sábado, abril 24, 2004

O 24 DE ABRIL

Ocorre-me a imagem dum velho senil, esclerosado e doente; minado pelo reumático e pelos parasitas; ratado por jejuns e novenas; delirante, semi-cego e louco... Está prestes a desfalecer, a perder de vez o tino e a voz. Velado por lacaios e sabujos, beatas e oportunistas, baba-se e lacrimeja, fincando, com as mãos trémulas, o bastão patriárquico. O padre também lá está. Agarrado ao terço. E salmodia. Tudo aquilo, visto ao longe, dá pena.
Estatelar-se-á no dia seguinte, o velho, desamparado. Da cadeira abaixo. Numa vertigem súbita, destrambelhada.
Ninguém moverá uma palha para o ajudar. Desaparecem todos, em silêncio: os lacaios, os sabujos, as beatas e o padre junto com eles. O velho está prostrado, de rojo, num estertor final. Golfando numa poça de sangue e vómito. Urina-se. Ninguém move uma palha. Vigiam a cadeira. Aguardam, na penumbra. Sobretudo os parasitas. Que cheguem os herdeiros, os filhos desavindos, banidos. Para tomarem partido, para escolherem hospedaria.
Hoje, passados trinta anos, os filhos, já deram netos. Os lacaios, os sabujos, as beatas também. Ainda mais lacaios, sabujos e beatos que os pais. E os parasitas a mesma coisa.
Ontem como hoje, invade-me uma inexplicável tristeza diante da imensa e atávica cobardia deste tipo de gente. Esses todos, muitos, que agora bramam, com fanfarra, porque o leão está longe, e sempre calam, se escondem e borram quando o perigo ronda perto.
Às vezes, é difícil a um homem vislumbar um caminho -uma nesga de luz, de esperança, sequer -, por entre o tumulto e a algazarra; por entre o horror e o espanto; pra lá das hordas que se arrepelam, acólitas dos vórtices alucinantes, entre Cila e Caríbdis - o altar e a gamela.

Sem comentários: