segunda-feira, junho 21, 2004



Por princípio, não se fala de futebol aqui no blogue.

Mas quando se trata dos castelhanos, nem que fosse aos berlindes ou caricas, o confronto valeria sempre tanto como uma nova Aljubarrota.
Escrevo este postal com um grande sorriso estampado nestas minhas hórridas ventas dragonianas. Rejubilo. Especialmente pela grande infelicidade que, estou certo, grassa agora para lá da fronteira. Mais uma vez, corremo-los a pontapé.
O principal já está. O resto, doravante, é acessório.
Não, minto: o ideal é que sejam agora os ingleses nos quartos de final. Já que estamos com a mão (aliás, o pé) na massa, dos bons filhos da puta, é aproveitar! Convém malhar enquanto está quente.
Depois dos "nuestros hermanos", venham lá esses "velhos aliados". Com "hermanos" e aliados destes, quaisquer inimigos parecer-nos-ão sempre pessoas simpáticas.

domingo, junho 20, 2004

A COLTURA DA AMÉRICA

É mais que evidente que eu mangava convosco quando afirmava que a América não tem cultura. Tem, claro que tem, e não é pouca. Passo a expôr alguns dos seus símbolos -ou ícones, se preferirem.


1.COLT 45

2. RAMBO

3. FREE ENTERPRISE & BIG BUSINESS


4. JUNK FOOD (For a healthy junk-mind)


5. COMPETIÇÃO


6. LIBERDADE

7. COMERCIAL CONCEPT (O que é bom é o que se vende)



8. DROGAS LEGAIS
- Antidepressivos, ansiolíticos, hormonas de crescimento, anabolizantes, vacinas, estimulantes, etc, etc.


9. PLASTIC PEOPLE



10. ALIEN DETERRENCE & WORLD PATROLING


11. SACRED OIL


12. DEMOCRACIA INC. (for exportation)

13. THE S&M SOCIETY








sexta-feira, junho 18, 2004

Esquerda e Direita


As coisas, as ideias, as pessoas, estão cada vez mais distintas por fora (na fatiota e no penteado), e mais uniformes e amalgamadas por dentro (nas vísceras e no coração).
Para emblema disso, nada como a política dos nossos dias - ocupação, inerentemente, tomada de assalto por manicuristas e cabeleireiros.
Senão, reparem: O tipo de esquerda não só está piamente convicto que a Verdade existe, como, sobretudo, é possessão sua. Em contrapartida, o tipo de direita, ocupa-se obsessivamente da propriedade material, para ele, a única realidade verdadeira que existe. "A verdade é o meu pensamento", clama um; "a verdade é o que eu tenho", opõe o outro.
Bem no fundo, nenhum deles ama a Verdade. Um instrumentaliza-a; o outro compra-a. Para aquele, portanto, a infeliz não passa de unilateral masturbação; para este, resume-se a sórdida prostituta.
Fora isso, não se distinguem muito. Um já tem; o outro gostava de ter. Um já está; o outro vai a caminho.
O debate, superficialmente belicoso, nunca sai disso. Gira à volta da propriedade; nunca da verdade. Esta, bem entendido, um não a tem nem precisa dela pra nada, excepto para o capricho periódico de se aliviar nela. O outro tem-na toda e, por isso mesmo, exige a gratificação que lhe é devida por tamanha vidência, por tão útil préstimo à Humanidade.
No fim, quase sempre, encontram-se a meio caminho. O tráfico - a discreta transacção - sara as feridas da ideologia, os arrufos dos comadrios: A esquerda troca de bom grado uma boa parte da sua infinita e exclusiva verdade por um razoável quinhão da infinita e não menos exclusiva propriedade da sua rival.
A direita é só a esquerda empaturrada.
Donde, não surpreendem as manias (camufladas de estratégias): uma, a esquerda, investe na palraria; a outra, a direita, concentra-se na digestão. Acreditando, cada qual, nos poderes miraculosos e panaceicos, ou da saliva, ou do arroto.

quinta-feira, junho 17, 2004

UM MUNDO AMORFO

Às vezes, apetece-me disparar-vos assim, à queima roupa, o seguinte:
As dificuldades, os ambientes hostis moldam o carácter; as facilidades, as redomas mimosas dissolvem-no. Tenho-o constatado ao longo da vida. Não sou o único. Parece que também se constata ao longo da História. É a distância que vai do espartano ao hedonista.
É porque os homens - e com eles os povos- perdem o carácter, que a massificação se instala, que a mercearia usurpa o Céu e a pocilga o cosmos. É porque os homens se deixam levar ao pasto como manadas, que irrompem, a qualquer hora, ilusionistas de cajado armados em pastores. E não têm sido poucos os charlatães! Ultimamente, todavia, já nem facínoras desses são necessários: o chiqueiro automatiza-se a olhos vistos e passos largos. É uma exploração moderna, robotizada. O processo tem-se vindo a aprimorar. Já nem para o pasto se mexem: contentam-se com a palha, os antibióticos e as hormonas. Criam espíritos, reproduzem carácteres, como quem cria galinhas ou multiplica suínos: para uma engorda fácil e um abate rápido.
E tudo isto em nome duma anestesia, duma suavização existencial ao domicílio, duma eutanásia a longo prazo, generalizada.
É todo um mundo de anõezinhos hiperdependentes, junkies do supérfluo e da pequena mordomia, cada vez mais viciados em toda a espécie de acessórios e próteses, que enchem a boca de proclamações e fanfarronadas do estilo: "somos livres, somos cada vez mais livres! nem se compara com aquelas épocas tenebrosas do passado." São livres, claro está, desde que tenham emprego. Caso contrário, ei-los que bradam, gemebundos, merdificados: "Somos uns desgraçados!"
Para aceitar um mundo destes, para se aninhar nele à boa maneira leibnitziana, como se fosse o melhor dos mundos possíveis, para não aspirar a mais que esta gamela dourada, não é a falta de inteligência que é essencial: é a ausência de carácter, de dignidade, da coluna vertical que distingue, enfim, o homem dos animais horizontais. É imprescindível, em suma, perder a capacidade de olhar o horizonte ou encarar os céus.
Em nome do bem-estar, vendemos o nosso ser e, nada sendo digno de se ver, deixamos de estar, ficamos à deriva em lado nenhum, nem bons, nem maus: matéria neutra, plasma informe, aberração desarvorada pelos limbos. Reduzidos a ferramenta que vale enquanto a usam; plasticina sempre dúctil e disponível; escravos cegos por conta própria.
Esta massa amorfa e acéfala, agregado esponjoso e destruidor, cada vez mais obscuro e irracional, que habita os subterrâneos caóticos e ocupa os pesadelos e as visões dos poetas - esta abominação sem nome - contemplem-se: somos nós! Habitamos ruínas lúgubres, onde chacinámos horripilantemente deuses e antepassados, mundos e heróis, artes e sonhos. Memórias que reduzimos a cacos e entulho heteróclito - que assombramos e polimos com a nossa baba negra e opiniosa, a nossa verborreia monocórdica e papagueante, empastelados numa bestialidade primordial para onde vamos regredindo. Foi isso, suspeito bem, que Lovecraft descobriu, sob o imaculado manto branco da Antártida, diante das "montanhas da loucura":
«Estávamos no mesmo túnel em que deslizava aquela coluna de pesadelo, elástica, fétida, irisada, que avançava a uma velocidade infernal envolta em rolos de névoa, trazidos das profundezas do abismo negro. Era uma coisa terrível, indescritível, maior do que um comboio, um amontoado informe de bolhas protoplasmáticas, luminosas, com miríades de olhos que ora apareciam ora desapareciam, formando pústulas de luz esverdeada na parte que avançava direita a nós, esmagando os pinguins apavorados, deslizando no solo varrido que ele e outros como ele mantinham diabolicamente limpo e reluzente.»
(- H.P.Lovecraft, "Nas Montanhas da Loucura")


Fazei o caminho com ele. Ide visitar-vos. Lá detrás do verniz das aparências, por baixo do palco da feira das vaidades. Pura matéria em acção. Despida de qualquer forma. Vazia de todo o espírito.

TERMÓPILAS OU O DESFILADEIRO DA HONRA


«Estrangeiro, vai anunciar aos lacedemónios que aqui
estamos, em obediência às suas leis...»

Nas Termópilas, há mais de dois mil anos, Leónidas e os melhores de Esparta, lutaram até à morte. Deixaram-se matar até ao último homem para que a Grécia fosse livre, para que a terra dos seus pais não caísse sob o jugo dos bárbaros.
Cercados - e prestes a serem submersos - pelas hordas avassaladoras e infinitamente superiores em número, dos Medos e Persas, os espartanos não vacilaram.
Xerxes, o grande rei persa, tentou ser magnânimo. Diante de tão pequena oposição, enviou um mensageiro:
"Rende-te e entrega as tuas armas. -Ofereceu.
Leónidas, que era espartano, respondeu como um espartano. Foi lacónico:
-"Vem buscá-las!"
Depois lutou. Lutaram todos. Morreram para que a sua terra não morresse. Para que os seus filhos e netos não fossem escravos. Morreram porque a morte é certa e a vida humana pertence-lhe. Ao homem, de seu, mesmo seu, só resta a honra. Essa é a única coisa que nem a morte lhe pode tirar.
Naquele dia, há muito tempo, Leonidas morreu inteiro, livre, homem. Preferiu morrer como um homem que viver como um escravo. Preferiu dar o peito à morte que virar costas à vida. É preciso coragem, muita coragem, para se ser um homem. Ontem como hoje.
Por mim, gostava de lá ter estado, a rir-me, como todos os outros, do medo e da vida fácil, ao escutar a última ordem de Leónidas, lacónico como sempre, antes do desenlace final:
-"Almoço aqui! Jantar no Hades!..."

Lá, no Hades, onde eles todos agora estão. Quanto a mim, mais vivos que nós.

DE CÉLINE, SOBRE A AMÉRICA, COM DESAMOR...


«Era o bairro precioso, explicaram-me mais tarde, o bairro do oiro: Manhattan. Apenas lá se entra a pé, como na igreja. No que diz respeito a bancos é o verdadeiro coração do mundo de hoje. E há assim mesmo quem por ali escarre no chão, ao passar. É preciso ser-se ousado.
É um bairro a transbordar de oiro, um verdadeiro milagre, e até podemos ouvir esse milagre através das portas com o seu ruído de dólares a tinir, sempre demasiado volúvel, o Dólar, um verdadeiro Espírito Santo, mais precioso do que o sangue.
Tive ainda tempo de ir vê-los e cheguei mesmo a lá entrar e a dirigir-me àqueles empregados que guardavam as moedas. São tristes e mal pagos.
Quando os fiéis entram no banco, não nos convençamos que lhes permitam servir-se ao sabor dos seus caprichos. Nada disso. Falam ao Dólar murmurando-lhe coisas através de uma rede estreita, confessam-se a bem dizer. Nada de grandes barulhos, luzes bastante veladas, um minúsculo postigo no meio de arcadas altas, e pronto. Não engolem a hóstia: encostam-na ao coração.»
-Céline, "Viagem ao Fim da Noite"

Do essencial que a América tem, não há muito mais a dizer. Tudo o resto é uma espécie de constelação de acessórios disto. Derivações, satélites, tentáculos sugadores. Céline, com aquele poder de síntese genial que o caracteriza, vai ao âmago. Em três pinceladas, resume a coisa. E deposita o escarro. Sublime. Sonoro. E, caso para se dizer, na mouche!

«Eram casais a deitar-se. Pareciam tão derreados, esses americanos, como os nossos compatriotas depois das horas verticais. As mulheres tinham as coxas desenvolvidas e muito pálidas, pelo menos aquelas que eu dali via. A maior parte dos homens barbeava-se enquanto fumava charutos, antes de se deitar.
Na cama tiravam em primeiro lugar os óculos, em seguida a dentadura que enfiavam dentro de um copo, colocando tudo em evidência. Não me parecia que falassem uns com os outros, de sexo para sexo, tal como sucedia na rua. Dir-se-iam animais bastante gordos e dóceis, habituados a aborrecer-se. Não distingui no conjunto mais do que dois casais a fazerem com a luz acesa as coisas que eu esperava, e esses mesmo com muito pouco ardor. As outras mulheres comiam bombons na cama enquanto aguardavam que os maridos se acabassem de preparar. Finalmente todos eles apagaram a luz.(...)
«Em África conhecera, é verdade, uma das mais duras espécies de solidão, mas o isolamento neste formigueiro americano apresentava-se com aspectos mais opressivos ainda.»
-Céline, "Viagem ao Fim da Noite"

Entretanto, já se passaram muitos anos. Parece que a coisa se deteriorou. Se é que é possível conceber "deterioração" num monturo. Penso que o conceito mais adequado será "fermentação". Aquilo fermenta. É um caldo. De culturas, diz o vulgo. De falta delas, digo eu.




quarta-feira, junho 16, 2004

CURRICULUM MORTIS (ou da Self-Made-Mania)



I ACTO - A Ascensão

Quando nasce, a mãe morre. Em casa é um susto tremendo. A precocidade, contudo, não tarda a confirmar-se...
Aos sete meses de idade, esmaga entre os deditos ágeis a sua primeira pulga incomodativa. Aos dois anos, degola meticulosamente moscas e desmembra baratas com assinalável método e engenho.
Pelos seis, já depena o periquito e despenha subreptciamente o cão da varanda. Duas semanas depois, é a vez do gato aparecer estorrado no forno. A família começa a dar sinais de transtorno e desnorte. Consultam-se bruxas e videntes; um exorcista é chamado. Benzeduras e aspersões abatem-se. Os mistérios, todavia, não arredam. Pelo contrário, adensam-se. Episódios macabros irrompem. Uma prima amanhece enforcada.
Apavorada,, suspeitando duma intervenção satânica, a familia abandona a casa, a vila, a província. Migram para a capital.
Debalde. Inexorável e infalível, persiste:
Com doze anos, descobre a química. Ensaia as primairas experiências no chá da avó; com arsénico. A incauta anciã demora três meses até recolher ao cemitério. Seguem-na, a intervalos regulares, duas tias e um capitão reformado, galante cortejador da mais nova.
Aos quinze, reúne pólvora suficiente para enviar o professor de matemática em viagem pela sala e de visita ao andar de cima, não fosse o tecto. Vai ao funeral para não criar suspeitas.
No ano seguinte é o vizinho do lado que aparece no fundo dum poço, com cadeira de rodas e tudo. Ninguém percebe. Nem desconfia. A sua popularidade cresce a olhos vistos.
Dedica-se à música e mata o pai com um violino. Esconde o cadáver dentro dum caixote, que despacha, via marítima, para a Argentina, ao cuidado dum personagem imaginário. Em casa, todos o admiram. Pressente-se, pela primeira vez, fadado pela Providência a grandes feitos e cargos. Aproveita para ensaiar infanticídios com uma tuba.
Completa desassete retorcidas primaveras quando se apaixona. É correspondido. Depara-se, não obstante, com a firme relutância do pai da eleita em devir seu sogro. "relutância" é mesmo eufemismo: na verdade, é de hostilidade feroz, inexplicável, coroada com vias de facto, que se trata. Acompanhada, ainda por cima, dum corpanzil imenso de estivador efectivo. Tabefes sonoros e pontapés abruptos não tardam a experimentá-lo. Vê-se despedido porta fora, nimbado de injúrias e remoques depreciativos. Sombrio e carrancudo, retira-se. Mas, em silêncio, com frieza patibular, jura vingar-se. Uma semana depois, subitamente, durante a sesta, o progenitor recalcitrante explode. Dois quilos de trotil estratégicamente colocados prontificam-no para o destaque nas páginas de necrologia dos jornais. Os familiares levam três dias a recolher os fragmentos e outros tantos a tentar resolver o puzzle. Por fim, desistem, resignados a um montículo simbólico. O funeral decorre entre grande luto e consternação de toda a vizinhança. Comentam-se, à boca pequena, enredos complexos e acusam-se, entre outros, os extra-terrestres.
Sem mais empecilhos nem obstáculos aos seus intentos, o nosso herói casa-se, finalmente, numa manhã de Abril, entre rejúbilo e nuvens de arroz. Parte para lua-de-mel num "Cadilacc" alugado e, logo no arranque, simulando uma falha rangente na caixa, aproveita para atropelar o padrinho distraído e dois cunhados bêbedos.
As responsabilidades de chefe de família começam, a partir de então, a afligi-lo. Vê-se compelido a largar os estudos musicais e procurar emprego remunerado. Falha como motorista de autocarro: este descontrola-se numa das principais praças da capital, levando a esmo transeuntes e explanadas. Um obituário record sobrevém. O despiste redunda em chacina. No mesmo dia, ganha foros de primeira página e dá brado internacional. Polémicas e debates eclodem. Debulhado em lágrimas, exibem-no no telejornal. As opiniões dividem-se, mas, por fim, uma vaga de fundo prevalece. Promovem-no a administrador.
Investe na especulação imobiliária e torna-se empreiteiro. Constrói edifícios em tempo incrível, que ruem mais rapidamente ainda, soterrando todos os inclinos. Após uma célebre entrevista na televisão, é chamado para a pasta das Obras Públicas. Aceita e propõe-se , de imediato, resolver todos os problemas que for capaz de inventar. Inventa vários. Que resolve no mesmo dia. O êxito não podia ser mais retumbante: é aclamado herói nacional e paradigma das gerações vindouras.
Inebriado, aposta nas novas tecnologias e igrejas. Congemina e desenvolve o chamado marketing lobotómico (consiste num cocktail inefável de tecnicas de genocídio subtil à mistura com rituais compulsivos de suicídio colectivo, procedido de doacções legatórias). Analistas consagrados são unânimes em reconhecer-lhe uma clara inspiração divina, dotes imaculados de profeta, mas hesitam entre a reencarnação de Jesus ou Buda. Alguns, mais visionários e entusiastas, descortinam mesmo nele um novo Staline filantrópico ou um Hitler sentimental. É beatificado, por antecipação.
Com trinta anos, a vida sorri-lhe. Pai de duas lindas meninas, enviúva da primeira mulher que, providencialmente, se suicida com três tiros na cabeça.

(continua...)

terça-feira, junho 15, 2004

A AMÉRICA DOS IMPOTENTES


Eu não gosto de americanos. Refiro-me àquela massa bruta, ao formigueiro que parece importado de Marte. Republicanos ou democratas, é-me indiferente. É a corja inteira que eu não gramo. Não é uma questão política: é visceral. Não gosto de americanos como não gosto de baratas, ratazanas ou aranhas. Repugnam-me, causam-me asco. São peçonhentos. É instintivo. Lovecraft, tenho a certeza, inspirou-se neles para conceber todas aquelas monstruosidades amorfas e alienígenas que assombram e depredam a espécie humana. Que escavam túneis tenebrosos e habitam antros abomináveis.
Racionalmente, também não gosto. Não gosto nada, como não gostava Nietzsche, Freud, Levy-Strauss, Heidegger, Céline, Ortega Y Gasset e tantos outros.
Portanto, se sou estúpido estou bem acompanhado.
Suspeito que se reproduzem como os vampiros. Vampiros de almas, quero dizer. A sua prole zombie, frankensteiniana, passeia-se espectralmente por toda a parte. Despersonalizada, desrealizada, delirante, amorfa, sonâmbula, expele uma baba negra e corrosiva que não engana. Uma estaca de madeira antes do anoitecer seria um acto de caridade.
Apegam-se a grunhidos monocórdicos, entrecortados por urros possessos. Como papagaios energúmenos que apenas repetem os mesmos chavões decorados, obsessivos, obscenos.
Um desses, predilecto, mais em voga, é o de que os americanos nos salvaram dos nazis. Com que frenesim se lhe entregam!...Que cassete!
Uivam-no, proclamam-no, num esbugalhado transe, de olhar fixo e cabeleira ouriçada, os olhos raiados e a baba a pingar das mandíbulas rangentes. É o argumento rei. Pode o cosmos ruir, que o argumento rei resiste.
Aparentemente, acreditam nele. Agem em conformidade. Mas não deixa de ser curioso, e até irónico, que esses mesmos que louvam hoje os americanos, estariam seguramente na primeira fila a louvar os nazis caso estes tivessem triunfado e usufruissem, no presente, de incontestada hegemonia. Digo mais, andariam por aí, em patrulha severa, fardados de negro com duas insígnias "ss" na gola e uma caveira no boné.
E louvá-los-iam pela única e genuína razão por que sabem louvar: porque eram os que tinham ganho, os que estavam por cima, os triunfantes!
Garanto-vos: Ninguém como o cão para reconhecer o dono da casa. Ninguém como o sabujo para acudir à voz e ao assobio do amo. Nem como o eunuco para zelar pelo harém. Nem como o impotente para idolatrar e rastejar abjectamente diante do Poder e da Força.

O ESSENCIAL E O ACESSÓRIO


Cá no burgo, confunde-se muito o essencial com o acessório. Por exemplo, essencial é a competência dum governante; acessória é a sua cor política. Mas o pagode acha o contrário. Desde que vista a sua camisola, está salvaguardado o essencial. Porque pró pagode o essencial é o acessório, a vaidade prevalece sobre a eficiência. Votei naquele que ganhou, logo ganhei.
Grande parte dos governantes, nem são de direita nem de esquerda: são incompetentes. Depois vem o acessório: são incompetentes de direita ou de esquerda. Não é pelo acessório que se tornam especialmente danosos, é pela essência -por serem incompetentes.
A competência dum governante, ainda por cima democrata, mede-se pela eficácia na governação dum país real, para o qual se candidatou e foi eleito, e não dum país imaginário. Muito menos dum país liliputizado ao seu grémio, reduzido à sua pandilha. O problema é que a maior parte das criaturinhas incubadas e criadas nas máquinas partidárias não faz a mínima ideia do que é o país real, quanto mais governá-lo. Os seus horizontes esgotam-se no aparelho que os hospeda e amamenta. Daí a confundirem o país com o partido, e, por conseguinte, a trocarem o essencial pelo acessório, não demora nada. Também não espanta que a democracia descambe numa parasitocracia oligarquizada. É assim. Ou isso ou o caos.
Entretanto, a discussão política reflecte a política, quer dizer, o essencial é o acessório: aquele senhor não presta porque não é do meu partido; se fosse do meu partido seria excelente. Eis-nos, assim, ao nível do futebol. As bancadas do parlamento confundem-se cada vez mais com as bancadas dum estádio; e o partidarismo vociferante, ululante, em nada se distingue duma variação engravatada de hooliganismo.
O actual governo, por exemplo, essencialmente, não é de direita ( e muito menos de esquerda): é, isso sim, profundamente incompetente. Chegaria a ser anedótico se não fosse trágico. A ministra das finanças, essa, é digna de internamento compulsivo e camisa de forças. Quanto ao que distingue este governo do anterior, não é o facto -acessório- de este se pretender de direita e aquele de esquerda. No essencial, na profunda incompetência, assemelham-se; na confusão entre Estado e aparelho partidário quase se geminam. Não me restam grandes ilusões que qualquer um dos outros partidos, uma vez no governo, desgovernaria com igual gula.
Para que servem, então, as eleições?
Sinceramente, já não sei. Nem consigo, tão pouco, perceber se, na realidade, os cidadãos votam (aqueles que votam), ou se, pura e simplesmente, se aliviam.

segunda-feira, junho 14, 2004

ÍTACA, lá ao fundo...


A Ítaca que esperava Ulisses era uma Ítaca que envelhecia e morria, definhando. Uma ilha sujeita a um tempo hostil e mundano; uma mulher prisioneira dum tear, duma teia ambígua, que todos os dias se faz e, todavia, permanece inacabada. O regresso de ulisses é também a renovação. O tempo é vencido, o tear fica completo, a mulher liberta-se. Reencontra-se a mesmidade. Tudo se revê no ponto de partida. Encerra-se o círculo. Reanima-se o Todo pela reunificação das partes. Ulisses é, sem dúvida, um princípio não só unificador como benéfico, e benéfico porque unificador: Transporta consigo o Final feliz, a salvação. Terminada a sua odisseia -na concretização do círculo - fica tacitamente instaurada a Eternidade. Ulisses partirá e voltará sempre; errará para atingir necessariamente o Final feliz. E em todas essas infinitas vezes iguais a uma só, a ordem natural/circular das coisas triunfará sempre.
Mas o próprio desencadear do círculo revela, intrinsecamente, uma ordem outra que não essa: uma Ordem Superior, ordem-comando, que se revela e patenteia, quase diríamos, pela negativa. Isto é, o círculo realiza uma ordem, é uma ordem, mas subentende outra ordem acima, necessária, inexorável, determinante. Não é, com efeito, do humano entendimento perceber porque é que Ulisses tem que abandonar Ítaca para ir combater para Tróia e, consequentemente, errar e padecer por paragens longínquas, entre monstros e sorvedouros. Ele próprio não quer ir, finge-se louco quando o convocam. É perspicaz. Pressente a armadilha e nós, num plano imaginário, torcemos com ele para que não vá. Sabemos a história, como provavelmente ele a adivinha. No entanto, parte, tem que ir - porque senão não haveria história nem, tão pouco, Final feliz. Por outras palavras: Não haveria Vida. Ora, Ulisses é a ordem da vida e revela, por outro lado, na realização do círculo, a outra ordem que lhe superintende.
Do mesmo modo, também poderíamos dizer que não é do humano entendimento perceber porque é que Jesus Cristo tem que descer à Terra para ser crucificado. Num sentido, revela também ele a ordem superior: vem porque Deus Pai o manda; mas noutro ele é o Verbo feito carne, o próprio Deus que tem que descer ao mundo, à dor -enfim, que tem que lançar-se na odisseia para salvar os filhos. Tal qual Ulisses, de resto. Fica-nos, contudo, a curiosidade e a dúvida de saber se, como este, não teria também Ele preferido não ter que o fazer.
Não obstante, em ambos é o Final feliz que se concretiza: Ulisses volta a Ítaca: Cristo retorna ao Céu. Das duas odisseias se instaura a eternidade, por acordo íntimo e unânime de todos os "leitores" (é que, tal qual o "helenismo" consiste na "leitura" da Odisseia, a palavra de Ulisses, também o Cristianismo se sustenta na "palavra de Jesus"). E, por mais ateus que aparentemente nos proclamemos, como suportaríamos a vida se não nos soubéssemos eternos?
Foi confiada nessas palavras, de Ulisses e Jesus, num tempo em que a palavra significava e fazia mundo, que partiu um dia a nossa civilização. E é por força delas e daquilo que representam, que ainda hoje - por entre monstros e sorvedouros, abismos e neblinas, amnésias e desvarios - acreditamos que, algures, no fechar do círculo, nos aguarda o Final feliz. Ítaca. É para lá que vamos. Ficou-nos gravado no fundo do coração. Nesse dia já longínquo em que partimos.

PS: Em grego, "hityw" (raíz de Ítaca) significa: "ir", "lançar-se", "desejar com ânsia".

domingo, junho 13, 2004

A ODISSEIA DO RANCOR


«Aplicamos o melhor das nossas vigílias a esquartejar em pensamento os nossos inimigos, a arrancar-lhes os olhos e as vísceras, a espremer-lhes e a esvaziar-lhes as veias, a espezinhar e esmagar cada um dos seus órgãos, ao mesmo tempo que por caridade lhes deixamos o gozo do seu próprio esqueleto. Feita esta concessão, acalmamo-nos, e, repassados de fadiga, deixamo-nos deslizar para dentro do sono. Repouso bem ganho depois de tanto encarniçamento e minúcia. Devemos de resto recuperar forças para conseguirmos na noite seguinte recomeçar a operação, reentregando-nos a uma tarefa capaz de desencorajar um Hércules cortador. Decididamente, ter inimigos está longe de ser uma sinecura.
O programa das nossas noites seria menos carregado se, durante o dia, tivéssemos ensejo de dar livre curso às nossas más inclinações. Para alcançarmos não tanto a felicidade como o simples equilíbrio, teríamos necessidade de liquidar um bom número dos nossos semelhantes, de nos consagrarmos quotidianamente à prática do massacre, seguindo o exemplo dos nossos muito afortunados e muito remotos antepassados.(...)
Nada nos torna mais infelizes que o dever de resistirmos ao nosso fundo primitivo, ao apelo das nossas origens. Daí resultam estes tormentos de civilizados reduzidos ao sorriso, atrelados á cortesia e à duplicidade, incapazes de aniquilar o adversário a não ser em palavras, votados à calúnia e como que desesperados por termos que matar sem agir, através de simples virtude da linguagem, esse punhal invisível. As vias da crueldade são diversas. Substituindo-se à selva, a conversa permite à nossa bestialidade dispender-se sem dano imediato para os nossos semelhantes. Se, pelo capricho de uma potência maléfica, perdêssemos o uso da fala, ninguém mais ficaria em segurança.»

Uma derradeira charada: Quem escreveu isto?
Desta vez dou ajudas:
a) É um filósofo do século XX (o que melhor escreve, quanto a mim);
b)É de origem Romena (mas radicado em França);
c) O título do post e do ensaio a que o trecho citado pertence são iguais;
d)Nasceu na Transilvânia, em 8 de Abril de 1911.

Um último motivo para meditação: segundo a tese aqui prescrita, quanto mais os cidadãos duma determinada sociedade se entregarem a palrarias e debates retóricos (não necessariamente políticos), mais inofensivos e domesticados se tornam.
Nesse sentido, o facto dum regime permitir que se diga mal dele, que se converse e labie - aberta e depreciativamente- a seu respeito, que se pensem e meditem os projectos mais sombrios, só beneficia a sua longevidade e segurança.
Traduzido para o vulgo: "Cão que ladra não morde."
Curiosamente, a realidade não o desmente: ladra-se cada vez mais e morde-se cada vez menos. Descarrega-se a bílis, sublimam-se os ódios e fica-se pronto para mais uma viagem, atrelado à nora, de roda do poço.

sexta-feira, junho 11, 2004

ANTOLOGIA DRAGOSCÓPICA - I. Uma questão fundamental


Passo a editar uma antologia deste blogue. Serve para comemorar os seis meses de iconoclastia cibernáutica, data quase tão importante como a Descoberta do Caminho Marítimo para o Fundo. Inicio com aquele que foi, precisamente, o primeiro postal a sério deste Dragoscópio. E quanto a vocês, ó leitores, façam o que vos é costume: aguentem-se à bronca!...
(aproveito para adicionar fotos, efeito que muito agrada e cativa nestes tempos "mirones"...)

«Ora, como o post anterior não contou, a questão fundamental que se coloca é: com que assunto vai este meu Blog perder a virgindade? Não pode ser um assunto qualquer maltrapilho e leviano, que não garanta um futuro risonho e uma famí­lia numerosa - não mandei o meu Blog estudar na universidade para deixá-lo agora entregue a sabe-se lá que aventuras e regabofes! Sou dragão, não sou otário!...Assim sendo, que tal a minha "portugalidade", hein?...Condição essencial a qualquer ser vivo, ou meio morto, ou meio vivo-meio morto, é o seu lugar de origem. O meu é Portugal. Sou um dragão made in Portugal. Genuí­no português...para a pobreza e a riqueza, na tristeza e na alegria, até que a morte nos separe! Ora, se este não é um belo assunto, então não sei o que será um belo assunto!
Então, vejamos: qual é a caracterí­stica mais forte do português?...Esperteza saloia, mesquinhez, balbúrdia, burrocracia, inveja, superficialidade, bacoquismo, futebolite, hipocrisia?...É certo que estas abundam, mas serão realmente o ápice?...
Não restam dúvidas que o português adora falar ao telemóvel e guiar o automóvel (de preferência as duas em simultâneo), mas quanto a mim há algo que ainda supera estas delí­cias e o deixa, mais que derretido, babado...Não adivinham? Eu digo: Mirar. Pois, mirar e remirar com a maior das gulas. O português não come com os olhos, empaturra-se. E não há dispepsia que o aflija: digere tudo! É uma gibóia insaciável, uma anaconda voraz. Mas nada de voyeurismos ou espreitadelas subtis, de soslaio, como quem não quer a coisa. O verniz não lhe quadra...gosta mesmo é de plantar-se defronte dos acontecimentos, das coisas e, sobretudo, dos desastres, das cenas degradantes, e empanzinar-se, tirar a barriga de misérias, ou melhor, enchê-la! Não se pode exigir aos portugueses que apaguem incêndios, quando, na verdade, o que eles gostam mesmo é de vê-los, apreciá-los, na sua beleza feérica, catastrófica (e quem sou eu, dragão, para os criticar nesse caso especí­fico...) Diante da própria casa a arder, o português deve ser único no mundo a experimentar sentimentos contraditórios: por um lado "ai que desgraça!,minha rica casinha!..."; por outro, "compõe-te mulher, vêm ali os senhores do telejornal!..."
Da mesma forma, é absurdo incitá-los a que se levantem da desgraça, da miséria mental e fí­sica em que vivem, qual país prostrado, rastejante, mendigabundo, quando, acima de tudo, o que eles mais gostam é de contemplar misérias, desgraças, ignomí­nias, hecatombes, nem que sejam as suas! Aliás, sobretudo as suas!...Para que quereriam eles um paí­s organizado, seguro, planificado, ordeiro: só se fosse para morrerem de tédio! Tanto mais, que nenhum sarrabulho lhes chega, nenhuma confusão lhes basta: mergulhados numa babel monumental, eis que anseiam emigrar para as Áfricas ou Brasis, só porque sonham que aí a balbúrdia ainda é maior!... E é, graças a Deus!...
O caso dos acidentes aparatosos e sanguinolentos (ou melhor será dizer, massacres?) nas auto-estradas serve de modelo alegórico...Quem já não assistiu às tripas do semelhante em exposição gongórica nestas galerias? E as filas de basbaques que logo se formam? E os desastres subsequentes, como que por simpatia (por simpatia mesmo) que, regra geral, se encadeiam? A malta a ver, a absorver morbidamente, com volúpia... a assistir, a esquadrinhar, a pesquisar, à cata de minúcias e detalhes, quanto mais escabrosos, repugnantes, melhor! Uma corja, sem dúvida. O português conforta-se na sua própria repugnância, engrandece-se e regozija-se na proporção directa da desgraça alheia. O seu bem, a sua sorte, só são reconhecí­veis, assinaláveis a partir da desgraça e do azar dos outros. Puta de gente! E eu, apesar de dragão, sou um deles. Ninguém escapa: vem com o Tejo, os sobreiros, o azul único do céu e tudo o que faz com que este lugar seja este e não outro. Os gregos chamavam-lhe "moira"; nós chamamos-lhe "destino".
Não deixa de ser irónico: os portugueses embasbacados diante de misérias e desgraças, e eu embasbacado diante deles e de mim próprio (ou sejam, outras misérias e desgraças que tais)...Mas felizmente há o riso! e este meu dragoscópio, que dá para ver tudo e mais alguma coisa!...E que vejo eu, dragão, nos portugueses, através do meu dragoscópio?...
A desgraça que é ser português?..., pensais vós...
Desgraça?! Não me fodam!, desgraça mesmo era ter nascido americano!...»

Acerca da Hipocondria


Hipocôndrio - do grego hypo (debaixo, sob)+chóndrion (cartilagem)-, significa etimologicamente «situado debaixo das cartilagens». Especificamente, refere a região do corpo humano situada sob as costelas flutuantes. Parece que os antigos (os gregos do tempo de Hipócrates, julgo eu), acreditavam localizar-se nessa zona -nos hipocôndrios, portanto -, uma "moléstia nervosa causadora de tristeza". É daí que advém o termo "hipocondria", nome dessa moléstia.
Assim, os portugueses, povo ancestralmente dado a telhas e neurastenias, dispepsias e consumpções imaginárias,poderia padecer dessa maleita prefigurada pelos antigos. Há quem defenda essa tese.
Não vou tão longe. Concordo que é realmente qualquer coisa que os atormenta sob as cartilagens. Algo que atavicamente se lhes incrusta nas entranhas. Mas não acho que seja tristeza hormonal (se é que a medicina me permite esta liberdade semântica), nem, tão pouco, morbidez delirante. Do que tenho assistido ao longo da vida, e em cada dia se repete, acho que são mesmo gases. Flato e ventosidade congénita.
E, depois, uma clara descompensação social: as classes populares investem excessivamente no flato; as pesudo-elites reprimem muito o traque, mas, em contrapartida, desbragam-se no arroto. Encurralado entre o pivete e a halitose, o país, desesperado, comprime as narinas e não avança. Nem respira.

quarta-feira, junho 09, 2004

O AVESTRUZ


Para culminar este dia inteiramente dedicado às literaturas, vamos terminar com um autor que dedico especialmente aos meus comentadores residentes. Adivinhem quem é. E se o encontrarem na Feira do Livro, avisem-me que eu largo tudo e vou lá a correr. Pago o dinheiro que for preciso. Atenção pois...

(Um pequeno resumo do enredo prévio: "Um digno chefe de família, nesse Natal, decidiu fazer uma surpresa à família: em vez do tradicional peru, levou para casa um avestruz. Vivo. À maneira antiga...")

(Não, Zazie, não é o Kafka!...)

«(...) Chegava o bacalhau e não chegava o consenso. De pé na cadeira, o avô arengava os seus ideais, ameaçando com greve de fome caso as seculares reivindicações não fossem atendidas, quando um restolhar na sala os alertou. Foram ver. Era o avestruz, debicando o candelabro após ter devastado a árvore de Natal.
Novas recriminações: que se fosse peru não devastava a árvore nem mutilava o candelabro, carpia a mulher. Era o que dava o desrespeito pelas tradições, e outras tragédias viriam, agoirava a sogra. Os restantes atarefavam-se de volta do presépio, á procura do menino Jesus que desaparecera, comentando o padrinho que talvez o divino bebé se tivesse farto do mau hálito da vaca e da burra, enquanto as primas suspeitavam do rei mago preto, o cunhado olhava de esguelha dois pastores, e a sogra urrava mais que todos, acusando o avestruz de antropofagia sacra e de canibalismo hediondo na pessoa do símbolo do Natal!
Fingiu que não ouvia e foi trancá-lo na marquise. Ao avestruz, claro; já que à sogra não podia: era Natal.
As buscas, entretanto, não davam em nada. Por ingestão, fuga, rapto ou sabe-se lá que mais -o tio Honoriobardo não punha mesmo de parte a hipótese duma qualquer rede de pedofilia alienígena-, o facto é que o menino Jesus levara sumiço. Ora, isso constituía um sério entrave à normal prossecução dos festejos da quadra. Havia pois que substitui-lo. Não é possível celebrar um aniversário sem o aniversariante.
-"Ó mãe, pomos o Toy chorão!" - propôs, excitada, uma das gémeas.
-"Não, pomos é antes o Action-baby!..." - contrapôs o primo Zézinho.
-"O Bebé-barbie, o Bebé-barbie!..." - pomoviam os restantes.
É claro que os adultos não demoraram a tomar partido. Dum lado, as primas e o cunhado, embevecidos com o Toy Chorão, a pilhas, que berrava desalmadamente e mijava fraldas a eito; do outro, o padrinho e o avô, convertidos aos dotes viris do Action-Baby, fruto dum caso amoroso entre o Action-man e a Wonder-Woman, também conhecido por Bebé-Bond, ou Bebé-rambo, equipado com múltiplos estojos de combate e aventura; e, por fim, num terceiro baluarte, a mulher, a irmã e a madrinha, fanatizadas no filho da Barbie com o Ken, nas suas múltiplas toiletes e cenários.
-" Tem que ser o Bebé-Rambo, gaita! E armado com a metrelhadora G-3 e o colete anti-bala, para se defender como deve ser -quando não ainda o levam para o crucificarem outra vez!" - Clamava, não sem uma certa lógica, o avô.
-"Pois!...- Apoiava, entusiasmado, o padrinho. - E com o lança-misséis portátil, à cabeceira, não vá o diabo tecê-las!"
A ala feminina, partidária juramentada do Bebé-barbie, persignava-se e retaliava pela voz da sogra:
-"Uns bons diabos sois vós, seus sandeus! Se isso é presépio que se faça!..."
-"Valha-nos Deus! - Secundou a filha da sogra e, por tal sina, mulher dele. - Então Jesus, esse anjinho que simboliza a paz no mundo, vai estar assim nas palhinhas como se estivesse numa trincheira, armado para o massacre e fardado para a matança?!...Perdoai-lhes senhor, que não sabem o que dizem!..."
-"Irra, mas que beatas imbecis! - Ribombou o avô. -Mas nas palhinhas estava ele deitado, que nem um anjinho, e vejam o que lhe aconteceu: levaram-no para a cruz, foi o que foi! Levaram-no para o pregarem que nem uma tabuleta, chiça! Mentira?...Vá, digam!..."
-"Mas, ó avô...-Tentou conciliar o cunhado e, em simultâneo, fazer campanha pelo seu preferido. - Não acha que pôr um menino Jesus de fralda camuflada e metrelhadora em riste é um pouco excessivo?...Isto é um presépio, não é a Guiné ou o Vietname!...Olhe que ternura que é o Toy Chorão, parece mesmo um menino Jesus!..."
Porém, nesse momento, cumprindo um programa regular e pré-estabelecido, o glorificado boneco cuspiu a chucha e desatou num berreiro assanhado e controverso (as primas iniciaram de pronto um aceso debate, sustentando uma que era fome, a outra que eram gases), bem como num mictório abundante, que não poupou sobremaneira o melífluo apologeta e marido da irmã. Romperam, o avô e o padrinho, em gargalhadas tonitruantes, no que a sogra aproveitou para manobrar de esguelha e atacar de flanco:
-"Calai-vos e às vossas bandalheiras, gente blasfema, antes que um raio desça dos céus e vos refunda a todos! Tirai-vos, que já aqui vai o nosso menino, com o vestidinho de crisma e o fatinho de catequese!..."
-"Sim, -completou a filha - e no carrinho de ir ao supermercado!..."
Era verdade: o Bebé-barbie resplandecia, prontinho nos mais dignos e precoces fatos de ver a Deus, ao volante da viatura bendita.
-"Ó mãe, e não esqueças o telemóvel do bebé, com GPS e Bip sinalizador, anti-sequestro!..." Alertou uma das netas (da sogra).
-"E olha a consola on-line, com turbo scan 3D!..." - Acudiu uma outra, um ano mais nova.
Mas o avô, arreigado aos seus caprichos, desenfreado na caturrice, é que não estava pelos ajustes. Apercebendo-se da ameaça, do abrolhar da procissão, foi lesto em deslizar das gargalhadas para os urros. Munindo-se de tons melodramáticos e parábolas de empréstimo, atalhou de supetão:
-"Mas ó súcia ígnara e sem fé, até quando terei que vos aturar?! Dum lado, é um mentecapto que avança com um mija-berços; do outro, uma megera que empurra um chupa-terços!...Irra, que é dose! Mas estará escrito em algum evangelho que Jesus, mesmo criancinha, chuchava, mijava e bramia, ou desfilava na passerelle e telefonava ao Pai?! Hem?...Estou a falar chinês?...Ó Honoriobardo, tu que andas lá sempre de roda dos livros e das bibliotecas, elucida lá estas galinholas desmioladas, estas ratas de sacristia, se não é verdade isto que eu digo!..."
O tio Honoriobardo, reformado da marinha e erudito autodidata desde então, seguia atentamente a polémica com o lóbulo esquerdo, mantendo, todavia, o direito adstrito à questão mais antiga - de saber se o avestruz podia ser denominado avestruz, ou ema, nandu ou casuar. Opinou pois à mais recente, sem deixar de ruminar a primogénita.
-"Bem...efectivamente, se o Jesus recém-nascido padecesse dessa incontinência proverbial a todo e qualquer bacorinho humano, bem certo seria que, em vez de ouro, incenso e mirra, os reis magos teriam comparecido com fraldas descartáveis!..."
-"Fraldas descartáveis, nem mais!...-Irrompeu o avô, reforçando o absurdo. - Fraldas descartáveis, arrastadeiras e escovilhões, estão a ver? Estão a ver a Nossa Senhora sujeita a cacas nauseabundas e repuchos sórdidos, ãh? estão bem a ver?!..."
Suspirando, dando corda à paciência, o tio Honoriobardo lá continuou...
-"...quanto a berrar, como faz o comum dos fedelhos recém-chegados a este Vale de Lágrimas (e por isso se chama ele assim), também não consta nada em auto, o que de resto a ter-se passado ocasionaria a que o malvado Herodes lhe tivesse deitado a unha, coisa que, como é sabido, não aconteceu..."
-"Ah-Ah!...O Herodes, o cabrão do Herodes! Ora aí está: repimpem-se! (que é como quem dizia:"tomem, embrulhem!") - Atravessou-se de novo o decano, para sublinhar o apontamento.
-"Ó avô, quem era o cabrão do Herodes?" - Não se conteve, ingénuo e curioso, um dos míudos.
-"Um pedófilo!...Um desses..." - Rosnou, o velho, e escarrou com desprezo na carpete, como que a purgar-se de tamanha e tão desprezível obscenidade.
-Ah..." - fez o minorcas, esclarecido; -"Francamente, papá!...", fez, por sua vez, a nora deste e mãe do anterior, correndo em busca do balde e esfregona.
-"Tecnicamente, pai, não seria pedófilo, mas pedófobo..." -Aproveitou, o tio Honoriobardo, para corrigir e retomar a palavra.
-"Pedófilo, pedófobo, pedófago, pedagogo, pedregulho, vai tudo dar ao mesmo! Caganitas! São ogres que comem criancinhas, chiça!...Avança, homem, e deixa-te de pintelhices!...Vai direito ao assunto, pôrra!" - Condensou, furiosamente, o ancião.
-"Bem...-prosseguiu, resignado, o tio Honoriobardo -, quanto à hipótese do menino Jesus se comunicar telefonicamente com Deus Pai é certamente peregrina, mas não se sabe se bem-vinda. Pressuporia a existência dum satélite, de antenas e retransmissores, equipamentos de que não há qualquer notícia ou prova documental. Deus Pai, é sabido, não telefonava: enviava pombos ou anjos estafetas; também não carecia que lhe telefonassem, pois possuía uns ouvidos tão ubíquos e infinitos que não havia alfinete a cair que ele não ouvisse, fará certas conversas e desabafos."
-"Ora aí está! - Aplaudiu o avô, triunfante. -Ouviram bem? Que me dizem a isto, hem?! E agora fala-lhes daquela parte onde Nosso Senhor anuncia que há-de voltar e bem armado!..."
-"Com efeito. -Confirmou o erudito. - Mateus 15-30, se bem me lembro. Voltará com a espada, é garantido."
-"Pois aí tendes, ó ímpios! - Bradou, eufórico, o velhinho. -'Espada', claro está, é força de expressão. Significa arma, equipamento bélico, tira-teimas! A profecia não deixa dúvidas: Jesus há-de voltar, armado até aos dentes, passado dos carretos, para pôr esta canzoada toda a ferro e fogo! Olá se não!...Irra, que há-de ser um braseiro lindo de se ver!..." E, com um brilho sonhador e visionário a iluminar-lhe o rosto, concluiu: "Por isso, diabos me levem, se não é o Bebé-rambo que merece ir para as palhinhas, com metrelhadora e paraquedas, que se jesus cá descesse agora bem inútil e escassa seria a espada e bem melhor lhe quadraria a bomba H e o lança-chamas! A não ser que me digam que Deus é um unhas-de-fome, um caquético esclerosado, que não quer saber do Filho para nada!..."
Tão fulgurante argumentação não colheu, todavia, o consenso esperado. O tumulto parlamentar reinstalou-se. Clamava a sogra contra o militarismo e a favor do bebé-model; gralhavam as primas contra a artificialidade e a favor do bebé chorão; ameaçava, mais alto que todos, o avô, com raides comando e heliassaltos arrazadores, na figura do Bebé-rambo (assessorado, para mais, pelo padrinho e dois netos que, em jeito de estado-maior e gabinete de crise, lhe rogavam que não esquecesse o desembarque anfíbio e a infantaria motorizada).
-"Tragam-me os bombardeiros!" -Ordenava já o ancião, em vias de perder definitivamente a tramontana e cada vez menos inclinado a democracias.
-"Isso, avô! -Gritou, entusiasmado, um dos pirralhos. -faz como o Bush!"
O desvairado estratega e cabo de guerra natalícia acusou o toque e apressou-se a desfazer equívocos:
-"Qual cabrão de Bush, qual carapuça! Merda dessa é na capela do Júlio de Matos, meu filho. Faço mas é como o Hitler, o Alexandre, o Napoleão!...Esqueçam os bombardeiros: tragam-me antes a falange grega, os panzeres, a artilharia!..."
-"Não se esqueça dos submarinos..." - Segredou-lhe o padrinho.
-"Pois! E os submarinos, carago!..."
Estava-se mesmo a um passo da terceira guerra mundial, quando ele, na sua qualidade de dono-da-casa, filho do futuro tirano, genro da sogra, afilhado do padrinho, primo das primas e outros títulos que tais, lembrou que o bacalhau estava a ficar frio e o gato Pimpão já rondava uma posta do rabo.
-"Levaram o menino Jesus para o crucificarem, e tu falas-me no bacalhau!?...Irra!!" - danou-se ainda mais, o avô. (...)»
- André Faust , in "Struchio Camelus Natalicius"

FORÇA PORTUGAL!


Em homenagem ao nosso Euro 2004 que está aí a rebentar...
E já que hoje estou em maré de livros, aqui fica mais um. Se passarem pela Afrontamento, procurem lá o Eduardo Mendoza. A obra chama-se "O Mistério da Cripta Assombrada". O herói do romance, internado justamente num manicómio, inicia assim o relato das suas aventuras (e desventuras):

«Tínhamos entrado a matar; podíamos ter ganho. A táctica, passe a imodéstia, por mim concebida, o treino duro a que tinha submetido os rapazes, o brio que lhes tinha inculcado à força de ameaças eram outros tantos elementos a nosso favor. Tudo ia bem; estávamos quase a marcar; o inimigo estava condenado. Era uma bela manhã de Abril, fazia sol e notei de relance que as amoreiras que rodeavam o campo apareciam cobertas de uma penugem amarelenta e aromática, indício de Primavera. A partir daí, tudo desatou a correr mal: o céu cobriu-se de nunvens sem aviso prévio e o Carrascoza, o da sala 13 a quem eu tinha encomendado uma defesa firme e uma actuação contundente, atirou-se ao chão e pôs-se a gritar que não queria ver as mãos tintas de sangue, coisa que, aliás, ninguém lhe tinha pedido, e que a mãe dele, lá do céu, estava a censurar-lhe a agressividade, que não era menos culposa pelo facto de ser imposta. Felizmente, acumulava eu as funções de avançado com as de árbitro e consegui, mas não sem protestos, anular o golo que acabávamos de sofrer. Mas sabia que mal começasse o descalabro já ninguém o deteria e que a nossa sorte desportiva estava por um fio. Quando vi que o Toñito se empenhava em mandar cabeçadas à trave da baliza rival, cortando-se diante dos passes em profundidade e, para quê negá-lo, rigorosos, que eu lhe lançava do meio campo, compreendi que não havia nada a fazer e que tão pouco naquele ano seríamos campeões.»

Penso que não era o Scolari.

GIN COM ÁGUA TÓNICA


Ainda a propósito da feira do Livro...
Se lá forem, procurem, na Estampa, este senhor. Em termos portugueses e de humor negro, salva Portugal duma mediocridade confrangedora. Se não o conheceis, sois ignorantes. Nem mais.
Refiro-me ao Mário-Henrique Leiria, pois claro... Tem duas obras, qualquer delas imprescindível. "Os Contos do Gin Tónico" e os "Os Novos Contos do Gin".
Aqui deixo uma pequena amostra.

«A Verruga

Estava eu sentado lá em casa, quando ouvi a minha tia dizer «uff!».
Suspeitei logo que havia coisa. Fui ver. Tinha-lhe nascido uma verruga na oerlha. Não me pareceu normal.
Procurei imediatamente o meu tio, que é brigadeiro.
-Vamos falar com o ministro - disse o meu tio.
Fomos.
O ministro, em princípio, não quis acreditar. Não podia ser, aquilo não era normal. Claro que não era normal mas eu tinha visto, e foi o que lhe disse.
-Nesse caso, o melhor será fazer como se não soubéssemos de nada - propôs o ministro. - O senhor já pensou o que isto pode causar? - continuou, ancioso. - Começam por aí a inquirir, a verruga complica-se, os anarquistas, sempre prontos para a insídia, aproveitam o momento, a greve surge, as coisas atrapalham-se, intervenção das Potências, a guerra, que sei eu? Não, não digamos a ninguém. Guardemos segredo, o Estado o compensará.
Olhei para o meu tio, brigadeiro como já tive oportunidade de fazer notar, e vi que realmente o caso parecia grave. No entanto, duvidando um pouco, inquiri ao ministro:
-A coisa é assim tão importante, Excelência?
- Mais que isso, meu amigo, mais que isso. A pátria está em tremendo perigo.
Senti que era a hora da decisão.
- Se a pátria periga, não desejo a mínima recompensa. Comigo é assim. Pela pátria, tudo. Calarei.
Calámos
Dias depois a minha tia recebia uma carta escrita pelo próprio Imperador. Agradecendo. Louvando.
A carta ainda lá está. A verruga também.
Quanto a mim, continuo sentado lá em casa. Calado.»

«Casamento

"Na riqueza e na pobreza, no melhor e no pior, até que a morte vos separe."
Perfeitamente.
Sempre cumpri o que assinei.
Portanto estrangulei-a e fui-me embora.»

VENDEM-SE



«BI portugueses falsos à venda em Inglaterra »
Em contrapartida, os portugueses falsos estão à venda em Portugal. A preço de saldo e liquidação geral. E apesar de, ao contrário dos BIs, serem falsificações de baixa qualidade, lá se vão vendendo.

terça-feira, junho 08, 2004

Crimes Exemplares


É um livrinho pequeno. Mas os livros, como os homens, não se medem às páginas. Este, por isso mesmo, é gigante, no humor negro que poreja.
Escreveu-o um senhor chamado Max Aub e intitula-se :"Crimes exemplares". Conta o autor que se trata duma recolha de depoimentos pelas penitenciárias do México. Tenho as minhas dúvidas. Mas dentro do ramo, chega a ser sublime. Aproveitem a feira do Livro e pechinchem-no na Antígona. Entretanto, oiçam...

«O tipo era vesgo e pensei que olhava para mim de lado. E olhava-me de esguelha. Além disso, chamam cadáver a qualquer morto de merda.»

«Salpicara-me dos pés à cabeça. Isso ainda vá...Mas o pior era ter-me encharcado completamente as meias. Tal é que eu não consigo suportar. Não aguento. Agora que foi um peão a matar um automobilista, não se vai levantar um pé-de-vento.»

«Quando estava bêbado, partia tudo. Armava sarilhos por dá cá aquela palha. Essa terrina era a única coisa que me restava da mamã. Que o fizesse com tudo, ainda vá lá, mas a terrina, não! Não o fiz com a tenaz de gelo, senhor, não, fi-lo com o ferro de engomar.»

«Pedi-lhe o Excelsior e trouxe-me o Popular. pedi-lhe Delicados e trouxe-me Chesterfields. Pedi-lhe uma cerveja branca e trouxe-me uma preta.
A cerveja e o sangue, misturados pelo desprezo, não ligam bem.»

«O que interessa é fazer a paz entre os homens e mantê-la. Se para o conseguir for preciso chegar a tais extremos (e fez um gesto que abarcava a praça toda), fá-lo-emos!»

«A bola era minha. A faca não. Mas a bola é que estava em causa.»

«-Como é possível que me acusem de o ter morto se eu me tinha esquecido de que a pistola estava carregada?
Toda a gente sabe que não tenho memória nenhuma. E ainda dizem que a culpa é minha? É o cúmulo, palavra de honra!»

«Matei-o primeiro em sonhos; depois não me consegui impedir de o fazer na realidade. Era inevitável.»

«Bem vê, senhor, é melhor não contrariar as minhas ideias. Não o tolero. Aceito as suas, unicamente para lhe ser agradável. Guarde-as, rumine-as, digira-as e expulse-as se não lhe agradarem. De uma maneira geral, os homens julgam, desde há dois séculos e mesmo mais, que são os melhores do mundo. O non plus ultra. O.K. É lá com eles. Quanto a mim, estou convencido do contrário, pois somos todos filhos do animal pelo simples facto de sermos homens. Há muito tempo que o homem provou a sua domesticação da natureza à força de irritabilidade, de ingratidão, de instintos assassinos e de golpes, de golpes de cacete, de pedras, de fogo, de machetes e também de crimes impunes e da escravização dos outros. Qualquer homem, pelo simples facto de o ser, é filho da puta. Que os outros não pensem da mesma maneira, nem sequer o discuto. Para mim, o maior dos imbecis -por mais suiço que seja - é Jean Jacques Rousseau. Com as ideias que tenho qual é a admiração por eu ser um gajo porreiro? Que tenham morto o Senhor Jesus, em contrapartida, não é de admirar: não devia um tostão a ninguém.»

A Grande Encarceração Americana -I. Introdução


Inicia-se hoje, neste blogue, um estudo sobre o sistema prisional norte-americano. Serve como intróito a uma questão mais vasta, a saber: Entre a América real de hoje e a América imaginária, dos parolos longínquos que devaneiam sobre ela (em Portugal abundam), haverá uma grande diferença?...

«As taxas de criminalidade Americanas sempre foram mais elevadas do que a maioria dos países europeus. O que é novidade é o recurso nos Estados Unidos a uma política de encarceramento maciço, em substituição dos controlos comunitários enfranquecidos pelas forças do mercado desregulado. Ao mesmo tempo, os americanos ricos estão, em número crescente, a afastar-se da co-habitação com os seus concidadãos, recolhendo-se a propriedades comunitárias muradas. Cerca de 28 milhões de americanos -mais de 10% da população - vivem hoje em prédios ou condóminos com guardas privados.
Nos fins de 1994, mais de 5 milhões de americanos viviam sob uma forma ou outra de restrições legais. De acordo com os números do Ministério da Justiça (Department of Justice), cerca de 1,5 milhões estavam encarcerados - em prisões estaduais, federais ou municipais. Isto significa que 1 em cada 193 adultos americanos está preso, o que corresponde a 373 em cada 100.000 americanos. Este número era de 103 em 100.000 quando Ronal Reagan foi eleito presidente. 3,5 milhões de americanos estavam em liberdade condicional.
A taxa de encarceramento dos Estados Unidos no fim de 1994 era quadrúpla da do Canadá, quíntupla da da Grã-Bretanha e catorze vezes superior à do Japão. Apenas a Rússia pós-comunista tem uma percentagem maior dos seus cidadãos atrás das grades. Na Califórnia, cerca de 150.000 pessoas estão presas. A população da Califórnia na cadeia é agora oito vezes superior à de 1970. Excede a da Grã-Bretanha e a da Alemanha juntas.(...)
A confluência de divisões e antagonismos étnicos e económicos nos Estados Unidos não tem equivalente em nenhum outro país desenvolvido. O mercado livre produziu uma mutação no capitalismo americano, em consequência da qual ele se assemelha mais aos regimes oligárquicos de alguns países latino-americanos do que à civilização capitalista liberal da Europa ou dos próprios Estados Unidos em fases mais recuadas da sua história.(...)
Os níveis de todos os crimes de violência, excepto homicídio, são consideravelmente mais elevados na América do que na Rússia pós-comunista. Em 1993 houve 264 roubos por 100.000 habitantes (contra 124 na Rússia), 442 assaltos (comparados com 27 na Rússia) e 43 violações (9,7 na Rússia). (...)
O assassínio de crianças é particularmente comum nos Estados Unidos. Cerca de três quartos dos assassínios de crianças no mundo industrializado ocorrem nos Estados Unidos. Entre os 26 países mais ricos do mundo,os Estados Unidos têm de longe as maiores taxas de suicídio infantil e de homicídios e outras mortes relacionadas com armas de fogo.(...)
Em 1987, a mortalidade infantil no Harlem oriental e em Washington DC era praticamente a mesma que na Malásia, na Jugoslávia e na antiga União Soviética. Um bebé nascido em Xangai em 1995 tinha menos probabilidade de morrer no primeiro ano de vida, maior probabilidade de aprender a ler e uma esperança de vida dois anos mais longa (até aos 76 anos) do que um bebé nascido em Nova Iorque.
As elevadas taxas de encarceração e de crime nos Estados Unidos estão acompanhadas por números igualmente excepcionais de litígios e de advogados. A América tem pelo menos um terço de todos os advogados do mundo.(...)
Os condóminos privados, murados, fechados e vigiados electronicamente que protegem os habitantes dos perigos da sociedade que abandonaram são a imagem das prisões americanas. Erguem-se como símbolos do esvaziamento de outras instituições sociais - a família, a vizinhança e mesmo o emprego - que no passado suportavam o funcionamento da sociedade. A combinação de prisões de alta tecnologia e empresas virtuais pode tornar-se o emblema da América dos inícios do século XXI.
Na América do fim do século XX, o mercado livre tornou-se o motor de uma modernidade perversa. O profeta da América de hoje não é Jefferson ou Madison. E ainda menos Burke. É Jeremy Bentham, o pensador iluminista britânico do século XIX, que sonhava com uma sociedade hipermoderna reconstruída segundo o modelo de prisão ideal

- John Gray, "False Dawn"

(nota: este senhor não é um perigoso comunista, mas professor na London School of Economics e grande influenciador das políticas de Margaret Thatcher).

Ainda há pouco tempo eu lia no Eclético um artigo acerca dessa "presumível" disponibilidade dos Americanos para trocarem "liberdades" por segurança.
Quando virem o negócio em que se tornou a "segurança", o crime e o encarceramento de pessoas nos Estados Unidos, talvez comecem a perceber. Veremos.

Endurance chernista


«PM garante aos EUA que País está prevenido contra terrorismo
Modéstia do Barroso. Depois de dois anos de acção metódica dele, Durão, e dela, Manela, duríssima, mais as outras figurinhas do presépio (sem esquecer o inestimável contributo anterior do Pina Moura), mais que prevenido, o país já está é calejado!...
Estamos cá com um endurance!...

segunda-feira, junho 07, 2004

O DIA D


Não me recordo que Portugal tenha estado em guerra com a Alemanha entre 1939 e 1945. Também não me lembra de termos sido selvaticamente bombardeados nem invadidos pela rapaziada do Adolfo. Mas deve ser lapso da minha parte, porque anda para aí tudo a celebrar a grande invasão que deu início à grande vitória. Ontem, então, eram foguetes por todo o lado; arraiais e sardinha assada; bailaricos e forrobodós. Até ergueram santuários e desataram a lambuzar os santos, alguns, porque outros, de tal forma já grossos, foi mais vomitar-lhes pra cima, mal se inclinavam. Andaram a ensaiar para o Santo António. E a relembrar o Major Alvega, por certo.
Entretanto, ia eu hoje a passar ali para as bandas do "Arcabuz", quando se me depara uma coisa em que vale realmente a pena deparar: o Desembarque da Normandia, na descrição do Boris Vian. Melhor reportagem sobre o evento, garanto-vos, não existe. Ide lá depressa ler, que eu, com uma grande vénia ao "arcabuz", por tão soberba ideia, vou postar -na continuação do texto-, mais uma deliciosa fatia do pitéu. Se não lerdes lá primeiro, e só depois aqui, perde boa parte da graça.
«(...)Dez metros adiante juntei-me a três outros tipos que estavam atrás de um bloco de betão a dar tiros à esquina de um muro que havia mais acima. Suavam muito, estavam num pinto e eu devia estar na mesma, ajoelhei-me e também desatei aos tiros. O tenente apareceu agarrado à cabeça e a escorrer encarnado da boca. Vinha com cara de poucos amigos e estendeu-se logo na areia, de boca aberta e braços para a frente. Boa porcaria a areia deve ter ficado. Era dos poucos lugares que ainda se mantinha limpo.
Dali, o nosso barco encalhado começou por ter ar de uma coisa muito estúpida, e depois, quando lhe acertaram duas granadas, nem ar de barco já tinha. Não foi coisa que me caísse bem porque dentro dele ainda havia dois amigos a tentarem levantar-se, para saltarem mais as balas que lhes tinham acertado. Bati no ombro dos três que andavam aos tiros comigo, e disse:"venham daí, vamos lá." Claro que os mandei à frente, e foi coisa bem topada porque ao primeiro e ao segundo nem alma se lhes aproveitou com os fogachos que os outros dois nos mandavam, e à minha frente só restava um, pobre rapaz sem sorte nenhuma, pois mal dera cabo do mais bera já o outro arranjava maneira de o matar, antes de eu poder tratar-lhe da saúde.
Aquele par de sacanas tinha uma metrelhadora e cartuchos em barda, atrás da esquina do muro. Apontei a metrelhadora para o lado oposto, carreguei a fundo naquilo mas tive que parar logo porque me dava cabo dos ouvidos e encravou. Devem-nas regular para não dispararem na direcção errada.(...)»
- Boris Vian, "As Formigas"

A APOLOGIA DA ESTUPIDEZ


O Almada Negreiros que, no tempo dele, chamou a Portugal a retrete da Europa, se cá vivesse agora chamar-lhe-ia o quê? -A ETAR?
Ocorre-me isto, como não podia deixar de ser, a propósito de Luís Delgado, esse portento. A criatura mete dó, eu sei. Mas há uma justiça que tem que lhe ser feita: ele infrascende-se (que é o contrário de transcender-se);isto é, quando já julgávamos impossível, ele consegue descer sempre mais baixo na escala da inteligência humana (ou mais alto, se pusermos a coisa de patas pró ar e premiarmos a estupidez).
Agora faz a Apologia de Reagan. Eu não sabia que o ex-actor tinha tantos admiradores em Portugal. Isto, quanto mais não seja, reflecte o estado mental da nação. O Delgado serve de porta-voz da classe. Diz, pois, este pródigo bastonário:«Ele ganhou a Guerra Fria, derrubou a URSS, acabou com o Bloco de Leste, acreditou no escudo espacial para defender os EUA e aliados, liderou o maior crescimento económico da União, aceitou o maior défice da história como natural e virtuoso, e criou as forças armadas mais poderosas do mundo
A novidade não é o facto da mente Delgadiana continuar refém da BD americana, sobretudo da Marvel Comics. Não, a grande notícia do dia é que, afinal, a identidade secreta do Super-Homem não é Clark Kent, mas Ronald Reagan. E se o escudo, ainda por cima espacial, tinha aquelas virtudes todas, porque raio o substituímos pelo Euro? Enigmas.
Mas a maior pérola do discurso, a grande acrobacia, prende-se com o défice. Preto no branco, informam-nos: o "maior défice da história é natural e virtuoso". Portanto, se o défice americano é virtuoso porque é que o nosso é vicioso? Ora, porque ao pé do colossal défice americano, o portugês é minúsculo, anão (quer em termos totais, quer percentuais). É uma vergonha dum défice. Até para nos endividarmos somos pequenotes e mesquinhos. Em vez da auto-estima, entregamo-nos à auto-somítica! O Delgado clama e com razão. É uma merda dum défice indigno de se apresentar a alguém, muito menos ao Mundo, à História!. Por outro lado, é a mitologia novo-rica a todo o vapor: grande é bom; pequeno é mau. O nosso défice é mau porque é ridículo, miudeza. O gigadéfice é excelente e o nanodéfice é péssimo, uma ordinarice das barracas. Sabendo disso, o actual governo envida esforços para engrandecê-lo. Bem haja! Oxalá ainda vá a tempo.
Porém, a saga Delgadiana não fica por aqui. Adiante reflecte, numa soberba prestidigitação:
«Ronald Reagan nunca se importou com as «gaffes» que cometia, as «sonecas» que dormia, e os erros que fazia. Tinha uma auto-estima invulgar, era um líder nato, consensual, motivador e sempre sorridente, mesmo quando brincavam com a sua idade e falta de conhecimento dos «dossiers»»
Cá está. Se o Jorge Sampaio fosse presidente dos Estados Unidos, seria um semi-deus, assim...
Já Reagan, ficamos a saber, dormia sonecas, cometia gaffes, errava em barda e desconhecia dossiers. Mas isso, prós apaixonados pelo estilo, é, além de louvável, irrelevante. Como é irrelevante, pelos vistos, o que um Presidente dos Estados Unidos faz. Afinal, é-nos revelado, o presidente dos Estados Unidos não difere muito duma espécie de rainha de Inglaterra, mas sem pedigree. Um puro espontâneo, como nas touradas; uma emanação basista, roberto simbólico. Distribui sorrisos, ressona depois do almoço, brinca com os jornalistas. Subentende-se que deve ter uma supervisão atenta, não vá dar-lhe para brincar com botões...
No fundo, tudo isto é compreensível. Os Estados Unidos tornaram-se uma espécie de baluarte, de país-bastião da imbecilidade e daquele autismo sórdido, despudorado e defecante na via pública de que só os tolinhos e imbecis são capazes. É natural que atraia e agremie todos os imbecis e débeis mentais na diáspora, dispersos pelo mundo. Convoca-os à prece, envia-lhes estrelas guias e reis magos. Eles, hebefrénicos, correspondem. Murmulham na distância, refrangem ao eco. Reconhecem ali a sua verdadeira pátria, a Terra Prometida, o fontanário das suas nostalgias. Qualquer imbecil errante se revê nesse Jerusalém e nesse Messias que agora os abandona para ascender ao Céu, à direita de Deus. Este sim, este é que é o genuíno, o puro, o autêntico. (Ou talvez não: porque presentemente já lá está um outro que promete suplantá-lo. Todavia, isso que importa, se naquele país cada anormal é um messias em potência!...).
Portanto, glória a Deus nas Alturas e à estupidez cá em baixo! Nesses Estados Unidos, terra de cornucópia e liberdade, todo o imbecil (néscio, mentecapto e equivalentes), sabe que não será descriminado, que não sofrerá perseguições, nem a clausura dos ghettos. Ninguém se rirá dele, mesmo quando se descuida pelos salões. Estão-lhe abertas todas as carreiras e, sobretudo, estão-lhe reservados os mais altos cargos da nação.
Não deixa de ser uma lógica inexorável: Se os elevados paradigmas não resultaram e só geraram tumultos sangrentos, a humanidade será salva pelo mais baixo e rastejante de todos eles. A imbecilização vai acabar com a fome e as guerras. Bem aventurados os imbecis, deles será o Reino cá de baixo! Em Portugal, pelo menos, vão bem lançados.
Era Sócrates que dizia que a maldade é a ignorância. Estavas enganado, ó filósofo: se cá andasses angora perceberias claramente que a ignorância é a virtude. Quanto mais estúpido, melhor!...
De resto, nem Rousseou, nem Kant tinham razão - o homem não é naturalmente bom nem naturalmente mau: é naturalmente estúpido. E contra a natureza não há argumentos.


Contagem decrescente



O tempo esgota-se...A noite aproxima-se.

domingo, junho 06, 2004

"DRÁCULA"(ou "O Projecto Mundial Zombie")


Metem-se-me ideias na cabeça que não sei onde raio as vou buscar. Há uma, especialmente, que quanto mais a tento enxotar, mais ela se me entranha e encasqueta na pinha. É sobre esse lendário romance de Bram Stooker: "Drácula". Cada dia suspeito mais que se trata duma alegoria -rigorosa alegoria, sublinho-, sobre o materialismo capitalista (ou socialista, vai dar ao mesmo).
Façam-me um favor: alguém que me prove o contrário, antes que eu me convença de vez...
Senão, ainda desato pr'aqui a desbobinar a mirabolante teoria hermenêutica, e então é que vocês vão ver como elas vos "mordem"!...
É refutar, senhoras e senhores, é refutar!...Antes que anoiteça.

AS CAIXAS DE COMENTÁRIOS, ESSE ENIGMA...



Estimados leitores/as, digníssimos/as comentaristas deste nefando blogue:
Devo informá-los, ou melhor dizendo, compete-me alertar Vossas Excelências para o pormenor, pelos vistos esotérico, de que este blogue abominável dispõe de duas linhas de "comentário - uma somítica e unhas-de-fome da Blackblog, limitada a 5 entradas (aquela que diz "pirotecnias"); e outra, penso que mais generosa, ligeiramente acima, do Blogger (que diz "coments"). Portanto, tenham a bondade de escolher e "abrir fogo" à vossa inteira vontade, tal qual eu faço e não me canso de exortar os meus irmãos humanos à "imitação" (salvo seja!).

A menina Zazie, especialmente, que tome essas quase-imaculadas instalações de assalto e não diga que o Dragão não é amigo.

Sem outro assunto de momento,

Subscrevo-me com elevada estima e consideração.
O Dragão (em pessoa).

sábado, junho 05, 2004

A CULTURA ...OU MARÉ NEGRA?


O que é preocupante, mesmo preocupante, na cultura deste país -sendo que desta deriva tudo, das artes às políticas, passando pelas ciências-, não são os analfabetos numerosíssimos, nem os semi-analfabetos ainda mais pululantes. Esses, todos esses, regra geral, lá se desenrascam, fazem das tripas coração, transcendem-se conforme podem. São conhecidos até casos meritórios, quase miraculosos.
Não, a minoria sabichona, doutora, vanguarda da classe analfabeta, essa, em números galopantes, é que impressiona, alucina. Estudaram, aprenderam as letras, meia dúzia de números; infestaram, em regime de manada, universidades, faculdades e politécnicos. Mestraram-se e doutoraram-se, alguns, os piores (regra geral os pajens sabujos, as cortesãs, os acólitos). De aprendizes do servilismo, da papagaeira, da mimese ao pior nível da tropa macaca, tornaram-se mestres, campeões. A praxe virou escola e, por fim, a toque de rasgos inteligentes dignos de sargentada marteleira, de açougueiros alfarrabistas, a escola virou academia, antro, seita exotérica. E o problema -do país, da cultura, deles próprios-, foi precisamente esse. Mais valia que tivessem porfiado pela via honesta, agarrados à enxada ou à herança; fazendo algo de útil à comunidade ou pagando honestamente pelos próprios vícios, pelas putas. Sempre ginasticavam o corpo, a musculatura, o esqueleto, ou a gaita. Sempre poupavam o ralo da História e os cofres do Estado. Exercitavam o que tinham, desenvolviam as faculdades intrínsecas que os preenchem. E não, ao invés, de través e revés, aquilo que não têm, nem querem ter e só lhes serve da móbil para cultivar a raiva a quem tem; e o despeito, a inveja, o temor de ser descoberto, desmascarado, apeado do trono usurpado. Valia mais, mil vezes mais, serem dignos analfabetos do que infames analfabrutos. Gentalha que se serviu dum privilégio, do suór e (quantas vezes!) do sacrifício de pais e avós, do investimento público e nacional, enfim, não para burilar virtudes ou qualidades, mas apenas para aguçar egos, refinar vilezas, aprimorar defeitos e destilar vaidades bacocas. Antes pobres de instrução, que indigentes de espírito! Assim, nem eles se cultivaram nem as batatas e os campos, que era o que lhes convinha cultivar, pois é a cultura máxima que alcançam e a pátria deles requeria. Pior: agora, é a cultura do país que lhes está entregue a eles (e elas), como o país está entregue à erva daninha, ao mato agreste e aos silvados. Resultado: grassa uma dupla desertificação: a do interior do país e a do interior das cabeças de quem era suposto dirigi-lo. Quer dizer: o deserto de ideias propagou-se aos campos do país. E aos mares. E aos céus. É o vazio em toda a parte. Nem sonhos, nem esperanças, nem vergonha, nem tino, nem ponta por onde se pegue.
Não contente de tocar rabecão, o sapateiro cismou de ser o maestro; não satisfeito com a missa, o merceeiro subornou o padre e trepou ao altar; e o marialva, não lhe bastando ir às putas quis também ir à nação: capacitou-se que se metia a gaita também podia meter a cabeça. Ou seja, meteu na cabeça a gaita, com todas as suas infinitas pintelhices, para gáudio e recreio das suas atávicas e cristalizadas faculdades - a bicefalia invertida e congénita, nem mais-: fornicar com a de cima e raciocinar com a de baixo. Entretanto, a labreguice, que distribuída pelos campos chega a ser pitoresca, amontoada nas cidades, atravancando e emporcalhando academias, salas de espectáculo e ministérios, redunda em mera poluição humana. Coalho pastoso, superficial, flutuante e nauseabundo. Faz as vezes de nata, pois faz. Mas uma nata negra, espessa, mortífera, como a dos grandes derrames. A ocidental praia, convertida em sepulcro de pescadores e marinheiros, está coberta por um manto fúnebre desses.
O badameco veio ser doutor, o borra-botas agora caga-postas. A macaquear os cavaleiros de outrora, também transita por aí armado, empertigado e fátuo. Não com a espada, mas com o grandessíssimo pingarelho. E onde quer que meta o pensamento, com a tramela no encalce, não demora o eco da caverna retumbante que lhe faz oca a rocha craniana. Na ausência de ideias próprias, vale-se do bedelho que mete por toda a parte.
E é esta a tropa fandanga que está aos comandos do regimento... Depois, venham-me cá dizer que o que faz falta é formação, ainda por cima unversitária... Quando o que existe é um sistema instalado de deformação, de torção, de selecção de moluscos e imbecis! Quando a puta da máquina está sabotada, transviada, invertida: não produz homens -quanto mais sábios, pioneiros, espécimes elevados-, só vomita chouriços. Cadáveres adiados que já mal procriam. Porque primeiro há que tratar da carreira, do ego, do cabrão do coiro e respectivas manias -essa novel agremiação de moléculas, joint-venture de células prometida aos vermes, e que os vermes vão já devastando por antecipação! Isso e, mal brotam da cloaca doutorante, porem-se logo a fungar a brisa, a escutar o murmúrio, à cata do prostíbulo onde melhor se possam vender.
Formação? Este país, a nível de mentalidades, está a precisar é dum valente clister!
Essa sim, essa é que é uma prioridade absoluta. Ou, no mínimo, uma dose maciça de anti-helmínticos.

PS: E, caso não tenham percebido, não é uma questão de berço nem escola. A massa é igual em toda a parte. Só a embalagem é que muda. O espírito não se adquire nem se herda. Nasce-se com ele, como se nasce com braços e pernas, cabeça e testículos (ou ovários). Ou nasce-se sem ele. Mistérios de Deus e da Natureza. Ide perguntar-lhes porquê. Interrogar é já um claro sintoma de inteligência; tal qual debitar ininterruptamente opiniões e anedotas alarvajadas o é da ausência dela. Sobretudo, quando se mascaram as anedotas de leis, discursos, pareceres técnicos ou tratados eruditos.
Não é nenhum drama não possuir inteligência. Drama mesmo, tragédia absoluta, é promover esse vácuo a espírito. Não é por se multiplicar múltiplas vezes o zero que se alcançam números formidáveis. A incontinência ainda não é uma forma de génio. Por muito que a vendam a peso de ouro.

quinta-feira, junho 03, 2004

O GRANDE MISTÉRIO DOS BLOGUES


Sou um ígnaro destas novas tecnologias, um pedregulho completo! Vejam lá bem que eu estava convencido -convencidíssimo, temo reconhecê-lo-, que aqueles contadores com números -da Bravenet, Sitemeter e outros que tais-, que emolduram -e dignificam com aquele ar de cockpit de rally- os blogues, contabilizavam o número de visitas. E apenas isso. Pois, nada mais falso, dignos basbaques que me espiais desse lado do écran. Grosseiro equívoco da minha parte. Burrice digna de estátua, fiquei hoje a saber.
Felizmente, ainda há gente caridosa. Gente solidária, gente que quando assiste ao seu semelhante a espalhar-se ao comprido, num estampanço monumental, ainda lhe estende a mão, ainda se compadece, em vez de desatar às gargalhadas alarves ou em soslaios malévolos de "é bem feita!".
Valeu-me uma alma dessas, anjo disfarçado de criatura, por certo. Senão, lá morreria eu nesta ignorância contundente e embarcaria para o outro mundo embalado na mais deprimente paspalhice.
Revelou-me esse santo (pessoa experiente e vivida), que afinal, e ao contrário do que eu estupidamente supunha (nunca é demais sublinhá-lo), os tais contadores, severos e objectivos mostruários, não computam o número de visitas mas sim, isso sim, (como é que eu nunca tinha reparado?!) o coeficiente intelectual dos bloguistas!
É claro que esta verdade elementar e óbvia, para vocês não é novidade nehuma. Mas para mim, simplório militante, confesso que me deixou um tanto ou quanto perplexo. O meu interlocutor, porém, exterminador implacável, acabou com todas e quaisquer dúvidas que ainda me infestassem o espírito.
Eis como o prodígio funciona: parece que os blogues, afinal, não são meras ciber-montras das telhas de cada um. Não; os blogues, em boa verdade, funcionam como uma espécie de dinamonóias -quer dizer, acumuladores de inteligência. Nem mais. Através dum complicado processo de osmose simpática -que ele me explicou muito bem, mas do qual, confesso, não entendi patavina-, o bloguista, o demiurgo blogopédico, absorve parte da inteligência dos visitantes. Resumindo: os visitantes são essencialmente depositantes. Ao abrirem a página, estão a contribuir para o enriquecimento intelectual do mentor. O que me leva a crer que os visitantes são igualmente contribuintes. (Desconfio até que, no fundo, se trata dum fenómeno qualquer paranormal, psicovampirismo ciberfórico ou coisa que o valha, mas isso deixo ao vosso critério). O que é certo e seguro, estudos comprovam-no (a Universidade J. Hopkins não dorme), é que quanto mais visitas tem, mais inchado e arrotante o visitado se torna. E também mais guloso e ávido. Aquilo, nitidamente, transtorna-lhe o juízo -quer dizer, hipertrofia-lho, expande-lho a uma velocidade superior à do universo pós-BigBang. A hipótese do buraco negro intelectual, espécie de anti-matéria psíquica que absorve tudo quanto dele se aproxima (ocorreu-me agora a talhe de foice) também não é de menosprezar.
Mas este Big-Bang, Ping-pong ou Gang-bang espiritual, acarreta outras consequências não menos bizarras. A eclusão de castas é uma delas. Com os dados objectivos sobre a inteligência de cada qual que o intelectómetro, com rigor científico e precisão suiça, proporciona, era forçoso que tal acontecesse. Não sei qual a denominação correcta para esse tipo de conjuntos homonoéticos que funcionam à maneira das castas. Se fossem ovelhas, seriam rebanhos; se fossem vacas, seriam manadas, se fossem peixes,enfim, seriam cardumes. Mas assim, francamente, não sei como chamar a uma resma de génios ou de mentecaptos, conforme a circunstância. Como o fenómeno funciona um pouco à semelhança da "Hierarquia Celeste", do Pseudo-Dionísio, opto por denominá-los de "ordens" ou "hordas" (ordens, acima das 50.000 visitocalorias; "hordas, abaixo).
Do que me puderam explicar, existem cinco ordens e outras tantas hordas. Cada ordem reune espécimes com um grau de iluminação semelhante. À medida que ascendem, vão cintilando cada vez mais e adquirindo o chamado "toque de Midas": tudo aquilo que escrevem transforma-se em ouro, ou, no mínimo, em pérola ou pedra preciosa. Da mesma forma, no plano inverso, cada horda parte dum abismo tenebroso e caótico, feito de alarvidades abomináveis e arrazoados ininteligíveis. Começam por sarrabiscar lixo, entulho heteróclito, e, aos poucos, imbuídos do poder do mata borrão a princípio, ou do psico-evax pantabsorvente à medida que o débito se avoluma, lá se vão penosamente elevando até ao grau zero da ciência (os almejados 50.000 visitocalorias, pois). Só então se descartam do "toque de Merda" e podem começar a aspirar ao "toque de Midas".
As hordas e as ordens têm títulos. Comecemos pelas hordas: até 5000 vc (visitocalorias)- répteis ante-diluvianos; entre 5000 vc e 10.000 vc: mamíferos vertebrados; dos 10.000 aos 20.000: trogloditas; entre os 20.000 e os 30.000: cro-magnons; dos 30.000 aos 50.000: neanderthais perplexus. Quanto às ordens: dos 50.000 aos 100.000: pensadores balbuciantes; entre os 100.000 e os 200.000: semi-portentos; dos 200.000 aos 300.000: portentos geniais; entre os 300.000 e os 400.000: génios consumados; acima dos 400.000: semi-deuses ou serafins eruditos.
Como a clarividência enciclopédica escorre, em cascatas de luz, lá do alto até cá abaixo, ao rés-do-chão - e, daí, clama em fulgores distantes às sombras e trevas das profundezas-, é de deixar qualquer um banzado. Um espectáculo deslumbrante, segundo me contaram.
Claro está que estas regras transcendentes, como tudo na vida, têm as suas excepções. A pátria tem obrigações hereditárias que não podem descurar-se. Nessa tradição, cumprem-se aqui etiquetas e protocolos inerentes a todo o processo civilizado; essas mesmas que o vulgo incréu tem por hábito menoscabar sob as depreciativas categorias de, "compadrio", "comadrio", "amiguismo" e quejandas manteiguices congéneres, louvadas sejam! Assim, por especial graça dum serafim erudito ou semi-deus encartado, directamente investido por Iáhvé Todo Poderoso e seu procurador na blogosfera, um réptil ante-diluviano pode ser rapidamente promovido a pensador-balbuciante. No mínimo. Basta a bênção do padrinho.
Entretanto, qualquer recurso a terminologia malévola e cínica, como "tiragem do blogue", "tabela de vendas da banha", "disco de ouro ou de platina", não são bem-vindas e só reflectem a cavernicolidade do autor. Ao contrário da cena musical, aqui, na blogosfera radiante, o fenómeno pimba não impera. Aqui, por obra e graça de Deus, e dos seus representantes ao mais alto nível, quantidade é qualidade. Nada de Emanuéis, nem Ágatas, nem Dinos, nem Paulos Marcos. Só nata, só fina flor, só einsteines ao despique. Aleluia!...
Tudo isto me foi explicado, e eu, não fosse encontrar-me no miserável e destituído nível em que me encontro, teria compreendido na perfeição. Assim, mergulhado em trevas, às voltas no entulho, este meu cérebro minúsculo, de tudo o que ouviu, não deve ter retirado proveito nenhum e só deve ter armado balbúrdias e confusões, um raio me parta! Se alguém tiver dúvida disso, basta conferir no meu intelectómetro. Uma vergonha!...
(Coragem, Dragão, estás quase a chegar a troglodita!...)

E AGORA UMA PAUSA PARA IREM VOTAR...



«Ao serviço da Compagnie Pordurière du Petit Togo trabalhavam ao mesmo tempo que eu, já o disse, em telheiros e nas plantações, grande número de negros e indivíduos brancos do meu género. Mas enquanto os indígenas só se mexiam à força de cacete e mantinham essa dignidade, os brancos, aperfeiçoados já pela instrução pública, desembaraçavam-se sozinhos.
O cacete acaba por fatigar quem o maneja, ao passo que a esperança de se tornarem poderosos e ricos, de que estão a abarrotar os brancos, não custa nada, absolutamente nada. E venham-nos agora gabar o Egipto ou os tiranos tártaros! Não eram esses antigos mais do que amadores e despotazinhos pretenciosos na arte suprema de fazer produzir ao animal vertical o melhor do seu esforço no trabalho. Esses primitivos não sabiam tratar os escravos por "senhor", fazê-los votar uma vez por outra, pagar-lhes salário e sobretudo mandá-los à guerra para fazer as suas paixões arrefecer. Um cristão do século vinte (sabia eu já alguma coisa do assunto) não é pessoa para se conter quando à frente dele passa um regimento, de tal modo a coisa lhe solta as ideias.»
- Céline, "Viagem ao Fim da Noite"

PARA QUE SERVE?... (Resposta à Zazie)



A estimada Zazie deu-se ao trabalho de comentar e fazer perguntas, pelo que me compete a amabilidade de responder.
Cara Zazie,
Aquilo que era politicamente correcto ontem, é politicamente incorrecto hoje e vice-versa. Nada nos garante que daqui a bocadinho não mude e cambalhoteie de novo. Também varia de país, região, regime, raça, credo e classe social. (Eu sei que raça e classe não existem, mas há cismativos que porfiam e pessoas pouco cultas duma maneira geral).
Este blogue nutre um desprezo olímpico por aquilo que se chama "política" no século XX. (Falo deste século porque é o "meu"; e como das minhas desgraças falo eu...) Se me chamarem "político", não é tão grave como chamarem-me "gay" mas anda lá próximo.
Eu posto (escrevo neste blogue) não com intuitos brilhantes, geniais, mentecapturantes do alheio, mas porque -e aquilo que- me dá na real gana. Espero que os meus digníssimos e beneméritos leitores me paguem da mesma moeda. Digam e comentem o que lhes dá na deles. Não estou preocupado com aquilo que pensam, nem estimo especialmente que pensem como eu ou como eu, às vezes, parece que penso. Estimo, sobretudo, que pensem. Aquilo que pensam e porque o pensam é lá com eles. Já fico feliz se ginasticarem a mioleira; não imponho regras nem exercícios. E fico ainda mais radiante se algo do que eu escrever servir para esse fim. Portanto, cara Zazie, se é isso que pensa, está muito bem pensado. Fico contente de tê-la estimulado a tão nobre faculdade e peço-lhe desculpa por responder desta forma genérica à pergunta específica que, julgo, me colocou.
Em todo o caso, a resposta à finalidade das coisas encontra-se quase sempre nas suas causas e origens. São as raízes que, invariavelmente, alimentam as belas ramagens das grandes árvores, tanto quanto os ramos retorcidos e espinhosos dos arbustos rasteiros. Que as mesmas nutram especial guloseima por esterco e podridão, isso já é outra história. Ou a mesma. A metáfora até nem é minha. Mas dá que pensar.

quarta-feira, junho 02, 2004

SÍSIFO E OS ESCARAVELHOS-DAS-BOLAS



Sísifo não pensa. Está absolutamente concentrado na sua tarefa, obceca-o o seu trabalho. É uma ocupação eterna, circular, sem princípio nem fim. Sísifo empurra o pedregulho pela encosta até ao cimo; aí chegado, o pedregulho, por força da gravidade, torna a rebolar cá pra baixo. É um jogo entre a força humana de Sísifo e a força fatal da gravidade. E é, sobretudo, um suplício, um castigo divino. Sísifo cumpre pena perpétua, para sempre alheio e esquecido de tudo o resto.
Qual foi o crime inexpiável de Sísifo?
A mitologia diz que foi o homem mais sábio e astuto do seu tempo.
(«A lenda mais conhecida sobre Sísifo conta que aprisionou Tânato, a morte, quando esta veio buscá-lo, e assim impediu por algum tempo que os homens morressem. Quando Tânato foi libertada, por interferência de Ares, Sísifo foi condenado a descer aos infernos, mas ordenou à esposa, Mérope, que não enterrasse seu corpo nem realizasse os sacrifícios rituais. Passado algum tempo, pediu permissão a Hades para regressar à Terra e castigar a mulher pela omissão e não voltou ao além-túmulo senão muito velho.»)
Portanto, Sísifo renegou os deuses e a morte. Quer dizer, encantado consigo e com o seu engenho, deslumbrado com a sua astúcia e cálculo, em suma: ensoberbecido com os meios, escarneceu e desdenhou de princípios e fins.
A vida humana é passagem. O próprio Nietzsche chamava-lhe "ponte". Se, passados estes milénios todos, ainda não percebemos essa verdade elementar, então, ao contrário dos tão cantados seres racionais, não passamos de primatas inapelavelmente estúpidos. Se já o soubemos, mas, entretanto, esquecemos, então somos estouvados e negligentes. Se sabemos, mas não temos tempo para pensar nisso (porque uma série de ocupações cada vez mais absurdas não nos deixam), então, muito provavelmente, imitamos e recriamos Sísifo séculos adiante.
Uma ponte liga duas margens. Não é propriamente um tapete voador a pairar sobre o abismo. O único com critério bastante para fazer do abismo espelho será Deus. Está lá no alto, quando está. Ao homem cumpre-lhe caminhar, ser caminho, viagem, odisseia. O caminho -a ponte-, faz-se caminhando. Se em vez de caminhar e ser caminho, o homem esquece os princípios e os fins e se fecha numa reflexão umbilical, convencido que é ele próprio Deus e ele próprio abismo e, por conseguinte, ele próprio ponte de si para si e por cima de si, então, mais que diante do ser mais astuto sobre a Terra, estamos diante duma cultura ou civilização que regride e se degrada cada vez mais, pasto de imbecilização, autismo e, em estágio assolapante, esquizofrenia.
"Penso, logo existo!" - Que gloriosa proclamação sobre as trevas! Mas pensas em quê, ó Descartes? Acima de tudo: pensas porquê e para quê?
Porque se não cogitas em nada, nem por causa de nada, nem para nada, então certamante existes, sem dúvida - como todos os teus epígonos pelo tempo fora: racionalistas, cientistas, positivistas e liberais -; mas apenas para empurrar esse pedregulho que te conforma o pensamento e donde derivas a existência. Não tanto à maneira de Sísifo, há que reconhecê-lo, mas mais ao jeito dos escaravelhos-das-bolas*. Acreditas que assim, feito dessa matéria adesiva, chegado ao topo, não rebolará cá pra baixo?
E vós todos, ó descendentes multiplicadíssimos da postura cartesiana: é nisso também que acreditais?...


*Escaravelho-das-bolas
Geotrupes stercorarius

«Besouro esterqueiro ou escaravelho-sagrado é um insecto coleóptero grande, 10 a 25 mm de comprimento, tem cor negra ou quase negra e o corpo é revestido por quitina espessa e coriácea.

As patas anteriores possuem espinhos para poderem escavar as tocas que se situam por debaixo do esterco.

Os machos distinguem-se perfeitamente das fêmeas pelas antenas.

As bolas de esterco são levadas para as tocas e, é nessas bolas, que põem os ovos e guardam as larvas até estarem aptas a sobreviver.

As larvas possuem maxilas poderosas e alimentam-se do mesmo tipo de alimentos que os adultos.

São comuns na região mediterrânica e encontram-se nos prados e pastagens durante todo o ano.

Estes, com um ou mais besouros aparentados, foram considerados símbolos da ressurreição e da imortalidade, pelos antigos egípcios. »

Derivado certamente disso, a humanidade em geral, acredita hoje, piamente, que essa actividade redentora típica e hipnótica do escaravelho -agenciamento e recolecção de bosta-, resgata-la-á, num futuro próximo e garantido, da velhice, da criancice e, nec plus ultra, da morte.

terça-feira, junho 01, 2004

PARA UMA ANTOLOGIA DO TERROR - V. A Tortura Hodierna High-Prophile


Agora que a Tortura parece estar novamente in, com a Democracia Perfeita a conceder-lhe o seu beneplácito e a elevá-la ao estatuto de ciência (quiçá humana), talvez seja interessante fazer-se o ponto da situação. Constatar as últimas modas e tendências; ver até que ponto Abu Grahib foi um salto em frente ou mero decalque de modelos já creditados; avaliar Guantanamo, ali mesmo ao pé de Havana; enfim, orçar do que pior se faz por esse mundo fora, hoje como ontem, das tiranias às democracias, por todos os continentes e religiões. Registe-se, todavia, que aqui nos referimos exclusivamente àquilo que podemos classificar como "Tortura High-Prophile", ou tradicional (aplicada a indivíduos ou grupos de indivíduos discriminados. Existe depois uma "tortura low-prophile", que se processa indiscriminadamente, a nível subliminar, massificado e a vários níveis de difusão pública, que deixaremos para segundas núpcias. Distinguindo-se no objecto, finalidade e amplitude metodológica, ambas constituem, não obstante, formas de coerção. E mais não digo. Por agora, atenhamo-nos, então, à Tortura High-Prophile (ou dito doutra forma, aquela que "é notícia")...
Além disso, como nesta vida nunca sabemos quando um qualquer acaso ou labirinto kafkiano nos toma a seu cargo, sempre podemos ir antevendo e sopesando aquilo que nos espera...

«MÉTODOS DE TORTURA NOS FINS DO SÉCULO XX»

«Tortura Somática
Espancamento: esmurrar, bater com bastões, coronhas de espingardas, saltar sobre o estômago
Falanga (falaka): vergastar as plantas dos pés com varas
Tortura dos dedos: lápis inserido entre os dedos da vítima que são depois apertados violentamente
Telephono: o torturador bate no ouvido da vítima com a mão aberta imitando um receptor telefónico, produzindo a ruptura da mebrana do tímpano; o telephono também pode consistir em golpes desferidos contra um capacete usado pela vítima
Electricidade: sonda com eléctrodos (picana electrica)
; aguilhões de gado (bastões de choque); grelhas de metal, camas de metal a que são atadas as vítimas; a "cadeira do dragão" (Brasil), uma cadeira eléctrica
Queimaduras: com pontas de cigarros, charutos, varas aquecidas electricamente, óleo a ferver, ácido, cal viva; assar numa grelha ao rubro (caso da "mesa quente" usada pelos agentes do SAVAK); esfregar de pimenta ou outras substâncias químicas em mebranas mucosas, ou ácidos e picante directamente nas feridas
Submarino: submersão da cabeça da vítima em água (frequentemente imunda) até ao limiar da sufocação (denominada na Argentina "a tortura asiática"; em outros locais, a banera)
Submarino a seco: a cabeça da vítima é envolta num saco de plástico ou cobertor, ou a boca e narinas são amordaçadas até que se atinja o ponto de sufocação
Suspensão: o "poleiro de papagaio" brasileiro - a vítima é suspensa com os joelhos dobrados à volta de uma vara de metal e atados violentamente aos pulsos
Manter prolongadamente posições forçadas ou em esforço do corpo
Manter prolongadamente de pé
Alopécia de tracção: arrancar o cabelo
Extracção à força de unhas
Violação e agressões sexuais
Inserção de corpos estranhos na vagina ou no recto
"Mesa de operações": mesa à qual a vítima é atada, tanto para ser violentamente esticada como para ser presa apenas na zona abaixo das costas, de tal modo que a vítima é obrigada a suportar o seu peso que está fora da mesa; no Chile é denominado el quirófano
Exposição ao frio: exposição a ar gelado ou submersão em água gelada
Privação de água: fornecer apenas água suja, salgada ou com sabão
Consumo forçado de comida estragada ou deliberadamente muito picante
Tortura dental: extracção à força de dentes

Tortura Psicológica
Presenciar as sessões de tortura de outros: parentes, crianças
Ameaças de fazer presenciar a tortura de outros
Execuções simuladas
Privação de sono
Exposição contínua à luz
Reclusão na solitária
Incommunicado (permanecer preso sem qualquer comunicação humana)
Privação sensorial total
Condições de detenção
Ameaças
Humilhação: arrancar roupas; forçar a participar em ou a presenciar actividade sexual

Tortura Farmacológica
Administração forçada de substância psicotrópicas
Administração forçada de estimulantes nervosos (histaminas; aminazina; trifluoreto de perazina-cetalazina)
Injecção forçada de matéria fecal
Ingestão forçada de enxofre ou veneno (itálio)»

(in "História da Tortura", de Edward Peters.)

Duas notas finais:
1. Naturalmente, nenhuma das extracções -quer de dentes, unhas, ou cabelo-, é feita com anestesia.
2. Não menos naturalmente, esta lista de actividades refere-se a regimes dementes sob os auspícios de tiranos loucos. Para se fazer uma ideia do correspondente em países democráticos -e especialmente supra-democráticos, como os Estados Unidos -, basta substituir no texto as palavras "tortura", "torturadores" e "vítima", por "pesquisa", "investigador" e "paciente", respectivamente.