
Dizem-me que é um dos suprassumos do marialvismo, mas eu não acredito. Torço mesmo o nariz. Refiro-me à tauromaquia e, com ênfase especial, aos grupos de forcados. Aquelas roupas esterlicadinhas, todas floridas e enfeitadas, as mãos à cintura, a gingarem-se feitos varinas (sobretudo o da cara, quer dizer, o das ventas do touro), não me inspiram grande confiança. Confiança nenhuma, devo dizer. Dir-me-ão que aquilo é uma verdadeira manifestação de testosterona, uma epopeia das antigas; e eu responderei “Sim, sim...pois, pois...”
É sabido que eu até nem vejo com maus olhos o marialvismo, que proclamo receitas musculadas para lidar com a emancipação feminil, que, em tempos, até abracei uma carreira de ferrabrás...Mas, por isso mesmo, estes bizarros moços, que ocasionalmente voam nas arenas, não me suscitam grande conceito. Tudo aquilo me parece suspeito. Tresanda-me a mero pretexto, a subterfúgio. Para aqueles desfiles afectados, para aquelas corridinhas saltitantes e, sobretudo, para se atirarem todos para cima uns dos outros, numa molhada a todos os títulos ambígua. Os do râguebi desculpam-se com a bola, estes é com o touro.
De facto, por mais que me expliquem com exaustão e pormenor a manobra, custa-me a entender aquela compulsão de se agarrarem uns aos outros e a um touro macho, chegando um deles a agarrar-se grosseiramente ao rabo do bicho. Se ainda fosse a uma vaca, vá que não vá: o bestialismo heterossexual sempre apresenta algumas atenuantes. A multiplicidade de têtas sempre justificaria a afluência em magote. Agora, assim, um bando de matulões a rebolarem-se com um touro macho – e bravo – em plena praça pública, não me parece decente. Quem me garante que, na confusão, não se apalpam uns aos outros e ao cornúpeto também?
Mas, como se estes detalhes nebulosos não bastassem, temos ainda o desfile e abordagem preliminar. Aí, o fenómeno é ainda mais escandaloso. Primeiro, como já referi (e toda a gente pode testemunhar) o da frente, pelos vistos o mais petulante, vai por ali fora, num quase ballet, a pavonear-se, a gingar-se, que mais parece uma peixeira. Um tipo à espera dum brutamontes, dum traga-mouros, a escarrar no chão, de olhos raiados, zangado, resfolegante, disposto a tudo, e sai-nos um engomadinho, todo aperaltado, ai não me toques, de colete às ramagens e calças que mais parecem collants. Depois, é o vocabulário, o palavreado fruste que brota das beiças do peralta dengoso. Quem esteja à espera de berros atroadores, de reptos assanhados eriçados de impropérios, sinal inequívoco de bravura e virilidade, em suma: quem esteja na espectativa dum Hércules, desengane-se. Nem sequer aquela cena tradicional, canalha, do gajo aos gritos “segurem-me!agarrem-me! Senão desgraço-me aqui hoje!”, com os outros a segurá-lo e a ministrar-lhe sedativos orais, estilo “acalma-te Tózé, não te desgraçes! Pensa nos teus filhos! Não vale a pena! O gajo ‘tá bêbado, Tózé!... etc,etc” Não, meus amigos, nem esse resquício de varonia, nem essa migalha. Em vez disso:
-“Eh toro! Eh toro lindo!:..”, cita a criaturinha. E não somos só nós a ficar estupefactos, repugnados, boquiabertos. O touro também. Suado, ofegante, olha para aqueles cromos, incrédulo. "Mas que totós são estes?", deve concerteza interrogar-se o desafortunado bicho, estarrecido. E o caso não é para menos. Está para ali o animal exausto, cravejado que nem um paliteiro gigante, a sangrar e a espumar-se de raiva, cheio de compreensíveis ímpetos de morte e trucidação, e, quando se prepara para um assalto final, para uma morte em glória, um fim digno, qual legionário em Dien Bien Phu – quando, enfim, já escarva trincheiras no solo–, saltam-lhe ao terreiro uns arlequins coquetes com meiguices de “eh tôro lindo!”
Lindo??!!! Tôro lindo??!!! Só falta chamar-lhe querido, fôfinho. Calculem que eu vou desafiar um cabrão qualquer e digo-lhe: “Eh gajo lindo!” Já viram maior mariquice? No mínimo chamo-lhe é “cabrão de merda!”, ou “filho duma grande puta”, ou, como é mesmo de macho, próprio de homem, não lhe digo coisa nenhuma e enfio-lhe é logo com uma cadeira nos cornos. Quem diz uma cadeira, diz um candeeiro ou, no mínimo, uma garrafa ou uma chave de rodas. Isso sim, isso é fazer a coisa com termos, com testículos, à portuguesa.
Mas qual quê, aqueles flausinos, em vez de dizerem “ó cabrão de merda! Ó grande filho da puta, manso do caralho!, ou de irem direitos ao quadrúpede e afiambrarem-lhe com uma peça de mobiliário nos cornos, literalmente, põem-se, em vez disso, com “eh toro lindo! Eh lindinho!...” Diabos me levem, se compreendo uma ternura destas!...
O touro, masculino, acho que também não compreende. Regra geral, fica para ali embasbacado, um ror de tempo, sem perceber muito bem se querem lutar ou namorar com ele. Eu partilho dessa dúvida.
Porém, não é tudo: Falta ainda a parte final da molhada, depois de se andarem a esfregar uns nos outros e na desprevenida alimária. Que fazem eles? Sim, depois da tentativa simulada de violação, largam a correr, pusilanimemente, cada qual para sua banda, excepto o que se agarra ao rabo, tipo obsessivo. Quer dizer, quando, fazendo fé que é uma luta (relembro que tauro-maquia, palavra grega, significa “luta” (maqué) de “touros” (tauros)), pois, dizia eu, quando estamos à espera que desanquem a besta, no mínimo até ao KO da dita ou pelo menos até uma fractura exposta; quando imaginamos uma chacina em ordem, com gritos e urros de arrepiar, de fazer as donzelas cobrir o rosto; quando espumamos de entusiamo antegozando para com os nossos botões “ah, agora é que vai ser, vão-lhe encher o cabaz, vai ver como elas lhe mordem!”, nada disso, nenhuma dessas medidas essenciais acontece. Pelo contrário, é um anti-climáx: todos à uma, excepto o tarado da cauda, uranista empedernido, debandam alegremente, como um bando de meninos rabinos que, finda a peça, regressam às saias maternas.
Digo mais: a continuar assim, não me admiro nada que, dentro em breve, hajam também mulheres forcadas. Se já servem para a tropa, se já as há até cavaleiras, melhor ainda se desembaraçarão a chamar “lindo!” ao touro. Ao menos não ofendem o animal.
É sabido que eu até nem vejo com maus olhos o marialvismo, que proclamo receitas musculadas para lidar com a emancipação feminil, que, em tempos, até abracei uma carreira de ferrabrás...Mas, por isso mesmo, estes bizarros moços, que ocasionalmente voam nas arenas, não me suscitam grande conceito. Tudo aquilo me parece suspeito. Tresanda-me a mero pretexto, a subterfúgio. Para aqueles desfiles afectados, para aquelas corridinhas saltitantes e, sobretudo, para se atirarem todos para cima uns dos outros, numa molhada a todos os títulos ambígua. Os do râguebi desculpam-se com a bola, estes é com o touro.
De facto, por mais que me expliquem com exaustão e pormenor a manobra, custa-me a entender aquela compulsão de se agarrarem uns aos outros e a um touro macho, chegando um deles a agarrar-se grosseiramente ao rabo do bicho. Se ainda fosse a uma vaca, vá que não vá: o bestialismo heterossexual sempre apresenta algumas atenuantes. A multiplicidade de têtas sempre justificaria a afluência em magote. Agora, assim, um bando de matulões a rebolarem-se com um touro macho – e bravo – em plena praça pública, não me parece decente. Quem me garante que, na confusão, não se apalpam uns aos outros e ao cornúpeto também?
Mas, como se estes detalhes nebulosos não bastassem, temos ainda o desfile e abordagem preliminar. Aí, o fenómeno é ainda mais escandaloso. Primeiro, como já referi (e toda a gente pode testemunhar) o da frente, pelos vistos o mais petulante, vai por ali fora, num quase ballet, a pavonear-se, a gingar-se, que mais parece uma peixeira. Um tipo à espera dum brutamontes, dum traga-mouros, a escarrar no chão, de olhos raiados, zangado, resfolegante, disposto a tudo, e sai-nos um engomadinho, todo aperaltado, ai não me toques, de colete às ramagens e calças que mais parecem collants. Depois, é o vocabulário, o palavreado fruste que brota das beiças do peralta dengoso. Quem esteja à espera de berros atroadores, de reptos assanhados eriçados de impropérios, sinal inequívoco de bravura e virilidade, em suma: quem esteja na espectativa dum Hércules, desengane-se. Nem sequer aquela cena tradicional, canalha, do gajo aos gritos “segurem-me!agarrem-me! Senão desgraço-me aqui hoje!”, com os outros a segurá-lo e a ministrar-lhe sedativos orais, estilo “acalma-te Tózé, não te desgraçes! Pensa nos teus filhos! Não vale a pena! O gajo ‘tá bêbado, Tózé!... etc,etc” Não, meus amigos, nem esse resquício de varonia, nem essa migalha. Em vez disso:
-“Eh toro! Eh toro lindo!:..”, cita a criaturinha. E não somos só nós a ficar estupefactos, repugnados, boquiabertos. O touro também. Suado, ofegante, olha para aqueles cromos, incrédulo. "Mas que totós são estes?", deve concerteza interrogar-se o desafortunado bicho, estarrecido. E o caso não é para menos. Está para ali o animal exausto, cravejado que nem um paliteiro gigante, a sangrar e a espumar-se de raiva, cheio de compreensíveis ímpetos de morte e trucidação, e, quando se prepara para um assalto final, para uma morte em glória, um fim digno, qual legionário em Dien Bien Phu – quando, enfim, já escarva trincheiras no solo–, saltam-lhe ao terreiro uns arlequins coquetes com meiguices de “eh tôro lindo!”
Lindo??!!! Tôro lindo??!!! Só falta chamar-lhe querido, fôfinho. Calculem que eu vou desafiar um cabrão qualquer e digo-lhe: “Eh gajo lindo!” Já viram maior mariquice? No mínimo chamo-lhe é “cabrão de merda!”, ou “filho duma grande puta”, ou, como é mesmo de macho, próprio de homem, não lhe digo coisa nenhuma e enfio-lhe é logo com uma cadeira nos cornos. Quem diz uma cadeira, diz um candeeiro ou, no mínimo, uma garrafa ou uma chave de rodas. Isso sim, isso é fazer a coisa com termos, com testículos, à portuguesa.
Mas qual quê, aqueles flausinos, em vez de dizerem “ó cabrão de merda! Ó grande filho da puta, manso do caralho!, ou de irem direitos ao quadrúpede e afiambrarem-lhe com uma peça de mobiliário nos cornos, literalmente, põem-se, em vez disso, com “eh toro lindo! Eh lindinho!...” Diabos me levem, se compreendo uma ternura destas!...
O touro, masculino, acho que também não compreende. Regra geral, fica para ali embasbacado, um ror de tempo, sem perceber muito bem se querem lutar ou namorar com ele. Eu partilho dessa dúvida.
Porém, não é tudo: Falta ainda a parte final da molhada, depois de se andarem a esfregar uns nos outros e na desprevenida alimária. Que fazem eles? Sim, depois da tentativa simulada de violação, largam a correr, pusilanimemente, cada qual para sua banda, excepto o que se agarra ao rabo, tipo obsessivo. Quer dizer, quando, fazendo fé que é uma luta (relembro que tauro-maquia, palavra grega, significa “luta” (maqué) de “touros” (tauros)), pois, dizia eu, quando estamos à espera que desanquem a besta, no mínimo até ao KO da dita ou pelo menos até uma fractura exposta; quando imaginamos uma chacina em ordem, com gritos e urros de arrepiar, de fazer as donzelas cobrir o rosto; quando espumamos de entusiamo antegozando para com os nossos botões “ah, agora é que vai ser, vão-lhe encher o cabaz, vai ver como elas lhe mordem!”, nada disso, nenhuma dessas medidas essenciais acontece. Pelo contrário, é um anti-climáx: todos à uma, excepto o tarado da cauda, uranista empedernido, debandam alegremente, como um bando de meninos rabinos que, finda a peça, regressam às saias maternas.
Digo mais: a continuar assim, não me admiro nada que, dentro em breve, hajam também mulheres forcadas. Se já servem para a tropa, se já as há até cavaleiras, melhor ainda se desembaraçarão a chamar “lindo!” ao touro. Ao menos não ofendem o animal.

Para efeitos práticos, resumir o homem a um “bom selvagem” ou a um “grande filho da puta”, redunda no mesmo. A antropologia pessimista, como a optimista, serve às mil maravilhas ao materialismo. Fazer fé num putativo (irra, como este adjectivo está na moda!...) idílio ou numa sacanagem perpétua, em teoria pode parecer antípodas, mas na prática conforma uma pocilga geminada.