sexta-feira, julho 30, 2004
MIRA TÉCNICA
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dragão
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7/30/2004 10:33:00 da tarde
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Por motivos alheios à nossa vontade...
«Pedimos desculpa por esta interrupção. O blogue segue dentro de um dia destes...»
PS: Não são férias. Antes fossem. Trata-se que estou a mudar de caverna.
José e Zazie, aguentem-se à bronca!
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dragão
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7/30/2004 10:10:00 da tarde
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quinta-feira, julho 29, 2004
Pequena achega - acerca do "Liberalismo Científico"
Tendo sido invocado o meu tenebroso nome por uma das partes, vejo-me forçado a vir à liça. O campo de batalha promete: Dum lado estão os digníssimos "Blasfemos", vítimas de longa data do meu mau feitio e cepticismo galopante; do outro, os não menos ilustres Irmãos da Grande Loja. Parece que ultimamente (quanto a mim, mais por efeitos de propaganda que por convicção profunda) alguns dos Blasfemos, segundo a Loja, andarão a exagerar nos fundamentalismos ideológicos, os quais, deparados assim de chofre e sem uma certa condescendência estival, poderão indiciar uma utopia das perigosas.
Tratando-se de dois blogues por quem nutro consideração e inerente urbanismo (na verdade, admito, os únicos "blogues mainstream" que me dou ao trabalho de ler), desço à liça, mas sem tomar partido no litígio. Saúdo apenas os litigantes, exorto-os a que não esmoreçam, que aprofundem a esgrima e, em prol disso, deixo apenas uma pequena achega. Julgo que é capaz de ser interessante e merecer alguma ponderação das partes. Ou então não. Os gajos não me ligam pevas e eu vou pregar aos peixes.
Não obstante, mesmo correndo esse risco, aqui fica o texto (desconfio que, parte dele, até já o terei postado antes). Reza assim:
«Os quarenta anos que se seguiram ao fim da segunda guerra mundial foram ocupados por um conflito global entre duas ideologias iluministas - o liberalismo e o marxismo soviético. Ambas estas doutrinas emanam do âmago da "civilização ocidental". Tanto o marxismo clássico como o comunismo soviético foram florescimentos serôdios de antigas tradições ocidentais. Os seus fundadores e seguidores viam-se, com razão, como herdeiros de uma tradição que incluía as teorias económicas clássicas de Adam Smith e de David Ricardo e as filosofias de Hegel e de Aristóteles. O conflito entre o comunismo soviético e as democracias liberais não foi um choque entre o Ocidente e o resto do mundo. Foi uma desavença na família das ideologias ocidentais.(...)
Como a utopia imaginada por Lenine, o mercado livre global procura dar corpo a um sistema que nunca existiu até agora na sociedade humana e que transcende em muito o mercado livre inglês de meados da época vitoriana e a ordem económica liberal internacional que existiu até 1914. No quadro do mercado livre global, o movimento das mercadorias, dos serviços e do capital não é perturbado por controlos políticos impostos por estados soberanos e os mercados foram sendo deslocados das suas culturas e sociedades originais. Esta é uma utopia divorciada da história, hostil às necessidades humanas vitais e, por fim, tão autodestrutiva como qualquer das outras que foram ensaiadas no nosso século. (...)
O mercado livre global é uma utopia pós-totalitária. (...)
Tanto o sistema soviético como o mercado livre são ensaios de racionalismo económico. Os arautos do mercado livre dizem-nos que os níveis de produtividade sem precedentes de um sistema económico racional extinguirão as causas dos conflitos sociais e da guerra. O marxismo soviético costumava assegurar-nos que a planificação socialista faria da escassez um conceito do passado. Ambos nos dizem que o aumento da produtividade resolverá por si só a maior parte dos problemas sociais e exaltam o crescimento económico acima de quaisquer outros propósitos ou valores.
Como os bolcheviques, as tropas de choque do mercado livre são decididamente hostis a qualquer tradição que considerem um obstáculo aos seus conceitos de progresso económico. Se os seus objectivos exigem o sacrifício de algumas culturas que se ergam no seu caminho, os adeptos do mercado livre não hesitam em pagar tal preço. (...)»
- John Gray, "False Dawn" (Trad. port."Falso Amanhecer", da Gradiva)
É a voz dum entendido. E é uma obra extremamente didáctica que não me canso de recomendar. Mas, mais que concordar cegamente ou discordar veemente, importaria pensar sobre as questões que coloca. A principal delas: se fará ou não sentido aquilo que afirma.
Tratando-se de dois blogues por quem nutro consideração e inerente urbanismo (na verdade, admito, os únicos "blogues mainstream" que me dou ao trabalho de ler), desço à liça, mas sem tomar partido no litígio. Saúdo apenas os litigantes, exorto-os a que não esmoreçam, que aprofundem a esgrima e, em prol disso, deixo apenas uma pequena achega. Julgo que é capaz de ser interessante e merecer alguma ponderação das partes. Ou então não. Os gajos não me ligam pevas e eu vou pregar aos peixes.
Não obstante, mesmo correndo esse risco, aqui fica o texto (desconfio que, parte dele, até já o terei postado antes). Reza assim:
«Os quarenta anos que se seguiram ao fim da segunda guerra mundial foram ocupados por um conflito global entre duas ideologias iluministas - o liberalismo e o marxismo soviético. Ambas estas doutrinas emanam do âmago da "civilização ocidental". Tanto o marxismo clássico como o comunismo soviético foram florescimentos serôdios de antigas tradições ocidentais. Os seus fundadores e seguidores viam-se, com razão, como herdeiros de uma tradição que incluía as teorias económicas clássicas de Adam Smith e de David Ricardo e as filosofias de Hegel e de Aristóteles. O conflito entre o comunismo soviético e as democracias liberais não foi um choque entre o Ocidente e o resto do mundo. Foi uma desavença na família das ideologias ocidentais.(...)
Como a utopia imaginada por Lenine, o mercado livre global procura dar corpo a um sistema que nunca existiu até agora na sociedade humana e que transcende em muito o mercado livre inglês de meados da época vitoriana e a ordem económica liberal internacional que existiu até 1914. No quadro do mercado livre global, o movimento das mercadorias, dos serviços e do capital não é perturbado por controlos políticos impostos por estados soberanos e os mercados foram sendo deslocados das suas culturas e sociedades originais. Esta é uma utopia divorciada da história, hostil às necessidades humanas vitais e, por fim, tão autodestrutiva como qualquer das outras que foram ensaiadas no nosso século. (...)
O mercado livre global é uma utopia pós-totalitária. (...)
Tanto o sistema soviético como o mercado livre são ensaios de racionalismo económico. Os arautos do mercado livre dizem-nos que os níveis de produtividade sem precedentes de um sistema económico racional extinguirão as causas dos conflitos sociais e da guerra. O marxismo soviético costumava assegurar-nos que a planificação socialista faria da escassez um conceito do passado. Ambos nos dizem que o aumento da produtividade resolverá por si só a maior parte dos problemas sociais e exaltam o crescimento económico acima de quaisquer outros propósitos ou valores.
Como os bolcheviques, as tropas de choque do mercado livre são decididamente hostis a qualquer tradição que considerem um obstáculo aos seus conceitos de progresso económico. Se os seus objectivos exigem o sacrifício de algumas culturas que se ergam no seu caminho, os adeptos do mercado livre não hesitam em pagar tal preço. (...)»
- John Gray, "False Dawn" (Trad. port."Falso Amanhecer", da Gradiva)
É a voz dum entendido. E é uma obra extremamente didáctica que não me canso de recomendar. Mas, mais que concordar cegamente ou discordar veemente, importaria pensar sobre as questões que coloca. A principal delas: se fará ou não sentido aquilo que afirma.
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dragão
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7/29/2004 08:58:00 da tarde
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terça-feira, julho 27, 2004
A Patrulha Anti-anti-semita
Parecem existir patrulhas na blogosfera. Na blogosfera, aliás, como em todo o lado. Ou Brigadas da moral e bons costumes, se preferirem. Uma delas, já pude constatá-lo, é a Patrulha Anti-anti-semita. Vela, de prevenção. E faz bem. Todo o cuidado é pouco.
Porque, juntamente com a homofobia, o anti-judaísmo é um dos grandes problemas que assalta a nossa sociedade. É sabido, é do domínio público: na sombra, em tertúlias secretas, conspiram inúmeros torcionários raivosos animados de torpes desígnios, quais sejam o de construírem campos de concentração no Alentejo, onde se procederá à Solução Radical (versão portuguesa da "final" hitleriana). É uma obsessão dos povos em geral e do nosso em particular. Acordar um belo dia e ir matar judeus. Melhor e mais ancestral forma de descomprimir as ideias não se conhece.
É verdade que não os massacramos há muito tempo. Os nossos brandos costumes e natural preguiça torpedeiam-nos esse louvável empreendimento. O clima também não ajuda, sobretudo no verão. Mas em pensamento não custa nada, a imaginação é livre. Como não custa nada emitir o apoio e concordância àqueles, mais industriosos, que o fazem. Oramos, em segredo, por holocaustos que se abatam e os banhem condignamente, como eles merecem. Deus não dorme e, desde o início, está escrito que lhes devota uma especial e canina predilecção.
Por isso, repito, todo o cuidado é pouco. Mais grave que a crise económica, o desemprego, a corrupção, a deseducação, a incúria e a incompetência dos governantes, o estado de boçalidade e estupidez generalizada da população, a começar nas pseudo-elites e a propagar-se, em cascata, (na verdade, em borrão) por ali abaixo (na realidade, em redor), pois mais grave que isso tudo e que os próprios incêndios que, anual e pontualmente, visitam a pátria, é o anti-semitismo, essa praga endémica, infecto-contagiosa, febril e avassaladora que nos devasta. Resulta, certamente, duma mosca que nos morde, uma tsé-tsé mais formidável que qualquer outra, que nos inocula dum veneno demoníaco, hediondo, labefacto, capaz de transformar pacatos cidadãos em lobisomens sedentos de sangue hebraico. Digo isto porque tenho olhos para ver e reparo à minha volta. Detecto esgares maldosos a cada esquina, soslaios inquietantes em cada janela. Arrepio-me e estremeço com a proximidade da lua-cheia. O barril de pólvora está pronto -aliás, está sempre pronto, ansioso de expandir-se, com fragor, em todas as direcções- e, à mínima fagulha... Por isso, abençoados estes patrulheiros, bombeiros de sentinela ao barril, enfermeiros de esponja molhada e plantão à temperatura, exorcistas, de cruz em riste e esconjuro à besta!
Todavia, eu, pessoalmente, lamento informar, não tenho muito tempo para os judeus: obsidiam-me, outrossim, os espanhóis. Concentro nestes a generalidade das minhas tendências e projectos massacrantes -e acrescento que não sou nenhum leigo na matéria. Voto-lhes uma animadversão ancestral, empedernida. Sou anti-castelhano, confesso. Um caso perdido, merecedor, quiçá, de internamento. Aceito que, dadas as actuais circunstâncias europeias, isso não será lá muito curial nem adequado, mas está-me na massa do sangue, é mais forte do que eu. Incendeia-me a imaginação de carnificinas metódicas e desinfestantes. Fora isto, em interlúdios ocasionais, também desconfio dos americanos, esses cabrões; tenho umas velhas contas a ajustar com os ingleses, esses filhos da puta; e ainda não esqueci os sarracenos, esses salafrários. São estas as minhas prioridades. Culturais, sobretudo; psicopatas, talvez. Mas eu sou assim. Confesso que não me sobra tempo nem agenda para os judeus. Acho mesmo que o problema deles é o de terem a mania que são importantes, de cismarem que são predestinados e protagonistas, ainda que, não raramente, pelas piores razões. Pois que tenham, pois que sejam. Estou-me nas tintas. Para mim, interessam-me tanto como os singapúricos, os monegascos, os suiços, ou qualquer desses povozinhos ridículos e anódinos.
Conspirar, é natural que conspirem. Todos conspiram, especialmente em se tratando de pilhar os outros. Contaminaram-nos a civilização? Não muito. Uma pocilga não é facilmente contaminável e, de resto, os romanos ( autores da pocilga) contaminaram muito mais e ninguém se queixa. Ah, e a propósito, pensando bem: qual civilização?
Há quem não os grame, nem com molho de tomate? Também não deixa de ser natural: eles não gramam ninguém que não eles próprios. Trata-se, pois, duma aversão recíproca e cultivada milenarmente. O anti-semitismo vai de mão dada com o anti-gentilismo.
Mas tudo isto, sinceramente, pouco me interessa. Combates na lama só ficam bem a mulheres jovens e pouco vestidas. E não falaria sequer disto, não se desse o caso de, por detrás do fato de homem-aranha dos patrulheiros, tresandar o bedum ancestral dos fariseus e dos cameleiros das arábias. Ora, fariseus, tenho que reconhecê-lo, é a única espécie de gente capaz de me distrair, ainda que momentaneamente, dos espanhóis.
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dragão
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7/27/2004 11:59:00 da manhã
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segunda-feira, julho 26, 2004
Para-lamentar
As árvores ardem? Os campos enegrecem? As montanham escalvam? As pedras escaldam? Os rios choram?
E depois? Nem as árvores, nem os campos, nem as montanhas, nem os rios votam. E a meia dúzia de desgraçados que ainda por lá resiste que força tem? Isto é uma democracia parlamentar -ou para-lamentar-, ou já se esqueceram?!... Quer dizer, é a tirania da densidade demográfica, não da extensão territorial. Quanto mais amontoado, melhor. Céleres, esclarecidas, perspicazes, as autarquias tratam de empilhar as gentes. Em urbanizações, que arrancam o parolo deslumbrado ao caos rústico.
O Pipi da cidade é que manda. Aprecia o espectáculo pela televisão. Passeia no shopping e pilota o telemóvel. E ainda cospe, entre dois tremoços e outras tantas imperiais: " A paisagem não é rentável". Pois. E pimenta no cu dos outros -ainda para mais insignificantes-, é refresco!
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7/26/2004 01:21:00 da tarde
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Ilusão... ou falta dela
«A minha primeira impressão, ao entrar no presídio, não podia ser mais repulsiva; mas não obstante -coisa estranha! - pareceu-me que se deveria viver ali muito melhor do que eu imaginara pelo caminho. Os presos, apesar de usarem correntes, iam e vinham livremente por toda a prisão, reuniam-se uns com os outros, cantavam, trabalhavam por conta própria, fumavam e até bebiam aguardente (apesar de estes últimos serem pouco numerosos) e alguns, à noite, jogavam às cartas. O próprio trabalho, por exemplo, não se me afigurava nada penoso, nem forçado, e só ao fim de muito tempo vim a dar conta de que o pesado e o forçado daquele trabalho não consistiam tanto na sua dificuldade como em ser imposto, obrigado, a golpes de varas. O camponês livre trabalha incomparavelmente mais, às vezes dia e noite, sobretudo no verão; trabalha com uma finalidade racional, o que lhe torna esse trabalho muito mais leve que ao presidiário o seu, imposto e perfeitamente initil para ele. Às vezes acontecia-me pensar que se alguma vez quisesse acabar para sempre, aniquilar um homem, castigá-lo com o castigo mais horroroso, um castigo que amedrontasse e fizesse antecipadamente tremer o criminoso mais endurecido, bastava dar ao seu trabalho uma inutilidade e carência de sentido total e absoluta. Apesar de o actual trabalho forçado estar isento de qualquer interesse para o preso, é, como todo o trabalho, razoável; o preso faz tijolos, amontoa a terra, faz a mistura, constrói; há uma ideia e uma finalidade em todo este trabalho. Às vezes o forçado afeiçoa-se à sua tarefa; aspira a realizá-la com mais destreza, mais depressa, melhor. Mas se o o obrigásseis a vazar água deste recipiente para o outro e deste para aquele, apanhar areia, a mudar montes de terra deste sítio para o outro e vice-versa, estou persuadido de que o recluso se suicidaria ao fim de uns dias ou cometeria mil crimes para, ainda que à custa da própria vida, se ver livre de semelhantes humilhações, vergonha e escárnio.»
- Dostoievski, "Recordações da Casa Morta"
Ao ler isto, ocorre-me sempre -vá-se lá saber porquê- a "caverna" de Platão. Hoje, ao escrevê-lo aqui, ocorreu-me também outra coisa... Que diz respeito ao Portugal actual, enquanto "construção colectiva": existe por aí alguma "ideia ou finalidade" racional?
Em suma: assistimos a um qualquer projecto arquitectónico, ou a uma simples guerra civil entre trolhas, amontoando tijolos e argamassas uns contra os outros?!...
Dostoievski chama-lhe "ideia e finalidade". Também poderia ser traduzido por "ilusão". Sob o efeito duma boa ilusão, até o pior presídio se tolera. Mas quando nenhuma ilusão já resiste, a violência começa a fermentar nas almas e a murmurar no horizonte.
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dragão
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7/26/2004 09:30:00 da manhã
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quinta-feira, julho 22, 2004
Os Bravos e os Mansos
O Manuel, da Digníssima Loja, que não os poupa, aos safardanas, e são muitos, e só por isso é merecedor da nossa estima e reconhecimento, diz a páginas tantas dum postal seu:
«O que não está correcto é o divórcio existente entre os Partidos Políticos e a população».
O Manuel não é meu irmão, mas é como se fosse. A forma sincera, heróica e sentida como se atira aos moinhos atesta-o. Não pertence à raça dos Sanchos Panças. Pertence àquela estirpe de cavaleiros azougados e descarnados que Cervantes chamou de Triste-Figura. Pois eu digo-vos que melhor elogio não há -Triste-Figura. Num cabrão dum mundo destes, cada vez mais de patas pró ar, a Triste-Figura é a mais digna das figuras. E o bandalho que disser o contrário, génio maligno e filho duma grande puta certamente, parto-lhe as trombas e rebento-lhe a chifradura em sítio e local a combinar! No estado de calamidade pública a que isto chegou -refiro-me ao planeta, seus coninhas-, só mesmo canalhas, pederastas e filhos da puta para andarem alegres.
Serve tudo isto para dizer que, apesar das afinidades quixotescas, desta vez, sem exemplo, eu o o Manuel não estamos de acordo. Ele diz que o divórcio não está correcto; eu, pelo contrário, digo que só não está correctíssimo porque peca por tardio e acarreta escassa indemnização.
Eu explico. Nós, cidadãos, somos o marido. Eles, políticos, fazem de esposa. Nós, otários, inexperientes, platónicos, quando contraímos matrimónio, julgámos fazê-lo com uma senhora de sentimentos e virtudes, de passado ilustre e honra impoluta. Amarga desilusão: Passado pouco tempo, descobrimos que não passava duma rameira ninfomaníaca, armada de peneiras e enxaquecas, que fornicava com toda a malta do bairro - sobretudo os merceeiros-, excepto connosco. Nós só trabalhávamos que nem moiros para lhe sustentarmos a madracice e os caprichos. Nós, teóricos maridos, na prática, não passávamos de andarilhos.
E agora que o descobrimos, que demos com em ela em flagrante a abrir as pernas ao pagante avulso, das duas uma: Ou somos cornos mansos ou não somos.
Partindo do princípio que não somos, então o divórcio não basta. Não chega. Há, neste caso, tradições saudáveis a cumprir, genes herdados que urge actualizar. Não saltemos etapas: antes do divórcio, impõe-se a violência conjugal mais que justificada -justíssima! Não é preciso revolução nenhuma: basta uma boa carga de porrada, exemplar, à moda antiga! E, depois, porta fora, mais os batons e os riméis!
Dos cornos já ninguém nos livra, portanto, usemo-los com bravura.
Dos mansos preferia não falar. Neles, o orgulho substitui a revolta; a ramificação dissimula a parelha. Quase sempre, antes do divórcio, também incorrem na violência conjugal. Só que, bois resignados, vaidosos, apenas lhes servem os cornos para que a vaca lhos parta. É a chamada lógica política: "ponho-tos; e, se refilas, parto-tos!"
Ora, o manso tem tanta vaidade e estima nas armações, que vive no terror e na angústia que alguém lhas quebre.
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7/22/2004 01:02:00 da tarde
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Este Manicómio em que (Sobre)Vivemos
«Renault Twingo é o carro ideal para se fazer amor»
Que nome dar a este novo -e, pelos vistos, muito popular -, tipo de perversão sexual: Autofilia?
E o que tornará o Twingo mais atraente que outros carros? Será da alavanca de velocidades? Será do escape? Mistérios de Eros.
Entretanto, no Canadá...
«Casal de lésbicas entra com pedido de divórcio»
"O problema desta situação é que, apesar da legislação local prever o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, a Lei ainda não define o divórcio entre ambos".
Portanto, a seguir ao berreiro, à luta que foi (e ainda é noutros países) a legalização do casamento gay, segue-se, doravante, a luta pela legalização do "Divórcio gay". Convenhamos que não primam pela originalidade.
E por cá...
«Sampaio vetou Teresa Caeiro na Defesa a pedido do CEMFA»
A Instituição Militar, segundo consta, ter-se-á manifestado. Até mesmo para a tão invertebrada Instituição, que outrora foi castrense e agora é castrada, pois até mesmo para estes bravos eunucos de guarda ao harém, ter um paneleiro e uma loira aos comandos da carroça pareceu excessivo. Será que era?
Ou nos ares...
«ASSISTENTES DE BORDO ESPANCAM PASSAGEIRO»
"Durante um voo doméstico da companhia aérea russa ‘Aeroflot’, que fazia o percurso de Moscovo para a cidade siberiana de Nizhnevartovsk, um passageiro foi agredido por dois assistentes de bordo bêbados".
É caso para dizer: ou há moralidade, ou comem -e bebem- todos.
Que nome dar a este novo -e, pelos vistos, muito popular -, tipo de perversão sexual: Autofilia?
E o que tornará o Twingo mais atraente que outros carros? Será da alavanca de velocidades? Será do escape? Mistérios de Eros.
Entretanto, no Canadá...
«Casal de lésbicas entra com pedido de divórcio»
"O problema desta situação é que, apesar da legislação local prever o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo, a Lei ainda não define o divórcio entre ambos".
Portanto, a seguir ao berreiro, à luta que foi (e ainda é noutros países) a legalização do casamento gay, segue-se, doravante, a luta pela legalização do "Divórcio gay". Convenhamos que não primam pela originalidade.
E por cá...
«Sampaio vetou Teresa Caeiro na Defesa a pedido do CEMFA»
A Instituição Militar, segundo consta, ter-se-á manifestado. Até mesmo para a tão invertebrada Instituição, que outrora foi castrense e agora é castrada, pois até mesmo para estes bravos eunucos de guarda ao harém, ter um paneleiro e uma loira aos comandos da carroça pareceu excessivo. Será que era?
Ou nos ares...
«ASSISTENTES DE BORDO ESPANCAM PASSAGEIRO»
"Durante um voo doméstico da companhia aérea russa ‘Aeroflot’, que fazia o percurso de Moscovo para a cidade siberiana de Nizhnevartovsk, um passageiro foi agredido por dois assistentes de bordo bêbados".
É caso para dizer: ou há moralidade, ou comem -e bebem- todos.
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7/22/2004 11:39:00 da manhã
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terça-feira, julho 20, 2004
As Palavras e as Acções
«Ulisses - (...)Mas tem coragem, porque é agradável alcançar a vitória. Depois disto, se verá outra vez a nossa justiça. Agora põe-te ao meu dispor pelo curto espaço de um dia, para agires sem escrúpulos; depois, durante o resto da vida, podem considerar-te o mais honesto de todos os mortais.
Neoptólemo - Por mim, filho de Laertes, as palavras que me custa ouvir, detesto também pô-las em prática. Não está na minha natureza usar de vis artifícios -nem na minha, nem, ao que dizem, na daquele que me deu o ser. Ao contrário, estopu resolvido a levar o nosso homem pela força e não pela astúcia. Dispondo apenas de um pé, não conseguirá dominar, pela força, tantos de nós.
Sim, é verdade que vim para te ajudar, e receio ser considerado um traidor: contudo prefiro, senhor, falhar, agindo honestamente, a vencer, procedendo como um vilão.
Ulisses - Filho de nobre pai, também eu, quando era jovem, tinha a língua preguiçosa e pronto o braço. Hoje, com a experiência,vejo que, entre os mortais, são as palavras e não as acções que conduzem tudo.
Neoptólemo - Mas que me ordenas tu, senão dizer mentiras?!
Ulisses - Ordeno-te que te apoderes de Filoctetes pela astúcia.
Neoptólemo - E porquê levá-lo pela astúcia e não pela persuasão?
Ulisses - Jamais se deixará persuadir, e pela força não o podes tu capturar.
(...)
Neoptólemo - E não te parece vergonhoso mentir?
Ulisses - Não, se a mentira nos traz a salvação.
Neoptólemo - Com que cara ousa alguém proclamar tal doutrina?»
- Sófocles, "Filoctetes".
Estes velhos Helenos sabiam-na toda. Venham-me cá agora falar em Shakeaspeare ou Maquiavel!...
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7/20/2004 10:21:00 da tarde
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Feitio de Dragão
Eu tenho mau feitio. Quando se mora numa caverna e se cospe fogo pelas narinas, a cada quarto de hora, é difícil não ter mau feitio. As cavernas são escuras e húmidas, inçadas de estalactites filhas da puta que nos contendem com a cornadura e estalagmites irmãs das outras que nos intimidam os tomates. Um gajo tem que andar na própria casa com mil cuidados, como se habitasse um campo de minas. Não admira que receba cada vez menos visitas.
Mas não é só por isso que tenho mau feitio. Mentiria se o dissesse. O resto do problema - se calhar a parte mais irritante-, é que o país, o mundo, a fábula aí fora estão cada vez mais infestados de cabrões, de coninhas, de beija-cus e cheira-rabos. De paneleiros e lambisgóias, então, é melhor nem falar. Louros, todos eles. Até os bumbos. Alastram por toda a parte: políticos, jornalistas e outros artistas é raro o que escape. São ruas, estradas, avenidas, repartições, televisões, jornais, ministérios, vilas, cinemas, discotecas, espeluncas, estádios -é isso tudo, sim senhor!- a abarrotar deles. Uma farturinha, que nem no século passado era assim tão luxuriante. Reproduzem-se, proliferam, enxameiam na forma de marabunta (des)humana. Agora, por sinal, até é chique terem muitos filhos, lógicamente tão cabrões, coninhas, beija-cus e cheira-rabos quanto os pais (ou melhor dizendo, quanto as mães, já que os pais, segundo consta, oscilam quase sempre entre o dúbio e o incerto). O mundo é deles e eu estou-me nas tintas. Se é deles, é porque não é grande merda.
Não acho bem nem mal. Nem tenho que achar. Era eu a largar-lhes opiniões e eles a limparem o cu a elas. E faziam bem: é pró que a doxa serve! Não; eu preferia mesmo era corrê-los a pontapé, zurzir-lhes o coiro com estas minhas patorras desempenadas. Isso sim, isso é que me convinha ao espírito e à oxigenação mental. Andar aí pelos passeios, pelos corredores, pelas galerias -por toda a parte, enfim- e assestar-lhes com brutalidade, sem qualquer cerimónia nem clemência, patadas convictas, coices excelentes, abençoados, bem capazes de lhes enegrecer aquelas peidas balofas e fazê-los despegar, ainda que por breves decímetros, da terra que conspurcam. E fazê-los planar, ainda que por parcos instantes, num limbo de justiça.
Não julguem que não disponho de músculos adequados - quadríceps treinados, gémeos desenvoltos- e ossatura conveniente. Garanto-vos: Não só estou bem equipado com essas faculdades utilíssimas, como domino, do kung-fu, inumeráveis técnicas, variadíssimos estilos, adestradíssimos modos. Haviam de ser umas biqueiradas de antologia! Haviam de merecer cobertura televisiva permanente, no que eu aproveitaria para desancar também os merdosos dos jornalistas, classe de insectos rastejantes por quem nutro especial gula.
Mas dizem-me que é ilegal, crime codificado, ofensa corporal. Ameaçam largar-me mastins e polícias, passe a redundância. Podem-me ofender o espírito, mas não lhes posso eu ofender o coiro... Balelas! Sinceramente, é o que acho que são. Enchem-me a paciência, mas não lhes devo encher o cabaz. Esquisitisse burocrática, é o que é!
Como não evacuo destas necessidades, como não desentorpeço estes justíssimos ímpetos, dou comigo de mau humor, esganado de parcimónias, estrangulado em inibições, a remoer antipatias. Deve ser por isso, também, que tenho mau feitio. Péssimo, direi mesmo. Dói-me mais esta inactividade forçada das pernas, que uma nevralgia, com buraco a céu aberto e abcesso, dos dentes. Não admira que ninguém me visite. Não os critico. E mesmo os amigos, outrora numerosos, desapareceram todos para parte incerta, mas longínqua. Corri-os a pontapé, a bem dizer.
E de quem é a culpa? Do cabrão dos mundo e das suas parvas regras, nem mais! Como não deixam um gajo correr sob esse fino trato os inimigos, tem o dito cujo que se aliviar de qualquer maneira e, de preferência, em alguém. Ora, como manda a aflição, vai quem está mais a jeito, isto é, vão os amigos. A pontapé, pois claro. É preciso é deitar aquele fel todo cá pra fora. É mais forte que nós. E os amigos, não se cansam eles de dizer, são para as ocasiões. Sejam. Ou melhor: foram.
Mas é um falso alívio, que só nos deixa cada vez mais enfurecidos. Ou melhor: foi.
O pior é que, com todo este infame desvio do justo alvo, nem o mundo melhora, nem nós. Humm... Tu aí, ó coninhas! chega aqui que tenho uma coisa para te dizer!...
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dragão
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7/20/2004 12:56:00 da manhã
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segunda-feira, julho 19, 2004
Ironia e Provincianismo
«É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não se poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes da Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.
A ironia é isto.»
-Fernando Pessoa, "O Provincianismo Português"
Ao que Pessoa chama "ironia", chamou André Breton "Humor negro".
A ironia é isto.»
-Fernando Pessoa, "O Provincianismo Português"
Ao que Pessoa chama "ironia", chamou André Breton "Humor negro".
É claro que num país onde o grau máximo do humor alcança a anedota, chafurda na piada, zurra na chacota ou patina no dichote, -tudo isto inflamado de maledicência aguda, fariseísmo viperino ou moralzinha de pacotilha, nunca esquecendo -, lembrar-se alguém da ironia é tarefa inglória que, julgo, nem ao Diabo lembraria.
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dragão
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7/19/2004 12:27:00 da tarde
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domingo, julho 18, 2004
Curriculum
Que importa que o país fique mais pobre, fruto da incompetência, se o curriculum enriquece, por registo da mera participação?...
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dragão
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7/18/2004 09:59:00 da tarde
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quinta-feira, julho 15, 2004
A Estética do Massacre. IV - Impressões
Matar é um crime, dos mais hediondos, e até moralmente condenável. Ainda mais em se tratando de pessoas, ou até seres humanos. Mas exterminar, não. Na pior das hipóteses, é uma obrigação histórica, um requisito civilizacional. De resto, a matar, aprendemos com Caim, ou com qualquer dos seus epígonos, por irradiação ou contágio transversal; a exterminar, bebemos o exemplo directamente de Deus e da Natureza, recebemos a inspiração do Alto. E do Fundo, desse ímpeto visceral que nos incendeia desde os primórdios. Resumindo: para matar, arcamos com o "livre arbítrio" -e, claro está, com as consequências; para exterminar, cingimo-nos ao "imperativo categórico" e, terminada a comissão de serviço, recebemos -alguns, os mais virtuosos- louvores e medalhas.
Filósofos também há que chamam à guerra a higiene dos povos. Devem estar cobertos de razão. Na certeza, porém, que o massacre é a higiene íntima das civilizações, a ablução perfumada das miudezas demográficas. A guerra sem o massacre seria o imperador sem a coroa, ou o trono sem as nádegas do imperador. No fundo, a guerra não é essência nem finalidade: é apenas pretexto. E a diplomacia, como dizia o outro, é igual à guerra. Só que mais elitista: aí, regra geral, não deixam brincar os generais.
O Homem, já dizia Aristóteles, é o mais imitador de todos os animais. Mas isso não significa que o homem se restrinja à imitação de outros animais que, distituídos de racionalidade, inteligência e regulamentos económicos, são claramente seus subalternos. Os outros animais, autênticas bestas, também matam, mas exercem-no por razões meramente instintivas, egoístas e venais: matam para comer, sobretudo; matam para defender a prole ou para dar cabo das proles rivais, matam para se poderem procriar, enfim: matam alarvemente, à dentada, à patada - uma sensaboria! O homem é o único que mata duma forma artística, quer dizer, extermina. Desenvolveu meios e técnicas, inventou ferramentas, aguçou instrumentos e ganas. Mata livremente. Mata para redecorar a paisagem, para remobilar o habitat. Mata por premente vocação estética. "Esta cultura está démodé, aquela aldeia fica ali mal, e se pintássemos este vale de outra cor?" Difícil, mesmo, é ficar quieto. Impossível (há que reconhecê-lo)! Às vezes, por via daquele tédio insuportável que só os artistas experimentam, cansa-se do louro das searas, a panorâmica parece-lhe estúpida com todo aquele amarelo a ondular, e que faz ele? A monotonia irrita-o? Nada que um simples fósforo, com aragem de feição, não resolva. Num ápice, converte aquela marmelada toda, de espigas imbecis e monocórdicas, num pente zero moreno, cor de cinza escuro. Como resistir ao apelo cosmético? Basta-lhe a inspiração súbita e a obra acontece. Quem diz espigas, diz pessoas. Um artista menor -um Van Gogh, um Da Vinci, um Picasso -, contenta-se com a tela, com o simulacro sublimado da coisa; um artista a sério não: tem que ir no próprio mundo, atira-se à cara, ao corpo, à pele, cabelo e unhas deste, e não descansa enquanto não o submete a uma plástica completa, a mises e manicures de raíz, a quadros impressionistas duma autenticidade arrepiante. Mas ainda vai a meio de um e já outro lhe ocorre, ou já outro da mesma igualha lhe propõe outro ou lhe disputa a mesmo, só que visto de outro ângulo.
O verdadeiro génio pinta Guernicas no próprio mundo e pinta-as não para as exibir numa galeria a meia dúzia de burgueses endinheirados, que olham para aquilo como olhariam para qualquer calhau brilhante e extra-duro, mas para que Deus veja. Para que Deus contemple e reconheça o seu aprendiz pródigo, e se surpreenda com os seus progressos mirabolantes, com a sua infatigável dedicação. Nós, operadores de massacre, iletrados e rudes, sabemos, não obstante, isso - esse essencial, esse rudimento bastante de sabedoria. Daí trabalharmos com tanta alacridade. Daí a nossa presteza e gatilho pronto. Não temos dúvidas que somos nós a ponta fulgurante do pincel desses discípulos felízes, desses catecúmenos geniais da excelência transcendente. Por isso, sempre que entramos em acção, que a missão superiormente determinada nos convoca, temos a certeza de algures, da grande paleta do universo, estarmos a levar óleos e cores à grande tela que é o mundo, em prol dessa Obra-Prima que uma qualquer "Mão Invisível" (de que já falava Smith), por intermédio de nós, patenteia.
E terminada cada pincelada, a sensação que fica, mais que de gozo, é de indescritível reconciliação cósmica. Em vez de "Satisfaction", trepidante, num qualquer tombadilho duma lancha rio acima, ocorre-nos "Wath a wonderful world", suave, na voz gutural de Armstrong, sob um céu deslumbrante...E, intimamente, de olhos húmidos, trauteamos com ele:
I see trees of green, red roses too
I see them bloom for me and you
And I think to myself, what a wonderful world
I see skies of blue and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world
The colours of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces of people going by
I see friends shakin' hands, sayin' "How do you do?"
They're really saying "I love you"
I hear babies cryin', I watch them grow
They'll learn much more than I'll ever know
And I think to myself, what a wonderful world
Yes, I think to myself, what a wonderful world
Oh yeah
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dragão
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7/15/2004 01:04:00 da tarde
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Diagnóstico e Terapia
Quando um tipo descobre que sofre de "incontinência opinativa" -doença endémica no nosso país-, tem, segundo os entendidos, duas terapias opcionais:
Ou vai conduzir um táxi; ou vai escrever num "blogue". É indiferente. Tanto uma como outra permitem uma rápida evacuação do material geralmente mal digerido e de odor fétido. O importante é que o desarranjo ou desorganização mental encontrem um escape asséptico, uma forma inóqua de se resolverem. O doente, ainda que momentaneamente, alivia-se. A paz social lucra com isso.
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dragão
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7/15/2004 11:56:00 da manhã
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quarta-feira, julho 14, 2004
A Estética do Massacre. III.- A Topologia
Até há bem pouco, a orientação defecante das moscas nos mapas e até nas cartas militares era um enigma. Algo em África ou na América Latina as atraía inexplicavelmente. Por um qualquer estranho fenómeno magnético ou rede críptica de coordenadas sedutoras, era aí, nesses continentes azarados, que, 90% das vezes, iam depor os seus excrementos ignóbeis, poluidores. Nas restantes, por razões igualmente misteriosas, optavam pela Indochina. E era tudo.
Nós, operadores de massacre, de plantão à mundícia cartográfica, só tínhamos que comparecer à posteriori, de estojo de limpeza na mão. As moscas seguiam os seus caprichos diabólicos e nós seguíamos as moscas. Limpávamos a bosta que elas iam semeando, e que os generais, ansiosos de agradarem aos políticos, de lupa em riste, apontavam aos coronéis, inexoravelmente. Não há como um general, julgo que nem um falcão peregrino, para detectar uma cagadela de mosca num mapa. A escala deste é irrelevante. Para olhos menos garços e perscrutantes, a micro-bosta poder-se-ia confundir com uma aldeia, vilória ou lugarejo; em mapas de pequena escala, até com uma cidade do interior. Mas não para um general. Nunca, jamais. A cagadela, para ele, mente superlativa, é sempre cagadela, sem qualquer dúvida, sem a mínima dúvida, e mesmo em caso de dúvida. Sobretudo em caso de dúvida! Porque o cinismo demoníaco das moscas, insectos sobre todos execráveis, vai ao ponto de cagarem em cima de aldeias, vilas ou lugarejos, só para tentarem ludibriar os generais. Debalde; em se tratando de mapas, ninguém consegue ludibriar um general. Muito menos uma mosca. Porque tão mortífera quanto a sua visão aquilina (dele, general) é a sua lógica inoxidável: "se para limpar a cagadela tiver que se varrer a aldeia, varra-se. Cagadelas é que não!..."
Há uns anos atrás, por conseguinte, era simples. Os pilotos já quase sabiam o caminho de olhos fechados. E os helicópteros também. Seria, pois, África, Indochina, América Latina, um confim num rincão desses, de certeza. Não se admirem: O massacre, espécie sublime, pioneira, do turismo, também obedece a fluxos e -porque não dizê-lo - modas. Regra geral, até anda de braço dado com a descoberta. Não tinha, portanto, que enganar. Rumaríamos alegremente - trocando piadas, graçolas ordinárias, galhofas de mau gosto -, direitos a uma aldeola qualquer perdida no verde luxuriante da beira-rio, entre vales ou arrozais, às vezes também em planaltos húmidos, enevoados, envoltos naquela neblina fantasmagórica que só o orvalho tropical, atraído pelo céu, consegue produzir. Em jeito de safari antropológico, acamparíamos por lá, no máximo, uns três dias, a remodelar a paisagem, a restaurar o éden primevo, a desentorpecer músculos e gatilhos, degustando caça e animais domésticos no espeto, dando tempo ao tempo e também à rapaziada da engenharia para, com os seus buldózeres cicatrizantes, ultimarem demolições e terreplanagens. Pelo meio, admiraríamos invariavelmente a eficiência e rapidez (sobretudo a rapidez) com que estes cíclopes modernos corrigiriam estragos de decénios, às vezes de séculos, e recolheríamos souvenires e fotografias para mais tarde recordar. (Existem também aqueles - coleccionadores inveterados, pesquisadores bizarros-, que cismam de recolher amostras somáticas da população -não só o anel, mas também o dedo que continha o anel; não só o brinco, mas também a orelha que segurava o brinco. Mas esses, não sendo de modo nenhum raros, também não reflectem maioritariamente a coorporação. Digamos que constituem uma certa elite sofisticada de esquartejadores vaidosos -uma espécie de jet-set da classe -, que se distingue e é venerada pelos elementos mais inexperientes da confraria. Desconhece-se, em rigor, o que os transporta a esse fragmento de carinho póstumo pelas vítimas, na forma duma orelha embalsamada ou enfrascada que guardam pró resto da vida e exibem com orgulho sardónico aos descendentes e amigos. Sabe-se apenas que não prescindem desse troféu e que o guardam, ciosamente, como a uma jóia preciosa.) Mas tudo isto, como já disse, "aqui há uns tempos atrás". E agora?
Pois agora, não obstante todo este passado glorioso, os tempos são, decididamente, outros. Melhores, eu díria. E não estou sozinho. A oferta de destinos, tanto para o turismo como para o massacre, multiplicou-se. Alastrou a zonas e climas antes tidos como inóspitos ou pouco convidativos. Os riscos, claramente, diminuíram (curiosamente, mais até para o massacre que para o turismo). As moscas, por razões que só o Diabo, seu maestro, poderá explicar, aderiram à globalização. Agora cagam em toda a parte. Qualquer continente no mapa lhes serve. Deixaram-se de esquisitices, de preciosismos. Se outrora pareciam obcecadas com climas quentes e latitudes tropicais, o que nos poupava bastante em agasalhos, agora, um raio as parta, nem as cordilheiras geladas ou as longitudes desérticas lhes escapam. (Aterramos em cada ermo!...) Dir-se-ia que um frenesim conspurcador, infeccioso, se apoderou delas, ou, pelo menos, do aparelho digestivo delas. Que passaram do tiro-a-tiro à rajada, ao lança-esterco. E nós, operadores diligentes, pajens orgulhosos do imperativo categórico, kantianos até á medula, pela primeira vez, damos connosco às aranhas por causa das moscas. Sem ter mãos a medir, nem braços que cheguem para tanta sujidade e, principalmente, tanta missão urgente. Os generais, esses, até já estão com os olhos em bico e os neurónios em sobrecarga. Berram com os coronéis, que gritam com os majores, que resmungam com os capitães, que desabafam connosco.
Mas o pior não é isso. O pior é que somos perfeccionistas, virtuosos - temos preceitos, caramba! À nossa maneira, entendemos o massacre como uma arte, bela ou mala tanto faz, mas cada massacre constitui uma peça singular, única, que assinamos no fim, que delegamos à posteridade, às gerações vindouras e que exporíamos no Louvre, ou na Tate Galery, sem qualquer complexo. É preciso tempo para a arte; inspiração, disponibilidade. Fosse o massacre um desporto e talvez a correria désse jeito. Mas não é. Só açougueiros podem afirmar o contrário, alarves, funcionários de matadouro. O galope é inimigo da minúcia, do pormenor sublime, do traço genial. Massacre é uma coisa, fast-massacre é outra nos antípodas, nas traseiras. É comparar uma oeuvre de cuisine com um hamburguer no pão. Massacra-se mais, mas não se massacra melhor. Mata-se sem talho nem feiçalho, de qualquer maneira, à toa."Mata-se", é favor. Em grande número de casos, mais do que seria aceitável, nem se mata: apenas se mutila ou traumatiza. Deixam-se pessoas a penar, entregues a fobias e fantasmas; a insónias e suores nocturnos.
E como se isto não bastasse, como se já não fosse desprestígio bastante toda esta aceleração contraproducente, desvairada, que nos empurra e avassala entre serviços mal atamancados, ainda corremos o risco de, com tanta chamada e foco a reclamar a nossa intervenção, nos confundirem -supremo vexame!- com para-médicos ou bombeiros. Uma infâmia sem nome!...E logo numa época destas, tão prometedora...
Enfim, não há bela sem senão.
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dragão
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7/14/2004 05:14:00 da tarde
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segunda-feira, julho 12, 2004
A Estética do Massacre. II.- A Missão
Saímos de madrugada, já é certo, mas vamos para onde?
Esta velha questão -que já a Metafísica Ocidental colocava em tons preocupados-, reveste-se da maior importância. Antes de ser uma gratificante sensação de dever cumprido, o massacre começa por ser um pequeno pontinho no mapa, numa qualquer sala de operações. "Este mapa está sujo", reflecte um general, repugnado. "Uma mosca cagou aqui! é inadmissível." Todos se debruçam e persignam. Como pôde aquilo acontecer? Onde andavam as sentinelas, do exército e da civilização? Mas efectivamente ali está ela, a cagadela ofensiva, ostensiva, demoníaca. As moscas são insectos diabólicos. Há provas arqueológicas e etimológicas disso: "Belzebu" -do Babilónio "Baal-Zebud" -, quer dizer, em rigor, o "Baal das moscas". Não é por acaso que as moscas cagam nos mapas, não é ao calhas. Obedece a um plano tão antigo, complexo e indecifrável quanto o do próprio Deus Criador. Na verdade, é um anti-plano, sinistro, abominável, insidioso. A finalidade, essa, é clara, sendo não obstante tenebrosa: querem impedir as boas pessoas de ascenderem ao céu, de serem recompensadas como merecem. Obram para lhes impedir o treino condigno na terra, o ensaio do cerimonial apoteótico e do paraíso subsequente. A Terra, como no-lo explica a Civilização e abençoa a Igreja é, de acordo ao projecto divino, um ginásio, um ginásio amplo e totalitário onde se exercitam os futuros celestiais e os futuros danados. Cada qual na antecâmara que lhes compete. Uns experimentando e adaptando-se , desde já, às delícias; os outros, infames, malvados, aos horrores. Se não treinassem na Terra como se desembaraçariam, depois, no Céu? Ou no Inferno? Mas as moscas conspiram contra esta perfeição inefável, contra este Ensaio Geral. Depositam excrementos, como quem semeia minas, obstáculos, bombas armadilhadas. Querem corromper a urbanização divina, disseminar paraísos aleatórios, clandestinos, condóminos abertos, sem projecto nem alvará da Câmara Celeste. Trabalham para o caos, é evidente. Mas, graças a Deus, existem os generais e os políticos que programam os generais. Pelo que o antídoto é simples: os generais, enojados, apontam a cagadela no mapa aos coronéis. Os coronéis compreendem, apressam-se a corroborar: "Não é um lapso dos Serviços Cartográficos, meu general. É mesmo uma cagadela!" O general, de olhar perdido no infinito, através da janela, já não diz mais nada. Nem precisa. Chamam-nos lá dentro - a nós, os operadores -, um major qualquer. E diz-nos: "Limpem aquela hedionda cagadela, depressa! É essa a vossa missão". Encolhemos os ombros, como qualquer funcionário diante da rotina. Pegamos no equipamento, camuflamos o rosto e as mãos, subimos nos helicópteros, voamos sobre campos e rios, que decalcam na perfeição as linhas e cores no mapa, chegamos de manhã cedo, como já expliquei, a melhor altura do dia... E limpamos. Limpamos muito bem limpo. Sem deixar resíduos de qualquer espécie.
Nem sempre é tão fácil como soa; há manchas mais difíceis que outras, cagadelas mais ou menos entranhadas no mapa. Requerem várias passagens de tira-nódoas e esfregona. Não sabemos exactamente o que as moscas comem, um ror de porcarias, certamente. Apenas sabemos do custo que é limpar o que elas cagam. Todavia, é essa a nossa missão: manter os mapas limpos, desimpedir rotas e azimutes. É um serviço sujo, ao princípio enauseante. Mas alguém tem que fazê-lo.
Um tipo habitua-se a tudo.
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dragão
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7/12/2004 04:22:00 da tarde
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domingo, julho 11, 2004
A Estética do Massacre. I. - O Horário
É do massacre que vos quero falar.
Imaginemos que dispomos dos meios e autorizações necessárias: os helicópteros, os rocketes, as metralhadoras, um grupo de amigos, napalm qb, bebidas, cigarros, comunicações... e um alvará, claro. Essencial, o alvará. Dá muito jeito. Poupa-nos a muitas chatices, depois do serviço feito. Um ror de tempo perdido em tribunais, pelo menos.
Pois bem, reunidos os agentes, passamos à acção. Saímos pela manhã, manhã cedo - de madrugada, como na pesca. A literatura especializada é unânime: a melhor altura do dia para o massacre é a aurora. Alguns entusiastas preferem o crepúsculo; outros, mais barrocos, sustentam que não há como a noite para disfrutar da beleza das chamas, do contraste feérico das labaredas recortadas no negrume cósmico; mas nós, tradicionalistas, preferimos aparecer ao nascer do sol, ainda ele, astro petiz, solta os primeiros vagidos. Isto, também, porque há que ter alguma consideração por aqueles que vamos massacrar. Os massacrados -a que chamaremos "eleitos"-, tanto quanto os massacrantes, são essenciais para um massacre. Indispensáveis, direi mesmo. Ora, alguns teóricos, aqueles que atrás referi, arrebatados por delírios cinematográficos, rendidos a encenações bizarras e embeiçados por efeitos especiais, parecem esquecê-lo. Mas não deveriam.
Em primeiro lugar, porque é uma questão de educação e civismo: não se exterminam pessoas ao fim do dia, extenuadas, carcomidas, derrotadas por mais um dia de trabalho; nem a meio da noite, quando repousam duma vida árdua e sonham, quiçá, com um mundo melhor, de descanso eterno. Não é correcto. Que diabo, o massacre deve ter regras; ou mesuras protocolares, no mínimo.
Em segundo lugar, porque é uma questão de eficácia: a tendência, por parte dos eleitos, para a debandada, para a fuga desordenada, para o desarvoramento espavorido, não é pormenor irrelevante. A noite, quer queiramos, quer não, favorece o eleito, protege a sempre contumaz e renitente vítima; dá-lhe cobertura nas suas escapadelas ao lugar da celebração. E quanto mais pequeno, pior. Dos infantis aos animais domésticos, mais de metade pisga-se ou esconde-se em parte incerta, em menos de nada. Nem há tempo para explicações: enchem-se de medo, dum terror palpitante, e fogem, escafedem-se a alta velocidade. Com a obscuridade por aliada, é garantido. Mesmo um bom cerco, decalque das melhores tácticas livrescas, não garante uma vedação perfeita do perímetro. Ora, um massacre caracteriza-se por não deixar sobreviventes, por ser definitivo e meticuloso. E, sobretudo, exemplar. Não é uma sórdida chacina, uma rusga trucidante ou morticínio avulso, improvisado. Não; requer método, planificação, sólido argumento. Evolui como um bom raciocínio, com a validade que só a completude permite. Não suja: limpa a paisagem. Devolve-a à Natureza primordial, ao silêncio dourado que só os passarinhos, tempos adiante, aos poucos, ousarão romper. Um massacre é assim, perfeito, total, sem excepções ou isenções de última hora. Por isso deve evoluir paralelo ao sol, porque, como este, quando acontece é para todos.
Mas a noite, como a penumbra e, às vezes, até o nevoeiro cerrado, acarretam ainda outros incómodos. Dessas maçadas e contratempos sobressai a forma desembaraçada como prejudicam a contabilidade do caçador, tanto quanto a mirada. Quer dizer, não só os eleitos fogem, como o operador tem uma certa dificuldade em lhes acertar. A munição tracejante e os dispositivos de visão nocturna sempre dão uma ajuda, mas isso não chega. Há sempre algum que se agacha, que se arrasta ou rasteja, mesmo ferido, impossibilitando de todo o tiro eficiente. E há até tresloucados, de espírito endemoinhadao, frenético, que desatam a correr aos ziguezagues. Ora, se de dia, numa manhã radiosa, com um céu limpo, já é trabalhoso acertar num gajo aos ziguezagues, imagine-se à noite, ao anoitecer, ou no meio do nevoeiro. Dá-nos cabo da vista. Em meia dúzia de operações, começamos a marcar consultas na oftalmologia, e damos connosco a usar óculos para atirar ao perto. Isto, quanto à pontaria.
Já no que refere à contabilidade, pior um pouco. Não é novidade nenhuma: Motivo de orgulho e ufania para qualquer profissional que se preze, o massacre convida-o à manutenção de registos actualizados, rigorosos, às marcas na coronha da arma, no cabo da faca, ou às cruzinhas ou decalcomanias macabras na fuselagem do helicóptero, do caça bombardeiro, do jeep, enfim. E ele não se faz rogado. Vive intensamente esse requinte aritmético. A cada nova marca é o seu curriculo que viceja, a sua carreira que avança. Com que volúpia o faz!...Todo o profissional tem os seus fetiches, pois claro. Mas ei-lo -espreitem agora com atenção, reparem bem nele - desvairado e enrodilhado nas trevas, a disparar quase às cegas sobre vultos fugazes que se esgueiram por entre sombras, ei-lo, coitado, mais os amigos dele, colegas de profissão, a torrar a eito tudo o que mexa -e que teima em mexer-se por mais orifícios e chumbo que carregue-, e, na hora do balanço, vá-se lá saber: quem matou quem? Foste tu, fui eu? Foi o Manel, foi o Francisco? Às tantas, zangas, amuos, discussões, querelas, litígio e, no meio dessa balbúrdia desnecessária, são mais dois ou três eleitos, daqueles que gemiam inacabados, que aproveitam a inusitada pausa nos trabalhos e, em rojos esforçados, pertinazes, lá se arrastam para fora do cenário. É mau para todos. Os que matam já nem reconhecem quem mataram; e os que morrem gastam um ror de tempo desnecessário para morrer e, para cúmulo, vão sujar de rastos e esqueletos as redondezas.
Por isso mesmo, por tudo isso, não há discussão: Saímos de madrugada, e não se fala mais disso.
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dragão
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7/11/2004 10:32:00 da manhã
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sábado, julho 10, 2004
Mais Marteladas...
«Tenho o maior respeito pelo ideal ascético, desde que seja sincero! Desde que seja convicto e não uma farsa! Mas não suporto todos esses percevejos dengosos que têm a insaciável ambição de cheirar o infinito até que o infinito acaba por cheirar a percevejos; não suporto jazigos caiados a imitar a vida; não suporto todos esses fatigados e alquebrados que se vestem de sabedoria e lançam olhares "objectivos"; não suporto esses agitadores mascarados de heróis que trazem nas cabeças de alho chocho o ideal sob a forma de capuz da invisibilidade; não suporto também esses artistas ambiciosos que querem dar-se ares de ascetas e sacerdotes e no fundo são apenas trágicos palhaços; e não suporto também esses mais recentes especuladores do idealismo, os anti-semitas, que reviram os olhos muito dignos de cristãos-arianos e me fazem perder a paciência pelo abuso do que há de mais reles, a atitude moralista, como meio de agitação para sublevar os elementos bovinos do povo.»
- Diz o senhor Nietzsche, e diz muito bem. Subscrevo. Faço minhas as palavras do orador precedente. Lanço daqui um "Viva a Filosofia!" e quero que os fariseus todos deste mundo -que são muitos - vão pró diabo que os carregue!
Onde é que ele tece tão sábios comentários? Ide à "Genealogia da Moral", ide lá ver. Sem algazarras, nem deslumbramentos! E dizei ao porteiro que ides da minha parte. E ficai de pé, verticais, que é assim que os homens devem ser. Para poderem encarar o céu. Para poderem receber, com igual dignidade, a luz ou o raio.
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dragão
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7/10/2004 08:00:00 da tarde
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Não dissolvo...Por enquanto.
Ao contrário do Juíz televisivo, Sampaio decidiu, mas nada ficou decidido.
O seu veredicto foi simples: Não dissolvo...Por enquanto.
A questão, agora, é: quanto vai durar o "por enquanto"?
Entretanto, uns rejubilam imbecilmente, com o foguetório digno do parolo, e outros esperneiam na poeira, dando urros doloridos e arrancando cabelos às mancheias. De parte a parte, os automatismos adquiridos durante as celebrações e lutos do recente Euro futeboleiro ainda não se dissiparam dos espíritos. À boa maneira de certas substâncias psicotrópicas mais potentes, persistem. Sampaio, se se dignasse perder tempo a ler as pérolas que por todo o lado chovem, havia de dar umas boas gargalhadas. Eu, no lugar dele, acho que me rebolava até às lágrimas. É um panorama, deixem que vos diga, a todos os títulos, histriónico, gaiteiro, quiçá rilhafolesco. A fábula de Régio -da criança, do velho e do burro- tomou conta da realidade. A asneira, essa, não é apenas livre: deveio campeonato. Em cada dia que passa, o débito aumenta, a incontinência opinativa ameaça um dilúvio iminente. Dou comigo, mesmo sem recado do Altíssimo, a projectar uma arca que resista à intempérie.
Entretanto, enquanto não dissolve, o PR vai, certamente, recrear-se. Põe de molho. Reconduzida a actual Maioria, esta, encantada com a sua nova coqueluche e exultante com o súbito hara-kiri do ex-líder da Oposição, vai entregar o leme ao novo Messias. Feliz da vida, acha tudo normalíssimo. É preciso é boiar, manter-se à tona. Um unanimismo ribombante impera já nas arcadas. O beija-mão segue os seus trâmites.
A ensombrar o idílio, apenas uma pequena nuvem tolda o horizonte e o futuro radiante destes novos peregrinos: quanto tempo vai demorar o Dr. Lopes a recrutar um Ministro das Finanças digno sucedâneo da Manuela draconiana (salvo seja!)?
Por outro lado, espécie de trovoada longínqua, como vai reagir a nação ao seu novo jóquei? Estabilizará ou instabilizará? Partirá a "ga-Lopes" ou morderá o freio, empinando-se e tentando cuspir o amazão?
De certo, o que se sabe, até agora, é que, na cinantropia, a descida não termina em sabujo. Um degrau mais abaixo já se renconhece, demandado que foi entretanto: o de caniche levado a concurso. Prova disso é um primeiro ministro falhado que aceita ser Presidente pela trela duma Comissão Europeia; e um perpétuo candidato-ao-que-houver que abana a cauda radiante, a babar-se, de língua pendente, com a perspectiva -agora quase certa- de vir ser primeiro ministro pela trela dum PR em claro passatempo.
O resto deixo à vossa imaginação. Se ainda não percebesteis, ide ao Gorge que vos explique. Eu, alma prudente, tenho ali um casco e quilha para construir. Isto da construção naval tem muito que se lhe diga.
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dragão
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7/10/2004 04:55:00 da tarde
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sexta-feira, julho 09, 2004
Parasitas modernos
Antigamente, os parasitas primavam pelo silêncio, tinham todo o interesse em passar despercebidos. Agora não. Mamam e ainda refilam.
Passou-se assim do parasita discreto, low-prophile, para o parasita arrogante, hard, exibicionista. A revolução ocorreu, sobretudo, a nível da mentalidade: o de facto consolidou o de jure. Por sua vez, o direito adquirido estabeleceu parentesco divino. O parasita, herdeiro dum avô (alguns, nem tanto, um pai ou padrinho já lhes incendeiam a mente) que já ali chupava, convenceu-se que, afinal, não só não suga o hospedeiro, como é ele, imagine-se, o proprietário da estalagem. O Criador. O Verbo detrás do Génesis.
Providencial desarrincanço, convenhamos. Degradado a inquilino, a criatura, o hospedeiro, lorpa, além de dar o coiro, ainda tem que pagar renda.
Mas o mais extraordinário é que ele próprio acredita nisso, a pé juntos. Jura que é o seu dever. Que o outro não o sanguessuga, mas apenas o guia, o pilota, lhe ilumina a senda toda adiante. Debaixo do outro, que nele galopa e se vai banqueteando, escuta-lhe as histórias:
-“Se não fosse eu, morrias de fome! Se eu não te estimulasse, que seria de ti?! Se eu não te esporeasse, se não te avivasse com o aguilhão da fome e das necessidades, fenecias na pasmaceira!...”
O parasita antigo, consciente da sua canalhice, mamava e calava-se. Chupava em silêncio. Congeminava até idílios a longo prazo para camuflar a coisa; utopias cor-de-rosa. O moderno não; mama e vocifera ao mesmo tempo. Sorve e cospe. Chupa e dá ordens, caga sentenças, manda bafos. À maneira romana, empaturra-se e vomita logo de seguida, para ir a correr empanzinar-se de novo, ad eternum. A refeição nunca acaba nem está do seu agrado; a carne nunca é suficientemente nutriviva, tenra, satisfatória. Fica sempre aquém do néctar e da ambrósia requeridos, devidos, exigidos. Uma merda!
E o corpo, todo, inteiro, das vísceras ao cérebro, é apenas um mero aperitivo...para a alma.
Publicada por
dragão
à(s)
7/09/2004 05:56:00 da tarde
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