É verdade, ó leitores, ó masoquistas: este blogue tem censura. Prova cabal disso é o texto que se segue: esteve censurado nos últimos dois meses. Eu próprio, acreditem, o achei excessivo. Iconoclasta para lá das marcas. Prosa digna daquele mongol que se divertia e despenhar elefantes. Era mesmo suposto aplicar-lhe a utilíssima tecla “delete”.
Porém, como não me deixam descansar em paz, decidi vingar-me duma horda ruidosa que não me larga a porta e reclama pérolas a toda a hora. Ai querem pérolas?... Então aí vão!...
Volto a este assunto. Se vos desgosta, tanto melhor. Mas não consigo deixar de pensar em tão crucial temática:
Há qualquer coisa de flagrantemente promíscuo entre grande parte da “literatura” que se edita nestes dias e o papel higiénico. A cada dia que passa, a evidência, de resto, aumenta: ler tornou-se uma forma sofisticada (ou meramente complementar) de ir ao cabeleireiro. Ou à retrete. Não será por acaso.
Desde sempre, o burguês luzidio e bem tratado, filisteu atávico que refocila todo pimpão em chiqueiros egonáuticos, recorre aos livros como parte essencial da decoração doméstica: enquadra-os com reposteiros e mobílias, afina-os por tapeçarias e bibelôs. Aprecia-os, sobretudo, sob o ponto de vista da encadernação. Isso e o “bom tom”. Os clássicos são de bom tom numa sala ou escritório. Casos há também em que não é, de todo, a decoração doméstica que o norteia: nesse caso, é a indumentária.
Eu, tenham lá paciência, mas aos livros devoto ritual diverso. Há aqueles que leio e aqueles que não. Os que leio aprecio-os pelo que trazem escrito no papel; os outros, pela macieza e capacidade absorvente deste.
Por exemplo, uma Agustina Bessa-Luís ou António Lobo Antunes, por incrível que vos pareça, variam muito. Há edições mais macias que outras. Há edições absolutamente agressivas para a pele, que arranham e desbotam, mal entram em contacto com a superfície a cuidar. O mesmo se pode dizer em relação a uma Lídia Jorge. Já um Saramago não padece dessas flutuações: oferece-se-nos em papel standard, sem oscilações, bastante dúctil e aderente. A sua capacidade escato-pregnante é notável. Não tanto, é certo, como uma Agustina, nem, longe disso, como um Lobo-Antunes; mas, ainda assim, bastante aceitável.
Lobo-Antunes, de resto, só por si, seria merecedor de uma monografia. Retrete que não disponibilize ao celebrante, em suporte dourado apenso, uma das suas obras, proscrevei-a de imediato, a vermelho, na vossa agenda. Livrai-vos de cagar em tal antro: é gente analfabeta –ou pior: analfabrava – de certeza absoluta. Inventai uma desculpa, um pretexto inadiável, e escafedei-vos de lá o quanto antes. Se não são canibais, são antropófagos - burgueses de merda, enfim.
A mim, quando eventualmente algum dos raros casais amigos –gente intrépida – me convidam para ir, de senhora Dragão à ilharga, jantar lá a casa, mais que o menu, nunca se esquecem de me dizer: “e temos lá a última edição do Lobo-Antunes, em edição especial, papel couché .” Além do mais, nestes saraus, tanto como o que vamos passar pela boca importa que acautelemos o que vamos abeirar do posterior orifício. Eles, os anfitriões destemidos, conhecem-me bem, de ginjeira, e sabem que doutra maneira dificilmente me apanhariam lá. Assim, é infalível. Ou melhor: é quase impossível resistir. Peroro á senhora Dragão e lá vamos. Depois, findo o repasto, passado pelas mandíbulas o bacalhau ou a picanha, o tinto, varrida a sobremesa, emborcado o puro malte, chega o momento (por todos) ansiado... Levanto-me e profiro, não sem uma certa solenidade: “Bem, agora, com vossa licença, vou ver que tal está o Lobo-Antunes!” E lá ficam, eles todos, a aguardar-me, impacientes, sequiosos da opinião do expert. Quando regresso, aliviado, ainda a dar o último retoque no cinto das calças, já todos me bombardeiam: “Então?! Então que tal?!”
E não raras vezes, senão por sinceridade, ao menos por cortesia, respondo: “Supimpa! O melhor Lobo Antunes dos últimos tempos. Até me assoei!...”
Entretanto, acabo de saber que vai ser editada mais uma obra de Agustina Bessa-Luís, com prefácio de Clara Ferreira Alves. Fico ansioso. Mas também preocupado. Se o romance estiver ao nível do prefácio, arriscamo-nos a deparar com um típico papel de jornal, duma flacidez exacerbada, com tendência para manchar aquilo que, estando já sujo, conviria antes que limpasse. Duvido que alguém no seu perfeito juízo, se atreva a desenporcalhar-se com tal compêndio de bacoquices.
Mas não julguem que apenas as obras nacionais usufruem destes méritos. O rol internacional é ainda mais luxuriante. Marguerite Yourcenar, por exemplo, tem edições esplêndidas –quem nunca experimentou umas “Memórias de Adriano”, em quarta edição, ou “A obra ao Negro”, da Quixote, não sabe o que é uma higiene de qualidade; e Jean Paul-Sartre, Hemingway, Durrel, Kundera e tantos outros são do melhor que alguma vez poderemos encontrar à cabeceira da retrete. A Virgínia Wolf nunca experimentei, mas, não sei porquê, palpita-me que não anda muito longe da textura duma Gata Cristhie.
Quanto à maioria do que para aí se edita e vende, do que se anuncia em promoção nas montras e catálogos, perdoem-me o cepticismo (ou a exigência), mas, acreditem-me: Não serve nem para ler, nem, tão pouco, para limpar o cu. É lixo tóxico puro!... Repassado pelos olhos da frente ou pelo de trás, pode resultar em cauterizações insanáveis! E, como se tudo isso não bastasse, junta o inútil ao desagradável: Nem as pestanas resistem, nem os pintelhos do cu batem palmas!...
Vão por mim: pode ser que se combata o fogo com o fogo; mas, decerto, não se limpam resquícios de caca com defluxos de outra caca pior ainda. Tem que ser, pelo menos, igual.
segunda-feira, fevereiro 28, 2005
sábado, fevereiro 26, 2005
A Ursada
«Dos muitos ursos, em castelhano “ossos”, tirou daquela serra o nome de Ossa. Embrenhados por cegos matagais, estavam os frades cuidando em formarem choças das ramarias, quando o rei, aporfiado inimigo deles, à conta de lhe aliciarem o sobrinho para a ordem capucha, os mandou desentranharem-se dos bosques e sair do reino.
Se há lance digno de pincel que obedecesse a dois impulsos grandiosos –génio e piedade – é este:
Ajuntaram-se os frades e desceram do viso da serra, despedindo-se lagrimosos das penhas e árvores em que tinham passado alguns dias e noites de oração. Ao compasso que iam descendo, saíam de suas furnas os ursos e paravam a vê-los passar.
Os frades iam cruzando grandes bênçãos sobre os ursos, e as feras inclinavam as suas cabeças compadecidas diante dos pobres desterrados.
Ó ursos mais católicos do que o próprio papa, ó honrados ursos, se ainda hoje a vossa posteridade florescesse na serra de Ossa, quantos homens de bem iriam demandar a vossa convivência! Quantos eleitores vos dariam o seu voto! Que esperanças não teria ainda Portugal de se ver regenerado por um ministério de ursos da vossa casta! Lá os tenho visto, apanhados nos matos do parlamento; mas, justiça vos seja feita, da vossa linhagem não eram!»
- Camilo Castelo Branco, “Cavar em Ruínas”
Se há lance digno de pincel que obedecesse a dois impulsos grandiosos –génio e piedade – é este:
Ajuntaram-se os frades e desceram do viso da serra, despedindo-se lagrimosos das penhas e árvores em que tinham passado alguns dias e noites de oração. Ao compasso que iam descendo, saíam de suas furnas os ursos e paravam a vê-los passar.
Os frades iam cruzando grandes bênçãos sobre os ursos, e as feras inclinavam as suas cabeças compadecidas diante dos pobres desterrados.
Ó ursos mais católicos do que o próprio papa, ó honrados ursos, se ainda hoje a vossa posteridade florescesse na serra de Ossa, quantos homens de bem iriam demandar a vossa convivência! Quantos eleitores vos dariam o seu voto! Que esperanças não teria ainda Portugal de se ver regenerado por um ministério de ursos da vossa casta! Lá os tenho visto, apanhados nos matos do parlamento; mas, justiça vos seja feita, da vossa linhagem não eram!»
- Camilo Castelo Branco, “Cavar em Ruínas”
sexta-feira, fevereiro 25, 2005
quinta-feira, fevereiro 03, 2005
Mais Antologia.
Estamos em maré antológica, aqui no blogue. Como não tenho ,agora, muito tempo para vos aturar nem deslumbrar com as merdas que aqui vou postalando~, sobretudo aqueles assuntos escandalosos que tanto vos excitam, fico-me por um replay de coisas que mereceram, num passado remoto, a vossa olímpica (como diria o Dodo -vê lá se escreves, ó morcão!) indiferença. É a sina da arte. De qualquer modo, ou é isto, ou fecho o estaminé. Escolham.
«O G.A.N.D.U.L.O - 1ªReunião, Fase 5
Esta coisa do D.Afonso Henriques andar ao leme do Batnavó, apesar do cutelo, não tem só desvantagens. Não, também tem algumas contrapartidas. A tasca -aliás, Ciber-tasca-, por exemplo, parece ter viajado no tempo, sendo que eu e o Dinossauro fomos armados cavaleiros e o Caguinchas agora é conde. Já o Armindo Taberneiro, que D.Afonso não vê com tão bons olhos, manteve-se plebeu, mas com o alvará, por concessão régia, de armeiro-real e Guardião-das-armas. Estas, as armas, resumem-se por enquanto ao cutelo, mas D.Afonso já lançou olhares gulosos ao martelo de picar carnes, que o Armindo tratou de esconder como pôde. Foi, pois, nestas qualidades aristocráticas que prosseguimos com a reunião.Tomou a palavra o Conde Caguinchas, coisa que, em condições normais nós teríamos evitado a todo o custo, mas que, dada a nova hierarquia social, se tornava impossível, já que sendo ele Conde e nós apenas cavaleiros não caíria bem, aos olhos do Rei, mandar calar um superior.
Para não variar, e apesar de ímbuido doravante de sangue azul, no usufruto dum Condado ali prás bandas de Alcains, o Caguinchas, emborcou o lenitivo da ordem e, sem mais aquecimentos nem avisos, descarregou um chorrilho de alarvidades e contra-sensos, capazes de fazer babar de inveja um estivador bezano em fase quadrupédica.
Eis a súmula (traduzida e seleccionada):
O Caguinchas -aliás, Conde Caguinchas-, tinha descoberto onde se acoitava Bin Laden, o famigerado terrorista. Por uma feliz coincidência, associada a poderes dedutivos invulgares, topara o vilão mais o respectivo covil. Onde satélites, agências, exércitos haviam falhado, o Caguinchas, agora Conde, reclamava vitória. E o mais extraordinário é que o dito facínora, o génio maligno, encontrava-se em Portugal, ou mais precisamente, com toda a exactidão domiciliar, na Rua Morais Soares, nºx, 3º Dtº, à Praça do Chile - Lisboa. Se acrescentarmos o código postal: 1900 Lisboa e o telefone: 2184*****, fica o serviço completo e o banzamento colectivo. Mas o detalhes não ficavam por aqui. Bastava ler o anúncio, que o Conde Caguinchas apresentava como prova eloquente e definitiva:
ASTRÓLOGO * ESPIRITUALISTA * CIENTISTA
MESTRE BAIO
Grande cientista, espiritualista e curandeiro. Descendente de uma antiga e rica família com poderes de magias negra e branca, feitiços dos impérios do mal: Senegal, Gâmbia, Guiné-Conacri. Coordenador dos (Impérios do mal), mesmo ao longo de muitos anos, conhecedor de casos desesperados, ajuda e aconselha qualquer problema, grande ou de difícil solução, com rapidez e sabedoria, em curtos prazos (...) Faz trabalhos à distância. Conhecido por toda a Europa e África., bla-bla-bla e por aí fora..." (o que se seguia não tem muito interesse pois não era citado como matéria de prova.)
-"Este gajo é o Bin Laden! - Garantia o Caguinchas, com a autoridade toda dum conde. - Um raio me parta, se não é! Não, vejam!, vejam com atenção!...'Tá tudo aqui escarrapachado: "Coordenador dos Impérios do mal e trabalha à distância"...É o gajo! Só pode ser mesmo o gajo! chapado e escarrado!...E agora compreende-se com'é qu'aquilo foi feito, os aviões contra as torres e aquele buraco misterioso no Pentágono: Foi magia! Pura magia!...Negra e branca, diz aqui, foda-se!, o gajo é perito nas duas!..."
Mesmo que quisessemos contrapor alguma coisa, o protocolo hierárquico e o olhar severo de D.Afonso Henriques não no-lo permitiriam. Via-se que ele tinha pelo Conde Caguinchas a maior das considerações. De resto, por muito que nos custasse, havia algumas evidências corroborantes, como a questão da coordenação maligna e o trabalho à distância.
Optámos, pois, e a bem da nossa longevidade, por concordar e até rasgar corteses elogios à bela (se bem que rilhafolesca) teoria:-"Com efeito, Vossa Senhoria!...De facto! Quem diria? Esse energúmeno entre nós!...Mas também, como dizia o poeta, isto não é um país: é um sítio mal frequentado!...Que clarividência a vossa, Conde Caguinchas!..."
Estávamos entretidos nisto, quando, por via da cusquisse proverbial de certos bairros de Lisboa, atraída por rumores e boatos excepcionalmente fundados, eis que desemboca na tasca a respectiva do Batnavó, com uma destas fussas de megera assanhada que só visto, salvo seja, porque nós de a vermos até nos arrepiámos todos e preparámo-nos pró pior.Vou-vos poupar ao estardalhaço e despautério matrimonial com que a criatura nos brindou e ao marido arredio em especial. Digo-vos que é peixeira num certo mercado e ficamos por aqui. Mas o pior mesmo foi quando D.Afonso Henriques, sem perceber muito bem todo aquele escabeche, teve a triste ideia de se virar para o Conde Caguinchas e perguntar:
-"Quem é esta plebeia? Que reclama ela?...De que afronta se queixa?...Algum mouro ou castelhano que a violou?!..."
E mais triste ainda foi a resposta que o Caguinchas, feito Conde, teve a infelicidade de lhe dar (nós ainda acenámos, discreta e desesperadamente; mas em vão):
-"É Dona Urraca, vossa esposa, meu senhor!..."
Das duas uma: ou D.Afonso Henriques não reconheceu a esposa; ou tinha contas antigas a saldar. Agora imaginem nove séculos de juros em atraso...»
-in "Dragoscópio", algures nos primórdios.
«O G.A.N.D.U.L.O - 1ªReunião, Fase 5
Esta coisa do D.Afonso Henriques andar ao leme do Batnavó, apesar do cutelo, não tem só desvantagens. Não, também tem algumas contrapartidas. A tasca -aliás, Ciber-tasca-, por exemplo, parece ter viajado no tempo, sendo que eu e o Dinossauro fomos armados cavaleiros e o Caguinchas agora é conde. Já o Armindo Taberneiro, que D.Afonso não vê com tão bons olhos, manteve-se plebeu, mas com o alvará, por concessão régia, de armeiro-real e Guardião-das-armas. Estas, as armas, resumem-se por enquanto ao cutelo, mas D.Afonso já lançou olhares gulosos ao martelo de picar carnes, que o Armindo tratou de esconder como pôde. Foi, pois, nestas qualidades aristocráticas que prosseguimos com a reunião.Tomou a palavra o Conde Caguinchas, coisa que, em condições normais nós teríamos evitado a todo o custo, mas que, dada a nova hierarquia social, se tornava impossível, já que sendo ele Conde e nós apenas cavaleiros não caíria bem, aos olhos do Rei, mandar calar um superior.
Para não variar, e apesar de ímbuido doravante de sangue azul, no usufruto dum Condado ali prás bandas de Alcains, o Caguinchas, emborcou o lenitivo da ordem e, sem mais aquecimentos nem avisos, descarregou um chorrilho de alarvidades e contra-sensos, capazes de fazer babar de inveja um estivador bezano em fase quadrupédica.
Eis a súmula (traduzida e seleccionada):
O Caguinchas -aliás, Conde Caguinchas-, tinha descoberto onde se acoitava Bin Laden, o famigerado terrorista. Por uma feliz coincidência, associada a poderes dedutivos invulgares, topara o vilão mais o respectivo covil. Onde satélites, agências, exércitos haviam falhado, o Caguinchas, agora Conde, reclamava vitória. E o mais extraordinário é que o dito facínora, o génio maligno, encontrava-se em Portugal, ou mais precisamente, com toda a exactidão domiciliar, na Rua Morais Soares, nºx, 3º Dtº, à Praça do Chile - Lisboa. Se acrescentarmos o código postal: 1900 Lisboa e o telefone: 2184*****, fica o serviço completo e o banzamento colectivo. Mas o detalhes não ficavam por aqui. Bastava ler o anúncio, que o Conde Caguinchas apresentava como prova eloquente e definitiva:
ASTRÓLOGO * ESPIRITUALISTA * CIENTISTA
MESTRE BAIO
Grande cientista, espiritualista e curandeiro. Descendente de uma antiga e rica família com poderes de magias negra e branca, feitiços dos impérios do mal: Senegal, Gâmbia, Guiné-Conacri. Coordenador dos (Impérios do mal), mesmo ao longo de muitos anos, conhecedor de casos desesperados, ajuda e aconselha qualquer problema, grande ou de difícil solução, com rapidez e sabedoria, em curtos prazos (...) Faz trabalhos à distância. Conhecido por toda a Europa e África., bla-bla-bla e por aí fora..." (o que se seguia não tem muito interesse pois não era citado como matéria de prova.)
-"Este gajo é o Bin Laden! - Garantia o Caguinchas, com a autoridade toda dum conde. - Um raio me parta, se não é! Não, vejam!, vejam com atenção!...'Tá tudo aqui escarrapachado: "Coordenador dos Impérios do mal e trabalha à distância"...É o gajo! Só pode ser mesmo o gajo! chapado e escarrado!...E agora compreende-se com'é qu'aquilo foi feito, os aviões contra as torres e aquele buraco misterioso no Pentágono: Foi magia! Pura magia!...Negra e branca, diz aqui, foda-se!, o gajo é perito nas duas!..."
Mesmo que quisessemos contrapor alguma coisa, o protocolo hierárquico e o olhar severo de D.Afonso Henriques não no-lo permitiriam. Via-se que ele tinha pelo Conde Caguinchas a maior das considerações. De resto, por muito que nos custasse, havia algumas evidências corroborantes, como a questão da coordenação maligna e o trabalho à distância.
Optámos, pois, e a bem da nossa longevidade, por concordar e até rasgar corteses elogios à bela (se bem que rilhafolesca) teoria:-"Com efeito, Vossa Senhoria!...De facto! Quem diria? Esse energúmeno entre nós!...Mas também, como dizia o poeta, isto não é um país: é um sítio mal frequentado!...Que clarividência a vossa, Conde Caguinchas!..."
Estávamos entretidos nisto, quando, por via da cusquisse proverbial de certos bairros de Lisboa, atraída por rumores e boatos excepcionalmente fundados, eis que desemboca na tasca a respectiva do Batnavó, com uma destas fussas de megera assanhada que só visto, salvo seja, porque nós de a vermos até nos arrepiámos todos e preparámo-nos pró pior.Vou-vos poupar ao estardalhaço e despautério matrimonial com que a criatura nos brindou e ao marido arredio em especial. Digo-vos que é peixeira num certo mercado e ficamos por aqui. Mas o pior mesmo foi quando D.Afonso Henriques, sem perceber muito bem todo aquele escabeche, teve a triste ideia de se virar para o Conde Caguinchas e perguntar:
-"Quem é esta plebeia? Que reclama ela?...De que afronta se queixa?...Algum mouro ou castelhano que a violou?!..."
E mais triste ainda foi a resposta que o Caguinchas, feito Conde, teve a infelicidade de lhe dar (nós ainda acenámos, discreta e desesperadamente; mas em vão):
-"É Dona Urraca, vossa esposa, meu senhor!..."
Das duas uma: ou D.Afonso Henriques não reconheceu a esposa; ou tinha contas antigas a saldar. Agora imaginem nove séculos de juros em atraso...»
-in "Dragoscópio", algures nos primórdios.
quarta-feira, fevereiro 02, 2005
Para bom entendedor...
Tratam-vos como gado; andam a engordar-vos... Se eu fosse a vocês, desconfiava.
terça-feira, fevereiro 01, 2005
Lipo-Conspiração?...
Íamos os dois, eu mais o Caguinchas, pela rua acima, com o frio a serrar-nos as orelhas. Seguíamos, como deveis calcular, em peregrinação devota a um bordel, coisa fina, coisa de classe, que um qualquer safardana das relações dele lhe havia apregoado como vaza-testículos do outro-mundo.
-"Ó Dragão, aquilo, disse-me o gajo, nem é mudar o óleo: é subir ao sétimo céu!..." – Bradara-me o Caguinchas, excitado, quase a babar-se, meia hora antes.
Envolto num tal chantilly metafísico, de fenómeno transcendente, lá acedi em acompanhá-lo ao interessante estabelecimento, não sem que antes ele me garantisse e jurasse a pés juntos, por alma da mãe, pelo menos umas vinte vezes, que o tabernáculo estaria apinhado de beldades exóticas, cada qual mais formidável que a anterior. Mas não julguem que me ia entregar ao deboche e ao adultério. Não; desta vez não. Desta vez eu era só mais um peão numa estratégia que seria maquiavélica, se não fosse Caguinchiana.
De facto, o Caguinchas engendrara um plano, um plano caviloso e mirabolante. Não sei que idílios putafágicos o outro lhe pintara, que delícias e volúpias estonteantes lhe descrevera. O que é certo é que ele, incendiado nos apetites, metera na cabeça uma daquelas ideias estapafúrdias que traz sempre engatilhadas e prontas para abater, sem dó nem piedade, qualquer esboço de sensatez. Esta não perdia para nenhuma das precedentes. Resumia-se ao seguinte: desta vez, nada de petiscos; destas vez tinha que ser um banquete. Traduzindo: o Caguinchas, assaltado por megalomania fornicadora, não se contentaria com uma das funcionárias: tinha que as comer a todas. E em simultâneo. Em suma: Cismara de açambarcar as putas.
De caminho, para melhor me convencer a secundá-lo e a assessorá-lo na empresa, ia apresentando razões eloquentes para o seu desvairado projecto de monopólio sexual:
-" Um gajo, ó Dragão, tem que mergulhar num mar de mulheres, pelo menos uma vez na vida. Senão não vai daqui baptizado..."
Para que aquele golfinho de bordel não encalhasse irrecuperavelmente nos baixios da heresia, eu contrabalancei com uma ondulação ligeiramente mais filosófica:
-"E há quem sustente, ó Caguinchas, que quem dominar as putas, dominará o mundo!"
-"Dominasse eu as putas e queria lá saber do mundo!..." –Atalhou ele, entre o alucinado e o visionário, qualquer um deles a transbordar de sinceridade.
Percebi que já nenhuma força humana poderia pará-lo. O destino servia-se dele e ele, insuflado pelo Destino, ardia por se servir das putas.
Lá fomos. Ou melhor, lá íamos, como eu principiei por dizer. Faltará talvez acrescentar, a bem da literatura, que palmilhava ele o empedrado tipicamente luso da calçada vestido de Sheik Árabe (pelo menos, ia convencido disso) e acompanhava-o eu mascarado de intérprete. Na complexa, mas todavia singela, lógica do Caguinchas, essa era, sem dúvida, a forma de melhor açambarcar as putas sem contradição. Em primeiro lugar, porque os árabes funcionam ancestralmente com haréns, ninguém lhes estranha por isso o capricho; e em segundo lugar, razão de ser do primeiro, porque são podres de ricos. A pretexto do harém, explicava ele, convocavam-se e açambarcavam-se as putas; a pretexto da riqueza, enganavam-se os donos ou donas delas. Claro está que o Caguinchas pretendia banquetear-se e sair, como sói dizer-se, à francesa. O seu lema predilecto, de resto, enunciava-o sem subterfúgios: "Foder à portuguesa e sair à francesa" (que traduzido dá: "foder e não pagar"). A minha missão naquele previsível embróglio (que só Deus sabe como iria acabar), era argumentar e negociar tudo isso com as indígenas e alcoviteiras, assim que chegássemos ao local do festim.
Entretanto, enquanto íamos andando, ele, debaixo do lençol branco, ia rosnando qualquer coisa.
-"O quê?!...", perguntei eu, sem entender.
-"Estou a ensaiar o árabe." – explicou-me ele.
-"Mas, que diabo, tu não sabes falar árabe!..." – Admoestei-o.
-"E tu, sabes?..." –Ripostou ele, sibilino.
-"Não..." –Tive que reconhecer.
-"Então como é que sabes que eu não sei? – Atirou-me, em triunfo. E desatou numa algaraviada abstrusa, verdadeiramente compenetrado. Arengava pelos cotovelos e gesticulava com eloquência, para dar mais ênfase ao discurso.
Ultrapassando uma breve perplexidade, decidi contra-atacar.
-"Ouve lá, ó Caguinchas: se eu não sei esse árabe que tu falas como é que traduzo o que tu dizes?"
Interrompeu-se, subitamente, a pensar. Mas não pensou muito, pois em menos de nada já me dizia:
-"Porra, ó Dragão, fazes como eu: inventas!"
"Este gajo deve andar a tomar coisas", pensei para com os meus botões. "Estarei a sonhar?..."
Mas não estava. Caminhava, isso sim, em bom ritmo, pela rua acima, direito a "Nãovosdigoonde". Um autocarro amarelo passou por nós e recolheu dois velhotes mais adiante. O Caguinchas continuava a palrar um árabe imaginário e eu, para não lhe ficar atrás, decidi experimentar o japonês de improviso. Ensaiava até, naquele ronco gutural característico, um "ó filho da puta, ainda falta muito?", e ia ele responder-me, presumo, naquele linguajar ululante, um "aguenta lá os cavais, está quase!", quando, ao cruzar-se com o placard publicitário da paragem do autocarro, onde uma Fernanda Serrano horripilantemente prenha se exibia em promoção a não sei que usurário, o Caguinchas estacou, perfilou-se muito sério, embasbacado e, pior que tudo isso, inexplicavelmente silencioso. Tirou mesmo os óculos escuros e pôs-se a mirar e remirar a futura mãe com a maior das atenções.
Eu, que já o conheço, temi. Temi e preparei-me. Pressenti que não ia brotar dali nada de bom. O ar aterrado com que ele se voltou para mim não tardou a confirmar os meus sombrios presságios. Com um misto de angústia e solércia a devassarem-lhe o olhar, o Caguinchas deixou bem claro que estava em vias de ir proferir qualquer prodígio. Eu segurei-me ao chão o melhor que pude e mentalizei-me para a catástrofe. Não em árabe imaginário, mas em portugês de Alfama, as palavras brotaram-lhe, por fim, geladas, abominatórias:
-"Ó Dragão, esta mulher...esta mulher está deformada! Macacos me mordam se esta mulher não foi alvo duma lipo-conspiração!..."
Fiz o melhor que pude para tentar recuperá-lo de volta à órbita terrestre.
-"É a Fernanda Serrano, pá: Está grávida."
Mas o Caguinchas já ia para lá de Júpiter, a caminho de Saturno. Atropelava satélites e pontapeava sondas. Apontando veementemente o infausto placard publicitário, quase vociferava:
-"Não brinques comigo! Eu ainda sei o que é uma mulher grávida. Uma mulher grávida é uma paisagem tranquila, reconfortante, tem luz nos olhos! Esta desgraçada não tem nada disso. Está deformada, exibe-se num estado grotesco. Foi vítima duma monstruosidade qualquer, caralho, difícil de imaginar!..."
-"Lá estás tu, ó Caguinchas!... –Tentei acalmá-lo. – Não vês que as mulheres engordam quando estão grávidas, desatam a enfardar que nem debulhadoras!?...São coisas do caralho, decerto, mas não é caso para um alarme desses!...Irra!"
-"Não me fodas, pá!... Ribombou, indignado, cada vez mais fora de si e quase a evadir-se da Via Láctea. – Não me atires areia prós olhos! Eu bem que desconfiava que andas a ficar nazi: olhas para uma desumanidade destas e achas normal, normalíssimo, trigo limpo farinha amparo!..."
-"Desumanidade?! – Enfureci-me com o exagero. – Então a rapariga toda contente, numa figura toda ufana, a embolsar uma pipa de massa e tu vens-me com desumanidades?!..."
-"Caralho! Foda-se! –Clamou, iracundo. –Olha-me bem para ela! Vá, assesta-me bem essas miras nesta infeliz: quem quer que a desfigurou a este ponto, a este monte de banhas caóticas, horrendas, não pode ser humano!...Isto só pode ser obra de extra-terrestres, alienígenas tarados, emprenhadores vindos de outra galáxia!...Um raio me parta se esta desgraçada, em vez de bebé, não carrega um "passageiro" dentro dela!..."
Esta teoria Caguinchiana da predação intrauterina e intergaláctica não era nova. Pacientemente, ele passava a vida numa espécie de recolhimento laboratorial, a aperfeiçoá-la, a reunir provas, a pesquisar notícias. Para ver se saíamos daquele impasse e ele se calava de vez, lá me dei ao trabalho de contemplar o putativo aleijão com todas as minúcias que me eram requeridas. Antes não o tivesse feito.
Olhando bem para a rapariga, absolutamente irreconhecível de facto, uma certa repulsa começou a entranhar-se-me no espírito. A beldade de outrora, com que a memória paliava a realidade actual, cedia lugar a um doloroso estafermo. Para meu grande espanto, a teoria do Caguinchas já nem me parecia tão absurda quanto isso. Lembrei-me então do anormal - do trondão alvar - com quem a moça casara. Resignado, tive que admitir:
-"Pronto, pá. O país e o planeta, realmente, estão cada vez mais infestado de extra-terrestres. És capaz de ter razão. Talvez tenha sido mais um caso daquilo a que os especialistas chamam "alien-abduction e tu classificas como "lipo-conspiração"!...Satisfeito?"
Só que uma imensa tristeza instalara-se no Caguinchas. Uma tristeza que nem o triunfo científico sem precedentes amenizava.
-"Isto dá-me arrepios." – Murmurou, soturno.
-" Pois, mas adiante! – Tentei animá-lo. – Deixa lá isso; as putas estão à nossa espera!..."
Mas debalde. O Caguinchas ficara mesmo impressionado com o desastre. Com um luto magoado na voz, pouco mais conseguiu que gemer:
-"Eh pá, Dragão... vamos deixar as putas pra outro dia. Isto até me tirou a tesão!..."
Só espero que não venha a sofrer de stress pós-traumático.
domingo, janeiro 30, 2005
Brincar às Casinhas
A juntar às eleições no Iraque, ao Tsunami nas Maldivas e ao Holocausto da Segunda Guerra Mundial, outro dos grandes problemas nacionais, dos mais prementes e prioritários na agenda política, é a adopção de crianças por casais homossexuais.
Começo por dizer que não entendo, não é compreensível sequer, que os homossexuais sendo tão avançados, tão liberabundos, afrontando tão visceralmente a sociedade num dos seus núcleos fulcrais (a própria família biológica –e que eu saiba, não há outra), se tenham depois contentado com aquela farsazinha burguesa do casal. O maridinho e a esposa, a esposa e o maridinho, quiçá por turnos, numa monogamia tão rançosa quanto a dos piores burgueses de Stendhal. Para cúmulo, como se essa paródia grotesca já não bastasse, agora reclamam o resto dos acessórios, a filharada em comitiva, de lacinho e chapéu, para irem todos -muito dignos e apessoados - à missa, ao domingo. Antes disso, e depois também, é mais que certo que tratarão de mover o céu e a terra de modo a obrigar os padres a casá-los, a baptizar-lhes os fedelhos adoptivos, a dar-lhes catequese, e a ouvi-los –a todos, aos cabrões dos putos e aos estafermos dos pais – em confissão semanal. Menos que isso, ó da guarda, que é discriminação. Uma miséria, enfim! Mandá-los a todos para o caralho seria redundante.
Mas, isto do "casal" intriga-me. De facto, porquê casal homossexual? Porque não trio, quarteto, quinteto, caterva, centúria ou, como até bem mais emblemático seria, comboio? Porque carga de água se lembraram de arremedar a famelga tradicional, estúpida, obsoleta, e não o grupo de jazz, a tuna académica ou o expresso transcontinental? Porquê uma monogamia a todos os títulos gasta, nas vascas, e não uma poligamia, ou poliandria, ou policongresso itinerante?
Como quereis que vos levem a sério, ó bichonas, com essas parelhazinhas de imitação, de pechisbeque, de pacotilha? Casal por casal, o juiz, que não é parvo nenhum, entrega o desgraçado do órfão aos burgueses tradicionais, caga-se nos peregrinos. E acho muito bem. Mal por mal, antes aquele que já se conhece e contra o qual já existe legislação.
Agora imaginem: “Quarteto homossexual”, “comboio homossexual”...É catita, não? O meirinho anunciava: “meritíssimo, está lá fora um “comboio homossexual” que pede para adoptar uma criança, de preferência menino!” Aqui, o juiz, no mínimo, impressionado pelo número, hesitava, suspendia na balança e era forçado a admitir que vinte, ou duzentos (fora os contactos, as liaisons), sempre pesam mais que dois. Mesmo um quarteto ou quinteto, um trio que fosse, já acrescentavam qualquer coisa. Já o levavam a pensar duas vezes. Já o punham a fazer contas de cabeça, a extrair raízes quadradas, co-senos e algoritmos. Nestes nossos dias, a contabilidade é preciosa, vale muito, avassala as mentes. É preponderante. Agora assim, vão duas avantesmas amaneiradas, a cavalo num livro de cheques, de braço dado, e o que é que o meirinho murmura ao juiz? “meritíssimo, estão ali fora duas bichonas, armadas em barbies chocas, a pedirem criancinhas para irem brincar às casinhas!”
Em resumo: um casal homossexual, gay, ou o que lhe queiram chamar, não é digno de adoptar crianças porque é uma anedota de mau gosto, uma bimbalhice abaixo de cão, mais digna até de dó e cuidado clínico que propriamente de apedrejamento ou invectiva.
E se a inteligência e o conhecimento são limitados, a estupidez também deveria sê-lo. Urgentemente. Até por uma questão de higiene e saneamento básico. Quando não, é a própria sanidade mental das sociedades que entra em colapso. Porque em degradação consumptiva anda ela há muito tempo.
Começo por dizer que não entendo, não é compreensível sequer, que os homossexuais sendo tão avançados, tão liberabundos, afrontando tão visceralmente a sociedade num dos seus núcleos fulcrais (a própria família biológica –e que eu saiba, não há outra), se tenham depois contentado com aquela farsazinha burguesa do casal. O maridinho e a esposa, a esposa e o maridinho, quiçá por turnos, numa monogamia tão rançosa quanto a dos piores burgueses de Stendhal. Para cúmulo, como se essa paródia grotesca já não bastasse, agora reclamam o resto dos acessórios, a filharada em comitiva, de lacinho e chapéu, para irem todos -muito dignos e apessoados - à missa, ao domingo. Antes disso, e depois também, é mais que certo que tratarão de mover o céu e a terra de modo a obrigar os padres a casá-los, a baptizar-lhes os fedelhos adoptivos, a dar-lhes catequese, e a ouvi-los –a todos, aos cabrões dos putos e aos estafermos dos pais – em confissão semanal. Menos que isso, ó da guarda, que é discriminação. Uma miséria, enfim! Mandá-los a todos para o caralho seria redundante.
Mas, isto do "casal" intriga-me. De facto, porquê casal homossexual? Porque não trio, quarteto, quinteto, caterva, centúria ou, como até bem mais emblemático seria, comboio? Porque carga de água se lembraram de arremedar a famelga tradicional, estúpida, obsoleta, e não o grupo de jazz, a tuna académica ou o expresso transcontinental? Porquê uma monogamia a todos os títulos gasta, nas vascas, e não uma poligamia, ou poliandria, ou policongresso itinerante?
Como quereis que vos levem a sério, ó bichonas, com essas parelhazinhas de imitação, de pechisbeque, de pacotilha? Casal por casal, o juiz, que não é parvo nenhum, entrega o desgraçado do órfão aos burgueses tradicionais, caga-se nos peregrinos. E acho muito bem. Mal por mal, antes aquele que já se conhece e contra o qual já existe legislação.
Agora imaginem: “Quarteto homossexual”, “comboio homossexual”...É catita, não? O meirinho anunciava: “meritíssimo, está lá fora um “comboio homossexual” que pede para adoptar uma criança, de preferência menino!” Aqui, o juiz, no mínimo, impressionado pelo número, hesitava, suspendia na balança e era forçado a admitir que vinte, ou duzentos (fora os contactos, as liaisons), sempre pesam mais que dois. Mesmo um quarteto ou quinteto, um trio que fosse, já acrescentavam qualquer coisa. Já o levavam a pensar duas vezes. Já o punham a fazer contas de cabeça, a extrair raízes quadradas, co-senos e algoritmos. Nestes nossos dias, a contabilidade é preciosa, vale muito, avassala as mentes. É preponderante. Agora assim, vão duas avantesmas amaneiradas, a cavalo num livro de cheques, de braço dado, e o que é que o meirinho murmura ao juiz? “meritíssimo, estão ali fora duas bichonas, armadas em barbies chocas, a pedirem criancinhas para irem brincar às casinhas!”
Em resumo: um casal homossexual, gay, ou o que lhe queiram chamar, não é digno de adoptar crianças porque é uma anedota de mau gosto, uma bimbalhice abaixo de cão, mais digna até de dó e cuidado clínico que propriamente de apedrejamento ou invectiva.
E se a inteligência e o conhecimento são limitados, a estupidez também deveria sê-lo. Urgentemente. Até por uma questão de higiene e saneamento básico. Quando não, é a própria sanidade mental das sociedades que entra em colapso. Porque em degradação consumptiva anda ela há muito tempo.
sábado, janeiro 29, 2005
A Idade do Ouro
Num tempo primordial, idade do ouro deste blog, escrevia-se português em condições. Naturalmente, não havia público. Mas eu divertia-me mais. Estou a pensar em recuperar uma certa alegria perdida. Entretanto, em homenagem ao nosso primeiro Rei, que agora até tem um blogue, aqui deixo um texto, no meu modesto entender, este sim, de antologia.
E tu, ó Batnavó, vê lá se voltas pra casa! A tua mulher anda desesperada.
O GANDULO, 1ªReunião, 2ªFase
"Como prometi, vou agora expor o que foi hermeticamente tratado na primeira reunião do GANDULO, Fase 2, ou seja, enquanto o Caguinchas andou estupidamente à minha procura pelos lugares mal frequentados de Lisboa. Pró leitor retardatário, que só agora chegou ao Blog, esclareço que GANDULO significa Gabinete de Alarme, Neutralização e Denúncia das Urdiduras do Lobby Ogre.
E tu, ó Batnavó, vê lá se voltas pra casa! A tua mulher anda desesperada.
O GANDULO, 1ªReunião, 2ªFase
"Como prometi, vou agora expor o que foi hermeticamente tratado na primeira reunião do GANDULO, Fase 2, ou seja, enquanto o Caguinchas andou estupidamente à minha procura pelos lugares mal frequentados de Lisboa. Pró leitor retardatário, que só agora chegou ao Blog, esclareço que GANDULO significa Gabinete de Alarme, Neutralização e Denúncia das Urdiduras do Lobby Ogre.
Pois, basicamente, procedeu-se à compilação e classificação dos resultados da pesquisa, ou sejam, as notícias. Avaliou-se da sua credibilidade e também do teor alcoólico das fontes. Concluiu-se que estas, invariavelmente, golfavam uma zurrapa intragável, a não ser para o Caguinchas que é capaz de vampirizar ácido de baterias. Em suma: cada jornalista, cada marteleiro!...
Não obstante, dados os super-poderes de que estamos impregnados, isso não nos demoveu, nem, minimamente, desmoralizou. Por sugestão do Dinossauro, que tirou um curso de espírita por correspondência, emborcámos cada qual seu trotil, démos as mãos e convocaram-se as almas do Álém, na espectativa de que alguma bufasse o que realmente se passava. Felizmente, o Caguinchas não estava presente, senão desatava aos gritos, escandalizado, que aquilo eram métodos policiais. Mas avancemos.
Ao fim de pouco tempo, encarnou no Batnavó uma velhota meia taralhouca, que o Armindo taberneiro, escutando, se ajoelhou e persignou logo todo, clamando: "Mãezinha!". Apertámos com a velhota, um interrogatório à maneira, o Bisnau a assestar-lhe até com uma lanterna na fronha, mas a velhota não cantou nada.
"Fala, espírito!", ordenava-lhe, imperioso, o Dinossauro, autêntico Napoleão dos exorcismos; mas a velhota só choramingava e pedia o xaile, que se tinham esquecido de lho vestir durante o enterro. Também, se a ordem era pra falar, não percebo como é que ele queria que ela cantasse (às vezes, acho que também já não bate com eles todos certos...) Enfim, o Armindo lá prometeu ir levar o bendito xaile à sepultura e a defunta lá se foi embora.
Encorporou depois o Elvis a dizer que não estava morto, mas como ninguém ali percebia inglês, olhamos uns prós outros e encolhemos os ombros. O Elvis, por acaso cantou -o "It's now or never"-, mas era melhor que não tivesse cantado, porque desafinou pa caraças e não nos disse nada que já não soubéssemos. A seguir, encarnou o Sá carneiro, dizia ele, porque nós não acreditámos; também dizia que o tinham assassinado com uma bomba, mas a malta comentou: "sim, sim; pois, pois". No fundo, só pedia que lhe encontrassem o relógio, que tinha ficado perdido em Camarate.
Entretanto, na tasca, aliás Ciber-tasca, tinha-se gerado um certo tumulto, e o espaço, de pinta tradicionalmente fadista, abeirava-se agora perigosamente dum novo Woodstock. O que é que se passava?...
A puta da clientela ao ouvir o Elvis, deu-lhe prá nostalgia. Reparem que eu disse "a puta da", não disse "uma puta na", o que significa, portanto, toda a clientela e não apenas uma cliente. Antes fosse... Pois desataram a fervilhar de excitação, a armarem batefundo, a atraírem malta da rua e do bairro (que mal lhe cheira a novidade, são piores que tubarões atrás de sereia menstruada) e, catrapimba, num de repente, está o estabelecimento à pinha, com um arraial lá fora tipo Santo António.
"Toca outra vez o Elvis!", gritavam uns; "A Edith Piaf!", preferiam elas; "O FranK!...", implorava um maduro. Em suma: transformaram a nossa sessão espírita num sessão de "discos pedidos" e o pobre do Batnavó, médium de serviço, numa espécie nova e revolucionária de Jukebox! E o pior não foi isso; o pior foi o filho da puta do Batnavó que, não sei lá porque carga de água, (e friso bem. "água!") desatou a trinar feito a malograda e nacional-idolatrada Dona Amália!
"Povo que lavas no rio...", chilreava ele. E aquele povo todo, qual rio qual carapuça, lavado mas era em lágrimas que parecia um novo dilúvio do fim do mundo.
E digo-vos mais: se a seguir não tem aparecido o D. Afonso Henriques -que transportou o Batnavó, transfigurado, atrás do balcão do Armindo, à procura dum cutelo com que esquartejar aquela gente toda, enquanto gritava: "filhos da puta! espermatozóides de merda! macacos vendidos e capados!! delapidadores!!..." -, não sei, não sei mesmo, como é que aquele malfadado festival da canção iria acabar. Felizmente, lá desarvoraram porta fora, numa gritaria, com o Batnavó (pilotado pelo Afonso Henriques), de cutelo, atrás deles, e nós pudemos continuar com a reunião do GANDULO em paz. Aliás, teríamos continuado. Porque foi nessa precisa altura que reentrou o Caguinchas.
Acabava eu de dizer, um tanto preocupado, pró Dinossauro:
-"Ouve lá, e se aquilo não lhe passa?..."
-"A quem? Ao Batnavó, ou ao Afonso henriques?..." -Retorquiu ele, com a fleuma e sabedoria próprias de quem já viveu muitos anos e não vive já subjugado à tirania dos testículos."
- in "Dragoscópio", Janeiro de 2004
- in "Dragoscópio", Janeiro de 2004
sexta-feira, janeiro 28, 2005
Interlúdio Cultural
Cumpramos uma breve pausa nas hostilidades. Estou a reunir novas pólvoras para vos elevar, ainda e sempre. Entretanto, deixo-vos com um fascinante pedaço de prosa alheia...
«Essa ideia barroca perpassa por trás de Biathanatos. A de um deus que fabrica o universo para construir o seu próprio patíbulo.
Ao reler esta nota, penso naquele trágico Philipp Batz, que se chama na história da filosofia Philipp Mainländer. Foi, como eu, apaixonado leitor de Schopenhauer. Sob a sua influencia (e, talvez, sob a dos gnósticos), imaginou que somos fragmentos de um Deus que a si mesmo se destruíu, no início dos tempos, ávido de não ser. A história universal é a obscura agonia desses fragmentos. Mainländer nasceu em 1841. Em 1876, publicou o seu livro, Filosofia da redenção. Nesse mesmo ano suicidou-se.»
-Jorge Luis Borges, “Novas Inquirições”
«Essa ideia barroca perpassa por trás de Biathanatos. A de um deus que fabrica o universo para construir o seu próprio patíbulo.
Ao reler esta nota, penso naquele trágico Philipp Batz, que se chama na história da filosofia Philipp Mainländer. Foi, como eu, apaixonado leitor de Schopenhauer. Sob a sua influencia (e, talvez, sob a dos gnósticos), imaginou que somos fragmentos de um Deus que a si mesmo se destruíu, no início dos tempos, ávido de não ser. A história universal é a obscura agonia desses fragmentos. Mainländer nasceu em 1841. Em 1876, publicou o seu livro, Filosofia da redenção. Nesse mesmo ano suicidou-se.»
-Jorge Luis Borges, “Novas Inquirições”
quinta-feira, janeiro 27, 2005
Quero que o Internacionalismo se Foda!...
Entendamo-nos. Eu não tenho nada contra a democracia liberal. Em Inglaterra.
Eu não tenho nada contra o Comunismo. Em Cuba.
Eu não tenho nada contra a Social Democracia. Na Escandinávia.
Eu não tenho nada contra o Neo-Liberalismo ou mesmo o Neo-Conismo. Nos Estados Unidos.
Eu não tenho nada contra a cleptocracia. Em Angola.
Eu não tenho nada contra a Teocracia. No Irão.
Em não tenho nada contra a Tecnocracia. No Japão.
Aliás, nem contra, nem a favor.
Que fabriquem, que produzam, que se esfalfem, que exportem, que roubem, que massacrem, que procriem, que se comam uns aos outros ou às outras, pouco me interessa! Que o Diabo os leve ou Deus os transporte, quero lá saber!.
Eu respeito os outros, respeito toda a gente. Eles é que vivem lá, eles que se entendam. Se descobriram naquela a maneira assaz peculiar de se organizarem (ou desorganizarem, tanto faz), pois que sejam felizes, ou infelizes, mas, em todo o caso, que lhes faça bom proveito. Não me custa crer que é assim que se sentem bem. Longe de mim querer impor-lhes os meus modelos ou conceitos. As minhas taras ou fantasias. Não tenho especial fascínio por turismo, muito menos ideológico.
O que não suporto é que eles, quaisquer que eles sejam - ou enviados, eunucos, lacaios, procuradores, clones e delegados deles – me queiram vir impingir a mim o que só lhes diz respeito a eles. Me queiram afogar na felicidade ou infelicidade deles. Me queiram converter às manias ou fobias deles. Me queiram, enfim, encurralar nos currais ou manjedouras deles. Porque não se mudam eles – esses heldéres ao domicílio – para lá, já que aquilo tanto os fascina e obceca? Porque não se transplantam eles para esses paraísos terreais, em vez de quererem, à viva força, de martelo ou compressor, com laivos de paranóia e fervor de birra, importar esses territórios inteiros para cá? Acham que num espaço tão pequeno, tão exíguo, cabem essas traquitanas, essas feéricas babilónias todas?
Eu sou português, caralho! Nasci e hei-de morrer nesse estado, que poderá ser deplorável a muitos títulos, a mil e mais um, mas é o meu. Se Deus me mandou ser português, se ordenou ao destino que aqui me plantasse, que não venha cabrão nenhum apregoar-me o contrário. E tudo o que não seja isso, essa raiz que mergulha aos abismos e essa fronte que se levanta aos céus, é o contrário, é a negação, é o aniquilamento disso.
Mas isto sou eu. Cago-me em ecos e séquitos, passo bem sem companhias.
Os outros, esses que se arrepelam e amarguram com a pequenez e a pobreza do seu próprio pais (o que apenas reflecte a pobreza e a pequenez da ideia que fazem dele e de tudo), esses todos, se querem ser americanos, porque não vão ser americanos?
Se querem ser ingleses, porque não vão ser ingleses?
Se querem ser espanhóis, porque não vão ser espanhóis?
Se querem ser escandinavos, porque não vão ser escandinavos?
Se querem ser chineses, russos, suíços, austríacos, alemães, albaneses, esquimós, marcianos, porque não vão sê-lo duma vez por todas e desatravancam a passagem?!
Por gentileza, não me dou ao requinte de mandá-los de volta para a c*** -digo, vagina- da santíssima mãe deles. Mas, francamente, fico sem perceber porque raio se deram ao trabalho de sair de lá.
Eu não tenho nada contra o Comunismo. Em Cuba.
Eu não tenho nada contra a Social Democracia. Na Escandinávia.
Eu não tenho nada contra o Neo-Liberalismo ou mesmo o Neo-Conismo. Nos Estados Unidos.
Eu não tenho nada contra a cleptocracia. Em Angola.
Eu não tenho nada contra a Teocracia. No Irão.
Em não tenho nada contra a Tecnocracia. No Japão.
Aliás, nem contra, nem a favor.
Que fabriquem, que produzam, que se esfalfem, que exportem, que roubem, que massacrem, que procriem, que se comam uns aos outros ou às outras, pouco me interessa! Que o Diabo os leve ou Deus os transporte, quero lá saber!.
Eu respeito os outros, respeito toda a gente. Eles é que vivem lá, eles que se entendam. Se descobriram naquela a maneira assaz peculiar de se organizarem (ou desorganizarem, tanto faz), pois que sejam felizes, ou infelizes, mas, em todo o caso, que lhes faça bom proveito. Não me custa crer que é assim que se sentem bem. Longe de mim querer impor-lhes os meus modelos ou conceitos. As minhas taras ou fantasias. Não tenho especial fascínio por turismo, muito menos ideológico.
O que não suporto é que eles, quaisquer que eles sejam - ou enviados, eunucos, lacaios, procuradores, clones e delegados deles – me queiram vir impingir a mim o que só lhes diz respeito a eles. Me queiram afogar na felicidade ou infelicidade deles. Me queiram converter às manias ou fobias deles. Me queiram, enfim, encurralar nos currais ou manjedouras deles. Porque não se mudam eles – esses heldéres ao domicílio – para lá, já que aquilo tanto os fascina e obceca? Porque não se transplantam eles para esses paraísos terreais, em vez de quererem, à viva força, de martelo ou compressor, com laivos de paranóia e fervor de birra, importar esses territórios inteiros para cá? Acham que num espaço tão pequeno, tão exíguo, cabem essas traquitanas, essas feéricas babilónias todas?
Eu sou português, caralho! Nasci e hei-de morrer nesse estado, que poderá ser deplorável a muitos títulos, a mil e mais um, mas é o meu. Se Deus me mandou ser português, se ordenou ao destino que aqui me plantasse, que não venha cabrão nenhum apregoar-me o contrário. E tudo o que não seja isso, essa raiz que mergulha aos abismos e essa fronte que se levanta aos céus, é o contrário, é a negação, é o aniquilamento disso.
Mas isto sou eu. Cago-me em ecos e séquitos, passo bem sem companhias.
Os outros, esses que se arrepelam e amarguram com a pequenez e a pobreza do seu próprio pais (o que apenas reflecte a pobreza e a pequenez da ideia que fazem dele e de tudo), esses todos, se querem ser americanos, porque não vão ser americanos?
Se querem ser ingleses, porque não vão ser ingleses?
Se querem ser espanhóis, porque não vão ser espanhóis?
Se querem ser escandinavos, porque não vão ser escandinavos?
Se querem ser chineses, russos, suíços, austríacos, alemães, albaneses, esquimós, marcianos, porque não vão sê-lo duma vez por todas e desatravancam a passagem?!
Por gentileza, não me dou ao requinte de mandá-los de volta para a c*** -digo, vagina- da santíssima mãe deles. Mas, francamente, fico sem perceber porque raio se deram ao trabalho de sair de lá.
terça-feira, janeiro 25, 2005
A Transpolítica
Alguns amigos meus, gente anacrónica e afeiçoada a valores completamente fora de moda, assaltam-me ciclicamente, em tons indignados, escandalizados até, com a seguinte questão:
-“Mas, ó Dragão, tu não achas que estes políticos são uma caterva de traidores à Pátria?”
Eu, velho pirata empedernido, infame predador dos altos mares, que já assisti (e ajudei, enfim) a mais óbitos que partos, olho-os com alguma piedade, sincera comiseração, e largo pelo cerro dos dentes:
“Mas como raio quereis vós, almas de Deus, que eles sejam fiéis a uma coisa de que não fazem a mínima noção?!...nem Pátria, nem Povo, nem Humanidade, tão pouco! Sabem lá eles o que isso é. Não sabem, não querem saber e, naturalmente, têm espumante raiva de quem sabe. Porque se passar por traidores não os aflige nem uma milésima cagagésima parte dum pintelho anão, já passar por ignorantes chateia-os um bocado. Afinal, são licenciados, que diabo. E um licenciado, nesta pátria que eles fazem por desconhecer, sabe tudo. Brota da gestação universitária em triunfo, em apoteose; quer dizer: jubiloso, omnisciente, e de canudo em riste!”
Encaram-me então um tanto ou quanto perplexos, os meus interlocutores, mas não se dão por vencidos e voltam à carga, já mais em desespero, que, propriamente, em convicção:
-“Mas é demais, chiça! É que não têm um pingo de vergonha na cara!...”
-“E vós a dar-lhe!... – rebrindo-os, eu. – Pois se não têm cara como queríeis vós que eles a salpicassem com vergonha ou o que quer que fosse? Se vós a tendes e cultivais esse obsoleto hábito de a borrifar com um certo pudor, eles, não a tendo, borrifam-se outrossim para isso tudo!...O breve simulacro de ventas com que desfilam, num perpétuo carnaval, serve para suporte da maquilhagem, do disfarce ou da peruca. E poupem-me de antemão às lamúrias da falta de verticalidade, de dignidade, de hombridade!...A primeira operação a que se entregam, esses tais políticos, mal - ainda adolescentes - lhes aflora a vocação, é a extracção da coluna (eles chamam-lhe o “osso do siso”); depois depilam-se de todos e quaisquer escrúpulos; finalmente, almofadam-se com um silicone de velhacaria multi-usos, lubrificam o esfíncter, dissolvem os testículos, anabolizam a língua, desatravancam a bocarra de qualquer pejo ou verdade, e pronto: ai tendes os vossos políticos!...Agora, desamparem-me a loja, secai as lágrimas, e ide lá votar, que eu tenho mais que fazer!...”
-“Mas, ó Dragão, tu não achas que estes políticos são uma caterva de traidores à Pátria?”
Eu, velho pirata empedernido, infame predador dos altos mares, que já assisti (e ajudei, enfim) a mais óbitos que partos, olho-os com alguma piedade, sincera comiseração, e largo pelo cerro dos dentes:
“Mas como raio quereis vós, almas de Deus, que eles sejam fiéis a uma coisa de que não fazem a mínima noção?!...nem Pátria, nem Povo, nem Humanidade, tão pouco! Sabem lá eles o que isso é. Não sabem, não querem saber e, naturalmente, têm espumante raiva de quem sabe. Porque se passar por traidores não os aflige nem uma milésima cagagésima parte dum pintelho anão, já passar por ignorantes chateia-os um bocado. Afinal, são licenciados, que diabo. E um licenciado, nesta pátria que eles fazem por desconhecer, sabe tudo. Brota da gestação universitária em triunfo, em apoteose; quer dizer: jubiloso, omnisciente, e de canudo em riste!”
Encaram-me então um tanto ou quanto perplexos, os meus interlocutores, mas não se dão por vencidos e voltam à carga, já mais em desespero, que, propriamente, em convicção:
-“Mas é demais, chiça! É que não têm um pingo de vergonha na cara!...”
-“E vós a dar-lhe!... – rebrindo-os, eu. – Pois se não têm cara como queríeis vós que eles a salpicassem com vergonha ou o que quer que fosse? Se vós a tendes e cultivais esse obsoleto hábito de a borrifar com um certo pudor, eles, não a tendo, borrifam-se outrossim para isso tudo!...O breve simulacro de ventas com que desfilam, num perpétuo carnaval, serve para suporte da maquilhagem, do disfarce ou da peruca. E poupem-me de antemão às lamúrias da falta de verticalidade, de dignidade, de hombridade!...A primeira operação a que se entregam, esses tais políticos, mal - ainda adolescentes - lhes aflora a vocação, é a extracção da coluna (eles chamam-lhe o “osso do siso”); depois depilam-se de todos e quaisquer escrúpulos; finalmente, almofadam-se com um silicone de velhacaria multi-usos, lubrificam o esfíncter, dissolvem os testículos, anabolizam a língua, desatravancam a bocarra de qualquer pejo ou verdade, e pronto: ai tendes os vossos políticos!...Agora, desamparem-me a loja, secai as lágrimas, e ide lá votar, que eu tenho mais que fazer!...”
domingo, janeiro 23, 2005
Os Abortos
Mais uma vez, o tema era o aborto, esse pomo imarcescível.
Dizem-me –que eu não vi, que o Anacleto Louçã, chefe de fila da Associação de Amizade Portugal-Lacoste, em debate televisivo com outra luminária da politicosfera lusa, o inefável e untuoso filho mais novo de Helena Sacadura Cabral, essa emérita cozinheira e guardadora de tachos, terá usado do seguinte argumento, digo “cacete”, na terminologa Shelltoxiana:
-“Vossa Excelência não pode discutir o aborto porque não é pai, jamais contribuiu para o progresso demográfico da Nação!”
Convenhamos, é uma traulitada valente. No fundo, Anacleto queria insinuar que ficava mal aos paladinos da contra-aborção serem capitaneados por um paneleiro, ou rapaz gay, se preferirem. E convenhamos: fica. Uma direita que se deixa caudilhar por um larilas é um “cóio de vendidos e indigentes, é uma canoa em seco e só pode parir abaixo de zero”, como dizia o poeta, futurista e tudo. Mais anedótico - grotesco até - que isso, só mesmo um pedófilo a bradar contra o cancelamento de criancinhas, ou um canibal a indignar-se contra a interrupção no fornecimento de bebés.
Mas a traulitada, ou argumento se preferirem, que Anacleto, deste modo desabrido, assestou nos costados - mais habituados a outras carícias e aconchegos - do outro, sendo aceitável em género, peca, todavia, por um tanto ou quanto precipitado em espécie.
Não sei o que o filho da senhora doutora cozinheira respondeu, nem me interessa. Mas era fácil desmontar a falácia. Bastava responder:
-“Então Vossa Excelência acha que eu não me posso debruçar sobre o assunto, do aborto quer-se dizer, só porque não sou pai de nenhum, ou nenhuma?...”
É fácil de imaginar a confusão que não se instalaria de pronto na complexa canalização mental de Louçã. Entre o rewind o fast-forward, a neocassete patinaria, numa chiadeira fumegante. Hiato providencial que o produto da cozinheira com o arquitecto, aproveitaria para culminar, com aquela vozinha apinocada que se lhe reconhece:
-“Pois fique, VªExcª sabendo, que não sendo eu pai de nenhum ou nenhuma, sou, todavia, filho dilecto de dois, irmão de outros dois e poupo-lhe a enunciação fastidiosa de primos e correligionários. Ou julgava, Vª Excª, que esse apanágio era exclusivo seu, hein?! “
De facto, isto do aborto tem muito que se lhe diga. E é deveras mutilador perspectivar a coisa apenas a jusante. É sim. Há que enxergar também o fenómeno a montante. E aí o senhor Ministro pode falar de cátedra.
O grande público, cuja falta de memória é maiúscula (como dizia o outro), esquece muitas vezes que para se fazer um aborto, como qualquer outro nado-coiso, são de antemão necessários outros dois. Salvaguardando, claro está, aqueles episódios excepcionais em que a mãezinha, coitada, não tem culpa. O que, convenhamos, não é decididamente o caso.
Dizem-me –que eu não vi, que o Anacleto Louçã, chefe de fila da Associação de Amizade Portugal-Lacoste, em debate televisivo com outra luminária da politicosfera lusa, o inefável e untuoso filho mais novo de Helena Sacadura Cabral, essa emérita cozinheira e guardadora de tachos, terá usado do seguinte argumento, digo “cacete”, na terminologa Shelltoxiana:
-“Vossa Excelência não pode discutir o aborto porque não é pai, jamais contribuiu para o progresso demográfico da Nação!”
Convenhamos, é uma traulitada valente. No fundo, Anacleto queria insinuar que ficava mal aos paladinos da contra-aborção serem capitaneados por um paneleiro, ou rapaz gay, se preferirem. E convenhamos: fica. Uma direita que se deixa caudilhar por um larilas é um “cóio de vendidos e indigentes, é uma canoa em seco e só pode parir abaixo de zero”, como dizia o poeta, futurista e tudo. Mais anedótico - grotesco até - que isso, só mesmo um pedófilo a bradar contra o cancelamento de criancinhas, ou um canibal a indignar-se contra a interrupção no fornecimento de bebés.
Mas a traulitada, ou argumento se preferirem, que Anacleto, deste modo desabrido, assestou nos costados - mais habituados a outras carícias e aconchegos - do outro, sendo aceitável em género, peca, todavia, por um tanto ou quanto precipitado em espécie.
Não sei o que o filho da senhora doutora cozinheira respondeu, nem me interessa. Mas era fácil desmontar a falácia. Bastava responder:
-“Então Vossa Excelência acha que eu não me posso debruçar sobre o assunto, do aborto quer-se dizer, só porque não sou pai de nenhum, ou nenhuma?...”
É fácil de imaginar a confusão que não se instalaria de pronto na complexa canalização mental de Louçã. Entre o rewind o fast-forward, a neocassete patinaria, numa chiadeira fumegante. Hiato providencial que o produto da cozinheira com o arquitecto, aproveitaria para culminar, com aquela vozinha apinocada que se lhe reconhece:
-“Pois fique, VªExcª sabendo, que não sendo eu pai de nenhum ou nenhuma, sou, todavia, filho dilecto de dois, irmão de outros dois e poupo-lhe a enunciação fastidiosa de primos e correligionários. Ou julgava, Vª Excª, que esse apanágio era exclusivo seu, hein?! “
De facto, isto do aborto tem muito que se lhe diga. E é deveras mutilador perspectivar a coisa apenas a jusante. É sim. Há que enxergar também o fenómeno a montante. E aí o senhor Ministro pode falar de cátedra.
O grande público, cuja falta de memória é maiúscula (como dizia o outro), esquece muitas vezes que para se fazer um aborto, como qualquer outro nado-coiso, são de antemão necessários outros dois. Salvaguardando, claro está, aqueles episódios excepcionais em que a mãezinha, coitada, não tem culpa. O que, convenhamos, não é decididamente o caso.
sexta-feira, janeiro 21, 2005
A Grandessísima Loja
Encomendaram-me a análise. E como me apanharam num dia bem disposto, aí vai...
Eu –ignaro que sou – não sabia que existia maçonaria feminina. Julguei que nas lojas maçónicas normais, modelos de virtudes cívicas certamente, não praticavam o “apartheid” sexual. Que a descriminação genital não tinha lugar por aquelas bandas. Que eventualmente até cirandassem por lá encapuçados, numa espécie de Klu-Klux-Klan filantrópica, que era para dar estilo. Mas, pelos vistos, enganei-me. Engano-me sempre. Herdei a tara dum antepassado meu que cismava de dar porrada em moinhos.
Todavia, só uma mente cândida como a minha, descendente de tal ancestral, poderia conceber que não haveria necessidade de lojas maçónicas femininas. Mais: Grandes Lojas. A própria terminologia, está bem de ver, congrega um atractivo irresistível às damas: “loja”. Só isso já provoca tumultos, histerismo, pisadelas, correrias. Basta pensarmos em montras, modas, nova estação e –top of the pops!- saldos!!! A limite, uma espécie de Grandes Armazéns do Chiado do esoterismo. Ou o Grandela, que Deus tenha em eterno descanso!....
Estou mesmo em crer que, no que depender delas, não tardará muito a inaugurar-se o primeiro “shopping maçónico”.
Entretanto, do que por lá fazem, na mariológica loja, digo Grande Loja, apesar do mistério inerente a estes recintos, não será difícil adivinhar. A Grande Loja Maçónica feminina deve ter cabeleireiro, manicure, peeling, lipo-aspiração, ginásio, boutique, perfumaria, maquilhagem e todos esses tabernáculos essenciais a livre-pensadoras. As irmãs devem entreter-se em colóquios profundos a discutir a pele umas das outras, as unhas, o colesterol, a barriguinha, as úlimas da "Hola" ou da "Lux" e as lojas não maçónicas que urge peregrinar. Isto e uns cházinhos, umas canastas e uns bolinhos integrais pelo meio. Outrora fariam também croché, ou lavores (ou atirar-se-iam de paraquedas em frenesins enfermeiros), mas como agora se querem progressistas, falarão de sexo e orgasmos múltiplos ou tapetes de Arraiolos. A cavalo nisso tudo, farão o que os irmãos maçónicos também fazem: cuidarão de empregos, carreiras e sinecuras, para si, outra vez para si (que o multiemprego, para gente progressista, é um must), ainda para si, e, finalmente, para os entes queridos, esses querubins, e toda a família sagrada até à quarta geração.
Como a Abelha-Mestra da colmeia, uma bruxa chamada Maria Belo, tem consultório aberto e alvará de arúspice, digo psicanalista, aproveita o ajuntamento para ler umas sinas, lançar uns búzios e esquadrinhar horóscopos. Ocasionalmente, em datas festivas esotéricas, matam à facada um galo preto (ou branco, depende da lua), abrem-lhe as entanhas e espreitam lá para dentro... as analfabetas, claro está, com reverência e assombro; a maga, que é a única alfabetizada em tais vísceras, lendo as miudezas, decifrando o macabro puzzle, em suma: exercendo os poderes exegéticos que se lhe reconhecem. Depois, monta na vassoura e faz umas acrobacias, uns loopings e rasantes a pentear capim, que deixam a confraria ainda mais boquiaberta. A excitação atinge o clímax por alturas da aterragem, com cada qual a fugir para seu lado, espavorida e cacarejante; porque se descola que nem um pelicano e voa que nem uma andorinha, a bruxa-mestra, apesar do brevet tirado com Lacan sob o olhar benévolo de Derrida, aterra que nem um albatroz. Enfim, é - que ninguém duvide!- um nunca mais acabar de maravilhas e peripécias mirabolantes.
No meio de todo este deslumbrante cenário, remanesce-nos apenas uma singela minudência intrigante:
Se já há Lojas específicas para cada membro do casal (de resto como se passa em qualquer pronto-a-vestir ou sanitário público), haverá também, não direi Loja, mas pelo menos uma espécie de Quiosque para juvenis? Porque, não tenhamos dúvidas, um rebento da Maria Belo, lá pelas 13 primaveras, já deve ser um génio encartado, um progressista em rampa de lançamento, um foguetão de ideias pronto a tomar de assalto as galáxias. Filhos desta gente, nascem-lhes os sobredotes científicos (ou artísticos, tanto faz) ainda antes dos dentes.
Tudo isto, bem entendido, já para não falar nas Lojas Gay ou Unissexo. Não me vão dizer que os Macónicos, com aquele progresso todo a fervilhar-hes nas veias, são homofóbicos, pois não?!...
Eu –ignaro que sou – não sabia que existia maçonaria feminina. Julguei que nas lojas maçónicas normais, modelos de virtudes cívicas certamente, não praticavam o “apartheid” sexual. Que a descriminação genital não tinha lugar por aquelas bandas. Que eventualmente até cirandassem por lá encapuçados, numa espécie de Klu-Klux-Klan filantrópica, que era para dar estilo. Mas, pelos vistos, enganei-me. Engano-me sempre. Herdei a tara dum antepassado meu que cismava de dar porrada em moinhos.
Todavia, só uma mente cândida como a minha, descendente de tal ancestral, poderia conceber que não haveria necessidade de lojas maçónicas femininas. Mais: Grandes Lojas. A própria terminologia, está bem de ver, congrega um atractivo irresistível às damas: “loja”. Só isso já provoca tumultos, histerismo, pisadelas, correrias. Basta pensarmos em montras, modas, nova estação e –top of the pops!- saldos!!! A limite, uma espécie de Grandes Armazéns do Chiado do esoterismo. Ou o Grandela, que Deus tenha em eterno descanso!....
Estou mesmo em crer que, no que depender delas, não tardará muito a inaugurar-se o primeiro “shopping maçónico”.
Entretanto, do que por lá fazem, na mariológica loja, digo Grande Loja, apesar do mistério inerente a estes recintos, não será difícil adivinhar. A Grande Loja Maçónica feminina deve ter cabeleireiro, manicure, peeling, lipo-aspiração, ginásio, boutique, perfumaria, maquilhagem e todos esses tabernáculos essenciais a livre-pensadoras. As irmãs devem entreter-se em colóquios profundos a discutir a pele umas das outras, as unhas, o colesterol, a barriguinha, as úlimas da "Hola" ou da "Lux" e as lojas não maçónicas que urge peregrinar. Isto e uns cházinhos, umas canastas e uns bolinhos integrais pelo meio. Outrora fariam também croché, ou lavores (ou atirar-se-iam de paraquedas em frenesins enfermeiros), mas como agora se querem progressistas, falarão de sexo e orgasmos múltiplos ou tapetes de Arraiolos. A cavalo nisso tudo, farão o que os irmãos maçónicos também fazem: cuidarão de empregos, carreiras e sinecuras, para si, outra vez para si (que o multiemprego, para gente progressista, é um must), ainda para si, e, finalmente, para os entes queridos, esses querubins, e toda a família sagrada até à quarta geração.
Como a Abelha-Mestra da colmeia, uma bruxa chamada Maria Belo, tem consultório aberto e alvará de arúspice, digo psicanalista, aproveita o ajuntamento para ler umas sinas, lançar uns búzios e esquadrinhar horóscopos. Ocasionalmente, em datas festivas esotéricas, matam à facada um galo preto (ou branco, depende da lua), abrem-lhe as entanhas e espreitam lá para dentro... as analfabetas, claro está, com reverência e assombro; a maga, que é a única alfabetizada em tais vísceras, lendo as miudezas, decifrando o macabro puzzle, em suma: exercendo os poderes exegéticos que se lhe reconhecem. Depois, monta na vassoura e faz umas acrobacias, uns loopings e rasantes a pentear capim, que deixam a confraria ainda mais boquiaberta. A excitação atinge o clímax por alturas da aterragem, com cada qual a fugir para seu lado, espavorida e cacarejante; porque se descola que nem um pelicano e voa que nem uma andorinha, a bruxa-mestra, apesar do brevet tirado com Lacan sob o olhar benévolo de Derrida, aterra que nem um albatroz. Enfim, é - que ninguém duvide!- um nunca mais acabar de maravilhas e peripécias mirabolantes.
No meio de todo este deslumbrante cenário, remanesce-nos apenas uma singela minudência intrigante:
Se já há Lojas específicas para cada membro do casal (de resto como se passa em qualquer pronto-a-vestir ou sanitário público), haverá também, não direi Loja, mas pelo menos uma espécie de Quiosque para juvenis? Porque, não tenhamos dúvidas, um rebento da Maria Belo, lá pelas 13 primaveras, já deve ser um génio encartado, um progressista em rampa de lançamento, um foguetão de ideias pronto a tomar de assalto as galáxias. Filhos desta gente, nascem-lhes os sobredotes científicos (ou artísticos, tanto faz) ainda antes dos dentes.
Tudo isto, bem entendido, já para não falar nas Lojas Gay ou Unissexo. Não me vão dizer que os Macónicos, com aquele progresso todo a fervilhar-hes nas veias, são homofóbicos, pois não?!...
terça-feira, janeiro 18, 2005
O MOSTRENGO
«O mostrengo que está no fim do mar
na noite de breu ergueu-se a voar;
à roda da nau voou três vezes
voou três vezes a chiar,
E disse:" quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo
mus tectos negros do fim do mundo?»
E o o homem do leme disse, tremendo:
»El-Rei D.João Segundo!"
E o o homem do leme disse, tremendo:
»El-Rei D.João Segundo!"
- Fernando Pessoa, "Mensagem"
A figura do mostrengo é eloquente. Ainda hoje brame, para quem o quiser ouvir. Ainda hoje apavora quem o escuta e, pelo zoar do seu estrugir desumano, o imagina envolto em fiapos de tormento e cortinas de pesadelo.
Em Quinhentos, nesse tempo de coragem, de Audácia, mais que de ganância, os mares ressumbravam, infestados. Ao longe, nos oceanos, que iam vomitar-se lugubremente no abismo tartárico, senão na goela insaciável do próprio inferno em chamas, uivavam abominações medonhas, habitavam pavores inomináveis. Sob o manto vertiginoso das águas, moravam braços descomunais, tentáculos mortíferos, mandíbulas escancaradas prontas a devorar, a varrer e a despedaçar, sem dó nem piedade, a casca de noz e o insecto que se atrevessem, que experimentassem a viagem, que ousassem sequer o pensamento. Enfim, emboscados, sempre à espreita, famintos de dor e carne humana, cardumes de horrores patrulhavam os mares ignotos. Para quem escondia os olhos –como hoje ainda esconde -, o mostrengo era tudo isso. Escutava-se e dava vontade de nunca ter nascido.
Mas, na verdade, o mostrengo não habitava os mares: rodopiava fantasmagórico na alma dos homens. Tolhia-lhes o ânimo e quebrantava-lhes a força. E chiava –oh, com que tenebror ele chiava! - a enregelar o coração e a liquefazer a espinha. Que até os dentes crepitavam, os cabelos encaneciam e o chão nos chamava, em refúgio, para o mais humilde e obscuro dos seus orifícios.
Só que havia uma semente - uma centelha de odisseia - que Ulisses deixara por estas bandas. E uma semente pode muito. Mais que todos os medos. Mais que todas as filosofias, literaturas e ciências! Mais que a treva e os abismos. Porque uma semente sabe o caminho do céu. Rompe a lama e as angústias, fende os ares e as neblinas e estende os braços, feita árvore, a abraçar a luz e o firmamento. A saudar o sol e as estrelas. A respirar o sopro divino que dá vida ao mundo.
As sementes são a lenha dos sonhos. Os portugueses de Quinhentos foram a carne dessa semente.
E do chão agreste, triste, sujo e escuro, onde o medo os agrilhoava e mantinha encarcerados, rasgaram horizontes e elevaram-se para uma luz que os guiava a sul de todos os crepúsculos, à procura de edens e fontes sagradas, em busca de tesouros, de aventuras, de terras exóticas, mas, acima de tudo, ou como estrela guia para tudo isso, do mais bem-aventurado e exótico de todos os tesouros: a verdade.
Foram banhar-se no sonho e no abismo. Foram para o mar enfrentar o mostrengo que levavam na alma.
Guardamos essa memória nas veias e sabemos que não foi fácil. Sabemos que não foi uma coreografia sonoplástica e narcótica, como os filmes de hollywood. Que não foi insípido e inodoro. Que o cheiro a merda e sangue, a escorbuto e malária, a desespero e desinteria se misturaram muitas vezes, quase sempre, com o perfume da maresia, que entra pelos pulmões e descongestiona a alma. Que as lágrimas das mulheres salgaram o cais e as maldições dos velhos crismaram o vento. Que isso toldou o horizonte e açulou o mostrengo que de dentro de nós –nós naquele tempo – assombrava o mar.
Mas nós –nós naquele tempo – nós sem automóveis, televisões, figoríficos, nós sem electricidade nem água canalizada, nós sem subsídios nem peritos de pintelhices a granel, nós sem doutores da mula russa a parirem reformas de empreitada, nós sem formação profissional nem confortos, sem sindicato nem segurança social, nós sem computadores nem cinemas, nós sem petróleo nem diamantes, fomos capazes de uma obra colossal, fomos capazes dum milagre, a semente fez-se árvore.
Nós –naquele tempo muito mais magros, destituídos, ainda mais indigentes e pequenos que hoje – fomos capazes. Porque é que hoje não somos? Não somos capazes porque nem sequer somos nós. Entre aquele tempo e este tempo interpôs-se um limbo onde vagamos quais sombras penadas. Sobra-nos a matéria, o esterco que nos amortalha; sobram-nos bugigangas em catadupa, adubos, pesticidas e cuidados de flores de estufa, mas falta-nos o essencial: a vontade, esse gume afiado do espírito. Falta-nos aquele que a vaca da Isabel Católica, ao saber da sua morte, disse: “Morreu o Homem”
Mas não apenas o homem-rei, símbolo de um povo, da união sagrada entre terra, mar e gente, e duma vontade colectiva; também, e sobretudo, o Homem dentro de todos nós, o homem que sonha, o homem que navega, o homem que acredita.
Porque em vez dele, a velar o seu sono forçado, soltando peçonha e susto, reina o mostrengo. Adeja, rodopia e chia sem parar. Entoa a sua umbrífera lengalenda, que cobre, como uma névoa tóxica, venenosa, o sol e as estrelas, e entranha-se nos ossos, nos músculos, nas mentes, a roubar-nos toda a coragem, a decantar-nos toda a esperança.
“Sois fracos!”, chia ele, escarninho. “Sois débeis! Sois poucos! Sois pobres! Sois atrasados! Sois obsoletos! Sois a escória da Europa! Sois vis! Sois preguiçosos! Sois desgovernados, desorganizados, viciados, dependentes, individados, mesquinhos, intriguistas, fala-baratos, quezilentos, alarves, pacóvios...sois o desespero de Cristo!...” As suas asas negras esvoaçam por cima de nós, sombrias e, à noite –nesta infinita noite em que se tornou a nossa vida-, pressentimos que ele poisa, de colmilhos afiados, para nos vampirizar os sonhos. Mas mesmo nessa pausa hedionda, a sua cantilena exasperante não cessa: repercute em ecos descarnados, lutuosos, nas abóbadas do nosso pavor.
Mas que pensáveis vós que ele, esse mesmo mostrengo chiante, uivava há quinhentos anos atrás? -A mesmíssima gosma paralizante, a gémea baba de aranha dissolvente. Sem tirar nem pôr.
E os homens - daquele tempo em que ainda havia homens - deixaram para trás as lágrimas das mulheres, as maldições dos velhos, o espanto maravilhado nos olhos das crianças e saíram mar a fora, levando todo o medo consigo, e foram enfrentar a ululante avantesma lá onde o mundo acaba e o abismo começa. Saíram as naus da barra e o mostrengo infame ia por cima delas, como uma sombra de Outro-Mundo.
Choraram as mulheres porque viam ambos, praguejaram os velhos porque viam a abominação, maravilharam-se as crianças porque eram seus os sonhos que iam dentro dos homens, com a forma de mastros e velas.
Os homens não voltaram. Só o mostrengo voltou.
A figura do mostrengo é eloquente. Ainda hoje brame, para quem o quiser ouvir. Ainda hoje apavora quem o escuta e, pelo zoar do seu estrugir desumano, o imagina envolto em fiapos de tormento e cortinas de pesadelo.
Em Quinhentos, nesse tempo de coragem, de Audácia, mais que de ganância, os mares ressumbravam, infestados. Ao longe, nos oceanos, que iam vomitar-se lugubremente no abismo tartárico, senão na goela insaciável do próprio inferno em chamas, uivavam abominações medonhas, habitavam pavores inomináveis. Sob o manto vertiginoso das águas, moravam braços descomunais, tentáculos mortíferos, mandíbulas escancaradas prontas a devorar, a varrer e a despedaçar, sem dó nem piedade, a casca de noz e o insecto que se atrevessem, que experimentassem a viagem, que ousassem sequer o pensamento. Enfim, emboscados, sempre à espreita, famintos de dor e carne humana, cardumes de horrores patrulhavam os mares ignotos. Para quem escondia os olhos –como hoje ainda esconde -, o mostrengo era tudo isso. Escutava-se e dava vontade de nunca ter nascido.
Mas, na verdade, o mostrengo não habitava os mares: rodopiava fantasmagórico na alma dos homens. Tolhia-lhes o ânimo e quebrantava-lhes a força. E chiava –oh, com que tenebror ele chiava! - a enregelar o coração e a liquefazer a espinha. Que até os dentes crepitavam, os cabelos encaneciam e o chão nos chamava, em refúgio, para o mais humilde e obscuro dos seus orifícios.
Só que havia uma semente - uma centelha de odisseia - que Ulisses deixara por estas bandas. E uma semente pode muito. Mais que todos os medos. Mais que todas as filosofias, literaturas e ciências! Mais que a treva e os abismos. Porque uma semente sabe o caminho do céu. Rompe a lama e as angústias, fende os ares e as neblinas e estende os braços, feita árvore, a abraçar a luz e o firmamento. A saudar o sol e as estrelas. A respirar o sopro divino que dá vida ao mundo.
As sementes são a lenha dos sonhos. Os portugueses de Quinhentos foram a carne dessa semente.
E do chão agreste, triste, sujo e escuro, onde o medo os agrilhoava e mantinha encarcerados, rasgaram horizontes e elevaram-se para uma luz que os guiava a sul de todos os crepúsculos, à procura de edens e fontes sagradas, em busca de tesouros, de aventuras, de terras exóticas, mas, acima de tudo, ou como estrela guia para tudo isso, do mais bem-aventurado e exótico de todos os tesouros: a verdade.
Foram banhar-se no sonho e no abismo. Foram para o mar enfrentar o mostrengo que levavam na alma.
Guardamos essa memória nas veias e sabemos que não foi fácil. Sabemos que não foi uma coreografia sonoplástica e narcótica, como os filmes de hollywood. Que não foi insípido e inodoro. Que o cheiro a merda e sangue, a escorbuto e malária, a desespero e desinteria se misturaram muitas vezes, quase sempre, com o perfume da maresia, que entra pelos pulmões e descongestiona a alma. Que as lágrimas das mulheres salgaram o cais e as maldições dos velhos crismaram o vento. Que isso toldou o horizonte e açulou o mostrengo que de dentro de nós –nós naquele tempo – assombrava o mar.
Mas nós –nós naquele tempo – nós sem automóveis, televisões, figoríficos, nós sem electricidade nem água canalizada, nós sem subsídios nem peritos de pintelhices a granel, nós sem doutores da mula russa a parirem reformas de empreitada, nós sem formação profissional nem confortos, sem sindicato nem segurança social, nós sem computadores nem cinemas, nós sem petróleo nem diamantes, fomos capazes de uma obra colossal, fomos capazes dum milagre, a semente fez-se árvore.
Nós –naquele tempo muito mais magros, destituídos, ainda mais indigentes e pequenos que hoje – fomos capazes. Porque é que hoje não somos? Não somos capazes porque nem sequer somos nós. Entre aquele tempo e este tempo interpôs-se um limbo onde vagamos quais sombras penadas. Sobra-nos a matéria, o esterco que nos amortalha; sobram-nos bugigangas em catadupa, adubos, pesticidas e cuidados de flores de estufa, mas falta-nos o essencial: a vontade, esse gume afiado do espírito. Falta-nos aquele que a vaca da Isabel Católica, ao saber da sua morte, disse: “Morreu o Homem”
Mas não apenas o homem-rei, símbolo de um povo, da união sagrada entre terra, mar e gente, e duma vontade colectiva; também, e sobretudo, o Homem dentro de todos nós, o homem que sonha, o homem que navega, o homem que acredita.
Porque em vez dele, a velar o seu sono forçado, soltando peçonha e susto, reina o mostrengo. Adeja, rodopia e chia sem parar. Entoa a sua umbrífera lengalenda, que cobre, como uma névoa tóxica, venenosa, o sol e as estrelas, e entranha-se nos ossos, nos músculos, nas mentes, a roubar-nos toda a coragem, a decantar-nos toda a esperança.
“Sois fracos!”, chia ele, escarninho. “Sois débeis! Sois poucos! Sois pobres! Sois atrasados! Sois obsoletos! Sois a escória da Europa! Sois vis! Sois preguiçosos! Sois desgovernados, desorganizados, viciados, dependentes, individados, mesquinhos, intriguistas, fala-baratos, quezilentos, alarves, pacóvios...sois o desespero de Cristo!...” As suas asas negras esvoaçam por cima de nós, sombrias e, à noite –nesta infinita noite em que se tornou a nossa vida-, pressentimos que ele poisa, de colmilhos afiados, para nos vampirizar os sonhos. Mas mesmo nessa pausa hedionda, a sua cantilena exasperante não cessa: repercute em ecos descarnados, lutuosos, nas abóbadas do nosso pavor.
Mas que pensáveis vós que ele, esse mesmo mostrengo chiante, uivava há quinhentos anos atrás? -A mesmíssima gosma paralizante, a gémea baba de aranha dissolvente. Sem tirar nem pôr.
E os homens - daquele tempo em que ainda havia homens - deixaram para trás as lágrimas das mulheres, as maldições dos velhos, o espanto maravilhado nos olhos das crianças e saíram mar a fora, levando todo o medo consigo, e foram enfrentar a ululante avantesma lá onde o mundo acaba e o abismo começa. Saíram as naus da barra e o mostrengo infame ia por cima delas, como uma sombra de Outro-Mundo.
Choraram as mulheres porque viam ambos, praguejaram os velhos porque viam a abominação, maravilharam-se as crianças porque eram seus os sonhos que iam dentro dos homens, com a forma de mastros e velas.
Os homens não voltaram. Só o mostrengo voltou.
«O mostrengo que está pra cá do mar
Na noite de breu continu’a voar;
Por dentro da alma voa mil vezes
Voa mil vezes a agoirar,
E diz: “quem persiste ainda a sonhar
Com algo que não meu trono execrando
com céus acima deste pó imundo?
E a nau sem leme geme, sangrando :
Na noite de breu continu’a voar;
Por dentro da alma voa mil vezes
Voa mil vezes a agoirar,
E diz: “quem persiste ainda a sonhar
Com algo que não meu trono execrando
com céus acima deste pó imundo?
E a nau sem leme geme, sangrando :
”Quem há-de vingar D. João Segundo?...”
segunda-feira, janeiro 17, 2005
ComoTornar-se Americano em 3 Etapas
1ª Etapa. Excesso de peso
2ª Etapa. Obesidade
3ª Etapa. Obesidade Mórbida
Para o efeito, há todo um ginásio de flacidez psicofísica, onde os praticantes da lipodromia (corrida à gordura) se podem exercitar na aquisição de peso e volumetria. Destacam-se as principais estações, ou, pelo menos, aquelas que usufruem da especial predilecção dos concorrentes:
1. Televisão
2. Computador
3. Junk-food
4. Alcoolização precoce (ou toxicodependência alternativa)
5. Progenitores imbecilizados ou ausentes
O treino circular –rotação compulsiva, enfrenesiada e non-stop entre estas estações e aparelhos - conduz a resultados espectaculares e garantidos, em tempo recorde. Conseguem-se perfeitos americanos, tão balofos, flácidos e mentecaptos quanto os originais. Neste momento, Portugal mastiga e engole a bom ritmo. Ocupa mesmo um magnífico segundo lugar, a nível europeu. Mais um esforço e chegamos à medalha de ouro.
É enfardar, pequenada!...É andar a reboque, papá e mamãs!... Ao menos nisso, andam todos em Harvard. E já vão na pós-graduação.
domingo, janeiro 16, 2005
Um Blogue de Fulano de Tal
Dei comigo a pensar. É um distúrbio mental que ocasionalmente me visita e desinquieta. Nada de muito grave, tranquilizai-vos. Nada sequer que ponha em risco a minha sobrevivência ou a harmonia mortuária que urbanamente nos abençoa.
Num momento de ócio, lembrei-me desses grandes nomes da nossa blogosfera, e da cultura em geral, essas poderosas chancelas –os Mexias, os Pereira Coutinho e outros que tais -, e dei comigo –como já referi- a pensar. A matutar, melhor dizendo. Não sobre o seu –deles- talento ou genialidade, que são por certo descomunais e merecedores de todos os encómios deste mundo, nem, muito menos, sobre as obras-primas que produzem, pois também essas, quais tapetes mágicos donde os autores acenam longínquas esmolas a maltrapilhos mentais, me sobrevoam a grande altitude. Não; é coisa mais brejeira, mais ao nível subterrâneo dum biltre vandalizador da língua pátria como eu. Dum escrevinhador de vão de escada, enfim. Refiro-me ao “pedigree” daqueles anjos. Ou por outras palavras, e avançando-vos desde já, de chofre, com uma sinopse: a sua, deles, genialidade será paragénita – irrompeu-lhes um belo dia, cérebro a fora, como a acne nos rostos dos adolescentes menos dotados-, ou, pelo contrário, será congénita e herdada de linhagens insignes, pejadas de atributos e qualificações igualmente ofuscantes. O Mexia, por exemplo, é alguma coisa àquele senhor, todo ele inteligência, a escorrer argúcia, que é ministro? O Pereira Coutinho, de igual modo, partilhará laços de sangue com aqueloutro cavalheiro, superlativo empresário, a pingar riqueza, que até tem helicóptero e uma ilha privada na costa brasileira?
Há muitos outros e haverá, mesmo nestes, outras questões importantes –se além do génio, também tiveram acne? Ou bexigas doidas, ou pé chato, etc? Se, tendo helicóptero, o putativo parente, é ele que o conduz ou tem motorista? – mas não nos dispersemos. Contentava-me com a resposta à questão singela do pedigree. Têm-no ou não? São adquiridos ou congénitos? É dom divino, milagre pessoal, ou legado dum bando de espermatozóides excelentíssimo?
Cada vez mais estrangeiro no meu próprio país, ignoro com quantos neurónios tenho estes detalhes, estas ninharias. Estou certo que alguma alma benemérita - qualquer porteira, cabeleireira ou vendedora de peixe - cá do burgo saberá esclarecer-me sobre este assunto e resgatar-me às garras desta vexante ignorância.
Entretanto, depois de me cocegar por breves instantes, o pensamento evade-se, em espirais etéreas, pelos campos elísios da fantasia. Vislumbro-me, num delírio caleidoscópico de cores, sabores e aromas, ataviado dum apelido todo-viçoso, gazua desferrolhante ds mais renitentes portas. Dou comigo transportado num turbilhão de ideias, todas elas sublimes, elevadas, culminantes, a galope por vales de cornucópias. Num ápice, de olímpica empreitada, escrevo romances, contos, novelas, poemas, ensaios, artigos, decretos, livros de culinária, breviários, anedotas, cada qual mais sumptuosa que a precedente. Sinto-me implacável, sobrepujam-me relâmpagos e pirotecnias celestes em prelúdio de hiantes partos cósmicos. O prelo e os escaparates arfam e resfolegam, desejosos das minhas tiragens. Editores disputam-me, nem sempre civilizadamente, às vezes com tumultos. Faminto de posteridade rápida, atiro-me a ela à dentada, em braçadas de mariposa haurifegante. Um fulgor convulsivo e compulsivo invade-me, encharca-me, atesta-me de superpoderes. O universo inteiro sustem a respiração na iminência duma vírgula minha. Será vírgula? Será ponto e vírgula? Serão reticências?... Nada me escapa; não é apenas o écran do monitor: são paredes, azulejos de WC, papelões, cortinados, toalhas, vestidos, guardanapos. Escrevo e assino. Por onde quer que passe, deixo um rasto inconfundível, uma baba, um monco genial, único, demiúrgico. Interrompo apenas para recobrar fôlego, para confabular com as musas. Mas o talento extravasante, a energia artística efervescente, aos borbotões, não me dão tréguas. Propulsionam-me para mais grandiosos voos. Também os blogs –os sites, os fóruns, as play stations- não deixo impunes. Nada de Dragoscópios, Pinóquios, Solilóquios ou anonimatos que tais. Agora há toda uma família que me catapulta, todo um apelido luzidio que urge ostentar. Não é uma criatura qualquer que me transporta. Não é um mija-na-escada avulso que serve de invólucro a tamanho espírito. É uma criatura de marca. Uma embalagem personalizada. No topo, à entrada, já entrevejo até, em letras flamejantes, magnéticas, poderosas, o título radioso, atracção irresistível: “Estratosfera –um blogue de Fulano de Tal”. Debaixo, servindo de passadeira ao meu triunfo, num charco de saliva desbordante, as massas prostram-se, subjugadas, avassaladas, tomadas dum deslumbramento inaudito. É o “Fulano de Tal” que as atrai, que as mergulha num torpor vizinho do êxtase vegetal. O resto, poupemo-nos a trabalhos, é irrelevante.
Num momento de ócio, lembrei-me desses grandes nomes da nossa blogosfera, e da cultura em geral, essas poderosas chancelas –os Mexias, os Pereira Coutinho e outros que tais -, e dei comigo –como já referi- a pensar. A matutar, melhor dizendo. Não sobre o seu –deles- talento ou genialidade, que são por certo descomunais e merecedores de todos os encómios deste mundo, nem, muito menos, sobre as obras-primas que produzem, pois também essas, quais tapetes mágicos donde os autores acenam longínquas esmolas a maltrapilhos mentais, me sobrevoam a grande altitude. Não; é coisa mais brejeira, mais ao nível subterrâneo dum biltre vandalizador da língua pátria como eu. Dum escrevinhador de vão de escada, enfim. Refiro-me ao “pedigree” daqueles anjos. Ou por outras palavras, e avançando-vos desde já, de chofre, com uma sinopse: a sua, deles, genialidade será paragénita – irrompeu-lhes um belo dia, cérebro a fora, como a acne nos rostos dos adolescentes menos dotados-, ou, pelo contrário, será congénita e herdada de linhagens insignes, pejadas de atributos e qualificações igualmente ofuscantes. O Mexia, por exemplo, é alguma coisa àquele senhor, todo ele inteligência, a escorrer argúcia, que é ministro? O Pereira Coutinho, de igual modo, partilhará laços de sangue com aqueloutro cavalheiro, superlativo empresário, a pingar riqueza, que até tem helicóptero e uma ilha privada na costa brasileira?
Há muitos outros e haverá, mesmo nestes, outras questões importantes –se além do génio, também tiveram acne? Ou bexigas doidas, ou pé chato, etc? Se, tendo helicóptero, o putativo parente, é ele que o conduz ou tem motorista? – mas não nos dispersemos. Contentava-me com a resposta à questão singela do pedigree. Têm-no ou não? São adquiridos ou congénitos? É dom divino, milagre pessoal, ou legado dum bando de espermatozóides excelentíssimo?
Cada vez mais estrangeiro no meu próprio país, ignoro com quantos neurónios tenho estes detalhes, estas ninharias. Estou certo que alguma alma benemérita - qualquer porteira, cabeleireira ou vendedora de peixe - cá do burgo saberá esclarecer-me sobre este assunto e resgatar-me às garras desta vexante ignorância.
Entretanto, depois de me cocegar por breves instantes, o pensamento evade-se, em espirais etéreas, pelos campos elísios da fantasia. Vislumbro-me, num delírio caleidoscópico de cores, sabores e aromas, ataviado dum apelido todo-viçoso, gazua desferrolhante ds mais renitentes portas. Dou comigo transportado num turbilhão de ideias, todas elas sublimes, elevadas, culminantes, a galope por vales de cornucópias. Num ápice, de olímpica empreitada, escrevo romances, contos, novelas, poemas, ensaios, artigos, decretos, livros de culinária, breviários, anedotas, cada qual mais sumptuosa que a precedente. Sinto-me implacável, sobrepujam-me relâmpagos e pirotecnias celestes em prelúdio de hiantes partos cósmicos. O prelo e os escaparates arfam e resfolegam, desejosos das minhas tiragens. Editores disputam-me, nem sempre civilizadamente, às vezes com tumultos. Faminto de posteridade rápida, atiro-me a ela à dentada, em braçadas de mariposa haurifegante. Um fulgor convulsivo e compulsivo invade-me, encharca-me, atesta-me de superpoderes. O universo inteiro sustem a respiração na iminência duma vírgula minha. Será vírgula? Será ponto e vírgula? Serão reticências?... Nada me escapa; não é apenas o écran do monitor: são paredes, azulejos de WC, papelões, cortinados, toalhas, vestidos, guardanapos. Escrevo e assino. Por onde quer que passe, deixo um rasto inconfundível, uma baba, um monco genial, único, demiúrgico. Interrompo apenas para recobrar fôlego, para confabular com as musas. Mas o talento extravasante, a energia artística efervescente, aos borbotões, não me dão tréguas. Propulsionam-me para mais grandiosos voos. Também os blogs –os sites, os fóruns, as play stations- não deixo impunes. Nada de Dragoscópios, Pinóquios, Solilóquios ou anonimatos que tais. Agora há toda uma família que me catapulta, todo um apelido luzidio que urge ostentar. Não é uma criatura qualquer que me transporta. Não é um mija-na-escada avulso que serve de invólucro a tamanho espírito. É uma criatura de marca. Uma embalagem personalizada. No topo, à entrada, já entrevejo até, em letras flamejantes, magnéticas, poderosas, o título radioso, atracção irresistível: “Estratosfera –um blogue de Fulano de Tal”. Debaixo, servindo de passadeira ao meu triunfo, num charco de saliva desbordante, as massas prostram-se, subjugadas, avassaladas, tomadas dum deslumbramento inaudito. É o “Fulano de Tal” que as atrai, que as mergulha num torpor vizinho do êxtase vegetal. O resto, poupemo-nos a trabalhos, é irrelevante.
sábado, janeiro 15, 2005
A Bomba Gay
Sem surpresa, quanto a mim, leio no Diário Digital:
«O Ministério da Defesa norte-americano (Pentágono) considerou desenvolver um conjunto de armas químicas não letais para abalar a moral e a disciplina das tropas inimigas, tais como uma bomba sexual, indicam documentos secretos agora divulgados.
Uma das armas mais bizarras consistia no desenvolvimento de um afrodisíaco que tornasse os soldados inimigos sexualmente irresistíveis uns para os outros.
A intenção era provocar um comportamento homossexual generalizado entre as tropas, o que causaria um golpe «desagradável mas não letal» à moral dos soldados, refere a proposta.
Outras propostas incluíam armas que atraíssem enxames de vespas enfurecidas ou ratazanas furiosas para posições militares, tornando-as inabitáveis»
Ora, no mínimo, estes laboratórios peregrinos resvalaram para a redundância. Menosprezaram –e de que maneira- o generoso, dinâmico e estrénuo contributo da cultura americana para a disseminação da homossexualdade no mundo. Da homossexualidade e da impotência em geral. De facto, para que é necessária uma bomba, quando já se dispôem há muito de emissores, difusores e fumigenadores permanentes? Já diz o povo: o óptimo é inimigo do bom. E a coisa feita pela calada resulta sempre melhor que cometida às escâncaras, largada à bruta.
Contra-argumentaria o postulante que a bomba seria vocacionada apenas para países do terceiro mundo onde a televisão, o cinema e a internet ainda não chegassem com a exuberância necessária. Que a bomba se destinaria só a países francamente hostis, enquanto aqueles outros métodos se concentrariam nos países amigos e aliados. Soft-colonization, esta, explicitaria. Em contraponto à “fast-colonization”, à bomba, aquela, claro.
Mandá-lo-íamos aperfeiçoar o engenho, burilar uma via de inoculação não-explosiva (que dá muito nas vistas) e esmiuçar da sua rentabilidade, fazendo-o acompanhar, futuramente, dum estudo de mercado.
Quanto a atrair ratazanas furiosas e vespas enfurecidas, isso também já existe. Basta que se descubra petróleo em boas quantidades no subsolo dum qualquer pobre e desamparado país. Descobrissem-no na lua que havíamos de vê-las desembestar para lá, a correr –ou melhor, a voar.
Também a halitose é mais que redundante: Há muito que infestam o mundo com junk/fast-food, fármacos, químicos, pesticidas e, ultimamente, até com transgénicos e vacinas absolutamente putrefactivas das vísceras alheias. Halitose, flato e eructação pestilenta é o que não falta p’r’aí. Já não falando num fedor a cagaço, que até enjoa.
Resumindo: ir alguém, uma alma cândida e benemérita, oferecer tais gadjets aos dirigentes americanos resulta no mesmo que vir sugerir, em jeito pioneiro, contas off-shore aos manda-chuvas portugueses. Pois, mais que descobrir a pólvora, é inventá-la.
«O Ministério da Defesa norte-americano (Pentágono) considerou desenvolver um conjunto de armas químicas não letais para abalar a moral e a disciplina das tropas inimigas, tais como uma bomba sexual, indicam documentos secretos agora divulgados.
Uma das armas mais bizarras consistia no desenvolvimento de um afrodisíaco que tornasse os soldados inimigos sexualmente irresistíveis uns para os outros.
A intenção era provocar um comportamento homossexual generalizado entre as tropas, o que causaria um golpe «desagradável mas não letal» à moral dos soldados, refere a proposta.
Outras propostas incluíam armas que atraíssem enxames de vespas enfurecidas ou ratazanas furiosas para posições militares, tornando-as inabitáveis»
Ora, no mínimo, estes laboratórios peregrinos resvalaram para a redundância. Menosprezaram –e de que maneira- o generoso, dinâmico e estrénuo contributo da cultura americana para a disseminação da homossexualdade no mundo. Da homossexualidade e da impotência em geral. De facto, para que é necessária uma bomba, quando já se dispôem há muito de emissores, difusores e fumigenadores permanentes? Já diz o povo: o óptimo é inimigo do bom. E a coisa feita pela calada resulta sempre melhor que cometida às escâncaras, largada à bruta.
Contra-argumentaria o postulante que a bomba seria vocacionada apenas para países do terceiro mundo onde a televisão, o cinema e a internet ainda não chegassem com a exuberância necessária. Que a bomba se destinaria só a países francamente hostis, enquanto aqueles outros métodos se concentrariam nos países amigos e aliados. Soft-colonization, esta, explicitaria. Em contraponto à “fast-colonization”, à bomba, aquela, claro.
Mandá-lo-íamos aperfeiçoar o engenho, burilar uma via de inoculação não-explosiva (que dá muito nas vistas) e esmiuçar da sua rentabilidade, fazendo-o acompanhar, futuramente, dum estudo de mercado.
Quanto a atrair ratazanas furiosas e vespas enfurecidas, isso também já existe. Basta que se descubra petróleo em boas quantidades no subsolo dum qualquer pobre e desamparado país. Descobrissem-no na lua que havíamos de vê-las desembestar para lá, a correr –ou melhor, a voar.
Também a halitose é mais que redundante: Há muito que infestam o mundo com junk/fast-food, fármacos, químicos, pesticidas e, ultimamente, até com transgénicos e vacinas absolutamente putrefactivas das vísceras alheias. Halitose, flato e eructação pestilenta é o que não falta p’r’aí. Já não falando num fedor a cagaço, que até enjoa.
Resumindo: ir alguém, uma alma cândida e benemérita, oferecer tais gadjets aos dirigentes americanos resulta no mesmo que vir sugerir, em jeito pioneiro, contas off-shore aos manda-chuvas portugueses. Pois, mais que descobrir a pólvora, é inventá-la.
sexta-feira, janeiro 14, 2005
Manda a Vontade que me ata ao leme...
O meu Dicionário Shelltox Concise gerou acesa polémica acerca do termo "Bragança". Um digníssimo leitor insurgiu-se contra a definição dada. Protesta veementemente e discorda em absoluto. Congratulo-me. Execro unanimismos.
Sendo, não obstante, um fenómeno raro (o que muito me surpreende), ganha foros de preciosidade merecedora de destaque e honras de primeira página. Assim, em honra deste leitor destemido, a quem nunca poderei expressar toda a minha devida gratidão, passo a publicar as merecidíssimas invectivas com que me brindou e as (não direi farpas, porque as não merece) mas enfim, labaredas com que o distingo.
Meu caro Velho do Restelo,
Diz VªExcª:
“Escreves uma atoarda daquelas e queres ser tratado com paninhos quentes?Recebido com trouxas de ovos e copinhos de vinho fino?”
Digo-lhe eu:
Não exijo tanto. Contentava-me com uma cervejita e um pires de caracóis.
Diz Vª.Excª:
”Respeita a Dinastia que restaurou Portugal.”
Digo-lhe eu:
Prefiro honrar aquelas que o fundaram e engrandeceram. Mais que aquela que o “restaurou”, quer dizer, digeriu.
Diz VªExcª:
“Não repitas o pior da historiografia jacobina do sec.XIX.”
E eu digo-lhe:
Amén. Mas, Jacobino, eu?? E, já agora, porque não comunista? Ou então anarquista, libertino, luciferiano!...
Diz Vª.Excª:
“Tens capacidade para mais”.
E eu digo-lhe:
Pois tenho. Todos temos. A asneira, ao contrário da sabedoria, não respeita limites e galopa à rédea solta.
Diz VªExcª:
” Lê o Padre António Vieira e vais perceber”.
E eu digo-lhe:
Já li. E não percebi. Talvez fosse da tradução.
Diz Vª Excª:
“O sebastianismo é muito mais que uma fria manhã de nevoeiro”.
E eu digo-lhe:
Na meteorologia, lamento mas não posso acompanhá-lo; falta-me a erudição científica. Teremos que contentar-nos com a filosofia.
Diz VªExcª:
“Quando pensares nos Bragança lembra-te de Teófilo Braga, Carmona, Américo Tomás, Craveiro Lopes, Ramalho Eanes, Spínola, Costa Gomes, Jorge Sampaio”
E eu digo-lhe:
Precisamente. É esse o problema. Quando penso nos Bragança, lembro-me logo do Teófilo, do Carmona, do Américo, do Craveiro, do Ramalho, do Spínola , do Gomes, do Soares e, sobretudo, do –todo ele very british constitucionalista –Sampaio! E desata-me logo aquela horripilante terminologia (que tanto parece afligir VªExcª) –do usurpador e mentecapto – a badalar-me na cabeça.
Repete Vª Excª, (enfaticamente):
“És capaz de fazer melhor”
E eu digo-lhe:
Talvez. Mas a questão que agora me preocupa é: e VªExcª, será?
Diz VªExcª:
“Mas reconhece que não é assim que se começa uma conversa civilizada”.
E eu digo-lhe:
Reconheço. Para arranjar sarilhos com um Dragão, nada melhor que apodá-lo de “pequeno burguês” “viúva do Afonso Costa” e “jacobino”. É infalível. Convém é não descurar o arcaboiço e equipar-se, à cautela, com um bom fato de amianto.
Diz VªExcª:
“Lê uma boa História de Portugal”
E eu digo-lhe:
Queira, VªExcª, recomendar-me uma apropriada, não vão aquelas que já li serem das más. Em todo o caso, devo presumir que a idade ainda não o bafejou com os anos e experiência de vida suficiente para entender que o termo “boa História” é um oxímoro. Recomendar a alguém uma “boa História” é como recomendar-lhe um “bom veneno”. Se recebeu os anos, então sugiro-lhe que reclame, pois defraudaram-no no que concerne à inteligência.
Insiste VªExcª (benévolo):
“Lê António Vieira, tira as teias de aranha do escafandro”
E eu digo-lhe:
Subentendo que uma coisa, no seu soberano entender, implica a outra. Ao ler a criatura, as teias, por arte mágica, desaparecem. Hei-de experimentar, sob esse ângulo. Confesso que me espicaçou a curiosidade. É só o tempo de comprar um escafandro.
Diz VªExcª:
“Pensa antes de publicares os “clichés” jacobinos”
E eu digo-lhe:
É só antes disso que devo pensar? Porque se assim for, então nunca me será possível tão gratificante experiência (pensar, quero eu dizer).
Diz VªExcª:
“Por favor não digas que és monárquico.”
E eu digo-lhe:
Tem, VªExcª, toda a razão. Não digo. Até porque se ser monárquico é cantar o fado, ser proxeneta do apelido, decorar casas, orquestrar matrimónios, ter bigodes ou tudo isso que pela actualidade se pavoneia e amostra, eu estou nos antípodas. Fujo para o mar alto. De resto, basta atentar na bandeira que levo desfraldada no mastro grande. Não é verde rubra nem azul branca. E se acrescentarmos que - ao contrário de tantas outras (monárquicas e republicanas) que por aí fora se avistam -, não está ali por mera decoração ou folclore, pior um pouco.
Diz VªExcª:
“Ou se é monárquico, ou não. Não se fica a meio da viagem.”
E eu digo-lhe:
Devo, então, presumir que o monarcofilia é em tudo semelhante ao maniqueísmo e ao leninismo? Seja como for, acredito em VªExcª. Por isso mesmo reforço a ideia prévia: viagem tão turística não parece a mais recomendável ao meu batel. Este, horror do mundo, ronda por mares bem mais tenebrosos: da desforra, da aventura e da defenestração. E o cabrão do burguês é que as paga!...
Diz VªExcª:
“Um monárquico tem dois deveres de obediência: um institucional para com a Coroa (enquanto instituição) e um pessoal para com o Rei.Falhaste os dois.”
Digo-lhe eu:
Como não sou monárquico, no que até acaba de me passar atestado, lastimo muito, mas não falhei nenhum. Oxalá Vª Excª possa dizer o mesmo. Deveres de obediência, contudo, tenho mais que dois: para com Deus, com a minha pátria, com os meus irmãos e com a minha honra. E, juntamente com esses todos, para com o par de testículos com que Deus me enviou a este mundo.
Termino, se mo permite, com um aforismo que acaba de me ocorrer:
Portugal, meu caro amigo, o que precisa realmente é de ser refundado, que refodido já ele anda há muito!
Faça Vocelência por não refodê-lo mais do que ele já está e terá em mim um amigo para toda a vida.
Sem ironia, foi um prazer esgrimir consigo.
Será sempre bem vindo a bordo, mas temo bem que as tempestades e as carnificinas lhe melindrem as vísceras, senão lhe transtornarem de vez a mioleira.Além disso, pela sua graça, intuo que é daqueles que não ama o mar, prefere ficar a resmungar no cais e a agoirar naufrágios e abismos.
Não obstante, aceito o abraço de Vª Excª e devolvo-lho à maneira dos dragões. Que Deus lhe conceda boa fortuna.
Dragão
Meu caro Velho do Restelo,
Diz VªExcª:
“Escreves uma atoarda daquelas e queres ser tratado com paninhos quentes?Recebido com trouxas de ovos e copinhos de vinho fino?”
Digo-lhe eu:
Não exijo tanto. Contentava-me com uma cervejita e um pires de caracóis.
Diz Vª.Excª:
”Respeita a Dinastia que restaurou Portugal.”
Digo-lhe eu:
Prefiro honrar aquelas que o fundaram e engrandeceram. Mais que aquela que o “restaurou”, quer dizer, digeriu.
Diz VªExcª:
“Não repitas o pior da historiografia jacobina do sec.XIX.”
E eu digo-lhe:
Amén. Mas, Jacobino, eu?? E, já agora, porque não comunista? Ou então anarquista, libertino, luciferiano!...
Diz Vª.Excª:
“Tens capacidade para mais”.
E eu digo-lhe:
Pois tenho. Todos temos. A asneira, ao contrário da sabedoria, não respeita limites e galopa à rédea solta.
Diz VªExcª:
” Lê o Padre António Vieira e vais perceber”.
E eu digo-lhe:
Já li. E não percebi. Talvez fosse da tradução.
Diz Vª Excª:
“O sebastianismo é muito mais que uma fria manhã de nevoeiro”.
E eu digo-lhe:
Na meteorologia, lamento mas não posso acompanhá-lo; falta-me a erudição científica. Teremos que contentar-nos com a filosofia.
Diz VªExcª:
“Quando pensares nos Bragança lembra-te de Teófilo Braga, Carmona, Américo Tomás, Craveiro Lopes, Ramalho Eanes, Spínola, Costa Gomes, Jorge Sampaio”
E eu digo-lhe:
Precisamente. É esse o problema. Quando penso nos Bragança, lembro-me logo do Teófilo, do Carmona, do Américo, do Craveiro, do Ramalho, do Spínola , do Gomes, do Soares e, sobretudo, do –todo ele very british constitucionalista –Sampaio! E desata-me logo aquela horripilante terminologia (que tanto parece afligir VªExcª) –do usurpador e mentecapto – a badalar-me na cabeça.
Repete Vª Excª, (enfaticamente):
“És capaz de fazer melhor”
E eu digo-lhe:
Talvez. Mas a questão que agora me preocupa é: e VªExcª, será?
Diz VªExcª:
“Mas reconhece que não é assim que se começa uma conversa civilizada”.
E eu digo-lhe:
Reconheço. Para arranjar sarilhos com um Dragão, nada melhor que apodá-lo de “pequeno burguês” “viúva do Afonso Costa” e “jacobino”. É infalível. Convém é não descurar o arcaboiço e equipar-se, à cautela, com um bom fato de amianto.
Diz VªExcª:
“Lê uma boa História de Portugal”
E eu digo-lhe:
Queira, VªExcª, recomendar-me uma apropriada, não vão aquelas que já li serem das más. Em todo o caso, devo presumir que a idade ainda não o bafejou com os anos e experiência de vida suficiente para entender que o termo “boa História” é um oxímoro. Recomendar a alguém uma “boa História” é como recomendar-lhe um “bom veneno”. Se recebeu os anos, então sugiro-lhe que reclame, pois defraudaram-no no que concerne à inteligência.
Insiste VªExcª (benévolo):
“Lê António Vieira, tira as teias de aranha do escafandro”
E eu digo-lhe:
Subentendo que uma coisa, no seu soberano entender, implica a outra. Ao ler a criatura, as teias, por arte mágica, desaparecem. Hei-de experimentar, sob esse ângulo. Confesso que me espicaçou a curiosidade. É só o tempo de comprar um escafandro.
Diz VªExcª:
“Pensa antes de publicares os “clichés” jacobinos”
E eu digo-lhe:
É só antes disso que devo pensar? Porque se assim for, então nunca me será possível tão gratificante experiência (pensar, quero eu dizer).
Diz VªExcª:
“Por favor não digas que és monárquico.”
E eu digo-lhe:
Tem, VªExcª, toda a razão. Não digo. Até porque se ser monárquico é cantar o fado, ser proxeneta do apelido, decorar casas, orquestrar matrimónios, ter bigodes ou tudo isso que pela actualidade se pavoneia e amostra, eu estou nos antípodas. Fujo para o mar alto. De resto, basta atentar na bandeira que levo desfraldada no mastro grande. Não é verde rubra nem azul branca. E se acrescentarmos que - ao contrário de tantas outras (monárquicas e republicanas) que por aí fora se avistam -, não está ali por mera decoração ou folclore, pior um pouco.
Diz VªExcª:
“Ou se é monárquico, ou não. Não se fica a meio da viagem.”
E eu digo-lhe:
Devo, então, presumir que o monarcofilia é em tudo semelhante ao maniqueísmo e ao leninismo? Seja como for, acredito em VªExcª. Por isso mesmo reforço a ideia prévia: viagem tão turística não parece a mais recomendável ao meu batel. Este, horror do mundo, ronda por mares bem mais tenebrosos: da desforra, da aventura e da defenestração. E o cabrão do burguês é que as paga!...
Diz VªExcª:
“Um monárquico tem dois deveres de obediência: um institucional para com a Coroa (enquanto instituição) e um pessoal para com o Rei.Falhaste os dois.”
Digo-lhe eu:
Como não sou monárquico, no que até acaba de me passar atestado, lastimo muito, mas não falhei nenhum. Oxalá Vª Excª possa dizer o mesmo. Deveres de obediência, contudo, tenho mais que dois: para com Deus, com a minha pátria, com os meus irmãos e com a minha honra. E, juntamente com esses todos, para com o par de testículos com que Deus me enviou a este mundo.
Termino, se mo permite, com um aforismo que acaba de me ocorrer:
Portugal, meu caro amigo, o que precisa realmente é de ser refundado, que refodido já ele anda há muito!
Faça Vocelência por não refodê-lo mais do que ele já está e terá em mim um amigo para toda a vida.
Sem ironia, foi um prazer esgrimir consigo.
Será sempre bem vindo a bordo, mas temo bem que as tempestades e as carnificinas lhe melindrem as vísceras, senão lhe transtornarem de vez a mioleira.Além disso, pela sua graça, intuo que é daqueles que não ama o mar, prefere ficar a resmungar no cais e a agoirar naufrágios e abismos.
Não obstante, aceito o abraço de Vª Excª e devolvo-lho à maneira dos dragões. Que Deus lhe conceda boa fortuna.
Dragão
quinta-feira, janeiro 13, 2005
O Horror! A Tragédia!...Qual tsunami, qual carapuça!...
Andava eu a bedelhar ali para os lados dos Alertas, uns rapazes e rapariga bem humorados cujas diatribes acompanho (tudo o que seja “bota abaixo” pode desde logo contar com a minha álacre presença) , quando se me depara um caso de emergência nacional. Mais um daqueles estarrecedores problemas capazes de nos infernizarem a existência e espavorirem de vez o sono. Seguindo um link (temos que pensar em actualizar para “linque”) fui dar aqui, onde um –presumo que cidadão de ascendência não-ariana -, coberto de razão, a transbordar sapiência, emerso num caldo efervescente de indignação, se insurgia para quem o ouvisse. Motivo? Justíssimo:
Parece que o enviado da RTP, um tal Paulo Dentinho, se arvora como energúmeno de alto coturno sempre pronto a injuriar, a bandeiras despregadas, o bom nome dos israelitas. Já várias vezes, o dito facínora (eu sou testemunha e também reparei logo nisso), a pretexto de reportagens directas, os vem crismando, aos desvalidos israelitas, de judaicos, judeus, judengos, ou lá o que é. Seja o que for, é, como todos de imediato constatamos, gravíssimo. Não se admite: chamar judeus a israelitas. Nem a judeus, quanto mais a israelitas! Quando se chama judeu a alguém, sobretudo a um judeu, isso só pode significar um menoscabo retumbante, um insulto desabrido! Uma insinuação torpe e soez! Pior: uma conspiração genocida de terceiro grau! Os judeus não são judeus. Os judeus, sem excepção, são pessoas excepcionais, acima de qualquer suspeita, duma cultura e inteligência ancestrais, que Deus, um belo dia, em inefável Pessoa, escolheu para seus dilectos e predilectos herdeiros. Em suma: se não são semideuses, andam lá perto.
Sendo, por conseguinte, tão sublimes, cintilantes e predestinados, causam naturalmente invejas por onde quer que passem e, como nunca estão quietos, são vítimas recorrentes de todo o tipo de calúnias, malquerenças e injustiças. A Humanidade, de resto, passa a vida nisso – na inveja, na malquerença e na injustiça. Qualquer motivo é um bom motivo para lixar o próximo. Anda nisto, a grande vaca, há milénios. Mas os judeus, em se tratando de ser vítima, cismam que também comandam destacados. Acham até que o seu caso, como não podia deixar de ser, é duplamente gravoso: porque a humanidade dar-se ao desfrute de ensaiar essas violências entre si, que se lixe; agora exercitá-las sobre os judeus, francamente!... É gente de civilização, de responsabilidades, que diabo!... No mínimo, requer indemnização a dobrar. E retractação com juros, ad eternum.
Nós, portugueses, que passamos a vida a chamar cobras e lagartos uns aos outros e a dizer uns dos outros aquilo que Maomé não diz do toucinho, devemos, não obstante, preocupar-nos, descabelar-nos às mancheias, porque o Paulo Dentinho chamou judaicos aos israelitas.
Estupidamente decerto, ocorre-me perguntar: Então “judeu” ou “judaico” é insulto? Quem é este Nuno Guerreiro? –Um puro ariano?
Macacos me mordam, se não há p’r’àqui uma lógica transcendente. Ou perversa. O comum dos mortais não entende.
Do que é possível entender é que o tal Dentinho foi apanhado com a boca, e os dentes todos, na botija. Em flagrante e desarvorado crime de anti-semitismo reincidente.Aposto que congemina em segredo novo holocausto. Não tarda, descobrem-lhe mesmo uma suástica tatuada num recesso íntimo. E um micro-ondas lá em casa, com a estranha mas conveniente - e esclarecedora - forma duma cabina telefónica.
Um gajo que é capaz de chamar “judaicos” a “israelitas”, é capaz de tudo!...Ó da guarda!!...
Parece que o enviado da RTP, um tal Paulo Dentinho, se arvora como energúmeno de alto coturno sempre pronto a injuriar, a bandeiras despregadas, o bom nome dos israelitas. Já várias vezes, o dito facínora (eu sou testemunha e também reparei logo nisso), a pretexto de reportagens directas, os vem crismando, aos desvalidos israelitas, de judaicos, judeus, judengos, ou lá o que é. Seja o que for, é, como todos de imediato constatamos, gravíssimo. Não se admite: chamar judeus a israelitas. Nem a judeus, quanto mais a israelitas! Quando se chama judeu a alguém, sobretudo a um judeu, isso só pode significar um menoscabo retumbante, um insulto desabrido! Uma insinuação torpe e soez! Pior: uma conspiração genocida de terceiro grau! Os judeus não são judeus. Os judeus, sem excepção, são pessoas excepcionais, acima de qualquer suspeita, duma cultura e inteligência ancestrais, que Deus, um belo dia, em inefável Pessoa, escolheu para seus dilectos e predilectos herdeiros. Em suma: se não são semideuses, andam lá perto.
Sendo, por conseguinte, tão sublimes, cintilantes e predestinados, causam naturalmente invejas por onde quer que passem e, como nunca estão quietos, são vítimas recorrentes de todo o tipo de calúnias, malquerenças e injustiças. A Humanidade, de resto, passa a vida nisso – na inveja, na malquerença e na injustiça. Qualquer motivo é um bom motivo para lixar o próximo. Anda nisto, a grande vaca, há milénios. Mas os judeus, em se tratando de ser vítima, cismam que também comandam destacados. Acham até que o seu caso, como não podia deixar de ser, é duplamente gravoso: porque a humanidade dar-se ao desfrute de ensaiar essas violências entre si, que se lixe; agora exercitá-las sobre os judeus, francamente!... É gente de civilização, de responsabilidades, que diabo!... No mínimo, requer indemnização a dobrar. E retractação com juros, ad eternum.
Nós, portugueses, que passamos a vida a chamar cobras e lagartos uns aos outros e a dizer uns dos outros aquilo que Maomé não diz do toucinho, devemos, não obstante, preocupar-nos, descabelar-nos às mancheias, porque o Paulo Dentinho chamou judaicos aos israelitas.
Estupidamente decerto, ocorre-me perguntar: Então “judeu” ou “judaico” é insulto? Quem é este Nuno Guerreiro? –Um puro ariano?
Macacos me mordam, se não há p’r’àqui uma lógica transcendente. Ou perversa. O comum dos mortais não entende.
Do que é possível entender é que o tal Dentinho foi apanhado com a boca, e os dentes todos, na botija. Em flagrante e desarvorado crime de anti-semitismo reincidente.Aposto que congemina em segredo novo holocausto. Não tarda, descobrem-lhe mesmo uma suástica tatuada num recesso íntimo. E um micro-ondas lá em casa, com a estranha mas conveniente - e esclarecedora - forma duma cabina telefónica.
Um gajo que é capaz de chamar “judaicos” a “israelitas”, é capaz de tudo!...Ó da guarda!!...
terça-feira, janeiro 11, 2005
DICIONÁRIO SHELLTOX CONCISE do Dragão - A LETRA B
Na prossecução dessa tarefa meritória e urgente, para além de ciclópica, a que meti ombros, aqui fica a letra B. De Blog, entre muitos outros palavrões suculentos..
BABA s.f., saliva viscosa que escorre da boca; humor viscoso e nalguns casos infecto segregado por alguns animais, comentaristas, políticos, apresentadores e espécimes congéneres
BABADOURO s.m., microfone
BABEL s.f., balbúrdia de vozes; grande algazarra incoercível; sessão plenária; programa de grande informação
BABY-SITTER s.f., aparelho ou mercenário que, mediante pagamento, cuida de crianças durante a ausência - em prostituição legal -, dos pais; televisão
BACAMARTE s.m., salvo-conduto; cartão multibanco expedito; abre-te Sézamo da fortuna; critério de verdade na lógica real; ver também pistola ou metralhadora
BACILO s.m., agente infeccioso; forma embrionária de certos pensamentos, argumentos e ideologias
BACOCO adj., popular
BACONISMO s.m., sistema filosoficida de Bacon, cientista e filosofobo inglês (1561-1626), particularmente caracterizado pelo relevo dado ao método experimental como meio de entorpecimento e esterilização do espírito
BACOREJAR v.intr. grunhir; tecer enredos e mexericos; opinorreia típica do pequeno burguês
BÁCORO s.m., pequeno burguês
BACTÉRIA s.f., microorganismo vegetal (talófita) desprovido de sentido e núcleo celular (esquizófita) que, na maioria dos imbecis, é saprófita ou parasita, evidenciando a sua actividade em importantes reacções mentais químicas e na produção de ideias peregrinas, infecções fantasiosas e idílios virulentos
BADALO s.m., língua
BAIRRISTA adj., xenófobo
BAJULAR v.tr., lisonjear com fins interesseiros; informar; opinar; em muitos casos, escrever em jornais, livros e em grande parte dos blogues (ou blogs)
BALASTRO s.m., aglomerado de calhaus e pequenos monólitos sobre o qual assentam as travessas (chulipas) que suportam os carris nas vias férreas e as carreiras meteóricas de certos políticos nas Vias lácteas
BALÁZIO s.m., argumento definitivo; persuasão infalível; cura para certas maleitas
BALÍSTICA adj., ciência que estuda os movimentos e evoluções da lógica
BANANA s.f., cidadão da República Portuguesa homónima
BANCOCRACIA s.f., preponderância dos banqueiros nos negócios do Estado; regime económico mundial
BANDARILHA s.f., farpa ou dardo que se espeta no cachaço da besta; resposta a comentário bovino ou a opinião vacum
BANG-BANG s.m., a seguir ao Big-Bang; mundovisão da chamada “civilização americana”; direito internacional
BARATA s.f., insecto ortóptero e ortógrafo, da família dos Delgados, veloz e muito voraz, em geral doméstico, bajulador e de costumes plumitivos
BARBÁRIE s.f., História Universal; arcaísmo de Mercado; sinónimo de Economia
BARBARILOQUIA s.f., uso de linguagem bárbara; justificativa rcorrente dos Ministros das Finanças
BARBIE s.t.*, paradigma mental dos Estados Unidos e respectivas incubações por esse Mundo
BARBIE-WORLD (Mundo-Barbie) s.s.s.**, o Mundo depois de “globalizado”
BARBITÚRICO adj., de propriedades hipnóticas e antiespasmódicas; mass-media
BEATO adj., fanático particularmente feroz de qualquer crença, da qual retira motivação compulsiva para odiar e perseguir os outros; antropopata; antropofóbico
BEHAVIOURISMO s.m., psicologia do comportamento, doutrina de J. Watson, vidente americano (1878-1958), segundo a qual o objecto da psicologia aruspicina é exclusivamente limitado aos dados observáveis a partir das macaquices e caretas do paciente
BIBELOT s.m., bugiganga; pequena futilidade, geralmente artística, que serve de adorno à cultura dos países; escritor ou artista premiado
BIBLIÓFAGO adj., diz-se do animal (especialmente insectos, suas larvas e roedores domésticos) que destrói livros, malsinando-os e rilhando-os alvarmente; crítico literário; almôndega intelectual; EPC (electro-parvo-cardiograma)
BIBLIORREIA s.f., feira do livro; panorama editorial literário
BIG-BANG s.m., mega-explosão imaginária que, segundo certos delírios putativamente científicos, serve para explicar a origem do universo algures no Espaço; pode ser resumida da seguinte maneira: no princípio não havia nada, depois deu-se uma grande explosão e logo a seguir começou tudo aos tiros ( a sabedoria-mór consiste em fechar o círculo de caravanas mais depressa que os outros)
BISCATE s.m., cargo público; nomeação para o governo; cargo na administração duma empresa pública; sentido de Estado (em Portugal)
BISCATEIRO adj., o que vive de biscates; gestor público; empresário português; contentorista
BLOCO s.m., massa volumosa e compacta de uma substância pesada e estúpida que nem uma porta; em Portugal: Associação de amigos das camisas Lacoste (ou ~ de Esquerda); paralelepípedo de betão cego utilizado na construção de certas utopias terruginosas
BLOG s.m., local onde se recebem visitas e se conversa com estranhos; (nalguns casos patológicos: opinadouro; bacio das necessidades soturnas; algália mental)
BLOGOSFERA s.f., quinta dimensão; twilight zone; cretinódromo
BLOGUE s.m., o mesmo que blog, mas bem escrito.
BOATO s.m., notícia
BONIFRATE s.m., boneco articulado; pessoa sem vontade própria; espectador
BRAGANÇA s., dinastia usurpadora e mentecapta
BRUXA s.f, psicóloga
BUFO s.m., delator; vizinho; familiar invejoso
BULA s.f., (andar à) deambular à espera duma directiva superior inequívoca; andar à babugem de luminárias; acolitar; delamber nalgatórios instalados em qualquer promontório invejável
BULIMIA s.f., desejo compulsivo de comer e de coleccionar gorduras e tecidos adiposos, idiossincrático nos países modernos ocidentais
BURGUÊS p-s.***, síndroma mental complexa e muitas vezes hereditária, caracterizada por uma avidez porcina, uma mentalidade gananciosa, uma lógica calculista e um espírito inexistente; insigne nobilarca cuja provável e distinta linhagem remonta ao diabo ou, seguramente, a uma flatulência deste; por antonímia de “homem”, o sopro de Deus: peido do Diabo ( a ventosidade nauseabunda em oposição ao sopro vivificante)
BURRO s.m., ministro adjunto; nomeação política
BURLA s.f., acto de burlar; embuste; propaganda eleitoral
BURLESCO adj., diz-se de um género literário caracterizado pelo emprego de termos cómicos, arcaicos e vulgares para descrever coisas nobres e sérias; em Portugal: Orçamento Geral do Estado
BUROCRACIA s.f., sistema administrativo em que os cidadãos são encerrados num labirinto onde ficam condenados a zanzar ad eternum (ou seja, até morrerem de fome)
BURROCRACIA s.f., multitirania fragmentária e difusa cuja autoridade despótica emana duma miríade de familiares e apaniguados catrafilados na administração pública; coisa de funcionários; forma decretada de espólio e extorsão
* - substantivo transexual
** - substantivo sem substância
BABADOURO s.m., microfone
BABEL s.f., balbúrdia de vozes; grande algazarra incoercível; sessão plenária; programa de grande informação
BABY-SITTER s.f., aparelho ou mercenário que, mediante pagamento, cuida de crianças durante a ausência - em prostituição legal -, dos pais; televisão
BACAMARTE s.m., salvo-conduto; cartão multibanco expedito; abre-te Sézamo da fortuna; critério de verdade na lógica real; ver também pistola ou metralhadora
BACILO s.m., agente infeccioso; forma embrionária de certos pensamentos, argumentos e ideologias
BACOCO adj., popular
BACONISMO s.m., sistema filosoficida de Bacon, cientista e filosofobo inglês (1561-1626), particularmente caracterizado pelo relevo dado ao método experimental como meio de entorpecimento e esterilização do espírito
BACOREJAR v.intr. grunhir; tecer enredos e mexericos; opinorreia típica do pequeno burguês
BÁCORO s.m., pequeno burguês
BACTÉRIA s.f., microorganismo vegetal (talófita) desprovido de sentido e núcleo celular (esquizófita) que, na maioria dos imbecis, é saprófita ou parasita, evidenciando a sua actividade em importantes reacções mentais químicas e na produção de ideias peregrinas, infecções fantasiosas e idílios virulentos
BADALO s.m., língua
BAIRRISTA adj., xenófobo
BAJULAR v.tr., lisonjear com fins interesseiros; informar; opinar; em muitos casos, escrever em jornais, livros e em grande parte dos blogues (ou blogs)
BALASTRO s.m., aglomerado de calhaus e pequenos monólitos sobre o qual assentam as travessas (chulipas) que suportam os carris nas vias férreas e as carreiras meteóricas de certos políticos nas Vias lácteas
BALÁZIO s.m., argumento definitivo; persuasão infalível; cura para certas maleitas
BALÍSTICA adj., ciência que estuda os movimentos e evoluções da lógica
BANANA s.f., cidadão da República Portuguesa homónima
BANCOCRACIA s.f., preponderância dos banqueiros nos negócios do Estado; regime económico mundial
BANDARILHA s.f., farpa ou dardo que se espeta no cachaço da besta; resposta a comentário bovino ou a opinião vacum
BANG-BANG s.m., a seguir ao Big-Bang; mundovisão da chamada “civilização americana”; direito internacional
BARATA s.f., insecto ortóptero e ortógrafo, da família dos Delgados, veloz e muito voraz, em geral doméstico, bajulador e de costumes plumitivos
BARBÁRIE s.f., História Universal; arcaísmo de Mercado; sinónimo de Economia
BARBARILOQUIA s.f., uso de linguagem bárbara; justificativa rcorrente dos Ministros das Finanças
BARBIE s.t.*, paradigma mental dos Estados Unidos e respectivas incubações por esse Mundo
BARBIE-WORLD (Mundo-Barbie) s.s.s.**, o Mundo depois de “globalizado”
BARBITÚRICO adj., de propriedades hipnóticas e antiespasmódicas; mass-media
BEATO adj., fanático particularmente feroz de qualquer crença, da qual retira motivação compulsiva para odiar e perseguir os outros; antropopata; antropofóbico
BEHAVIOURISMO s.m., psicologia do comportamento, doutrina de J. Watson, vidente americano (1878-1958), segundo a qual o objecto da psicologia aruspicina é exclusivamente limitado aos dados observáveis a partir das macaquices e caretas do paciente
BIBELOT s.m., bugiganga; pequena futilidade, geralmente artística, que serve de adorno à cultura dos países; escritor ou artista premiado
BIBLIÓFAGO adj., diz-se do animal (especialmente insectos, suas larvas e roedores domésticos) que destrói livros, malsinando-os e rilhando-os alvarmente; crítico literário; almôndega intelectual; EPC (electro-parvo-cardiograma)
BIBLIORREIA s.f., feira do livro; panorama editorial literário
BIG-BANG s.m., mega-explosão imaginária que, segundo certos delírios putativamente científicos, serve para explicar a origem do universo algures no Espaço; pode ser resumida da seguinte maneira: no princípio não havia nada, depois deu-se uma grande explosão e logo a seguir começou tudo aos tiros ( a sabedoria-mór consiste em fechar o círculo de caravanas mais depressa que os outros)
BISCATE s.m., cargo público; nomeação para o governo; cargo na administração duma empresa pública; sentido de Estado (em Portugal)
BISCATEIRO adj., o que vive de biscates; gestor público; empresário português; contentorista
BLOCO s.m., massa volumosa e compacta de uma substância pesada e estúpida que nem uma porta; em Portugal: Associação de amigos das camisas Lacoste (ou ~ de Esquerda); paralelepípedo de betão cego utilizado na construção de certas utopias terruginosas
BLOG s.m., local onde se recebem visitas e se conversa com estranhos; (nalguns casos patológicos: opinadouro; bacio das necessidades soturnas; algália mental)
BLOGOSFERA s.f., quinta dimensão; twilight zone; cretinódromo
BLOGUE s.m., o mesmo que blog, mas bem escrito.
BOATO s.m., notícia
BONIFRATE s.m., boneco articulado; pessoa sem vontade própria; espectador
BRAGANÇA s., dinastia usurpadora e mentecapta
BRUXA s.f, psicóloga
BUFO s.m., delator; vizinho; familiar invejoso
BULA s.f., (andar à) deambular à espera duma directiva superior inequívoca; andar à babugem de luminárias; acolitar; delamber nalgatórios instalados em qualquer promontório invejável
BULIMIA s.f., desejo compulsivo de comer e de coleccionar gorduras e tecidos adiposos, idiossincrático nos países modernos ocidentais
BURGUÊS p-s.***, síndroma mental complexa e muitas vezes hereditária, caracterizada por uma avidez porcina, uma mentalidade gananciosa, uma lógica calculista e um espírito inexistente; insigne nobilarca cuja provável e distinta linhagem remonta ao diabo ou, seguramente, a uma flatulência deste; por antonímia de “homem”, o sopro de Deus: peido do Diabo ( a ventosidade nauseabunda em oposição ao sopro vivificante)
BURRO s.m., ministro adjunto; nomeação política
BURLA s.f., acto de burlar; embuste; propaganda eleitoral
BURLESCO adj., diz-se de um género literário caracterizado pelo emprego de termos cómicos, arcaicos e vulgares para descrever coisas nobres e sérias; em Portugal: Orçamento Geral do Estado
BUROCRACIA s.f., sistema administrativo em que os cidadãos são encerrados num labirinto onde ficam condenados a zanzar ad eternum (ou seja, até morrerem de fome)
BURROCRACIA s.f., multitirania fragmentária e difusa cuja autoridade despótica emana duma miríade de familiares e apaniguados catrafilados na administração pública; coisa de funcionários; forma decretada de espólio e extorsão
* - substantivo transexual
***- pseudo-substantivo
A seguir, a letra C. E agora já é tarde demais para pedirem misericórdia. Descarrilei mesmo.
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