terça-feira, dezembro 14, 2004

Da Decadência

«(...)Eu queria-me entender com o sr. Deputado, a fim de tirarmos algum proveito deste debate; mas S.Excª, pelos modos por me ver assim minguado de afeites poéticos, acoima-me de absurdidade, e despreza-me!...Valha-me Deus! Se o sr. dr. Libório me não lançasse da sua presença com tamanho desamor, havia de perguntar-lhe por que foram Atenas e Roma bem morigeradas quando pobres, e corrompidas quando ricas e luxuosas. Havia de perguntar-lhe que artes e ciências progrediram entre os Sibaritas e Lídios, povos que a mais elevado grau de luxo subiram. Havia de perguntar-lhe por que foi que os Persas acaudilhados por Ciro, cortados de vida áspera e privada do necessário, subjugaram as nações opulentas. Havia de perguntar-lhe por que foram os Persas, logo que se deram às delícias do luxo, vencidos pelos Lacedemónios.
A suprema verdade, sr. Presidente, a verdade que os arrebiques da retórica não sofismam é que, à medida que os impérios antigos se locupletavam, o luxo ia de foz em fora, e os costumes a desbragarem-se gradualmente, e o pulso da independência a quebrantar-se, e os cimentos das nações a estremecerem. Depois, era o cair do Egipto, da pérsia, da Grécia e Roma. »

- Camilo Castelo Branco, "A Queda dum Anjo"

O diagnóstico é de 1866. Fá-lo Camilo pela boca do seu personagem, o debutante e "incorruptível" Calisto Elói. A obra, a muitos títulos notável, esboça um retrato desapiedado dum parlamentarismo à portuguesa, já naquela data convertido em colmeia de estrangeirados, parasitas, sanguessugas e similares.
Mandando também eu às malvas os "arrebiques da retórica", digo que o nosso Camilo, que de burro não tinha nada, não pôs o dedo na ferida porque esta geralmente até reflecte dignidade, luta ou sacrifício, mas pô-lo certamente no líquido fétido e purulento que preenche os furúnculos ou as gangrenas. Ontem como hoje.
A corrupção, aliás, desde sempre, serviu (e serve) à mesa do luxo. Naturalmente, propaga-se em forma de cascata: desde os que se empanzinam, lá no alto, de caviar até aos que rapam as migalhas, lá debaixo.

segunda-feira, dezembro 13, 2004

Da Prepotência

Em bom rigor, a democracia não existe. Nunca existiu. Se exceptuarmos o protótipo ateniense, com os seus escravos insolentes, o que existe –e existiu desde então, sobretudo por influência romana -, são diversos modos de tirania. Quer dizer, diferentes modalidade de exercício de prepotência. A saber, a prepotência exercida por um, ou despotismo; a prepotência exercida por vários, ou oligarquia; e a prepotência da turba, da multidão, ou oclocracia ("democracia", para o vulgo). Dito de outra maneira: a tirania pode ser, respectivamente, obtusa, difusa ou confusa. Em qualquer dos casos, um tipo decente, vertebrado, regra geral, está fodido.

domingo, dezembro 12, 2004

O Fado do Desgraçadinho

Tu sabias à partida, ó Zazie, minha flor, que, munida desse mapa, entravas em terreno minado. Mesmo assim, trouxeste para aqui, onde não são de todo chamadas, as pérolas do VPV. Lá vou ter que desmantelar, mais uma vez, a bacoquice periódica do sujeito.
Acredita que não me dá gozo especial nenhum. Mas como sugeriste (em tom de desafio, que bem te topei), eu faço-te a vontade.
Começo por citar a tua citação: « Admitamos, por exemplo, que a democracia e a "Europa" deixaram relativamente intacta a nossa cultura de pobreza, de manha, de compadrio, de corrupção, de servilismo e de um ódio universal à lei e à justiça. Uma sociedade camponesa, isolada, quase indigente e quase sempre sujeita a tiranias várias, não se transforma em 30 ou 40 anos numa sociedade individualista, inovadora, solidária e disciplinada».
Isto terá escrito o VPV.
Tu puseste a cereja no topo do bolo: « É isto, Portugal é um país pobre e atrasado ».
É isso, não é?
Extrapolemos.
Pois bem, Portugal é um país pobre. E atrasado, valha-nos Deus.
No entanto, Angola é um país rico. Um dos mais ricos do mundo. E ainda é mais atrasado que Portugal. Em que é que ficamos? Ah, pois, Angola é atrasada por culpa de Portugal, já me esquecia –porque foi colonizada por um país atrasado. Mas eu poderia referir também o ex-Zaire, ou a Nigéria; esses foram colonizados por países adiantados. E também são atrasados. Ainda mais desorganizados, corruptos e caóticos que Angola. Mistério profundo.
Mas os mistérios não ficam por aqui. Diz VPV que em Portugal grassa, simultaneamente, em alegre pandilha suponho, uma "cultura de pobreza" e de "corrupção". Ora, sendo Portugal um país pobre onde, ainda por cima, predomina uma cultura de pobreza, não se compreende muito bem onde vão, os portugueses, maltrapilhos cósmicos, buscar combustível para a corrupção. Depreende-se –a fazer fé no costume – que a corrupção pressupõe uma prática desonesta, tortuosa, de angariar e acumular riqueza. Com certeza, ninguém se dá ao trabalho de surripiar fundos ou cobrar favores para ficar mais pobre, para exercer a tal "cultura de pobreza". Donde, novo paradoxo: há cultura de pobreza ou há, afinal, cultura – capciosa, frenética, trafulha – de riqueza? Queremos todos ser pobres, honrados e honestos; ou queremos, ao invés, seja lá de que maneira for, ser todos ricos, o mais rapidamente possível e vendendo o que estiver mais à mão de leiloar? É impressão minha, ou o país, ao contrário da putativa cultura de pobreza que a fábula em epígrafe testifica, apanhou, isso sim, uma valente gonorreia mental de novo-riquismo?! O que é que Portugal fez ao ouro do Brasil? O que é que fez e ainda vai fazendo ao ouro do Botas? E o que é que fez –questão crucial e proibida – ao dinheiro dos Fundos de Coesão Europeia? Banhou-se neles e, no entanto, não se perfumou. Ao contrário: cheira mal que tresanda.
E temos também - diz o VPV, acabado de descobrir a pólvora - a "cultura do servilismo". Fica sempre bem, no bordado retórico, mencionar o servilismo. É chique. E todavia o nosso servilismo não será, nem de perto nem de longe, maior que o dos chineses, por exemplo. Ora, a China não é a economia em maior expansão e crescimento no Mundo? Devíamos enviar embaixadas para aprender com eles? Devíamos organizar visitas de estudo, romarias e pós-graduações?...
Não esqueçamos, de caminho, os efeitos perniciosos das tiranias, em contraponto aos dotes balsâmicos das democracias milagreiras. Mas pasme-se: a mesma China foi sujeita a tiranias do arco-da-velha, que, à boa moda da crueldade oriental, nem nos passam pela cabeça (continua mesmo sob os rigores duma) e, não obstante, lá vai ela, toda pimpona, vacarrona inaudita, a grande velocidade, em adiantado estado de economia. Novo prodígio: o desenfreado servilismo não os impediu a eles, mas obstrui-nos a nós. Se calhar pecamos por defeito. É, deve ser isso. Devíamos treinar mais.
E quanto ao compadrio, esse cancro? Praticá-lo-emos mais que os italianos? Todavia, eles, que até inventaram a mafia, não se nota que se amargurem e descabelem como nós, ou pelo menos como o VPV. Não é patente que grandes complexos ou traumas, nesse departamento, os atormentem ou atrofiem. De tal modo, que até fizeram dessa infâmia produto de exportação. E não foi com importações dessas que os Estados Unidos se tornaram também uns adiantados de primeira água? E não suspiramos nós, e todos os virtuosos do mundo avançado, por Ferraris, Alfa Romeos, albardas Giorgio Armani e quejandas bugigangas para parolo adiantado-mental?
Mas tem pior, mais grave ainda: Nós, portugueses, párias do mundo, odiamos a lei e a justiça. Será que as odiamos mais, a essas virgens inefáveis, que os Americanos, ou os Ingleses? Basta comparar as taxas de criminalidade violenta, toxicodependência, densidade penitenciária, etc, etc. Ou será que simplesmente não estamos tão bem organizados como eles na mistificação e manipulação da lei e da justiça? Em qualquer dos casos, isso não os atrasa a eles, mas, para alta recreação do articulista, atrasa-nos a nós. Ora bolas!
E, por fim, culminar apoteótico, eis que, num vislumbre fulgurante, a criatura entrevê o paraíso na terra à beira mal plantada. E de que forma? Abracadabra: "uma sociedade individualista e...solidária", "inovadora e...disciplinada". Quer dizer, em simultâneo, uma coisa e o seu contrário. Vamos passar de país atrasado para país esquizofrénico? Belo e besta, por turnos? A desfazer de noite o que tecemos de dia?... Que maravilha!...
Mais palavras para quê? É um artista português.
E vem um tipo, que faz uma trafulhice destas num artigo, clamar contra a putativa trafulhice nacional.
Para mim, isto, este acto típico e campeão do tartufismo infestante, apesar de tudo, tem uma grande virtude: demonstra à saciedade que não só Portugal não é um país pobre, como, pelo contrário, é riquíssimo: pelo menos, em pobreza de espírito. De facto, "uma sociedade camponesa quase indigente", como radiografa o Vasco, já há muito vem dando lugar a uma sociedade urbana – de janotas cultorículas – a destilar pedantice e a chocalhar basófia. Urbanorreia, esta, e doravante, não apenas "quase" mas completamente miserável. Não apenas do espírito, mas também de todos e quaisquer valores que não sejam a vida fácil e o dinheiro homónimo dessa vida.

PS: Desculpa lá, Zazie. Deixas-te levar pelas simpatias goliardescas e nem sempre remiras com atenção. Assim, vou ter que to dizer outra vez (e espero que seja a última): o Rei vai nu! O Vasco faz-me lembrar o Dâmaso.

quinta-feira, dezembro 09, 2004

Bodes, Bufos e Oráculos

E agora, para algo realmente iconoclasta...

Na antiga Israel, no deserto de Judá, habitava um demónio misterioso chamado Azazel. Anualmente, os Hebreus daquele tempo seleccionavam um bode, depositavam nele todos os pecados desse ano, e enviavam-no a Azazel. Realizavam assim um ritual de purificação da cidade e respectivas gentes. O animal depositário levava consigo o mal acumulado e lavava as consciências, servindo de veículo para descarga da culpa. Ficou conhecido para a posteridade como "bode expiatório" e ainda hoje, noutras roupagens e latitudes, é recurso frequente de toda a espécie de intérpretes.
Sobre a qualidade moral do povo hebreu, desde sempre, o Antigo Testamento é esclarecedor. Amante de bezerros de Ouro, velhaco, traidor e venal a quase todas as horas, esmera-se em levar Moisés à quase apoplexia e Ihavé, o seu descabelado Deus, ao genocídio exemplar. No fundo, o povo hebreu parece estabelecer o paradigma de todos os povos do futuro, pelo menos quando largados em momentos de deriva, de transição, de crise cultural ou de identidade. Chegamos assim ao Portugal actual.
O povo português da hora presente em nada desmerece do povo hebreu daqueles tempos do êxodo. De volta de bezerros de ouro e vacas de úbere fácil, como varejeiras de roda da bosta, compraz-se no escândalo, na obscenidade, no desastre. Sem pinga de honra nem esqueleto, deleita-se no próprio suplício, refastela-se na sordidez doméstica, entrega-se ao masoquismo degradante. Náufrago de sonhos, galopa qualquer estilha ou salvado de pesadelo que flutue ao alcance. Na política, na justiça, na administração pública, na economia, na cultura, vê-se ao espelho. Mira-se voluptuosamente e derriça-se num coquetismo de anoréctico. De alto a baixo, a sociedade portuguesa escorre, fede, serve de repasto a parasitas e vermes. É todo um cóio a liquefazer-se. É toda uma choldra à espera –como os outros de há milénios- do maná/subsídio/crédito/financiamento que cai dos céus; e à babugem, já não da Terra, mas seguramente do tacho prometido, da promoçãozinha a troco de favores, da recompensa pela prostituição transcendental.
No meio dum tal regime de cloaca, foragido de quaisquer cuidados de higiene moral, vacinado contra o escrúpulo, impermeabilizado contra o pudor, não admira que, já não anual mas mensalmente, experimente uma dispepsia por empanturramento de lixo mental. Como há milhares de anos, recorre-se ao rito providencial do "bode expiatório". Mas, a este, já não o mandam para o deserto: servem-no à mesa, ao domicílio, enésimas vezes ao dia, e funciona como uma mescla de hóstia e supositório, que degustam, em simultâneo, pelos olhos adentro e pelo esfíncter acima, numa comunhão híbrida de beatos tartufos, para glória duma religião de basbaques impotentes. Também, na essência, já não serve, o bicho redentor, para efeito duma qualquer ablução moral. Na verdade, protagoniza mais o clister sucio-pulhítico, a lavagem emética das entranhas à moda romana: só para restaurar o vazio que permita a ingestão de mais porcarias, logo a seguir e ad eternum. O próprio "bode" adquire, doravante, forma antropomórfica: de preferência é alguém que, por este ou aquele motivo (em si irrelevante), congregue a atenção da turba, hipnotize –pela sua notoriedade- o rudimento mental da horda. Cumpre diante desta, mais que o aterro sanitário da culpa duma determinada franja superior dela própria, a função providencial de fetiche desviante, espantalho polarizador do linchamento ou da lapidação pública. Enquanto o apedrejam e vituperam a ele, entretêm-se, ocupam-se, aliviam-se, e não nos apedrejam nem nos vituperam a nós.
É assim que os fait-divers pseudo judiciais –dos pedófilos a Pinto da Costa, com Camarate em lista de espera -, mais que um qualquer indício de ressurreição da justiça ou resgate desta às garras da impunidade endémica, consumam, ao invés, o primado do torcionarismo instalado, selectivo, aracnídeo, a culinária abjecta de bastidores, seitas e pontificados inconfessáveis. Continua a ser, para mais refinado porque labiríntico, o método inquisitorial de sempre.
O Inquisidor de outras épocas, leão necrófago, predador de hereges ou similares, fazia-se acompanhar e preceder, como é próprio dos leões oportunistas, de chacais e abutres –os seus delatores de serviço. O mesmo decalcaram e fizeram os esbirros-a-soldo de todos os regimes. Durante o Estado-Novo, a Pide serviu-se duma rede de bufos execráveis que minavam o país e, pelos vistos, deixaram escola. O bufo, faça-se notar, não existe, nunca existiu, para denunciar –digamos, fria e imparcialmente – quaisquer delinquentes genuínos (seja do foro material ou espiritual); serve, outrossim, para 1. Denunciar quem convém e lhe mandam denunciar; 2. Denunciar de quem não gosta (rivais, adversários ou alguém a quem inveja qualquer bem); 3. Delatar como modo de vida e fonte de rendimentos ou contrapartidas venais. Aliás, em bom rigor e na maior parte dos casos, o bufo não denuncia, malsina.
Acrescente-se que no passado, regra geral, esse mister, apesar de rendoso e concorrido, sempre decorreu sob o manto da infâmia e do opróbrio, na penumbra dos lacaios, párias e azeméis. Mas isso era dantes. Agora, foi reabilitado e institucionalizado. É fonte preclara de vedetas e luminárias públicas – novas sibilas, vates sacrossantos. Alcançou mesmo a glória de "quarto poder". Chama-se, com trompejante pompa, "Comunicação Social"*. Atribui-se fenomenais direitos e prerrogativas de Santo Ofício. É igualmente em nome da Inefável Verdade que exerce, só que esta, em vez de única, estática, por procuração divina, é agora múltipla, variável, dinâmica, ao gosto do freguês e da audiência. Os execráveis informadores da Pide de outrora deram lugar aos informadores do Povo – esse putativo soberano dum regime de fantasia – de agora. O mesmo povo que desinformam, manipulam, mistificam e vendem por trinta dinheiros aos pagadores de frete do momento. O destinatário será, em tese, diferente. Mas a mentalidade, infecta, é a mesma.
Ai de nós, a bufaria deveio elite social, alfobre de jet-set. E o bufo, esse, promoveu-se a oráculo.

* - Uma certa "comunicação social de aluguer" ou da "meia-porta". Não confundir com as pessoas honradas que existem em todas as profissões.

terça-feira, dezembro 07, 2004

Carta ao Pai Natal

Estimado Pai Natal,

Aproximando-se mais uma quadra da tua jurisdição, tomei a liberdade de te remeter uns sarrabiscos. Como deves calcular, venho formular-te alguns pedidos, não muitos, não com intuitos açambarcadores e egoístas (como bem sabes, o liberalismo não me fascina), mas em nome de todos os portugueses meus irmãos, de esquerda e de direita, masculinos e femininos, velhos e crianças, portistas e benfiquistas, enfim, todos, excepto os neoconas, os neoliberais e os fariseus, passe o pleonasmo, porque esses como já são umas ricas prendas não precisam delas. Aliás, corrijo: se puderes, traz-lhes um escarépio. Não dos mentais, que desses já eles têm, mas daqueles clássicos, de trazer na gaita e que só desaparecem ao fim de muito tempo e várias injecções. Não te esqueças.
Mas vamos ao que realmente interessa.
Pai Natal, já nos conhecemos há um bom par de anos. Por causa aquela bicicleta essencial que te esqueceste naquele Natal fatídico (um raio te parta!), sabes que ainda estás em dívida para comigo. Estás e estarás, porque por mais anos que eu viva não me esquecerei. Portanto, sendo que desta vez até estou imbuído de autêntico espírito altruísta digno da efeméride que aí vem, desta vez –e ao contrário daquela noite fria de há muitos anos (grande sacana) – confio que não me deixes ficar mal.
Começo por te pedir uma coisa que estes gajos, os portugueses, estão muito carentes neste momento: um governo. Mas não daqueles de imitação, em miniaturas tele-comandadas, a corda ou a pilhas, chiça! Para isso já temos estes do costume, das lojas dos trezentos, dos bazares monhés e da feira de Carcavelos. São de péssima qualidade, estes, mesmo enquanto brinquedo – não duram nada e ainda agora acabaram de escavacar o último (regista aí nos teus apontamentos que estes gajos oscilam quotidianamente entre a alarvidade e a broncolatria). Não, Pai Natal, é dos outros que convinha que trouxesses, daqueles reais, feitos de pessoas a sério, com coluna vertebral e tudo. Eu sei que aí na Lapónia correm rumores de que estes gajos são ingovernáveis e, viciados no desgoverno, junkies da balbúrdia, a última coisa que desejariam seria genuína ordem, justiça e competência ao leme da colectividade. Não é que não haja um certo fundo de verdade nesses boatos (para te ser franco, até é mais que um fundo), mas, mesmo assim, tendo em atenção a quadra natalícia, há que usar duma certa generosidade, não achas? É melhor que aches, porque senão ainda vou ter que me chatear contigo. Bem sabes que o meu sonho secreto era ser um ditador sanguinário.
Por isso não me venhas com a história que governos desses, verdadeiras obras de arte, já não se fabricam. Que agora vem tudo da China, ou de Taiwan, que é aquela china mais o pequenina que a outra, ou da Malásia, ou do raio que os parta a esses cabrões dos capitalistas! Procura, ó Pai Natal. Se te resignas, não admira que os gajos te substituam pelos shopping coisos e pelos cartões Visa. Desenrasca-te, que diabo! Põe um anúncio na internet! Informa-te junto dos blogues. Algum artesanato ainda há-de restar –alguma daqueles oficinas vetustas onde burilam ainda velhos mestres virtuosos. Senão, manda embaixadores a outros planetas, vasculha noutras galáxias, faz qualquer coisa, criatura de Deus!... Envia sondas pelo Cosmos, aconselha-te com o Altíssimo, vais ver que nalguma constelação logo ali ao virar da esquina devem estar a saldá-los ao preço da uva mijona. É uma lei da física –a única, aliás, com ar de valer mais que um tostão furado: se aqui há uma penúria do caraças é porque nalgum outro lugar do universo certos nababos nadam na abundância. Seja justiça, seja comida, sejam governos. Vai por mim: procura bem que vais ver que ainda encontras.
Não obstante, usa de alguma prudência. Se entrares em desespero, não deixes que em parte nenhuma ele transpareça. O teu e o meu, que de ver-te assim a arrepanhar os cabelos também me preocupo. Desconfio que os mercadores são iguais em toda a parte: desespero e necessidade são para eles música celestial e pretexto ágil para especulação e ganância desinsofridas. E depois, mesmo que não tenham o que procuras, nunca têm, tratam logo de te impingir outra bugiganga qualquer, que embalam de superiores performances e infinitas vantagens. À falta de governo vertebrado, não te admires, pois, se te acenarem, em jeito de último grito ou pechincha de ocasião, com um "homem providencial". Não é que não tivesse a sua piada, largares-lhes tu um desses pela chaminé abaixo, todo pimpão, de código draconiano numa mão e cavalo marinho na outra, sobretudo para chatear os liberais e vê-los a coçarem-se desvairados, servindo de repasto à urticária. Mas desconfia, será pechisbeque pela certa: um verdadeiro homem providencial –um Péricles, um Alexandre, um Napoleão -, é ainda mais raro que os governos a sério. Não é por acaso que os associam, regra geral, esses diamantes políticos, aos cometas e aos augúrios celestes, sendo o seu nascimento normalmente presidido por eventos extraordinários e conjunturas mirabolantes. De resto, o último providencial que lhes trouxeste, não sendo um Stradivarius desses (longe disso), mesmo assim durou que se fartou, parecia que nunca mais acabava; e não fora a velhice e o parricídio mancomunados para o empurrarem duma cadeira abaixo, estou em crer que a História não teria tido vida fácil. Ainda dizem que o fabrico nacional não é bom!... Mas o pior foi que ardia em fervores paternalistas e estragou esta pandilha toda com mimos. Empanturrou-os de hóstias e bacalhauzadas; mandou-os em safaris e piqueniques pelas Áfricas ou estudos no estrangeiro, como opção para os mais alérgicos ou melindrosos ao paludismo; estimulou-os ao turismo laboral por seca e meca (quando se foi a ver, andavam aos milhares a flausinar por Paris e Hamburgo, a passearem-se pelas férias e natais na terrinha em brutas máquinas, e a erigir mansardas ao estilo alpe suiço); etc, etc. Claro está, quanto mais ele os apaparicava, mais malcriados, birrentos, sornas, velhacos e flácidos eles ficavam. Quanto mais porfiava por superprotegê-los, mantendo-os em redomas de moral e beatice sonsa, mais lhes atiçava a lubricidade reprimida e os treinava para a futura prostituição, para a escandalosa militância. Uma tragédia familiar, enfim. Manter os filhos na incubadora até à andro ou menopausa não constituiu, de facto, boa política. Resultou em flores de estufa. Hipocondríacos e neurasténicos, queixinhas profissionais, sempre a lamuriarem-se de qualquer coisa e de toda a gente, sobretudo de quem escape ao molde ou tenha o desplante de adoptar a postura erecta.
Por conseguinte, ó Pai Natal, se não conseguires trazer um governo a sério, tem cuidado com esses saldos de homens providenciais. Quase sempre é publicidade enganosa, refugo das fábricas do Absoluto. Os de contrafacção, mesmo de qualidade razoável, além de não se reproduzirem decentemente, promovem, à saída, salgalhadas babélicas e dédalos irresolúveis ainda piores que aqueles que encontraram à entrada.
Vê lá o que é que fazes, ó alma crédula!...

Por hoje não te maço mais e termino. Sei que, bem no fundo, te estou a pedir um milagre. Mas eu acredito em milagres e não há desilusão que me desencoraje. Não continuo eu, passados estes anos todos, a acreditar solenemente em ti?!...

Cá te espero em impaciente vigília,

Dragão

PS: Caso te seja de todo impossível realizá-lo, não obstante as exaustivas buscas e pesquisas, não esmoreças. Em vez disso, aproveita a campanha interplanetária e, de passagem ali pelas bandas de Marte, conforme reza a lenda, traz-me, a mim, teu credor prioritário, o "raio da morte". Assim, de momento, o único homem providencial verdadeiramente excepcional que me ocorre e conheço, neste país –sobretudo depois de armado com o "raio da morte" – sou eu. Dá-me pois tu o raio, que, à falta de governo vertebrado, o homem providencial lhes darei eu. E digo-te ainda mais: Traz-me essa benemérita ferramenta este Natal e ficamos quites quanto à bicicleta. Palavra de Dragão!

segunda-feira, dezembro 06, 2004

Consultórios ou confessionários

O Padre Manuel Freitas (conheci-o lá pelas bandas das filosofias), ao contrário de outros figurões da sua espécie, afigurou-se-me uma pessoa de espírito. Dizia (e penso que ainda diz) até coisas carregadas de senso. Há padres assim, graças a Deus.
Uma dessas tiradas sensatas, com imensa piada e abençoada mordacidade, era a seguinte:
«Não ides aos consultórios de psiquiatras, psicólogos e outros veterinários da alma; vinde antes ao confessionário, que, ao menos, é gratuito.»

(Confesso que compus um pouco o ramalhete –o "veterinários da alma", pois –, mas o digníssimo padre até merece e certamente saberá perdoar-me o ter adicionado um pouco do meu sarcasmo à sua justíssima ironia).

domingo, dezembro 05, 2004

Atrair Investimento

Refrão dos mais cantados no nosso país é "atrair investimento". Subitamente, esta é a fórmula de todas as panaceias. Quaisquer problemas que aflijam, onde quer que seja, não há que enganar, a solução é fácil: atrair investimento. De franceses, alemães, japoneses, esquimós, não há por onde enganar: atrai-se investimento e pronto...é melhor que o totoloto: é fácil, é barato e dá milhões. Criou-se mesmo uma agência com essa finalidade específica: atrair investimento. No meio da pior borrasca, basta entoar-se essa runa e o mar encapelado acalma-se como que por milagre – a frase abençoada é verdadeiro azeite sobre as águas. O povo geme, os usurários apertam, a nação periclita...Mas eis que o político remendado, ao volante dum novo governo eleito, recauchutado, sobe à tribuna. E o que é que ele diz? O que é que ele profere em tom sibilino? O que é que deixa sair pelo cerro dos dentes, em rasgo sublime, qual demiurgo retumbante? –Temos que atrair investimento! É a solução. É a saída. E é um mistério. Um grande mistério, se querem a minha opinião. Exactamente em que consiste, começo a desconfiar que ninguém sabe. Nem, tão pouco, para o que serve. Balbuciam uns quantos chavões enigmáticos, na quase forma de hieróglifos inefáveis –como "emprego", "riqueza", "modernização" – e pouco mais.
Mas também ninguém se interroga: temos que atrair investimento porquê? Essa, verdade seja dita, é higiene básica que a ninguém ocorre. Fora o ser o "abre-te Sésamo" destes novos Ali Babás, a coisa permanece envolta numa penumbra esotérica de segredo cabalístico. Todavia, atrevo-me à aventura e dou comigo a intuir que, senão pela razão avulsa, talvez pela analogia se lá consiga chegar. Ocorre-me mesmo, sem grande esforço, um portal descriptante:
Aquelas meninas, em trajes diminutos e apelativos, que se oferecem pela beira das estradas, na orla de encruzilhadas e pinhais, não estarão elas, stricto sensu, a "atrair investimento"?...

Os Dâmasozinhos

Estava eu, Dragão, posto em sossego e solene recolhimento no meu tenebroso antro, como, de resto, é costume ancestral na minha família.
Eis senão quando me irrompe pela caverna um Dâmasozinho, daqueles tão típicos – verdadeiramente endémicos – ao luso rincão.
Mirei a criaturinha peregrina com algum tédio e concluí:
-"Olha, um Dâmasozinho!..."
Para que servem os Dâmasozinhos?, pergunto-vos eu. Desde o Eça que se sabe, respondereis vocês: para levarem bengaladas, ora essa. Aprende-se na escola. Ou, pelo menos, aprendia-se. Para tão útil e pedagógico efeito, até compensam a mioleira atrofiada com a excelência e abundância de costados.
Vai daí, ao deparar-se-me tal espécime, perfeito e escarrado, dei-lhe uma bengalada. Uma senhora bengalada, muito bem dada. Tão bem dada que até, lá do céu, Deus e os anjos certamente abençoaram e o sol que nos alumia festejou.
São as leis da vida. Que, ao contrário das do mundo, são justas e santas, senão mesmo um dos raros imperativos categóricos que reconheço. Nós, diante de tais energúmenos, não temos alternativa senão largar-lhes a bengala, sem dó. Eles, em contrapartida, têm (alternativa, quero eu dizer): ou são masculinos e aguentam o brinde merecido a pé firme, em silêncio reverente, com estoicismo; ou nem tanto e desatam em escarcéus, ruídos e ganidos próprios de mercado de peixe e hortaliças. Pois bem, no caso vertente, nem tanto.
Sinal dos tempos, certamente. Antigamente, aí há cem anos, faziam, no essencial, como os poltrões. Agora fazem como as mulheres.

sexta-feira, dezembro 03, 2004

O Pseudo-Portugal ou Das Quimeras


Tal qual o Homem tem muito a aprender com as plantas, e não propriamente com hortaliças do género nabo e abóbora que dessas já há seguidores em demasia, também a História tem com que se instruir na Botânica.
Na taxonomia, por exemplo. Cito um breve mas elucidativo caso: ao designar-se vulgarmente a Robinia, usa nomear-se essa singular espécie como Pseudo-acácia ou acácia-bastarda. Parece uma acácia, mas na verdade não é. O mesmo poderia fazer-se em relação ao Portugal pós-Dinastia de Avis. Também devia designar-se vulgarmente Pseudo-Portugal ou Portugal Bastardo.
Da mesma forma os seus habitantes seriam vulgarmente designados como pseudo-portugueses ou portugueses-bastardos.
Não digo isto com intuito desprimorante para os tais, país e habitantes (onde obviamente me incluo). Trata-se apenas de constatar, lucidamente, uma realidade. Parecem, mas não são. O país parece um país, mas não é um país; os habitantes parecem pertencer ao país, mas, de facto, pertencem de alma e coração a outros países - em seu esperto entender- mais modernos e gratificantes. Também, estruturalmente, os verdadeiros portugueses eram de cerviz altiva e braço vigoroso. Estes não, e não nos alonguemos nos detalhes por piedade. Fossem árvores e seria o mesmo que comparar a árvore de copa bem erecta e altaneira ao arbusto retorcido e rasteiro. Ou mesmo ao capim forrageiro, segundo alguns eruditos.
Poderia ainda citar outro caso sugestivo da botânica: refiro-me à enxertia.
Neste caso, talvez fosse possível entender-se o Pseudo-Portugal como um enxerto bizarro executado sobre a raiz e tronco decapitado do verdadeiro. O lastimável é que tudo indica (e daí a bizarria) que a operação equivaleu a enxertar uma silva sobre uma roseira (e não o contrário, como recomenda a arte). Prova disso são até as "rosas" actuais que não é preciso matutar muito para perceber que são, na verdade, pseudo-rosas, ou efectivamente, silvas. E quem diz as rosas, diz as laranjas e outros frutos ou flores claramente falsos ou imaginados.
Finalmente, num terceiro caso, só a título de curiosidade e ainda no campo da enxertia, lembro a chamada "quimera". Esta ocorre quando sobre um mesmo cavalo (a planta que serve de base radicular ao conjunto) se enxertam várias outras espécies e não apenas uma. Resulta daí que a mesma árvore ramifica na forma de diversas folhagens e cria frutos de diversas qualidades: poderei mostrar-vos, até num pomar aqui bem perto, laranjeiras que dão laranjas doces, laranjas amargas, limões, tangerinas, limas e goiabas. O Pseudo-Portugal seria, portanto, segundo este paradigma, uma Quimera. Com efeito, ao longo destes últimos séculos, objecto de todo o tipo de enxerto, cada qual mais extravagante e peregrino que o anterior, poderia a sua desafortunada história ser contemplada como uma sucessão de ensaios mais ou menos alucinados de pô-lo a dar franceses, ingleses (na verdade, pseudo-franceses ou pseudo-ingleses), ou o que parecesse melhor e mais rentável ao fruticultor da época. Até russos tentaram. Ultimamente, parece que se tenta uma variedade híbrida de espanhol-americano. Aguardemos os frutos. Até hoje, apesar dos denodados esforços, das mais diversas podas e adubações, o mais que tem dado é bananas. É um facto que são cada vez maiores. Estas, a fazer fé no percurso e no crescimento -já por esta altura - desmesurado, devem vir a ser gigantes. Quase abóboras.
Nisto tudo, talvez haja (oxalá!) um grande exagero e lapidar crueldade da minha parte. Mas que dá que pensar, lá isso dá.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

Sombras e Nevoeiro

Hoje é feriado. Comemora-se, segundo reza o calendário, a Restauração. A generalidade dos portugueses actuais, e quanto mais jovens mais piamente, acreditam que isso significa um dia dedicado aos restaurantes. Em conformidade, aproveitam para almoçar e jantar fora.
Da mesma forma, daqui a vinte e cinco dias, quase todos eles celebrarão um dia de opípara comezaina que sabiamente interpretarão como dia de trocarem prendas e mercadorias, e não como o dia em que há muito, muito tempo, nasceu um menino chamado Jesus que fez aquilo que todos os meninos fazem quando nascem: acendeu uma centelha de esperança no mundo. A dele era só um bocadinho maior que a de cada um de nós. Porque era a de todos.
Ao contrário da esperança –que é, por concessão titânica, imortal –, Portugal morreu em Alcácer-Quibir. Morreu de pé, como morre tudo o que é vertical e nobre. Morreu porque aquela lhe pareceu uma boa hora para morrer. Morreu porque acima do império dos homens, por melhores que sejam, vigora o império do Destino.
Desde então resta-nos um simulacro, uma espécie de sonho brumoso onde vagamos, como um navio fantasma, entre ilhas de fortuita coragem ou dignidade, e oceanos de torpe infâmia e cobardia. Há quase quatro séculos atrás, no dia 1 de Dezembro de 1640, ocorreu algo que exemplifica o primeiro caso. É pena que, desde então, só excepcionalmente tenhamos sido dignos, quase sempre graças a meia dúzia de indivíduos foras-de-série, raramente como povo.
Dir-me-ão: "Vade retro, Dragão! Que pessimismo anti-patriota, que exagero!..."
Dir-vos-ei: De Portugal, ajuntando os destroços que deram à costa, refizeram a aparência, recuperaram o bandulho –improvisaram um espantalho animado, em cima da cruz do defunto, com farpela comprada em saldos na estranja, cabeça de palha, verbo de encher e chapéu de fancaria. Mas a coluna vertebral, e a alma que a sustentava, essas, ficaram lá.
De Portugal, hoje, restam sombras. Como na caverna de Platão, no Hades de Homero e no canto de cisne de Camões.

Sombras no nevoeiro.

«Já esconjurei mil ciladas,
esgota-se-me o esconjuro.
Sigo as minhas pegadas
e não encontro quem procuro.»

terça-feira, novembro 30, 2004

Crónica duma Morte Anunciada




Há quatro meses atrás, aquando da fuga do na altura Primeiro-Ministro para a Europa, eu fiz a análise que agora publico de novo. E pespego-vos com ela aqui de novo nas trombas, não por vaidade balofa de áugure triunfante e historicamente corroborado, mas porque, mais que a lotaria dos acontecimentos, do frito e cozido que parece esgotar as cabecinhas iluminadas e pensabundas da toinosfera, releva um quadro envolvente, confrangedor, que se mantém inalterado; um húmus de imbecilidade nacional que potencia todo o lastimável folclore que parece ter montado arraiais entre nós, portugueses, e que, na altura, descrevi. Ora, como se mantém inalterável, escuso de escrever outra vez.

Quanto a acertar nas análises, bem mais jeito me dava acertar no totoloto.

«Ao contrário do Juíz televisivo, Sampaio decidiu, mas nada ficou decidido.O seu veredicto foi simples: Não dissolvo...Por enquanto.
A questão, agora, é: quanto vai durar o "por enquanto"?
Entretanto, uns rejubilam imbecilmente, com o foguetório digno do parolo, e outros esperneiam na poeira, dando urros doloridos e arrancando cabelos às mancheias. De parte a parte, os automatismos adquiridos durante as celebrações e lutos do recente Euro futeboleiro ainda não se dissiparam dos espíritos. À boa maneira de certas substâncias psicotrópicas mais potentes, persistem. Sampaio, se se dignasse perder tempo a ler as pérolas que por todo o lado chovem, havia de dar umas boas gargalhadas. Eu, no lugar dele, acho que me rebolava até às lágrimas. É um panorama, deixem que vos diga, a todos os títulos, histriónico, gaiteiro, quiçá rilhafolesco. A fábula de Régio -da criança, do velho e do burro- tomou conta da realidade. A asneira, essa, não é apenas livre: deveio campeonato. Em cada dia que passa, o débito aumenta, a incontinência opinativa ameaça um dilúvio iminente. Dou comigo, mesmo sem recado do Altíssimo, a projectar uma arca que resista à intempérie.
Entretanto, enquanto não dissolve, o PR vai, certamente, recrear-se. Põe de molho. Reconduzida a actual Maioria, esta, encantada com a sua nova coqueluche e exultante com o súbito hara-kiri do ex-líder da Oposição, vai entregar o leme ao novo Messias. Feliz da vida, acha tudo normalíssimo. É preciso é boiar, manter-se à tona. Um unanimismo ribombante impera já nas arcadas. O beija-mão segue os seus trâmites.
A ensombrar o idílio, apenas uma pequena nuvem tolda o horizonte e o futuro radiante destes novos peregrinos: quanto tempo vai demorar o Dr. Lopes a recrutar um Ministro das Finanças digno sucedâneo da Manuela draconiana (salvo seja!)?
Por outro lado, espécie de trovoada longínqua, como vai reagir a nação ao seu novo jóquei? Estabilizará ou instabilizará? Partirá a "ga-Lopes" ou morderá o freio, empinando-se e tentando cuspir o amazão?De certo, o que se sabe, até agora, é que, na cinantropia, a descida não termina em sabujo. Um degrau mais abaixo já se renconhece, demandado que foi entretanto: o de caniche levado a concurso. Prova disso é um primeiro ministro falhado que aceita ser Presidente pela trela duma Comissão Europeia; e um perpétuo candidato-ao-que-houver que abana a cauda radiante, a babar-se, de língua pendente, com a perspectiva -agora quase certa- de vir ser primeiro ministro pela trela dum PR em claro passatempo.
O resto deixo à vossa imaginação. Se ainda não percebesteis, ide ao Gorge que vos explique. Eu, alma prudente, tenho ali um casco e quilha para construir. Isto da construção naval tem muito que se lhe diga.»

Agora já sabemos quanto durou o "por enquanto".

A desgovernação, como a corrupção e a desmoralização não são a doença. São apenas sintomas. Quem está doente é o país. De alto a baixo. Da mioleira até às entranhas. Querem maquilhar as borbulhas, os eczemas, os furúnculos e acreditar, assim, que mascarando os sinais debelam a epidemia. Confundem a peste com uma alergia passageira. Confundem estertor com soluços.

Pesadelo Macabro ou De Metamorfose Horribilis

AVISO: Este postal não é recomendável a pessoas sensíveis. Depois não digam que eu não avisei.

Tive um pesadelo. Daqueles horripilantes, kafkianos. Começava comigo a acordar, uma insólita manhã, transformado num Liberal . Um liberal, ouviram bem. Ao princípio, ainda estremunhado, ao descerrar as pálpebras, era apenas uma sensação bizarra, de um estranho desconforto. Mas, quase de seguida, o desconforto transformou-se em angústia e, ainda não tinham passado cinco minutos, já a angústia degenerava em horror. Apesar do grande trauma que ainda agora me dilacera e me descompassa o sistema cardio-vascular, não resisto à narrativa. Tenho que contar a alguém, partilhar com terceiros esta medonha experiência... Talvez haja por aí um exorcista benemérito.
É verdade que eu, como referi, descerrava as pálpebras. É o que geralmente as pessoas fazem, ao acordar e, nisso, os dragões não diferem das pessoas. O problema é que quanto mais as descerrava –cheguei mesmo a escancará-las com desespero e desmesura – mais negras e densas me surgiam as trevas em redor. Imperscrutáveis, meus amigos. Dir-se-ia que eu flutuava num aquário de trevas. Porque, verdade verdadinha, quanto mais esgargalava as vistas, menos via. "Mau!", pensei para com os meus botões, "queres ver que acordei a meio da noite, devastado por alguma insónia?!..."
Toda a gente sabe que eu, a acordar devastado a meio da noite, prefiro uma Sónia a uma Insónia. Aliás, a insónia, está provado, só se instala na ausência da Sónia. Mas não tergiversemos. Falava-vos daquele estranho breu. Por causa das dúvidas, estiquei o braço na direcção do candeeiro. Experimentei então a curiosa descoberta de já não ter braço. Pelo menos, o direito. "Pôrra!", pensei, "mas que merda vem a ser esta?! Queres ver que alguma brigada de traficantes de órgãos e antropo-acessórios me amputou o braço durante a noite!..." Convenhamos que uma brigada dessas é pior que um acesso de insónia. Diria mais: muito pior. Acho mesmo que foi a partir desta conjectura que a angústia se instalou. Ora, em momentos de angústia eu cultivo o pouco recomendável tique de coçar os tomates. Vocês não sei, mas a mim ajuda-me a coordenar e reorganizar as ideias. À falta da mão direita, desaparecida com o respectivo braço para parte incerta, tive, naturalmente, que recorrer à esquerda para dar andamento à deselegante função. "Tive" é força de expressão, porque na realidade também a esquerda, verifiquei-o com amargura, primava pela ausência. Estou em crer que esta alarmante constatação iniciou o processo de catálise da angústia em horror. Nesta fase, se isso vos interessa, comecei a sentir aflição. Muita. O caso não era para menos, até porque a suspeita da brigada de pilha-órgãos agravava-se: quem rouba os braços também rouba os olhos, rouba os rins e, pior que tudo, supremo furto, até subtrai os testículos!
Nestas alturas vertiginosas, um homem lembra-se sempre de Deus. Um dragão, aí, também não difere muito. "Ó Deus!", carpi, já a ficar deveras preocupado. "Tu não ias permitir uma safadeza dessas, pois não?!" Mas então lembrei-me das safadezas todas que são autorizadas por esse mundo fora e um cabrão dum cepticismo teológico instalou-se-me no pensamento e desatou a dar-me nós na figadeira. Não há nada mais nefasto para a esperança dum indivíduo que o filho da puta dum cepticismo. Minúsculo que seja, basta uma gota para poluir um oceano. Veneno mais contaminante não conheço. Avinagrado, deixei-me de rezas e virei-me para os factos. Quando a oração não funciona, há sempre o anestésico, e nisso a ciência positiva é o que de melhor há para camuflar a coisa e iludir o mamífero, tanto quanto o mitológico. "Vejamos", ponderei, apelando à lógica, "deve haver uma explicação científica para tudo isto." Atrevi-me mesmo a enunciar uma tese: "se calhar, não sinto os braços porque estão dormentes". "Eureka!", quase gritei. Animado por esta perspectiva salvífica, e no fiel cumprimento do método científico, dispus-me a validar quanto antes tão promissor enunciado. Para o efeito, bastava levantar-me, fazer um pouco de exercício, até que a circulação de sangue se normalizasse por todo o organismo, e voltaria a sentir os braços, coçaria os tomates, abriria os estores, a luz do dia devolver-me-ia a visão (tudo por esta ordem prioritária), e eis-me de volta à normalidade. Nada, portanto, mais simples e todo aquele mal entendido se dissiparia.
Mas a minha saga de arrepiantes descobertas ainda não tinha terminado. A que me aguardava no instante seguinte não só confirmava como agravava as anteriores. E atirava com a ciência para o mesmo sítio para onde já despachara a religião. Estais preparados? Já retirastes as criancinhas da sala? Tendes o testamento em dia? Pois aí vai:
Ao querer levantar-me – naquele salto atlético, felino, viril, que me caracteriza e é apanágio e timbre das últimas vinte gerações da minha família (o meu pai, por exemplo, ainda é pior que eu e nem se levanta, irrompe logo vulcanicamente, audaz e sobreactivo), pois, ao ensaiar esse gesto quotidiano mas não obstante sempre glorioso – pude testemunhar, em primeiríssima mão, que não só, a juntar aos braços, me faltavam as pernas, como, por artes daninhas de sabe-se lá que destacamento demoníaco, não restava nenhuma das minhas outrora altivas e mui queridas vértebras. Pude também perceber que, em lugar das costas espadaúdas com que sempre me conhecera, equipava-me agora uma dura e convexa carapaça que, a fazer fé no design, me abeirava perigosamente dum qualquer coleóptero estivador de bosta.
Salvo erro, foi nessa altura, no preciso momento em que me palpitei transformado num repugnante insecto – o liberal, que ultrapassei a angústia, despenquei da aflição e mergulhei de cabeça no fedente e genuíno tanque do horror. Imaginai-vos equipados de élitros, armadura bocal trituradora e metamorfoses completas, e dizei-me cá se não é caso para cagaço completo?!...Mais que completo: absoluto! Não vos recomendo a experiência. Do que um liberal pensa (a segunda parte do meu pesadelo, quando, a seguir ao corpanzil hediondo, me surpreendi também monstrifugado -isto é, ouriçado na forma de antenas sobreciliares- de ideias liberais), guardo-vos para um próximo postal. O Horror, como a melancia, requer tempo de digestão. E se não faço agora um pequeno intervalo, é mais que certo que ainda vos borraríeis todos pelas pernas abaixo. Isto, aqueles que não golfassem as tripas, preferindo o esgoto superior ao anterior.
Por falar nisso... para a segunda parte trazei daqueles saquinhos de avião. É mais que certo que ides precisar. Dão um jeitão do caraças quando a náusea se instala, o chão desata a girar alucinantemente e nós, à falta de Deus, da Nossa Senhora e dos santos todos, vemo-nos sem outra alternativa que gritar ao Gregório. Bem alto!

segunda-feira, novembro 29, 2004

Da Esfinge



«A pergunta da Esfinge, sabemo-lo, é a pergunta pelo "homem". No seu percurso vital, a vida deste acompanha o sol. Caminham lado a lado. Nascem, elevam-se e declinam. Ora, se o sol se regenera, porque não se haveria de regenerar o homem? E se o homem acompanha o sol, como se regenera ele?
Chamamos amanhecer ao nascimento do sol; chamamos infância ao amanhecer do homem. A ideia de que cada homem é uma ilha, um indivíduo –no sentido de unicidade isolada - que nasce e morre definitivamente, choca, colide, alterca com essa outra forma, chamemos-lhe cósmica, de entrever o antropos. De facto, a forma aleijada e efémera de entender a vida humana, tanto quanto preside aos mecanismos potenciadores do mundo e do "estar-no-mundo", de igual modo emerge a partir duma redução, duma estreiteza grosseira de vistas. Porque, como a natureza inteira grita a plenos pulmões, nem a morte é definitiva, nem o nascimento é único. O bebé que nasce não irrompe súbita e unilateralmente, desligado e excêntrico, como um big-bang ad-nihil. A criança é continuação, persistência, como a morte é passagem, presságio. Na criança é o homem que amanhece, como é o ancião que se regenera.
Por outro lado, na separação umbilical que sucede ao nascimento, a tesoura só corta o cordão, não interrompe o vínculo, o elo íntimo ao Ser. Não é uma fabricação o que se colmata: Nem a mãe é uma fábrica, nem a criança é um artefacto, ou manufactura. Também não é um ciclo novo e inaudito que principia, que irrompe insulanamente, mas o fio da vida que persiste, que perdura e se regenera. É o amanhecer do homem. No fim da noite, da espera, irrompe a madrugada: acontece a luz, que se restaurou atravessando as trevas. Eterno retorno e metáfora cósmica, o pé humano ergue-se, aí, da caverna. Do antro matriz, onde a vida se firma e a pegada permanece.
O Homem não é só um apogeu, um auge: é também um dealbar e um entardecer. Não é apenas um erguer-se e afastar-se, elevando-se, no horizonte, como do "antron": é igualmente um primórdio vacilante e um regresso exausto ao chão, à noite, a casa. É-o enquanto episódio e enquanto epopeia. O episódio não se encerra num verso, como a epopeia não se reduz a um episódio. Depois, tudo junto devém metáfora, mythos, pulsação no coração do tempo. Quer dizer, não termina, não acaba, não desiste. Pelo contrário, transfigura-se, transmuda-se, mas persiste. Obstina-se. Contrapõe a tenacidade à ligeireza e frivolidade do mundo.»

- "O Fio e e o Fito", in "Tratado da Besta".

Se não gostam, não comam. Mas hoje deu-me para citar o meu Mestre.

sábado, novembro 27, 2004

A Pedocracia

Enquanto o PCP, último baluarte da esquerda operária e da religião marxista-leninista, prossegue a sua alegre fossilização (louve-se-lhe a coerência), no pólo oposto (mas, ao fim e ao cabo, não muito) os partidos mais ou menos liberais (e mais ou menos iguais), aos comandos do Eldorado, não se cansam de empinar copos na Fonte da Eterna Juventude. Se aqueles fossilizam, estes rejuvenescem desenfreadamente. Ao Parque Jurássico de uns, opõem os outros o parque infantil. Poder-se-ia dizer "venha o diabo e escolha", mas o mais correcto era mesmo dizer-se "venha o Diabo e leve-os a todos para o parque de diversões que tem lá nas profundezas!"
No meio disto tudo, não admira que o putativo eleitor desespere. Se se fantasia em trajes esquerdistas, depara com broncossauros e tiranossauros rascas; se se imagina enfarpelado às direitas, dá de caras com chavalinhos queques de farta trunfa e carinha imberbe. A bancada parlamentar do PP, quanto a isso, é paradigmática e superlativa: sugere que a digna sala de espectáculos vive em contínua e gralhante matiné. Aos pequenos Nunos Rogeiros em gestação, só lhes falta mesmo pipocas no respectivo balde, porque, quanto ao resto, já em nada deslustram do seu ídolo sénior, nem dos seus modelos "teens" de "Beverly não sei quantos".
A política, por este caminho, corre mesmo o sério risco de descambar num ramo da puericultura. E a democracia, à força de jotinhas emperucados e sabujantes, de redundar numa pedocracia babélica. O país, esse, fica condenado, um dia destes, a ter que limpar o cu a meninos.

sexta-feira, novembro 26, 2004

O labirinto

Em Portugal, há excesso de função pública e um défice crescente, a desmesurar-se, de serviço público. O "funcionário", regra geral, não tem em mente servir o público, mas servir-se dele. E se isto se passa a jusante, a montante cumpre-se o exactíssimo reflexo no espelho: basta substituir a palavra "público" pela palavra "Estado".
Não julgo que seja um fenómeno exclusivo do nosso país. Toda uma Europa burocratizada vive este mal-estar intestino, este conflito nas vísceras entre "Função" e "Serviço", ou melhor dizendo, entre o verbo "funcionar" e o verbo "servir". Quer dizer, aumentam quotidianamente as realizações e reinvenções peregrinas que vão funcionando, mas diante das quais, o cidadão minimamente desperto se coloca uma interrogação inevitável: Para que é que isto serve?
É mesmo uma pergunta que assombra cada vez mais o nosso mundo. Destrambelhado mundo que, quanto mais se complica, se "moderniza" e reforma, mais absurdo parece. Como o labirinto, dentro do qual perdemos há muito toda a orientação e zanzamos dementes, irremediavelmente perdidos, sem memória da entrada nem, tão pouco, a mínima noção ou fé na saída. Escutando apenas, cada vez mais próximo, o resfolegar lúgubre da Besta que lá reina. Os gregos chamavam-lhe Minotauro. Nós havemos de chamar-lhe o quê?...

Porque quando o mundo deixa de ser construído para o homem, passa o homem a ser criado para o labirinto.

terça-feira, novembro 23, 2004

O Apocalipse segundo S. Mário - I. Os motivos

A terceira república, além de não ter resgatado o país do marasmo onde o deixou a segunda, corre sérios riscos de ir pelo mesmo ralo da primeira.
Sobre essa evidência já eu tinha elucubrado há dias. Vem agora S. Mário, de trombeta em riste, despender amargos queixumes sobre a mesma questão. Especifica ele que, não pipilasse o país sob a asa protectora –e sedativa – da Europa e, a esta hora, com tanta corrupção e crispação social à solta -uma vergonha!- e já militares exaltados, de estribeiras perdidas e espingarda na mão, se teriam soltado também dos quartéis, em pronunciamentos, levantamentos, motins – barrelas, enfim. Estaremos a ouvir bem? Estamos. Será caso para alarme? Quando o próprio pai da democracia portuguesa, o engendrador capital das suas moléculas, vem bradar para a rua, em barrete e ceroulas, que a filha anda na má vida, enrodilhada com alcoviteiros e proxenetas, amancebada com merceeiros, a esfolar trolhas na borda da estrada e sabe-se lá que mais, muito naturalmente as almas mais sensíveis tenderão a preocupar-se, senão mesmo a escancarar a boca de espanto. As almas sensíveis, ou seja, aqueles que tenham acordado agora após um coma profundo de vinte anos. Fora esses, julgo que mais ninguém se alarma nem descobre motivos para isso. E depois de vos expor as razões, julgo que também todos vós concordareis comigo e dormireis repimpados esta noite.
Começando pelos motivos para alarme...
1. O putativo golpe militar.
Bem, para haver golpe militar é necessário, no mínimo, uma coisa: os tipos que fazem o tal golpe, ou sejam: os militares. Ora, toda a gente sabe que a instituição castrense foi purgada dessa gentinha belicosa, como se de um explosivo instável se tratasse. Por atávica mania, esses energúmenos cultivavam o péssimo hábito de considerarem a pátria acima dos partidos políticos. A partir do momento abençoado pela História em que a pátria passou a andar por baixo dessas bizarras associações, a permanência desses fulanos nas fileiras tornou-se indesejável, afronta potencial de lesa-democracia. Procedeu-se em conformidade. À presente data, quando muito, restam não militares mas militantes, funcionários públicos fardados e estrelados –lacaios de luxo, enfim –, mais a criadagem avulsa de todas as épocas (quer dizer, a soldadesca anódina e de plantão às mordomias dos graduados). Não espanta pois que os preocupe mais a fundação dum sindicato que a redenção da pátria. Têm prestações para pagar.
Mas, mesmo admitindo o fabuloso, só para efeito retórico, mesmo que houvesse um golpe militar, que tremenda interrogação angustiaria a esta hora, e por antecipação, o povo? Provavelmente, apenas a prosaica conjectura de qual a flor garrida que os bravos magalas trariam na ponta das armas desta vez.- Cravos? Rosas? Malmequeres? Manjericos? Narcisos?...
2. A corrupção, essa metástase.
As pessoas, regra geral, alarmam-se com algo de surpreendente, de inesperado ou ameaçador. Pelo contrário, relaxam diante daquilo que é corriqueiro, habitual, vulgar. Pior: desinteressam-se, enfadam-se. Ora, como todos sabemos, e estamos cansados de saber, a corrupção, em Portugal, será tudo menos surpreendente ou inesperada. De facto, mais que endémica, ubíqua, deveio já modus vivendi (ou dito à moda fadista, constituiu-se em "estranha forma de vida"). Poderá ser estranha, mas é a nossa. No estado actual dos negócios, vir alguém bradar contra a corrupção é o mesmo que vir pregar moral a um heroinómano ou exortá-lo, em evangélica pregação, a abandonar tão nefasto vício. O que torna a coisa ainda mais caricata, próximo da anedota, é ser um ex-traficante e fornecedor inaugural do toxicodependente, subitamente transmudado em anjo de procissão, quem rompe em perorações bacocas ao domicílio.
3. A crispação social, esse vulcão...
Existe, é um facto; tem-se vindo a acumular. Mas a razão é simples: O Benfica não ganha o campeonato vai para 11 anos. Basta que esse jejum termine e a crispação acaba. É tão simples quanto isso. Concretize-se esse anseio aglutinador da grande maioria de encrespados, reforce-se a dose de novelas, de reality shows, de hipnose mediática, e Portugal entrará no melhor dos mundos. Os actuais governantes sabem disso. E estão a tratar do assunto.
Quanto aos motivos estamos por conseguinte conversados. Só um existe, mas, o mais tardar em Junho de 2005, estará resolvido. Os desígnios nacionais, os interesses de estado, cá, no país das maravilhas, são assim.

domingo, novembro 21, 2004

Carta Aberta ao Criador

Meu Deus,

Tranquiliza-Te. Desta vez, não venho sarrazinar-Te com sugestões urgentes, como a de exterminares uma série de povos por quem nutro profunda antipatia, nem fazeres crescer orelhas de burro nuns quantos comentaristas cá da praça. Já percebi que, de momento, não estás pr’aí virado, portanto, não insisto. Tenho pena, muita mesmo, mas não insisto. Mas sempre Te digo, em relação aos segundos, que já que lhes distribuiste espíritos de asno, não custava nada facilitares também as orelhas. Sendo cretinos, ao menos tornavam-se pitorescos e o pagode ria, mais do que já ri. Enfim, lá deves ter as Tuas razões, certamente inefáveis e transcendentes. Curvo-me diante delas.
Também não venho incomodar-Te com requerimentos intermináveis de perdão para os meus pecados que, como bem sabes, não só não diminuem, como, com a idade, vão de vento em popa e versam sobremaneira aquele bizarro mandamento com que couraçáste (segundo os Hebreus) a mulher do alheio. Senhor, é mais forte do que eu: antes ser amante da mulher do alheio que amigo do alheio. Hás-de fazer-me a justiça que é um mal que faço para evitar um mal maior e que espero me seja contabilizado como atenuante por alturas do Juízo Final. Além do mais, como o burguês prefere ser cornudo a ser pobre, em nada contendo com a santa paz da Criação e das criaturas. Tenta compreender: enquanto me entretenho com a mulher dele, não lhe cobiço nem defenestro a propriedade. Bem sabes, Tu que sabes tudo, como é essencial para a boa harmonia das coisas que o macho vigoroso se liberte regularmente da bicharada que lhe fervilha nos testículos. Foste Tu que o criáste assim, Excelência. Encurralá-los, aos tais, nessa prisão claustrofóbica acarreta impreterivelmente maus humores e violentas tendências, como rugir impropérios e escaqueirar coisas. Em suma: o sujeito perde de todo o bom feitio e torna-se religioso. Ora eu, perdoar-me-ás a singularidade, prefiro ser um humilde pecador, a andar pelo mundo em certas figuras. Mas isto, ó Altíssimo, que fique aqui, hermético, entre nós. Não vá algum Espírito Santo de orelha dar com a língua nos dentes à Senhora Dragão e, a seguir ao Carmo, cai a Trindade. Livra-Te, pois, a Ti, ó Pai Celeste, dessa queda desnecessária e a mim, criatura terrena, desse apocalipse cavernoso.
Tão pouco –alegra-Te – venho hoje molestar-te com recomendações prementes para que leves para junto de Ti –e parqueies nesse condómino ardente que tens na cave, sob a benemérita supervisão dos cornúpetos zeladores –, a corja de políticos que infesta a Terra e, sobretudo, aqui o rincão pátrio. Já me descabelei o suficiente a tentar expôr-Te o meu ponto de vista sobre a prioridade desse assunto e acredito que ruminas e deliberas, em solene retiro, sobre a bondade dos meus argumentos.
Não, ó Transcendência, o que aqui me traz, nesta hora de assombro, é apenas uma pequeníssima e mirradíssima questão -uma questiúncula, melhor dizendo- enfim, uma borbulha acintosa do pensamento que, em teimosa comichão, pr’àqui me cita e toureia. Consiste essa verruga no seguinte: após rebordados colóquios e exaustivos seminários Contigo, a muito custo, fruto de muita oração e - porque não dizê-lo- flagelação dos instintos (sobretudo homicidas), lá consegui perceber alguns pormenores mais nebulosos da Tua Criação. Sendo Tu absolutamente Bom, ela só podia ser absolutamente Boa, o que transposto para certa casta de dejectos, excrementos, maleitas, bactérias, vírus, répteis venenosos, insectos peçonhentos, vermes rastejantes, lombrigas, ténias, vampiros, etc, etc, me transportava a confusa estupefacção e inerente estranheza. Era a estúpida da Razão a meter o bedelho onde não era chamada. Identificada essa disfunção da minha estrutura mental, lá consegui, com a Tua preciosa ajuda, superar o meu néscio cepticismo e ascender a uma clarividência mais benévola e compreensiva do verdadeiro fundamento e finalidade dos entes. Com grande surpresa minha, apaziguei o meu espírito com todas essas existências nauseabundas e repugnantes. Começei a ver com outros olhos os vermes, os micróbios, as formigas, as ratazanas, certos batráquios, as hienas, os monstros alienígenas, o Vasco Graça Moura, o Pacheco Pereira, a Clara Ferreira Alves, o Moita Flores, e até o Luís Delgado, imagina! E até os americanos, pasma! Grande poder Miraculoso, o Teu! E que esforço sobrehumano, o meu! Mas –eis a nanoquestão, Senhor -, mesmo com todo o teu Poder Miraculoso, mesmo com toda a minha titânica fibra, resta ainda uma cabra duma minudência que infecta e conspurca o Teu universo mais que perfeito: é o Vasco Rato, ó meu Deus! O Vasco Rato e aquele puto anormal, um Não-sei-Quantos que parece ter brotado por partogénese anal do primeiro!... Para que é que aquilo serve?...

Aguardo a Tua sobredouta resposta em perturbada angústia.

Dragão

sábado, novembro 20, 2004

Prelúdio Natalício

Eu, francamente, não sei ao certo se há ou não Pai Natal. Em contrapartida, sei, de fonte limpa, que há cada vez mais filhos da puta que dizem que não existe Pai Natal. Pior: Que eles é que são o pai Natal, eles e os patrões deles e o cabrão do Cartão Visa.

O mesmo se aplica em relação às fadas, duendes, gnomos, deuses, ninfas, unicórnios, e demais seres fabulosos. Aliás, se repararmos bem, veremos que, neste martirizado planeta, todas essas criaturas maravilhosas diminuem na proporção diametralmente inversa aos filhos da puta. Rareiam aquelas, infestam estes. São incompatíveis.

E tem mais: o filho da puta gosta de treinar as crias, desde tenra idade, à sua imagem e semelhança.
Até porque agora, os bebés, garante o filho da puta, já não vêm de França, via cegonha. Não, agora são incubados na América, como os frangos, e vêm de avião, num pacote. É só juntar leite ou iogurte, expôr às emissões televisivas, entregar ao cuidado de ogres diplomados e ai está, a papa fica pronta. Não são clonados in vitro: são clonados em vida.

sexta-feira, novembro 19, 2004

ÓSCAR?!! -Que emético vem a ser esse?...

O Clark 59, rapaz de talento que, apesar de jornalista nas horas pagas, é credor de alguma da (pouca) estima que eu dispenso à humanidade contemporânea, imbuído certamente das melhores intenções, desinquietado por um espírito precoce de quadra natalícia, cedeu a um esbanjamento peregrino e decidiu premiar este vosso -nada humilde e muito menos criado - Dragão, lá no blogue dele.
Não precisava. Se queria homenagear-me, a melhor forma de o fazer era continuar a escrever as prosas (poesia, como já referi, contorno diplomaticamente) regra geral suculentas que por lá posta e eu, com prazer, sempre que posso, leio.
Atribuir-me um óscar, pese a excelente companhia em que me coloca, é que já não me parece tão bem alembrado quanto isso. Direi mais: gesto mais infeliz seria difícil. Considero mesmo uma desconsideração difícil de digerir. Em primeiro lugar, porque considero o elogio, sobretudo na forma de “prémio”, como a forma mais infamante de insulto. Lembra-me caninos em concurso, ou bichanos a certame. Mas isso, não sendo pouco, ainda é o menos...
O pior, e segundo ponto, este sim verrinoso, é a forma –o papel fantasia – com que se meteu a embalar a prenda: um “óscar”. Um “ÓSCAR”, ouviram bem. Dar um “óscar” a um taliban como eu, mais que injúria insanável, só pode soar a provocação capaz de desencadear a Terceira Guerra Mundial. Americanices não, caralho! Ele fez aquilo inocentemente, eu sei, mal dirigido pelo seu bom coração, leviano como todos os bons corações. Mas eu é que não tenho que arcar com os dislates do bom coração alheio, nem posso deixar passar impune a gaffe. Tenho um péssimo nome a defender, pôrra! Uma reputação à prova de virtude que muito me custou a agenciar, chiça! Se, além da humilhação, era a ruína de toda a minha auto-estima o que almejava, então devo dizer: quase conseguiu. Amigo da treta!
Finalmente, ó alma infeliz, também te equivocáste na categoria. Os únicos “ensaios” em que tenho reconhecidos méritos são os “ensaios de porrada”. Mas porrada literal e não alegórica, patadas a sério e não filosóficas.
Esmifro-me pr’aqui eu a desarrincar dos confins dos maus fígados estas barbaridades dignas dum Huno desvairado, e vens-me tu, ó Clark, com uma desfeita dessas!...Francamente.
Olha, falando curto e grosso, vai chamar “Abrupto” ao raio que te parta!...

PS: Sendo que o BOS merece o prémio de blogue de “intervençao política” (embora o termo “blague” lhe assentasse melhor), achei piada teres também dado o prémio da intervenção ao Buiça. Neste caso, presumo que deva subentender-se “intervenção” não política mas cirúrgica. Com efeito, da última vez que o li ele aguardava, já em desespero, dador para um transplante cerebral. Folgo que o tenha encontrado em tempo útil e que a operação, pelos vistos, tenha saído coroada de êxito. A medicina faz milagres. Tenho que ir visitá-lo um dia destes. Por enquanto não, coitado, que ainda deve estar em convalescença.

Dragão rebola-se a rir!...

PS 2: Dá o meu putativo óscar ao Dodo. Ele que receba e fique com os dois. Merece. Faz serviço público. Eu, o melhor mesmo é não ir aí, senão ainda incinero a audiência!...




quinta-feira, novembro 18, 2004

O Progresso - esse Come-e-caga, senhores!...

A literatura –a utopia é um dos seus ramos –, apesar de tudo, é inodora.
Quando exercem as suas contabilidades maravilhosas e espraiam os povos do mundo, as épocas e as civilizações nos seus condóminos de filigrana, em exercícios de perfeição, em manobras assépticas de aprumo, os grandes ficcionistas, do cume da sua fantasia, esquecem um pormenor sórdido mas, todavia, deveras relevante: é que tudo aquilo come, tudo aquilo caga, várias vezes ao dia, todos os dias da vida. Toda aquela salganhada produz montanhas de lixo; escava, alastra, desertifica, flui e reflui como uma praga, como uma mancha de imundície avassaladora, de efervescência corrosiva e gordurosa à digestão do cosmos. E nos intervalos desse come-e-caga, não poupa horas nem minutos que não esporeie uma voraz obsessão de mais comer-e-cagar ou melhor comer-e-cagar, multiplicando-se viviparamente em renovadas réplicas iguais no apetite mas audazes e amestradas para ainda mais e melhor comerem-e-cagarem. E, se possível, vingarem os pais, avós, ou remotos parentes, desforrando-os daquilo que eventualmente, no seu tempo, não conseguiram comer-e-cagar como lhes competia e era devido. Ora, esse défice é sempre exorbitante. Quanto mais famintos e deficitários do bandulho foram esses predecessores, mais glutões e ávidos, famintos, se manifestam os subsequentes, os hodiernos.
E quanto mais e melhor comem, mais e pior cagam, mais se derretem literalmente em estrume, tornando-se verdadeiras máquinas merdofágicas e merdofóricas. Uma vez concentradas no bandulho, não há quem os detenha.
É este come-e-caga que fede. E é esse amontoado putrefacto que, periodicamente, bárbaros tentam varrer, porque só um bárbaro possui estômago para tal coisa. Para tão repugnante função. Debalde. A paisagem respira apenas momentaneamente, vem à tona, como os cetáceos, em captura ansiosa de fôlego para novo mergulho submarino. Em menos de nada, o come-e-caga reinstala-se, o fedor volta. Leveda, fermenta, exorbita, incha, qual torre de babel, ao assalto das estrelas. Por isso escapa à literatura, que, como qualquer um pode constatar, é inodora -e, a maior parte das vezes e dos projectos gerais de felicidade universal ao domicílio, também insípida, delinquescente.
Aquilo, o monturo, ainda por cima, liberta gases, exala fumos tóxicos, nuvens fantasmagóricas. Chame-se-lhe religião, ciência, política, pouco importa. Serve essencialmente para justificar a comezaina, o regabofe. Para, anestesiar a consciência irrisória duma seita de canibais omnívoros, de comensais furiosos.

Um come-e-caga, acrescente-se, que, nos últimos tempos, se albarda e suaviza num perfeito come-e-cala.

quarta-feira, novembro 17, 2004

O Padre Borga

Estremunhado, a caminho do café matinal, deparou-se-me um quadro horripilante. Em trinados convulsivos, de dentro dum caixote televisivo, um gordo esguedelhado com distinta pinta de açougueiro frustrado martirizava sadicamente um piano e zurzia os éteres com uma melopeia descabelante onde reincidia, a esmifrar-se, num refrão do seguinte teor:
-“Onde está o meu pastor? Onde está o meu pastor?...”
E repetia aquilo desesperadamente, em pregão ao domicílio.
Pude aperceber-me que se tratava dum programa familiar onde assenta praça um tal padre Borga.
Por breves segundos, estaquei, assombrado. Tive pena. Tive pena, sobretudo, de não estar lá, no estúdio, ao alcance da voz, para lhe poder ministrar a resposta justiceira que tudo aquilo merecia e, de goelas à solta, reclamava:
«Eu não sei onde está o teu pastor, ó filho da puta. Ignoro-o completamente. Mas, em contrapartida, sei dum prado viçoso, replecto de erva tenra, onde bem melhor farias se pastasses. Tu e esse padreca de merda, esse tele-chulo aí plantado a bezuntar audiências, grandes cabrões!...”
Aliás, rosnei-o mesmo ao caixote, alto o suficiente, para até a senhora Dragão – lá na cozinha, de presidência à torradeira – ouvir.
-“Então agora insultas o televisor? – Admirou-se ela. – A quem injurias tu desta vez?...”
-“É o padre Borga, o padre canoro! – Rugi. – E aquele pianista seboso, badocha! Tu já me viste tamanha parelha de cavalgaduras?...”
- “As torradas estão a arrefecer...” –Tentou ela também arrefecer-me a mim, temendo pela integridade do electrodoméstico.
-“E não haver um sacana dum bispo neste país, um bispo à antiga, com eles no sítio, para pôr um cabrão destes na ordem!” – Despedi-me eu do aparelho, atirando chispas malevolentes aos muares chilreantes.
Já sentado à mesa, ainda resmoneei:-”Por este andar, a seguir ao padre Borga não deve tardar aí o padre Putedo!... Irra!, se a Igreja quer dar uma de modernaça, então que ponha freiras em cinto de ligas...Sempre é mais telegénico!...”
-“Senhor Dragão!... –Escandalizou-se a cara metade, arregalando os olhos. –“Francamente!...”

Um dia destes espatifo a televisão. Juro. Olhar pr’àquilo é como assistir em directo e a cores ao intestino grosso do regime.

segunda-feira, novembro 15, 2004

Das entranhas e respectivos venenos

Eu também não levo isto do blogue muito a sério. Aliás, a vida inteira não a levo, nem nunca levei, muito a sério. Exceptuando quando tinha aquela fantasia de ser poeta, por alturas da idade do armário. Nessas ocasiões, pobre imbecil, punha-me a contemplar a existência toda com grandes olhos dramáticos e experimentava terríveis emoções trágicas diante da menor bagatela que passasse. Foi uma espécie de acne do espírito. Lá me curei, felizmente. Com duches gelados de realidade e mergulhos a pique na esterqueira a que chamam mundo. É infalível, devo dizer-vos. Um belo dia, larga-se a gabardine branca à Fernando Pessoa, poisa-se o monóculo e, durante uma temporada completa (no mínimo, cinco anos), toca de ir ser-se um perfeito bruto. Em vez de olharmos para a existência com grandes olhos dramáticos, vamos rebolar-nos nela. Patinhamos em bosta e refocilamos na lama até que a alma nos doa. Chama-se a isso endurance espiritual. Nada de miminho, de complacência, de auto-piedade. Nada de flirtes delicodoces com a porca da sensibilidade. A esta, pega-se-lhe pelos cabelos e arrasta-se pelo chão, à boa maneira troglodita, sem dó nem piedade; sem escrúpulo nem remorso. Não se pensa na mãezinha durante uns tempos. Nenhuma – rigorosamente nenhuma! – ternura nem colinho. Aliás, é como se nunca se tivesse tido mãezinha, como se em vez do ventre duma mulher, se tivesse sido cuspido, ígneo, solidificado, ortorrômbico, pela cratera selvagem dum vulcão, em jacto lá das entranhas da própria Terra. É preciso –permitam que vos elucide – devir um autêntico calhau, um pedregulho ambulante, um menir de si próprio. É fundamental que a alma se transforme em granito puro, em mármore se preferirem, mas em pedra, em pedra seja ela qual for. É crucial morrer-se em vida, devir matéria inerte, inanimada. Para que então, então sim, finalmente liberto de toda e qualquer baba ou liquefacção, expurgado de ranho e lágrimas, imunizado à virtude e ao vício, um homem fique pronto para nascer, para ser, para se oferecer em celebração ao cinzel do Tempo e da Vida. É essencial, garanto-vos, que um homem se esculpa, que empunhe e abata esse cinzel sobre a pedra em que se tornou. E é, mais que tudo, urgente, magnífico, sublime, que essa mão e esse cinzel, unidos, simbióticos, descubram, desenclaustrem -enfim, tragam à luz - o coração que jaz soterrado, mas palpitante, eternamente palpitante, sob a pedra. É assim que eu entendo a Arte. E não é um privilégio, muito menos uma prenda, mas uma maldição! A pior de todas. No fundo, não passa da pedra, mascarada de presente, com que os deuses mantêm ocupados e absortos certos homens proprietários de espíritos deveras perigosos. Tal qual Sísifo.
Quanto à moral da história é simples: há venenos de que um homem só se cura, ingerindo um veneno muito maior. Não há veneno maior que a Filosofia: tem o poder de curar-nos de todos os outros venenos. Mas, também por isso mesmo, é o único veneno que não tem cura.

Suponho que não se deveriam escrever coisas destas em blogues. É capaz de ser, isto sim, muito mais que todas as carvalhadas pipianas, obsceno. Corrijam-me se estou enganado.

A suprema sacanice dragoniana



Debelado o qui pro quo com os bombeiros, esses desmancha prazeres; adiada a evacuação ad-hoc pelo INEM, eis que o Dragão, fresco que nem uma alface, manhoso e sacana como sempre, todo lampeiro como se nada fosse, retoma a churrascaria animado de projectos de holocausto.
Abriguem-se!...
Até aqui tinha sido por minha alta recreação. Agora é a pedido.

Legenda da fotografia : "O Dragão renasce do ovo alquímico".


sábado, novembro 13, 2004

O Dragão Contra-ataca

Nunca vos ocorreu que estando o autor em vias de extinção, o blogue correria inerentemente, e também, esse risco?

É um facto que está ali uma senhora encapuçada, cujo rosto obscuro daqui não diviso, de foice ao ombro, a olhar para mim. Do outro lado da encosta não se via. Agora já se vê. Desço com uma certa curiosidade.

Mas vós, ó criaturas de pouca fé, já me estáveis a agourar, a abreviar o epílogo!...Irra!

Como terá dito o nosso último rei, em Alcácer-Quibir: "Morrer, sim...Mas devagar."

Deixo-vos, por agora, com um alarde poético. Na minha juventude também me infestou essa maleita rimadora, donde resultaram porcarias como a que se segue (e que aqui lavro por retaliação a um bando de energúmenos e energúmenas - a Zazie é a pior -, que tiveram o desplante de, por breves instantes, humanizarem um monstro de misantropia empedernida como eu. Humpfh!)


«Todos são todos por engano.
No fundo, cada um é cada qual.
Mas ninguém dos seus actos é soberano
pois acoita em si um tirano
que são os outros feitos fiscal.

Na realidade, a vida não passa dum drama
onde ninguém tem nada de seu.
O próprio Amor com que se ama
e o famoso Ser que se proclama,
tudo é função p'ra que nasceu.

A história da minha Vida...
É como todas - Era uma vez
uma estranha coisa homicida
dos outros, de si, da vida
ermida da embriaguez.

Fui chefe dessa pérfida hoste
de bárbaros que, sem querer,
coroaram imperador um fantoche.
Raios partam quem goste
como eu, da vida e de viver!»

Terei sido um medíocre versejador. Mas, em contrapartida, fui um óptimo profeta.




quinta-feira, novembro 11, 2004

Este é um blogue em vias de extinção!...

A Inteligência e a Imbecilidade

Quando uma pessoa é inteligente a posição política é acessória. Vista-se de esquerda ou direita, é a inteligência que prevalece, que decide. Ao contrário dos imbecis. No vácuo mental destes, o traje devém suporte, alicerce fundamental. O imbecil limita-se a servir-lhe de atrelado. Vai a reboque. Fatalmente, constitui seita, horda, matilha, com o mesma mística profunda que qualquer labrego constitui família. Nele, é o acessório que constitui essência. “Sou de esquerda, ou sou de direita”, proclama ele. E está tudo dito. Ei-lo na sua apoteose substantiva: Ser de esquerda ou de direita esgota-o, é signo essencial e, mais que afirmação de qualquer coisa, é negação do contrário. O imbecil, como a pata do cão a regar a parede, não se põe: contrapõe-se. Precisa duma parede, dum poste, dum muro, dum candeeiro, duma roda de automóvel, enfim: algo a que alçar a pata, onde deixar a sua marca, o seu cheiro, onde vincar a sua posição. O cão mija; o imbecil vocifera. O resultado, esse, é o mesmo.


segunda-feira, novembro 08, 2004

Da República (dos Bananas)


De como se vê que o eventual “republicanismo” de Fernando Pessoa nada tinha que ver com aquele que foi implantado em 5 de Outubro de 1910. (E, portanto, de como entre Pessoa e as “obras da maçonaria” se escancarava um abismo).

«O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a república é que não estava. Grandes são as virtudes de coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas!
Bandidos da pior espécie (muitas vezes, pessoalmente, bons rapazes e bons amigos –porque estas contradições, que aliás o não são, existem na vida); gatunos com seu quanto de ideal verdadeiro, anarquistas-natos com grandes patriotismos íntimos –, de tudo isto vimos na açorda falsa que se seguiu à implantação do regimen a que, por contraste com a monarquia que o precedera, se decidiu chamar República.
A monarquia havia abusado das ditaduras; os republicanos passaram a legislar em ditadura, fazendo em ditadura as suas leis mais importantes, e nunca as submetendo a cortes constituintes, ou a qualquer espécie de cortes. A lei do divórcio, as leis da família, a lei da separação da Igreja e do Estado – todas foram decretos ditatoriais, todas permanecem hoje, e ainda, decretos ditatoriais.
A monarquia havia desperdiçado, estúpida e imoralmente, os dinheiros públicos. O país, disse Dias Ferreira, era governado por quadrilhas de ladrões. E a república que veio multiplicou por qualquer coisa – concedamos generosamente que foi só por dois (e basta) – os escândalos financeiros da monarquia.
A monarquia, desagradando à Nação, e não saindo espontaneamente, criara um estado revolucionário. A república veio e criou dois ou três estados revolucionários. No tempo da monarquia, estava ela, a monarquia, de um lado; do outro estavam, juntos, de simples republicanos a anarquistas, os revolucionários todos. Sobrevinda a república, passaram a ser os republicanos revolucionários entre si, e os monárquicos depostos passaram a ser revolucionários também. A monarquia não conseguira resolver o problema da ordem; a república instituiu a desordem múltipla.

É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o sr. Afonso Costa.

O sociólogo pode reconhecer que a vinda da república teve a vantagem de anarquizar o país, de o encher de intranquilidade permanente, e estas cousas podem designar-se como vantagens porque, quebrando a estagnação, podem preparar qualquer reacção que produza uma cousa mais alta e melhor. Mas nem os republicanos pretendiam este resultado nem ele pode surgir senão como reacção contra eles.
E o regimen está, na verdade, expresso naquele ignóbil trapo que, imposto por uma reduzidíssima minoria de esfarrapados morais, nos serve de bandeira nacional – trapo contrário à heráldica e à estética, porque duas cores se justapõem sem intervenção de um metal e porque é a mais feia coisa que se pode inventar em cor. Está ali contudo a alma do republicanismo português – o encarnado do sangue que derramaram e fizeram derramar, o verde da erva de que, por direito mental, devem alimentar-se.

Este regimen é uma conspurcação espiritual. A monarquia, ainda que má, tem ao menos de seu o ser decorativa. Será pouco, socialmente, será nada, nacionalmente. Mas é alguma coisa em comparação com o nada absoluto que a república veio a ser.»

- Fernando Pessoa, “Da República”


A mim, deixem que vos diga, parece-me um testemunho clarividente e desassombrado do badanal da época. Não tendo eu conhecido outra, tendo-a servido com muita honra, também me parece que a bandeira de república não prima pela beleza. Uma bandeira portuguesa sem o azul do céu e do mar, só pode ser uma piada de mau gosto. É claro que num país onde o benfiquismo se sobrepõe e confunde com o nacionalismo, fica tudo em família.
Do que importa registar é que, duma forma arrepiante, a descrição de Pessoa pós-Outubrista também se ajusta, cada vez mais, ao pós-Abrilismo. Adiou-se de novo o país, queimou-se ignobilmente a esperança e tratou-se do bolso e da barriguinha de mais não sei quantos esfarrapados mentais. Quanto à grande glória e supina proeza governativa foi transformar o país, ele todo, por atacado, senão numa puta, seguramente num pedinte.
Um país que já não navega, nem sequer trabalha; que baixou as mãos do leme e, da porta da tasca convertida em banco, as estende doravante, sujas, à caridade
europeia.

sexta-feira, novembro 05, 2004

O Vírus Mental

O que mais abunda por aí não são ideias, nem são mentes, nem, muito menos, pensamentos. Na verdade, o que mais pulula, formigueja, fervilha são hospedeiros, gentinha em cujo cérebro reptilínio se alojam crenças hipnóticas, pseudo-organismos paranóides que, por ruminação intelectual, conduzem à auto-lobotomia. Numa forma de parasitismo mental cada vez mais refinado e em voga, este vírus transmigratório monta estalagem na gordura mental, arruina prematuramente qualquer hipótese de espírito e transporta a vítima a um estado de perpétuo ricochete entre a imbecilidade e a mentecapção. Tudo isto sob uma crosta grossa de douta convicção e certezas absolutas. Além disso, ao mesmo tempo que transmite ao observador externo um espectáculo de penosa decrepitude, de submissão larvar aos mais baixos instintos, inunda de caleidoscópicos delírios o portador vegetalizado, durante os quais este se compraz e masturba com self-conceptions de mercedes-benz do raciocínio, rolls-royce das inteligências, vaivém espacial das grandes revelações cósmicas.
À vista desarmada, no auge deste lamentável onanismo, o pobre diabo – que o vírus vampiriza e trabalha –, baba-se; palco duma paraplegia cerebral completa, entorna-se pela boca e pelas pernas abaixo. Mas lá, no seu mundo privado, distorcido, secreto, cisma que essa saliva balbuciada, incoercível, representa uma dádiva de Deus ao Mundo, uma jóia preciosíssima oferecida à eternidade da galáxia. Inexorável, à medida que o esvazia, o vírus distrai-o, mantém-no ocupado com ilusões cada vez mais megalómanas e alucinantes. Entretanto, vai-lhe digerindo e mastigando a razão; vai-lhe triturando e liquefazendo toda a espécie de humildade e sensatez. Até que não reste mais que um puré mental em que o absurdo substitui o oxigénio.
O repugnante fenómeno, bem entendido, não é novo. Tem rastejado ao longo de séculos, tem contaminado e corroído pela História fora.
Mas que ninguém se confunda: Não é de ter pena; é de meter nojo.

quinta-feira, novembro 04, 2004

O Apocalipse segundo os Eleitos

«Pelo menos desde o Êxodo do Egipto (os Judeus) estavam convencidos que a vontade de Jeová tinha o seu centro em Israel e que só a Israel cabia a realização dessa vontade. Pelo menos desde o tempo dos profetas estavam convencidos que Jeová não era um simples deus nacional, embora poderoso, mas sim o Deus único e o Senhor omnipotente da história que controlava os destinos de todas as nações. Na verdade, eram muito variadas as conclusões que os Judeus tiravam de tais crenças. Muitos, como o “Segundo Isaías”, sentiam que a eleição divina lhes impunha uma especial responsabilidade moral, uma obrigação de mostrarem-se justos e misericordiosos nas suas relações com todos os homens. Segundo eles, a missão divina de Israel era a de iluminar os Gentios e a de assim levar a salvação até aos confins da terra. A par desta interpretação ética existia, porém, uma outra que se foi tornando mais atraente à medida que o fervor do velho nacionalismo começou a estar sujeito ao choque e à tensão de repetidas derrotas, deportações e diásporas. Precisamente por estarem tão profundamente convencidos de serem o Povo Eleito, os Judeus tinham a tendência para reagir ao perigo, à opressão e às dificuldades com quimeras ou imagens de triunfo total e de properidade sem limites que Jeová, na sua omnipotência, haveria de conceder aos seus Eleitos na plenitude dos tempos. (...)
Deverá, na verdade, chegar um Dia de Jeová, um Dia da Ira, em que o sol e a lua e as estrelas se obscurecerão e os céus e a terra serão abalados. Deverá, na verdade, haver um Julgamento em que os infiéis –aqueles que em Israel não confiaram no Senhor e também os inimigos de Israel, as nações pagãs – serão condenados e humilhados, senão inteiramente destruídos. Mas não será o fim: um “resto salvador” de Israel sobreviverá a estes castigos e através desse resto se hão-de realizar os objectivos divinos. Quando o Povo estiver assim regenerado e reformado, Jeová cessará a sua vingança e tornar-se-á o Libertador. Os justos vivos – juntamente, acrescentar-se-á mais tarde, com os justos mortos agora ressuscitados – serão, uma vez mais, reunidos na Palestina e Jeová habitará com eles como Senhor e Juíz, reinando a partir de uma Jerusalém reconstruída, de Sião que se terá tornado a capital espiritual do mundo e à qual afluirão todas as nações.»

- Norman Cohn, “Na Senda do Milénio”

Este é daqueles textos que dispensa comentários. Peço apenas que atentem com especial ênfase nos seguintes conceitos: “povo eleito”, “triunfo total”, “Dia da Ira” e “resto salvador”. Realço ainda que o “elitismo” judaico, cujo momento inaugural surpreendemos na descrição em epígrafe, não é só virado contra os “gentios”, como também, e com igual intensidade, contra os “maus judeus”. Dito por outras palavras: não há os judeus e os outros, mas sim os “Puros Eleitos” (os crentes fervorosos numa Jerusalém restaurada e apoteótica), e os outros, judeus e gentios.

Convém ainda relembrar que o holocausto do Terceiro Reich, objectivamente, não prejudicou a Elite Sionista. Antes, pelo contrário, a corroborava e lhe deu o impulso definitivo de que ela precisava. Dir-se-ia que Jeová, segundo os Sionistas, escreveu direito por linhas deveras tortuosas. Num século em que a lógica predominante consistiu nos “fins justificam os meios”, quem sabe se isso não obedeceu mesmo aos chamados “interesses de estado”? (Mesmo que aparentemente esse “estado” não existisse...)
Facto indesmentível: Sem a II Guerra Mundial e o Holocausto nazi não existiria hoje o Estado de Israel, tal qual existe.
Mais um caso para os detectives da conspiração.

quarta-feira, novembro 03, 2004

Do Neoconismo ao Neocomunismo



Criar desenfreadamente a pobreza é criar as condições efectivas para a erupção de movimentos e géneses comunistas ou socializantes. E quanto mais indigente e desesperada for essa pobreza, pior. Uma vez destituído, despojado de direitos e bens, qualquer ser humano se sente subitamente inundado de vocações fraternas. Se odeia partilhar a riqueza, em contrapartida, anseia por partilhar a desgraça e o despojo. É um facto que tudo isso é muito epidérmico: passa-lhe logo que experimenta, caso experimente, as poltronas do poder. Mas, no entretanto, muita coisa pode acontecer. Alguma coisa geralmente acontece. Quase nunca pacífica. Ora, quando os Neoconas, na senda dos neoliberais, se ensaiam de criar uma indigência de massas à escala mundial, estão a conseguir aquilo que os movimentos de esquerda, sobretudo sovietizantes, nunca conseguiram através dos seus esforços proselitistas. Estão a criar as condições objectivas para que a profecia marxista corra sérios riscos de, finalmente, se realizar: o capitalismo cairá fruto das próprias contradições; a Revolução só resultará à escala mundial. Resumindo: globalizar a pobreza, a exploração furiosa e a injustiça é globalizar a revolução.
Por conseguinte, apostar no neoconismo a curto e médio prazo é, necessariamente, apostar no neocomunismo a longo. Não é que não haja uma certa justiça irónica nisso tudo: de facto, uma variante comunista particularmente virulenta (ao estilo camboja dos gloriosos tempos de Pol Phot) seria o local ideal para uma estadia vitalícia por parte de gentalha da estirpe dos neoconas norte-americanos e, sobretudo, dos seus sequazes por esse mundo fora. Mas apenas para eles, como seu campo de trabalho exclusivo, seu parque privado, bem fardados e dedicados a uma perpétua e extenuante vida agrícola nos arrozais. O resto das pessoas, claro está, apenas lá deviam ir de visita, uma vez por ano, regalar-se com a paisagem e com o regime sadio dos internados. Era pitoresco e pedagógico. Se pudesse ser enxertado na coisa o cavalo-marinho do velho regime colonial, tanto melhor. Sabemos que certos serviços carecem de estímulo apropriado e que certas bestas só lá vão à força de chicote. Convenhamos até que era uma excelente oportunidade para ambas as aberrações (o comunismo e o colonialismo) darem as mão e se redimiram de tantos pecadilhos de outrora. Eram só vantagens.
Seriam, melhor dizendo; se a História e a Prudência nada nos ensinassem. Uma nuvem, de facto, deveras negra, ensombra o horizonte: é que provavelmente o tipo de gentalha que constitui actuamente a “nomenclatura neoconas” – todos esses “think tanks” da puta que os pariu –, transferir-se-á de armas e bagagens para o bando -só em tese- teoricamente oposto e, em larvar metamorfose, virá desempenhar também a “nomenclatura neocomunista” do amanhã. Será mesmo o passo lógico, o desencasular-se. Uma vez criada a massa global e única, é sabido que o método comunista é o melhor para lidar com ela, aquele que tem não só a teoria como também a prática.
E de tanto espiar o monstro soviético, a “inteligência” americana acabou por se apaixonar por ele. E vice-versa.

Quanto à beleza desse neocomunismo futuro, mas cada vez menos longínquo, resume-se a dois conceitos: uma nomenclatura para partilhar os lucros, o poder e a ciência; e uma massa bruta, amorfa e lobotomizada, para partilhar o trabalho, as despesas e a ignorância.
Agora prestem atenção: nada de confundir este “animals farm por vir” com uma “aristocracia” que, em tese e etimologicamente, significa o “poder pelos melhores”. Se quiserem cunhar o novo modelo, tal qual se adivinha, será, ao invés, uma “Quirocracia”, ou seja, o “poder dos piores”. Ou dos “porcos”, se preferirem - para ficar mais de acordo com a alegoria orwelliana.

Do largo excedente de mão de obra e do destino que lhe está reservado, é melhor nem falar.

terça-feira, novembro 02, 2004

O Farol dos Afundadores

A América é o farol do mundo. Pena que seja um farol erguido por afundadores. Pena que o mundo seja um barco à deriva.
Hoje, a putativa super-nação, mais a sua super-democracia imaginária, entregam-se a uma fantochada eleitoral, ao nível das Angolas deste mundo, que vem servindo de pretexto a uma série de “americanos” na diáspora para vibrarem pelos seus paladinos. Não votam (por enquanto), mas fazem força. Gemem do lado de fora dos sanitários. Armam coros guinchantes, ao velho estilo do histerismo grouppie. Bradam incentivos para dentro, mensagens entusiásticas: “Coragem! Avante! Tu és o sol da nossa caverna!” Enfim, parturiam à distância. Tele-acolitam o seu favorito. Lançam cavacas ao lume.
Mas o seu maior sonho seria poder estar também lá dentro, assoberbados nos trabalhos, espremendo o esfíncter de vanguarda, super-potente, mirando, finalmente, a obra fumegante, aspirando o odor revigorante, testando a consistência, a uniformidade da cor.
Quais vão ser as peripécias, que complicações e sobressaltos vão surgir – se vão ser necessários fórceps ou apenas clisteres -, aindas ninguém sabe ao certo. Mas adivinha-se.
Quanto aos “nossos americanos”, com as suas bandeirinhas Kerry e as suas bandeirinhas Bush, dir-se-ia que, como certas cadelas que emprenham fantasmagoricamente, também eles se entregam a gravidezes histéricas, e aguardam, em vigília angustiada, que venha à luz o americanozinho fétido que transportam nos seus miraculados e industriosos ventres.
Rezam para que nasça completo. Já que mongolóide vai ser de certeza. Pelo lado materno.

segunda-feira, novembro 01, 2004

O QUINTO IMPÉRIO




O Quinto Império

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!

Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição de raiz –
Ter por vida a sepultura.

Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!

E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.

Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – Os quatro se vão
Para onde vai toda a idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?


-Fernando Pessoa, «Mensagem»

É preciso ter sempre em consideração que o texto da “mensagem” é um texto esotérico, no bom sentido que esotérico pode ter, ou seja, como a “Metafísica” de Aristóteles, ou “Assim Falava Zaratustra”, ou as parábolas de Jesus são textos esotéricos. Quer isto dizer, essencialmente, que não são textos para espíritos gordos, anafados, obesos, a arrotar douta sapiência. Mas para espíritos mendigos, nómadas que erram pela terra em busca do alimento, do “pão”. A luz é para quem a procura e não para quem julga que a tem. O espírito não se tem, exercita-se.
A este propósito, e título de exemplo, convém que clarifique o seguinte pormenor há muito deturpado.
No “Sermão das bem-aventuranças”, Jesus, no texto original, em grego (e não em latim como, por tradição, foram sendo feitas traduções) profere o seguinte:
«Makárioi oi ptõchoi tõ pneúmati
õti aútõn he basileia tõn ouranõn
» (...) (Mateus, 5,3)
A tradição faz a seguinte tradução:
« Felizes (ou bem-aventurados) os pobres em espírito (ou pobres de espírito) porque deles é o Reino do Céu»
A passagem é por demais conhecida e, graças a essa “tradução”, deixou para a posteridade a ideia de “bem-aventurados os imbecis, ou tolinhos, ou ígnaros, ou coisa do género”.
A “traição” reside basicamente no termo “ptõchoi”, traduzida para o latino “pauper” e, a partir daí, para o portugês “pobre”. Porém, “pobre”, em grego, não radica no “ptochos”, mas na “penia” (pobreza), donde resultou a nossa “penúria”. Pois bem, que significa então, originariamente, “ptochos”? Significa, exactamente, “mendigo”. Ora, é diferente, sobretudo em termos de metáfora, de parábola, de riqueza simbólica, dizer “pobre” ou dizer “mendigo”; na verdade, bem traduzido, o que Jesus diz é “ bem aventurados os que mendigam espírito”, isto é, “bem aventurados os que procuram, os que buscam espírito (pois reconhecem nessa sua demanda a sua falta mais essencial, a mais elementar substância para a sua sobrevivência”). Tanto que essa ideia é logo adiante confirmada com “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”, ou seja, novamente a dimensão ética, espiritual, a sobrepôr-se à mera dimensão bestial, intestinal, bandulhística. E, mais uma vez, refira-se, a título de curiosidade, a tradução de “fome” para o termo “peina” (do grego) é empobrecedora, porque “peina” tanto pode significar “ter fome”, como “ter necessidade de”. O fato é sempre feito ao gosto do alfaiate, ou a tosquia ao gosto do tosquiador...
O “mendigar” simboliza, por conseguinte, esse “estar necessitado de”, esse ter consciência de qual a sua verdadeira necessidade. Daí que o sujeitar-se a essa ”necessidade”, segundo Jesus, venha constituir, ao mesmo tempo, o odos (o caminho) da libertação. Pura figura exemplar, dum divino que desce à necessidade, ao patíbulo entre os mortais, ele próprio mostra o trilho, a odisseia da liberdade através da necessidade. É na necessidade –na vida, com tudo o que a vida tem -, que o homem se encontra e, na medida em que se encontra, encontra Deus, e não contra ela, a vida/necessidade, ou a fugir dela e, inerentemente, de si. Jesus mostra o caminho, reabre a via, mas não substitui os caminhantes. Foi traído (ou mal traduzido, se preferirem) por Judas, por Pedro e, acima de todos, por Paulo. A tradução de Paulo, sobre todas, é uma contradição de Jesus, um “Contra-o-que-Jesus-disse”, donde resultou, em grande parte, um cristianismo que não libertou mas fechou o homem nos seus medos, nas suas fobias, na sua proscrição fictícia. A fuga de Pedro, a sua cobardia, a sua perda de fé diante do abismo, perpetuar-se-á na Igreja de que, em teoria, constituirá a “primeira pedra”. O fariseísmo judaico-romano de Paulo contaminará o discurso.
Chamo a atenção que esta é a minha singular perspectiva, puramente filosófica, e não pretende colocar minimamente em causa credos, convicções religiosas ou dogmas assumidos seja por quem for. Se há alguém errado, sou certamente eu e o inferno espera-me concerteza. Tranquilizem-se, pois, as boas almas e os beatos encartados todos da paróquia.
Apenas explanei este arrazoado, porque a perspectiva de Nietzsche, no Anticristão (erradamente traduzido por “anticristo) é, no essencial, bastante próxima. Sendo o “anticristianismo” de Pessoa, em quase tudo, o “anticristianismo” de Nietzsche, tornou-se necessária esta exposição para que possamos entender o significado cabal desse termo. Assim, pela negação da negação (lei básica da lógica) temos a afirmação: sendo o “cristianismo” de Paulo a negação de Jesus, a negação dessa negação nada mais pretende que a reafirmação, ou re-descoberta daquilo que foi entretanto escondido e encoberto. A limite, “anti-cristão”, em Nietzsche, como em Pessoa, deve ser lido como anti-anticristo.
Não é por acaso que Nietzsche, no fim da sua vida, assina cartas como “O Crucificado”. E Pessoa escreve, na “Mensagem”, logo a seguir ao Quinto Império, no “Desejado”:
«Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral!”

Para podermos entender aquela que, no meu bárbaro entender, é a ideia de “Quinto Império” em Fernando Pessoa, tornava-se imprescindível perceber esta noção “anticristã”. De alguma forma, sendo da pura ordem do “espírito” (espírito, esse, não como alminha, mas assumpção, respiração plena da vida) o Quinto Império radica nesse “mar por navegar” onde a figura de Jesus Cristo emerge, em aura velada, por detrás da figura enigmática do Infante.
O resto, depois, falamos.

Entretanto, depois do que aqui ficou dito, tentem decifrar o poema em epígrafe. Vejam se faz sentido. É provável que não, ou...

“Ser mendigo é ser homem”.

Mendigo – do latim “mendicus”, indigente; na raíz: “menda” – defeito físico; falta; erro (de linguagem, num texto, cometido pelo copista).
De “menda”, originou-se, entre outros, o nosso português “emenda”.