segunda-feira, agosto 30, 2004

29 de Agosto

O verdadeiro ouro deste mundo é a amizade. Encontrar um amigo, dos verdadeiros, é encontrar um tesouro.
E os tesouros, se já é difícil encontrá-los, mais difícil é, depois, guardá-los.
Escrevo isto a propósito do dia 29 de Agosto. Um dia muito especial.
Como eu e uma grande amiga minha sabemos.

quinta-feira, agosto 26, 2004

Homo-Sopeirus

A economia não é coisa de homens –quer dizer, de machos. Durante séculos, milénios, foi assim. E continua a ser. Foi preciso que o homem se efeminasse, se desterritorializasse, se convertesse à vida fácil e à sopeirice para que, aparentemente, se tornasse coisa de homens. Não se tornou. Deveio apenas coisa de coisas que parecem homens.
A preocupação obsessiva com as compras, com o almoço e jantar, com as dívidas ao merceeiro, são equivalentes às angústias com a maquilhagem, com a cor das unhas ou com o vestido e penteado com que, de manhã, se vai à praça. No duplo sentido que “ir à praça” possa ter.
É caso para dizer que a disfunção desfaz o órgão. Hoje em dia, portento civilizacional, já nascem capados. Algum tratamento hormonal disfarçado de vacina, admirem-se.
E multiplicam-se. Estão por toda a parte. Um exército de sopeiras ao assalto do mundo. As outras queimaram os soutiens. Estes ajeitam o cinto de ligas debaixo do avental.

Cleptocracias

Angola é uma cleptocracia. Portugal também. A diferença fundamental é que em Angola são poucos a roubar muito, e em Portugal são muitos a roubar pouco.
Democracias? Não inventem.

quarta-feira, agosto 25, 2004

A Reforma do Ensino. Já!

Abeirando-se perigosamente o início de mais um ano lectivo, eis que a questão do ensino volta à ordem do dia. Não há blogue que lhe resista. Por mim, digo e repito o que já tinha escrito aqui, há uns meses atrás. E foi exactamente o que se segue...

«Eu pergunto-vos: "que raio de porcarias, que ror de inutilidades e matérias desnecessárias, andam a ensinar nas escolas e universidades deste país?..." A quantidade exacta ninguém sabe, mas o resultado está bem à vista: 40.000 licenciados no desemprego, fora os que andam a monte ou se esconderam em casa, com depressões, envergonhados. E também os que trabalham de chofer de táxi, de caixa de hipermermado, de portageiro ou a dar serventia a trolhas gozões. Pois, uma catástrofe social... e de quem é a culpa?... A culpa, toda a gente sabe, é da falta de preparação para a vida profissional, da inadequação gritante dos curriculos às necessidades laborais e, sobretudo, aos hábitos e critérios empregadores do mercado. Ora, este, o bendito mercado, está cada vez mais esquisito e exigente; arreiga-se encanzinadamente às suas prorrogativas e ninguém o faz arredar pé.Assim sendo, está mais do que na hora de dizer aquilo que toda a gente pensa mas ninguém diz. E, ao mesmo tempo, iluminar duma vez por todas certas cavalgaduras burocráticas que prometem reformas, mas não mexem uma palha e, ano após ano, deixam tudo na mesma.Pois bem, esta reestruturação curricular que apresentarei de seguida, é infalível, panaceia garantida, e aplica-se universalmente a todo e qualquer curso, seja de letras ou ciências. Introduzam-se as cadeiras que passo a referir, conforme o ano que sugiro, e vereis se não é remédio santo.

1ªAno - Subserviência.
Sem conhecimentos avançados desta disciplina, como é que alguém pode singrar na vida profissional ou almejar a uma carreira de sucesso neste país?!... Impossível, digo-vos eu e sabeis vós melhor que ninguém. Quem não subserve não sobrevive. Sem este instrumento mediador supremo, todo e qualquer conceito, técnica ou conhecimento torna-se estéril, inútil. Um tipo é barra em medicina, direito ou arquitectura, mas não tem as noções básicas de subserviência... para que lhe serve o curso? - para nada; contempla o diploma e morre de fome.

2º Ano - Bajulação e Graxismo.
Uma vez instruído na "subserviência", o futuro quadro precisa de fórmulas elaboradas para a aplicação da mesma. É aqui que surge a "bajulação e graxismo". Saber bajular e dar graxa ao chefe é fundamental para o aspirante a bons salários e regalias sociais. A capacidade técnica, a competência profissional, sem um bom domínio da "bajulação e graxismo", além de se tornarem inóquas, devêm absolutamente contraproducentes e prejudiciais ao proprietário. Pior que não saber bajular o chefe só há uma coisa: não saber bajulá-lo e ser competente. Invariavelmente, o chefe, a qualquer nível na escala hierárquica, tomará isso como uma ofensa pessoal e ameaça velada ao seu ganha pão e marisco.

3ºAno - Insectomorfismo e Ética.
Dominadas as artes da subserviência e da bajulação, aquele que aspira a altos cargos, sobretudo na administração pública, tem que adquirir uma perfeita moral camaleónica e um estômago à prova de bala. Um adestramento exaustivo na habilidade de se transformar em insecto, de preferência rastejante, torna-se, então, necessário. Esta aptidão tem que devir segunda natureza, avatar sempre pronto a ser exibido. É certo e sabido que, a todo o momento -às vezes, mesmo quando menos se espera -, na vida profissional portuguesa, surgem bruscas mas imperiosas requisições deste desempenho. Nada como o indivíduo estar preparado.

4ºAno - Macaquice transcendental.
Na vida adulta e, sobremaneira, na carreira profissional cá do burgo, ser é ser macaco. O "ser macaco" engloba e sintetisa, numa espécie de concentrado vitamínico, vários princípios de acção fundamentais ao percurso do futuro quadro. A saber: o princípio da imitação (de superlativa importância), o princípio da velhaquice (não menos importante), o princípio do oportunismo (idem, idem) e o princípio da etiqueta e protocolo (o mais transcendente e esotérico de todos). A rapidez na imitação, a predisposição à velhacaria, o sentido oportunista e a perícia no protocolo constituem as metas de todos os finalistas.Ultrapassado o 4º Ano, eis que se inicia o Estágio. Este será integralmente passado em testes e aulas práticas no Simulador de Trabalho. A razão é simples: Sendo o verbo "fazer" inconjugável per si no nosso país, onde só aparece transmudado em "fazer de conta" ou "fazer que faz", era mais que evidente que não fazia qualquer sentido mandar os recém-licenciados e candidatos a futuras mordomias estagiarem em locais efectivos de trabalho, dignos apenas de gente desclassificada e analfabeta (como fábricas, empresas transformadoras, centros agro-pecuários, etc). Consciente desse erro tradicional, o meu plano propõe, outrossim, que eles estagiem em "locais virtuais" de trabalho, semelhantes àqueles que ocuparão no futuro. É pra isso que serve o Simulador. Assim, da mesma maneira que um governante actual "faz que governa", mas não governa; ou um director geral "faz que dirige", mas não dirige; ou um deputado "faz que representa" mas não representa; também o futuro governante, director, deputado, etc, tem que aprender esses primores técnicos do "faz que faz mas não faz " e "faz de conta mas não é", enfim, as múltiplas manhas e ardis da simulação laboral. Onde pontifica sobretudo, como requinte mor, o desembaraço na ocupação simultânea de vários cargos e a invisiblidade durante grande parte do mês. A excepção singela a esta regra do "faz que faz" (e como toda a regra tem que ter a sua excepção) reside estritamente no "sacar" (salários, subsídios, mordomias, etc). Aí, nem os actuais, nem os futuros, "fazem que sacam"...Não, aí, sem dó nem saciedade, escrúpulos ou hesitações, não "fazem que sacam": sacam mesmo!...

PS: Repito e sublinho: quanto às outras disciplinas de cada curso, pouco interessam; bem como a sua aprendizagem ou aproveitamento. Agora estas, que acabo de referir, são nucleares e de transcendente importância.»

terça-feira, agosto 24, 2004

O Lobo da Floresta Negra


«Como esta conversa por silêncios, gestos e piscar de olhos não tinha dado resultado, Heidegger propôs-nos uma caminhada a pé sobre a neve, até ao seu chalé de Todtnauberg.
Fazia quase noite (era Dezembro), quando chegámos, sem ter rompido a essência do silêncio dum campo de neve, e Heidegger parou num ponto deste campo. E disse em francês:”Vós ides ver a minha cabana.” Não se via nada. Nenhum chalé, nenhuma árvore; nada, salvo a neve e a noite. E eu dizia para mim vagamente que esta noite e esta neve eram os símbolos do que ele tinha tentado exprimir obscuramente na sua obra O Ser e o Tempo («Sein und Zeigt»).
Então, Heidegger pegou numa pá. E obstinadamente, lentamente, pazada por pazada, pancada por pancada, ele libertou uma chaminé que emergiu da neve, depois o telhado da casota, enfim a porta e a soleira. Conservando sempre a pá na mão, disse-me que o que acabava de fazer perante os meus olhos era o símbolo do seu trabalho em filosofia. »

- Jean Guitton, “Un siècle, une Vie”

Tenho que reconhecer que é uma das melhores e mais genuínas descrições da filosofia de Heidegger que alguma vez li. E se vós, caros leitores, me perguntardes “quem é esse gajo? Para que nos interessa isso?”, eu respondo-vos: “E vós, quem sois vós? E para que me interessa isso?!...”

quinta-feira, agosto 19, 2004

O Caos, as Ideias e os Sistemas

Convencemo-nos que são os sistemas políticos, os regimes, que são maléficos, desviantes, insidiosos. Que são eles que corrompem as mentes e os anjos humanos que delas se servem. Que são eles o demoníacos, os vampiros, os monstros abomináveis. Construímos com eles galerias de horrores, expositórios de crueldade e carnificina, sobretudo intra-específica. Cada qual mais horripilante que a anterior, cada qual mais sórdida e inexplicável. Inexpiável também. E, todavia, invariavelmente, concursivas, espécie de olimpíadas da canalhice. É o inferno na Terra ao despique. A cada episódio ou estação no percurso atribuímos títulos míticos e sugestivos: “comunismo”, “fascismo”, “absolutismo”, “despotismo”, “nazismo”, etc. Um panteão de infâmia, enfim, diante do qual nos vamos persignar e ladrar esconjuros.
Como se esse inventário e essa peregrinação bastassem para nos pôr a salvo dessas infecções, nos vacinassem e imunizassem contra toda a monstruosidade deste mundo. Logro infantil, em muitos casos; hipócrita, nos restantes.
Não é que os sistemas políticos e ideologias arregimentadoras - como, por regra, toda a produção humana-, não sejam uma bela e grandessíssima merda. São, e quanto a isso estamos conversados. Por via das dúvidas, até se indica um critério infalível de taxonomia: quanto mais celebradas forem, mais merdosas são e mais infectas, certamente, se tornarão. É fatal. É o toque de Merda ou da Multidão: não doura, como o de Midas; apenas merdifica.
Ora, a multidão, até o bom Jesus o reconheceu, alimenta-se de porcarias, de lixo e do que não presta. O seu omnivorismo bulímico é, quase exclusivamente, coprofágico. Caga e come; come e caga. Qualquer porcaria lhe serve, poque toda a porcaria é sua. Nesse sentido, é auto-suficiente, funciona em circuito-fechado. Segue, canina, o rasto da sua própria bosta. Maior que a sua produção, só o seu apetite. Mas tanto quanto as porcarias que ingere, com que se refastela alarvemente, fedem as porcarias que promove e arrasta. O cortejo de prostitutas, alcoviteiros e masturbadores activos que a parasitam, que a mimoseiam e lustram. A corte histriónica que a segue por toda a parte, sovando latas e pandeiros, bufando apitos e buzinas.
Pois bem, toda e qualquer tentativa de governo, de regime, é um esforço –entusiasta, a princípio; desesperado, a breve trecho; e condenado ao fracasso, por fim -, contra esta amálgama caótica e ruidosa. É, ainda e sempre, o proto-empreendimento cósmico de levar uma ordem ao caos, de impôr uma luz às trevas, um sentido ao absurdo.
Se esquecermos a proveniência, todos os sistemas políticos são excelentes, todos congregam as melhores das intenções e a nata dos virtuosismos teóricos. Enquanto maquetes, cadernos de encargos, projectos arquitectónicos, chegam a ser deslumbrantes. Anunciam destinos risonhos e Porvires que cantam. O pior vem a seguir. Quando chega a hora da execução. Quando se iniciam os cavoucos e se amontoam os andares; quando se apontam pilares e estendem as vigas. Há sempre um detalhe nada insignificante que fica esquecido; há sempre uma questão essencial que passa por irrelevante. Há mesmo teses sobre essa lacuna estrutural: Os mais pessimistas argumentam que tais edifícios não foram projectados para homens, mas sim para semideuses, super-heróis, anjos; ou que o selvagem de bom não tem nada, portanto, não é de contar com ele para qualquer coisa que exceda em muito o canibalismo primordial ou a selva matriz. Os menos pessimistas, por seu turno, queixam-se dos poderes instalados, da classe empoleirada no topo da pilha de bosta, a esbracejar, erudita, com ares de maestro.
A mim, quer-me parecer que a falha é outra. Nem o projecto é absolutamente sobrehumano, nem os maestros excrementofónicos servem de bastante desculpa. É verdade, não me restam grandes dúvidas que os sistemas, sejam eles quais forem, estão ao alcance de pessoas, tão humanas quanto eu ou a Madre Teresa de Calcutá. Os projectistas não deliravam tão forte e agudamente quanto se pensa. As casas talvez não sejam palácios de Sintra, mas também não são casebres assim tão vergonhosos. Não está em causa a sua habitabilidade. O buzílis, o ponto onde a porca torce o rabo, reside, outrossim, não num delírio, mas num esquecimento - desastroso, por sinal. De facto, todos esses arquitectos peregrinos, pais de soluções sublimes, assoberbados de boas intenções e miragens salvíficas, não esqueceram os homens, as pessoas, até os cidadãos. Quanto a isso é má fé acusá-los (pelo menos, aos principais). Não; esqueceram-se foi dos pulhas, dos sacanas, dos FDPês todos que andam à solta por este mundo, desde o princípio dos tempos. Não há sistema que lhes resista, não há regime que os arrume, nem ácido sulfúrico bastante que os dissolva. Matéria inorgânica pura, plástico amorfo e pegajoso, não reciclável, verlam de prevenção, guardiães do marasmo e da balbúrdia rastejabunda.
Seja em que tempo ou região fôr, são sempre os primeiros a aderir ao sistema, a hospedar-se nele para o instaurar como lhes convém. Ou seja, apenas para o minarem, subverterem e arruinarem por dentro. No fim, invariavelmente, o resultado é desolador. De sistema de governo duma determinada população, descamba em mero sistema de reprodução duma determinada classe. Pois, a dos pulhas, sacanas e filhos da puta. Os únicos mamíferos não-vivíparos que se conhece.
Por conseguinte meus amigos, sistemas de governação já temos que chegue. Agora, o que nos fazia mesmo falta era um sistema de saneamento básico. Um que funcionasse. Pela raíz.



terça-feira, agosto 17, 2004

O meu primo "Charley"

Daqui, da Ocidental ponta Europeia, o Dragão saúda o seu primo "Charley", em digressão pelos States.
Um Furacão de bom gosto!...


Está ao rubro a "Storming América Tour". O meu primo é melhor que os Rolling Stones.





O Aroma da Revolução


Não conheço aldrabice mais rançosa que a retórica das revoluções. Fala-nos de longos processos de resistência, de lutas e campanhas heróicas, de estoicismos e tenacidades sobrehumanas. A revolução é só o auge, o climax, o culminar dessa fermentação sublime; é só esse Big-bang final em que se reinicia e refunda o cosmos. Que grande balela! Que cegarrega para embalar meninos!...
Eu, um raio me parta, não acredito em revoluções.
Para não acreditar em revoluções não é preciso uma grande dose de cinismo, desilusão ou cagaço. Basta ter nariz e sentido de olfacto. Os olhos e os ouvidos enganam facilmente, mas o nariz não. Aquilo nunca cheira a perfume, a primavera regeneradora. Ou se cheira é só para mascarar o fedor nauseabundo a organismos em processo terminal de putrescência , a cadáveres em adiantadíssimo estado de decomposição. Quando um prédio desaba podemos concluir que lhe aconteceu uma revolução, porque não? É justo. É assim. É até uma boa analogia. Também acontece às pessoas, aos povos, se calhar até às civilizações. Envelhecem, arruinam-se, perdem o vigor, a vontade, por fim, a verticalidade, o movimento próprio, e deitam-se, a definhar, a mirrar, a apodrecer... e morrem. Curiosamente, à medida que morrem, tornam-se palco duma sobreactividade crescente, frenética, alucinante: uma infinidade de insectos e vermes banqueteia-se, tira a barriga de misérias, empaturra-se, com alarvidade impune. Nada se perde; depenam e petiscam até aos ossos. Regalam-se primeiro nos olhos e vísceras. Revezam-se e acotovelam-se (se cotovelos tivessem), dia e noite. E se o sol lhe dá, se a luz quente não lhes falta e incide de feição, pior um pouco. Chega a ser horripilante. Mas o pior é o cheiro. Capaz de nos pôr aos vómitos, aos arranques de cuspir bílis.
Temos o hábito de enterrar as pessoas, para não termos que assistir a todo este deplorável e macabro processo (e, sobretudo, para não termos que inalar tão inenarráveis odores). Diz-se até que é uma questão de saúde pública. A mesma repugnância, todavia, não nos atormenta, em se tratando, por exemplo, dum país ou civilização.
A única explicação que me ocorre tem a ver com a perspectiva: no primeiro caso é externa, exoscópica; no segundo é de dentro, endoscópica. A distância que vai do assistir ao protagonizar.
Esta teoria nem sequer é minha. Eu limito-me a concordar, em grande parte, com ela.
Nas revoluções, não são heróis que triunfam. Nem nunca foram. São apenas as formigas, as varejeiras e outros micro-necrófagos oportunistas. É por isso que as revoluções não se convocam, nem se planeiam: surgem, irrompem, eclodem. Como corolário não de fermentações regenerativas, redentoras, mas de putrefacções e caruncho, de esclerose e atrofia.
Quereis ver revoluções? Ide aos hipermercados, às grandes superfícies comerciais!...
Vereis lá estampado a última versão do “cogito” cartesiano: “compro, logo existo”. E a liberdade toda do mundo para terdes cada vez mais necessidades. Fora isso, há o cheiro, um fedor subjacente, rarefeito, que vos transportaria à náusea mais profunda, se a hipertrofia, deslumbrada e pacóvia, dos olhos não vos tivesse atrofiado irremediávelmente, e quiçá para todo o sempre, o olfacto e o nariz.

domingo, agosto 15, 2004

Re-Enter the Dragon

Para comemorar esta versão melhorada do apocalipse, com retumbante triunfo do Dragão sobre a Besta (o primeiro, sou eu; a segunda, claro está, é o meu computador), aqui deixo mais um textozinho afável e filantrópico, que assenta que nem uma luva na choldra de incontáveis patos-bravos deste país, com os quais, em rescaldo da refrega homérica destes últimos dias, começo já por implicar.

(E tu, ó Zazie, regala-te. É iconoclastia da pura.)

«Nunca desde os tempos bíblicos tinha caído sobre nós flagelo mais hipócrita, mais obsceno, mais degradante afinal do que a viscosa garra burguesa! Classe mais hipcritamente tirânica, cobiçosa, voraz, tartufa em bloco! Moralizante e aldrabona! Impassível e chorona! Fria diante da desgraça! Mais insaciável? Mais gulosa de privilégios? Não é possível! Mais mesquinha? Mais anemificante? Mais faminta das riquezas mais vazias? Enfim podridão perfeita!
Viva Pedro I! Viva Luís XIV! Viova Fouquet! Viva Genghis Khan! Viva Bonnot! A quadrilha! E todos os outros! Para Landru é que não há desculpas! Todos os burgueses têm o seu quê de Landru. É isso que é triste! Irremediável! 93, cá para mim, é tudo lacaios... lacaios textualmente, lacaios no paleio! Lacaios da pena que uma noite se apoderam do palácio, perdidos de cobiça, delirantes, invejosos, pilham, matam, instalam-se e contam o açúcar e os talheres, os lençóis...Contam tudo!...Continuam...Nunca mais conseguiram parar. A guilhotina é um ghiché...Vão contar açúcar até à morte! Torrão a torrão, fascinados! Pode-se-lhes limpar o sarampo a todos ali mesmo...Continuam lá na cozinha. Nada a perder! Não interessa raspas a sua jogatina de intelectuais, impressionistas, confusionistas de muitas tendências, uns a cambalear para a esquerda, outros para a direita, lá no fundo da puta da alma todos conservadores, doseadores de finas argúcias; todos empaturrados de segundas intenções. Basta mostrar-lhes o rebuçado! Vão para onde se queira; com o cheiro da reles prebenda, com a ideia do poleiro...»

- Céline, "Mea Culpa"

Pois é, o que todos temiam aconteceu: Estou de volta!...

Desinfestação

Este blogue continua em desinfestação.
Neste momento, depois de lhe partir a tromba, arrombar as portas e desparasitar as entranhas, submeto o meu computador, esse porco, a uma terapia inquisitorial. Das antigas. Como me ensinou a minha santa mãezinha: ri melhor, quem ri por último.

quinta-feira, agosto 12, 2004

Esclarecimento editorial

Estimados leitores, estou com problemas com o cabrão do meu computador, essa besta!...É por esse singelo motivo que não tenho postado ultimamente. Imaginem que o grande filho da puta não me deixa entrar no meu próprio blogue. Acrescente-se a este cenário apocalíptico o facto de eu ser uma besta (quase tão grande como o sobredito) em informática, e aí têm o resumo da jornada.
Se alguém me conseguir explicar porque é que as abéculas do blogger me pedem constantemente para eu fazer "log in" (depois de eu acabar de fazê-lo) -uma espécie de "log in" ad eternum-, agradeço. Realço que mudei de casa e de servidor (da "cabovisão" para o "clix"). Se calhar, o melhor mesmo é mudar também de computador!...Digo eu.

sexta-feira, julho 30, 2004

MIRA TÉCNICA


Por motivos alheios à nossa vontade...



«Pedimos desculpa por esta interrupção. O blogue segue dentro de um dia destes...»

PS: Não são férias. Antes fossem. Trata-se que estou a mudar de caverna.

José e Zazie, aguentem-se à bronca!

quinta-feira, julho 29, 2004

Pequena achega - acerca do "Liberalismo Científico"

Tendo sido invocado o meu tenebroso nome por uma das partes, vejo-me forçado a vir à liça.  O campo de batalha  promete: Dum lado estão os digníssimos "Blasfemos", vítimas de longa data do meu mau feitio e cepticismo galopante; do outro, os não menos ilustres Irmãos da Grande Loja.  Parece que ultimamente (quanto a mim, mais por efeitos de propaganda que por convicção profunda) alguns dos Blasfemos, segundo a Loja, andarão a exagerar nos fundamentalismos ideológicos, os quais, deparados assim de chofre e sem uma certa condescendência estival,  poderão indiciar uma utopia das perigosas.
Tratando-se de dois blogues por quem nutro  consideração e inerente urbanismo (na verdade, admito, os únicos "blogues mainstream" que me dou ao trabalho de ler), desço à liça, mas sem tomar partido no litígio. Saúdo apenas os litigantes, exorto-os a que não esmoreçam, que  aprofundem a esgrima e, em prol disso, deixo apenas uma pequena achega. Julgo que é capaz de ser interessante e merecer alguma ponderação das partes. Ou então não. Os gajos não me ligam pevas e eu vou pregar aos peixes.
Não obstante, mesmo correndo esse risco, aqui fica o texto (desconfio que, parte dele, até já o terei postado antes). Reza assim:

«Os quarenta anos que se seguiram ao fim da segunda guerra mundial foram ocupados por um conflito global entre duas ideologias iluministas - o liberalismo e o marxismo soviético. Ambas estas doutrinas emanam do âmago da "civilização ocidental". Tanto o marxismo clássico como o comunismo soviético foram florescimentos serôdios de antigas tradições ocidentais. Os seus fundadores e seguidores viam-se, com razão,  como herdeiros de uma tradição que incluía as teorias económicas clássicas de Adam Smith e de David Ricardo e as filosofias de Hegel e de Aristóteles. O conflito entre o comunismo soviético e as democracias liberais não foi um choque entre o Ocidente e o resto do mundo. Foi uma desavença na família das ideologias ocidentais.(...)

Como a utopia imaginada por Lenine, o mercado livre global procura dar corpo a um sistema que nunca existiu até agora na sociedade humana e que transcende em muito o mercado livre inglês de meados da época vitoriana e a ordem económica liberal internacional que existiu até 1914. No quadro do mercado livre global, o movimento das mercadorias, dos serviços e do capital não é perturbado por controlos políticos impostos por estados soberanos e os mercados foram sendo deslocados das suas culturas e sociedades originais. Esta é uma utopia divorciada da história, hostil às necessidades humanas vitais e, por fim, tão autodestrutiva como qualquer das outras que foram ensaiadas no nosso século. (...)

O mercado livre global é uma utopia pós-totalitária. (...)

Tanto o sistema soviético como o mercado livre são ensaios de racionalismo económico. Os arautos do mercado livre dizem-nos que os níveis de produtividade sem precedentes de um sistema económico racional extinguirão as causas dos conflitos sociais e da guerra. O marxismo soviético costumava assegurar-nos que a planificação socialista faria da escassez um conceito do passado. Ambos nos dizem que o aumento da produtividade resolverá por si só a maior parte dos problemas sociais e exaltam o crescimento económico acima de quaisquer outros propósitos ou valores.
Como os bolcheviques, as tropas de choque do mercado livre são decididamente hostis a qualquer tradição que considerem um obstáculo aos seus conceitos de progresso económico. Se os seus objectivos exigem o sacrifício de algumas culturas que se ergam no seu caminho, os adeptos do mercado livre não hesitam em pagar tal preço. (...)»
   - John Gray,  "False Dawn" (Trad. port."Falso Amanhecer", da Gradiva)

É a voz dum entendido. E é uma obra extremamente didáctica que não me canso de recomendar. Mas, mais que concordar cegamente ou discordar veemente, importaria pensar sobre as questões que coloca. A principal delas: se fará ou não sentido aquilo que afirma.

 



terça-feira, julho 27, 2004

A Patrulha Anti-anti-semita


Parecem existir patrulhas na blogosfera. Na blogosfera, aliás, como em todo o lado. Ou Brigadas da moral e bons costumes, se preferirem. Uma delas, já pude constatá-lo, é a Patrulha Anti-anti-semita.  Vela, de prevenção. E faz bem. Todo o cuidado é pouco.
Porque, juntamente com a homofobia, o anti-judaísmo é um dos grandes problemas que assalta a nossa sociedade. É sabido, é do domínio público: na sombra, em tertúlias secretas, conspiram inúmeros torcionários raivosos animados de torpes desígnios, quais sejam o de  construírem campos de concentração no Alentejo, onde se procederá à Solução Radical (versão portuguesa da "final" hitleriana). É uma obsessão dos povos em geral e do nosso em particular. Acordar um belo dia e ir matar judeus. Melhor e mais ancestral forma  de descomprimir as ideias não se conhece.
É verdade que não os massacramos há muito tempo. Os nossos brandos costumes e natural preguiça torpedeiam-nos esse louvável empreendimento. O clima também não ajuda, sobretudo no verão. Mas em pensamento não custa nada, a imaginação é livre. Como não custa nada emitir o apoio e concordância àqueles, mais industriosos, que o fazem. Oramos, em segredo, por holocaustos que se abatam  e os banhem condignamente, como eles merecem. Deus não dorme e, desde o início, está escrito que lhes devota uma especial e canina predilecção.
Por isso, repito, todo o cuidado é pouco. Mais grave que a crise económica, o desemprego, a corrupção, a deseducação,  a incúria e a incompetência dos governantes,  o estado de boçalidade e estupidez generalizada da população, a começar nas pseudo-elites e a propagar-se, em cascata, (na verdade, em borrão) por ali abaixo (na realidade, em redor), pois mais grave que isso tudo e que os próprios incêndios que, anual e pontualmente, visitam a pátria, é o anti-semitismo, essa praga endémica, infecto-contagiosa, febril e avassaladora que nos devasta. Resulta, certamente, duma mosca que nos morde, uma tsé-tsé mais formidável que qualquer outra, que nos inocula dum veneno demoníaco, hediondo, labefacto, capaz de transformar pacatos cidadãos em lobisomens sedentos de sangue hebraico. Digo isto porque tenho olhos para ver e reparo à minha volta. Detecto esgares maldosos a cada esquina, soslaios inquietantes em cada janela.  Arrepio-me e estremeço com a proximidade da lua-cheia. O barril de pólvora está pronto -aliás, está sempre pronto, ansioso de expandir-se, com fragor, em todas as direcções-  e, à mínima fagulha... Por isso, abençoados estes patrulheiros, bombeiros de sentinela ao barril, enfermeiros de esponja molhada e plantão à temperatura, exorcistas, de cruz em riste e esconjuro à besta!
Todavia, eu, pessoalmente, lamento informar, não tenho muito tempo para os judeus: obsidiam-me, outrossim, os espanhóis. Concentro nestes a generalidade das minhas tendências e projectos massacrantes -e acrescento que não sou nenhum leigo na matéria. Voto-lhes uma animadversão ancestral, empedernida. Sou anti-castelhano, confesso. Um caso perdido, merecedor, quiçá, de internamento. Aceito que, dadas as actuais circunstâncias europeias, isso não será lá muito curial nem adequado, mas está-me na massa do sangue, é mais forte do que eu. Incendeia-me a imaginação de carnificinas metódicas e desinfestantes. Fora isto,  em interlúdios ocasionais, também desconfio dos americanos, esses cabrões; tenho umas velhas contas a ajustar com os ingleses, esses filhos da puta; e ainda não esqueci os sarracenos, esses salafrários. São estas as minhas prioridades. Culturais, sobretudo; psicopatas, talvez. Mas eu sou assim. Confesso que não me sobra tempo nem agenda para os judeus. Acho mesmo que o problema deles é o de terem a mania que são importantes, de cismarem que são predestinados e protagonistas, ainda que, não raramente, pelas piores razões. Pois que tenham, pois que sejam. Estou-me nas tintas. Para mim, interessam-me tanto como os singapúricos, os monegascos, os suiços, ou qualquer desses povozinhos ridículos e anódinos.
Conspirar, é natural que conspirem. Todos conspiram, especialmente em se tratando de pilhar os outros. Contaminaram-nos a civilização? Não muito. Uma pocilga não é facilmente contaminável e, de resto, os romanos ( autores da pocilga) contaminaram muito mais e ninguém se queixa. Ah, e a propósito, pensando bem: qual civilização?
Há quem não os grame, nem com molho de tomate? Também não deixa de ser natural: eles não gramam ninguém que não eles próprios. Trata-se, pois, duma aversão recíproca e cultivada milenarmente.  O anti-semitismo vai de mão dada com o anti-gentilismo.
Mas tudo isto, sinceramente, pouco me interessa. Combates na lama só ficam bem a mulheres jovens e pouco vestidas. E não falaria sequer disto, não se desse o caso de, por detrás do fato de homem-aranha dos patrulheiros, tresandar o bedum ancestral dos fariseus e dos cameleiros das arábias. Ora, fariseus, tenho que reconhecê-lo, é a única espécie de gente capaz de me distrair, ainda que momentaneamente, dos espanhóis.





segunda-feira, julho 26, 2004

Para-lamentar


As árvores ardem? Os campos enegrecem? As montanham escalvam? As pedras escaldam? Os rios choram?
E depois? Nem as árvores, nem os campos, nem as montanhas, nem os rios votam.  E a meia dúzia de desgraçados que ainda por lá resiste que força tem? Isto é uma democracia parlamentar -ou para-lamentar-, ou já se esqueceram?!... Quer dizer, é a tirania da densidade demográfica, não da extensão territorial. Quanto mais amontoado, melhor. Céleres, esclarecidas, perspicazes, as autarquias tratam de empilhar as gentes.  Em urbanizações, que arrancam o parolo deslumbrado ao caos rústico.
O Pipi da cidade é que manda. Aprecia o espectáculo pela televisão. Passeia no shopping e pilota o telemóvel. E ainda cospe, entre dois tremoços e outras tantas imperiais: " A paisagem não é rentável".  Pois. E pimenta no cu dos outros -ainda para mais insignificantes-, é refresco!

Ilusão... ou falta dela


«A minha primeira impressão, ao entrar no presídio, não podia ser mais repulsiva; mas não obstante -coisa estranha! - pareceu-me que se deveria viver ali muito melhor do que eu imaginara pelo caminho. Os presos, apesar de usarem correntes, iam e vinham livremente por toda a prisão, reuniam-se uns com os outros, cantavam, trabalhavam por conta própria, fumavam e até bebiam aguardente (apesar de estes últimos serem pouco numerosos) e alguns, à noite, jogavam às cartas. O próprio trabalho, por exemplo, não se me afigurava nada penoso, nem forçado, e só ao fim de muito tempo vim a dar conta de que o pesado e o forçado daquele trabalho não consistiam tanto na sua dificuldade como em ser imposto, obrigado, a golpes de varas. O camponês livre trabalha incomparavelmente mais, às vezes dia e noite, sobretudo no verão; trabalha com uma finalidade racional, o que lhe torna esse trabalho muito mais leve que ao presidiário o seu, imposto e perfeitamente initil para ele. Às vezes acontecia-me pensar que se alguma vez quisesse acabar para sempre, aniquilar um homem, castigá-lo com o castigo mais horroroso, um castigo que amedrontasse e fizesse antecipadamente tremer o criminoso mais endurecido, bastava dar ao seu trabalho uma inutilidade e carência de sentido total e absoluta. Apesar de o actual trabalho forçado estar isento de qualquer interesse para o preso, é, como todo o trabalho, razoável; o preso faz tijolos, amontoa a terra, faz a mistura, constrói; há uma ideia e uma finalidade em todo este trabalho. Às vezes o forçado afeiçoa-se à sua tarefa; aspira a realizá-la com mais destreza, mais depressa, melhor.  Mas se o o obrigásseis a vazar água deste recipiente para o outro e deste para aquele, apanhar areia, a mudar montes de terra deste sítio para o outro e vice-versa, estou persuadido de que o recluso se suicidaria ao fim de uns dias ou cometeria mil crimes para, ainda que à custa da própria vida, se ver livre de semelhantes humilhações, vergonha e escárnio.»
   - Dostoievski, "Recordações da Casa Morta"

Ao ler isto, ocorre-me sempre -vá-se lá saber porquê- a "caverna" de Platão. Hoje, ao escrevê-lo aqui, ocorreu-me também outra coisa... Que diz respeito ao Portugal actual, enquanto "construção colectiva": existe por aí alguma "ideia ou finalidade" racional?
Em suma: assistimos a um qualquer projecto arquitectónico, ou a uma simples guerra civil entre trolhas, amontoando tijolos e argamassas uns contra os outros?!...
Dostoievski chama-lhe "ideia e finalidade". Também poderia ser traduzido por "ilusão". Sob o efeito duma boa ilusão, até o pior presídio se tolera. Mas quando nenhuma ilusão já resiste, a violência começa a fermentar nas almas e a murmurar no horizonte.

 




quinta-feira, julho 22, 2004

Os Bravos e os Mansos


O Manuel, da Digníssima Loja,  que não os poupa, aos safardanas, e são muitos, e só por isso é merecedor da nossa estima e reconhecimento, diz a páginas tantas dum postal seu:
«O que não está correcto é o divórcio existente entre os Partidos Políticos e a população».
O Manuel não é meu irmão, mas é como se fosse. A forma sincera, heróica e sentida como se atira aos moinhos atesta-o. Não pertence à raça dos Sanchos Panças. Pertence àquela estirpe de cavaleiros azougados e descarnados que Cervantes chamou de Triste-Figura.  Pois eu digo-vos que melhor elogio não há -Triste-Figura. Num cabrão dum mundo destes, cada vez mais de patas pró ar,  a Triste-Figura é a mais digna das figuras. E o bandalho que disser o contrário, génio maligno e filho duma grande puta certamente, parto-lhe as trombas e rebento-lhe a chifradura em sítio e local a combinar! No estado de calamidade pública a que isto chegou -refiro-me ao planeta, seus coninhas-, só mesmo canalhas, pederastas e filhos da puta para andarem alegres.
Serve tudo isto para dizer que, apesar das afinidades quixotescas, desta vez, sem exemplo, eu o o Manuel não estamos de acordo. Ele diz que o divórcio não está correcto; eu, pelo contrário, digo que só não está correctíssimo porque peca por tardio e acarreta escassa indemnização.
Eu explico. Nós, cidadãos, somos o marido. Eles, políticos, fazem de esposa. Nós, otários, inexperientes, platónicos, quando contraímos matrimónio, julgámos fazê-lo com uma senhora de sentimentos e virtudes, de passado ilustre e honra impoluta. Amarga desilusão: Passado pouco tempo, descobrimos que não passava duma rameira ninfomaníaca, armada de peneiras e enxaquecas, que fornicava com toda a malta do bairro - sobretudo os merceeiros-, excepto connosco. Nós só trabalhávamos que nem moiros para lhe sustentarmos a madracice e os caprichos. Nós, teóricos maridos, na prática, não passávamos de andarilhos.
E agora que o descobrimos, que demos com em ela em flagrante a abrir as pernas ao pagante avulso, das duas uma: Ou somos cornos mansos ou não somos.
Partindo do princípio que não somos, então o divórcio não basta. Não chega. Há, neste caso, tradições saudáveis a cumprir, genes herdados que urge actualizar. Não saltemos etapas: antes do divórcio, impõe-se a violência conjugal mais que justificada -justíssima! Não é preciso revolução nenhuma: basta uma boa carga de porrada, exemplar, à moda antiga! E, depois,  porta fora, mais os batons e os riméis!
Dos cornos já ninguém nos livra, portanto, usemo-los com bravura.
Dos mansos preferia não falar. Neles, o orgulho substitui a revolta; a ramificação dissimula a parelha. Quase sempre, antes do divórcio, também incorrem na violência conjugal. Só que, bois resignados, vaidosos, apenas lhes servem os cornos para que a vaca lhos parta. É a chamada lógica política: "ponho-tos; e, se refilas, parto-tos!"
Ora, o manso tem tanta vaidade e estima nas armações, que vive no terror e na angústia  que alguém lhas quebre.


Este Manicómio em que (Sobre)Vivemos

«Renault Twingo é o carro ideal para se fazer amor»

Que nome dar a este novo -e, pelos vistos, muito popular -, tipo de perversão sexual: Autofilia?
E o que tornará o Twingo mais atraente que outros carros? Será da alavanca de velocidades? Será do escape? Mistérios de Eros.

Entretanto, no Canadá...
«Casal de lésbicas entra com pedido de divórcio»
"O problema desta situação é que, apesar da legislação local prever o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, a Lei ainda não define o divórcio entre ambos".
Portanto, a seguir ao berreiro, à luta que foi (e ainda é noutros países)  a legalização do casamento gay, segue-se, doravante, a luta pela legalização do "Divórcio gay". Convenhamos que não primam pela originalidade.

E por cá...
«Sampaio vetou Teresa Caeiro na Defesa a pedido do CEMFA»
A Instituição Militar, segundo consta, ter-se-á manifestado.  Até mesmo para a tão invertebrada Instituição, que outrora foi castrense e agora é castrada, pois até mesmo para estes bravos eunucos de guarda ao harém, ter um paneleiro e uma loira aos comandos da carroça  pareceu excessivo.  Será que era?

Ou nos ares...
«ASSISTENTES DE BORDO ESPANCAM PASSAGEIRO»
"Durante um voo doméstico da companhia aérea russa ‘Aeroflot’, que fazia o percurso de Moscovo para a cidade siberiana de Nizhnevartovsk, um passageiro foi agredido por dois assistentes de bordo bêbados".
 É caso para dizer: ou há moralidade, ou comem -e bebem- todos.

terça-feira, julho 20, 2004

As Palavras e as Acções


 
«Ulisses - (...)Mas tem coragem, porque é agradável alcançar a vitória. Depois disto, se verá outra vez a nossa justiça. Agora põe-te ao meu dispor pelo curto espaço de um dia, para agires sem escrúpulos; depois, durante o resto da vida, podem considerar-te o mais honesto de todos os mortais.
 
Neoptólemo - Por mim, filho de Laertes, as palavras que me custa ouvir, detesto também pô-las em prática. Não está na minha natureza usar de vis artifícios -nem na minha, nem, ao que dizem, na daquele que me deu o ser.  Ao contrário, estopu resolvido a levar o nosso homem pela força e não pela astúcia. Dispondo apenas de um pé, não conseguirá dominar, pela força, tantos de nós.
Sim, é verdade que vim para te ajudar, e receio ser considerado um traidor: contudo prefiro, senhor, falhar, agindo honestamente, a vencer, procedendo como um vilão.
 
Ulisses - Filho de nobre pai, também eu, quando era jovem, tinha a língua preguiçosa e pronto o braço. Hoje, com a experiência,vejo que, entre os mortais, são as palavras e não as acções que conduzem tudo.
 
Neoptólemo - Mas que me ordenas tu, senão dizer mentiras?!
 
Ulisses - Ordeno-te que te apoderes de Filoctetes pela astúcia.
 
Neoptólemo - E porquê levá-lo pela astúcia e não pela persuasão?
 
Ulisses - Jamais se deixará persuadir, e pela força não o podes tu capturar.
(...)
Neoptólemo - E não te parece vergonhoso mentir?
 
Ulisses - Não, se a mentira nos traz a salvação.
 
Neoptólemo - Com que cara ousa alguém proclamar tal doutrina?»
 
    - Sófocles,  "Filoctetes".
 
Estes velhos Helenos sabiam-na toda. Venham-me cá agora falar em Shakeaspeare ou Maquiavel!...