda. Cumpre diante desta, mais que o aterro sanitário da culpa duma determinada franja superior dela própria, a função providencial de fetiche desviante, espantalho polarizador do linchamento ou da lapidação pública. Enquanto o apedrejam e vituperam a ele, entretêm-se, ocupam-se, aliviam-se, e não nos apedrejam nem nos vituperam a nós.
É assim que os fait-divers pseudo judiciais –dos pedófilos a Pinto da Costa, com Camarate em lista de espera -, mais que um qualquer indício de ressurreição da justiça ou resgate desta às garras da impunidade endémica, consumam, ao invés, o primado do torcionarismo instalado, selectivo, aracnídeo, a culinária abjecta de bastidores, seitas e pontificados inconfessáveis. Continua a ser, para mais refinado porque labiríntico, o método inquisitorial de sempre.
O Inquisidor de outras épocas, leão necrófago, predador de hereges ou similares, fazia-se acompanhar e preceder, como é próprio dos leões oportunistas, de chacais e abutres –os seus delatores de serviço. O mesmo decalcaram e fizeram os esbirros-a-soldo de todos os regimes. Durante o Estado-Novo, a Pide serviu-se duma rede de bufos execráveis que minavam o país e, pelos vistos, deixaram escola. O bufo, faça-se notar, não existe, nunca existiu, para denunciar –digamos, fria e imparcialmente – quaisquer delinquentes genuínos (seja do foro material ou espiritual); serve, outrossim, para 1. Denunciar quem convém e lhe mandam denunciar; 2. Denunciar de quem não gosta (rivais, adversários ou alguém a quem inveja qualquer bem); 3. Delatar como modo de vida e fonte de rendimentos ou contrapartidas venais. Aliás, em bom rigor e na maior parte dos casos, o bufo não denuncia, malsina.
Acrescente-se que no passado, regra geral, esse mister, apesar de rendoso e concorrido, sempre decorreu sob o manto da infâmia e do opróbrio, na penumbra dos lacaios, párias e azeméis. Mas isso era dantes. Agora, foi reabilitado e institucionalizado. É fonte preclara de vedetas e luminárias públicas – novas sibilas, vates sacrossantos. Alcançou mesmo a glória de "quarto poder". Chama-se, com trompejante pompa, "Comunicação Social"*. Atribui-se fenomenais direitos e prerrogativas de Santo Ofício. É igualmente em nome da Inefável Verdade que exerce, só que esta, em vez de única, estática, por procuração divina, é agora múltipla, variável, dinâmica, ao gosto do freguês e da audiência. Os execráveis informadores da Pide de outrora deram lugar aos informadores do Povo – esse putativo soberano dum regime de fantasia – de agora. O mesmo povo que desinformam, manipulam, mistificam e vendem por trinta dinheiros aos pagadores de frete do momento. O destinatário será, em tese, diferente. Mas a mentalidade, infecta, é a mesma.
Ai de nós, a bufaria deveio elite social, alfobre de jet-set. E o bufo, esse, promoveu-se a oráculo.
* - Uma certa "comunicação social de aluguer" ou da "meia-porta". Não confundir com as pessoas honradas que existem em todas as profissões.
Na antiga Israel, no deserto de Judá, habitava um demónio misterioso chamado Azazel. Anualmente, os Hebreus daquele tempo seleccionavam um bode, depositavam nele todos os pecados desse ano, e enviavam-no a Azazel. Realizavam assim um ritual de purificação da cidade e respectivas gentes. O animal depositário levava consigo o mal acumulado e lavava as consciências, servindo de veículo para descarga da culpa. Ficou conhecido para a posteridade como "bode expiatório" e ainda hoje, noutras roupagens e latitudes, é recurso frequente de toda a espécie de intérpretes.
Sobre a qualidade moral do povo hebreu, desde sempre, o Antigo Testamento é esclarecedor. Amante de bezerros de Ouro, velhaco, traidor e venal a quase todas as horas, esmera-se em levar Moisés à quase apoplexia e Ihavé, o seu descabelado Deus, ao genocídio exemplar. No fundo, o povo hebreu parece estabelecer o paradigma de todos os povos do futuro, pelo menos quando largados em momentos de deriva, de transição, de crise cultural ou de identidade. Chegamos assim ao Portugal actual.
O povo português da hora presente em nada desmerece do povo hebreu daqueles tempos do êxodo. De volta de bezerros de ouro e vacas de úbere fácil, como varejeiras de roda da bosta, compraz-se no escândalo, na obscenidade, no desastre. Sem pinga de honra nem esqueleto, deleita-se no próprio suplício, refastela-se na sordidez doméstica, entrega-se ao masoquismo degradante. Náufrago de sonhos, galopa qualquer estilha ou salvado de pesadelo que flutue ao alcance. Na política, na justiça, na administração pública, na economia, na cultura, vê-se ao espelho. Mira-se voluptuosamente e derriça-se num coquetismo de anoréctico. De alto a baixo, a sociedade portuguesa escorre, fede, serve de repasto a parasitas e vermes. É todo um cóio a liquefazer-se. É toda uma choldra à espera –como os outros de há milénios- do maná/subsídio/crédito/financiamento que cai dos céus; e à babugem, já não da Terra, mas seguramente do tacho prometido, da promoçãozinha a troco de favores, da recompensa pela prostituição transcendental.
No meio dum tal regime de cloaca, foragido de quaisquer cuidados de higiene moral, vacinado contra o escrúpulo, impermeabilizado contra o pudor, não admira que, já não anual mas mensalmente, experimente uma dispepsia por empanturramento de lixo mental. Como há milhares de anos, recorre-se ao rito providencial do "bode expiatório". Mas, a este, já não o mandam para o deserto: servem-no à mesa, ao domicílio, enésimas vezes ao dia, e funciona como uma mescla de hóstia e supositório, que degustam, em simultâneo, pelos olhos adentro e pelo esfíncter acima, numa comunhão híbrida de beatos tartufos, para glória duma religião de basbaques impotentes. Também, na essência, já não serve, o bicho redentor, para efeito duma qualquer ablução moral. Na verdade, protagoniza mais o clister sucio-pulhítico, a lavagem emética das entranhas à moda romana: só para restaurar o vazio que permita a ingestão de mais porcarias, logo a seguir e ad eternum. O próprio "bode" adquire, doravante, forma antropomórfica: de preferência é alguém que, por este ou aquele motivo (em si irrelevante), congregue a atenção da turba, hipnotize –pela sua notoriedade- o rudimento mental da horda. Cumpre diante desta, mais que o aterro sanitário da culpa duma determinada franja superior dela própria, a função providencial de fetiche desviante, espantalho polarizador do linchamento ou da lapidação pública. Enquanto o apedrejam e vituperam a ele, entretêm-se, ocupam-se, aliviam-se, e não nos apedrejam nem nos vituperam a nós.
É assim que os fait-divers pseudo judiciais –dos pedófilos a Pinto da Costa, com Camarate em lista de espera -, mais que um qualquer indício de ressurreição da justiça ou resgate desta às garras da impunidade endémica, consumam, ao invés, o primado do torcionarismo instalado, selectivo, aracnídeo, a culinária abjecta de bastidores, seitas e pontificados inconfessáveis. Continua a ser, para mais refinado porque labiríntico, o método inquisitorial de sempre.
O Inquisidor de outras épocas, leão necrófago, predador de hereges ou similares, fazia-se acompanhar e preceder, como é próprio dos leões oportunistas, de chacais e abutres –os seus delatores de serviço. O mesmo decalcaram e fizeram os esbirros-a-soldo de todos os regimes. Durante o Estado-Novo, a Pide serviu-se duma rede de bufos execráveis que minavam o país e, pelos vistos, deixaram escola. O bufo, faça-se notar, não existe, nunca existiu, para denunciar –digamos, fria e imparcialmente – quaisquer delinquentes genuínos (seja do foro material ou espiritual); serve, outrossim, para 1. Denunciar quem convém e lhe mandam denunciar; 2. Denunciar de quem não gosta (rivais, adversários ou alguém a quem inveja qualquer bem); 3. Delatar como modo de vida e fonte de rendimentos ou contrapartidas venais. Aliás, em bom rigor e na maior parte dos casos, o bufo não denuncia, malsina.
Acrescente-se que no passado, regra geral, esse mister, apesar de rendoso e concorrido, sempre decorreu sob o manto da infâmia e do opróbrio, na penumbra dos lacaios, párias e azeméis. Mas isso era dantes. Agora, foi reabilitado e institucionalizado. É fonte preclara de vedetas e luminárias públicas – novas sibilas, vates sacrossantos. Alcançou mesmo a glória de "quarto poder". Chama-se, com trompejante pompa, "Comunicação Social"*. Atribui-se fenomenais direitos e prerrogativas de Santo Ofício. É igualmente em nome da Inefável Verdade que exerce, só que esta, em vez de única, estática, por procuração divina, é agora múltipla, variável, dinâmica, ao gosto do freguês e da audiência. Os execráveis informadores da Pide de outrora deram lugar aos informadores do Povo – esse putativo soberano dum regime de fantasia – de agora. O mesmo povo que desinformam, manipulam, mistificam e vendem por trinta dinheiros aos pagadores de frete do momento. O destinatário será, em tese, diferente. Mas a mentalidade, infecta, é a mesma.
Ai de nós, a bufaria deveio elite social, alfobre de jet-set. E o bufo, esse, promoveu-se a oráculo.
* - Uma certa "comunicação social de aluguer" ou da "meia-porta". Não confundir com as pessoas honradas que existem em todas as profissões.
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12/09/2004 09:30:00 da tarde
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terça-feira, dezembro 07, 2004
Carta ao Pai Natal
Estimado Pai Natal,
Aproximando-se mais uma quadra da tua jurisdição, tomei a liberdade de te remeter uns sarrabiscos. Como deves calcular, venho formular-te alguns pedidos, não muitos, não com intuitos açambarcadores e egoístas (como bem sabes, o liberalismo não me fascina), mas em nome de todos os portugueses meus irmãos, de esquerda e de direita, masculinos e femininos, velhos e crianças, portistas e benfiquistas, enfim, todos, excepto os neoconas, os neoliberais e os fariseus, passe o pleonasmo, porque esses como já são umas ricas prendas não precisam delas. Aliás, corrijo: se puderes, traz-lhes um escarépio. Não dos mentais, que desses já eles têm, mas daqueles clássicos, de trazer na gaita e que só desaparecem ao fim de muito tempo e várias injecções. Não te esqueças.
Mas vamos ao que realmente interessa.
Pai Natal, já nos conhecemos há um bom par de anos. Por causa aquela bicicleta essencial que te esqueceste naquele Natal fatídico (um raio te parta!), sabes que ainda estás em dívida para comigo. Estás e estarás, porque por mais anos que eu viva não me esquecerei. Portanto, sendo que desta vez até estou imbuído de autêntico espírito altruísta digno da efeméride que aí vem, desta vez –e ao contrário daquela noite fria de há muitos anos (grande sacana) – confio que não me deixes ficar mal.
Começo por te pedir uma coisa que estes gajos, os portugueses, estão muito carentes neste momento: um governo. Mas não daqueles de imitação, em miniaturas tele-comandadas, a corda ou a pilhas, chiça! Para isso já temos estes do costume, das lojas dos trezentos, dos bazares monhés e da feira de Carcavelos. São de péssima qualidade, estes, mesmo enquanto brinquedo – não duram nada e ainda agora acabaram de escavacar o último (regista aí nos teus apontamentos que estes gajos oscilam quotidianamente entre a alarvidade e a broncolatria). Não, Pai Natal, é dos outros que convinha que trouxesses, daqueles reais, feitos de pessoas a sério, com coluna vertebral e tudo. Eu sei que aí na Lapónia correm rumores de que estes gajos são ingovernáveis e, viciados no desgoverno, junkies da balbúrdia, a última coisa que desejariam seria genuína ordem, justiça e competência ao leme da colectividade. Não é que não haja um certo fundo de verdade nesses boatos (para te ser franco, até é mais que um fundo), mas, mesmo assim, tendo em atenção a quadra natalícia, há que usar duma certa generosidade, não achas? É melhor que aches, porque senão ainda vou ter que me chatear contigo. Bem sabes que o meu sonho secreto era ser um ditador sanguinário.
Por isso não me venhas com a história que governos desses, verdadeiras obras de arte, já não se fabricam. Que agora vem tudo da China, ou de Taiwan, que é aquela china mais o pequenina que a outra, ou da Malásia, ou do raio que os parta a esses cabrões dos capitalistas! Procura, ó Pai Natal. Se te resignas, não admira que os gajos te substituam pelos shopping coisos e pelos cartões Visa. Desenrasca-te, que diabo! Põe um anúncio na internet! Informa-te junto dos blogues. Algum artesanato ainda há-de restar –alguma daqueles oficinas vetustas onde burilam ainda velhos mestres virtuosos. Senão, manda embaixadores a outros planetas, vasculha noutras galáxias, faz qualquer coisa, criatura de Deus!... Envia sondas pelo Cosmos, aconselha-te com o Altíssimo, vais ver que nalguma constelação logo ali ao virar da esquina devem estar a saldá-los ao preço da uva mijona. É uma lei da física –a única, aliás, com ar de valer mais que um tostão furado: se aqui há uma penúria do caraças é porque nalgum outro lugar do universo certos nababos nadam na abundância. Seja justiça, seja comida, sejam governos. Vai por mim: procura bem que vais ver que ainda encontras.
Não obstante, usa de alguma prudência. Se entrares em desespero, não deixes que em parte nenhuma ele transpareça. O teu e o meu, que de ver-te assim a arrepanhar os cabelos também me preocupo. Desconfio que os mercadores são iguais em toda a parte: desespero e necessidade são para eles música celestial e pretexto ágil para especulação e ganância desinsofridas. E depois, mesmo que não tenham o que procuras, nunca têm, tratam logo de te impingir outra bugiganga qualquer, que embalam de superiores performances e infinitas vantagens. À falta de governo vertebrado, não te admires, pois, se te acenarem, em jeito de último grito ou pechincha de ocasião, com um "homem providencial". Não é que não tivesse a sua piada, largares-lhes tu um desses pela chaminé abaixo, todo pimpão, de código draconiano numa mão e cavalo marinho na outra, sobretudo para chatear os liberais e vê-los a coçarem-se desvairados, servindo de repasto à urticária. Mas desconfia, será pechisbeque pela certa: um verdadeiro homem providencial –um Péricles, um Alexandre, um Napoleão -, é ainda mais raro que os governos a sério. Não é por acaso que os associam, regra geral, esses diamantes políticos, aos cometas e aos augúrios celestes, sendo o seu nascimento normalmente presidido por eventos extraordinários e conjunturas mirabolantes. De resto, o último providencial que lhes trouxeste, não sendo um Stradivarius desses (longe disso), mesmo assim durou que se fartou, parecia que nunca mais acabava; e não fora a velhice e o parricídio mancomunados para o empurrarem duma cadeira abaixo, estou em crer que a História não teria tido vida fácil. Ainda dizem que o fabrico nacional não é bom!... Mas o pior foi que ardia em fervores paternalistas e estragou esta pandilha toda com mimos. Empanturrou-os de hóstias e bacalhauzadas; mandou-os em safaris e piqueniques pelas Áfricas ou estudos no estrangeiro, como opção para os mais alérgicos ou melindrosos ao paludismo; estimulou-os ao turismo laboral por seca e meca (quando se foi a ver, andavam aos milhares a flausinar por Paris e Hamburgo, a passearem-se pelas férias e natais na terrinha em brutas máquinas, e a erigir mansardas ao estilo alpe suiço); etc, etc. Claro está, quanto mais ele os apaparicava, mais malcriados, birrentos, sornas, velhacos e flácidos eles ficavam. Quanto mais porfiava por superprotegê-los, mantendo-os em redomas de moral e beatice sonsa, mais lhes atiçava a lubricidade reprimida e os treinava para a futura prostituição, para a escandalosa militância. Uma tragédia familiar, enfim. Manter os filhos na incubadora até à andro ou menopausa não constituiu, de facto, boa política. Resultou em flores de estufa. Hipocondríacos e neurasténicos, queixinhas profissionais, sempre a lamuriarem-se de qualquer coisa e de toda a gente, sobretudo de quem escape ao molde ou tenha o desplante de adoptar a postura erecta.
Por conseguinte, ó Pai Natal, se não conseguires trazer um governo a sério, tem cuidado com esses saldos de homens providenciais. Quase sempre é publicidade enganosa, refugo das fábricas do Absoluto. Os de contrafacção, mesmo de qualidade razoável, além de não se reproduzirem decentemente, promovem, à saída, salgalhadas babélicas e dédalos irresolúveis ainda piores que aqueles que encontraram à entrada.
Vê lá o que é que fazes, ó alma crédula!...
Por hoje não te maço mais e termino. Sei que, bem no fundo, te estou a pedir um milagre. Mas eu acredito em milagres e não há desilusão que me desencoraje. Não continuo eu, passados estes anos todos, a acreditar solenemente em ti?!...
Cá te espero em impaciente vigília,
Dragão
PS: Caso te seja de todo impossível realizá-lo, não obstante as exaustivas buscas e pesquisas, não esmoreças. Em vez disso, aproveita a campanha interplanetária e, de passagem ali pelas bandas de Marte, conforme reza a lenda, traz-me, a mim, teu credor prioritário, o "raio da morte". Assim, de momento, o único homem providencial verdadeiramente excepcional que me ocorre e conheço, neste país –sobretudo depois de armado com o "raio da morte" – sou eu. Dá-me pois tu o raio, que, à falta de governo vertebrado, o homem providencial lhes darei eu. E digo-te ainda mais: Traz-me essa benemérita ferramenta este Natal e ficamos quites quanto à bicicleta. Palavra de Dragão!
Aproximando-se mais uma quadra da tua jurisdição, tomei a liberdade de te remeter uns sarrabiscos. Como deves calcular, venho formular-te alguns pedidos, não muitos, não com intuitos açambarcadores e egoístas (como bem sabes, o liberalismo não me fascina), mas em nome de todos os portugueses meus irmãos, de esquerda e de direita, masculinos e femininos, velhos e crianças, portistas e benfiquistas, enfim, todos, excepto os neoconas, os neoliberais e os fariseus, passe o pleonasmo, porque esses como já são umas ricas prendas não precisam delas. Aliás, corrijo: se puderes, traz-lhes um escarépio. Não dos mentais, que desses já eles têm, mas daqueles clássicos, de trazer na gaita e que só desaparecem ao fim de muito tempo e várias injecções. Não te esqueças.
Mas vamos ao que realmente interessa.
Pai Natal, já nos conhecemos há um bom par de anos. Por causa aquela bicicleta essencial que te esqueceste naquele Natal fatídico (um raio te parta!), sabes que ainda estás em dívida para comigo. Estás e estarás, porque por mais anos que eu viva não me esquecerei. Portanto, sendo que desta vez até estou imbuído de autêntico espírito altruísta digno da efeméride que aí vem, desta vez –e ao contrário daquela noite fria de há muitos anos (grande sacana) – confio que não me deixes ficar mal.
Começo por te pedir uma coisa que estes gajos, os portugueses, estão muito carentes neste momento: um governo. Mas não daqueles de imitação, em miniaturas tele-comandadas, a corda ou a pilhas, chiça! Para isso já temos estes do costume, das lojas dos trezentos, dos bazares monhés e da feira de Carcavelos. São de péssima qualidade, estes, mesmo enquanto brinquedo – não duram nada e ainda agora acabaram de escavacar o último (regista aí nos teus apontamentos que estes gajos oscilam quotidianamente entre a alarvidade e a broncolatria). Não, Pai Natal, é dos outros que convinha que trouxesses, daqueles reais, feitos de pessoas a sério, com coluna vertebral e tudo. Eu sei que aí na Lapónia correm rumores de que estes gajos são ingovernáveis e, viciados no desgoverno, junkies da balbúrdia, a última coisa que desejariam seria genuína ordem, justiça e competência ao leme da colectividade. Não é que não haja um certo fundo de verdade nesses boatos (para te ser franco, até é mais que um fundo), mas, mesmo assim, tendo em atenção a quadra natalícia, há que usar duma certa generosidade, não achas? É melhor que aches, porque senão ainda vou ter que me chatear contigo. Bem sabes que o meu sonho secreto era ser um ditador sanguinário.
Por isso não me venhas com a história que governos desses, verdadeiras obras de arte, já não se fabricam. Que agora vem tudo da China, ou de Taiwan, que é aquela china mais o pequenina que a outra, ou da Malásia, ou do raio que os parta a esses cabrões dos capitalistas! Procura, ó Pai Natal. Se te resignas, não admira que os gajos te substituam pelos shopping coisos e pelos cartões Visa. Desenrasca-te, que diabo! Põe um anúncio na internet! Informa-te junto dos blogues. Algum artesanato ainda há-de restar –alguma daqueles oficinas vetustas onde burilam ainda velhos mestres virtuosos. Senão, manda embaixadores a outros planetas, vasculha noutras galáxias, faz qualquer coisa, criatura de Deus!... Envia sondas pelo Cosmos, aconselha-te com o Altíssimo, vais ver que nalguma constelação logo ali ao virar da esquina devem estar a saldá-los ao preço da uva mijona. É uma lei da física –a única, aliás, com ar de valer mais que um tostão furado: se aqui há uma penúria do caraças é porque nalgum outro lugar do universo certos nababos nadam na abundância. Seja justiça, seja comida, sejam governos. Vai por mim: procura bem que vais ver que ainda encontras.
Não obstante, usa de alguma prudência. Se entrares em desespero, não deixes que em parte nenhuma ele transpareça. O teu e o meu, que de ver-te assim a arrepanhar os cabelos também me preocupo. Desconfio que os mercadores são iguais em toda a parte: desespero e necessidade são para eles música celestial e pretexto ágil para especulação e ganância desinsofridas. E depois, mesmo que não tenham o que procuras, nunca têm, tratam logo de te impingir outra bugiganga qualquer, que embalam de superiores performances e infinitas vantagens. À falta de governo vertebrado, não te admires, pois, se te acenarem, em jeito de último grito ou pechincha de ocasião, com um "homem providencial". Não é que não tivesse a sua piada, largares-lhes tu um desses pela chaminé abaixo, todo pimpão, de código draconiano numa mão e cavalo marinho na outra, sobretudo para chatear os liberais e vê-los a coçarem-se desvairados, servindo de repasto à urticária. Mas desconfia, será pechisbeque pela certa: um verdadeiro homem providencial –um Péricles, um Alexandre, um Napoleão -, é ainda mais raro que os governos a sério. Não é por acaso que os associam, regra geral, esses diamantes políticos, aos cometas e aos augúrios celestes, sendo o seu nascimento normalmente presidido por eventos extraordinários e conjunturas mirabolantes. De resto, o último providencial que lhes trouxeste, não sendo um Stradivarius desses (longe disso), mesmo assim durou que se fartou, parecia que nunca mais acabava; e não fora a velhice e o parricídio mancomunados para o empurrarem duma cadeira abaixo, estou em crer que a História não teria tido vida fácil. Ainda dizem que o fabrico nacional não é bom!... Mas o pior foi que ardia em fervores paternalistas e estragou esta pandilha toda com mimos. Empanturrou-os de hóstias e bacalhauzadas; mandou-os em safaris e piqueniques pelas Áfricas ou estudos no estrangeiro, como opção para os mais alérgicos ou melindrosos ao paludismo; estimulou-os ao turismo laboral por seca e meca (quando se foi a ver, andavam aos milhares a flausinar por Paris e Hamburgo, a passearem-se pelas férias e natais na terrinha em brutas máquinas, e a erigir mansardas ao estilo alpe suiço); etc, etc. Claro está, quanto mais ele os apaparicava, mais malcriados, birrentos, sornas, velhacos e flácidos eles ficavam. Quanto mais porfiava por superprotegê-los, mantendo-os em redomas de moral e beatice sonsa, mais lhes atiçava a lubricidade reprimida e os treinava para a futura prostituição, para a escandalosa militância. Uma tragédia familiar, enfim. Manter os filhos na incubadora até à andro ou menopausa não constituiu, de facto, boa política. Resultou em flores de estufa. Hipocondríacos e neurasténicos, queixinhas profissionais, sempre a lamuriarem-se de qualquer coisa e de toda a gente, sobretudo de quem escape ao molde ou tenha o desplante de adoptar a postura erecta.
Por conseguinte, ó Pai Natal, se não conseguires trazer um governo a sério, tem cuidado com esses saldos de homens providenciais. Quase sempre é publicidade enganosa, refugo das fábricas do Absoluto. Os de contrafacção, mesmo de qualidade razoável, além de não se reproduzirem decentemente, promovem, à saída, salgalhadas babélicas e dédalos irresolúveis ainda piores que aqueles que encontraram à entrada.
Vê lá o que é que fazes, ó alma crédula!...
Por hoje não te maço mais e termino. Sei que, bem no fundo, te estou a pedir um milagre. Mas eu acredito em milagres e não há desilusão que me desencoraje. Não continuo eu, passados estes anos todos, a acreditar solenemente em ti?!...
Cá te espero em impaciente vigília,
Dragão
PS: Caso te seja de todo impossível realizá-lo, não obstante as exaustivas buscas e pesquisas, não esmoreças. Em vez disso, aproveita a campanha interplanetária e, de passagem ali pelas bandas de Marte, conforme reza a lenda, traz-me, a mim, teu credor prioritário, o "raio da morte". Assim, de momento, o único homem providencial verdadeiramente excepcional que me ocorre e conheço, neste país –sobretudo depois de armado com o "raio da morte" – sou eu. Dá-me pois tu o raio, que, à falta de governo vertebrado, o homem providencial lhes darei eu. E digo-te ainda mais: Traz-me essa benemérita ferramenta este Natal e ficamos quites quanto à bicicleta. Palavra de Dragão!
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12/07/2004 10:11:00 da tarde
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segunda-feira, dezembro 06, 2004
Consultórios ou confessionários
O Padre Manuel Freitas (conheci-o lá pelas bandas das filosofias), ao contrário de outros figurões da sua espécie, afigurou-se-me uma pessoa de espírito. Dizia (e penso que ainda diz) até coisas carregadas de senso. Há padres assim, graças a Deus.
Uma dessas tiradas sensatas, com imensa piada e abençoada mordacidade, era a seguinte:
«Não ides aos consultórios de psiquiatras, psicólogos e outros veterinários da alma; vinde antes ao confessionário, que, ao menos, é gratuito.»
(Confesso que compus um pouco o ramalhete –o "veterinários da alma", pois –, mas o digníssimo padre até merece e certamente saberá perdoar-me o ter adicionado um pouco do meu sarcasmo à sua justíssima ironia).
Uma dessas tiradas sensatas, com imensa piada e abençoada mordacidade, era a seguinte:
«Não ides aos consultórios de psiquiatras, psicólogos e outros veterinários da alma; vinde antes ao confessionário, que, ao menos, é gratuito.»
(Confesso que compus um pouco o ramalhete –o "veterinários da alma", pois –, mas o digníssimo padre até merece e certamente saberá perdoar-me o ter adicionado um pouco do meu sarcasmo à sua justíssima ironia).
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12/06/2004 02:07:00 da tarde
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domingo, dezembro 05, 2004
Atrair Investimento
Refrão dos mais cantados no nosso país é "atrair investimento". Subitamente, esta é a fórmula de todas as panaceias. Quaisquer problemas que aflijam, onde quer que seja, não há que enganar, a solução é fácil: atrair investimento. De franceses, alemães, japoneses, esquimós, não há por onde enganar: atrai-se investimento e pronto...é melhor que o totoloto: é fácil, é barato e dá milhões. Criou-se mesmo uma agência com essa finalidade específica: atrair investimento. No meio da pior borrasca, basta entoar-se essa runa e o mar encapelado acalma-se como que por milagre – a frase abençoada é verdadeiro azeite sobre as águas. O povo geme, os usurários apertam, a nação periclita...Mas eis que o político remendado, ao volante dum novo governo eleito, recauchutado, sobe à tribuna. E o que é que ele diz? O que é que ele profere em tom sibilino? O que é que deixa sair pelo cerro dos dentes, em rasgo sublime, qual demiurgo retumbante? –Temos que atrair investimento! É a solução. É a saída. E é um mistério. Um grande mistério, se querem a minha opinião. Exactamente em que consiste, começo a desconfiar que ninguém sabe. Nem, tão pouco, para o que serve. Balbuciam uns quantos chavões enigmáticos, na quase forma de hieróglifos inefáveis –como "emprego", "riqueza", "modernização" – e pouco mais.
Mas também ninguém se interroga: temos que atrair investimento porquê? Essa, verdade seja dita, é higiene básica que a ninguém ocorre. Fora o ser o "abre-te Sésamo" destes novos Ali Babás, a coisa permanece envolta numa penumbra esotérica de segredo cabalístico. Todavia, atrevo-me à aventura e dou comigo a intuir que, senão pela razão avulsa, talvez pela analogia se lá consiga chegar. Ocorre-me mesmo, sem grande esforço, um portal descriptante:
Aquelas meninas, em trajes diminutos e apelativos, que se oferecem pela beira das estradas, na orla de encruzilhadas e pinhais, não estarão elas, stricto sensu, a "atrair investimento"?...
Mas também ninguém se interroga: temos que atrair investimento porquê? Essa, verdade seja dita, é higiene básica que a ninguém ocorre. Fora o ser o "abre-te Sésamo" destes novos Ali Babás, a coisa permanece envolta numa penumbra esotérica de segredo cabalístico. Todavia, atrevo-me à aventura e dou comigo a intuir que, senão pela razão avulsa, talvez pela analogia se lá consiga chegar. Ocorre-me mesmo, sem grande esforço, um portal descriptante:
Aquelas meninas, em trajes diminutos e apelativos, que se oferecem pela beira das estradas, na orla de encruzilhadas e pinhais, não estarão elas, stricto sensu, a "atrair investimento"?...
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12/05/2004 10:16:00 da tarde
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Os Dâmasozinhos
Estava eu, Dragão, posto em sossego e solene recolhimento no meu tenebroso antro, como, de resto, é costume ancestral na minha família.
Eis senão quando me irrompe pela caverna um Dâmasozinho, daqueles tão típicos – verdadeiramente endémicos – ao luso rincão.
Mirei a criaturinha peregrina com algum tédio e concluí:
-"Olha, um Dâmasozinho!..."
Para que servem os Dâmasozinhos?, pergunto-vos eu. Desde o Eça que se sabe, respondereis vocês: para levarem bengaladas, ora essa. Aprende-se na escola. Ou, pelo menos, aprendia-se. Para tão útil e pedagógico efeito, até compensam a mioleira atrofiada com a excelência e abundância de costados.
Vai daí, ao deparar-se-me tal espécime, perfeito e escarrado, dei-lhe uma bengalada. Uma senhora bengalada, muito bem dada. Tão bem dada que até, lá do céu, Deus e os anjos certamente abençoaram e o sol que nos alumia festejou.
São as leis da vida. Que, ao contrário das do mundo, são justas e santas, senão mesmo um dos raros imperativos categóricos que reconheço. Nós, diante de tais energúmenos, não temos alternativa senão largar-lhes a bengala, sem dó. Eles, em contrapartida, têm (alternativa, quero eu dizer): ou são masculinos e aguentam o brinde merecido a pé firme, em silêncio reverente, com estoicismo; ou nem tanto e desatam em escarcéus, ruídos e ganidos próprios de mercado de peixe e hortaliças. Pois bem, no caso vertente, nem tanto.
Sinal dos tempos, certamente. Antigamente, aí há cem anos, faziam, no essencial, como os poltrões. Agora fazem como as mulheres.
Eis senão quando me irrompe pela caverna um Dâmasozinho, daqueles tão típicos – verdadeiramente endémicos – ao luso rincão.
Mirei a criaturinha peregrina com algum tédio e concluí:
-"Olha, um Dâmasozinho!..."
Para que servem os Dâmasozinhos?, pergunto-vos eu. Desde o Eça que se sabe, respondereis vocês: para levarem bengaladas, ora essa. Aprende-se na escola. Ou, pelo menos, aprendia-se. Para tão útil e pedagógico efeito, até compensam a mioleira atrofiada com a excelência e abundância de costados.
Vai daí, ao deparar-se-me tal espécime, perfeito e escarrado, dei-lhe uma bengalada. Uma senhora bengalada, muito bem dada. Tão bem dada que até, lá do céu, Deus e os anjos certamente abençoaram e o sol que nos alumia festejou.
São as leis da vida. Que, ao contrário das do mundo, são justas e santas, senão mesmo um dos raros imperativos categóricos que reconheço. Nós, diante de tais energúmenos, não temos alternativa senão largar-lhes a bengala, sem dó. Eles, em contrapartida, têm (alternativa, quero eu dizer): ou são masculinos e aguentam o brinde merecido a pé firme, em silêncio reverente, com estoicismo; ou nem tanto e desatam em escarcéus, ruídos e ganidos próprios de mercado de peixe e hortaliças. Pois bem, no caso vertente, nem tanto.
Sinal dos tempos, certamente. Antigamente, aí há cem anos, faziam, no essencial, como os poltrões. Agora fazem como as mulheres.
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sexta-feira, dezembro 03, 2004
O Pseudo-Portugal ou Das Quimeras
Tal qual o Homem tem muito a aprender com as plantas, e não propriamente com hortaliças do género nabo e abóbora que dessas já há seguidores em demasia, também a História tem com que se instruir na Botânica.
Na taxonomia, por exemplo. Cito um breve mas elucidativo caso: ao designar-se vulgarmente a Robinia, usa nomear-se essa singular espécie como Pseudo-acácia ou acácia-bastarda. Parece uma acácia, mas na verdade não é. O mesmo poderia fazer-se em relação ao Portugal pós-Dinastia de Avis. Também devia designar-se vulgarmente Pseudo-Portugal ou Portugal Bastardo.
Da mesma forma os seus habitantes seriam vulgarmente designados como pseudo-portugueses ou portugueses-bastardos.
Não digo isto com intuito desprimorante para os tais, país e habitantes (onde obviamente me incluo). Trata-se apenas de constatar, lucidamente, uma realidade. Parecem, mas não são. O país parece um país, mas não é um país; os habitantes parecem pertencer ao país, mas, de facto, pertencem de alma e coração a outros países - em seu esperto entender- mais modernos e gratificantes. Também, estruturalmente, os verdadeiros portugueses eram de cerviz altiva e braço vigoroso. Estes não, e não nos alonguemos nos detalhes por piedade. Fossem árvores e seria o mesmo que comparar a árvore de copa bem erecta e altaneira ao arbusto retorcido e rasteiro. Ou mesmo ao capim forrageiro, segundo alguns eruditos.
Poderia ainda citar outro caso sugestivo da botânica: refiro-me à enxertia.
Neste caso, talvez fosse possível entender-se o Pseudo-Portugal como um enxerto bizarro executado sobre a raiz e tronco decapitado do verdadeiro. O lastimável é que tudo indica (e daí a bizarria) que a operação equivaleu a enxertar uma silva sobre uma roseira (e não o contrário, como recomenda a arte). Prova disso são até as "rosas" actuais que não é preciso matutar muito para perceber que são, na verdade, pseudo-rosas, ou efectivamente, silvas. E quem diz as rosas, diz as laranjas e outros frutos ou flores claramente falsos ou imaginados.
Finalmente, num terceiro caso, só a título de curiosidade e ainda no campo da enxertia, lembro a chamada "quimera". Esta ocorre quando sobre um mesmo cavalo (a planta que serve de base radicular ao conjunto) se enxertam várias outras espécies e não apenas uma. Resulta daí que a mesma árvore ramifica na forma de diversas folhagens e cria frutos de diversas qualidades: poderei mostrar-vos, até num pomar aqui bem perto, laranjeiras que dão laranjas doces, laranjas amargas, limões, tangerinas, limas e goiabas. O Pseudo-Portugal seria, portanto, segundo este paradigma, uma Quimera. Com efeito, ao longo destes últimos séculos, objecto de todo o tipo de enxerto, cada qual mais extravagante e peregrino que o anterior, poderia a sua desafortunada história ser contemplada como uma sucessão de ensaios mais ou menos alucinados de pô-lo a dar franceses, ingleses (na verdade, pseudo-franceses ou pseudo-ingleses), ou o que parecesse melhor e mais rentável ao fruticultor da época. Até russos tentaram. Ultimamente, parece que se tenta uma variedade híbrida de espanhol-americano. Aguardemos os frutos. Até hoje, apesar dos denodados esforços, das mais diversas podas e adubações, o mais que tem dado é bananas. É um facto que são cada vez maiores. Estas, a fazer fé no percurso e no crescimento -já por esta altura - desmesurado, devem vir a ser gigantes. Quase abóboras.
Nisto tudo, talvez haja (oxalá!) um grande exagero e lapidar crueldade da minha parte. Mas que dá que pensar, lá isso dá.
Publicada por
dragão
à(s)
12/03/2004 07:23:00 da tarde
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quarta-feira, dezembro 01, 2004
Sombras e Nevoeiro
Hoje é feriado. Comemora-se, segundo reza o calendário, a Restauração. A generalidade dos portugueses actuais, e quanto mais jovens mais piamente, acreditam que isso significa um dia dedicado aos restaurantes. Em conformidade, aproveitam para almoçar e jantar fora.
Da mesma forma, daqui a vinte e cinco dias, quase todos eles celebrarão um dia de opípara comezaina que sabiamente interpretarão como dia de trocarem prendas e mercadorias, e não como o dia em que há muito, muito tempo, nasceu um menino chamado Jesus que fez aquilo que todos os meninos fazem quando nascem: acendeu uma centelha de esperança no mundo. A dele era só um bocadinho maior que a de cada um de nós. Porque era a de todos.
Ao contrário da esperança –que é, por concessão titânica, imortal –, Portugal morreu em Alcácer-Quibir. Morreu de pé, como morre tudo o que é vertical e nobre. Morreu porque aquela lhe pareceu uma boa hora para morrer. Morreu porque acima do império dos homens, por melhores que sejam, vigora o império do Destino.
Desde então resta-nos um simulacro, uma espécie de sonho brumoso onde vagamos, como um navio fantasma, entre ilhas de fortuita coragem ou dignidade, e oceanos de torpe infâmia e cobardia. Há quase quatro séculos atrás, no dia 1 de Dezembro de 1640, ocorreu algo que exemplifica o primeiro caso. É pena que, desde então, só excepcionalmente tenhamos sido dignos, quase sempre graças a meia dúzia de indivíduos foras-de-série, raramente como povo.
Dir-me-ão: "Vade retro, Dragão! Que pessimismo anti-patriota, que exagero!..."
Dir-vos-ei: De Portugal, ajuntando os destroços que deram à costa, refizeram a aparência, recuperaram o bandulho –improvisaram um espantalho animado, em cima da cruz do defunto, com farpela comprada em saldos na estranja, cabeça de palha, verbo de encher e chapéu de fancaria. Mas a coluna vertebral, e a alma que a sustentava, essas, ficaram lá.
De Portugal, hoje, restam sombras. Como na caverna de Platão, no Hades de Homero e no canto de cisne de Camões.
Sombras no nevoeiro.
«Já esconjurei mil ciladas,
esgota-se-me o esconjuro.
Sigo as minhas pegadas
e não encontro quem procuro.»
Da mesma forma, daqui a vinte e cinco dias, quase todos eles celebrarão um dia de opípara comezaina que sabiamente interpretarão como dia de trocarem prendas e mercadorias, e não como o dia em que há muito, muito tempo, nasceu um menino chamado Jesus que fez aquilo que todos os meninos fazem quando nascem: acendeu uma centelha de esperança no mundo. A dele era só um bocadinho maior que a de cada um de nós. Porque era a de todos.
Ao contrário da esperança –que é, por concessão titânica, imortal –, Portugal morreu em Alcácer-Quibir. Morreu de pé, como morre tudo o que é vertical e nobre. Morreu porque aquela lhe pareceu uma boa hora para morrer. Morreu porque acima do império dos homens, por melhores que sejam, vigora o império do Destino.
Desde então resta-nos um simulacro, uma espécie de sonho brumoso onde vagamos, como um navio fantasma, entre ilhas de fortuita coragem ou dignidade, e oceanos de torpe infâmia e cobardia. Há quase quatro séculos atrás, no dia 1 de Dezembro de 1640, ocorreu algo que exemplifica o primeiro caso. É pena que, desde então, só excepcionalmente tenhamos sido dignos, quase sempre graças a meia dúzia de indivíduos foras-de-série, raramente como povo.
Dir-me-ão: "Vade retro, Dragão! Que pessimismo anti-patriota, que exagero!..."
Dir-vos-ei: De Portugal, ajuntando os destroços que deram à costa, refizeram a aparência, recuperaram o bandulho –improvisaram um espantalho animado, em cima da cruz do defunto, com farpela comprada em saldos na estranja, cabeça de palha, verbo de encher e chapéu de fancaria. Mas a coluna vertebral, e a alma que a sustentava, essas, ficaram lá.
De Portugal, hoje, restam sombras. Como na caverna de Platão, no Hades de Homero e no canto de cisne de Camões.
Sombras no nevoeiro.
«Já esconjurei mil ciladas,
esgota-se-me o esconjuro.
Sigo as minhas pegadas
e não encontro quem procuro.»
Publicada por
dragão
à(s)
12/01/2004 05:37:00 da tarde
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