O Quinto Império
Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho, no erguer de asa,
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição de raiz –
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro, que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,
Europa – Os quatro se vão
Para onde vai toda a idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
-Fernando Pessoa, «Mensagem»
É preciso ter sempre em consideração que o texto da “mensagem” é um texto esotérico, no bom sentido que
esotérico pode ter, ou seja, como a “Metafísica” de Aristóteles, ou “Assim Falava Zaratustra”, ou as parábolas de Jesus são textos
esotéricos. Quer isto dizer, essencialmente, que não são textos para espíritos gordos, anafados, obesos, a arrotar douta sapiência. Mas para espíritos mendigos, nómadas que erram pela terra em busca do alimento, do “pão”. A luz é para quem a procura e não para quem julga que a tem. O e
spírito não se tem, exercita-se.
A este propósito, e título de exemplo, convém que clarifique o seguinte pormenor há muito deturpado.
No “Sermão das bem-aventuranças”, Jesus, no texto original, em grego (e não em latim como, por tradição, foram sendo feitas traduções) profere o seguinte:
«
Makárioi oi ptõchoi tõ pneúmati
õti aútõn he basileia tõn ouranõn » (...) (Mateus, 5,3)
A tradição faz a seguinte tradução:
« Felizes (ou bem-aventurados) os pobres em espírito (ou pobres de espírito) porque deles é o Reino do Céu»
A passagem é por demais conhecida e, graças a essa “tradução”, deixou para a posteridade a ideia de “bem-aventurados os imbecis, ou tolinhos, ou ígnaros, ou coisa do género”.
A “traição” reside basicamente no termo “ptõchoi”, traduzida para o latino “pauper” e, a partir daí, para o portugês “pobre”. Porém, “pobre”, em grego, não radica no “ptochos”, mas na “penia” (pobreza), donde resultou a nossa “penúria”. Pois bem, que significa então, originariamente, “ptochos”? Significa, exactamente, “mendigo”. Ora, é diferente, sobretudo em termos de metáfora, de parábola, de riqueza simbólica, dizer “pobre” ou dizer “mendigo”; na verdade, bem traduzido, o que Jesus diz é “ bem aventurados os que mendigam espírito”, isto é, “bem aventurados os que procuram, os que buscam espírito (pois reconhecem nessa sua demanda a sua falta mais essencial, a mais elementar substância para a sua sobrevivência”). Tanto que essa ideia é logo adiante confirmada com “bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, pois serão saciados”, ou seja, novamente a dimensão ética, espiritual, a sobrepôr-se à mera dimensão bestial, intestinal, bandulhística. E, mais uma vez, refira-se, a título de curiosidade, a tradução de “fome” para o termo “peina” (do grego) é empobrecedora, porque “peina” tanto pode significar “ter fome”, como “ter necessidade de”. O fato é sempre feito ao gosto do alfaiate, ou a tosquia ao gosto do tosquiador...
O “mendigar” simboliza, por conseguinte, esse “estar necessitado de”, esse ter consciência de qual a sua verdadeira necessidade. Daí que o sujeitar-se a essa ”necessidade”, segundo Jesus, venha constituir, ao mesmo tempo, o odos (o caminho) da libertação. Pura figura exemplar, dum divino que desce à necessidade, ao patíbulo entre os mortais, ele próprio mostra o trilho, a odisseia da liberdade através da necessidade. É na necessidade –na vida, com tudo o que a vida tem -, que o homem se encontra e, na medida em que se encontra, encontra Deus, e não contra ela, a vida/necessidade, ou a fugir dela e, inerentemente, de si. Jesus mostra o caminho, reabre a via, mas não substitui os caminhantes. Foi traído (ou mal traduzido, se preferirem) por Judas, por Pedro e, acima de todos, por Paulo. A tradução de Paulo, sobre todas, é uma contradição de Jesus, um “Contra-o-que-Jesus-disse”, donde resultou, em grande parte, um cristianismo que não libertou mas fechou o homem nos seus medos, nas suas fobias, na sua proscrição fictícia. A fuga de Pedro, a sua cobardia, a sua perda de fé diante do abismo, perpetuar-se-á na Igreja de que, em teoria, constituirá a “primeira pedra”. O fariseísmo judaico-romano de Paulo contaminará o discurso.
Chamo a atenção que esta é a minha singular perspectiva, puramente filosófica, e não pretende colocar minimamente em causa credos, convicções religiosas ou dogmas assumidos seja por quem for. Se há alguém errado, sou certamente eu e o inferno espera-me concerteza. Tranquilizem-se, pois, as boas almas e os beatos encartados todos da paróquia.
Apenas explanei este arrazoado, porque a perspectiva de Nietzsche, no Anticristão (erradamente traduzido por “anticristo) é, no essencial, bastante próxima. Sendo o “anticristianismo” de Pessoa, em quase tudo, o “anticristianismo” de Nietzsche, tornou-se necessária esta exposição para que possamos entender o significado cabal desse termo. Assim, pela negação da negação (lei básica da lógica) temos a afirmação: sendo o “cristianismo” de Paulo a negação de Jesus, a negação dessa negação nada mais pretende que a reafirmação, ou re-descoberta daquilo que foi entretanto escondido e encoberto. A limite, “anti-cristão”, em Nietzsche, como em Pessoa, deve ser lido como anti-anticristo.
Não é por acaso que Nietzsche, no fim da sua vida, assina cartas como “O Crucificado”. E Pessoa escreve, na “Mensagem”, logo a seguir ao Quinto Império, no “Desejado”:
«Mestre da Paz, ergue teu gládio ungido,
Excalibur do Fim, em jeito tal
Que sua Luz ao mundo dividido
Revele o Santo Gral!”
Para podermos entender aquela que, no meu bárbaro entender, é a ideia de “Quinto Império” em Fernando Pessoa, tornava-se imprescindível perceber esta noção “anticristã”. De alguma forma, sendo da pura ordem do “espírito” (espírito, esse, não como alminha, mas assumpção, respiração plena da vida) o Quinto Império radica nesse “mar por navegar” onde a figura de Jesus Cristo emerge, em aura velada, por detrás da figura enigmática do Infante.
O resto, depois, falamos.
Entretanto, depois do que aqui ficou dito, tentem decifrar o poema em epígrafe. Vejam se faz sentido. É provável que não, ou...
“Ser mendigo é ser homem”.
Mendigo – do latim “mendicus”, indigente; na raíz: “menda” – defeito físico; falta; erro (de linguagem, num texto, cometido pelo copista).
De “menda”, originou-se, entre outros, o nosso português “emenda”.