Tu sabias à partida, ó Zazie, minha flor, que, munida desse mapa, entravas em terreno minado. Mesmo assim, trouxeste para aqui, onde não são de todo chamadas, as pérolas do VPV. Lá vou ter que desmantelar, mais uma vez, a bacoquice periódica do sujeito.
Acredita que não me dá gozo especial nenhum. Mas como sugeriste (em tom de desafio, que bem te topei), eu faço-te a vontade.
Começo por citar a tua citação: «
Admitamos, por exemplo, que a democracia e a "Europa" deixaram relativamente intacta a nossa cultura de pobreza, de manha, de compadrio, de corrupção, de servilismo e de um ódio universal à lei e à justiça. Uma sociedade camponesa, isolada, quase indigente e quase sempre sujeita a tiranias várias, não se transforma em 30 ou 40 anos numa sociedade individualista, inovadora, solidária e disciplinada».
Isto terá escrito o VPV.
Tu puseste a cereja no topo do bolo:
« É isto, Portugal é um país pobre e atrasado ».
É isso, não é?
Extrapolemos.
Pois bem, Portugal é um país pobre. E atrasado, valha-nos Deus.
No entanto, Angola é um país rico. Um dos mais ricos do mundo. E ainda é mais atrasado que Portugal. Em que é que ficamos? Ah, pois, Angola é atrasada por culpa de Portugal, já me esquecia –porque foi colonizada por um país atrasado. Mas eu poderia referir também o ex-Zaire, ou a Nigéria; esses foram colonizados por países adiantados. E também são atrasados. Ainda mais desorganizados, corruptos e caóticos que Angola. Mistério profundo.
Mas os mistérios não ficam por aqui. Diz VPV que em Portugal grassa, simultaneamente, em alegre pandilha suponho, uma "cultura de pobreza" e de "corrupção". Ora, sendo Portugal um país pobre onde, ainda por cima, predomina uma cultura de pobreza, não se compreende muito bem onde vão, os portugueses, maltrapilhos cósmicos, buscar combustível para a corrupção. Depreende-se –a fazer fé no costume – que a corrupção pressupõe uma prática desonesta, tortuosa, de angariar e acumular riqueza. Com certeza, ninguém se dá ao trabalho de surripiar fundos ou cobrar favores para ficar mais pobre, para exercer a tal "cultura de pobreza". Donde, novo paradoxo: há cultura de pobreza ou há, afinal, cultura – capciosa, frenética, trafulha – de riqueza? Queremos todos ser pobres, honrados e honestos; ou queremos, ao invés, seja lá de que maneira for, ser todos ricos, o mais rapidamente possível e vendendo o que estiver mais à mão de leiloar? É impressão minha, ou o país, ao contrário da putativa cultura de pobreza que a fábula em epígrafe testifica, apanhou, isso sim, uma valente gonorreia mental de novo-riquismo?! O que é que Portugal fez ao ouro do Brasil? O que é que fez e ainda vai fazendo ao ouro do Botas? E o que é que fez –questão crucial e proibida – ao dinheiro dos Fundos de Coesão Europeia? Banhou-se neles e, no entanto, não se perfumou. Ao contrário: cheira mal que tresanda.
E temos também - diz o VPV, acabado de descobrir a pólvora - a "cultura do servilismo". Fica sempre bem, no bordado retórico, mencionar o servilismo. É chique. E todavia o nosso servilismo não será, nem de perto nem de longe, maior que o dos chineses, por exemplo. Ora, a China não é a economia em maior expansão e crescimento no Mundo? Devíamos enviar embaixadas para aprender com eles? Devíamos organizar visitas de estudo, romarias e pós-graduações?...
Não esqueçamos, de caminho, os efeitos perniciosos das tiranias, em contraponto aos dotes balsâmicos das democracias milagreiras. Mas pasme-se: a mesma China foi sujeita a tiranias do arco-da-velha, que, à boa moda da crueldade oriental, nem nos passam pela cabeça (continua mesmo sob os rigores duma) e, não obstante, lá vai ela, toda pimpona, vacarrona inaudita, a grande velocidade, em adiantado estado de economia. Novo prodígio: o desenfreado servilismo não os impediu a eles, mas obstrui-nos a nós. Se calhar pecamos por defeito. É, deve ser isso. Devíamos treinar mais.
E quanto ao compadrio, esse cancro? Praticá-lo-emos mais que os italianos? Todavia, eles, que até inventaram a mafia, não se nota que se amargurem e descabelem como nós, ou pelo menos como o VPV. Não é patente que grandes complexos ou traumas, nesse departamento, os atormentem ou atrofiem. De tal modo, que até fizeram dessa infâmia produto de exportação. E não foi com importações dessas que os Estados Unidos se tornaram também uns adiantados de primeira água? E não suspiramos nós, e todos os virtuosos do mundo avançado, por Ferraris, Alfa Romeos, albardas Giorgio Armani e quejandas bugigangas para parolo adiantado-mental?
Mas tem pior, mais grave ainda: Nós, portugueses, párias do mundo, odiamos a lei e a justiça. Será que as odiamos mais, a essas virgens inefáveis, que os Americanos, ou os Ingleses? Basta comparar as taxas de criminalidade violenta, toxicodependência, densidade penitenciária, etc, etc. Ou será que simplesmente não estamos tão bem organizados como eles na mistificação e manipulação da lei e da justiça? Em qualquer dos casos, isso não os atrasa a eles, mas, para alta recreação do articulista, atrasa-nos a nós. Ora bolas!
E, por fim, culminar apoteótico, eis que, num vislumbre fulgurante, a criatura entrevê o paraíso na terra à beira mal plantada. E de que forma? Abracadabra: "uma sociedade individualista e...solidária", "inovadora e...disciplinada". Quer dizer, em simultâneo, uma coisa e o seu contrário. Vamos passar de país atrasado para país esquizofrénico? Belo e besta, por turnos? A desfazer de noite o que tecemos de dia?... Que maravilha!...
Mais palavras para quê? É um artista português.
E vem um tipo, que faz uma trafulhice destas num artigo, clamar contra a putativa trafulhice nacional.
Para mim, isto, este acto típico e campeão do tartufismo infestante, apesar de tudo, tem uma grande virtude: demonstra à saciedade que não só Portugal não é um país pobre, como, pelo contrário, é riquíssimo: pelo menos, em pobreza de espírito. De facto, "uma sociedade camponesa quase indigente", como radiografa o Vasco, já há muito vem dando lugar a uma sociedade urbana – de janotas cultorículas – a destilar pedantice e a chocalhar basófia. Urbanorreia, esta, e doravante, não apenas "quase" mas completamente miserável. Não apenas do espírito, mas também de todos e quaisquer valores que não sejam a vida fácil e o dinheiro homónimo dessa vida.
PS: Desculpa lá, Zazie. Deixas-te levar pelas simpatias goliardescas e nem sempre remiras com atenção. Assim, vou ter que to dizer outra vez (e espero que seja a última): o Rei vai nu! O Vasco faz-me lembrar o Dâmaso.