quarta-feira, junho 30, 2004

BOM APETITE!...


Eu já fui um daqueles optimistas que pensavam que pior que o Guterres não era possível. Pois não só era como foi. E logo ao virar da esquina..
Agora não me apanham noutra. Sei que a seguir ao Durão, poderá perfeitamente irromper um desqualificado ainda pior, um troca-tintas ainda mais descarado.
Por isso, e é mais que suficiente, não me surpreenderá nada que o Santana seja o próximo PM.
Mas quero deixar bem claro o seguinte: Quando tipos do jaez dum Durão Barroso conseguem ascender ao segundo mais alto cargo da nação, estamos conversados: Qualquer um pode (desde que não possua princípios, escrúpulos, ideias, ou vértebras, bem entendido). Se se tratasse de escolher um cidadão competente, um tipo sério, honrado, bem mais interessado em servir o país do que servir-se dele, isso, acredito, seria difícil. Requereria, no mínimo, mérito, inteligência, responsabilidade, cultura. E, sobretudo, empatia entre governantes e governados. Mas como é o contrário disso, como a lógica vai de patas pró ar, nada mais simples: peguem no Santana, na Ferreira Leite, no Portas, no Pacheco, peguem na pandilha partidária toda, esquerdas e direitas (a merda só varia na cor e teor gasoso), peguem até nos Delgados, Vascos - rotos e ratos-, ou qualquer outra prostituta de jornal, enfiem essa tralha invertebrada e viscosa toda num balde, um grande balde, um penico bem espaçoso (não se esqueçam que a porcaria é muita), agitem com energia, misturem bem a mixórdia, e tirem à sorte. Convoquem uma peixeira ou um trolha para extrair o feliz contemplado, sempre dá colorido à coisa, confere - senão solenidade - pelo menos pitoresco ao acto, e pronto, aí tendes. Seja quem for, é irrelevante e ficareis bem servidos. Cagar-se-á para vós, tanto quanto vós vos estareis cagando para ele. Incomoda-vos o vocabulário? Mas a substância não. Devia ser o contrário.
Em Portugal chegou-se a um estado de putrefacção tal, que o burburinho dos vermes já se confunde com a agitação das massas. Ora, as massas, poderão ser alarves, mas não são parvas. Já perceberam que tem mais conteúdo o futebol que a política. E tem. Tanto que é esta que imita aquele, e não o inverso.
De não ser governado, o país viciou-se no desgoverno. Vai à deriva. Entregue ao salve-se quem puder. A clamar por rebocadores, por balsas e bálsamos salva-vidas. A enviar SOS desesperados e apitos lancinantes ao nevoeiro. A invocar Nossa Senhora dos Aflitos e a Providência Divina. E, o que é pior que o resto, a tomar por faróis meros fogaréus de afundadores.
Cada qual agarra-se ao destroço que a vaga destribui e, uma vez montado nele, trata de demover a concorrência. Cada qual chafurda nas ondas o mais que pode, escoicinha, esbraceja, e convence-se que nada, que lá vai resistindo, o melhor que pode, opondo o proverbial instinto de cortiça ao chamamento abissal do fundo.
Governantes e governados execram-se mutuamente. Odeiam-se, sem trégua nem quartel. Não havendo resquício de empatia que os una, tiram desforço empaturrando-se numa antipatia recíproca e inoxidável. As eleições equivalem a ajustes de contas; as urnas a esquifes de facto. O povo sempre estimou, mais que arenas, cadafalsos. Assim, anda quatro anos a reunir provas, a recolher denúncias, a compilar testemunhos, para no fim ter o prazer de vê-los rastejar, aos bandalhos arguidos, uns em penitência, outros em sanha justiceira ou delíquio dengoso, mas todos de roda do patíbulo, vassalos da sua saliva, do seu voto, do seu escárnio e veredicto triunfante. Os eleitos, por seu turno, traumatizados por este martírio cíclico, garantido, nos intervalos dos sufrágios, nos interlúdios dos calvários, vingam-se e fazem pagar com juros a prerrogativa dos carrascos. E, com isso, lá vão juntando lenha para o seu próprio auto. Mais que um projecto comum, é, pois, um jogo, uma joint-desventure. Tudo está bem quando acaba mal. E para que o gáudio se maximize convém que o mal seja cada vez maior. Que exorbite e transvase sem parar. O prazer, a volúpia capital, não está em eleger, mas em deitar abaixo, em arrear, em arrastar pela lama e pelos cabelos, até à guilhotina apoteótica. Desta lógica retorcida, resulta um paradoxo mirabolante: um governo é tão mais divertido, entertainer, quanto pior for. Um governo péssimo, como o actual, na hora do acerto, é garante dum gozo superlativo. Não é por acaso que a multidão escolhe governos cada vez piores. Já Esopo referia o requinte.
Portanto, meus amigos, se não houver eleições, vai ser o Santana. E se houver, vai ser outro qualquer, no mínimo, tão recreativo quanto ele. Isto, pelo menos, eu sei.
Fartai-vos nele e fartai-vos dele. É o costume. Bom apetite! E bom proveito!...

terça-feira, junho 29, 2004

PERGUNTAR NÃO OFENDE


É uma dúvida que me atormenta, que me anda a roer a mioleira. Aqui vai:
Se o nosso Primeiro Ministro já conseguia acumular várias pastas - Justiça, Defesa, Negócios Estrangeiros, etc -, será que não podia acumular também o ser Primeiro Ministro de Portugal com a Presidência da Comissão Europeia?
Afinal, parece que nenhum dos cargos interessa já para grande coisa, pouco mais são que decorativos... O país, o nosso, há muito que está em auto-governo, cada qual governa-se conforme pode; na Europa, que é deles, manda quem paga, obedece quem deve.
Quanto à presença física, a presidência do Conselho de Ministros e outras comparências operativas protocolares, parece-me que a solução era simples:
Agora que já há manifestações SMS, não poderíamos também ter um Primeiro Ministro SMS? Não há telemóveis, em Bruxelas?...

Pobre país, desgraçado país, o vosso!...

Há que exigir compensações!


Primeiro, foram aqueles safardanas dos canadianos que nos confiscaram o bacalhau. A seguir, foram os espanhóis a pilharem-nos a sardinha. Agora, para cúmulo, é a Europa inteira, mancomunada, que se propõe levar-nos o cherne.
Tudo bem. Fiquem com o cherne. Mas, ao menos, devolvam-nos as quotas da sardinha e do bacalhau.

Pacheco no País das Maravilhas


Pobre país...
O dele. E dos amigos dele.
Mas a pergunta que todos fazem (eu, pelo menos, faço) é: "que país será esse?"

segunda-feira, junho 28, 2004

JORGE SAMPAIO TELEFONOU-ME


É verdade. Telefonou. A sondar-me: se eu estava disponível para formar governo. Uma emergência, explicou, nitidamente aflito. A pátria está em perigo; a democracia periclita.
Costumam consultar-me, mas, assim, um convite, de chofre, foi a primeira vez. Assaltaram-me sentimentos contraditórios: por um lado, honra; por outro, horror. Isto é, a título individual, orgulho; a título social, náusea e vertigem. Hesitante entre a eructação e o vómito, ainda consegui articular:
-"Mas Excelência, porquê eu? Nem sequer pertenço a nenhum partido! Pior: tenho-lhes fobia!..."
Do outro lado da linha, em contrapartida, não houve hesitações:
-"Por isso mesmo, pá! Por isso mesmo! Eu agora preciso é dum independente!..."
Ao orgulho e à náusea, adicionei a estupefacção. Mas ele, o execelentíssimo, acabou com ela em três tempos.
-"Pois, pá! Da outra vez, o Eanes resolveu o sarilho com uma Pintassilgo. Mas agora, da maneira que isto está, só já lá vai mesmo é com um dragão. Não há passarinha que resista. Tem que ser um dragão, pá! Um dragão a sério, providencial, em suma: Você! Não vejo outro, pá."
O meu pior defeito é a honestidade. Sempre foi. Tolheu-me todas as vezes em toda a parte. Mas agora é tarde para mudar, para rebobinar a cassete. Não aceitei, claro. Desculpei-me, já não me lembra com quê. Uma ninharia qualquer. Ele compreendeu. As ninharias sensibilizam-no muito.
Mas vi que ficou com pena. Era um belo plano. Talvez por isso, com um certo peso na consciência, ainda lhe sugeri, à laia de compensação:
-"Mas, Excelência, não desista. Se o problema é o Santana Quéques a galope na oportunidade, o antídoto é simples: convide o Pinto da Costa!..."

domingo, junho 27, 2004

A DISEUR


Definitivamente, é um mistério. Ao princípio achei que era apenas mais uma bizarria - há pr'aí tantas. Mas depois fui-me apercebendo do método, do recurso sistemático. Agora, ainda antes dela abrir a boca, eu, perplexo já adivinho o estilo, a cadência, o poema. Vocês, leitores, que sois gente inteligente, peritos nestas coisas, talvez me possais explicar. Agradecia-vos muito. O enigma é o seguinte: Porque é que sempre que os jornalistas -sejam eles quais forem e a que hora for - lhe fazem perguntas, a Celeste, das ventas em epígrafe, desata a declamar poesia?
E o pior não é isso. O pior é que eu, que, apesar de várias lobotomias, não sou inculto de todo, por mais que tente, não consigo identificar os autores.
Mas que a senhora tem jeito, ah, disso não restam dúvidas. Vê-se que é da escola do Vilaret, uma diseur e peras!...
Deve ser por isso que, ultimamente, a Justiça deste país parece estar em vias de trocar o Direito pela "encenação". Não tarda muito, até por imperativos de mercado e rentabilização maximizada do espectáculo, em vez de levarem à barra, levam logo é ao palco. Ao menos, sempre podem cobrar bilhetes. O La Feria que se cuide.

Confissões...


Eu, desenganai-vos, não sou um modelo de virtudes. E o meu patriotismo não é imaculado. Já nem falo do facto de não ter bandeira pendurada à janela, ou, tão pouco, andar com ela desfraldada na viatura, em amor à pátria itinerante. Não, é mais grave. Eu conto. (Os mais sensíveis de vós é melhor mudarem de site, os outros, os temerários, fiquem, mas à vossa inteira responsabilidade).
Então, é assim: se eu fosse a passar e visse o Quim Barreiros pendurado pelo pescoço, a baloiçar duma árvore, dizia: "Olha o Quim Barreiros a baloiçar numa árvore!". Mas já se fosse o Toy a ser espancado por um gang de símpaticos luso-africanos eu bradava "Força, rapazes! Ah, valentes!". E então se em lugar do Toy estivesse o Emanuel, aí, eu não me continha e juntava-me ao gang. Garanto-vos que dificilmente o calhau cantante escaparia de lá vivo.
Acho que já perceberam. Pois é: não gosto de música Pimba.
Mas tem pior: também não gosto de fado. Ao ouvir aquilo, aquela melopeia rançosa, aquele basqueiro lamurioso, não me dá para ficar emocionado, vejam lá bem: apetece-me é atirar cadeiras, romper em zaragatas. Só aquele anúncio prévio "Sílêncio que se vai cantar o fado", só isso, chega para me fazer perder logo a tramontana. Que pesporrência do caraças! Então fazemos silêncio para irem dar cado dele com um chavascal daqueles?! Tenham dó. Aliás, tenham dó-ré-mi-fá-sol-lá-si, a escala toda, bem medida, já que não têm os alqueires, e vão-se atirar ao Tejo para lavar as máguas.
Portanto, aqui têm: musicalmente não sou um perfeito patriota. Até gosto dos Beatles. Até tenho para ali, na cave, uma guitarra eléctrica, e sei tocá-la, há mais de vinte anos! Ainda me lembro, era eu chavalo, em cima dum palco, ali prós lados de Pedrouços, nos santos populares, a atirar com Led Zepelin ao pagode, eh-eh!... Com o Lou Reed de "Vicious" e os Stones de "Simpathy for the Devil". Naquele tempo era preciso coragem. Agora ainda seria preciso mais. Os filhos dos bimbos estão piores que os pais.
Eu sou de Lisboa, meus amigos, e quero que o mau gosto se foda!...Se eu gostasse de fado, era do Benfica.
Quanto à nação... toca aí, Paredes! Toca aí homem do diabo, comunista dum raio! Sangra aí essa puta dessa guitarra! Se é Portugal que eles querem, dá-lhes com Portugal nas trombas, dá-nos com Portugal na cara, nos olhos, na alma. A cara petrifica, os olhos pingam e a alma, por instantes, é uma caravela que regressa.

sábado, junho 26, 2004

Geopolítica Psicadélica


Está ali um tipo na televisão -legendado como Ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha (e deve ser, porque está lá a nossa Ministra -salvo seja- sentada ao lado) -, a dizer, alto e bom som, que eu sou irmão e amigo dele (os "nossos amigos e irmãos portugueses", sic). Mais especifica que, por tão elevado grau de consanguinidade e afeição, apoia, de alma e coração, a entronização dum "grande primeiro ministro português" (O marquês de Pombal ressuscitou?) lá, pró Norte, não sei em que cargo importante.
Agora começo a ficar preocupado. Confesso: agora estou mesmo é à rasca e a suar frio.
Será que estou a acordar dum coma profundo? Quanto tempo se passou? Ainda estamos no Planeta Terra?...Aquilo que eu tomei para a dor de dentes, era aspirina ou LSD?...Ou terão sido os cogumelos da pizza?...

Hum...Será mesmo?...


Por mim, continuo a achar mirabolante esta apregoada ascensão Barrosiana ao Olimpo Europeu. Por princípio, não embarco em peregrinações, por muito justas que, repentinamente, se apresentem. Portanto, estou sentado. À espera. Ver para crer. O homem que se pronuncie. (Ocasionalmente, dá-me para a moderação...)
Quando vejo pr'ai tudo aos tiros, apetece-me logo ficar sossegadinho. A matutar...

sexta-feira, junho 25, 2004

Naufrágio ou Transbordo?



Antigamente, os comandantes eram os últimos a abandonar o navio e os ratos os primeiros. Agora os comandantes são os primeiros.
A culpa é vossa. Quem vos manda eleger ratos para comandantes?!...
Mas, apesar de tudo, tem uma vantagem: nestas alturas é que nós vemos até que ponto esta é uma democracia representativa.

Políticos off-shore...


A estimada MP, no seu Eclético, fala com toda a propriedade de mais essa pouca vergonha que se anuncia por aí. A do Primeiro-Ministro fugitivo, pois. E já é o segundo, em menos de nada.
Eu não podia estar mais de acordo consigo, cara MP. Só há uma minudência em que, não leve a mal, mas permito-me discordar:
Julgo que já não é "cá se fazem, cá se pagam"; parece que agora é "cá se fazem, lá lhes pagam".
Ou seja, fazem cá dentro; vão receber lá fora. Políticos off-shore?...

O Cultivo da Bondade



Um site interessante sobre a História da América:
http://www.digitalhistory.uh.edu/database/article_display.cfm?HHID=563

Philip Sheridan, general da Guerra Civil (como Custer) e destacado director das Campanhas Índias, foi aquele simpático personagem que disse, a determinada altura:
"Um Índio bom é um índio morto."

Foi coerente com a sua tese.
Mas, este insuspeito apóstolo duma colonização radical, como foi a Norte-Americana, teve, contudo, o desassombro de reconhecer, (em relação aos mesmos índios que tanto ajudou a benignizar):

«We took away their country and their means of support, broke up their mode of living, their habits of life, introduced disease and decay among them, and it was for this and against this that they made war. Could anyone expect less

Acho que é o porta-voz indicado e eloquente bastante para responder a algumas das questões e dúvidas que os sempre bem-vindos e gentis comentadores deste blogue se dignaram colocar-me.

A DANÇA DO SOL



Hoje, eu, Dragão Louco, executo a "Dança do Sol" e comemoro em memória desses bravos que, há 128 anos, em Litle Big Horn, lutaram pela sua liberdade.
Foi o canto de cisne duma América Livre, prestes a ficar submersa sob um manto de Trevas.
Mas hoje eu saúdo o sol, saúdo a vida, saúdo os meus irmãos Sioux e saúdo todos os espíritos livres e homens de boa vontade, estejam eles onde estiverem, neste mundo de espectros e aparências, como eu, ou lá, nas Grandes Pradarias do Grande Espírito, onde cavalgam e riem, para sempre, livres.
E agora, com licença, mas vou ali abraçar as árvores, beijar a terra e contemplar Deus em tudo o que me transcende, a mim, homenzinho ridículo, e do qual, apesar de tudo, faço parte.
Hoje quero amar o cosmos. E não apenas violá-lo, pilhá-lo, destrui-lo.
Hoje sou índio, pele-vermelha. E estou em paz com a vida. E estou em paz comigo e com os meus antepassados.
É por isso que os cow-boys me odeiam e me fazem guerra. O cão sempre há-de detestar o lobo. A criação do Homem sempre moverá batalha à criação de Deus.

quinta-feira, junho 24, 2004

Já não há Big-Bang



«Astronómos recriam «o choro do nascimento do universo»

Astrónomos norte-americanos recriaram os sons do início do Universo, demonstrando que este não nasceu em resultado de uma explosão, mas na sequência de um tranquilo sussurro, que se transformou num longo rugido.»


Hollywood está em pânico. Já tinham argumento, produtores, película, o filme ia avançar, e afinal não há explosão. Em vez do Big-bang, parece que houve um Litle-ssshhh. Com a explosão era fácil: enxertava-se a perseguição automóvel, os tiros de rajada, colisões em série à mistura com catástrofes naturais, uma conspiração externa, buracos negros demoníacos, anti-matéria terrorista, era um sucesso de bilheteira garantido. Do Big-Bang ao Bang-bang era um instante. A América estava em perigo logo à partida, no seu momento originário, prototípico. No fim Schwarzeneger vencia, tocava o hino. Assim, quem é que está interessado em vagidos? Está bem que depois sempre vem o rugido, e um rugido já é qualquer coisa, sugere algum tipo de bestialidade assustadora, podem introduzir-se uns monstros alienígenas, efeitos especiais, demónios ou fantasmagorias do Outro-Mundo, mas a grande explosão, o grande efeito inicial, a América Primordial já se perdeu. As perseguições entre cometas e fragmentos astrais a alta velocidade, as emboscadas da anti-matéria nos grand-canyons cósmicos, os raides de gases tóxicos, os cercos ululantes às caravanas de aminoácidos já não se conseguem. Perde-se a verosimilhança, o suspense, a surpresa. É fraca compensação. O mercado americano não vai nisso: adora, acima de tudo, ver explodir coisas. Contemplar cacos a voarem em todas as direcções.
Todavia, Mark Whittle, o astrónomo peregrino, deixa uma réstea de esperança. Diz ele:
«Ao ouvir estes sons, posso dizer que o Universo é como um instrumento musical de má qualidade».
Portanto, ou eu me engano muito, ou vem aí mais um music-hall!...

quarta-feira, junho 23, 2004

DA NECROFAGIA



E agora mais uma pitada de Cioran, que se os apóstolos são o sal do mundo, os filósofos são a pimenta.

«Quem aspira à liberdade completa só a alcança para regressar ao seu ponto de partida, à sua sujeição inicial. De onde a vulnerabilidade das sociedades evoluídas, massas amorfas, sem ídolos nem ideias, perigosamente desprovidas de fanatismo, privadas de ligações orgânicas, e tão desamparadas no meio dos seus caprichos ou das suas convulsões, que apostam -e trata-se do único sonho de que são ainda capazes - na segurança e nos dogmas do jugo. Inaptas para assumirem por mais tempo a responsabilidade dos seus destinos, conspiram, mais ainda do que as sociedades grosseiras, pelo advento do despotismo, a fim de que este as liberte dos últimos restos de um apetite de poder sobrecarregado, vazio e inutilmente obsidiante.
Um mundo sem tiranos seria tão fastidioso como um jardim zoológico sem hienas. O senhor que esperamos no nosso terror será justamente um apreciador de podridão, na presença do qual todos faremos figura de carcassas mortas. Que venha ele e nos cheire, que venha e se espoje nas nossas exalações! Já um odor novo paira sobre o universo.»
-E.M. Cioran, "Na Escola dos Tiranos"

Este Emile é tão provocador quão sibilino. Atira-nos com estas diatribes às trombas, e nós que nos aguentemos. Os nossos liberais, não extenuassem a mente com o preço das batatas, haviam de pensar...Haviam de pensar nestes enigmas, quero eu dizer. É que depois dos seus caprichos e folias, quando a lua surge no céu e vem envolver a savana numa claridade fantasmagórica, aparecem sempre as hienas. Algo as atrai, é fatal. Cioran diz que são as exalações... Há realmente um aroma nauseabundo na atmosfera. Paira, insinua-se, infiltra-se pelos mosquiteiros. Espero que sejam apenas as batatas. O pior é se é também a lógica delas.

O FIM DA MACACADA


«EUA: 48 prémios Nobel apoiam candidatura de John Kerry»

É um acto desesperado. E vão, no meu modesto entender. É melhor que assumam duma vez por todas que o teoria de Darwin estava errada. O homem não evoluiu do macaco. Pelo contrário, em cada dia que passa, torna-se assustadoramente evidente que regride para chimpanzé. Afinal, macaco não foi o ponto de partida. Mas, tudo o indica, vai ser o ponto de chegada.
Afinal, o "Genesis" faz mais sentido. Muito mais.



Deixem lá estar o George W. Está claramente uns duzentos anos à frente da maior parte de nós.

HOJE OLIVENÇA, AMANHÃ O MUNDO!...


Eu, Dragão, sou partidário de atacarmos Espanha. A pretexto de Olivença, a pretexto de Ceuta, a pretexto da Galiza, tanto faz. Qualquer pretexto é um bom pretexto. O essencial é que os ataquemos. O essencial é que nós, portugueses, larguemos o sofá e o telemóvel, peguemos em armas, qualquer uma serve, e marchemos a bater-nos, a bater-lhes, a desentorpecer os músculos e a desopilar os maus fígados. Chega de cóleras intestinas, de odiozinhos para consumo interno, de invejazinhas fratricidas. Está na altura de exportarmos o que de pior temos. Até aqui mandámos o melhor para fora, para os outros, e ficámos com a surrapa, a côdea, o que não presta. Chega! Também somos gente! Porque é que os culpados temos que ser forçosamente nós -ou porque fomos salazaristas, ou porque fomos comunistas, ou porque fomos simplesmente distraídos, azarados ou preguiçosos, hein?! Que sejam eles os culpados - os espanhóis, os castelhanos, melhor dizendo. Eles que paguem a nossa crise! Se estão montados na massa, não deve ter sido com trabalho honesto. Ninguém monta na massa dessa maneira. Mas se montaram, melhor para nós: eles que desmontem agora para nós montarmos! Onde é que está a dúvida? Porque é que havemos de teimar nesta auto-destruição obsessiva e fanatizada, como se outra ocupação não nos mobilizasse senão dar com a própria casa em pantanas? Ainda pra mais, a nossa já está toda escaqueirada - são séculos de negligência e vandalismo doméstico; enquanto a deles, de restaurada, até apetece. Está mesmo a pedi-las. Estamos à espera de quê? Vamos ficar aqui o resto da vida a chafurdar no entulho, a demolir ruínas? Se estão aqui mesmo à mão de semear, também devem estar à mão de colher. Ou de partir, de escavacar. Quanto mais não seja, pelo gozo. Portanto, passemos à colheita, à razia. Enquanto eles, chicos espertos, se entretêm a comprar-nos o país, nós, inteligentes, cínicos maquiavélicos, americanos perfeitos, roubamos-lhes o deles.
Isso não se faz? É ilegal?
Irra!,mas em que cabrão de mundo é que vocês vivem? Como é que julgam que se constroem as superpotências, hem? Querem ser uma superpotência, ou não? Ou preferem ficar pr'aí, eternamente, a cantar o fado, nessa super-impotência?
Tomem Viagra, comam amendoins, deitem pólvora na vinhaça, bebam chá de Cabinda, mas levantem-se, pôrra - vamos a eles!!...
E se a ONU vier com perguntas parvas, respondemos-lhe que andamos à procura do Bin Laden. É infalível. Aquilo está cheio de árabes. Ou então que vamos libertar a Andaluzia, a Catalunha, a Galiza, as Baleares, o País Basco!...
Carago, não basta gostar dos americanos. Há que imitá-los!...
Carago não, Eureka!...

terça-feira, junho 22, 2004

Os Verdadeiros Americanos



Compete-me deixar aqui lavrada uma correcção a uma imprecisão minha. Na verdade, há uns Americanos que eu admiro. Os verdadeiros!
E esses até possuíam uma cultura das mais avançadas que a nossa espécie alguma vez conheceu. Não tinham cinemas, nem bibliotecas, nem orquestras sinfónicas, mas tinham amor à vida, à terra e, sobretudo, à sua verticalidade.
Até que um dia tiveram o desprazer de conhecer a pior escumalha ao cimo da terra.

No próximo dia 25 deste mês, este blogue vai comemorar os 128 anos sobre a batalha de Litle Big Horn, quando os Sioux, Cheyenne e Arapahoo, exterminaram o 7º da cavalaria, do grande herói Custer, especialista em genocídios sobre aldeias indefesas. Naquela tarde enganou-se. Estavam lá os homens, os bravos. Não eram só mulheres, velhos e crianças.
Porque a História não acabou. E porque a História deve ser também memória.

ASTRO-BASBAQUE


«Primeira viagem de uma nave espacial privada»

Já estou até a imaginar o sucesso turístico: como se já não bastasse embasbacarem-se cá em baixo, os basbaques militantes (chamados turistas), mais os respectivos equipamentos de excursão e pesquisa, vão, brevemente, embasbacar-se lá pra cima. Os calhaus celestes que se cuidem! Aí vão uns mais inertes que eles!...
Depois da experiência já gasta de mijarem no mar, irão, concerteza, tentar a volúpia de mijarem no espaço.
Razão tinha mestre Almada quando profetizou:
«Tu qu'inventaste a chatice e o balão
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
p'ra te chateares também debaixo d'água...»
E que agora até engendras supositórios d'aço
p'ra te ires chatear nos confins do Espaço...
(aqui acrescentei eu)
Pois, «Tu que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres...
Tu consegues ser cada vez mais besta
e a este progresso chamas Civilização!»
-Almada Negreiros (e Dragão) - "A Cena do Ódio"