quinta-feira, outubro 21, 2004

A Marialvice

Dizem-me que é um dos suprassumos do marialvismo, mas eu não acredito. Torço mesmo o nariz. Refiro-me à tauromaquia e, com ênfase especial, aos grupos de forcados. Aquelas roupas esterlicadinhas, todas floridas e enfeitadas, as mãos à cintura, a gingarem-se feitos varinas (sobretudo o da cara, quer dizer, o das ventas do touro), não me inspiram grande confiança. Confiança nenhuma, devo dizer. Dir-me-ão que aquilo é uma verdadeira manifestação de testosterona, uma epopeia das antigas; e eu responderei “Sim, sim...pois, pois...”
É sabido que eu até nem vejo com maus olhos o marialvismo, que proclamo receitas musculadas para lidar com a emancipação feminil, que, em tempos, até abracei uma carreira de ferrabrás...Mas, por isso mesmo, estes bizarros moços, que ocasionalmente voam nas arenas, não me suscitam grande conceito. Tudo aquilo me parece suspeito. Tresanda-me a mero pretexto, a subterfúgio. Para aqueles desfiles afectados, para aquelas corridinhas saltitantes e, sobretudo, para se atirarem todos para cima uns dos outros, numa molhada a todos os títulos ambígua. Os do râguebi desculpam-se com a bola, estes é com o touro.
De facto, por mais que me expliquem com exaustão e pormenor a manobra, custa-me a entender aquela compulsão de se agarrarem uns aos outros e a um touro macho, chegando um deles a agarrar-se grosseiramente ao rabo do bicho. Se ainda fosse a uma vaca, vá que não vá: o bestialismo heterossexual sempre apresenta algumas atenuantes. A multiplicidade de têtas sempre justificaria a afluência em magote. Agora, assim, um bando de matulões a rebolarem-se com um touro macho – e bravo – em plena praça pública, não me parece decente. Quem me garante que, na confusão, não se apalpam uns aos outros e ao cornúpeto também?
Mas, como se estes detalhes nebulosos não bastassem, temos ainda o desfile e abordagem preliminar. Aí, o fenómeno é ainda mais escandaloso. Primeiro, como já referi (e toda a gente pode testemunhar) o da frente, pelos vistos o mais petulante, vai por ali fora, num quase ballet, a pavonear-se, a gingar-se, que mais parece uma peixeira. Um tipo à espera dum brutamontes, dum traga-mouros, a escarrar no chão, de olhos raiados, zangado, resfolegante, disposto a tudo, e sai-nos um engomadinho, todo aperaltado, ai não me toques, de colete às ramagens e calças que mais parecem collants. Depois, é o vocabulário, o palavreado fruste que brota das beiças do peralta dengoso. Quem esteja à espera de berros atroadores, de reptos assanhados eriçados de impropérios, sinal inequívoco de bravura e virilidade, em suma: quem esteja na espectativa dum Hércules, desengane-se. Nem sequer aquela cena tradicional, canalha, do gajo aos gritos “segurem-me!agarrem-me! Senão desgraço-me aqui hoje!”, com os outros a segurá-lo e a ministrar-lhe sedativos orais, estilo “acalma-te Tózé, não te desgraçes! Pensa nos teus filhos! Não vale a pena! O gajo ‘tá bêbado, Tózé!... etc,etc” Não, meus amigos, nem esse resquício de varonia, nem essa migalha. Em vez disso:
-“Eh toro! Eh toro lindo!:..”, cita a criaturinha. E não somos só nós a ficar estupefactos, repugnados, boquiabertos. O touro também. Suado, ofegante, olha para aqueles cromos, incrédulo. "Mas que totós são estes?", deve concerteza interrogar-se o desafortunado bicho, estarrecido. E o caso não é para menos. Está para ali o animal exausto, cravejado que nem um paliteiro gigante, a sangrar e a espumar-se de raiva, cheio de compreensíveis ímpetos de morte e trucidação, e, quando se prepara para um assalto final, para uma morte em glória, um fim digno, qual legionário em Dien Bien Phu – quando, enfim, já escarva trincheiras no solo–, saltam-lhe ao terreiro uns arlequins coquetes com meiguices de “eh tôro lindo!”
Lindo??!!! Tôro lindo??!!! Só falta chamar-lhe querido, fôfinho. Calculem que eu vou desafiar um cabrão qualquer e digo-lhe: “Eh gajo lindo!” Já viram maior mariquice? No mínimo chamo-lhe é “cabrão de merda!”, ou “filho duma grande puta”, ou, como é mesmo de macho, próprio de homem, não lhe digo coisa nenhuma e enfio-lhe é logo com uma cadeira nos cornos. Quem diz uma cadeira, diz um candeeiro ou, no mínimo, uma garrafa ou uma chave de rodas. Isso sim, isso é fazer a coisa com termos, com testículos, à portuguesa.
Mas qual quê, aqueles flausinos, em vez de dizerem “ó cabrão de merda! Ó grande filho da puta, manso do caralho!, ou de irem direitos ao quadrúpede e afiambrarem-lhe com uma peça de mobiliário nos cornos, literalmente, põem-se, em vez disso, com “eh toro lindo! Eh lindinho!...” Diabos me levem, se compreendo uma ternura destas!...
O touro, masculino, acho que também não compreende. Regra geral, fica para ali embasbacado, um ror de tempo, sem perceber muito bem se querem lutar ou namorar com ele. Eu partilho dessa dúvida.
Porém, não é tudo: Falta ainda a parte final da molhada, depois de se andarem a esfregar uns nos outros e na desprevenida alimária. Que fazem eles? Sim, depois da tentativa simulada de violação, largam a correr, pusilanimemente, cada qual para sua banda, excepto o que se agarra ao rabo, tipo obsessivo. Quer dizer, quando, fazendo fé que é uma luta (relembro que tauro-maquia, palavra grega, significa “luta” (maqué) de “touros” (tauros)), pois, dizia eu, quando estamos à espera que desanquem a besta, no mínimo até ao KO da dita ou pelo menos até uma fractura exposta; quando imaginamos uma chacina em ordem, com gritos e urros de arrepiar, de fazer as donzelas cobrir o rosto; quando espumamos de entusiamo antegozando para com os nossos botões “ah, agora é que vai ser, vão-lhe encher o cabaz, vai ver como elas lhe mordem!”, nada disso, nenhuma dessas medidas essenciais acontece. Pelo contrário, é um anti-climáx: todos à uma, excepto o tarado da cauda, uranista empedernido, debandam alegremente, como um bando de meninos rabinos que, finda a peça, regressam às saias maternas.
Digo mais: a continuar assim, não me admiro nada que, dentro em breve, hajam também mulheres forcadas. Se já servem para a tropa, se já as há até cavaleiras, melhor ainda se desembaraçarão a chamar “lindo!” ao touro. Ao menos não ofendem o animal.

quarta-feira, outubro 20, 2004

A Metamorfose

Com o patrocínio de Franz Kafka e deste vosso humilde criado, aqui fica uma minuta que podereis utilizar para o personagem da vossa preferência. Significa isto que o nome do herói do pequeno conto é permutável: podeis substitui-lo por vários outros, a vosso gosto (eu sei que existem), que o texto não perderá sentido nem actualidade.

Quando Luís Delgado despertou, certa manhã, de um sonho agitado viu que se transformara, durante o sono, numa espécie monstruosa de animal: um homem.
Levantou-se, no singelo par de pernas, duma grossura espantosa, e, meneando um pouco a cabeça, constatou que o equipava agora uma coluna vertebral, bem como ossos e articulações por todo o corpo. Horrorizado, tentou deslizar viscosamente pelo quarto, como sempre fizera, mas só logrou espalhar-se ao comprido no tapete. Experimentou readquirir aquele teor celular gelatinoso, que tanto jeito lhe dava para se moldar e adaptar a qualquer circunstância ou conjuntura, mas em vão. Ao tentar exfiltrar-se sob a frincha da porta, à maneira dos moluscos, esbarrou com a cabeça teimosamente rígida contra a madeira impenetrável. Por mais que se contorcesse e contraísse, em busca das faculdades de larva ou lesma de outras épocas, o corpo, desajeitado, aprisionado naquele vil invólucro de mamífero superior, não respondia. Em desespero, tentou grudar-se à parede, de modo a amarinhar ao tecto, onde repousaria supenso em meditação, tentando congeminar uma solução para o ignóbil transtorno. Mas mesmo esse seu local predilecto, onde costumava exercitar o pensamento e alcançar as maiores inspirações, lhe estava agora inacessível.
Defronte do espelho, passou do horror à repugnância impotente. Em vez daquela baba peganhenta e esbranquiçada que tanta distinção ainda no dia anterior lhe conferia e lhe granjeara uma carreira triunfante e ascensional, coroavam-no agora cabelos ligeiramente mais finos e espetados que os dos macacos. Uma carantonha nojenta, com dois olhos descomunais e uma penca protuberante, fitava-o, hórrida, e adquiria, em simultaneo, uma cor lívida de suprema angústia. Delgado, munido subitamente dum pesadíssimo e complexo cérebro, com turbilhões de sinapses e neurónios, conseguia pela primeira vez arquitectar uma ideia e esta, para adensar o pesadelo, coincidia com um prognóstico: o de um futuro catastrófico e sombrio, em que a despromoção, o desemprego e o opróbrio lhes estavam reservados, caso não recuperasse urgentemente a sua forma natural de insecto. Escorraçá-lo-iam certamente como ao mais infame e repulsivo dos seres. Mal o imaginassem vertebrado, vertical, bani-lo-iam e ostracizá-lo-iam sem dó nem piedade, como a uma coisa obsoleta e inútil. Engoliu em seco. Um suor gélido começou a descer-lhe pelas costas, ao longo da coluna recente. Pior: como uma desgraça nunca vem só, juntamente com as vértebras experimentava doravante sentimentos, pelo que grossas gotículas salgadas, soltando-se dos olhos, inauguravam sulcos pelas asquerosas faces abaixo...Transformado num ser humano, num reles e insignificante ser humano, Luís Delgado encheu-se duma grande pena de si próprio.
E, contudo, pela primeira vez também na sua miserável vida, uma análise e previsão suas estavam rigorosamente certas.

terça-feira, outubro 19, 2004

Os Burrocratas da Sabedorreia

« -Ah, tu vens de Paris?! E não quedará mal perguntar em que é que os senhores estudantes de Paris levam o tempo?
- Transcruzamos a Sequana ao dilúculo e aos crepúsculo; deambulamos pelas compitas e quadrívias da urbe; despumamos a verbocinação lacial e, como veros amorabundos, captamos a benevolência do omnijuiz, omniforme e omnigénio sexo feminino. Em certas diéculas, vamos aos lupanares e em êxtase venérica, inculcamos as uretras nos penitíssimos recessos vaginais das meretrículas amicabilíssimas. Depois, caponizamo-nos nas tascas meritórias, com espátulas vervecinas, perfumadas com salsis e hortelanus. E se nossas barjuletas carecem de metal ferruginoso, para pagar a conta contorum, deixamos as sebentas e as véstias de penhor, até que nos chegue a mesada dos penates e lares do nosso paternal.
Arregalaram-se os olhos a Pantagruel:- Que raio de falar é este? És herético, pela certa!...»
- Rabelais, “Pantagruel”.

Já vai para quinhentos anos que Rabelais ridicularizou, justa e irremediavelmente, os sorbonículas, ou sejam, todos aqueles que mascaram a maior vulgaridade de espírito sob os rococós do paleio abstruso. E, não obstante, a praga continua, a epidemia não só alastrou como se multiplicou à enésima potência. Quem enche a boca a toda a hora com parangonas como “progresso” e “evolução” bem melhor será que repense a higiene da mesma.

Oiçamos um jovem assistente universitário, pelo ano da graça de 1981, numa alocução ao “Colóquio Kant”, numa Universidade cá do burgo:
«O debate em volta da concepção kantiana de história, e particularmente sobre a natureza e latitude do conceito de progresso, progride em uníssono com as próprias brechas causadas nos instrumentos de análise teórica do objecto histórico, pelo desenvolvimento frio e anónimo dos acontecimentos que consubstanciam o presente colectivo nas suas múltiplas dimensões, da economia à situação político-militar. Mas esse vértice de actualidade, com todos os seus convites à fuga para a frente ou à doutrinação da espera e do impasse, não ocupa todo o espaço de motivações capaz de explicar o interesse e a vivacidade polémica sugerida pelo estudo dos textos históricos de Kant.» Bla-bla-bla, e por aí fora.

Perceberam? Naturalmente, não é para perceber. O estudante sorbonícula de Rabelais ocupava o seu tempo, como diz o povo, em putas e vinho-verde. O jovem estudante cá do burgo, recentemente promovido a assistente pelos idos de 81 (actualmente, está quase catedrático), mais valia que o fizesse, pois nem esse mérito social alcança: limita-se a um onanismo verborreico, malabarismo palavroso perante uma assembleia tribal de saltimbancos académicos.
Não tenho dúvida que, assim como a religião tem sido estropiada pelos sacerdotes de todas as latitudes, também a filosofia tem sofrido as piores sevícias às garras dos escolastas de ontem, de hoje, e de sempre –universitários de toda a espécie. Lembram pirilampos armados em estrelas, fazem do papagaio o totem sagrado da tribo e praticam uma coscuvilhice de comadres mascarada de erudição rupestre. Colocar a sabedorreia no altar da sabedoria, esgota, de resto, as funções destes burrocratas do conceito.
Ao fim de um quarto de século de repugnadas e perplexas observações, acho que, finalmente, me aproximei duma definição.

Meditação sobre uma Vassoura

«Esse mero pau que estais a ver estendido aí a um canto abandonado vi-o eu outrora florescente numa floresta: estava então prenhe de seiva, carregado de folhas, cheio de ramos, mas hoje é em vão que a arte diligente do homem tenta lutar contra a natureza atando aquele murcho ramo de vergas ao seu tronco ressequido: fica exactamente o contrário do que era, uma árvore voltada ao contrário, com os ramos no chão e a raiz para o ar; presentemente é manejada por todos os porcalhões, está condenada a ser escrava deles e, por capricho do destino, tem a missão de limpar os outros objectos e de a si própria se sujar; gasta enfim até aos restos nas mãos das criadas e é condenada umas vezes a ser lançada fora e outras a acender o lume, como serventia derradeira. Contemplando eu estas coisas, disse para comigo: “É mais que certo que o homem é uma vassoura!”
(...)
Mas uma vassoura, podereis vós dizer-me, é o símbolo de uma árvore que se sustenta sobre a própria cabeça; e eu respondo-vos: o que é um homem senão uma criatura virada ao contrário, com as suas faculdades animais perpetuamente a cavalo nas suas faculdades racionais e com a cabeça no sítio dos calcanhares a rastejar pelo chão? E mesmo assim, com tantas deficiências, ele erige-se em reformador universal, em destruidor de abusos, cavaleiro andante de todos os agravos, sempre a esquadrinhar os esquálidos recantos da natureza, a trazer para a luz do dia as podridões ocultas, a erguer poeiras consideráveis nos locais onde nem sequer elas existem, deixando-se tomar muitas vezes da sujidade que deseja limpar; os seus últimos dias passa-os escravizado às mulheres, que no geral são as de menos mérito: até ao momento em que, como a sua irmã vassoura, gasto até aos restos, é deitado pela porta fora ou empregado em acender fogueiras a que outros se vêm aquecer.»

- Jonathan Swift, “Meditação sobre uma vassoura”

Conclui-se, num aforismo do mesmo Swift: “No geral os elefantes são desenhados em mais pequeno que o natural; mas as pulgas são-no sempre em maior.”

Também sibilinamente, eu corroboro:
É o anão que necessita de andas; e quanto maiores elas forem, maior ele se torna. (Decifração: o Homem é um anão cada vez menor com andas cada vez mais gigantescas. Quanto mais elas crescem, mais ele se atrofia.)

segunda-feira, outubro 18, 2004

Este Kant à beira-mar plantado

Embora não pareça e não sei quantos mil jornalistas insidiem e conspirem, Portugal é um país de génios. De génios, de doutores congénitos, de crânios predestinados, é o que vos digo! A prova? Nenhuma outra região do glogo, creio mesmo que da galáxia, reune sob as suas fronteiras uma tal densidade de eruditos em Kant. É preciso dizer mais? Experimentem, numa qualquer esquina, interrogar um transeunte, um indígena avulso, mesmo uma porteira que por ali ande, de cão em trela, à espera que a alimária se alivie... perguntem-lhe, vá. “Kant? Emanuel Kant, o filósofo de Konisgsberg?! –Obsequia-vos logo, o aborígene, todo pressuroso. –Não tem nada que enganar, amigo: segue sempre em frente, vira à direita, outra vez á direita, encontra uma praça, com um jardim, é aí mesmo!” E se não vos brindar, à despedida, com um trocadilho brejeiro –do estilo: “mas cuidado não vire à esquerda na segunda direita, senão em vez de Konigsberg vai dar a Caralhisberg, uma chatice, ah-ah-ah!...” – já ides com sorte. Isto tudo se, entretanto, qualquer outro basbaque, daqueles que rondam sempre de olho atento e ouvido à escuta, não flanar nas redondezas e se aperceber da questiúncula. Porque, nesse caso, arrepiai-vos boa gente, pois haverá debate pela certa. Kant é matéria que nenhum português de gema se atreve a deixar impune. O segundo obstará de imediato ao primeiro: “Olhe que não, está a fazer confusão. Aí, na praça, é o Hegel, o filósofo da dialéctica. Kant, o Emanuel, fica dois quarteirões mais acima, logo antes da Travessa do Fichte, o amigo do Schelling”. “Você está a fazer confusão entre o filósofo e o crítico da razão, ora essa!... –retorquirá, o primeiro. –“O crítico é que mora no Largo da Transcendência, o filósofo é como eu digo!...”
Nada a fazer: muni-vos de toda a vossa santa paciência e preparai-vos para uma logomaquia das antigas. Um terceiro, um quarto, não tardarão. Parecem moscas atraídas pela bosta. Em menos de nada já é um areópago, uma assembleia, uma conferência. Cada qual –e serão muitos, garanto-vos–, tentará impingir-vos um itinerário diferente, o último sempre mais peregrino e rocambolesco que o anterior. Quando começarem a berrar alto coisas como “Leibnitz”, a vociferar “Hume” e “Wolf”, e a mandarem-se uns aos outros para o Platão que os pôs ou a socratizar-se naquela parte que vós imaginais, então, temei, fixai que é chegada a hora de sairdes pianinho, à francesa, que o caldo, depois de ferver em três tempos, vai entornar-se pela certa. Ora, se o povo avulso é assim, imaginem agora os assistentes universitários, os catedráticos, os jubilados ( já não falando nos estudantes, essa inefável classe de vermes em trânsito para mariposas). Pois, envernizai a espontaneidade popular com uma camada lustrosa de neurose obsessiva e aí tendes o quadro dos eruditos (em acto ou im-potência). Resumindo: neste raio de país, não há quem não nos explique Kant, com minúcias do arco-da-velha, escalas mirabolantes e em versões tão abstrusas e estapafúdias que nem ao diabo lembrariam, mas todas elas geniais, é claro. Aliás, quanto mais abstrusas, mais talentosas, foras-de-série. Este, de resto, é um traço essencial do carácter luso, um fundamento da sua idiossincrasia: o português não exlica, complica. Respira convicto que saber uma coisa -dominá-la até à medula dos ossos-, é complicá-la, ou seja: arrastá-la pelos cabelos a um labirinto, atomizá-la num alucinante puzzle ou triturá-la em pasta homogénea, em puré imarcescível, com a varinha mágica da sua sobrinteligência. Os portugueses alcançam mesmo o prodígio inaudito de conseguir complicar Kant. E tudo isto duma forma inata, espontânea, enciclopédica. O preço para tanta glória? Apenas uma ligeira contrariedade... Emerso em tão feéricas e prolixas tramas, o patrício nunca entende as coisas: contende com elas. (Uma bagatela, portanto, Deus o abençoe).

sábado, outubro 16, 2004

Os Dragonários - I

Há momentos e tiradas na vida dos escritores –o vulgo chama-lhes excentricidades –, que, quanto a mim, valem um romance dos bons. São desarrincanços de puro génio, merecedores, não dum Nobel que é coisa vulgarizada, muito menos dum Óscar que pior um pouco, mas dum Dragonário, que é Distinção Nobilárquica da Ordem do Espírito que eu mandaria instituir após a minha morte, não se desse o caso –lastimável para o vertente projecto- de ser, eu, imortal.
Assim sendo, que se lixe! Atribuo-os em vida. E, dessa forma sincera, vou distinguindo mortos que são ainda mais imortais que eu.
Começo por um senhor chamado Gérard de Nerval. Consta que se suicidou, na rua da Vieille-Lanterne, em Janeiro de 1855. Subiu ao Olimpo da Bizarria no dia em que resolveu passear no Palais Royal, arrastando uma lagosta viva pela trela. Inquirido sobre tão insigne extravagância, respondeu: «Em que é uma lagosta mais ridícula do que um cão?... Gosto de lagostas, que são sossegadas, sérias, conhecem os segredos do mar, e não ladram.»

São estes raros momentos de clarividência sublime no espírito humano, juntamente com a música de Bach e Mozart que constituem provas inequívocas da existência de Deus. As únicas, aliás, que reconheço. Quanto ao famigerado “argumento ontológico”, escuso de vos dizer o local exacto onde podereis enfiá-lo (precisamente o orifício donde ele saíu).
O divino não se explica, manifesta-se.

sexta-feira, outubro 15, 2004

Liliput ou Lorbrulgrud

Para efeitos práticos, resumir o homem a um “bom selvagem” ou a um “grande filho da puta”, redunda no mesmo. A antropologia pessimista, como a optimista, serve às mil maravilhas ao materialismo. Fazer fé num putativo (irra, como este adjectivo está na moda!...) idílio ou numa sacanagem perpétua, em teoria pode parecer antípodas, mas na prática conforma uma pocilga geminada.
Todavia, não deixa de ter a sua piada o facto de, genericamente, a direita se reclamar da antropologia derrotista, e a esquerda se circunscrever na eufórica. Visto de cima, como sempre convém nestas coisas, com pinças, máscara e luvas (e um cacete bem a jeito, para o caso de alguma das bestas em análise acordar antes de tempo), dir-se-ia que o nó do problema (rotunda quer da coincidência, quer da derivação) consiste na mudança. Passo a explicar: é na relação com a mudança que uns e outros se definem ( e se geminam, tanto quanto se digladiam). Os da sinistra, viciados empedernidos nela (na mudança, claro está), colocam no termo da saga alucinante um corolário acabado e definitivo. Quer dizer, de charola permanente com o mundo, à pergunta “onde é que isto vai parar?”, efabulam um estado final de perfeição, de ordem incorruptível, e respondem, inerentemente, com um cais terminal da mais sublime estabilidade, um êxtase culminante que preencherá o resto da eternidade – um paraíso inoxidável, em suma.
Por seu lado, os da destra, abominadores encartados dessa mesma mudança, proxenetas maníacos do status quo, vociferam ao carrocel mundano, reforçam os travões da engrenagem e barricam-se na única imutabilidade que, em seu entender, conhecem e proclamam: a da maldade e macaquice atávica do ser humano. Esta, de tão retumbante e estagnada, será a única certeza inamovível do seu sistema, respectivo alicerce e trave mestra.
Destas posições inaugurais, fácil se torna depreender todo o restante novelo argumentativo: para uns, os da direita, de nada adianta mudar o mundo, porque o homem nunca muda, é sempre uma grandessíssima besta; para outros, os da esquerda, há que acelerar o mundo, pô-lo a rodopiar cada vez mais depressa, em frenesins caleidoscópicos, porque quanto mais depressa mudar, mais depressa atinge o seu fim –naturalmente- idílico.
Levar a sério qualquer destas fantasias dignas de manicómio é crer, opcionalmente, que é forçoso que o homem seja uma nuvem gigante ou um anão de merda.
Por último, resta-nos ainda o contra-senso com que se couraçam e se desfraldam aos séculos os próprios termos emblemáticos das duas seitas: enunciar o “bom selvagem”, ou o “grande filho da puta” aniquila-se per si – nenhum “selvagem” é bom, como nenhum “filho da puta” é grande. O conceito de “bondade” é estritamente civilizacional; e é porque se não tem grandeza –de alma, de coração, de inteligência, de humanidade enfim –, que se é filho da puta. Quer dizer, nem a selva é um palco moral por excelência, nem a filha da putice constitui faculdade e resultado de coisas grandes, elevadas ou meritórias.
O Grande filho da puta, na verdade, é um tipo minúsculo, ínfimo, microscópio. Visitamo-lo em Liliput. Já o “bom selvagem”, por seu turno, não deixa de ser uma verbosidade inflaccionada, um gigante feito de vento, um traque em peregrinação de sopro divino. E, geograficamente, se é que geografia tem, fica logo adiante, no naufrágio seguinte. A capital chama-se “Lorbrulgrud”. Swift deixou-nos indicações precisas sobre a latitude e longitude. Se tão exóticas paragens vos interessam, ide consultá-lo. Ele, que fez a viagem – a primeira ao “fim da noite”-, mostra-vos o caminho.
A mim ensinou-me uma das poucas verdades que julgo levar desta vida: a de que o destino da sabedoria é o naufrágio. Não é uma viagem a lado nenhum, como concebem os burgueses e as costureiras; não é um perambular zombificado pelas superfícies: é uma viagem ao fundo. Às vísceras e aos abismos. De nós, do mundo, e de tudo.

quinta-feira, outubro 14, 2004

O Handicap

Não sei se cada vez há mais homossexuais ou se apenas são cada vez mais ruidosos. Desconheço, na matéria em questão, se é efectivamente o número que tem aumentado, se apenas o barulho. Provavelmente, são as duas coisas: o efectivo e a algazarra. Proliferam e manifestam-se com crescente alarido. Ou então não é nada disso: apenas ganham coragem, à medida que os outros a perdem; apenas levantam a garimpa à medida que os outros a baixam.
Quanto à forma como proliferam, sendo certo que não se extinguem e, pelos vistos, até conhecem épocas em que se tornam infestantes (como a actual), o fenómeno está envolto em algum mistério. Os assumidos (ou gays veteranos, top-models) escorados na experiência, argumentam que se trata, sem sombra de dúvida, de um instinto inato ou, no mínimo, uma vocação congénita (se bem se lembram, levam no cu desde tenra idade, já no berço a paneleirice os convocava); os homofilos, à boleia duma empatia suave, larvar, sustentam que é uma opção legítima (sugerem que, atingida a maioridade, o cidadão escolha); e os homofobos, às voltas com uma grande náusea, afirmam peremptóriamente tratar-se duma doença, um desvio aberrante e perverso (recomendam que se tratem e internem urgentemente).
Não sendo questão que me tire o sono, a mim, suscita-me o seguinte parecer: estou em crer que haverá disso tudo na confraria – congénitos, caprichosos e aberrações. Mas se me perguntarem qual é o mecanismo efectivo de reprodução eu direi que é o recrutamento. Como em tudo, haverá um núcleo, e uma miríade atomizada, orbitrante, à volta do núcleo. O núcleo atrai aquelas partículas todas – polariza, despolariza, concentra, irradia, em suma: pauta as circunvoluções. Se estivessemos a falar do mundo atómico, chamaríamos ao mistério que acciona o carrocel, “energia”. Como estamos a falar do mundo “gay”, a limite, acaba por não ser mistério nenhum. Chamem-lhe “dinheiro” e estamos conversados.
É por isso que, nos dias que correm, a homossexualidade deixou de ser crime: porque compensa. E para aqueles que a Maçonaria ou a Opus Dei não convidam, constitui, de facto, uma “via alternativa”.
Era o meu pai que me dizia, sibilinamente: “Olha, meu filho, nunca te esqueças que partes sempre em desvantagem com as mulheres: elas têm uma quinta entre as pernas.” Muitos anos depois, acho que já reuni dados suficientes para vencer a perplexidade e responder: Pois, ó pai, ainda é pior do que tu pensavas: parece que não é só com as mulheres que parto em desvantagem; é também com cada vez mais homens: também têm uma quinta ao fundo das costas.
Encaro a coisa filosóficamente: é o meu handicap.
Anormais, eles? Não, meus caros: da maneira que isso aí fora vai, o anormal sou eu. Deixemo-nos de ingenuidades.

terça-feira, outubro 12, 2004

A Fome e o Veneno

Sua Excelência, o digníssimo Presidente da nossa abananada República, num assomo de rara energia e surpreendente braveza, propõe-se acabar com a censura. Denuncia-a e juramenta-a de morte. Tudo no mesmo dia. Se abananados estávamos, ainda mais abananados ficámos.
Será possível? Uma democracia tão donairosa, tão impoluta, tão pudibunda como a nossa –um regime que qualquer Pangloss céptico não hesitaria em catalogar entre a melhor das democracias possíveis no pior dos mundos imagináveis –, pois, uma maravilha destas, será possível que esteja também ela contaminada, infectada, conspurcada por tão imundo escarépio? Um santuário tão sublime, afinal, diz o próprio Sumo-sacerdote, acoita vampiros e Procustas mutiladores?!...
Como interpretar tão apocaliptica sentença? Devemos correr aos supermercados, como fazem os pobres americanos em véspera de furacão? Impõe-se-nos açambarcar gasolina nas banheiras e produtos essenciais nas garagens? Comprar máscaras? Escavar abrigos subterrâneos? Acolchoar as janelas? Correr às igrejas, em preces de emergência, ou aos filósofos estóicos, em cursos rápidos de resignação? Alguém que nos diga, por amor de Deus! Monte-se um gabinete de crise, uma comissão de acompanhamento das vítimas (que somos e seremos aos milhões, a cair que nem tordos certamente)! Improvisem-se, ao menos, hospitais de campanha, que diabo!... Não se escaqueiram assim as ilusões das pessoas, as concepções idílicas dos cidadãos, o paraíso terreal das hostes, e depois assobia-se para o lado, como se nada fosse! Pelo menos afixem um anjo, nem que seja de barro, e com uma espada de plástico, de sentinela a qualquer retrocesso! Exactamente: À falta de decência, que se salvaguarde um mínimo de dignidade! Atirem-nos no abismo, mas ao menos puxem o autoclismo, irra!...
E, acima de tudo, que compareçam hermeneutas, tradutores, intérpretes! Afinal, que quer dizer Sua Excelência com aquilo –“censura”?
Referir-se-á ao “critério editorial”? O bendito e imaculado “CRITÉRIO EDITORIAL”, por Belenos e Toutatis?!!...
Não posso acreditar. Não quero acreditar. Recuso-me, entrincheiro-me. Nem sob tortura conceberei algum dia tal coisa, tão tremenda abominação. Porque se assim fôr, Sua Excelência que me perdoe a frontalidade, mas blasfema. Blasfema, pragueja, ribomba, com quantos dentes tem, contra o Santíssimo e Altíssimo Mercado. Cospe, despeja, escarra no altar das Leis da Oferta e da Procura, essas Tábuas Santas com que Moisés desceu da montanha. Se o público quer (melhor: exige, reclama, decreta imperiosamente, a toda a hora, de toda a maneira possível e imaginável), novelas e supernovelas –ou sejam, desastres, escândalos, crimes, aberrações, horrores, mentiras, ordinarices, infâmias e quejandos -, que alternativa resta aos profissionais da Comunicação Social, seus vassalos e fornecedores, senão subministrar-lhe os carinhos, substâncias e serviços requeridos?
Vamos imaginar, por hipótese, que não o faziam. Que armavam em vanguardistas peregrinos, amantes da verdade e da decência, paladinos da sensatez e bom gosto. Num instante, ei-los a emitir às moscas e a publicar para o boneco. Num ápice, despenhavam-se as audiências e emagreciam, anoréticas de leitores, as tiragens. Milhares de árvores sacrificavam-se em vão: o papel saía direito do prelo para a lixeira, sem passar pelo olhar guloso da multidão. Quer dizer, sem passar sequer pelo caixote do lixo.
Pois é, em menos de nada faliam jornais e televisões, rebanhos descoroçoados de jornalistas e locutores caíam no desemprego, arrastavam-se pela penúria, perdiam casas e carros, vendiam na feira da ladra os guarda-roupas, cancelavam férias nos trópicos e, de neurónios arquejantes, paranóicos, entupiam os consultórios de psiquiatria, psicologia e similares (ou sejam, bruxas, cartomantes, astrólogos e grandes magos africanos). Entretanto, com tudo isso, lá vinha mais uma sobrecarga para o erário público, já de si tão extenuado: o subsídio de desemprego desta gente não devia ser bagatela nenhuma. A alternativa, não menos sinistra, seria subsidiar os jornais e televisões para que conduzissem campanhas de desintoxicação pública. Pior um pouco, além de imoral, se querem a minha opinião: Lá estava o desgraçado do contribuinte, do público enfim, a pagar por um serviço que lhe causava vómitos, ressacas e sabe-se lá que paroxismos de violência, Deus nos guarde. Por essa ímpia via, para que jornalistas e locutores se aguentassem, mergulhava a economia -toda, e de cabeça - no caos. Porque, sem audiências nem tiragens, não só a desintoxicação fracassava redondamente, como a publicidade ia a pique. Ora, sem conseguir impingir ao pagode as suas porcarias, bugigangas e mixórdias absolutamente supérfluas, desnecessárias, estupidificantes, mas essenciais para a bolsa de negócios, as empresas enfrentavam a ruína e, se não debandassem de urgência para a Cochinchina, entregar-se-iam certamente a estertores e colapsos monumentais. Salvavam-se, por conseguinte, os jornalistas, momentaneamente, mas baqueava tudo o resto, bancos incluídos, porque só de crédito mal parado era uma farturinha, que nem no tempo da mulher da fava rica. Iam cobrar ao Camões, coitaditos dos agiotas. Transformava-se o país numa Guiné. Assim, ainda é uma quase-Angola, mas, insista Sua Excelência no súbito rebate de consciência, e o trambolhão será garantido. Desaba tudo, está bem de ver, num estrondo atroador, e, do “Sem Juízo nenhum”, alcançamos, sem mais preâmbulos nem estações, numa comilonice esbaforida de etapas, o Juízo Final. É mais que certo: Vamos levar com o Céu em cima da cabeça. O que adicionado ao Vazio que cultivamos dentro dela não nos augura uma velhice sossegada.
O que é, então, censurável? Zelar por um critério que dê ao público e aos seus fornecedores profissionais aquilo que todos querem –escândalos e sordidezes àquele, carros, dinheiro, mordomias e viagens a estes; ou irromper aos gritos e remoques contra esta bela harmonia, em ameaças intempestivas contra este equilíbrio natural das coisas?
Sua Excelência, lamentavelmente, confunde o acessório com o essencial. Irrompe em censuras para combater a censura. Acha que empresas que vendem essencialmente publicidade e acessoriamente (des)informam, isto é, cuja função geral de programação é atrair basbaques para a propaganda comercial, são, ou deveriam ser, palcos da notícia séria ou da opinião isenta.
No seu esbracejar tímido, lembra aquele rei distraído que inaugurou a guilhotina: ainda não percebeu que os verdadeiros tribunos do povo, seus representantes efectivos à Convenção, Robespierres e Saint-Justes da nossa época, são os Eduardos Monizes, Balsemões e Amarais todos da paróquia.
Portanto, se Sua Excelência tem amor à reforma, que não será certamente ninharia nenhuma, bem melhor fará se, de cada vez que se descobrir de saco cheio, se puser a reciclar o saco. E se a gambosinagem, pelos vistos, já o enfada, varie: aproveite para enfiar a viola nele. Não vá, em nome duma qualquer liberdade de opinião que, em rigor, a poucos interessa e raramente existe, dar cabo do emprego e ganha pão, no mínimo, de centenas de jornalistas, gente selecta, licenciada, com carros e casas para pagar e férias nas Caraíbas para descomprimir. Já não falando no colégio dos filhos e nos up-grades permanentes que esta nossa sociedade alucinante exige, sob pena de censura, essa sim arrepiante, insidiosa, permanente, de colegas e vizinhos.
(E aqui entre nós, Excelentíssimo: Ficam-lhe bem esses sentimentos, apesar de esporádicos e serôdios. Todavia, acha mesmo, Vª Excª, que fechar a matraca à generalidade dos comentadores e analistas da nossa paróquia seria uma acto de censura? Não o atormentasse essa obstipação nasal crónica, perdoe-me Vossa Alteza a inconfidência, e verificaria como não passaria, na verdade, isso sim, de um acto de higiene).
Pior que reprimir a liberdade de expressão é falsificá-la. Mais infame ainda que a fome é o veneno.

domingo, outubro 10, 2004

A Vaca Sagrada

Autêntica vaca sagrada do nosso tempo, xarope obrigatório das alminhas, a democracia representativa preside ao consenso das igrejinhas e ao credo dos sacerdotes da Opinião.
Em teoria, a democracia representativa, desfila nos mais virtuosos trajes. Em teoria, o socialismo precedeu-a na mesma procissão em anjélicas vestes. Mas na prática, de roldão com as imundícies da realidade e do mundo concreto dos homens (e, sobretudo, dos negócios), o socialismo foi o que se viu e a democracia trabalha num bordel. Entre nós, por exemplo, nos antípodas da exemplaridade teórica e do altar onde lhe beatificam o espantalho, a ribaldaria já atingiu o requinte da maioria da população –e isto em ocasiões sucessivas –, nem se dar ao trabalho de participar nos sufrágios, de tal forma considera insignes os seus “representantes”, e determinante para o seu futuro o valioso acto. Os tais representantes, por seu turno, revelam uma tal estatura moral, que seguem risonhamente, em alegre pandilha, como se nada se passasse. O óbvio é sempre o mais difícil de compreender: na verdade, é com toda a justeza que se apelida a jigajoga de “representativa”, pois não se esmera e refina ela na representação –pelo menos– teatral? Chegar-se-á ao ponto, não duvidem, de noventa por cento da população se abster e, mesmo assim, a festiva representação não esmorecerá. Os convivas continuarão a celebrar, sabe Deus o quê, abraçados aos comensais. Nunca encontrareis figuras mais ufanas de si, mais compenetradas do seu papel, que as marionetes.
Quanto à única repercussão que tudo isso parece ter é de ordem mimética: quanto mais a população se abstém de votar, mais os seus proclamados representantes, por simpatia, se abstêm de governar. Resvala assim, a santa democracia, para um regime sui generis em que nem o povo vota, nem os eleitos governam –uma espécie de variação em sustenido menor de “nem o pai morre, nem a gente almoça”.
Ou então desdém com desdém se paga: “não quero saber daqueles gajos pra nada”, diz o povo, alvejando os políticos; “não quero saber desses gajos pra nada”, respondem os políticos, borrifando o povo.
Vota, portanto, cada vez menos a maioria – maioria, essa, que constitui, em tese, a grande legitimidade da democracia, o seu argumento-mór-, e vota cada vez mais o rol exclusivo de minorias agremiadas sob a forma de partido, lobby, seita – clientelas, enfim. Por esta altura do campeonato, a coisa, com pompa e circunstância cada vez mais fruste e meramente emblemática, já tresanda a mera fantasia, já se confunde com tragicomédia lúgubre e fantasmagórica.
Há quem argumente que as pessoas não votam por falta de civismo, de cultura democrática, de maturidade política etc. São, dessa forma pilatesca ou meramente defecante, uns bárbaros, uns irresponsáveis, uns ígnaros, uma horda pueril e mal-educada e, assim sendo, ainda bem que não votam. Não são dignos do voto santo tão heróicamente resgatado das garras da tirania.
Este argumento solene, naturalmente, é originário da minoria, dos tais partidos, seitas, famílias (e respectivos apaniguados). É um falso argumento, exercício gratuito de conveniência e apenas ajuda à missa fraudolenta que decorre. A generalidade das pessoas que não vota, pura e simplesmente, já não se sente representada, nem se revê minimamente no teatro que é suposto ser celebrado em sua honra. E, por mais distraída ou desinteressada que seja, ou pareça, já percebeu uma evidência que, de tão grosseira, até brada aos céus: A de que a representação decorre e decorrerá sempre à margem do seu voto. Voto esse, regalia sublime, que, entretanto, na retórica é fundamental, mas na realidade é irrelevante.
O cheque é sempre em branco e o otário assina de cruz.
As tiranias e as pseudo-democracias do nosso tempo têm, pois, de comum esse paradoxo simultaneamente diferencial: o de sermos dirigidos, à canzana, por um imbecil ou por uma chusma deles.
Uma vez que a sociedade, ao contrário do processo de constituição idílico que presidiu –em teoria – à sua génese, se tornou num mero esquema de corrupção dos presumíveis entes que a constituem, torna-se quase forçoso que quem quer que se meta a brios de a capitanear, ou se candidate a tão prestigioso posto, se distinga acima do vulgo no infame e execrável mister de viciar, degenerar e devassar os outros.
Em resumo: Numa república de estúpidos, os digníssimos eleitores elegerão invariavelmente os mais estúpidos de entre eles. Ou o mais estúpido de entre os estúpidos notáveis prescindirá dessa formalidade redundante e, em donaire de príncipe, assumirá, como privilégio exclusivo, essa repugnante tarefa.
Só fantasistas próximos do mais desenfreado delírio poderiam imaginar que num regime absoluto de estupidez qualquer êxito ou bom sucesso estará reservado à inteligência. Todo aquele infeliz a quem esta contamine e desgrace, o melhor mesmo que tem a fazer é tentar disfarçar –o mais discretamente possível – tão inoportuna enfermidade.
Começa a ser já uma questão de sobrevivência.

quarta-feira, outubro 06, 2004

O Código da Treta


A montra, duma qualquer livraria (quem vê uma, vê todas), transbordava de lixo imprimido. Se vendesse sabonetes ou shampôs seria cem vezes mais honesta; ou então perucas, vernizes, bronzeadores, laxantes. No fundo, é já isso que vende, mas metaforicamente, em sublimado. Questão de embalagem: em vez de drageias ou supositórios, de spray ou bisnaga, são calhamaços ou edições de bolso.
Não obstante, lá resplandecia uma panóplia dessas obras garridas, pujantes diarreias encadernadas, a transbordar de caracteres fatais. São livros em traje ínfimo, obras de vida fácil, expostas de modo a atrair parolos facilmente deslumbráveis, ou aflitos por uma experiência limite, nas faldas do abismo da sida mental.
Ao observador experiente, aquilo não engana: Há toda uma literatura da meia-porta em dengoso reclame e sugestiva lingerie. Subitamente, num relâmpago, ocorrem-me até certas montras de Amsterdam. Muito mais dignas, as de Amsterdam. E interessantes. Nas putas, reconheço-o, sempre preferi o corpo às ideias. O Verbo e a puta não combinam. Deviam fazer como certas ordens freiráticas: abraçarem votos de silêncio (já que de castidade seria ruinoso). Consigo mesmo conceber a castidade numa puta (a castidade possível, bem entendido): uma puta calada, quanto a mim, poderia ser considerada uma puta casta, porque não? Mas nestes nossos conturbados tempos, puta silente é espécime raro, pérola difícil de encontrar. Mesmo em plena felação, assoberbada de intenso gargarejo e engasgada com grossíssimo volume, a puta cisma de ir gorjeando opiniões, notas de rodapé, comentários. Se um tipo se descuida, ei-la que se mete a brios e desata num romance. Quer contar-nos vidas e enredos, a sua em primeiro lugar. Descuide-se ainda mais um gajo e, pelo meio, intercala ilustrações poéticas e citações eruditas. Agora, então, que as universitárias, discentes e docentes, abraçaram o ramo... É uma chilreação completa e dodecafónica.
A mim, isso contraria-me, enfada-me. Outros há, tipos bizarros, que se adaptam a qualquer extravagância dos tempos. Cito-vos um caso sui-generis: Um tipo meu conhecido, quase avô, misantropo impenitente, chegou mesmo a um acordo conubial extra-doméstico (passe o paradoxo): juntou no mesmo pacote, por comum acordo, felatio e notícias. Quer dizer, a profissional chupa-o e pôe-o a par dos últimos acontecimentos, lê-lhe o telejornal. “Escuto-a repimpado”, garante ele. “Ao mesmo tempo –acrescenta–, realizo uma fantasia antiga e imagino que é a Judite de Sousa (ou então a Clara do mesmo apelido) que me entrevista”. Que querem que vos diga? É um noticiário como outro qualquer, admito. Poderá até ser um programa de grande informação, não discuto. Tem, não me custa reconhecê-lo, algumas vantagens em relação à modalidade clássica: sempre é melhor que nos chupem a altiva gaita do que nos vão ao incauto e desvalido cu, ainda por cima em directo, com a maior desfaçatez e ufana impunidade. Portanto que faça de locutora, a puta incontinente, verborreica, que leia o boletim meteorológico ou entreviste um doutor Ginjas qualquer , é com’ó outro: não me escandaliza. Entre a Comunicação Social e a Literatura há, de resto, um abismo, um báratro escancarado. Aristóteles, na “Poética”, delimita-o: uma, a Literatura, trata do verosímil; a outra, sabemos nós, estamos mesmo fartos der saber, embrenha-se, feita exploradora amazónica, pelas selvas do inverosímil a fora. Melhor: vende-o, impinge-o, ao jeito dos charlatães de todas as épocas, em frasquinhos de banha da cobra com rótulos de “verdade”, “facto”, “análise”, “actualidade”, etc. São histórias, regra geral, sem pés nem cabeça, peripécias absurdas, enredos histriónicos, desenlaces irrisórios. Ao contrário do terror e da piedade, desperta a indiferença, a abulia e o amorfismo no ouvinte. Dizem-me que é propositado, premeditado, e eu, sem grande esforço, até acredito. Mas, pronto, são coisas de putas...A falsidão e a perfídia está-lhes na massa do sangue.
Agora, que a puta se ponha a escrever romances, aí, confesso, brado-o de viva voz, é amalgamar tudo numa salganhada babélica e nauseabunda. É submeter a literatura aos atavios da Comunicação Social; é entregá-la à supervisão de proxenetas e obrigá-la a montar guiché, semi-despida, nos passeios e esquinas mal frequentados, após o crepúsculo. E isso, digníssimos leitores, não é de puta, é de monstro. Mais que ao felatio, o putedo entrega-se à quimera. Em vez de realizar as fantasias do cliente, como manda a ordem natural das coisas e a tarifa previamente acordada, pôe-se a realizar as suas. Em vez de servir o cliente, serve-se dele: cobra-lhe e vigariza-o na sua boa fé. Simula a felação, mas na verdade, armada em garanhã peregrina, quer é montá-lo, submetê-lo a trabalho forçado, a escravatura dissimulada. Isto, repito, já não é putice; e, tanto quanto monstruosidade, é política, é ciência, é ficção científica – é o que lhe quiserem chamar, mas, aviso já, não tem dignidade nenhuma. Quem tal faz já nem uma digníssima puta é. Nem aprendiz de puta!, nem projecto rudimentar de galdéria, sequer! Em vez de chupar a gaita ao necessitado, mete-se, doida de petulância, a detonar Génesis e Universos paralelos, a flirtar transcendências e dinastias celestes!...
Que uma mulher, de emboscada, numa qualquer esquina da vida, nos ataque com o seu invólucro carnal, nos assalte com a imponência das suas curvas, é justo. É uma luta corpo a corpo, uma refrega homérica, um duelo de titãs. Mas quando a puta se arma de ideias, de teses, de teorias da conspiração, da transpiração ou do diabo que a carregue, é a antecâmara do massacre!; é, não duvidem, o prelúdio do fim do mundo em cuecas.
Entendamo-nos: aquele conjunto mais ou menos atraente de mamas, nalgas e coxas que, simultaneamente, constitui e reveste a puta (que congrega, portanto, essência e aparência da criatura), esgota o assunto. Que exerça em broche expresso ou capuccino, que se pós-gradue em sodomias ou sado-masoquismos, que se faça cobrar a peso de ouro pelos títulos, tanto quanto pelas perícias e registos curriculares (que entalhe, inerentemente, marcas no cabo do chicote ou tricoteie piercings nas bordas da cona), é-me indiferente. Deveras! Aliás, até acho bem; resulta pitoresco. Mas que se deixe de metafísicas, que não arme em esotérica. Puta sábia não aturo; puta investigadora, enfarpelada em pseudo-objectividade é que não! A tal categoria de puta, artigo claramente deteriorado, só se concebe um destino: remetimento à procedência, à cloaca vil da mãe dela, quiçá sua mestra e promotora.
Perdoar-me-ão a brutalidade dos termos, a falta absoluta de paciência, mas foi o que me ocorreu escrever acerca duma montra de livraria. Para ajudar à descodificação da alegoria, acrescento apenas que a preenchiam, à dita montra, em expositório escrementício, uma resma de hamburgueres disfarçados de livros e outras tantas bostas em forma de hamburguer. Os títulos são o menos importante: quer se chamem “Código Da Vinci”, “Harry Potter e o peido Mágico”, “O segredo dos Templários”, “As bruxas de Avalon”, ou “Os Cinco na Torre do farol”, são tudo colheitas sucessivas duma mesma saga. E as autoras, ainda que ocasionalmente assinem com supostos testículos, não passam de pseudónimos e epónimos da sempiterna Enid Blyton, aliás J.K. Rowling, aliás Zimmer Bradley, aliás, D. Brown, aliás etc. Há toda uma fábrica anglosaxónica de esterco tipografado que não dorme nem descansa. O seu lema? Fazer do imberbe imbecil e do adulto, imberbe. E fazer dinheiro com isso tudo.
Assim sendo, só me resta concluir: se é isto que as hordas lêem, se é isto que as lojas de livros vendem, então, Ele que me perdoe o mote, mas “bem aventurados os analfabetos!”

quinta-feira, setembro 30, 2004

A Turba

A turba acorre ao infanticídio como converge para qualquer desastre na auto-estrada. Ao agitado, ávido perpétuo, convoca-o a contemplação voluptuosa da desgraça, excita-o a chafurdice na miséria alheia. Convence-se que é seu dever postar-se ali de plantão, de basbaque, à coca de pormenores escabrosos, de tripas e postas, que o façam repugnar e insurgir-se muito, inflamar-se e consumir-se por combustão espontânea. Aproveita para jactar aquilo que não tem: coragem e, muito menos, compaixão. Anseia por execrar um qualquer mais execrável que ele – um desqualificado infame que, no seu opróbrio vertiginoso, a faça, por momentos, guindar-se aos píncaros da tribuna e da sobranceria. Lá bem no fundo, turvamente, pressente que a lotaria do destino escolheu o outro como o poderia ter escolhido a ele. Que gostaria agora de massacrar o ignóbil arguido tal qual, mergulhado na ratoeira das circunstâncias e da desalmação, poderia também ter feito sabe Deus o quê à criancinha tragada pelo mistério e esquartejada pela boataria. Isto que o irmana é, intimamente, também aquilo que o indigna, que o pôe fora de si, a bramar e a cuspir ao vento, para se expurgar de toda a conivência, ou pior: de toda a comunhão. Por isso, numa velada exasperança, compensa essa empatia visceral com uma antipatia aparente, exagerada. Urra e descabela-se, num furor desengonçado e fictício. Vocifera à passagem das câmaras. Pormenor, aliás, sintomático e revelador: Mal se sente focado, ou meramente em plano de fundo, desata no folclore de carpideira a soldo, de possesso por encomenda, e redobra nos bramidos, nos guinchos, nas injúrias e ameaças ao veículo que passa. É o eterno figurante que almeja tornar-se protagonista. Exibe-se em espalhafatos de gorila zangado, ou, sendo fémea, de saguim estrídulo. No resto do tempo rumina, opina, pasta e fala ao telemóvel. Transmite relatórios in loco, manda SMSs aos amigos que, com muita pena sua, não poderam vir. Imita, à sua pequena escala, o jornalista sobreactivo (minto: o jornalista é que o imita a ele; o jornalista é que é, cada vez mais, um labrego armado com um microfone e uma câmara de filmar). Mas, sobretudo, julga, acusa e condena. Animam-no ímpetos de verdugo, de magarefe justiceiro, de facínora santo e redentor. Tanto quando espreitar, quer espezinhar, cuspir, vituperar, para se sentir acima, para sacudir de si a mancha, todo e qualquer vínculo que o possa indiciar ou aparentar à abominação. Despe-se de qualquer familiaridade ou comunidade com ela, e vai queimar a roupa no alto dum salgueiro, como, diz a lenda, fazem os lobisomens para esconjurarem o fado.
Debalde. Pior mesmo que nascer sem dinheiro, no mundo de hoje, é nascer sem alma. Nesse aspecto soberano, o mundo de hoje, afinal, não se distingue do mundo de sempre.

Entretanto, os media comandam a assuada, fazem de picadores na arena. O boato amplificado e mega-repetido para toda a paróquia traveste-se de notícia. Os doutores da informação, pivôs de serviço, levam o diz-que-disse a todo o país e às comunidades no estrangeiro. Até Angola e Moçambique ficam a saber. Para isso tiraram o curso, os doutores. Para bradar a toda a parte, com engenho e arte. Os repórteres no terreno, esses, alimentam a caldeira, catalizam e dinamizam a histeria, chafurdam e gargarejam mais que todos. Guiados por batedores locais, espreitam os polícias que, por sua vez, aproveitam para se dar ares misteriosos. Repórteres e polícias espiam-se, competem, disputam a titularidade na investigação. Alguns populares mais expeditos também. Mas são os repórteres quem lidera o arraial. Registam e transmitem todo e qualquer murmúrio ou desabafo. Impedidos de interrogarem pessoalmente os suspeitos, de espremê-los até á última gota, vingam-se e interrogam toda a restante família e quem quer que lhe apareça à frente. Sabedora deste vórtice colector, a população acorre a prestar declarações, a dizer de sua justiça, a vazar os seus palpites. Mas desengane-se quem pensa que são só os mamíferos lá do sítio e arrabaldes. Não, adicionem-lhes excursões de terras longínquas, espontâneos de toda a espécie, mirones peregrinos em romaria e, por todo o país, à hora do telejornal, do Director da Judiciária ao Ministro, passando pelo Cardeal patriarca, não há quem não queira dar uma palavrinha, declarar, meter colherada. Rebentam análises em todas as praias. Como um buraco negro, o écran tudo absorve e desdobra numa dimensão paralela. A turba no terreno prolonga-se e multiplica-se, através duma rede de canais e tentáculos, na turba no sofá. Não são só os da beira da estrada que vociferam e vituperam o assassino que passa: são também os domésticos, à distância, nas salas de jantar, aos rosnidos, clamores e juras por sangue redentor, por retaliação imediata, demolidora, peremptória. Não são só os observadores atentos no terreno que reparam, perspicaz e argutamente, que o fulano alegadamente malvado, tio da vítima, não muda de camisa há três dias; é também a chusma domiciliada a contra-gosto, que corrobora e disseca. Não tarda muito e dissertarão, todos eles, eruditos, sobre a marca, etiqueta e teor em fibra da mesma. Entra-se nos domínios da decifração de augúrios.
Há que reconhecê-lo: O linchamento televisivo –como as execuções na praça pública, do antanho – une definitivamente as alminhas numa comunhão nacional. O fenómeno só encontrará talvez paralelo na fraternidade que acompanha o golo, em casa e no estádio, em jogos decisivos da selecção.
Agora imaginem o quanto não vale todo este pagode em ponto de rebuçado, neste estado fértil da pasta encefálica, para efeito de injecções publicitárias?!...Quanto não cobram os bandarilheiros da TVI (ou da SIC, ou da RTP) para colocarem o toiro bem a jeito dos senhores cavaleiros –da Nokia, Sagres, GM, etc – plantarem os seus rebordados ferros?!...
Têm sido declamados vários cenários, todos eles repugnantes. Alguns, do mais repugnante que possa imaginar-se. Em todo o caso, nenhum, nem os piores, tão repugnantes quanto o proxenetismo do asqueroso em que mergulhou a comunicação social deste país. Contemplá-la no seu chafurdar permanente, diário, insaciável, mais que transportar-nos à náusea garantida, confere à palavra "necrofagia" toda uma nova e ainda mais deprimente dimensão. Uma necrofagia espectacular...Exibicionista.

sexta-feira, setembro 24, 2004

A Polarquia ou Feudalismo esotérico

Tem-se falado muito, ultimamente, de sociedades secretas. Cooptam, as ditas cujas, toda a gente sabe. Mas se ainda fosse só a Maçonaria e a Opus Dei...
Segundo reza a constituição, Portugal é uma república. Mas como a constituição, por estas bandas, é essencialmente decorativa, para inglês ver, isso não significa nada. Depreende-se que é uma república porque não tem rei, soberano coroado, titular em exercício dinástico. E, no entanto, se é verdade que, em rigor, Portugal não é uma “mon-arquia”, porque não é governada por “um” rei, não é menos verdade que é uma “poli-arquia”, ou seja, é “governado” por “muitos” - reizinhos, é claro. Reis no diminutivo. Temos, assim, uma república sui generis: Uma república infestada de reis diminutos. Num certo sentido, uma república feudal; um território fraccionado, escaqueirado, numa mirídade de pequenos reinos ou feudos, um condómino fechado, hermético, com múltiplos inquilinos régios. Mas isto a todos os níveis. Não é só o próprio presidente da putativa República portuguesa que está convencido que é a rainha de Inglaterra, ou o pândego da Madeira que se julga majestade insular, ou os presidentes de Conselho de Administração das empresas estatais e outras que estão convencidos de que foram divinamente investidos, ou os presidentes das Câmaras e dos clubes de futebol que se sentem entronizados. Não; é mais vasto, é mais grave, vem por aí abaixo, alastra em todas as direcções e sentidos; rodopia, turbilhoneia, exorbita. É endémico e epidémico. A realeza desfila por todo o lado, ubíqua, ungida, eleita ou meramente ejaculada. Dá-se um pontapé numa pedra e salta de lá uma dinastia completa, com planos magistrais, babélicos, para a reestruturaçãoção do universo e arredores; com teorias mirabolantes acerca de tudo e mais alguma coisa, mas especialmente sobre as conspirações da arbitragem e o penteado dos futebolistas. Já não falando nas respectivas cortes, sempre numerosas, famintas, sabujabundas, a reptar viscosamente em redor. Quais toupeiras invertebradas a cheirar a migalha, a sobra, o espólio... Porque, como é óbvio, cada rei nunca se contenta em ser só rei: quer ser imperador de outros reis, ambiciona expandir-se, contrair vassalos. Em suma: é um beija-mão, um beija-pé, um beija-cu compulsivo e generalizado. Onde menos se espera, lá estão meia dúzia de prostrados a velar a majestade impante e a inalar o chulé que desliza em ascenção ao trono. E são aos milhares os snobes, escudeiros e patos bravos, é toda uma nova-nobilarquia apócrifa, anódina e chunga, mas poderosa, ubíqua, que, se não leva o rei na cabeça, transporta-o de certeza na barriga. Quer dizer, tanto levam a vaidade estampada nos chifres, como, em gestação, na pança. E com que basófia jactam o bandulho proeminente!...
Se não acreditais, julgais que zombo, então espreitai na RTP, na RDP, na TAP, nos CTT, na CML, e em múltiplos outros ninhos da mesma espécie...São pais, mães, filhos, sobrinhos, primos, amigos, afilhados, noras, cães, gatos, piriquitos, canários, piolhos púbicos, são linhagens rascas em réplica subalterna, mas multiplicada, de linhagens snobes; são estirpes rafeiras à sombra de pedigrees olímpicos. Se os de cima entram pela porta da frente, pela passadeira aveludada da maçonaria, da opus dei, da opus gay, do raio que os parta, os de baixo enfiam-se de roldão pela porta do cavalo, à boleia de tios e padrinhos, de pais e avós, mas sempre por hemodiálise social. Quer dizer, por cooptação sanguínea, como membros dilectos mais que duma sociedade, dum pequeno reino ou feudo secreto. E, para mais, à boa maneira dos Bourbons e quejandos, todos eles, os de cima mas sobretudo os de baixo, casam uns com os outros, procriam empresarialmente, entregam-se à endogamia organogrâmica.
É de arrepiar, pois é: O cabrão do país está entregue a uma estirpe retorcida e metastizada de feudalismo esotérico. Deus nos acuda!

quarta-feira, setembro 22, 2004

E de repente...A Retoma!

Notícia de abertura dum telejornal de ontem...
A “pivô”, em êxtase semi-orgástico:
«Portugueses correm aos bancos a endividar-se. No último mês, bancos emprestam para cima de “não sei quantos” milhões de euros em crédito à habitação. Que maravilha! Sinais da retoma, hurra!...»
Devemos todos rejubilar, entoar hossanas e agradecer o maná que, pelos vistos, começa a jorrar dos céus!...

E eu, que já não percebo nada de coisa nenhuma, pergunto: retoma de quem? Do país ou dos bancos? O país são os bancos, ou os empreiteiros? Vamos todos comprar casas e isso significa o quê? Que andamos todos a dormir debaixo da ponte? Que por nos endividarmos ficamos melhores, mais livres, mais felizes? Que estivemos a ressacar, de castigo, e agora o traficante já nos concede o beneplácito de outra dose? Que devia mudar-se o nome do país de “portugal” para “Otariolândia”?

Se a notícia fosse “portugueses correm a assaltar os bancos” eu ainda acreditaria nalguma espécie de retoma. Uma retoma justa, diga-se de passagem, urgente, necessária: a dos portugueses a retomarem o seu dinheiro, pois claro. Ao menos sempre íam comprar mais casas, carros e telemóveis a pronto. Já que não servem para mais nada...Os portugueses, quero eu dizer.

A Educação do Povo

As revoluções, mesmo quando antecedidas do prefixo “pseudo” (quase todas, portanto), fazem-se invariavelmente acompanhar dum cardápio de ideias peregrinas. Todas elas urgentes, todas elas magníficas, todas elas prioritárias. Uma dessas, aquando da primavera Abrileira cá do burgo, era: “temos que educar o povo!”
Uma série de romeiros iluminados, regressados dos exílios dourados na estranja ou dos piqueniques selvagens nas colónias, acolitados por chusmas de marxistas-leninistas instantâneos, em patrocínio da Farinha Amparo, tomaram-se de brios e entusiasmos, e propuseram-se ir educar o povo, a massa ígnara, bruta e analfabeta.
Como sempre nestas aventuras, tomaram por princípios e axiomas meros preconceitos. A saber, 1. Que o povo era educável; 2. Que o povo queria ser educado; 3. Que eles reuniam e congregavam sob o substracto córneo das suas sapientes trunfas o know-how bastante para educar o povo.
Havia também um eufemismo muito usual por altura destas balbúrdias: confundia-se “educação” com “lavagem ao cérebro”. Ou melhor, dizia-se “educar”, mas, no fundo, queria dizer-se “lavar”. Eles, abençoados pela História, tinham que desencardir o povo, que escorria merda e surro de quase cinquenta anos.
Ora, sempre que uma caterva de luminárias se decide a educar quem quer que seja, e sobretudo o “povo”, a primeira coisa que faz é arranjar um modelo (de preferência de importação, são sempre os melhores). Em se tratando daquela região europeia situada a oeste de Espanha, pior um pouco. A discussão, de séculos, nunca é “quem somos ou quem devemos ser”, mas sim “quem copiamos ou quem devemos copiar”. Se na aparência poderão passar por homens ao observador menos atento, na essência não enganam: são verdadeiros macacos de imitação. Encontrareis excepções a esta regra, mas, certamente, não nas elites –políticas, culturais, sociais, industriais –, lá do sítio. Aí, a macaquice, jurada e jactante, é condição de acesso. Vivem à coca da casa do vizinho e do que o vizinho lá mete. O país inteiro, por osmose, como os seus átomos constituintes, espia o resto do bairro/mundo e roi-se de inveja das Franças, das Escandinávias, das Inglaterras ou das Américas. Que povos educados, a transbordar civismo e boas maneiras! Que maravilha de pessoas! Que inteligências amestradas, atestadas de higiene e sentido do dever fiscal! Que trabalhadores ordeiros e laboriosos!
A unanimidade quanto à superioridade do que é estrangeiro não podia ser maior. As divergências, essas, animadoras de polémicas virulentas e vociferações descabeladas, germinam desse dogma básico e encarniçam-se à volta da tal questão fulcral e de importância transcendente, ou seja: Sendo certo que só existimos se copiarmos, quem vamos então imitar. Isto predetermina tudo.
Por alturas da grande convulsão primaveril, a diferença é que o leque de escolha era ainda maior do que é hoje. Não só os belos povos ocidentais podiam servir de paradigma, como também uma série de outros, da Albânia à Cochinchina, despertavam a cobiça e os ímpetos emuladores dos fogosos endoutrinadores da plebe. O difícil era a escolha. Quase todos os povos eram melhores que o nosso, mais limpos e imaculados. Bastava ir ao Atlas geográfico. Ao nosso, repito, emporcalhava-o, inquinava-o até aos ossos – e à medula dentro dos ossos – a longa noite fascista. Era fascista como podia ser outra coisa qualquer. A palavra caíu-lhes no goto; dignificava e canonizava a sedição, beatificava o tumulto, justificava toda a parafrenália de medidas drásticas e emergências médicas.
Também o povo, há que reconhecê-lo, era pólvora seca, anelante, à espera de faísca. Aliás, essa, é sempre a sua postura predilecta: barril a clamar rastilho. Ainda para mais, xenómano a ressacar desde há mais de quarenta anos sem o chuto de estrangeirina no dígníssimo cu, agradeceu, merejado em êxtase, mal experimentou o valente coice dos novos mestres. Foi vê-lo a levantar voo, retropropulsionado, como se foguetões o catapultassem. Foi à lua e veio. De caminho deu uma espreitadela à União Soviética e descuidou-se todo pelas calças abaixo. Ainda hoje tresanda ao susto, ainda hoje expia o trauma.
A ideia de copiar a União Soviética, claro está, era a mais peregrina de todas. Por isso mesmo, à época, triunfou no concurso e surgiu, resplandecente, meteórica, como a mais fascinante e sublime. O povo soviético, na perspectiva de então, emergia nimbado de fulgores e virtudes, açambarcava medalhas olímpicas e exportava bailarinos. Era, pois, de todo conveniente imitá-lo o quanto antes.
O que sucedeu depois já todos sabem. Para vermos até que ponto era brilhante essa tese, basta dar, hoje, uma volta pelo paraíso de trolhas em que se tornou a nação: os ex-virtuosos e fulgurantes licenciados soviéticos, suprassumo da educação, cartam agora baldes de massa e formiguejam pelos andaimes acima e, de quando em vez, dos andaimes abaixo. Triste fim para um império tão luminoso.
Mas uma ideia peregrina nunca anda só. Abortada a fotocópia soviética, enveredou-se pela imitação da gleba europeia e, ultimamente, lançam-se olhares de maravilha e cobiça à gleba americana.
Entretanto, as funções elementares da escola –coisas como ensinar a ler, a escrever e a contar-, desvaneceram-se sob uma catadupa de novas pedagogias, avançadas psicofolias e mirabolantes reestruturações ou paixonetas, cada qual mais mentecapta e mentecaptizante que a anterior. Os níveis de analfabetismo da pátria não esmoreceram por aí além – continuamos os menos alfabetizados de todos. Em contrapartida, os de analfabrutismo dispararam, em todas as direcções, e colocam o país, senão no comando destacado do Primeiro Mundo, certamente muito próximo disso. Uma miríade de especialistas debruçam-se sobre coisa nenhuma e montam comissões de volta de cada palha. O resultado?
É manifesto: Aos poucos, em fornadas anuais e sucessivas, os licenciados da pátria, cobaias de sucessivas Sextas Divisões de dinamização cultural, vão fazer companhia aos ex-soviéticos, a cartar massa pelos andaimes acima e, ocasionalmente, em voo picado, dos andaimes abaixo.
Não se trata duma injustiça: é, de facto, o nível da sua licenciatura, o alcance da sua educação. Num país que passa o tempo, numa compulsão obsessiva, a alcatroar terras, a erigir caixotes de betão e a terraplenar tudo o resto, outro destino não seria de esperar. Depois, é preciso não esquecer que desde que trolhas atávicos, por via do sortilégio de licenciatura à pressão, em patrocínio da farinha Amparo, tiveram acesso às cadeiras docentes e, nos últimos trinta anos, se refastelaram nelas a seu bel-prazer, produzir algo mais que trolhas, suas réplicas e decalque, seria impensável. A não ser por obra e graça do divino Espírito Santo.
Moral da história: Os políticos não educaram o povo, porque o povo não se auto-educa. E o Espírito Santo, de facto, obra, mas cobra juros.

segunda-feira, setembro 20, 2004

Um português intemporal

Da sua biografia não se sabe muito. Ao certo, pensa-se que nasceu por volta de 1465. Mas Gil Vicente é Gil Vicente. Não imita gregos nem troianos. Se Camões, ao reino, lhe puxa o lustro, Gil Vicente, segurando-o por pinças, mostra-lhe o espelho. Mas, como em toda a obra de génio, não é um espelho que abarque apenas o rosto, a figura e a indumentária. Vai mais fundo: abarca o mundo, abarca a alma, a vida e a morte.
No século XVI, esse século da descrença, reina o gigante Pantagruel de Rabelais e andam à solta os diabos de Vicente. Cínicos, sarcásticos, impiedosos, estes, ainda hoje assolam o país e o mundo. São intemporais, habitam a alma humana, como intemporal é a obra desse nosso ilustre compatriota, remetida a um mui conveniente esquecimento por parte daqueles que ainda hoje, diante do espelho, sairiam retratados na perfeição.
Num país de poetas, poetinhas e poetizas, é a própria poesia que sai brindada com um valente pontapé no cu. O qual, refira-se, lhe assenta muito bem.

«Entra hum Diabo com uma tendinha diante de si, como bufarinheiro, e diz:

Diabo:
Eu bem me posso gabar,
e cada vez que quiser,
Que na feira onde eu entrar
Sempre tenho que vender
E acho quem me comprar.
E mais vendo muito bem,
Porque sei bem o que entendo;
E de tudo quanto vendo
Não pago siza a ningém
por tratos que ando fazendo.
Quero-me fazer à vela
Nesta sancta feira nova.
Verei os que vem a ell,
E mais verei quem m’estrova
De ser eu o maior della.

Tempo:
Es tu também mercador
Que a tal feira t’offereces?
Diabo:Eu não sei se me conheces
Tempo:Falando com salvanor,
Tu diabo me pareces.
Diabo:
Fallando com salvos rabos,
Inda que me tens por vil,
Acharás homens cem mil
Honrados, que são diabos,
Que eu não tenho nem ceitil,
E bem honrados te digo,
E homens de muita renda,
Que tem divedo comigo.
Pois não me tolhas a venda
Que não hei nada contigo.
Tempo (ao Seraphim):
Senhor, em toda maneira
Acudi a este ladrão
Que ha de danar a feira.
Diabo:
Ladrão? Pois haj’eu perdão,
Se vos meter em canseira.
Olhae ca, anjo de bem,
Eu, como cousa perdida,
Nunca me tolhe ninguem
Que não ganhe minha vida,
Como quem vida não tem.
Vendo dessa marmelada
E ás vezes grãos torrados,
Isto não releva nada;
E em todolos mercados
Entra a minha quintalada.
Seraphim:
Muito bem sabemos nós
Que vendes tu cousas vis.
Diabo:
Hi ha de homes ruins
Mais mil vezes que não bôs,
Como vós mui bem sentis.
(...)
E mais as boas pessoas
São todas pobres a eito;
E eu por este respeito
Nunca trato em cousas boas,
Porque não trazem proveito.
Toda a glória de viver
Das gentes hé ter dinheiro,
E quem muito quiser ter
Cumpre-lhe de ser primeiro
O mais ruim que puder.»

- Gil Vicente, “ Auto da Feira”

A Caverna

Jesus, que era cego e não via o mal, dizem, morreu por nós, que somos cegos e não vemos o bem.
O mal, o bem...De comum, aos sábios genuínos de todas as épocas, ficou uma convicção: apenas um deles existe.
Outros, mais esotéricos, entendem que Ele, o mal não o via pois escondia-se detrás do Bem; nós, ao Bem, não o vislumbramos, pois eclipsa-o o Mal.
Em milhares de anos o sol não nos ensinou nada. Continuamos a achar que é ele que viaja, quando quem viaja somos nós e a nossa visão junto connosco. O dia e a noite, o verão e o inverno, para o sol não existem.
Jesus via para lá do Mundo. Nós vivemos fechados nele. A tudo isso, Platão profetizou-o, na forma de uma alegoria: a da Caverna.

sexta-feira, setembro 17, 2004

As Opções Nacionais

Imaginemos o senhor “fulano de Tal”.
O azar persegue-o. Crivado de dívidas, com as finanças numa lástima e sem fontes de rendimentos, o abismo espreita-o, o desespero atormenta-o...
A pergunta é um daqueles problemas éticos e resume-se a isto:
Deve o sr. “Fulano de Tal”, para resolver o seu problema, com a maior urgência, correr a
a) Suicidar-se?
b) Prostituir-se?
c) Vender-se? (O sangue, os órgãos, por exemplo)
d) Arrendar-se? (Para experiências científicas ou testes farmacêuticos)
e) Leiloar-se? (Em hasta pública)

Se qualquer uma das soluções é aberrante para o “sr. Fulano de Tal”, então porque não é aberrante para o vosso próprio país?

Maquiavelismo a martelo

Comecem por tentar identificar o autor do que abaixo se transcreve...

«Não há nada que torne um príncipe tão estimado como concluir com êxito grandes e magníficas empresas e dar exemplos dignos de ficarem na memória. No nosso tempo, temos Fernando de Aragão, presentemente rei de Espanha, ao qual se pode chamar príncipe novo, pois de pequeno rei se transformou, por glória e fama, no primeiro rei da cristandade. Se analisarmos os seus feitos, achá-los-emos a todos grandes e a alguns, até extraordinários. (...) Por outro lado, enquanto se preparava para maiores empreendimentos, e a fim de se servir sempre da religião, começou a praticar uma santa crueldade, ao expulsar os marranos do seu país e ao despovoá-lo deles: não se poderia encontrar exemplo de piedade mais digno nem mais singular.»

“Marrano” –oriundo do castelhano, onde significa “suíno”, “porco” –, no português designava, antiga e injuriosamente, os árabes e judeus que viviam na Península Ibérica. Eis, portanto, com todas as letras, uma declaração anti-semita. Ao facto, certamente pouco carinhoso, de “expulsar” e “despovoar” de semitas um país, o autor classifica mesmo como “santa crueldade”.
Entretanto, o que não deixa de ser curioso é que esse mesmo autor, Nicolau Maquiavel, (na sua idolatrada e famigerada obra – donde provém a passagem em epígrafe- “O Príncipe”), constitui, por regra, literatura de cabeceira da grande maioria dos filo-semitas da nossa praça. Distingue-os, pelos vistos, ao mestre dos discípulos, uma espécie de refinamento: para aquele, com sinistra coerência, todos os semitas são “marranos”, merecedores de “santa crueldade”; para estes, por torcionário capricho, há os semitas maus e os semitas bons. Naturalmente, só os primeiros devem ser sujeitos à “santa crueldade”.
É, claramente, um maquiavelismo sintético. Destilado. Extraído por condensação da amálgama mal fervida do mosto e da zurrapa.

Panegíricos não, carago!...

Alguns leitores deste blogue, possessos não sei de que mau espírito, parecem determinados em querer arruinar-me com a reputação. Além de se darem ao trabalho de deixar aí comentários, nas caixas apensas, o que eu já acho duma caridade e bonomia digna dum S.Francisco de Assis (o único santo taumaturgo que sabia falar com os animais), vão ao ponto, humilhante, de juntarem elogios aos comentários. Já não é o primeiro. Outros, ainda mais sádicos que estes, vão ainda mais longe e dão-se ao desfrute de panegiricar a meu respeito lá nos próprios blogues deles. Nada disto é bom augúrio.
Se a ideia é desmoralizarem-me, alegrem-se: estão a consegui-lo.
Apesar de tudo, como manda mais a cortesia que o desalento, aqui deixo a resposta, que torno pública na esperança de desencorajar futuras reincidências.

Meu caro "é claro que posso estar enganado" (esperemos que não),

Dou de barato os lisonjeiros e certamente imerecidos louvores -aliás, depois que a Zazie, apesar do imenso buço, me chamou "filósofo" fiquei para todo o sempre deslumbrado e insensível a quaisquer outros encómios.
O que importa é o seguinte: ainda não esqueci aquele termo que você deixou aí, num comentário anterior, ou seja: "lemmings". Qualquer pessoa que use esse termo naquele contexto desperta de pronto a minha curiosidade e interesse. Trago-o, por conseguinte, debaixo de olho.
Quanto ao que escrevo, como já deve ter reparado, não tem por alvo a multidão, muito menos a matilha, mas o indivíduo. Congratulo-me de ter encontrado mais um. Não é importante que concorde comigo. É importante que pense. Se tira algum prazer do que eu escrevo então quer dizer que o prazer que tive em escrever -e razão essencial do que escrevo-, encontrou eco algures, no imenso vazio blogosideral. Afinal, há por aí mais planetas habitados. A minha tese confirma-se.
Vem até a propósito aquela questão que um certo amigo meu me colocou há tempos –“Ó Dragão, achas que há vida inteligente noutros planetas?”
Ao que respondi “Espero bem que sim, ó Caguinchas. Porque neste já não há quase nenhuma!...”
Permita-me que termine com um aviso: atenção aos “lemmings”. Dois cuidados se impõem, ouso prescrever: Não ir atrás, nem, tão pouco, ficar à frente. Pior que ir a reboque só mesmo ser levado pela enxurrada.

Considere-se bafejado pela minha elevada estima e consideração (mas não repita a gracinha, senão vou ter que lhe rogar um monte de pragas, e olhe que pragas minhas são verdadeiros apocalipses!...)

Dragão

quarta-feira, setembro 15, 2004

Taxidermia

Fruto de um interesse taxiológico e, porque não dizê-lo, também taxidérmico, constato o seguinte: blogues de esquerda reclamam para si o estatuto de combate ao domínio da direita na blogosfera. Esta, em contrapartida, pela voz soluçante dos seus, queixa-se amargamente do império da esquerda na mesma região, donde a urgência de uma cruzada, ou pelo menos de um levantamento. Pelo que tenho visto, francamente, não sei se é a tal esquerda ou a tal direita quem predomina nestes subúrbios. Uma coisa é certa: Não é a inteligência.

terça-feira, setembro 14, 2004

Os Utopistas do Mercado

«O mais importante efeito indirecto da presidência de Reagan foi a absolvição das desigualdades económicas nos Estados Unidos e o surgimento de uma cultura empresarial capaz de ignorar os custos sociais da sua actividade com a consciência tranquila. Como escreveu Godfrey Hodgson, “A estaganação dos rendimentos americanos e o crescimento das desigualdades foram essencialmente consequência das acções dos gestores das grandes empresas, tanto directamente nas empresas industriais, como indirectamente no sector financeiro, devido a modas intelectuais por este adoptadas. A desregulamentação política libertou os braços dos gestores. O clima político encorajou-os a prestar menos atenção às considerações não económicas. Os negócios impuseram maior desigualdade. A doutrina conservadora racionalizou tudo isto.”
As liberdades dos executivos numa economia desregulamentada –para contratar e despedir, para contrair e adiar, para se auto-atribuírem opções de acções e bónus magnânimas – não eram encaradas como privilégios numa variante peculiar de capitalismo. Eram o exercício de direitos humanos inalienáveis. O capitalismo americano era a liberdade em acção. A estrutura do mercado livre americano coincidia com os imperativos dos direitos humanos. Quem ousa condenar as crescentes desigualdades e o colapso social que os mercados livres provocam, quando os mercados livres não são senão a expressão económica do direito à liberdade individual? (...)
Nos Estados Unidos, após o aumento da influência do poder neoconservador, a autoridade dos direitos tem sido usada para proteger o funcionamento do mercado livre do escrutínio público e do desafio político. A ideologia dos direitos tem sido usada para legitimar este recente sucessor do capitalismo liberal americano.
Ao moldar uma cultura política na qual os imperativos do mercado livre, os interesses dos negócios e as exigências da liberdade humana deixaram de se distinguir, a presidência americana traçou o quadro não apenas para George Bush, mas também para Bill Clinton.(...)
Como outras ideologias do iluminismo, a utopia do mercado inspira nos seus seguidores um menosprezo sobranceiro pela história. Nunca se cansam de nos dizer que as ideias têm consequências. Não repararam que essas consequências raramente são as esperadas; e nunca são só essas.»

- John Gray, “False dawn”

Os utopistas do Mercado são a espécie mais serôdia, rasteira e frustre de utopistas. O seu é um mundo afunilado, liliputizado à balbúrdia duma feira de nabos e chicharros. Até a sua argumentação lembra o grazinar de peixeiras, tentando camuflar o fedor do peixe estragado sob o vau da algazarra. Para estratégia, convenhamos, tem as suas vulnerabilidades: nada garante que a dor e a inflamação dos ouvidos inibam ou distraiam fatalmente o olfacto do passante.
Resta-lhes, para desfastio, o reconforto da velha receita stalinista: repetir uma mentira muitas vezes até que pareça verdade.
A oeste, por conseguinte, nada de novo: é só mais um grupo excursionista ao caos.

segunda-feira, setembro 13, 2004

Teorias da Conspiração

Não faz muito tempo que um amigo meu me perguntava: “Ouve lá, ó Dragão, que me dizes tu da “teoria da conspiração tal”. Referia-se, claro está, a uma bela teoria, um daqueles planos maquiavélicos para instalar uma tirania subliminar e manipular o pagode desavergonhadamente. Enfim, o costume das teorias da conspiração. Há para todos os gostos e feitios.
Os meus amigos, criaturas raras, são pessoas inteligentes. Mas, pior ainda que isso, são almas benévolas, que medem os outros por si. É natural, pois, que acabem induzidos em erro. Como acontece nisto das teorias da conspiração.
Foi o que tentei explicar a esse meu amigo. E que aproveito para repetir aqui a quaisquer outros (e certamente raros) interessados.
É como vos digo: Se a generalidade das pessoas e das sociedades primasse pela inteligência, pela atenção, pela sensibilidade às questões fundamentais do que quer que fosse, faria todo o sentido que existissem, a cada esquina, em catacumbas e subterrâneos, grémios de facínoras conluiados, urdindo complexos planos maquievélicos para se apoderarem das mentes e vontades do zé povinho, para subornarem a consciência das elites culturais e para silenciarem todo e qualquer esboço antagónico. Seria garantido. Só que a generalidade das pessoas é estúpida que nem um porta e tão perspicaz quanto um autocarro; as sociedades são ainda piores que as pessoas e só fazem é piorá-las; as elites culturais ou quaisquer outras andam geralmente em saldo e a oferecer-se na beira da estrada a preços de promoção; e os esboços de antagonismo são de um tipo mediamente lobotomizado se mijar a rir. Pelo que, lógica e concretamente, não é preciso plano maquiavélico nenhum, nem complexa e sinistra conspiração alguma: qualquer labrego básico de meia tigela, com meia dúzia de neurónios mal aparafusados, chega ao poder e atropela o que muito bem lhe dá na real gana! De caminho, instaura uma saloiada infame, vende as piores banhas da cobra de que há memória, a última sempre pior que a anterior, e faz as reais necessidades, sólidas e líquidas, sobre todos e quaisquer pruridos racionais (ou quaisquer outros) que lhe contendam com a veneta. Promontório ilustre da perpétua brutidão, emanação caótica e justíssima do povoléu que galopa, conhece – por isso mesmo e de ginjeira –, um pormenor singelo mas crucial: Não é preciso conspiração nenhuma para controlar algo que não existe – o pensamento livre das pessoas.

sábado, setembro 11, 2004

Do país esotérico

Meu caro José,

Li, com particular gozo, o texto apetitoso que lavraste na Grande Loja do Queijo. Muito te poderia dizer sobre tão tortuoso assunto. Um dia destes, aproveitando o teu providencial exemplo , talvez o faça. Mas, Por agora não; por agora, deixo-te apenas alguns comentários sibilinos e outras tantas perguntas interessantes.
1. Como já Platão explicou, existe o mundo das aparências e o mundo das essências. Na verdade, o das aparências não existe, parece que existe. Hoje em dia, parece também que existe o mundo das eficácias e das conveniências, ali, bem por detrás da Travessa do Faz-de-Conta. Em suma: O que parece que é, regra geral, não é.
2. O regime que foi instituído em 25 de Abril de 1974 parece que é democrático. O que escapa ao vulgo é que esse regime tem uma face exotérica e uma face esotérica. Qual delas a preponderante, falaremos um dia destes.
3. Tenta o seguinte exercício mental: Que misteriosas cumplicidades existirão entre estas duas palavras: “Maçonaria” e “Bloco central”? E, já agora, qual será o par correspondente para a Opus Dei?
4. Sabes qual é a “sorte” ideal para um político português? É ser Opus Dei por parte da mãe e Maçon por parte do pai.

E mais não digo.

quinta-feira, setembro 09, 2004

Uma Tirania Excepcional

Considero execrável qualquer tipo de tirania. Exceptuando talvez uma monarquia, tão absoluta quão esclarecida, onde eu próprio desempenhasse o papel de soberano. Não tenho qualquer dúvida que o país –este coio de invertebrados e imbecis que, por artes de licenciatura, se julgam automáticamente metamorfoseados em semi-deuses –, lucraria imenso com isso. O Marquês de Pombal, estou certo, roer-se-ia de inveja lá no Além. Mas, horror incontornável, não me sobraria tempo para escrever este mirabolante blogue. Por isso, tirem o cavalinho da chuva, escusam de vir com falinhas mansas, que eu não aceito o frete. Oprimir-vos como vocês merecem seria fraca consolação para eu renunciar à minha tranquilidade, ao meu dourado eremitério. A abdicar do meu alegre anonimato, antes prefiro abdicar do trono, antes mesmo de me refastelar nele. A não ser que me deixassem governar e tiranizar anonimamente. Bem, aí talvez reconsiderasse. Já me estou até a ver, registado para a História – laureado de tenebrosas iluminuras, pai de vários impérios – como Dragão, o Anónimo. Não vejo onde é que está o espanto ou a bizarria. Se as empresas podem ser Anónimas, e toda a gente aplaude e se ri muito, porque é que os tiranos, ainda para mais esclarecidos, não podem? Deus seria o vosso Pai no Céu e eu seria o vosso rei algures. Um Mundo quase perfeito.
Senão, vejamos: Que importa o talhe das minhas fuças para o bom ou mau governo da nação?Que tendes vós, meus súbditos irrelevantes, a ver com a maneira como eu me visto, com os filhos que faço, as donzelas que frequente ou as praias donde emito as minhas sábias directivas? Porque hei-de servir eu de objecto desgraçado à vossa sórdida e atávica coscuvilhice, ou motivo predilecto da mais nojenta bufaria? E se eu quiser ir às putas? E se me apetecer embebedar-me, andar à porrada, ou armar sarrafuscas? E porque não hei-de eu partir a tromba aos ministros incompetentes ou aos directores corruptos, em paz e sossego, sem jornalistas a azucrinar-me a paciência e a puta da opinião pública armada em sonsa?! Que tendes vós a ver com isso e com tudo? Porque carga de água me competiria aturar o vosso voyeurismo ranhoso? Para que me interessam as vossas opiniõezinhas, essas excrescências babosas do vosso ego, e as projecções que dele fazeis na pessoa dos outros? Quanto aos palácios, limusines e protocolos, mais os salamaleques e mesuras, a mim e a toda a minha família, passamos bem sem eles. Muito bem mesmo. Quando quisermos ver hienas e chacais vamos ao Jardim Zoológico. De resto, a última coisa que me ocorreria era ir capitanear o vosso Jet-Set, essa quintessência da vossa velhacaria e coirice impenitente. Só de me lembrar dessa corja de larvas sociais até consigo pensar no Pol Phot com alguma ternura.

terça-feira, setembro 07, 2004

Um pasquim supimpa

Hoje, para variar, venho aqui tecer encómios. Desembasbacai e tomai atenção: trata-se duma publicação semanal digna de registo. Acaba de me cair um exemplar nas garras, acompanhado dum remoque depreciativo da senhora Dragão, e eu, como é costume, deleito-me...
Este nobre pasquim diz-me tudo o que preciso saber – que um terço das crianças do mundo são obesas; que a Sonda Cassini-Huygens (puta que a pariu) descobriu duas novas luas de Saturno; que uma nova molécula poderá ser uma arma mais barata contra o paludismo; que a Joana Lemos (quem é esta gaja?...) faz revelações marcantes da sua vida; que Paulo Coelho (suponho que é um emérito Chef de cuisine) está de volta com três novos títulos (novas receitas, certamente); que há ténis robustos a €19.99, Cueca/String “Barriga lisa” a €4.99, Brioche fatiado com pepitas de chocolate a €2.99, Conjunto de iscas e anzóis a €9.99, trolley a €11.99, etc, etc, um mundo de utilidades que nunca mais acaba –, e ainda uma série de dicas e conselhos afáveis sobre dismenorreia (fui a correr mostrar à senhora Dragão), segurança rodoviária e cruzeiros no rio Douro. Fico também a saber, com desgosto, que a Björk não só não foi atropelada por um camião Tir desembestado, como continua a produzir melopeias de gosto mais que duvidoso que terei o maior cuidado em não escutar, nem nesta, nem nas próximas vinte reencarnações. Djavan é outro que tal; da “dance Floor Vol.2”, uma colectánea de “house” comercial (como se houvesse outro tipo senão esse), então, nem vos falo; mas já dá perfeitamente para todos percebermos como esta publicação também suculeja de belas merdas que muito devem interessar aos incontáveis anormais que – para grande azar deste provecto e venerável rincão – cismam, todos os anos, de cá vir nascer. Em resumo: um verdadeiro “Expresso” em versão “compact-paper”, se assim podemos dizer. Mas um “Expresso” digno, que toma banho pelo menos uma vez por semana e não transmite doenças venéreas nem herpes labial. Que não é tóxico nem provoca alergias, pelo menos graves ou incuráveis, e que, acima de tudo, é honesto: não nos pretende impingir nem vender porcarias encapotadas, disfarçadas sob o ouropel de artigo, reportagem ou entrevista. Os produtos à venda estão ali, bem descritos e catalogados, sem subterfúgios, com preços apelativos, já com Iva e tudo. Coisas, algumas delas, até utéis, que dão um jeitaço quando nos acometem ganas de bricolages. Nada de insinuações sonsas nem louvaminhas por encomenda; nada de promoções aberrantes e subreptícias de tipos e produtos completamente imprestáveis, insalubres, de qualidade mais que duvidosa, com a mioleira em adiantado estado de putrefacção e a moral com o prazo expirado há décadas. E como se todas estas vantagens não bastassem, este prodigioso pasquim minimalista ainda culmina com o facto de ser distribuído gratuitamente, ao domicílio, com uma pontualidade religiosa. Um fenómeno, é o que vos digo. Ao contrário do tal “Expresso”, refira-se, que além de nos vender abomináveis merdas, ainda se faz cobrar regiamente por isso. Quando o que devia era indemnizar-nos, por efeitos colaterais e publicidade enganosa. Quem diz o “Expresso”, diz o “Público”, o “DN”, o “24 Horas”, a “Bola”, a "Maria" ou o que quer que seja.
Acresce a tudo isto, que já não é pouco, que folheia-se num minuto, o digno pasquim, deita-se pró lixo em dois e é magnífico para cobrir o chão em dia de pinturas ou embrulhar copos e pratos por alturas de mudanças. Eu não quero outra coisa. Recomendo-o vivamente. É quase terapêutico. Chama-se, como já devem ter adivinhado, “Dica da Semana”, e é um must. Além disso, é o único jornal que deixo entrar cá em casa. Isto, apesar dos protestos da Senhora Dragão que, por ela, não deixava entrar nenhum.
E tem mais um detalhe sensacional: a directora –do formidável pasquim – chama-se Madalena Bettencourt e Silveira. Já viram? Não é uma foleirada qualquer, nada de pinderiquices...É uma Bettencourt e Silveira, que diabo! Coisa fina!... Já havia para aí malta na galhofa, mas agora calaram-se. É bem feito! Quanto a redactores (jornalistas, enfim), nem sinal deles. O que é óptimo. Deve ser escrita automática, como já aconselhavam os surrealistas, esses pândegos. Apenas detectei, de raspão, um mamífero que terminava uma longa apologia dum qualquer criador de cães, amigo ou padrinho dele, com a chancela “M.J.F”.
Aposto que tem um blogue.
Eu também não disse que o pasquim era perfeito.

domingo, setembro 05, 2004

A Brava questão entre os abortos que abortam e os "Tios" com dores de feto

Tenho que confessá-lo: Também não acho justo que as meninas esperançosas, fiéis depositárias do másculo sémen, vão despejar os projectos embrionários na retrete. Ainda para mais quando o país, em regressão demográfica, anda deficitário de novas gentes. Compreendo, pois, a indignação de muito boa gente. Gente de coração filantrópico que se condói facilmente com a desdita dos fracos e indefesos. Madres Teresas e Frei Teresos, sempre prontos a acudir aos coitadinhos, Deus Grandessíssimo os proteja. Não senhor, não é forma nem jeito de tratar os espermatozóides de cada um. É mesmo caso para tribunal. Eu, por mim, nem hesitaria: “meritíssimo juíz, protesto! O útero é dessa senhora, mas os espermatozóides eram meus!” Não julguem que brinco. O assunto é sério.
É a caça em regime livre ao embrião, é a foda inconsequente ao desbarato. Espermatozóides das melhores qualidades e proveniências vêem-se assim em risco de acabar triste e miseravelmente os seus dias. Quando ainda mal germinam, e mal se entregam ao milagre da multiplicação celular, eis que já os enviam em viagens peregrinas, sem garrafa nem oxigénio (nem um mero tubito para mergulho em apneia sequer) pelo esgoto imundo abaixo. Uma espermatodisseia execrável, garanto-vos! Infame, do piorio.
Se hão-de lançá-los no mundo, neste vale de portentos e prodígios, neste paraíso à beira céu plantado, neste mar de rosas (e laranjas) – como, aliás, lhes competia e a Natureza, desde os primórdios, lhes destinou –, as megeras, messalinas, ogras malvadas vão lançá-los -aos futuros licenciados, coitaditos-, na retrete. Na latrina, senhores! Quantos génios não nos arriscamos a perder assim? Quantos iluminados, prémios nobel e economistas liberais? Um ror deles certamente. É um luxo e um desperdício a que este país não se pode dar. Lá fora sim, é justo, há uma superlotação que urge combater, uma proliferação alarmante a que urge pôr cobro. Por mim, as holandesas, as inglesas, as americanas - e já agora também as espanholas - podiam abortar todas que não se perdia nada. Direi mais: Era um passo de gigante para a humanidade, uma grande ajuda para todos nós. Mas cá, chiça!...Haja tino.
Por conseguinte, valentes filantropos, almas cristãs de piquete por toda a paróquia, porfiai, fortificai muros e barricadas! Velai, meus amigos, paladinos, baluartes dessa nobre e justa causa! Obstai com todas as forças ao desmancho ignóbil, desnaturado, ao despejo abominável!
Mas, de caminho, aproveitando a embalagem, a campanha entusiasta, não esgoteis toda a vossa energia benfazeja nessa nobre missão. Dedicai também um pouco, uma migalha que seja, do vosso generoso ardor, uma parcela ainda que minúscula das vossas prebendas e mordomias, a fazer com que o mundo se distinga, um pouco que seja, duma retrete. Era de todo conveniente.
Porque se o mundo e a retrete cada vez menos se distinguem, como não hão-de andar confusas as mães já de fraca vocação, percebendo cada vez menos a diferença entre lançar nela os fetos de três ou de nove meses? Até vos dirão, manhosas e sibilantes: “lançá-los na retrete ou no mundo, que diferença faz?”
E deixem que vos pergunte, eu que vos conheço bem, que vos tenho observado na intimidade, aqui entre nós, agora a sério, realmente, à parte esse folclore para entreter o papalvo, que diferença vos faz que elas despejem ali ou acoli?
Vós, que, vaidosamente, vos estais marimbando para os velhos e crianças todos deste mundo (excepto as devidamente apelidadas), para o passado e futuro do país (excepto o que se prende com o vosso umbigo), vós, imagine-se, preocupais-vos, todavia, com os fetos. Os comunas são maus, mas os fetos dos comunas são óptimos; os comunas são bichos sórdidos e anormais que deviam ser esterilizados mas os fetos dos comunas são pessoas com todos os direitos. Quem não é “bem” não presta; mas os fetos, coitadinhos, são excelentes. Vós que vos cagais, de bem alto, nos outros e nos filhos dos outros, abris, no entanto, uma sagrada excepção em se tratando dos fetos dos outros. Que beneméritos! Matar pessoas, deixá-las morrer como calha, onde calha, a tiro, à bomba, a veneno, a eito, em nome do mercado, da prebenda, da mordomia, da seita, é justo, inspiração divina, está perfeito. Agora os fetos é que não, é um massacre, chacina dos inocentes, genocídio!...Em suma, a retrete é prorrogativa vossa, privilégio inalienável? Só vós é que podeis mandar os filhos dos outros lá para dentro? Os respectivos pais e mães não podem?... Soa a putas de estrada a quererem lapidar Madalenas!...
Eu acho que uma cabra que já nem instinto maternal tem é um aborto da Natureza (não me espanta, pois, que aborte). E que vocês, regra geral, sob esse manto santarrão, sois umas boas hienas.
Quanto à pragmática utilitarista de uns e à moralzinha rançosa dos outros, pois podem muito bem todos enfiá-las, em sincronia, no cu. É o local apropriado e, ao menos, é garantido que não engravidarão. Poupar-se-ão assim, seguramente, a riscos, trabalhos e polémicas.

Afinidades electivas

Um dragão, por índole natural e costume empedernido, não está preparado para reagir a elogios, sequer a palavras simpáticas. Habituado ao choro das princesas prisioneiras e aos impropérios dos paladinos resgatadores, fica encavacado ao deparar-se com algo que exceda esse mundo tenebroso e belicista, tecido a lamúrias ou interpelações injuriosas. O Destino designou-lhe essas funções, e não se discute com o Destino. O Livre-Arbítrio, grande balela, é só um “Óleo de fígado de bacalhau” para a mente de costureirinhas, masculinas e femininas.
Por conseguinte, caro Dodo, com essa é que você me lixou. Se me mandasse à merda eu ainda saberia o que lhe responder. Se me dissesse “sua grandessíssima besta!”, era fácil, bastava accionar o atendedor automático. Assim, fico à rasca. De narinas fumegantes à banda. Que lhe hei-de eu responder? Olhe, igualmente. A sério.

quinta-feira, setembro 02, 2004

A Voz-Off

Que todos temos opiniões e gostamos de cagar sentenças sobre tudo, já deu para perceber. Que em grande parte do tempo em que nos dão os fornicoques para desatar nesses (des)propósitos mais valia apanhar uma valente dor de dentes e enfiar a tromba numa almofada, também. Para grandes males, grandes remédios. O que eu ainda não percebi bem é donde vêm estas directivas opinadoras quotidianas que metodicamente se repetem; de que Agência Central de Opinião provêm estes Planos e Mapas de emissão, em suma, quem diabo lá atrás selecciona os discos rachados e cassetes com que se entretém o pagode, quem determina “agora palra-se disto, não se palra daquilo”, “doravante, o bacio para a doxorreia é este, não é aquele”.
Em boa verdade, não sei quem é, nem sei se existe. Mas desconfio. Desconfio cada vez mais. Até porque funciona. Com a pendularidade dum relógio suiço. A tal “voz-off” sugere: “Casa Pia, Casa Pia!” - e o pagode desata todo a mandar papos sobre o assunto, a arrancar cabelos e a cuspir gafanhotos em todas as direcções, a espumar de raiva ou a lançar mãos à cintura, em citações de longe. Ou então “Aborto, Aborto!”, e lá vai a chusma de escantilhão, trocando unhadas e pisadelas, atirando injúrias e impropérios, pior que grão-finos na hora do naufrágio. É um espectáculo deplorável. Pertencer a uma raça sempre tão disponível para galinhices e carneirices destas desmoraliza qualquer um. Se não são zombies telecomandados, parecem.

quarta-feira, setembro 01, 2004

Palimpsestos

Neste nosso mundo admirável, o asseio corporal vai de vento em popa. Os cuidados do indígena com a sua pele, o cabelo, as unhas, os sovacos sobretudo, multiplicam-se. A indústria socorre-o, solícita, duma miríade de produtos e gadgets. Sabonetes, perfumes e desodorizantes, em catadupa, estão de piquete diário e prevenção. A publicidade, em débito evangelizador, lembra, a cada instante, da urgência da tarefa, promove-a a verdadeira compulsão benigna. O dia divide-se em várias corridas à lavagem. Como antigamente se corria à oração, hoje corre-se ao lavatório: Antes das refeições, depois das refeições; ao levantar, ao deitar; antes da queca, depois da queca; etc,etc. Os próprios legisladores não o esquecem: qualquer dia, por lei, as casas deverão possuir três WCs, com jacuzzi, sauna e banhos turcos à descrição. A gadeza, por directiva comunitária, quer-se limpa e escovada. A civilização é isto.
Só é pena que estes cuidados higiénicos com o corpo, de todo utéis em se tratando de suínos, cresçam na medida inversa aos cuidados higiénicos com o espírito. De facto, quanto mais passam o coiro pela água, mais banham o espírito na pocilga. Este aparente paradoxo, todavia, não deixa de ser justificado com toda a facilidade pelos grunhidores intérpretes : “o espírito está no cérebro e nós lavamos o cérebro todos os dias!”. (Não deixa de ser verdade –a segunda parte, seguramente). Outros, mais radicais, proclamam: “O espírito não existe, ou se existe, não se vê, portanto, não interessa, podemos ser badalhocos que ninguém nota!...”
É natural que o espírito não se veja. Que cada vez se veja menos. Jaz soterrado debaixo de várias camadas de surro, sebo luzidio e lixo. Na maior parte dos casos, um autêntico palimpsesto de merda.